UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL DA BAHIA
INSTITUTO DE HUMANIDADES, ARTES E CIÊNCIAS – IHAC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO E RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS– PPGER
Campus Jorge Amado
RAMILLE ROQUE PINHEIRO
VELHA HONÓRIA: UM ENCONTRO COM A MEMÓRIA, A
IDENTIDADE E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DO REMANESCENTE DE
QUILOMBO DO EMPATA VIAGEM DE MARAÚ – BA EM 2020.
BAHIA
2020
RAMILLE ROQUE PINHEIRO
VELHA HONÓRIA: UM ENCONTRO COM A MEMÓRIA, A
IDENTIDADE E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DO REMANESCENTE DE
QUILOMBO DO EMPATA VIAGEM DE MARAÚ – BA EM 2020.
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ensino e Relações Étnico-Raciais.
Linha de Pesquisa: Pós-colonialidade e fundamentos da educação nas relações étnico-raciais,
Orientadora: Profª. Drª. Ana Cristina Santos Peixoto.
BAHIA
2020
RAMILLE ROQUE PINHEIRO
VELHA HONÓRIA: UM ENCONTRO COM A MEMÓRIA, A
IDENTIDADE E AS POLÍTICAS PÚBLICAS DO REMANESCENTE DE
QUILOMBO DO EMPATA VIAGEM DE MARAÚ – BA EM 2020.
Data da Aprovação ______/_______/__________
BANCA EXAMINADORA:
________________________________________________ ProfªDrª Ana Cristina Santos Peixoto
Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) Orientadora
_______________________________________________ Profª. Drª Cristiane Batista da Silva Santos
Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) Examinadora
__________________________________________________ Prof. Drª Cynthia de Cássia Santos Barra
Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) Examinadora
DEDICATÓRIA
Destino a honra de ter mais um sonho concluído aos meus pais Arlindo Pinheiro Filho e Valquíria Roque Pinheiro que sabiamente me direcionaram para trilhar o caminho do conhecimento.
As minhas irmãs Renata Roque Pinheiro e Roberta Roque Pinheiro pelo apoio constante para que eu desbravasse essa interceccionalidade.
A minha avó Arminda Luz Roque (in memória) que me ensinou que a memória é a peça mais importante para formar nossa identidade.
Assim, estas pessoas me conduziram a reconhecer que o mérito maior de toda essa conquista deve ser atribuída a um inúmero grupo de seres humanos que lutaram incessantemente para terem seu lugar de fala, sua voz ouvida e respeitada.
A estes que foram covardemente escravizados e silenciados, dedico esta pesquisa, como forma de legitimar a grandiosidade do valor social, religioso, cultural, político e humano que lhes fora negado, representados aqui pelo Remanescente do Empata Viagem de Maraú.
AGRADECIMENTO
Encetar gratuando a Deus por essa dádiva a mim conferida é o diminuto que poderia fazer. Mas também não posso embeber do egoísmo disseminado por séculos no Brasil que atalhou grupos de seres humanos de reverenciar e saldar seus superiores espirituais, os orixás. Dessa forma, respeitando e valorizando as divindades dos povos africanos que foram escravizados aqui no Brasil, agradeço a Exu, Ogum, Xangô, Oxóssi, Oxalá, Oxum, Obaluaiê, Oxumaré, Iansã, Ossaim e Iemanjá, por acreditar que eles me orientaram e me guiaram em todo esse processo de construção do conhecimento, pois acredito que carrego comigo todas as forças espirituais de vidas passadas.
De maneira grandiosa, agradeço a Deus, a Nossa Senhora, aos Santos e Arcanjos por terem me concedido a graça de ter uma visão ampla e respeitosa por todas as raças humanas e ampliar esse pensamento nesse curso.
Aos meus pais, irmãs e avó Arminda Luz Roque (in memória) que sempre foram à válvula mestra de inspiração para meus estudos.
Aos poucos e verdadeiros amigos em especial a minha amiga/irmã Cintia de Souza Reis, meus primos(as) Marcos Vinícius Roque Santos e Maria Gilcélia Sacramento Pinheiro e a minha amiga Thaís Santana Vieira pelo incentivo, apoio e ajuda. Aos colegas pelas trocas de experiências e companheirismo, principalmente Lis Pimentel Almeida e Cristiane Santos de Melo e a Diego Maradona da Hora Mendes por ter me incentivado a fazer a inscrição do mestrado e ter compartilhado da experiência comigo.
Aos meus tão sábios professores que me proporcionaram ampliar minha visão de mundo.
Em especial, agradeço à Comunidade de Remanescente do Empata Viagem, que me acolheram e me ensinaram que conhecimento se constrói com a valorização da memória, da identidade, do respeito e da comunicação entre os iguais e os diferentes.
Figura 01. Manoel Freire da Silva
Fonte: Fotografia da Pesquisa de Campo de Ramille Roque Pinheiro em 20.12.2019
Onde houve escravidão houve resistência. E de vários tipos. Mesmo sob a ameaça do chicote, o escravo negociava espaços de autonomia com os senhores ou fazia corpo mole no trabalho, quebrava ferramentas, incendiava plantações, agredia senhores e feitores, rebelava-se individual e coletivamente (REIS; GOMES, 1996, p.9).
RESUMO
O escopo deste trabalho é apresentar o reconhecimento da consciência de identidade dos remanescentes do Empata Viagem, por meio da memória, desmistificando a ideia de autodeclaração decorrente das “oportunidades” advindas das políticas públicas. Neste teor, será apresentado um breve histórico do Município de Maraú, localizando o remanescente do Empata Viagem, traçando toda sua trajetória ancestral até os dias atuais, que será elucidada por meio da memória dos membros da comunidade. A base está pautada na hipótese de que a Comunidade do Empata Viagem de Maraú vem formando a sua identidade por meio da memória viva, transmitida através da oralidade de seus anciãos, dos estudos ofertados nas escolas, das leituras desenvolvidas e do contato com outros grupos remanescentes. Desenvolveremos a pesquisa utilizando a etnografia, a cartografia, a história oral, a pesquisa descritiva, explicativa, bibliográfica, documental e entrevista informal. Serão apresentados os meios legais percorridos, os direitos adquiridos e as transformações positivas vivenciadas pela comunidade que se tornaram o reflexo legítimo da força, existência, resistência, ocupação do lugar de fala e consciência de pertencimento, bem como a riqueza de conhecimentos medicinais naturais e culinários oriundos da herança de seus ascendentes demonstrados por mulheres da comunidade. Por fim, criamos uma museoteca virtual para alcançar olhos e ouvidos de diferentes pessoas e grupos e dar visibilidade para o valoroso acervo histórico, cultural, econômico, social e educacional que a comunidade dispõe.
Palavras-chave: Memória; Identidade; Políticas Públicas; Remanescente de
RESUMEN
El alcance de este trabajo es presentar el reconocimiento de la conciencia identita de los restos de Empata Viagem, a través de la memoria, desmitificando la idea de autodeclaración resultante de las "oportunidades" derivadas de las políticas públicas. En este contenido, se presentará una breve historia Del Municipio de Maraú, localizando el remanente de Empata Viagem, trazando toda su trayectoria ancestral hasta nuestros días, que será esclarecida a través de la memoria de los miembros de la comunidad. La base se basa em la hipótesis de que la Comunidad de Empata Viagem de Maraú ha ido formando su identidad a través de la memoria viva, transmitida a través de la oralidad de sus mayores, los estudioso frecidos em lãs escuelas, lãs lecturas desarrolladas y el contacto conotros grupos restantes. Desarrollaremos la investigación utilizando etnografía, cartografía, historia oral, descriptiva, explicativa, bibliográfica, documental y entrevistas informales. Se presentarán los medios jurídicos cubiertos, los derechos adquiridos y lãs transformaciones positivas experimentadas por la comunidad que se han convertido em el reflejo legítimo de la fuerza, la existencia, la resistencia, la ocupación del lugar de expresión y la conciencia de la pertenencia, así como la riqueza de los conocimientos medicinales naturales y culinarios derivados Del patrimonio de sus ascendientes demostrado por lãs mujeres de la comunidad. Por último, creamos um museo virtual para llegar a los ojos y oídos de diferentes personas y grupos y dar visibilidad a la valiosa colección histórica, cultural, económica, social y educativa que tiene la comunidad.
