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Revisitando a primeira lei da termodinâmica

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Academic year: 2021

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(1)

Instituto de Qu´ımica

Matheus Cordioli Agostin

Revisitando a Primeira Lei da Termodinˆ

amica

Campinas

2020

(2)

Revisitando a Primeira Lei da Termodinˆ

amica

Disserta¸c˜ao de mestrado apresentada ao Instituto de Qu´ımica da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requi-sitos exigidos para a obten¸c˜ao do titulo de Mestre em Qu´ımica na ´area de F´ısico-Qu´ımica.

Orientador: Prof. Dr. Adalberto Bono Maurizio Sacchi Bassi

O arquivo digital corresponde `a vers˜ao final da Disserta¸c˜ao defendida pelo aluno Matheus Cordioli Agostin e orientada pelo Prof. Dr. Adalberto Bono Maurizio Sacchi Bassi.

Campinas

2020

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Biblioteca do Instituto de Química Simone Luiz Alves - CRB 8/9094

Agostin, Matheus Cordioli,

1992-Ag75r AgoRevisitando a primeira lei da termodinâmica / Matheus Cordioli Agostin. – Campinas, SP : [s.n.], 2020.

AgoOrientador: Adalberto Bono Maurizio Sacchi Bassi.

AgoDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Química.

Ago1. Termodinâmica. 2. Mecânica dos meios contínuos. 3. Primeira lei da termodinâmica. I. Bassi, Adalberto Bono Maurizio Sacchi, 1945-. II.

Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Química. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Revisiting the first law of thermodynamics Palavras-chave em inglês:

Thermodynamics Continuum mechanics First law of thermodynamics

Área de concentração: Físico-Química

Titulação: Mestre em Química na área de Físico-Química Banca examinadora:

Adalberto Bono Maurizio Sacchi Bassi [Orientador] Leandro Martínez

Marco Lúcio Bittencourt

Data de defesa: 06-05-2020

Programa de Pós-Graduação: Química

Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a)

- ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0002-5606-8157 - Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/0462367289672387

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Prof. Dr. Adalberto Bono Maurizio Sacchi Bassi (Orientador)

Prof. Dr. Leandro Mart´ınez (IQ-UNICAMP)

Prof. Marco L´ucio Bittencourt (FEM-UNICAMP)

A Ata da defesa assinada pelos membros da Comiss˜ao Examinadora, consta no SIGA/Sistema de Fluxo de Disserta¸c˜ao/Tese e na Secretaria do Programa da Unidade.

Este exemplar corresponde `a reda¸c˜ao final da Disserta¸c˜ao de Mestrado defendida pelo aluno MATHEUS CORDIOLI AGOSTIN, aprovada pela Comiss˜ao Julgadora em 06 de maio de 2020.

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inofensivo, passa pelas avenidas da Ciˆencia e do Saber; e quem quer que possa remover quaisquer obst´aculos desta via ou abrir uma nova perspectiva, deve ser considerado um benfeitor da humanidade.

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Agrade¸co a meu orientador, Prof. Dr. Adalberto Bono Maurizio Sacchi Bassi, por introduzir-me `a ´area da Mecˆanica e Termodinˆamica dos Meios Cont´ınuos, pelas reuni˜oes semanais, especialmente no come¸co do projeto e pela paciˆencia e persistˆencia durante o desenvolvimento e corre¸c˜ao do presente texto.

Agrade¸co a todos os meus professores, desde o col´egio at´e `a p´os-gradua¸c˜ao, que me inspiraram a trilhar o caminho que me trouxe at´e aqui.

Agrade¸co `a minha fam´ılia, meus pais Jos´e Carlos, Claudia e minha irm˜a Isis, bem como a tantos outros familiares pelo apoio, suporte e motiva¸c˜ao, cruciais em todo o processo de p´os-gradua¸c˜ao, desde o ingresso at´e sua conclus˜ao.

Agrade¸co a todos os amigos que me deram tanto suporte durante todo o per´ıodo deste mestrado e a tantos outros projetos. Agrade¸co, especialmente, ao Felipe, `a Fl´avia e Aline - amigos de Campinas; ao Jo˜ao, Gustavo, Iago e Cristiano - amigos de Lorena; Ao Carlos Eduardo (in memoriam), amigo de USP e da vida, que, lamentavelmente, n˜ao pˆode assistir `a conclus˜ao dessa fase.

Agrade¸co `a CAPES pelo apoio ao Programa de P´os-Gradua¸c˜ao em Qu´ımica do Instituto de Qu´ımica da UNICAMP. O presente trabalho foi realizado com aux´ılio de bolsa de estudos concedida pela Coordena¸c˜ao de Aperfei¸coamento de Pessoal de N´ıvel Superior - Brasil (CAPES) - C´odigo de Financiamento 001 - Processo PROEX/0076040.

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No presente texto, abordamos a Primeira Lei da Termodinˆamica dentro do con-texto da Mecˆanica dos Meios Cont´ınuos (MMC). Especialmente, buscamos fazer uma diferencia¸c˜ao te´orica entre a Primeira Lei e a Lei da Conserva¸c˜ao da Energia, uma vez que, muitas vezes, os dois princ´ıpios s˜ao tratados como equivalentes.

Os Apˆendices A e B trazem no¸c˜oes de ´Algebra e C´alculo Vetorial e Tensorial, isto ´e, o suporte matem´atico necess´ario para a Mecˆanica dos Meios Cont´ınuos.

No segundo cap´ıtulo, apresentamos conceitos de Geometria e Cinem´atica na MMC, tais como o gradiente de deforma¸c˜ao, derivadas materiais e espaciais, campos de velocidade e o gradiente de velocidade. Mostramos que um campo de velocidades qualquer pode ser decomposto em uma parcela r´ıgida e outra deformativa.

No terceiro cap´ıtulo, apresentamos o teorema de Cauchy, que resulta no tensor de tens˜oes de Cauchy. Neste mesmo cap´ıtulo, s˜ao apresentados os conceitos f´ısicos de massa, momento linear, momento angular, for¸ca e torque dentro do contexto da MMC.

No quarto cap´ıtulo, desenvolvemos o teorema do transporte de Reynolds, utili-zado para transformar equa¸c˜oes globais em equa¸c˜oes locais no cap´ıtulo seguinte, que trata das equa¸c˜oes de balan¸co.

No quinto cap´ıtulo, conforme mencionado, ´e desenvolvida uma teoria geral para equa¸c˜oes de balan¸co e, em seguida, equa¸c˜oes de balan¸co geral e local s˜ao definidas para massa, momento linear e momento angular. Tamb´em neste cap´ıtulo s˜ao introduzidos os conceitos de energia cin´etica e n˜ao-cin´etica, sendo essas duas complementares na defini¸c˜ao da energia total. S˜ao dados os conceitos de calor e trabalho, bem como suas respectivas

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equa¸c˜oes de balan¸co para energia total, bem como para energia cin´etica e energia-n˜ao cin´etica. Os balan¸cos de energia cin´etica e n˜ao-cin´etica introduzem um termo matem´atico que os conecta, a potˆencia de interconvers˜ao. Mostramos que a potˆencia de interconvers˜ao ´e a ´unica forma de um corpo em isolamento converter potˆencia cin´etica em n˜ao-cin´etica e vice-versa.

Por fim, mostramos que a convers˜ao de potˆencia cin´etica em n˜ao-cin´etica no isolamento s´o ´e poss´ıvel para campos de velocidade deformativos, sendo tal convers˜ao imposs´ıvel em campos de velocidade r´ıgidos.

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In this present work, we approach the First Law of Thermodynamics within the Continuum Mechanics point of view. Specifically, we aim to distinguish the First Law of Thermodynamics and the Law of Conservation of Energy theoretically since both laws are commonly treated as equivalent.

Both appendices A and B cover the foundations of Linear and Tensorial Algebra and Calculus, that is, the mathematical tools required for Continuum Mechanics.

In the second chapter, we introduce Geometry and Kinematics concepts from Continuum Mechanics, such as the deformation gradient, material and spatial deriva-tives, velocity fields and the velocity gradient. We show that any velocity field can be decomposed in two parts, one related to rigid motions and the other related to deformative motions.

In the third chapter, we introduce the Cauchy theorem, from which the Cauchy stress tensor comes up. In this same chapter, the physical concepts of mass, linear momen-tum, angular momenmomen-tum, force and torque are introduced within the scope of Continuum Mechanics.

In the fourth chapter, we develop the Reynolds transport theorem, which is used upon converting global equations into local equations in the next chapter, which deals with balance equations.

In the fifth chapter, as already mentioned, we develop a general theory for ba-lance equations and, after that, baba-lance equations are derived for mass, linear momentum and angular momentum. Also in this chapter, the concepts of kinetic energy and

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non-Both heat and work are defined, as well as their time derivatives, respectively, thermal power and non-thermal power. Next, we obtain balance equations for total energy, just as for kinetic energy and non-kinetic energy. From these two last balance equations the inter-conversion power arises, connecting both. We show that the interinter-conversion power is the only possible way so that a body in isolation can convert kinetic energy into non-kinetic energy and vice-versa.

At last, we show that the conversion of kinetic power into non-kinetic power when the body is under isolation is only possible for deformative motions and impossible for rigid motions.

(11)

B Corpo B

B Corpo B na configura¸c˜ao de referˆencia Bt Corpo B na configura¸c˜ao espacial

P Parte de B Pt Parte de Bt X1, X2, X3... Pontos de B. X1, X2, X3... Pontos materiais em B x1, x2, x3... Pontos espaciais em Bt t Tempo χ Fun¸c˜ao deforma¸c˜ao

χ−1 Fun¸c˜ao deforma¸c˜ao inversa F Gradiente de deforma¸c˜ao L Gradiente de velocidade

J Determinante do gradiente de deforma¸c˜ao (·)R Grandeza na configura¸c˜ao de referˆencia

ϕ Grandeza escalar, vetorial ou tensorial integr´avel ˙ ϕ Derivada material de ϕ ϕ0 Derivada espacial de ϕ M Massa ρ Densidade p Momento linear

hxo Momento angular em rela¸c˜ao ao ponto xo

(12)

b For¸ca de corpo

T Tensor de tens˜oes de Cauchy Φ Integral da grandeza ϕ ψϕ Fluxo da grandeza ϕ

σϕ Produ¸c˜ao ou consumo da grandeza ϕ

K Energia cin´etica v Velocidade (=√˙x · ˙x) Γ Energia n˜ao-cin´etica

γ Energia n˜ao-cin´etica espec´ıfica E Energia total

Q Potˆencia t´ermica q Fluxo t´ermico vetorial

(13)