Palabras clave: Memoria; Identidad; Política Pública; Quilombos remanente de
LISTA DE FIGURAS
Figura 01: Manoel Freire.
Figura 02: Certidão de auto-reconhecimento da Comunidade de Maraú-BA. Figura 03: Marina Santos Souza.
Figura 04: Mapa geográfico do Município de Maraú – BA. Figura 05. Mapa da comunidade do Empata Viagem.
Figura 06: Publicação de Certificação no Diário Oficial Fundação Palmares.
Figura 07: Certidão de Auto-reconhecimento do Remanescente do Empata Viagem. Figura 08: Irênio Monteiro.
Figura 09: Localização das comunidades remanescentes de Maraú-BA. Figura 10: Miguelita Ferreira da Silva.
Figura 11: Maria Luiza da Conceição Souza.
Figura 12: Antônia Conceição Oliveira – Secretária da Associação. Figura: 13: Manoel Freire.
Figura 14: Reunião da Associação dos Quilombos da Região do Empata Viagem. Figura 15: Antiga sede da Associação de Quilombo e região do Empata Viagem. Figura16: Atual sede da Associação de Quilombo e região do Empata Viagem. Figura 17: Escola Municipal Tomé Monteiro (atual escola da comunidade).
Figura 18: Antiga Escola da Comunidade do Empata Viagem – Escola Vitório Magalhães.
Figura 19: Maria Aparecida Souza Barbosa. Figura 20: Casa do Programa Habitação Rural.
Figura 21: Casa de moradores da Comunidade Remanescente do Empata Viagem. Figura 22: Café da manhã na inauguração da sede da associação.
Figura 23: Grupo cultural estudantil do remanescente do Empata Viagem. Figura 24: Time de futebol masculino e feminino do Empata Viagem.
Figura 25: Capa do blog: Museoteca de Remanescente de Quilombola do Empata Viagem.
Figura 26. Irênio Monteiro Figura 27: Manoel Freire.
Figura 28: Miguelita Ferreira da Silva. Figura 29: Domingas Maria da Conceição.
Figura 30: Manoel Marcolino de Souza. Figura 31: Maria Luiza da Conceição. Figura 32: Marina Santos Souza.
Figura 33: Genário Conceição da Silva. Figura 34: Maria Aparecida Souza Barbosa. Figura 35: José Conceição da Silva.
Figura 36: Antônia Conceição Oliveira.
Figura 37: Reginaldo Conceição Nascimento.
Figura 38: Café da manhã na inauguração da sede da associação. Figura 39: Reunião da Associação no dia que fui apresentar o projeto. Figura 40: Reunião da Associação no dia que fui apresentar o projeto.
Figura 41: Imagens das mulheres negras que presenteei à associação confeccionadas por Thais Santana Vieira.
Figura 42: Imagens das mulheres negras que presenteei à associação confeccionadas por Thais Santana Vieira.
Figura 43: Crianças da comunidade remanescente de Empata Viagem. Figura 44: Crianças da comunidade remanescente de Empata Viagem. Figura 48: Pés de Manoel Freire.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABA – Associação Brasileira de Antropologia
ADCT – Atos das Disposições Constitucionais Transitórias
CEPLAC –Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira
CF – Constituição Federal DNA –Ácido desoxirribonucleico
EBDA- Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola FCP – Fundação Cultural Palmares
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação
MinC – Ministério da Cultura
PAA – Programa de Aquisição de Alimentos PBQ – Programa Brasil Quilombola
PDDE – Programa Dinheiro Direto na Escola
PNPCT – Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e
Comunidades Tradicionais
PRONAF –Programa nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
PRONATEC – Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego
PSF – Programa Saúde da Família
SEPPIR – Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial SISEPIR – Sistema Estadual de Promoção da Igualdade Racial
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO... ... 13 2. QUILOMBOS: CONCEITOS... 19
2.1. Minha trajetória pessoal e profissional com remanescentes de Quilombo... 19
2.2. Conceito de quilombo e sua ressignificação na contemporaneidade... 25
2.3. A comunidade do Empata Viagem se descobrindo como Remanescente... 35 3. MEMÓRIA E IDENTIDADE... 44
3.1. A história dos Remanescentes do Empata Viagem formada por meio da memória e da construção da identidade... 44
4. A TROCA DOS TRÊS “P” PARA OS TRÊS “F”: FIRMES, FORTES E
FANTÁSTICOS: REMANESCENTES DO EMPATA VIAGEM A AS POLÍTICAS PÚBLICAS... 65
4.1. Programas das Políticas Públicas para Comunidades de Remanescentes de Quilombos... 65
4.2. Remanescente do Empata Viagem e o seu empoderamento com as Políticas Públicas... 74 5. MUSEOTECA DO EMPATA VIAGEM: UM MERGULHO NA MEMÓRIA,
IDENTIDADE, VALORIZAÇÃO E CONQUISTAS DE UM POVO... 90
6. CONCLUSÃO... 114
REFERÊNCIAS... 117
INTRODUÇÃO
A origem de Mairahú se deu por volta de 1705, passando a ser vila em 17/06/1761 sobrevindo a ser chamada de São Sebastião de Mairahú. Através do Decreto-Lei nº. 10.724, de 30 de Março de 1938, torna-se cidade, recebendo oficialmente o nome de Maraú. Atualmente o Município tem uma superfície de 774.447 km² e integra a mesorregião do Sul Baiano, região da Costa do Dendê.
Maraú foi construída por índios que habitavam a região, foi habitada também por frades capuchinhos italianos e por negros africanos que foram obrigados a trabalhar na localidade. É partindo desta presença negra africana que o presente trabalho é respaldado. Nos dias atuais, Maraú comporta 06 comunidades descendentes de quilombos, dentre elas a do Empata Viagem. Vale ressaltar que no dia 04/03/2004 a sede do município de Maraú foi reconhecida pela Fundação de Palmares, órgão do Governo Federal, como comunidade remanescente de quilombo, entretanto, a publicação no Diário Oficial da União somente aconteceu no dia 12/05/2006.
É notório que o Município de Maraú abarca em seu histórico e em toda sua trajetória de cidade a forte presença do negro. Povo que bravamente lutou para deixar seu legado, seu reconhecimento como seres humanos dignos de valor e de respeito e continua resistindo e ocupando seu lugar de fala.
Contudo, durante muito tempo na história e na sociedade brasileira, pouca importância foi dada à história e a vida do negro africano que foi escravizado no Brasil. O pouco que se via nos livros didáticos era uma história distorcida, fantasiosa e cheia de recortes, colocando o negro africano sempre em uma posição social e intelectual de inferioridade e submissão. Infelizmente, em pleno século XXI uma parte da população negra ainda desconhece sua verdadeira história, suas reais origens, toda sua potencialidade de inteligência, sua garra de resistência, assim como seu legado cultural, religioso e social.
A falta de conhecimento acerca do seu DNA acarreta numa aceitação e valorização parcial de uma descendência étnica tão forte que ainda é desconhecida
em seu todo. Diante deste panorama e de um grupo social que sempre esteve à margem de uma sociedade e foi a este negado um direito de igualdade, equidade e oportunidade, vem sendo criadas políticas públicas para amenizar, oportunizar ou mesmo tentar reparar erros que foram acometidos para com estes povos.