1 Introdu¸c˜ao 16

2 Geometria e Cinem´atica 19

2.1 Configura¸c˜oes de um corpo . . . 19

2.2 Deforma¸c˜oes de infinit´esimos . . . 21

2.2.1 Deforma¸c˜ao de segmento infinitesimal de curva . . . 21

2.2.2 Deforma¸c˜ao de ´area infinitesimal . . . 22

2.2.3 Deforma¸c˜ao de um volume infinitesimal . . . 23

2.3 Derivadas temporais nas configura¸c˜oes material e espacial . . . 24

2.4 Gradiente de velocidade . . . 25

2.5 Movimento R´ıgido e Deforma¸c˜ao Pura . . . 26

3 Tensor de tens˜oes de Cauchy 29 3.1 Massa . . . 30

3.2 Dinˆamica . . . 31

3.2.1 Defini¸c˜oes . . . 31

(14)

3.4 Equa¸c˜ao do Movimento de Cauchy . . . 35

3.5 Simetria do tensor de Cauchy . . . 36

4 Teorema do transporte 40 4.1 Teorema do transporte de Reynolds . . . 40

5 Equa¸c˜oes de Balan¸co 44 5.1 Teoria geral das equa¸c˜oes de balan¸co . . . 44

5.2 Balan¸co de massa . . . 45

5.3 Balan¸cos de momentos linear e angular . . . 47

5.4 Balan¸co de Energia . . . 48

6 Discuss˜ao 54 ´ Algebra Vetorial e Tensorial 57 Lista de S´ımbolos Matem´aticos 58 1 Vetores e Espa¸cos Vetoriais . . . 60

2 Transforma¸c˜oes lineares e Tensores . . . 66

3 Opera¸c˜oes com tensores e defini¸c˜oes ´uteis . . . 69

3.1 Decomposi¸c˜oes aditivas e multiplicativas . . . 72

Elementos de C´alculo Tensorial 75 1 Derivadas de fun¸c˜oes reais . . . 75

(15)

2 Divergente e Rotacional . . . 77

(16)

Cap´ıtulo 1

Introdu¸

ao

Embora existam trabalhos anteriores, que possam ser considerados relativos `a termodinˆamica, costuma-se considerar que esta disciplina inicia-se em 1824, com a pu-blica¸c˜ao do trabalho experimental de Nicolas L´eonard Sadi Carnot sobre o seu famoso ciclo. Contribui¸c˜ao significativa foi dada em 1845 por James Prescott Joule, que estudou a expans˜ao de gases e, em 1850, Rudolf Clausius introduziu o conceito de energia interna. Por isto podemos, de alguma forma, considerar que a primeira lei da termodinˆamica apa-receu em 1850. Mas, para discutir conceitos referentes `a primeira lei, preferimos utilizar enfoque bem diferente dos usuais, apoiado na moderna mecˆanica dos meios cont´ınuos.

A termodinˆamica dos meios cont´ınuos, ciˆencia relativamente moderna, formali-zada ao longo do s´eculo XX, que prov´em da mecˆanica dos meios cont´ınuos e incorpora as leis da termodinˆamica, tamb´em apresenta o seu entendimento da primeira lei. Entre-tanto, h´a uma sens´ıvel diferen¸ca entre o tratamento conceitual dado por esta disciplina `a primeira lei, quando comparado `a termodinˆamica tradicional. Estamos nos referindo n˜ao ao tratamento matem´atico, necessariamente diferente, mas sim `as ideias subjacentes que justificam as correspondentes equa¸c˜oes. No que se refere `a primeira lei, os conceitos s˜ao, inclusive, contradit´orios.

De fato, a mecˆanica dos meios cont´ınuos costuma separar a energia total do corpo em duas parcelas aditivas, a saber, energia cin´etica e interna. Neste trabalho, esta segunda parcela ´e chamada energia n˜ao-cin´etica, porque ela difere da interna mencionada

(17)

pela termodinˆamica tradicional. Uma sens´ıvel diferen¸ca entre as duas energias internas ´e que, conforme bem sabido, a da termodinˆamica se conserva em corpo isolado, o qual por defini¸c˜ao est´a impedido de trocar qualquer energia com seu exterior (e tamb´em massa), enquanto que a energia interna definida pela mecˆanica dos meios cont´ınuos, tal como informam todos os textos sobre esta disciplina, n˜ao se conserva nas mesmas condi¸c˜oes. Outra diferen¸ca ´e que a energia interna da mecˆanica dos meios cont´ınuos apenas pode absorver ou emitir calor para o exterior, enquanto que a energia interna da termodinˆamica tradicional pode alterar-se seja por troca de calor, como de trabalho.

Assim, o objetivo do trabalho ´e, precisamente, esclarecer esta diferen¸ca con-ceitual. Para atingir o objetivo proposto, conv´em inicialmente apresentar os conceitos b´asicos de ´algebra e c´alculo tensorial, porque estes n˜ao s˜ao amplamente conhecidos entre os estudiosos da ciˆencia qu´ımica, aos quais este texto ´e dirigido, mas constituem a ferra-menta matem´atica da mecˆanica dos meios cont´ınuos. Ao longo do trabalho procurou-se exatid˜ao matem´atica mas, simultaneamente, clareza e interpreta¸c˜ao f´ısica das express˜oes apresentadas. Chegaremos `a conclus˜ao de que, na verdade, trata-se de dois modos di-ferentes de separar a mesma energia total em duas parcelas aditivas, ambos os modos matem´atica e fisicamente corretos.

Para o leitor leigo em ´algebra e c´alculo tensorial, sugere-se iniciar a leitura pelo apˆendice, onde encontram-se estas ferramentas matem´aticas essenciais e b´asicas. Como leitura subsequente, est˜ao os conceitos fundamentais de geometria e cinem´atica, nos quais se enra´ıza a mecˆanica dos meios cont´ınuos. Aparece depois o tensor de tens˜oes de Cau-chy, elemento central da mencionada disciplina e, em seguida, o teorema do transporte, tamb´em um elemento central. O cap´ıtulo sobre equa¸c˜oes de balan¸co encerra o nosso resumo introdut´orio `a mecˆanica dos meios cont´ınuos.

Portanto, o trabalho inteiro ´e dedicado `a apresenta¸c˜ao de uma resumida in-trodu¸c˜ao `a mecˆanica dos meios cont´ınuos. A termodinˆamica somente ´e citada na discuss˜ao final, onde comparamos as diferentes formas de divis˜ao da energia total do corpo em duas parcelas somativas, de acordo com qual das duas disciplinas est´a sob considera¸c˜ao. A conclus˜ao que obtivemos parece-nos esclarecedora, conceitualmente muito significativa e matematicamente exata, portanto uma real contribui¸c˜ao ao conceito de energia interna.

(18)

Cabe, por´em, alertar o leitor para a realidade de que ´e direcionada a resumida introdu¸c˜ao `a mecˆanica dos meios cont´ınuos apresentada, ou seja, ela ressalta o que ´e importante para a discuss˜ao final. Em vista disto, o leitor interessado numa vis˜ao mais global desta interessante disciplina pode procurar a pequena e selecionada bibliografia. O que ser´a apresentado na mencionada introdu¸c˜ao resumida pin¸ca diversos pontos dos diferentes textos presentes na bibliografia e interliga-os de modo coerente, visando um objetivo pr´e-estabelecido.

(19)

Cap´ıtulo 2

Geometria e Cinem´

atica

2.1

Configura¸

oes de um corpo

Um corpo B pode ser entendido como um conjunto de pontos cont´ınuo do espa¸co tridimensional, confinado em um lugar geom´etrico por uma fronteira bem definida e per-tencente ao corpo. Trataremos especificamente de conjuntos de volume finito (n˜ao nulo, nem infinito). B pode assumir diversas configura¸c˜oes, isto ´e, disposi¸c˜oes espaciais dos pontos que o constituem, durante movimentos, inclusive deforma¸c˜oes. Podemos esco-lher uma configura¸c˜ao arbitr´aria dentre todas as poss´ıveis como configura¸c˜ao referencial (ou material). ´E em rela¸c˜ao `a configura¸c˜ao referencial que analisamos qualquer outra configura¸c˜ao, que chamaremos de configura¸c˜ao corrente (ou espacial).

Sejam X1, X2, X3... pontos do corpo B individualizados por alguma

especifici-dade, mas cujas respectivas posi¸c˜oes dependem da configura¸c˜ao. Tais posi¸c˜oes s˜ao iden-tificadas pelos vetores-posi¸c˜ao X1, X2, X3... na configura¸c˜ao referencial, para a qual

uti-lizaremos o s´ımbolo B. Conv´em atribuir `a configura¸c˜ao de referˆencia do corpo o instante de tempo t0 = 0 e um instante t > 0 para uma configura¸c˜ao corrente ap´os um intervalo

de tempo ∆t = t. Na configura¸c˜ao corrente, os mesmos pontos do corpo, X1, X2, X3...,

ocupam posi¸c˜oes dadas pelos vetores-posi¸c˜ao x1, x2, x3..., os quais, por imposi¸c˜ao, s˜ao

imagens de fun¸c˜ao dos respectivos vetores-posi¸c˜ao na configura¸c˜ao de referˆencia e do ins-tante t correspondente `a configura¸c˜ao corrente considerada. Nesta, denotamos o corpo

(20)

por Bt.

A mencionada fun¸c˜ao imposta, que tem como imagens os pontos espaciais (re-ferentes `a configura¸c˜ao espacial) xi e como argumentos os respectivos pontos materiais

(referentes `a configura¸c˜ao material) Xi, al´em do instante t correspondente `a configura¸c˜ao

espacial considerada, ´e chamada fun¸c˜ao deforma¸c˜ao, χ, tal que xi = χ(Xi, t). Note que

a imposi¸c˜ao desta fun¸c˜ao exclui de nossa an´alise processos como a ruptura de um corpo em partes, uma vez que toda ruptura implicaria em ponto material correspondendo a dois pontos espaciais. De acordo com a defini¸c˜ao matem´atica de fun¸c˜ao, isto impediria a existˆencia da fun¸c˜ao χ.

Sendo exclu´ıdos fenˆomenos como a ruptura de um corpo em partes, ´e esperada a exclus˜ao, tamb´em, de fenˆomenos opostos, como a uni˜ao de partes de um corpo, o que implicaria em dois pontos materiais correspondendo a um ponto espacial. Embora tal uni˜ao permita a defini¸c˜ao da fun¸c˜ao χ, ela impede a existˆencia da fun¸c˜ao inversa χ−1, tal que Xi = χ−1(xi, t). Portanto, a exclus˜ao conjunta tamb´em de fenˆomenos opostos permite

a imposi¸c˜ao de que, para cada t fixo, exista a fun¸c˜ao invert´ıvel χ [9]. Uma representa¸c˜ao do mapa χ(X, t) e do mapa inverso χ−1(X, t) ´e apresentada na figura 2.1.