A comunidade do Empata Viagem de Maraú-BA foi reconhecida legalmente como Remanescente de Quilombo, porém, existe uma inquietação em buscar por meio da memória que é o resgate do passado de forma oral, reconstruir e analisar o processo de formação da identidade desse povo. Pois, através de conversas informais com alunos e moradores da comunidade, notei a ausência de conhecimento com base teórica, estando às falas pautadas em discursos eurocêntricos, ingênuos e distorcidas acerca da real identidade do que vem a ser descendentes de pessoas escravizadas, de saber sua verdadeira história, processo de escravidão e lutas para dissolução do regime escravista, fugindo assim, de uma consciência de identidade em formação. Consciência no sentido de ter sua identidade formada por meio de informações verídicas, e não, reproduzida buscando a atender aos grupos dominantes da época. Desta forma, diante da percepção feita com a comunidade do Empata Viagem e buscando dialogar com a pós-colonialidade a fim de ampliar o conhecimento e quebrar com a ideia da existência de grupo superior e de grupo de subalterno, trazendo à tona toda a riqueza de conhecimento,foi pensado o tema que norteia o presente estudo: Velha Honória: um encontro com a memória, a identidade e as políticas públicas do remanescente de quilombo do Empata Viagem de Maraú – BA em 2020.
Diante deste panorama, justifica-se que este estudo busca responder se a consciência e formação da identidade que é algo decorrente da memória viva e passada entre gerações, está presente nesta comunidade com raízes reais e verídicas ou apenas identificam-se como remanescentes em decorrência da existência de um documento que assim os intitulam e proporcionam benefícios advindos das políticas públicas direcionadas para estes grupos? A resposta descenderá da coleta de informações provindas das entrevistas que serão executadas em forma de conversação para permitir que os depoentes fiquem bastante à vontade. Por fim, será criada uma museoteca virtual sobre e com a
comunidade valorizando o conhecimento e os saberes dos descendentes de quilombolas.
Destarte, o presente estudo ocorrerá por etapas que serão apresentadas da seguinte maneira:
No primeiro capítulo será explanado sobre minha experiência profissional e acadêmica em relação aos remanescentes de quilombo, bem como os conceitos e formação dos quilombos no Brasil, sobre o viés teórico, enfatizando as diferentes concepções do termo no decorrer do tempo, e como esses espaços passaram a ser vistos e conceituados pelos próprios remanescentes, pois conforme Souza (2005, p. 31):
Ao circularmos por diferentes espaços sociais assumimos papéis e nos posicionamos como homens, mulheres, filhos, pais, mães, estudantes, profissionais, religiosos. Estas muitas experiências cotidianas dizem respeito ao processo de construção ou desconstrução da identidade e da alteridade do semelhante e do diferente. O processo de identificar iguais conjuntamente produz a distinção. (SOUZA, 2005, p.31).
O ser humano muda constantemente e correlato à sua mudança a sociedade se transmuta e juntamente ambos evoluem, vão encaixando as diferentes realidades e experiências de vidas, levando em consideração o correlato e o divergente. Essas experiências enriquecem e torna-nos capazes de desmistificarmos o que estava estabelecido como correto, proporcionando-nos formular novas concepções. Esse processo desencadeia a formação da identidade.
No segundo momento, discorreremos sobre a memória e identidade partindo da análise conceitual de teóricos que abordam sobre o tema, como Kabenguele Munanga, que diz “a identidade passa pela contribuição histórica do negro na sociedade brasileira, na construção de economia do país com seu sangue; passa pela recuperação de sua história africana, da sua visão do mundo, de sua religião”, assim, será traçado um paralelo com a história contada pelos membros da comunidade do Empata Viagem, buscando equiparar como as comunidades remanescentes conceberam durante anos da história a participação do negro na sociedade brasileira partindo do pressuposto que tais relatos foram passados de maneira eurocêntrica e enfatizar como atualmente tais concepções estão sendo desmitificadas e como os Remanescentes do Empata Viagem estão engajados em
conhecer sua história pelo olhar verídico, contada pelos próprios negros partindo da ideia de empoderamento e consciência advinda dos estudos e das políticas públicas. Já no terceiro capítulo, evidenciaremos a gama de Políticas Públicas ofertadas para Comunidades Remanescentes e como essas políticas públicas são utilizadas pelos Remanescentes do Empata Viagem enfatizando a visão, o conhecimento, a postura, frente a esta forma utilizada para restituir direitos que foram durante anos, contraditados. Tem como escopo traçar a trajetória histórica das políticas públicas quilombolas no Brasil estabelecendo uma relação com os Remanescentes de Quilombo do Empata Viagem, visando apontar os inúmeros programas que consolidam os benefícios advindos de muitas lutas, manifestações, reuniões e reconhecimento de direitos que durante muitos anos foram retirados e negados a quem de direito. Verificando a importância da Associação de agricultores do Remanescente de Quilombo Empata Viagem para a adesão e implantação dos diferentes programas na comunidade.
Será utilizado o método de pesquisa descritiva, explicativa, bibliográfica e documental,bem como farei uso da etnografia, cartografia e história oral por meio das entrevistas em forma de conversação. Assim, acumularei informações suficientes para apresentar a história dos grupos negros a partir da perspectiva do olhar e da fala do próprio negro, permitindo que a narrativa de todo o processo histórico apresentado pelos membros da comunidade possibilite vislumbrarmos os avanços e conquistas que a comunidade vem passando por meio de seus esforços e consciência de capacidade, que desencadeiam na forte estrutura social, cultural e econômica atual. Como partes do processo de construção do conhecimento foram realizadas leituras de guias de políticas públicas, obras de autores como Kabengele Munanga (2006/2012), Djamila Ribeiro (2017), Batliwala (1994), Antônio Olavo (2004), Ilka Leite (1996), Cunha Jr. (2012), Hobsbawn (2004), Fernandes (1964), Gonzalez (1982), Hall (2004), Le Goff (2003), Moura (2004), Spivak (2010), Reis (1996), Pollak (1992/1989), Santos (2015), Reis (1995/1996), dentre outros que versam sobre a temática e tendem a possibilitar um entendimento mais estruturado, aprofundado e esclarecedor sobre as políticas públicas para remanescentes de quilombos, colaborando para assuntos condizentes ao abordado.
Em desfecho, juntamente com a comunidade, criaremos uma museoteca virtual, composta por objetos antigos que fazem parte do acervo pessoal dos membros da comunidade e que, por estes, serão disponibilizados e expostos por meio de fotografias buscando representar o valor e a força da memória tão bem guardada e transmitida pelos anciãos da comunidade; imagens de membros da comunidade e depoimentos correlatos à história, identidade, desenvolvimento e empoderamento, como forma de demonstrar à trajetória, o cotidiano, os saberes e fazeres, as conquistas, os personagens, ou seja, a memória e a identidade do Empata Viagem; Serão disponibilizados e-books de autores negros que servirão para incentivar e impulsionar a leitura e tornar conhecidos negros que se destacam na literatura e áreas afins, servindo de exemplo para inspirar novos escritores, sejam eles da comunidade do Empata Viagem, como visitantes, assim como,para estimular o gosto pela leitura. Ler obras de autores negros possibilitam desmistificar conceitos e informações acerca do negro, tornando-os mais conhecedores de seus direitos e engajados com as causas correlatas. Estarão disponíveis também, trabalhos científicos especificamente sobre o Empata Viagem. A museoteca virtual estará disponível para visitação por meio exclusivamente virtual e eu e alguns membros da comunidade ficaremos incumbidos de mantê-la atualizada. O produto final foi pensado a partir de uma conversa minha com a diretora Maria Aparecida Conceição Souza Barbosa da Escola Municipal Tomé Monteiro que ao me ouvir explanar a ideia de fazer uma museoteca, relatou que um morador da comunidade que reside em outro Estado, já havia sinalizado o sonho de criar um museu na comunidade, assim, como forma de tornar realidade um desejo de um descendente que jamais esqueceu suas origens e oportunizar a Comunidade do Empata Viagem a valorizar e resgatar a memória e identidade e correlato a isso, serem protagonistas da sua própria história podendo divulgar sua evolução, conquistas e consciência de pertencimento, se percebendo como construtores em formação de importantes etapas que estão por vir, a fim de utilizarem sabiamente a memória e continuar no processo de formação de identidade, acordamos criar a museoteca.
Acredita-se, portanto, que o presente estudo servirá para ressignificar o destemor, somando com a história de outras comunidades remanescentes que estão a escrever sua própria história, buscando melhorar a consciência de igualdade, equidade e respeito na nossa sociedade e deixar para as gerações
futuras, uma história de raiz, do negro para o negro, do negro para o branco, do negro para o indígena, do negro, para todos os seres humanos, demonstrando a importância e influência que as Políticas Públicas têm para as comunidades remanescentes.
2 QUILOMBOS: CONCEITOS
2.1 Minha trajetória pessoal e profissional com remanescentes de
Quilombo
Em forma de memorial irei discorrer sobre minha experiência acadêmica e profissional em relação às comunidades de remanescentes de quilombos, trazer para o cenário de visibilidade a Comunidade Remanescente do Empata Viagem. Assim, não vejo esta narrativa apenas como uma obrigação acadêmica para a obtenção da certificação do título de Mestra. Vai muito além... É uma missão oportunizada a mim, dar voz e buscar ouvidos para um dos povos que foram os grandes responsáveis pela nossa formação identitária. Contudo, por terem sido marginalizados, esquecidos, silenciados, apagados durante séculos, pouco sabemos sobre eles, embora a busca por maiores informações, seja constante. Dessa forma, vi nos Remanescentes do Empata Viagem uma representação assertiva que traduz em síntese, o que foi, o que é, e o que será a presença do povo negro na nossa sociedade.
Relembrar toda essa trajetória, me emociona e me faz ter certeza que estou no caminho certo, pois eu posso não saber quantas vidas eu transformei nesses árduos passos, mas, eles com certeza sabem.
Desde muito nova, na fase da infância gostava de ensinar para as bonecas o que aprendia na escola, por isto acredito que nasci com vocação para ser professora.
Fiz o fundamental I e II sem repetir séries e me identificava muito com as aulas de história. Os professores explicavam o conteúdo e eu não apenas ouvia a explanação, eu literalmente me teletransportava e me sentia personagem da história. Parece algo um tanto louco, mas era de fato isso que ocorria.
Os anos se passaram e lá estava eu, pronta e determinada para cursar o Magistério. Vale ressaltar que, sempre morei em Ibiaçú, Distrito de Maraú e por falta de Colégio que ofertasse o Magistério, estudava na cidade de Ubaitaba que fica à 10
km de distância de Ibiaçú. Destaco que todo percurso era e ainda é de estrada de chão. Enfrentei chuvas, atoleiros, caronas em caminhões, em caçambas de pedra, em carros quase caindo os pedaços. Tais experiências me motivaram na busca de alcançar meu objetivo.
Formei em magistério em 2002 com a certeza de que uma etapa eu tinha vencido. Mas, queria mais.
Consegui emprego como professora na Escola Municipal Dr. Antenor Lemos, em Ibiaçú, atualmente Escola Municipal Antonio Viana Filho, escola na qual havia estudado parte do ensino fundamental II e me sentia plena e feliz pela conquista, mas sabia que apenas aquilo não me bastava. Em 2005, passei no vestibular para o curso de Licenciatura em História na Faculdade Santo Agostinho – (FACSA) em Ipiaú.
Como já me identificava muito com o período colonial do Brasil (século XVII ao XIX), fiz meu trabalho de conclusão com o Grupo Cultural Cucumbi, um grupo afro-brasileiro de Maraú.
É importante frisar que na época não se falava abertamente da possibilidade da sede ser um remanescente, atualmente a cidade de Maraú é legalmente reconhecida pela Fundação Palmares. Motivo de orgulho para toda população local.
A certificação serve para fortalecer as lutas e os enfrentamentos travados pela população negra objetivando traçar metas para a obtenção dos direitos que pertencem legalmente a nós, povos remanescentes, que descendemos de povos tão batalhadores e que honraram seu valor. Bem como para afirmar e defender uma identidade que foi subjugada.
Ao desenvolver o trabalho, me encontrei e passei a buscar mais informações sobre os remanescentes de quilombos.
Figura 02. Certidão de auto-reconhecimento da Comunidade de Maraú-BA
Fonte:Associação Cultural Municipal de Maraú-BA
Concluí a faculdade em 2008 e no mesmo ano fui aprovada no concurso Municipal de Maraú, para o cargo de professora.
Contudo, em 2009 fui convidada para ser gestora escolar no Município de Maraú-BA e aceitei. A Escola a qual eu era gestora recebia alunos do Remanescente de Empata Viagem e tinha parceria com a comunidade em decorrência do programa PAA. Logo, me despertou o interesse em contribuir de
alguma forma para o desenvolvimento da comunidade, então, procurei me engajar, buscando ainda mais informações sobre a comunidade.
No ano de 2008, mesmo antes de concluir a graduação, dei início a minha especialização (Lato Sensu) em História e Historiografia do Brasil pela Faculdade Santo Agostinho (FACSA), vindo a concluir em 2010 e defendi a monografia em 2011, na qual, também trabalhei com o Grupo Cultural Afro-brasileiro Cucumbi de Maraú.
Em 2010, enquanto concluía a pós-graduação, fui aprovada no concurso do Estado da Bahia para professora de História, sendo convocada em 2012 e passei a atuar justamente onde sempre objetivei, no Colégio Estadual Clemente Mariani, mesma instituição em que estudei o ensino fundamental I, em Ibiaçú-Maraú-BA.
Conciliava a direção das escolas no Município e minha função de professora estadual. Mas apenas tudo isso, não me bastava. Via que ao meu redor tinham muitas pessoas que se inspiravam em mim. Pessoas, pobres, negras, moradores da zona rural, de pais que não tiveram oportunidade de frequentar a escola, alguns sem expectativa de vida e de sonhos. Eu não era apenas Ramille Roque Pinheiro, eu era um deles que estava vencendo por meio do estudo. Nunca tive a vaidade de pensar que meu papel eu já tinha executado, pelo contrário, eu estava começando, apenas começando.
Por acreditar que conhecimento é sempre bem vindo, em 2011 dei início à minha segunda graduação na Universidade Estadual de Santa Cruz – (UESC), pelo programa PARFOR, Licenciatura em Língua Estrangeira Moderna – Inglês.
Menciono também que no final de 2012, saí da função de diretora e fui ministrar aulas no fundamental II na escola Antônio Viana Filho. Uma das maiores felicidades da minha vida.
Vale frisar que durante todo o percurso narrado até aqui, participei de vários congressos, oficinas, seminários, palestras, tudo que promovia conhecimento na área de história, eu estava disposta a participar. Sempre com total apoio e incentivo dos meus pais e irmãs.
Em Agosto do ano de 2016, iniciei minha terceira graduação em Direito na Faculdade União Metropolitana de Educação e Cultura – (UNIME) e após cursar três semestres, transferi para a Faculdade de Tecnologia e Ciências – (FTC), lá a experiência com o curso de Direito é maior e o valor dado para questões étnico-raciais se faz mais presente na vida dos alunos do curso de Direito, em que tive a oportunidade de produzir e apresentar artigos acerca da temática étnico-racial e acredito que fiz a escolha certa ao me transferir.