O gradiente da fun¸c˜ao deforma¸c˜ao ´e denominado gradiente de deforma¸c˜ao. Como a fun¸c˜ao deforma¸c˜ao ´e uma fun¸c˜ao vetorial, seu gradiente ´e um tensor de segunda ordem, F. Assim, define-se

F(X, t) ≡ ∇χ(X, t) = ∇x(X, t), (2.1.1)

onde as derivadas parciais que o operador gradiente envolve s˜ao tomadas em rela¸c˜ao a cada coordenada material, mantendo-se constantes as demais coordenadas materiais e o tempo. Em nota¸c˜ao de componentes, aqui omitindo os argumentos (X, t) por simplici-dade, podemos escrever

Fij =

∂xi

∂Xj

. (2.1.2)

O determinante J do gradiente de deforma¸c˜ao ´e sempre positivo, isto ´e, J ≡ detF > 0. J n˜ao pode ser nulo uma vez que a fun¸c˜ao χ ´e invert´ıvel e portanto F ´e n˜ao-singular [8] e, como a varia¸c˜ao de J com F ´e cont´ınua (determinante ´e uma fun¸c˜ao cont´ınua), J possui sempre o mesmo sinal, para qualquer instante da deforma¸c˜ao. Por´em, J n˜ao pode ser negativo porque, para o caso trivial onde x = X, F = 1 e J = 1, o sinal

(21)

de J ´e positivo por defini¸c˜ao. Sendo assim, J > 0 para todo F.

Em resumo, os mesmos pontos de um corpo encontram-se em diferentes posi¸c˜oes, ao longo do tempo. Por isto, considera-se que no instante zero eles se encontrem numa configura¸c˜ao referencial. Se determinados fenˆomenos, tais como rupturas ou uni˜oes forem exclu´ıdos de nossa an´alise, existir´a a fun¸c˜ao vetorial invert´ıvel chamada deforma¸c˜ao. Esta, fornecer´a a posi¸c˜ao de cada ponto no instante t se este for sabido e, al´em disto, tamb´em for conhecida a posi¸c˜ao do mesmo ponto no instante zero. Existindo a fun¸c˜ao vetorial invert´ıvel denominada deforma¸c˜ao, o seu gradiente necessariamente ser´a um tensor de segunda ordem cujo determinante ser´a positivo.

Figura 2.1: Esquema geral de uma deforma¸c˜ao. Um ponto material X na configura¸c˜ao referencial B se associa a um correspondente ponto espacial x na configura¸c˜ao espacial Bt

atrav´es da fun¸c˜ao χ(X, t). J´a a associa¸c˜ao inversa de x a X ´e dada pela fun¸c˜ao χ−1(X, t).

2.2

Deforma¸

oes de infinit´

esimos

2.2.1

Deforma¸

ao de segmento infinitesimal de curva

Dizemos que uma deforma¸c˜ao ´e homogˆenea se a rela¸c˜ao entre um vetor material Y − X e seu correspondente vetor espacial y − x for dada por

(22)

para quaisquer Y e X ∈ B. Deforma¸c˜oes homogˆeneas s˜ao uma classe bastante parti-cular de deforma¸c˜oes, onde o gradiente de deforma¸c˜ao n˜ao varia espacialmente, apenas temporalmente. Para deforma¸c˜oes gen´ericas, vale a rela¸c˜ao

(y − x) = F(X, t)(Y − X) + o(|Y − X|), (2.2.2)

onde a fun¸c˜ao erro o(|Y − X|) tende a 0 mais rapidamente que |Y − X| quando esta distˆancia tender a 0, de modo que exista o limite

lim

|Y−X|→0

o(|Y − X|)

|Y − X| = 0. (2.2.3)

Dividindo a equa¸c˜ao 2.2.2 por |Y − X| e usando a equa¸c˜ao 2.2.3 obt´em-se

lim |Y−X|→0 y − x |Y − X| =|Y−X|→0lim F(Y − X) |Y − X| .

Logo, neste limite e somente nele, os numeradores das duas fra¸c˜oes se igualam. Por´em, a rela¸c˜ao entre os vetores y − x e Y − X, neste limite e somente nele, ´e representada substituindo os mesmos respectivamente por dx e dX. Portanto,

dx = F(X, t)dX. (2.2.4)

A equa¸c˜ao 2.2.4 indica que, no limite em que |Y−X| → 0 e somente nele, toda deforma¸c˜ao de vetor material Y − X ´e homogˆenea ao redor do ponto X no instante t. Indica, tamb´em, como se deformou o vetor tangente a (ou um segmento infinitesimal de) qualquer curva da configura¸c˜ao referencial, num ponto dado, ap´os um tempo t.

2.2.2

Deforma¸

ao de ´

area infinitesimal

Seja um diferencial de ´area material daR, definido pelos diferenciais dX e dY

e considere tamb´em o correspondente diferencial de ´area espacial da, definido pelos dife-renciais dx e dy. Utilizando o gradiente de deforma¸c˜ao, podemos encontrar uma rela¸c˜ao entre da e daR. De fato, como a ´area de um paralelogramo definido por dois vetores ´e o

(23)

unit´ario normal a esta ´area. Temos, ent˜ao,

dan = dx × dy = FdX × FdY

= Fc(dX × dY)

= (detF)F−T(dX × dY)

= (detF)F−TdaRnR = dan.

Aqui, utilizamos a defini¸c˜ao de cofator de um tensor F, representado por Fc= (detF)F−T. O cofator ´e um tensor que relaciona o produto vetorial de dois vetores u e v com o produto vetorial destes mesmos vetores quando transformados pelo tensor F, isto ´e, com o produto vetorial entre Fu e Fv. A defini¸c˜ao de cofator pode ser encontrada em [2] (Cap. 2, se¸c˜ao 2.11), podendo ser demonstrada algebricamente a partir da defini¸c˜ao de determinante (Apˆendice A, equa¸c˜ao A.34).

Assim, a rela¸c˜ao entre dois elementos de ´area e suas normais ´e dada por

(detF)F−TdaRnR= dan. (2.2.5)

2.2.3

Deforma¸

ao de um volume infinitesimal

O volume do paralelep´ıpedo definido por trˆes vetores linearmente independentes u, v e w ∈ V ´e dado pelo produto misto entre estes vetores, isto ´e, vol = (u × v) · w. Se tomarmos uma base ortonormal {e1, e2, e3} na configura¸c˜ao de referˆencia, logo uma base

que define um cubo de lado unit´ario, temos (e1×e2)·e3 = 1. Considere um volume material

definido por um cubo de lado δ e volume ∆vR = δ3(e1× e2) · e3 = δ3. Tal volume, ap´os

uma deforma¸c˜ao dada pelo tensor F, passar´a a ser ∆v = δ3(Fe

1× Fe2) · Fe3 + o(δ3) =

∆vR(Fe1 × Fe2) · Fe3 + o(δ3), utilizando os mesmos crit´erios dados na subse¸c˜ao 2.2.1.

Temos, ent˜ao,

lim δ→0 ∆v δ3 = limδ→0 ∆vR(Fe1× Fe2) · Fe3 δ3 , ou dv = dvR(Fe1× Fe2) · Fe3.

Por sua vez, como (e1 × e2) · e3 = 1, o produto (Fe1 × Fe2) · Fe3 nada mais ´e que o

(24)

Assim, a rela¸c˜ao entre um elemento de volume espacial e o correspondente elemento de volume material ´e dada por

dv = J dvR. (2.2.6)

2.3

Derivadas temporais nas configura¸

oes material

e espacial

Dado um campo escalar, vetorial ou tensorial ϕ qualquer, podemos escrevˆe-lo em fun¸c˜ao de coordenadas materiais ou espaciais. Quando o escrevemos em termos de coordenadas materiais, temos ϕ(X, t). Quando o escrevemos em fun¸c˜ao de coordenadas espaciais, temos ϕ(x, t). Costumeiramente, a representa¸c˜ao de campos em coordena-das materiais ´e denominada representa¸c˜ao lagrangiana, enquanto que a representa¸c˜ao do campo em coordenadas espaciais ´e denominada representa¸c˜ao euleriana. A representa¸c˜ao mais conveniente depender´a do problema em quest˜ao.

Quando trabalhamos com uma representa¸c˜ao lagrangiana, acompanhamos a va-ria¸c˜ao do campo ϕ com o tempo, a partir de cada ponto material X no instante zero. Evidentemente, a medida que o tempo aumenta a partir de zero, a posi¸c˜ao do ponto X do corpo, dada por X na configura¸c˜ao referencial, passa a ser dada por x = χ(X, t). Por isto, na representa¸c˜ao lagrangiana, acompanhamos o ponto X do corpo em sua trajet´oria ao longo do tempo e a consequente varia¸c˜ao do campo ϕ em X durante o trajeto.

J´a, na descri¸c˜ao euleriana, acompanhamos a varia¸c˜ao do campo ϕ com o tempo, para cada ponto espacial x que marca a posi¸c˜ao do ponto X , pertencente ao corpo, em um determinado instante t > 0. Neste caso, mantendo a posi¸c˜ao x, altera¸c˜oes temporais necessariamente modificam o correspondente ponto X do corpo, logo, mudam o correspon-dente ponto material X = χ−1(x, t). Por isto, na representa¸c˜ao euleriana acompanhamos a varia¸c˜ao temporal do campo ϕ em cada ponto x, a qual ocorre junto com a altera¸c˜ao temporal do ponto X do corpo que aparece na posi¸c˜ao x. Devido `a frequente percep¸c˜ao do campo como algo aplicado a todos os pontos do espa¸co, conv´em ressaltar que o campo ϕ se restringe aos pontos do corpo, o qual, por defini¸c˜ao, ´e delimitado e apresenta volume finito.

(25)

A derivada parcial temporal do campo ϕ receber´a diferentes nomes a depender da representa¸c˜ao escolhida. Quando tomamos a derivada na descri¸c˜ao lagrangiana, ela ´e chamada derivada material ou substantiva. Quando a consideramos na descri¸c˜ao euleri-ana, denominamos derivada espacial. A derivada material da grandeza ϕ ´e definida pela derivada parcial em rela¸c˜ao ao tempo, mantendo as coordenadas materiais fixas,

∂ϕ(X, t)

∂t = ˙ϕ(X, t) = ˙ϕ(χ

−1

(x, t), t) = ˙ϕ(x, t). (2.3.1)

J´a a derivada espacial ´e a derivada parcial em rela¸c˜ao ao tempo, mantendo as coordenadas espaciais fixas,

∂ϕ(x, t)

∂t = ϕ

0

(x, t) = ϕ0(χ(X, t), t) = ϕ0(X, t), (2.3.2)

de modo que, pela regra da cadeia, obtemos

˙ ϕ(X, t) = ∂ϕ(x, t) ∂x1 ∂x1(X, t) ∂t + ∂ϕ(x, t) ∂x2 ∂x2(X, t) ∂t + ∂ϕ(x, t) ∂x3 ∂x3(X, t) ∂t + ∂ϕ(x, t) ∂t . Reescrevendo a equa¸c˜ao acima, para um ϕ escalar

˙

ϕ(X, t) = ϕ0(x, t) + v · ∇ϕ(x, t), (2.3.3)

onde v = ∂x(X,t)∂t = ˙x(X, t) = ˙x(χ−1(x, t), t) = ˙x(x, t) ´e o vetor velocidade para o ponto X do corpo, correspondente a X, no instante t > 0 a que se refere a configura¸c˜ao espacial onde X ocupa a posi¸c˜ao x. A equa¸c˜ao 2.3.3, portanto, indica que a velocidade de altera¸c˜ao do campo ϕ no instante t, seguindo o movimento do ponto X do corpo, presente no ponto x neste momento, ˙ϕ(X, t), ´e a soma da velocidade de mudan¸ca de ϕ no ponto x naquele instante (mantendo fixo x), ϕ0(x, t), com a velocidade de modifica¸c˜ao de ϕ na dire¸c˜ao em que o ponto de corpo se movimenta, v ·∇ϕ(x, t). Esta conclus˜ao matem´atica ´e fisicamente esperada.