Estudos e trabalho sendo conciliados com muitas noites sem dormir, com vida social quase nenhuma, pois sou concursada 20 horas na rede Municipal de Maraú e 40 horas na rede Estadual da Bahia. Continuo morando e trabalhando no Distrito de Ibiaçú e estudo em Itabuna, sendo assim, a minha vida de idas e vindas, de enfrentar estradas de chão com atoleiros e lama, com risco de assaltos na estrada, continua, mas não são motivos para me desencorajar.
Sou para minha comunidade e para meus alunos um exemplo, o que motivou muitos deles que concluíram o ensino médio a ingressar em cursos de graduação para estudar e buscar seus sonhos e os que ainda estão estudando, a traçar metas para o futuro.
Em 2018 por incentivo de um colega de trabalho, me inscrevi na seleção do mestrado na Universidade Federal do Sul da Bahia – (UFSB) e para minha surpresa, fui aprovada. No primeiro momento não sabia se ria, se chorava, se pulava, se agradecia ou me desesperava. Queria muito colocar em prática um projeto que tinha em mente, que era de trabalhar com os Remanescentes do Empata Viagem, mas acreditava que o trabalho que estava desenvolvendo em sala de aula com os alunos, que em boa parte são dessa comunidade, era o suficiente para aquele momento. Entretanto, minha missão era maior do que eu pensava e eu seria incapaz de recuar, pois a aprovação era na área que eu queria, e na universidade que sempre desejei.
Pedi licença do trabalho do município, pois a lei me permitia ter uma licença remunerada, diminui a quantidade de disciplinas no curso de Direito e assim comecei uma rotina mais louca do que eu já tinha.
Minha família super orgulhosa de mim, eu ainda no estado de choque com tudo isto acontecendo de forma tão rápida, dormi e acordei mestranda em Ensino e Relações Ético-Raciais na UFSB.
Desde o início da minha vida acadêmica meu público alvo sempre foi pessoas negras, grupos culturais afro-brasileiros e remanescentes, de preferência pessoas as quais eu tivesse um convívio, um conhecimento bem próximo e que fossem pessoas engajadas com causas étnico-raciais, com consciência do seu valor, com garra para lutar pelos seus direitos podendo ter seus saberes e histórias propagadas em toda e qualquer parte do mundo. Dentro destas características, estão os Remanescentes do Empata Viagem, que parte destes são meus alunos, ex alunos ou futuros alunos. Partindo deste objetivo que eu entendo como missão, elaborei meu projeto com o escopo de apresentar que o reconhecimento da consciência de identidade dos remanescentes do Empata Viagem, ocorre por meio da memória, desmistificando a ideia de autodeclaração decorrente das “oportunidades” advindas das políticas públicas. Embora ressalto que, a presença das políticas públicas são fundamentais para instigara busca pelo conhecimento de sua verdadeira história, restaurando e evidenciando a memória dos anciãos da comunidade, bem como tornando-os conhecedores de seus direitos.
Essa comunidade foi legalmente reconhecida pela Fundação Palmares como Remanescente de Quilombo no ano de 2004, e desde então, vem com muita consciência resgatando por meio da memória a sua história e por meio do conhecimento das leis, vem buscando resgatar direitos que destes foram tomados. Assim, se valem principalmente das políticas públicas para obterem a faculdade que lhes cabem.
Desde meu ingresso no curso do mestrado, percebo que minha prática em sala de aula vem ganhando um significado diferente, eu diria que mais engajado com as causas do grupo ao qual eu pertenço, o dos negros. Busco sempre oportunizar uma consciência crítica, de resistência, de ressignificação, de consciência de valor cultural, histórico, religioso e humano. O curso é um leque cultural riquíssimo, meus colegas trazem consigo relatos e experiências de vida incríveis, que eu jamais vivenciei na pele. Trazem um conhecimento amplo e claro que ao confrontar com os teóricos apresentados pelos professores, me fizeram mergulhar em um oceano de
conhecimento muito longe de qualquer preconceito. Preconceito este que jamais tive ou sofri, mas que presenciei muitas pessoas terem e/ou sofrerem e que me fizeram perceber que precisamos cada dia mais resistirmos e lutarmos para promovermos a conscientização da igualdade, do respeito e da busca pela reparação dos erros causados a toda população negra.
Após descrever um pouco sobre minhas memórias e meu processo de formação, passaremos agora a problematização do conceito de quilombo e seu significado na contemporaneidade.
2.2
Conceito
de
quilombo
e
sua
ressignificação
na
contemporaneidade.
São vários os conceitos e definições atribuídos ao Quilombo no decorrer dos tempos, porém, estudos afirmam que é datada de 1559 a primeira menção em documentos oficiais referente à existência de quilombos. Embora, apenas em 1740 o Conselho Ultramarino, conceitua-o “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles” (Moura: 1981, p.16). Era uma visão voltada para qualificar o negro apenas como fujão, não vislumbrava o seu potencial de ser humano que reivindicava melhores condições de trabalho, de vida e que lutava contra os maus tratos sofridos. O negro escravizado era simplesmente coisificado, tratado como um rebelde sem causa. O Quilombo era apontado como lugar ocupado por criminosos, negros perigosos, abomináveis, um local propício para vadiagem e representava o perigo. Embora fique evidente os ideais revolucionários, que tinha como escopo, livrar todo aquele povo marginalizado das deprimentes realidades que viviam e buscavam a transformação da esfera política.
O quilombo simbolizava o enfrentamento travado pelos grupos oprimidos, ainda que estejamos em um processo de desfazimento das interpretações eurodescendentes e tendo mais espaços sendo ocupados pelas versões afrodescendentes que nos possibilitam enxergar o verdadeiro significado dos quilombos.
A formação dos quilombos era a mais real demonstração da insatisfação dos grupos acabrunhados com o regime escravocrata do período.
Para Moura, (2004, p.335):
Na história da escravidão no Brasil, os quilombos exerceram um importantíssimo papel de resistência e contribuíram para desgastar social e economicamente o sistema escravista, proporcionando a sua consequente substituição pelo trabalho livre. (MOURA, 2004, p.3350).
Por assim dizer, os quilombos foram à primordial referência que reflete os passos firmes dados pelos grupos explorados na tentativa de esfacelar o regime opressor vigente na época.
Muito embora tenham passados anos sendo propagada uma visão eurocêntrica sobre os quilombos, Leal (1995, p.9) classifica os quilombos como:
[...] lugares onde os negros se refugiavam dos senhores de escravos, que os tratavam com os piores castigos. Esses locais, geralmente de difícil acesso, como as serras do Nordeste, se transformaram em verdadeiras cidades. Muitas delas foram destruídas, outras, entretanto, permaneceram intactas até o fim do regime de escravidão no Brasil. (LEAL, 1995, p.9).
Sabe-se que a mão de obra no período escravocrata era a do negro que foi duramente escravizado. Muito longe de ser “burro”, como por séculos foi taxado, o escravizado sabiamente elaborou estratégias para afirmar seu descontentamento com as imposições religiosas, sociais, políticas e culturais da época, buscando bravamente transmudar a vida que era obrigado a ter. Assim, os quilombos foram a válvula mestra de tais estratégias. Vale frisar, que no Brasil, vários quilombos foram criados, tendo como a maior referência o Quilombo de Palmares, na Serra da Barriga, localizado na região do atual Estado de Alagoas. Outra referência de revoltas e resistências é o Engenho de Santana, que localizava-se em Ilhéus, no Sul da Bahia, criado no século XVI.
Para João José Reis,
A formação de grupos de escravos fugitivos se deu em toda parte do Novo Mundo onde houve escravidão. No Brasil estes grupos foram chamados de quilombos ou mocambos, os quais às vezes conseguiram congregar centenas e até milhares de pessoas. Como se repetiu em muitos outros quilombos, esta população não era constituída apenas de escravos fugidos e seus descendentes.Para ali também convergiram outros tipos de
trânsfugas, como soldados desertores, os perseguidos pela justiça secular e eclesiástica, ou simples aventureiros, vendedores, além de índios pressionados pelo avanço europeu.Mas predominavam os africanos e seus descendentes. Ali, africanos de diferentes grupos étnicos administraram suas diferenças e forjaram novos laços de solidariedade, recriaram culturas. (REIS, 1995/1996, p.16).
Embora muitos tenham ideias frigorificadas que atribuem aos quilombos uma presença restrita de negros, estes locais representavam além da resistência a autonomia de diversos grupos subalternos que encontravam ali um espaço para respeitar e valorizar as diferenças, ressignificar suas culturas e traçar metas para buscar mudanças na estrutura política e social.
Pós-abolição vários conceitos vêm sendo vinculados exemplificando o termo Quilombo na contemporaneidade. Nesta perspectiva, é de suma importância apresentar que o conceito de Comunidade Quilombola ou Remanescente de Quilombo tem amparo legal desde 20 de Novembro de 2003 com o Decreto 4.887 que regimenta:
Art. 2º: Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos, para fins de decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.
§1º Para os fins deste Decreto, a caracterização dos remanescentes das comunidades dos quilombos será atestada mediante autodefinição da própria comunidade. (BRASIL, 2003)
Assim como, nas Disposições Transitórias da Constituição Federal (ADCT) em seu art. 68 que diz “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Vale salientar que esta beneficiência legal ocorreu em decorrência dos grandes embates travados pelos grupos que carregam a herança ancestral escravista. Contudo, não significou a solução de todos os problemas. Bem como, não significa dizer que apenas a auto-afirmação assegura a legitimidade de ser considerado remanescente e poder fazer uso dos programas das políticas públicas direcionadas a estes. Existe todo um processo para serem legalmente reconhecidos, como será discutido posteriormente.
Segundo Munanga (2006, p. 61), a palavra “kilombo é de origem banto umbundo, que era falada pelo povo ovibundo, para se reportar a uma categoria de instituição sociopolítica militar presente na área formada pela atual República Democrática do Congo (antigo Zaire) e Angola”. Para Munanga, os quilombos brasileiros eram:
[...] cópia do quilombo africano reconstruído pelos escravizados para se opor a uma estrutura escravocrata (...) organizaram-se para fugir (...) e ocuparam territórios brasileiros não povoados, geralmente de difícil acesso (...) abertos a todos os oprimidos da sociedade (negros, índios e brancos) prefigurando um modelo de democracia plurirracial que o Brasil ainda está a buscar. (MUNANGA, 2006, p. 61).
Neste cenário, seriam locais que recebiam todo e qualquer povo ameaçado, opresso, subjugado, que ao se direcionar para áreas longínquas consolidavam o desejo de lutar e estabelecer uma democracia racial. Contudo, democracia esta, que ainda se busca.
Para ampliar o leque de conceitos acerca do quilombo na contemporaneidade, Moura, (2004) nos diz:
Comunidade negra rural habitada por descendentes de africanos escravizados, com laços de parentesco. A maioria vive de cultura de subsistência, em terra doada, comprada ou secularmente ocupada. Valoriza tradições culturais de antepassados (religiosas ou não) e as recria no presente. (MOURA, 2004, p. 253).
Terras habitadas e ocupadas por pessoas, que trazem na sua cor da pele, nos costumes, nos hábitos alimentares, o legado de povos que foram tão covardemente explorados, surrados, subjugados. Terras habitadas por pessoas que descenderam de grandes lutadores que fomentam parte da nossa identidade e que vivem da agricultura, do comércio e de todos os meios que honestamente conquistaram espaço.
Cunha (2012) vai além, e enfatiza:
O conceito de quilombo ultrapassou os limites de um conceito de importância menor, de um fato sem relevância social. Hoje, o conceito quilombo remete a conceitos fortes e consistentes, com implicações nos campos da reforma agrária, da posse e uso de terras. Tal conceito trabalha o campo das identidades culturais e dos direitos a elas referidos confrontando o campo da territorialidade e questões fundiárias, ás áreas
políticas de educação, cultura e saúde. Esses conceitos têm implicações nas áreas do direito e das políticas públicas. As definições de quilombos, portanto, nos remete a cultura, identidade, territórios, propriedades, bens econômicos, sociais, culturais e políticos. (CUNHA, 2012, p 159).
Algo que era observado sem grande relevância, reduzido a fatores raciais socialmente falando, ganha uma nova roupagem inserindo-se em um discurso que abrange a história e a historiografia escravista, bem como labora o negro em espaços que o vislumbra como de pertencimento capaz de atender aos aspectos tanto étnicos quanto culturais. O quilombo é um espaço territorialmente falando que já não abarca “negros fugitivos”, mas um lugar que desde sua origem era supostamente idealizado por aqueles que iniciaram. Um lugar que é berço de uma história de luta, de resistência, de afrontamento, de busca de ideais, de formação de identidade, de busca de direitos, de emancipação da cultura, da religiosidade, do direito a terra, da oportunidade de estabelecer regras, de viver em comunidade, com respeito, coletividade, responsabilidade e acima de tudo liberdade e autonomia. O quilombo é a marca mais evidente de que um povo unido pode mudar os rumos dos regimes políticos de opressão, exploração e desvalorização de um povo.
O conceito quilombo nos dias atuais não se restringe apenas ao campo histórico, ele versa pela sociologia, literatura, geografia, matemática, direito, antropologia e áreas afins. Significa dizer que o movimento negro vem ocupando espaços até então restritos aos grupos privilegiados. No ano de 1994, a Associação brasileira de Antropologia (ABA), apresentou seu conceito sobre quilombo que diz:
Ainda que tenha conteúdo histórico, vem sendo ressemantizado para designar a situação presente dos segmentos negros em regiões e contextos do Brasil. Quilombo não se refere a resíduos os resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de população estritamente homogênea. Nem sempre foram constituídos a partir de movimentos insurreacionais ou rebelados. Sobretudo consistem em grupos que desenvolveram práticas cotidianas de resistência na manutenção e na reprodução de modos de vida característicos e na consolidação de território próprio. A identidade desses grupos não se define por tamanho nem número de membros, mas por experiência vivida e versões compartilhadas de sua trajetória comum e da continuidade como grupo. Constituem grupos étnicos conceituados pela antropologia como tipo organizacional que confere pertencimento por normas e meios de afiliação ou exclusão (NUER, 1997. P.81-82).
Os critérios para definir um remanescente de quilombo na produção antropológica têm respaldo na conjectura que defende ser um espaço ocupado em tempo real por povos que ali desenvolvem atividades cotidianas, independentemente da quantidade de membros e que simultaneamente estabelecem meios de sobrevivência partindo do pressuposto que são povos providos de direitos e liberdade, assim como qualquer outro. Portanto, exime a obrigatoriedade de serem reconhecidos a partir de achados arqueológicos, propriamente dito.
Quando pensamos em produções arqueológicas, nosso cérebro nos direciona automaticamente para o passado, este muitas vezes resgatado apenas por meio da história oral, como é o caso da história de muitos grupos explorados e excluídos. Por esta razão, recorri à História Oral (HO) como metodologia para fundamentar a pesquisa qualitativa que dá base para o presente estudo, pois para reconstruir a memória dos descendentes do Empata Viagem, a História Oral é uma singular ferramenta,pois possibilita ouvir, dar voz e ter ouvidos para relatos de grupos que foram silenciados e invisibilizados da história oficial brasileira. Como tão sabiamente aponta Thompsom (1998) “A história oral devolve a história às pessoas em suas próprias palavras. E ao lhes dar um passado, ajuda-as também a caminhar para um futuro construído por elas mesmas”. Oportunizar pessoas que sempre estiveram à margem da sociedade a contar suas reais histórias é fazê-los sentirem-se construtores de sua própria identidade e permitir que as gerações futuras se sintam representadas.