2.4

Gradiente de velocidade

O gradiente de velocidade ´e o campo tensorial dado por

L(x, t) = ∇ ˙x(x, t). (2.4.1)

Derivando o tensor gradiente de deforma¸c˜ao em rela¸c˜ao ao tempo, obtemos

˙

F(X, t) = ∂

(26)

A rela¸c˜ao entre o gradiente de um campo vetorial g em coordenadas materiais e seu gradiente em coordenadas espaciais pode ser obtida atrav´es da regra da cadeia. Assim, em nota¸c˜ao indicial, temos

∂gi(X, t) ∂Xj = ∂gi(x, t) ∂xk ∂xk ∂Xj , ou ∇g(X, t) = (∇g(x, t))F(X, t). (2.4.3)

Ent˜ao, de acordo com a equa¸c˜ao 2.4.3, ∇ ˙x(X, t) = ∇ ˙x(x, t)F(X, t), que, substitu´ıdo na equa¸c˜ao 2.4.2, produz

˙

F(X, t) = (∇ ˙x(x, t))F(X, t). (2.4.4)

Assim, dada a defini¸c˜ao do gradiente de velocidade 2.4.1, conclu´ımos que

˙

F(X, t) = L(x, t)F(X, t) e (2.4.5)

L(x, t) = ˙FF−1(X, t). (2.4.6)

Podemos decompor o gradiente de velocidade em uma parcela sim´etrica, D, e uma parcela antissim´etrica, W, de modo que

L = D + W. (2.4.7)

2.5

Movimento R´ıgido e Deforma¸

ao Pura

Um movimento ´e dito r´ıgido se a distˆancia entre dois pontos quaisquer n˜ao se alterar em qualquer configura¸c˜ao. Matematicamente, comparando a distˆancia entre dois pontos espaciais y e x com aquela entre os correspondentes pontos materiais Y e X, temos que

(y − x)2 = (Y − X)2. (2.5.1)

Um movimento r´ıgido ´e um caso particular de uma deforma¸c˜ao homogˆenea. Assim, uti-lizando a equa¸c˜ao 2.2.1, podemos desenvolver a equa¸c˜ao 2.5.1, de modo que

(y − x) · (y − x) = (Y − X) · (Y − X),

F(Y − X) · F(Y − X) = (Y − X) · (Y − X) e

(27)

A terceira equa¸c˜ao acima ´e v´alida se, e somente se, para o movimento r´ıgido for v´alida a rela¸c˜ao

FTF = 1, (2.5.2)

de modo que o gradiente de deforma¸c˜ao para tal tipo de movimento ´e, necessariamente, or-togonal, ou seja, FT = F−1. Como a defini¸c˜ao independe dos pontos escolhidos, podemos

concluir que F, para este caso, independe do ponto em considera¸c˜ao, sendo espacialmente constante, podendo variar apenas com o tempo. Vale notar que como detF > 0 e F ´e ortogonal, ent˜ao detF = 1, tratando-se de uma rota¸c˜ao.

Assim conclu´ımos que, para todo movimento r´ıgido, F = Q ∈ Orth+ e podemos relacionar um ponto espacial com seu correspondente ponto material pela equa¸c˜ao

x(X, t) = Q(t)X + c(t), (2.5.3)

onde c(t) corresponde a uma transla¸c˜ao qualquer. Podemos derivar a equa¸c˜ao 2.5.3 em rela¸c˜ao ao tempo para obter uma equa¸c˜ao para o campo de velocidades, obtendo

˙x(X, t) = ˙Q(t)X + ˙c(t). (2.5.4)

Escrevendo a equa¸c˜ao 2.5.3 na descri¸c˜ao euleriana, temos

X(x, t) = QT(t)(x − c(t)). (2.5.5)

Substituindo a 2.5.5 na 2.5.4, obtemos

˙x(x, t) = ˙Q(t)QT(t)(x − c(t)) + ˙c(t) e

˙x(x, t) = ˙Q(t)QT(t)x − ˙Q(t)QT(t)c(t) + ˙c(t),

onde o termo − ˙Q(t)QT(t)c(t)+ ˙c(t) pode ser substitu´ıdo por ˙x

0(t), tamb´em espacialmente

constante.

Logo, o campo de velocidades pode ser escrito como

˙x(x, t) = ˙Q(t)QT(t)x(t) + ˙x0(t).

Finalmente, o tensor ˙QQT ´e antissim´etrico, uma vez que derivando a equa¸c˜ao QQT = 1 em rela¸c˜ao ao tempo, temos ˙QQT + Q ˙QT = 0 e, portanto, ( ˙QQT)T = − ˙QQT. Fazendo

W = ˙QQT, temos

(28)

Portanto, para um campo de velocidades r´ıgido, o gradiente de velocidade (veja a defini¸c˜ao de gradiente de campo vetorial no Apˆendice e a equa¸c˜ao 2.4.6) ´e um tensor antissim´etrico que depende exclusivamente do tempo,

L(t) = W(t). (2.5.7)

Comparando a equa¸c˜ao 2.5.7 com a 2.4.7, conclu´ımos que a parcela antissim´etrica do gradiente de velocidade diz respeito exclusivamente a um poss´ıvel componente aditivo r´ıgido do movimento de um corpo. Em contrapartida, o tensor sim´etrico D da equa¸c˜ao 2.4.7 ´e devido exclusivamente a uma poss´ıvel deforma¸c˜ao pura aditiva que o corpo pode sofrer durante o movimento. De um modo geral, o movimento de um corpo ´e a soma de um movimento r´ıgido com uma deforma¸c˜ao pura, isto se refletindo na soma dos tensores W e D para compor o gradiente de velocidade, L. Neste ´ultimo caso, o movimento ainda altera a forma do corpo, por isto costuma ser chamado de deforma¸c˜ao, embora n˜ao seja uma deforma¸c˜ao pura, porque o gradiente de velocidade ´e assim´etrico (nem sim´etrico, nem antissim´etrico).

Portanto, deforma¸c˜ao pura n˜ao ´e apenas um movimento que altera a forma do corpo, mas sim um movimento que tem este efeito ao manter sim´etrico o gradiente de velocidade.

(29)

Cap´ıtulo 3

Tensor de tens˜

oes de Cauchy

Lembramos que, na configura¸c˜ao de referˆencia (ou material) representamos o corpo, uma parte dele e seus pontos, respectivamente por B, P e {X1, X2, ...}, enquanto

que na configura¸c˜ao corrente (ou espacial), respectivamente por Bt = χt(B), Pt = χt(P)

e x = χ(X, t). Na presente se¸c˜ao, consideramos uma grandeza f´ısica escalar ou vetorial Φ(P, t), aditiva e cont´ınua, referida a uma configura¸c˜ao corrente, mas podendo referir-se `

a configura¸c˜ao de referˆencia desde que adotemos t = 0. Os axiomas de aditividade e continuidade para essa fun¸c˜ao podem ser expostos como:

Axioma 1: Aditividade: dadas duas regi˜oes P1, P2 ⊂ Bt, tal que P1∩ P2 = ∅,

ent˜ao Φ(P1∪ P2, t) = Φ(P1, t) + Φ(P2, t).

Axioma 2: Continuidade: dada uma regi˜ao Pt ≡ (P, t) e seu volume vol(Pt)

finito, existe uma constante real positiva a, tal que |Φ(P, t)| ≤ a vol(Pt).

Corol´ario: Fun¸c˜ao densidade: Satisfeitos os axiomas 1 e 2, existe uma fun¸c˜ao densidade ϕ(x, t) que satisfaz

Φ(P, t) = Z Pt ϕ(x, t)dV e (3.0.1) ϕ(x, t) = lim vol(Pt)→0 Φ(Pt) vol(Pt) (x, t). (3.0.2)

(30)

3.1

Massa

A primeira propriedade f´ısica que conv´em ser analisada ´e a massa, uma vez que se presume que a todo corpo finito pode-se atribuir uma massa finita e positiva. Denotamos a massa de uma regi˜ao (todo o corpo ou apenas uma parte finita dele) pela imagem da fun¸c˜ao M tendo como argumento a regi˜ao considerada. A fun¸c˜ao M ´e aditiva e cont´ınua em regi˜oes regulares, ou seja, regi˜oes que n˜ao incluem superf´ıcies singulares, as quais s˜ao interfaces de poss´ıvel descontinuidade. Portanto, em regi˜oes regulares existe a densidade de massa, que se relaciona com a massa pela integral (o ´ındice R ressalta que nos referimos `

a configura¸c˜ao de referˆencia)

M (P) = Z

P

ρ(X) dVR. (3.1.1)

Equivalentemente, podemos escrever a densidade de massa, em um ponto X ∈ P, por meio da derivada ρ(X) = lim vol(P)→0 M (P) vol(P) ≡ dM dVR (X). (3.1.2)

Por defini¸c˜ao, a massa de qualquer regi˜ao finita de todo corpo no instante t, Pt ⊆ Bt, ´e a mesma em qualquer outro momento, ou seja, n˜ao varia em decorrˆencia

de qualquer movimento. A densidade de qualquer ponto x ∈ Pt pode variar com uma

eventual deforma¸c˜ao, por´em a massa de Pt n˜ao varia, implicando em varia¸c˜ao do seu

volume, vol(Pt). Matematicamente,

d dtM (Pt) = 0, logo d dt Z Pt ρ(x, t)dV = 0. (3.1.3)

Como a massa se conserva em qualquer configura¸c˜ao, segue que

M (P) = M(Pt), ∀t logo, Z P ρ(X)dVR = Z Pt ρ(x, t)dV.

No entanto, no cap´ıtulo anterior, mostramos que dV = J dVR (equa¸c˜ao 2.2.6), onde J =

J (X, t) = detF(X, t). Assim, podemos relacionar a integral da densidade na configura¸c˜ao de referˆencia com a integral na configura¸c˜ao referencial fazendo

Z Pt ρ(x, t)dV = Z P ρ(χ(X, t), t)J dVR.