Segundo Alberti, podemos entender a História oral como sendo,
Um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica,...) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram de, ou testemunharam acontecimentos, conjunturas, visões de mundo, como forma de se aproximar do objeto de estudo. Trata-se de estudar acontecimentos históricos, instituições, grupos sociais, categorias profissionais, movimentos, etc. (ALBERTI, 1989, p. 52).
Sendo assim, dentre as 12 pessoas que eu entrevistei na comunidade, José Conceição, atual vice-presidente da associação da Comunidade do Empata Viagem, ser remanescente de quilombo, simboliza luta, resistência e superação, pois:
Vivia dizendo que nós somos descentes de escravos, somos pessoas que, somos descentes de pessoas que tanto sofreram na mão dos grandes, ou que se achavam ser os maiores, e que hoje na realidade somos
descendentes desse povo, somos remanescentes deles. Somos um povo que vieram daquela nação que tanto sofreu, a nação negra. Que na realidade os escravos, eles só panhavam pra ser escravos, pessoas negras. Que eram, sempre foram os mais sofridos no mundo, não dizer só no Brasil, mas no mundo inteiro,é quem mais sofre. Nós somos descendentes daquele povo sofredor que são o povo negro. (José Conceição – Atual vice-presidente da associação – 19.12.2019).
O relato nos mostra a princípio a petrificação da ideia eurocêntrica transmitida ao denominar as pessoas que foram escravizadas como “descendentes de escravos”, como se o regime escravocrata não tivesse sido uma imposição. Percebemos também a noção da exploração e exclusão sofrida pelos grupos subalternos, mas fica evidente que as narrativas decoloniais já estão presentes na mentalidade ao afirmar que determinados grupos se “achavam” superiores, embora não sejam. É enfático ao dizer dos sofrimentos vividos pelos povos negros, e como a cor era uma das principais marcas para a segregação e comportamentos abusivos, fato que infelizmente ainda é motivo para diversas atitudes racistas e discriminatórias na sociedade atual.
Acredita-se que, em decorrência de todo sofrimento que os escravizados passaram é motivo de orgulho se reconhecer como oriundos desses povos, pois a atual realidade de vida dos povos descendentes dos que foram marginalizados e explorados é reflexo das resistências e buscas de emancipação de um povo. Assim, ter consciência da sua origem e história torna-os reflexivos e ativos na continuidade do legado de bravura e de protagonistas de uma história reelaborada e reconstruída pelos que de fato merecem o lugar de fala.
Compreender o significado de ser remanescente de quilombo possibilita além da autoafirmação, a consciência de pertencimento que desencadeia no orgulho de se reconhecer como negro e assim fortalecer a luta pela busca de direitos como demonstra Marina Santos Souza, moradora da comunidade de remanescente do Empata Viagem:
É, muitas vezes as pessoas olham pra mim e diz assim: você é branca. Eu digo: Eu não sou branca, eu sou gaza por que eu sou filha de uma negra. A minha mãe era negra, pense numa negra, negra era minha mãe. E o meu pai era uma caboclo. Então eu sou uma mistura de negro com caboclo, então eu não sou branca, eu sou gaza, e eu assumo, eu sou quilombola, eu sou negra, né! Porque eu costumo dizer que antigamente, o escravo nascido do escravo, o branco nascido do escravo não era branco, ele era escravo, então eu sou. Então eu me assumo dessa maneira,eu sou negra.
Então ser quilombola é assumir quem você é. É reconhecer a sua realidade, é reconhecer a sua origem. Então eu acho muito importante esse fato de nós sermos reconhecidos como quilombolas e eu aceito do fundo do coração, eu aceito esse título na minha vida. Eu sou quilombola e assumo isso. (Marina Santos Souza – membro da comunidade – 20.11.2019).
Figura 03: Marina Santos Souza
Fonte: Fotografias da pesquisa de Campo de Ramille Roque Pinheiro em 20.11.2019
A cor da pele de uma pessoa nada tem haver com a sua ancestralidade, embora ainda assim no Brasil um país formado pela miscigenação, infelizmente a cor da pele ainda é o cartão de visita para muitos. Para Marina, ser atribuída a ela o termo “gaza” era uma forma de tirar-lhes a sua negritude, que ao enfatizar sua memória familiar ancestral sinalizando que sua mãe era negra e o pai era caboclo ela atribui sua identidade com raízes muito mais negras do que branca. É importante observar que, não se resume apenas às lembranças familiares, mas a auto-aceitação em se reconhecer e se sentir negra.
O sentir-se pertencente, alavanca para somar aos grupos que batalham para desmontar os jogos de interesses que precisam ser desfeitos, para que as
oportunidades sejam igualitárias, pois não se admite que a maioria da população brasileira, permaneça na obscuridade de direitos.
Os conceitos de Quilombo são diversos e cada vez mais, buscam ampliar seus horizontes objetivando contemplar todos os grupos subalternizados. Assim, para a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), legalmente, estas comunidades são classificadas como:
Grupos com trajetória histórica própria, cuja origem se refere a diferentes situações, a exemplo de doações de terras realizadas a partir da desagregação de monoculturas; compra de terras pelos próprios sujeitos, com o fim do sistema escravista; terras obtidas em troca de prestação de serviços; ou áreas ocupadas no processo de resistência ao sistema escravista. (BRASIL, 2015, s/p).
Não há o que se falar em homogeneidade ao se referir à maneira como essas terras foram ocupadas, as diferentes maneiras de ocupação, demonstram que todas as estratégias eram válidas para consolidar o objetivo final, a demonstração da insatisfação pelo regime escravocrata vigente.
É salutar ressaltar que diante de leis, conceitos sobre quilombo, foi criado um órgão específico afeiçoado ao Ministério da Cultura com desígnio de promover e preservar todos os valores provindos da influência negra na formação da sociedade brasileira. A Lei Nº 7.668, de 22 de Agosto de 1988.
Art. 1º Fica o Poder Executivo autorizado a constituir a Fundação Cultural Palmares - FCP, vinculada ao Ministério da Cultura, com sede e foro no distrito Federal, com a finalidade de promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira.
Art. 2º A Fundação Cultural Palmares - FCP poderá atuar, em todo o território nacional, diretamente ou mediante convênios ou contrato com Estados, Municípios e entidades públicas ou privadas, cabendo-lhe:
I - promover e apoiar eventos relacionados com os seus objetivos, inclusive visando à interação cultural, social, econômica e política do negro no contexto social do país;
II - promover e apoiar o intercâmbio com outros países e com entidades internacionais, através do Ministério das Relações Exteriores, para a realização de pesquisas, estudos e eventos relativos à história e à cultura dos povos negros.
III - realizar a identificação dos remanescentes das comunidades dos quilombos, proceder ao reconhecimento, à delimitação e à demarcação das
terras por eles ocupadas e conferir-lhes a correspondente titulação. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.216-37, de 31.8.2001) Parágrafo único. A Fundação Cultural Palmares - FCP é também parte legítima para promover o registro dos títulos de propriedade nos respectivos cartórios imobiliários. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.216-37, de 31.8.2001)
Significa que, a Fundação Palmares é legitimada para certificar toda comunidade que se auto-reconhece remanescente de quilombo e comprove tal veracidade. Como é o caso dos Remanescentes de Quilombos do Empata Viagem.