(31)

Comparando as duas equa¸c˜oes anteriores, ´e f´acil notar que

ρ(X) = J ρ(χ(X, t), t). (3.1.4)

Considere agora a derivada temporal de uma integral do tipoRP

tρϕ(x, t)dV , isto

´e, quando a densidade aparece no integrando. Para efetuar esta derivada, ´e conveniente escrever a integral em termos de coordenadas de referˆencia, uma vez que a regi˜ao Pt

depende do tempo, diferentemente da respectiva regi˜ao P a ela associada na configura¸c˜ao material. Novamente, considerando que dV = J dVR, tem-se

d dt Z Pt ρϕ(x, t)dV = d dt Z P ρϕ(χ(X, t), t)J dVR. (3.1.5)

Como agora a regi˜ao de integra¸c˜ao (P) n˜ao depende do tempo, podemos efetuar a derivada temporal material do integrando no lado direito da equa¸c˜ao acima destacada, obtendo

d dt Z P ρϕ(χ(X, t), t)J dVR = Z P J ρ∂ϕ ∂t(χ(X, t), t) + ϕ ∂(J ρ) ∂t (χ(X, t), t)dVR.

No entanto, de acordo com a equa¸c˜ao 3.1.4, J ρ(χ(X, t), t) = ρ(X) n˜ao ´e uma fun¸c˜ao do tempo e, portanto, a derivada temporal deste termo se anula. Assim,

d dt Z P ρϕ(χ(X, t), t)J dVR = Z P J ρ∂ϕ ∂t(χ(X, t), t)dVR.

Finalmente, retomando a integral em coordenadas espaciais, tendo em mente a defini¸c˜ao da derivada material (equa¸c˜ao 2.3.1) e comparando a equa¸c˜ao destacada acima com a equa¸c˜ao 3.1.5, conclui-se que

d dt Z Pt ρϕ(x, t)dV = Z Pt ρ ˙ϕ(x, t)dV. (3.1.6)

3.2

Dinˆ

amica

3.2.1

Defini¸

oes

Defini¸c˜ao: Momento linear O momento linear p(P, t) de uma regi˜ao P em um instante de tempo t ´e definido por

p(P, t) = Z

Pt

(32)

Defini¸c˜ao: Momento angular O momento angular hxo(Pt) de uma regi˜ao P em um

instante de tempo t em rela¸c˜ao a um ponto espacial xo ´e definido por

hxo(Pt) =

Z

Pt

ρ(x − xo) × ˙x(x, t)dV. (3.2.2)

Al´em disto,

1. A for¸ca total em uma regi˜ao Pt ´e definida pela taxa de varia¸c˜ao temporal do

momento linear dessa regi˜ao.

2. O torque total em uma regi˜ao Pt rela¸c˜ao a um ponto xo ´e definido pela taxa

de varia¸c˜ao temporal do momento angular dessa regi˜ao.

Assim, a for¸ca f e o torque τ s˜ao definidos matematicamente pelas leis de Euler da dinˆamica,

f (P, t) = d

dtp(P, t) e (3.2.3)

τ (P, t) = d

dthxo(P, t). (3.2.4)

3.2.2

For¸

cas de corpo e for¸

cas de tra¸

ao

A for¸ca f e o torque τ resultantes em um corpo podem ser tomados pelo total dos efeitos causados por for¸cas de corpo e de tra¸c˜ao. O primeiro tipo de for¸ca ´e resultante de for¸cas externas, como ´e o caso das for¸cas da gravidade, el´etrica, magn´etica, etc. de modo que for¸cas deste tipo dependem da posi¸c˜ao de um ponto espec´ıfico, mas n˜ao dependem de nenhum ponto do corpo em suas vizinhan¸cas. O segundo tipo ´e resultante de for¸cas de contato que agem sobre superf´ıcies, podendo estas ´ultimas ser f´ısicas ou imagin´arias. Sejam fb a for¸ca de corpo resultante, ft a for¸ca de tra¸c˜ao resultante, τb o torque causado

por for¸cas de corpo e τt o torque causado por for¸cas de tra¸c˜ao. Assim, for¸ca e torque

resultantes em um corpo podem ser decompostos em duas parcelas, fazendo valer

f = fb+ ft e (3.2.5)

(33)

onde definimos cada termo pelas seguintes integrais fb(P, t) = Z Pt ρb(x, t)dV, (3.2.7) ft(P, t) = I ∂Pt t(x, t, ∂Pt)dS, (3.2.8) τb(P, t) = Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × b(x, t)dV e (3.2.9) τt(P, t) = I ∂Pt (x − xo) × t(x, t, ∂Pt)dS. (3.2.10)

Nas ´ultimas quatro equa¸c˜oes, o conjunto (b, t) representa o efeito, sobre o corpo, das for¸cas produzidas em seu exterior mas que atuam no corpo. O vetor b depende do ponto espacial de aplica¸c˜ao x, necessariamente localizado no interior do corpo, em deter-minado instante t, sendo sua unidade for¸ca por massa. J´a o vetor t, al´em de tamb´em depender do ponto espacial de aplica¸c˜ao x, neste caso necessariamente localizado na su-perf´ıcie do corpo, ele ainda depende de caracter´ısticas da ´area Ptnas vizinhan¸cas

infinite-simais da superf´ıcie em torno do ponto x, em determinado instante t, sendo sua unidade for¸ca por ´area.

Substituindo as equa¸c˜oes 3.2.7 e 3.2.8 na equa¸c˜ao 3.2.5, em seguida esta ´ultima na 3.2.3 e usando a 3.2.1, obtemos d dt Z Pt ρ ˙x(x, t)dV = Z Pt ρb(x, t)dV + I ∂Pt t(x, t, ∂Pt)dS. (3.2.11)

Analogamente, substituindo as equa¸c˜oes 3.2.9 e 3.2.10 na equa¸c˜ao 3.2.6, em seguida esta ´

ultima na 3.2.4 e usando a 3.2.2, obtemos d dt Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × ˙x(x, t)dV = Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × b(x, t)dV + I ∂Pt (x − xo) × t(x, t, ∂Pt)dS. (3.2.12)

Por meio do uso da equa¸c˜ao 3.1.6, as equa¸c˜oes 3.2.11 e 3.2.12 podem ser respectivamente escritas Z Pt ρ¨x(x, t)dV = Z Pt ρb(x, t)dV + I ∂Pt t(x, t, ∂Pt)dS e (3.2.13) Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × ¨x(x, t)dV = Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × b(x, t)dV + I ∂Pt (x − xo) × t(x, t, ∂Pt)dS, (3.2.14)

(34)

3.3

Teorema de Cauchy

No instante t, seja n um vetor unit´ario normal `a superf´ıcie ∂Pt no ponto x,

dirigido para fora do corpo. O postulado de Cauchy informa que, se x ∈ ∂Pt∩∂ ¯Pt, isto ´e, se

x for um ponto comum a duas superf´ıcies ∂Pte ∂ ¯Pt, por hip´otese distintas (que apresentem

caracter´ısticas diferentes) de um corpo e se n = ¯n, ent˜ao t(x, t, ∂Pt) = t(x, t, ∂ ¯Pt). Em

outras palavras, dado um ponto comum `as duas superf´ıcies, se as duas normais coincidirem neste ponto o mesmo ocorrer´a com os respectivos vetores tra¸c˜ao, independentemente do fato das superf´ıcies serem distintas. Portanto, impondo que as duas normais coincidam, pode-se substituir t(x, t, ∂Pt) por t(x, t, n). Fazendo esta substitui¸c˜ao na equa¸c˜ao 3.2.13,

tem-se Z Pt ρ¨x(x, t)dV = Z Pt ρb(x, t)dV + I ∂Pt t(x, t, n)dS. (3.3.1)

Note que, se v = |v|n, exige-se que t(x, t, v) = t(x, t, |v|n) = |v|t(x, t, n), ou seja, exige-se que a dependˆencia de t, em rela¸c˜ao a v, seja tal que qualquer altera¸c˜ao no m´odulo de v, mantendo sua dire¸c˜ao e sentido, altere na mesma propor¸c˜ao o m´odulo de t, novamente mantendo sua dire¸c˜ao e sentido, geralmente diferentes daqueles de v. Esta exigˆencia garante que o vetor t seja sempre dado por t(x, t, n) = t(x,t,v)|v| , qualquer que seja o m´odulo n˜ao nulo do vetor v = |v|n. De fato, n˜ao teria sentido f´ısico a possibilidade de que o arbitr´ario m´odulo de um vetor cuja finalidade ´e unicamente fornecer a orienta¸c˜ao geom´etrica da ´area nas vizinhan¸cas do ponto superficial x considerado, influenciasse o efeito das for¸cas que agem na superf´ıcie do corpo. Para o caso |v| = 0, de interesse matem´atico, imp˜oe-se |t| = 0.

Como |v| ≥ 0, pode-se ent˜ao escrever t(x, t, αn) = αt(x, t, n), para α ≥ 0. Resta responder o que ocorreria se tiv´essemos α < 0, ou seja, se fosse invertido o sentido do vetor v. Para isto, considere um arbitr´ario cilindro reto de altura , representado por P⊂ Bt(lembre que Bt´e a representa¸c˜ao da configura¸c˜ao espacial de um corpo qualquer).

Aplicando a equa¸c˜ao 3.3.1 nesse cilindro, temos

Z P ρ¨x(x, t)dV = Z P ρb(x, t)dV + I ∂P t(x, t, n)dS. (3.3.2)

Se fizermos  → 0, o volume do cilindro tender´a a zero. Logo, impondo que as fun¸c˜oes ρ, ¨x e b sejam finitas e bem definidas em qualquer ponto do cilindro, as integrais volum´etricas

(35)

tender˜ao a zero quando  → 0. Assim, lim →0 I ∂P t(x, t, n)dS = 0.

Efetuando a integral, cuja regi˜ao de integra¸c˜ao se reduz `as duas faces opostas do cilindro que se encontram em uma superf´ıcie intermedi´aria S neste limite, temos que

Z

S

t(x, t, n) + t(x, t, −n)dS = 0,

resultando em t(x, tn) = −t(x, t, −n), uma vez que o integrando deve ser nulo para que a integral seja nula. Tem-se, ent˜ao, t(x, t, αn) = αt(x, t, n) para qualquer real α ou, como o mesmo ser´a evidentemente v´alido para qualquer vetor v (n˜ao precisa ser paralelo a n),

t(x, t, αv) = αt(x, t, v), para α ∈ R, v ∈ V. (3.3.3) Conv´em lembrar que a equa¸c˜ao 3.3.3, junto com a equa¸c˜ao

t(v1+ v2) = t(v1) + t(v2), para v1, v2 ∈ V, (3.3.4)

constituem a condi¸c˜ao necess´aria e suficiente para que a transforma¸c˜ao do vetor v no vetor t seja linear, ou seja, para provar a existˆencia do campo tensorial de segunda ordem T(x, t) (ver Apˆendice). Para provar a equa¸c˜ao 3.3.4 consideramos, al´em dos dois vetores linearmente independentes v1 e v2, tamb´em um terceiro vetor v3, combina¸c˜ao linear

dos primeiros dois, de modo que v3 = −(v1 + v2) ∈ V. Ent˜ao, utilizando novamente a

equa¸c˜ao 3.3.1, agora n˜ao mais para um cilindro mas sim para outra constru¸c˜ao geom´etrica adequada a esta nova demonstra¸c˜ao, bem como a equa¸c˜ao 3.3.3, confirma-se a equa¸c˜ao 3.3.4 [4][9]. Demonstra-se, assim, o teorema de Cauchy,

t(x, t, n) = T(x, t)n. (3.3.5)

3.4

Equa¸

ao do Movimento de Cauchy

Considere uma arbitr´aria regi˜ao tridimensional Pt ⊆ Bt, onde Bt ´e a

repre-senta¸c˜ao da configura¸c˜ao espacial de um corpo qualquer. Utilizando o teorema de Cauchy, equa¸c˜ao 3.3.5, no segundo termo do lado direito da equa¸c˜ao 3.3.1, obtemos

Z Pt ρ¨x(x, t)dV = Z Pt ρb(x, t)dV + I ∂Pt T(x, t)ndS.

(36)

Agora, aplicando o teorema da divergˆencia B.16 na integral de superf´ıcie acima, segue que Z Pt ρ¨x(x, t)dV = Z Pt ρb(x, t)dV + Z Pt divT(x, t)dV, Z Pt  ρb(x, t) + divT(x, t) − ρ¨x(x, t)= 0.

Uma vez que consideramos que a regi˜ao P possui volume finito, a igualdade acima ´e v´alida se e somente se o integrando for nulo. Feita tal considera¸c˜ao, obtemos a equa¸c˜ao de movimento de Cauchy

ρb(x, t) + divT(x, t) = ρ¨x(x, t). (3.4.1)

3.5

Simetria do tensor de Cauchy

Sejam b∗(x, t) = ρ(b − ¨x)(x, t), (3.5.1) f∗(P, t) = I ∂Pt t(x, t, n)dS + Z Pt b∗(x, t)dV e (3.5.2) τ∗(P, t) = I ∂Pt x × t(x, t, n)dS + Z Pt x × b∗(x, t)dV. (3.5.3)

Comparando as equa¸c˜oes 3.5.2 e 3.5.3 respectivamente com as equa¸c˜oes 3.2.13 e 3.2.14, obt´em-se

f∗(P, t) = 0 e (3.5.4)

τ∗(P, t) = 0 (3.5.5)

(note que a equa¸c˜ao 3.2.14 ´e v´alida para qualquer vetor xo, portanto ´e obedecida para

xo = 0). De acordo com a equa¸c˜ao 2.5.6, para o campo de velocidades r´ıgido w(x, t)

tem-se

w(x, t) = w0(t) + W(t)x,

onde W(t) ´e antissim´etrico, portanto admite um vetor axial ω(t) tal que W(t)x = ω(t) × x, logo

w(x, t) = w0(t) + ω(t) × x.

Tem-se, ent˜ao,

(37)

w(x, t) · b∗(x, t) = w0(t) · b∗(x, t) + b∗(x, t) · ω(t) × x.

Pela propriedade do produto misto dada pela equa¸c˜ao A.18, podemos escrever

t(x, t, n) · ω(t) × x = ω(t) · x × t(x, t, n) e

b∗(x, t) · ω(t) × x = ω(t) · x × b∗(x, t),

portanto

t(x, t, n) · w(x, t) = w0(t) · t(x, t, n) + ω(t) · x × t(x, t, n) e (3.5.6)

b∗(x, t) · w(x, t) = w0(t) · b∗(x, t) + ω(t) · x × b∗(x, t). (3.5.7)

Teorema dos trabalhos virtuais 1 Para a fun¸c˜ao

W (P, t) = I ∂Pt t(x, t, n) · w(x, t)dS + Z Pt b∗(x, t) · w(x, t)dV (3.5.8) tem-se W (P, t) = 0. (3.5.9)

Demonstra¸c˜ao: Substituindo as equa¸c˜oes 3.5.6 e 3.5.7 na 3.5.8, obtem-se

W (P, t) = I ∂Pt (w0(t) · t(x, t, n) + ω(t) · x × t(x, t, n))dS + Z Pt (w0(t) · b∗(x, t) + ω(t) · x × b∗(x, t))dV

ou, como w0(t) e ω(t) s˜ao espacialmente constantes,

W (P, t) = w0(t) · I ∂Pt (t(x, t, n)dS + Z Pt b∗(x, t)dV  + ω(t) · I ∂Pt x × t(x, t, n))dS + Z Pt x × b∗(x, t))dV  .

Considerando as equa¸c˜oes 3.5.2, 3.5.3, 3.5.4 e 3.5.5, a equa¸c˜ao anterior mostra que a equa¸c˜ao 3.5.9 ´e obedecida.

Tensor de tens˜oes de Cauchy De acordo com o teorema dos trabalhos virtuais,

I ∂Pt t(x, t, n) · w(x, t)dS + Z Pt b∗(x, t) · w(x, t)dV = 0.

(38)

Mas, considerando as equa¸c˜oes 3.4.1 e 3.5.1, tem-se

b∗(x, t) + divT(x, t) = 0,

que substitu´ıdo na equa¸c˜ao anterior produz

I ∂Pt t(x, t, n) · w(x, t)dS = Z Pt divT(x, t) · w(x, t)dV. (3.5.10)

Logo, a equa¸c˜ao 3.5.10 ´e v´alida para campo r´ıgido de velocidades, w(x, t), agindo em todos os ponto da superf´ıcie ∂Pt. Mas, para um campo de velocidades qualquer, v(x, t),

agindo em todos os ponto da superf´ıcie ∂Pt, o teorema de Cauchy mostra que

I ∂Pt t(x, t, n) · v(x, t)dS = I ∂Pt T(x, t)n · v(x, t)dS e,

de acordo com o teorema da divergˆencia2,

I ∂Pt T(x, t)n · v(x, t)dS = Z Pt divT(x, t) · v(x, t)dV + Z Pt T : ∇v(x, t)dV. (3.5.11)

Ao se comparar as equa¸c˜oes 3.5.10 e 3.5.11 percebe-se que, para campo r´ıgido de velocidades, w(x, t), agindo em todos os ponto da superf´ıcie ∂Pt, tem-se

Z

Pt

T : ∇w(x, t)dV = 0. (3.5.12)

Como ∇w(x, t) = W(x, t) ∈ Skw, porque o gradiente de todo campo r´ıgido de velocidade ´

e antissim´etrico (equa¸c˜ao 2.5.7), a condi¸c˜ao T : W(x, t) = 0, proveniente da equa¸c˜ao 3.5.12, exige que

T(x, t) = TT(x, t) (3.5.13)

para qualquer campo r´ıgido de velocidade. Portanto, apenas para deforma¸c˜ao pura a equa¸c˜ao 3.5.13 n˜ao est´a demonstrada, sendo v´alida para movimentos em geral.

2A integral do lado esquerdo da equa¸ao pode ser escrita comoH

∂PtT Tv(x, t) · ndS. Pelo teorema da divergˆencia, H ∂PtT Tv(x, t) · ndS =R Ptdiv(T

Tv(x, t))dV . No entanto, pela defini¸ao do divergente em

nota¸c˜ao indicial, tem-se que

div(TTv) =∂(T Tv) i ∂xi = ∂(Tjivj) ∂xi = vj ∂Tji xi + Tji ∂vj ∂xi = v · divT + T : ∇v.

(39)

Em resumo, existe um tensor T, chamado tensor de tens˜oes de Cauchy, tal que as seguintes condi¸c˜oes sejam sempre obedecidas:

(a) Para todo vetor n unit´ario e normal `a superf´ıcie do corpo, dirigido para fora dele, vale t(x, t, n) = T(x, t)n;

(b) TT = T;

(c) ´e satisfeita a equa¸c˜ao divT(x, t) + ρb(x, t) = ρ¨x(x, t), chamada equa¸c˜ao do movimento de Cauchy.

(40)

Cap´ıtulo 4

Teorema do transporte

4.1

Teorema do transporte de Reynolds

O teorema do transporte de Reynolds1 ´e uma ferramenta para diferenciar uma integral volum´etrica em fun¸c˜ao de um parˆametro (frequentemente o tempo). Trata-se de uma generaliza¸c˜ao tridimensional do teorema de Leibniz para derivadas de integrais. Relembrando o teorema de Leibniz, temos que, se Φ(t) = Rb(t)

a(t) f (z, t)dz, a derivada da fun¸c˜ao Φ(t) ´e dΦ(t) dt = Z b(t) a(t) ∂f (z, t) ∂t dz + f (b(t), t) db(t) dt − f (a(t), t) da(t) dt . (4.1.1)

A demonstra¸c˜ao da equa¸c˜ao 4.1.1 pode ser encontrada em vasta literatura matem´atica, como em [7] e [1].

Ent˜ao, considerando uma regi˜ao espacial Pt, fechada, com uma fronteira ∂Pt e

uma fun¸c˜ao ψ(x, t) (escalar, vetorial ou tensorial de ordem segunda ou superior) definida nessa regi˜ao, o teorema do transporte estabelece que

d dt Z Pt ψ(x, t)dV = Z Pt ∂ψ(x, t) ∂t dV + I ∂Pt ψ(x, t)un(x, t, n)dS, (4.1.2)

onde un(x, t, n) = ˙x(x, t) · n ´e a componente normal da velocidade dos pontos x da

fronteira ∂Pt, sendo o vetor unit´ario n dirigido para fora do corpo.

1A demonstra¸c˜ao do teorema do transporte de Reynolds dada neste cap´ıtulo segue as linhas gerais de

(41)

Demonstra¸c˜ao:

Pela defini¸c˜ao de derivada,

d dt Z Pt ψ(x, t)dV = lim h→0 1 h ( Z Pt+h ψ(x, t + h)dV − Z Pt ψ(x, t)dV ) = lim h→0 1 h ( Z Pt+h ψ(x, t + h)dV − Z Pt ψ(x, t + h)dV ) + lim h→0 1 h ( Z Pt ψ(x, t + h)dV − Z Pt ψ(x, t)dV ) = lim h→0 1 h Z Pt+h−Pt ψ(x, t + h)dV + Z Pt ∂ψ ∂t(x, t)dV

O segundo termo da etapa final da equa¸c˜ao independe de h. Para entender melhor o pri-meiro termo, observe a imagem abaixo, onde a linha s´olida delimita a regi˜ao Pt, enquanto

Figura 4.1: A regi˜ao Pt+h− Pt. A velocidade un ´e a proje¸c˜ao de ˙x na dire¸c˜ao de n. A

distˆancia percorrida pela ´area ∆a → dS ´e δ = unh. Esse elemento de volume, portanto,

´e igual a hundS.

a pontilhada delimita a regi˜ao Pt+h, isto ´e, a mesma regi˜ao ap´os uma transforma¸c˜ao

ocorrida dentro de um intervalo temporal h. O primeiro termo da ´ultima etapa de nossa demonstra¸c˜ao ´e uma integral tomada na regi˜ao Pt+h− Pt, a zona cinza da figura.