E reafirmando todo o processo de ressignificação que o termo quilombo vem passando, Arruti (2015) frisa:
A ressemantização do conceito, que permitiu os usos que lhe são dados hoje, só foi possível à medida que este se fez espaço ou objeto de mediação discursiva entre dois movimentos sociais em princípio absolutamente distintos em suas pautas, ideologias, vocabulários e objetivos. Se a formulação e a proposição do artigo constitucional relativo aos quilombos foram produto do agenciamento dessa categoria enquanto símbolo ou metáfora da “resistência negra” a uma sociedade racista além de escravista, ele só ganharia efetividade, porém, quando recapturado e ressignificado por uma parcela do movimento camponês que, em sua militância pela regularização de territórios de uso comum, aos poucos percebia que sua ancestralidade escrava lhe atribuía uma singularidade social (ARRUTI, 2015, p.219).
Logo, a ressemantização de quilombo se afunila e se constitui atualmente após passar por fases. Inicialmente tais comunidades representavam a resistência cultural, buscando implantar no Brasil os moldes organizacionais políticos e sociais que os povos negros já viviam em suas terras de origem. Depois, a resistência era vislumbrada como enfrentamentos políticos entre dominadores e dominados. E por fim, se configura como a resistência do povo negro que se percebe capaz de lutar pelos seus ideais políticos e culturais, trazendo à tona toda sua ancestralidade.
Sendo assim, o quilombo representa uma gama de concepções desde histórica, social, cultural e principalmente política. Configura-se assim, um forte instrumento que bem analisado, não dissocia tais aspectos, mas os analisa interligadamente favorecendo a formação de uma identidade étnico-racial, pautada na amplitude que o termo representa para toda sociedade brasileira que em sua maioria almeja ser protagonista da sua própria história constituída por meio de lutas, resistência, empoderamento, busca de visibilidade, reconhecimento da heroicidade,
emancipação, equidade, liberdade e capacidade de ressignificar e colocar em prática a verdadeira democracia racial.
2.3 A comunidade do Empata Viagem se descobrindo como
Remanescente
Quem nunca ouviu frases e histórias, em que Reis e Rainhas eram sempre heróis, exaltados e evidenciados em todo o livro didático, nas escolas e em toda sociedade? Quem já procurou durante longos dias e anos, livros teóricos que relatassem a visão do negro escravizado, sua real história e vida cotidiana e nunca conseguia encontrar? Os negros escravizados foram invisibilizados e silenciados durante séculos.
Ditados populares como: amanhã é dia de branco; negro que furta é ladrão, branco que furta é barão; Negro só sobe na vida quando o barraco explode; são utilizados diariamente em pleno século XXI no Brasil.
Infelizmente, quando uma nação desconhece suas origens ou as informações que se têm são distorcidas e camufladas, evidenciadas segundo os interesses de uma pequena classe dominante, esta sociedade fica aquém de conhecer legalmente suas origens e raízes de seus antepassados. E foi de forma ingênua e manipulada que se formou a mentalidade da maioria da população brasileira.
A Bahia se destaca por ser o Estado brasileiro que comporta o maior número de comunidades remanescentes de quilombos do país. Catalogados são 736 certificados pela Fundação Palmares. Nestes dados, destaca-se o Município de Maraú que comporta 6 (seis) remanescentes, sendo 5 (cinco) rurais e 1 (um) urbano. Dentre os rurais temos o do Empata Viagem que em decorrência da existência da Associação de Agricultores que fora criada em 2002 possibilitou tornar-se uma comunidade politicamente organizada e adepta de vários programas oferecidos para tais comunidades.
Figura 04: Mapa geográfico do Município de Maraú – BA
Fonte:https://www.google.com/maps/place/Mara%C3%BA+-+BA/@-14.0761937,39.4676546 ,10z/data=!3m1!4b1!4m5!3m4!1s0x73ed1a3148467ad:0xf23a3cfc2b6ff3bd!8m2!3d-14.1039474!4d-39.015284. Acesso em 20.05.2020
Porém, o Remanescente de Quilombo Empata Viagem, encontra-se localizado em uma região de difícil acesso em meio a Mata Atlântica que comporta o município, portanto, não compõe a área litorânea.
O remanescente do Empata Viagem encontra-se a aproximadamente 52 km da sede do município.
Figura 05. Mapa1 da comunidade do Empata Viagem
Fonte: Livro: Quilombos das Américas - Ipea
A comunidade do Empata Viagem de Maraú é um exemplo vivo desta realidade de uma população que durante muito tempo foi enganada por inverdades. Porém, diante dos trabalhos de reconhecimento, conscientização e valorização ético-raciais que vêm sendo desenvolvidos na Escola Municipal Tomé Monteiro segundo informações da atual diretora Maria Aparecida Souza Barbosa e no Colégio Estadual Clemente Mariani, no qual eu leciono juntamente com Diego Maradona da Hora Mendes e Maria Gilcélia Sacramento Pinheiro que desenvolvem estudos específicos na esfera pedagógica para Escolas Quilombolas e desenvolveram projetos diretamente na escola Tomé Monteiro, as palestras, oficinas e projetos desenvolvidos pelo INCRA, bem como as políticas públicas que estão sendo implantadas na comunidade, a mentalidade e postura dos membros da comunidade vêm passando por transformações, oportunizando-os resgatar sua origem por meio da história oral transmitida pelos mais velhos da comunidade, fazendo-os tomar posse de sua história e ancestralidade tendo ciência dos seus direitos e posicionando-se em busca destes, a fim de serem ressarcidos socialmente, etnicamente e moralmente. Contudo, acredita-se que o processo é lento e que existe
1 Quilombos das Américas : articulação de comunidades afrorrurais : documento síntese. – Brasília : Ipea : SEPPIR, 2012. 79
p. Disponível em: <http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/2413/1/Livro_Quilombo%20das%20americas.pdf>. Acesso em: 13.06.2020.(A baixa resolução da imagem advém da fonte que não era nítida).
necessidade dessas comunidades terem a oportunidade para aprenderem muito mais sobre sua real história.
Vale ressaltar que muitas destas mudanças ocorreram em decorrência do fato de que a comunidade em 01 de Março de 2004 foi oficialmente reconhecida como Remanescente de Quilombos pela Fundação Palmares em Salvador, tendo a publicação no Diário oficial da União ocorrido dia 04 de Março de 2004, vindo a ser lavrada em 12 de Dezembro de 2005 embora a publicação no Diário Oficial Fundação Palmares só ocorreu em 20 de janeiro de 2006. É salutar observar que conforme consta no documento de certidão de auto-reconhecimento que diz que conforme o Art. 1º da Lei nº 7.668 de 22 de Agosto de 1988, art. 2º, §§ 1º e 2º, art. 3º, § 4º do Decreto nº 4.887 de 20 de novembro de 2003, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e artigo 216, I a V, §§ 1º e 5º da Constituição Federal de 1988, no referido remanescente de Empata Viagem ocorreu à identificação e reconhecimento, porém, até a presente data de 26 de junho de 2020 a delimitação e a demarcação das terras ainda não ocorreram, expectativa muito aguardada pelos membros da comunidade. Abaixo, temos a documentação:
Figura 06: Publicação de Certificação no Diário Oficial Fundação Palmares
Fonte: http://www.incra.gov.br/sites/default/files/uploads/estrutura-fundiaria/quilombolas/comunidades-certificadas/comunidades_certificadas_08-06-15.pdf. Acesso em: 20.04.2020.
Figura 07: Certidão de Auto-reconhecimento do Remanescente do Empata Viagem
Fonte: Associação dos Quilombos do Empata Viagem
A comunidade do Empata Viagem se autodeclara remanescente e também utilizam o termo descendente, para afirmar que são legítimos tataranetos, bisnetos, netos de negros que foram escravizados.
Para compreendermos tal situação recorremos ao conceito dado pela Fundação Cultural de Palmares (1998) que conceitua o Quilombo:
As denominações quilombos, mocambos, terra de preto, comunidades remanescentes de quilombos, comunidades negras rurais, comunidades de terreiro são expressões que designam grupos sociais afro-descendentes trazidos para o Brasil durante o período colonial, que resistiram ou,