(42)

Tome um ponto x da fronteira ∂Pt da regi˜ao Pt, cuja velocidade ´e ˙x(x, t) e

uma ´area superficial infinitesimal do corpo ao redor deste ponto, ∆a → dS. Ora, sendo un(x, t, n) = ˙x(x, t)·n a proje¸c˜ao da velocidade na dire¸c˜ao normal `a ´area dS, ent˜ao, dentro

do intervalo de tempo h tendente a zero, esta ´area percorreu uma distˆancia hun(x, t, n),

de volume dV = hun(x, t, n)dS. O primeiro termo na etapa final da equa¸c˜ao, portanto,

pode ser escrito

lim h→0 1 h Z Pt+h−Pt ψ(x, t + h)hun(x, t, n)dS = lim h→0 Z Pt+h−Pt ψ(x, t + h)un(x, t, n)dS.

Admitindo que, no limite de h tendendo a 0, a casca Pt+h− Pt tenda `a fronteira ∂Pt, o

limite torna-se

I

∂Pt

ψ(x, t)un(x, t, n)dS,

o que completa a demonstra¸c˜ao da equa¸c˜ao 4.1.2. 

Podemos usar o teorema da divergˆencia para colocar ambas as integrais do lado direito da equa¸c˜ao 4.1.2 sob o mesmo sinal de integra¸c˜ao. Assim,

d dt Z Pt ψ(x, t)dV = Z Pt ∂ψ(x, t) ∂t + div(ψ(x, t) ⊗ ˙x(x, t))  dV. (4.1.3)

Na equa¸c˜ao 4.1.3, o significado de ⊗ ser´a entendido de acordo com a ordem tensorial da grandeza ψ(x, t). Se ψ(x, t) for um campo escalar, ⊗ ser´a substitu´ıdo por uma multi-plica¸c˜ao escalar simples, ϕ ˙x(x, t) e teremos o divergente de um vetor (equa¸c˜ao B.15), o qual ´e um escalar que ser´a somado ao escalar ∂ψ(x,t)∂t . Se ψ(x, t) for um campo vetorial, ⊗ ser´a o habitual produto tensorial, conforme definido por A.21 e teremos o divergente de um tensor (equa¸c˜ao B.16), o qual ´e um vetor que ser´a somado ao vetor ∂ψ(x,t)∂t . Se ϕ(x, t) for um campo tensorial de ordem segunda ou superior, ⊗ ter´a sua interpreta¸c˜ao readequada de acordo com essa ordem, mas para o presente trabalho n˜ao ´e necess´ario aprofundar este terceiro caso. Entretanto, note que a alternativa equa¸c˜ao 4.1.2 ´e de f´acil interpreta¸c˜ao, em qualquer caso.

Um movimento ´e denominado isoc´orico se dtdvol(Pt) = 0. A derivada do volume

pode ser tomada, de acordo com o teorema do transporte. Fazendo ψ = 1 na equa¸c˜ao 4.1.3, temos d dt Z Pt dV = d dtvol(Pt) = Z Pt div( ˙x(x, t))dV. (4.1.4)

(43)

Para um movimento isoc´orico, portanto,RP

(44)

Cap´ıtulo 5

Equa¸

oes de Balan¸

co

5.1

Teoria geral das equa¸

oes de balan¸

co

As equa¸c˜oes de balan¸co s˜ao frequentes na Mecˆanica e Termodinˆamica dos Meios Cont´ınuos e satisfazem `a equa¸c˜ao

d

dtΦ(P, t) = Ψ∂P(P, t) + ΨP(P, t). (5.1.1)

O lado esquerdo da equa¸c˜ao define a varia¸c˜ao temporal da grandeza Φ na regi˜ao P no instante t. Os termos do lado direito definem, respectivamente, o fluxo Ψ∂P da grandeza

Φ atrav´es da fronteira ∂P da regi˜ao P e a produ¸c˜ao (ou consumo) ΨP da grandeza Φ no

interior da regi˜ao P no instante t.

Os termos de fluxo e produ¸c˜ao podem ser respectivamente escritos como integrais de superf´ıcie e volume, de acordo com

Ψ∂P(P, t) = I ∂Pt ψϕ(x, t, n)dS e (5.1.2) ΨP(P, t) = Z Pt σϕ(x, t)dV, (5.1.3)

onde ψϕ(x, t, n) ´e o fluxo de ϕ normal `a superf´ıcie no ponto x da fronteira ∂Pt de Pt,

no instante t e σϕ(x, t) corresponde `a produ¸c˜ao (ou consumo) de ϕ no ponto x interior

de Pt, no mesmo instante. O fluxo escalar ou vetorial ψϕ(x, t, n), por sua vez, pode ser

(45)

ψϕ(x, t), na dire¸c˜ao normal `a ´area infinitesimal da superf´ıcie ∂Pt localizada em torno do

ponto x, isto ´e, ψϕ(x, t, n) = ψϕ(x, t) · n, onde n ´e unit´ario, ortogonal `a mencionada ´area

superficial e dirigido para fora do corpo.

Colocando a equa¸c˜ao 5.1.1 em sua forma expandida temos, ent˜ao, d dt Z Pt ϕ(x, t)dV = I ∂Pt ψϕ(x, t) · n dS + Z Pt σϕ(x, t)dV (5.1.4)

e, usando o teorema do transporte de Reynolds 4.1.2 no lado esquerdo da equa¸c˜ao 5.1.4, obtemos Z Pt ∂ϕ(x, t) ∂t dV + I ∂Pt ϕ(x, t)( ˙x(x, t)·n) dS = I ∂Pt ψϕ(x, t)·n dS + Z Pt σϕ(x, t)dV. (5.1.5)

A equa¸c˜ao 5.1.5 possui integrais volum´etricas e de superf´ıcie. Podemos utilizar o teorema da divergˆencia nas integrais de superf´ıcie para colocar todos os termos sob o mesmo sinal de integra¸c˜ao na mesma regi˜ao. Assim, lembrando o significado do s´ımbolo ⊗ na equa¸c˜ao 4.1.3, temos Z Pt ∂ϕ(x, t) ∂t dV + Z Pt div(ϕ(x, t) ⊗ ˙x(x, t))dV = Z Pt div(ψϕ(x, t))dV + Z Pt σϕ(x, t)dV. (5.1.6) Colocando todos os termos ao lado esquerdo da equa¸c˜ao sob o mesmo sinal de integra¸c˜ao, obtemos Z Pt ∂ϕ(x, t) ∂t + div(ϕ ⊗ ˙x(x, t) − ψϕ(x, t)) − σϕ(x, t)  dV = 0. (5.1.7)

Sendo a integral da equa¸c˜ao 5.1.7 definida na regi˜ao Pt, seu integrando ´e, necessariamente,

nulo. Ent˜ao, obtemos a forma local das equa¸c˜oes de balan¸co, ∂ϕ(x, t)

∂t + div(ϕ ⊗ ˙x(x, t) − ψϕ(x, t)) − σϕ(x, t) = 0. (5.1.8) Vale ressaltar que, sendo a grandeza ψϕ definida como um fluxo, podemos entender a grandeza ϕ ⊗ ˙x como um fluxo tamb´em, denominado fluxo convectivo da grandeza ϕ.

5.2

Balan¸

co de massa

A equa¸c˜ao 3.1.3, abaixo repetida, d

dt Z

Pt

(46)

´

e a forma integral do balan¸co de massa. Comparando a equa¸c˜ao 3.1.3 com a forma integral da equa¸c˜ao de balan¸co geral 5.1.4, temos

ϕ(x, t) = ρ(x, t),

ψϕ(x, t) = 0 e

σϕ(x, t) = 0.

Portanto, para a massa a forma local da equa¸c˜ao de balan¸co geral, 5.1.8, ´e dada por ∂ρ(x, t)

∂t + div(ρ ˙x(x, t)) = 0. (5.2.1)

A equa¸c˜ao 5.2.1 costuma ser chamada equa¸c˜ao da continuidade. Como ρ(x, t) ´e um campo escalar, tem-se que div(ρ ˙x(x, t)) = ˙x(x, t) · ∇ρ(x, t) + ρ(x, t)div ˙x(x, t)1, logo a equa¸c˜ao

5.2.1 pode ser re-escrita ∂ρ(x, t)

∂t + ˙x(x, t) · ∇ρ(x, t) + ρ(x, t)div ˙x(x, t) = 0.

Mas, fazendo ϕ(x, t) = ρ(x, t) na equa¸c˜ao 2.3.3, temos ˙ρ(x, t) = ∂ρ(x,t)∂t + ˙x(x, t) · ∇ρ(x, t). Ent˜ao, a equa¸c˜ao da continuidade pode, alternativamente, ser escrita

˙

ρ(x, t) + ρ(x, t)div ˙x(x, t) = 0. (5.2.2)

No ´ultimo par´agrafo do cap´ıtulo 4, teorema do transporte, foi mostrado que, para um movimento isoc´orico, tem-se div ˙x(x, t) = 0. Logo, a equa¸c˜ao 5.2.2 mostra que a densidade em cada ponto material do corpo n˜ao se altera em movimento isoc´orico. Fazendo ψ = ρ na equa¸c˜ao 4.1.3, d dt Z Pt ρ(x, t)dV = Z Pt ∂ρ(x, t) ∂t + div(ρ ˙x(x, t))  dV,

portanto o teorema do transporte confirma que a imposi¸c˜ao da equa¸c˜ao 3.1.3 (conserva¸c˜ao da massa) implica nas equa¸c˜oes de continuidade 5.2.1 e 5.2.2, bem como vice-versa. Esta confirma¸c˜ao indica a coerˆencia interna da teoria apresentada. Al´em disto, mostra que quaisquer duas entre as trˆes seguintes afirma¸c˜oes implicam na terceira: (a) conserva¸c˜ao do volume; (b) conserva¸c˜ao da massa; (c) conserva¸c˜ao da densidade em todos os pontos materiais do corpo. Obviamente, isto ´e fisicamente coerente.

1Para um campo escalar α e um campo vetorial v, temos (conferir Apˆendice B, equa¸oes B.7 e B.9)

div(αv) = ∂(αv)i ∂xi = ∂(αvi) ∂xi = vi ∂α ∂xi + α∂vi ∂xi = v · ∇α + αdiv(v).

(47)

5.3

Balan¸

cos de momentos linear e angular

As equa¸c˜oes 3.2.11 e 3.2.12, abaixo repetidas, respectivamente s˜ao as formas integrais dos balan¸cos de momentos linear e angular,

d dt Z Pt ρ ˙x(x, t)dV = Z Pt ρb(x, t)dV + I ∂Pt t(x, t, ∂Pt)dS e d dt Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × ˙x(x, t)dV = Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × b(x, t)dV + I ∂Pt (x − xo) × t(x, t, ∂Pt)dS.

Usando o postulado de Cauchy, t(x, t, ∂Pt) pode ser substitu´ıdo por t(x, t, n) e, por meio

do teorema de Cauchy, dado pela equa¸c˜ao 3.3.5, as equa¸c˜oes 3.2.11 e 3.2.12 podem ser respectivamente reescritas d dt Z Pt ρ ˙x(x, t)dV = Z Pt ρb(x, t)dV + I ∂Pt T(x, t)ndS e (5.3.1) d dt Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × ˙x(x, t)dV = Z Pt ρ(x, t)(x − xo) × b(x, t)dV + I ∂Pt (x − xo) × T(x, t)ndS. (5.3.2)

Comparando a equa¸c˜ao 5.3.1 com a forma integral da equa¸c˜ao de balan¸co geral, 5.1.4, tem-se

ϕ(x, t) = ρ ˙x(x, t),

ψϕ(x, t) = T(x, t) e

σϕ(x, t) = ρb(x, t).

Portanto, para o momento linear, a forma local da equa¸c˜ao de balan¸co geral, 5.1.8, ´e dada por

∂ρ ˙x(x, t)

∂t + div(ρ ˙x(x, t) ⊗ ˙x(x, t) − T(x, t)) − ρb(x, t) = 0 (5.3.3) e, de modo an´alogo, pode-se obter a forma local do balan¸co de momento angular.

Aplicando o teorema do transporte, sob a forma da equa¸c˜ao 4.1.3, `a equa¸c˜ao 3.1.6, a qual ´e coerente com o balan¸co de massa, demonstra-se imediatamente que, se ϕ(x, t) for a imagem de qualquer fun¸c˜ao (escalar, vetorial ou tensorial) do argumento (x, t), ent˜ao

ρ ˙ϕ(x, t) = ∂(ρϕ(x, t))

(48)

Fazendo ϕ(x, t) = ˙x(x, t) na equa¸c˜ao 5.3.4, obtemos ρ¨x(x, t) = ∂(ρ ˙x(x,t))∂t + div(ρ ˙x(x, t) ⊗ ˙x(x, t)), que substitu´ıdo na equa¸c˜ao 5.3.3 produz

ρ¨x(x, t) − divT(x, t) − ρb(x, t) = 0.

Esta ´e a equa¸c˜ao 3.4.1, chamada equa¸c˜ao de movimento de Cauchy. Em outras pala-vras, a equa¸c˜ao de movimento de Cauchy ´e a forma local da equa¸c˜ao de balan¸co geral, especificamente para o momento linear, mas obedecendo tamb´em ao balan¸co de massa.

As formas locais dos balan¸cos de massa e momento linear, este ´ultimo incluindo obediˆencia ao balan¸co de massa, respectivamente chamadas equa¸c˜ao da continuidade e equa¸c˜ao de movimento de Cauchy, s˜ao independentes entre si. Ambos os dois balan¸cos devem ser independentemente impostos a qualquer corpo, para que ele esteja sujeito `

as leis da f´ısica. Entretanto, para movimento r´ıgido o balan¸co de momento angular ´e consequˆencia da aplica¸c˜ao destes dois balan¸cos, ou seja, n˜ao ´e um balan¸co independente.

De fato, as mesmas for¸cas provenientes do exterior s˜ao respons´aveis tanto pelo momento linear, quanto angular do corpo, o qual est´a submetido ao postulado de que sua massa n˜ao se altera. Mas, para mostrar que a forma local do balan¸co de momento angular, obtida a partir da equa¸c˜ao 5.3.2, ´e obedecida, faz-se necess´ario que o tensor de tens˜oes de Cauchy seja sim´etrico ([4], Cap. 2, se¸c˜ao 2.3.3). Por isto, a simetria do tensor de tens˜oes de Cauchy pode ser considerada uma express˜ao alternativa da forma local do balan¸co de momento angular. Por´em, como tal simetria ´e deduzida para movimento r´ıgido, neste caso o balan¸co de momento angular n˜ao ´e independente. Reciprocamente, a imposi¸c˜ao dos balan¸cos de massa e momentos, linear e angular, garante que o tensor de tens˜oes de Cauchy ´e sim´etrico mesmo para deforma¸c˜oes puras.

5.4

Balan¸

co de Energia

A energia cin´etica de uma part´ıcula de massa m que, no instante t, move-se a uma velocidade de m´odulo v em rela¸c˜ao a um referencial, ´e dada por 12mv2. Para um

meio cont´ınuo, a forma mais gen´erica da energia cin´etica, K(Pt) ´e dada por

K(Pt) = 1 2 Z Pt ρ ˙x(x, t) · ˙x(x, t)dV. (5.4.1)

(49)

Admite-se que a energia cin´etica, fornecida pela equa¸c˜ao 5.4.1, n˜ao fornece toda a energia da regi˜ao Pt, de modo que, para se obter o total da energia nessa regi˜ao, definimos

tautologicamente a energia n˜ao-cin´etica Γ(Pt). Alguns textos de mecˆanica dos meios

cont´ınuos, como [4], [2] e [9], denominam esta segunda parcela como energia interna. A fim de distinguirmos a energia interna j´a estabelecida nos textos de termodinˆamica e f´ısico-qu´ımica daquela estabelecida nos textos de mecˆanica dos meios cont´ınuos, utilizaremos o termo energia n˜ao-cin´etica aprioristicamente.

Postulamos que a energia n˜ao-cin´etica obede¸ca `as condi¸c˜oes de continuidade e aditividade, sendo poss´ıvel definir uma energia n˜ao-cin´etica espec´ıfica (raz˜ao entre energia e massa), γ(x, t) (nos mencionados textos, u(x, t)), tal que

Γ(Pt) =

Z

Pt

ργ(x, t)dV. (5.4.2)

Escrevendo v2 = ˙x · ˙x, definimos a energia total E(P

t) como a soma da energia cin´etica

com a energia n˜ao-cin´etica, logo

E(Pt) = K(Pt) + Γ(Pt) = Z Pt ρ(1 2v 2+ γ)(x, t)dV. (5.4.3)

No balan¸co de massa, foi postulado que a massa do corpo jamais se altera, portanto sempre se conserva. J´a nos balan¸cos de momento linear e angular n˜ao foi apresentado postulado an´alogo, portanto estes momentos podem variar, por influˆencia do exterior. Entretanto, se as for¸cas e torques que o exterior exercer sobre o sistema forem nulos, respectivamente o momento linear e angular se conservar˜ao. Isto pode ser facilmente notado anulando t e b nas equa¸c˜oes 3.2.11 e 3.2.12.

O balan¸co de energia ´e an´alogo aos balan¸cos de momentos linear e angular, ou seja, a energia n˜ao precisa se conservar mas, para que ela varie, ´e exigido que haja trocas energ´eticas com o exterior, caso contr´ario ela se conserva. Em termodinˆamica, consideram-se dois tipos de trocas energ´etica, os quais diferem fisicamente no que se refere ao movimento das part´ıculas, quando sujeitas a tais trocas. S˜ao elas calor e trabalho ou, utilizando as respectivas taxas temporais de transferˆencia, a potˆencia t´ermica, Q(Pt) e a

potˆencia at´ermica, P (Pt). Assim, escrevemos o balan¸co de energia

dE(Pt) dt = dK(Pt) dt + dΓ(Pt) dt = Q(Pt) + P (Pt). (5.4.4) Mas note que, como a mecˆanica dos meios cont´ınuos n˜ao lida com part´ıculas (entende-se aqui part´ıcula por uma por¸c˜ao discreta de mat´eria, tais como ´atomos e mol´eculas, por

(50)

exemplo), analogamente ao que ocorre com a energia n˜ao-cin´etica tamb´em a potˆencia t´ermica ´e apenas uma desconhecida parcela aditiva, cuja existˆencia ´e admitida como poss´ıvel. Note que dK(Pt)

dt 6= P (Pt) e dΓ(Pt)

dt 6= Q(Pt).

A potˆencia at´ermica ´e a taxa temporal de trabalho realizado no corpo ou pelo corpo. Este trabalho resulta da a¸c˜ao, sobre o corpo, das for¸cas de corpo e de tra¸c˜ao em um determinado instante, sendo a potˆencia realizada pelas for¸cas de tra¸c˜ao transmitida nas fronteiras do corpo e a efetuada pelas for¸cas de corpo produzida nos pontos interiores do mesmo. Assim, P (Pt) = I ∂Pt ˙x(x, t) · t(x, t, n)dS + Z Pt ρ ˙x(x, t) · b(x, t)dV. (5.4.5)

Foi postulado que a energia n˜ao-cin´etica seja tratada `a semelhan¸ca da energia cin´etica. Analogamente, a potˆencia t´ermica ser´a tratada `a semelhan¸ca da at´ermica. Por isto, a potˆencia t´ermica pode ser decomposta em dois termos aditivos, sendo um deles a raz˜ao, h(x, t, n), entre a potˆencia t´ermica que atravessa uma ´area superficial e esta ´area, para uma vizinhan¸ca infinitesimal do ponto x localizado na superf´ıcie ∂Ptda representa¸c˜ao espacial

do corpo. Note que foi imposto postulado an´alogo ao de Cauchy, mas ao contr´ario do que ocorre com o vetor t, tem-se que h ´e um escalar, sendo sua unidade energia por tempo e ´

area.

Mantendo analogia com tratamento dado ao vetor t, ocorre que h(x, t, n) = −q(x, t) · n, logo h(x, t, n) ´e a proje¸c˜ao do vetor fluxo de calor, q(x, t), na dire¸c˜ao do vetor unit´ario n, o qual ´e normal `a superf´ıcie no ponto x. O sinal negativo ´e devido `a conven¸c˜ao de que toda energia que ingresse no corpo, independentemente das caracter´ısticas f´ısicas de tal energia, seja positiva, enquanto que n ´e orientado positivamente para o exterior do corpo.

O outro termo proveniente da decomposi¸c˜ao ´e a raz˜ao r entre a potˆencia t´ermica absorvida ou emitida (por exemplo, via radia¸c˜ao, rea¸c˜oes qu´ımicas, etc.) e a massa, em um ponto interior da regi˜ao Pt. A unidade de r ´e energia por tempo e massa. Portanto,

Q(Pt) = − I ∂Pt q(x, t) · n dS + Z Pt ρr(x, t)dV. (5.4.6)

Ent˜ao, substituindo as equa¸c˜oes 5.4.3, 5.4.5 e 5.4.6 na equa¸c˜ao 5.4.4, obtemos d dt Z Pt ρ(1 2v 2 + γ)(x, t)dV =

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