PREÇO VIL. NÃO CARACTERIZAÇÃO. O preço vil refere-se a conceito jurídico indeterminado, diante da ausência de disposição legislativa, cabendo ao intérprete decidir se os valores do bens penhorados são extremamente inferiores ao valor da avaliação, tendo-se em mente o princípio da razoabilidade e a satisfação da pretensão executória, assim, no caso em tela, não há que se falar em lance vil, uma vez que os bens, ao serem arrematados, perceberam, em média, o equivalente a 20% do valor atribuído pelo oficial de justiça.
Recurso não provido.
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de agravo de petição, em que são partes GRID 2002 AUTO PEÇAS LTDA., como agravante, e JEFFERSON DE SOUZA LOPES, como agravado.
A agravante interpõe agravo de petição, tempestivo, às fls. 227/236, inconformada com a r. decisão em sede de execução proferida pelo MM. Juízo da 77ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, da lavra da Juíza Cristina Almeida de Oliveira, à fl. 225, que julgou improcedente os embargos à arrematação.
Em suas razões, às fls. 227-236, a ré argumenta que há excesso de execução e, ainda, que os bens penhorados foram arrematados a preço vil.
Custas comprovadas às fls. 237.
Devidamente cientificada para apresentação de contraminuta, a parte adversa quedou-se silente, conforme certidão de fl. 250-v.
Dispensável a remessa dos autos ao Ministério Público do Trabalho diante do que dispõe o artigo 85 do Regimento Interno desta Egrégia Corte, e por não evidenciadas as hipóteses dos incisos II e XIII do art. 83, da Lei Complementar 75/93.
É o relatório.
VOTO
DA PRECLUSÃO E DO CONHECIMENTO
A ré, na etapa recursal, alega que há excesso de execução, uma vez que os valores pertinentes ao FGTS e seguro desemprego não foram deduzidos do quantum debeatur.
Tal matéria, no entanto, não merece conhecimento, face à preclusão, pois a temática foi apreciada à fl. 148 (decisão de embargos à execução) e complementada à fl. 155 (embargos de declaração), tendo transitado em julgado, conforme certidão de fls. 166v subscrita em 03.03.2011.
Dessa forma, em razão da inércia da ré, que não interpôs o recurso cabível no momento oportuno, implicando na preclusão temporal, não merece conhecimento o tema mencionado.
No mais, presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do apelo recursal, salvo no que tange à dedução dos valores supostamente sacados pela reclamante referentes ao FGTS e ao seguro desemprego do crédito alimentar objeto da presente execução.
DO MÉRITO DO PREÇO VIL
Defende a executada que os bens penhorados foram arrematados por preço vil, não atendendo a satisfação do crédito do reclamante e servindo apenas como meio de punição.
Não comungo do entendimento defendido na peça recursal. A arrematação consiste na venda dos bens penhorados do devedor, realizada pelo Estado, cujo escopo é satisfazer o crédito alimentar do trabalhador.
O artigo 888, § 1º, da CLT determina que a arrematação ocorra pelo maior lance. Neste ponto, deve ser observado também o artigo 692 da Lei Adjetiva Civil, cuja redação prevê que:
“Não será aceito lanço que, em segunda praça ou leilão, ofereça preço vil”.
O preço vil refere-se a conceito jurídico indeterminado, diante da ausência de disposição legislativa, cabendo ao intérprete decidir se os valores do bens penhorados são extremamente inferiores ao valor da avaliação, tendo-se em mente o princípio da razoabilidade e a satisfação da pretensão executória.
A respeito do tema, Cândido Rangel Dinamarco ensina que: “como preço vil é um conceito indeterminado, os lances de valor abaixo da avaliação devem ser examinados caso a caso pelo juiz, a quem compete aprovar ou não o resultado da hasta pública. Esse
juízo é feito no momento da assinatura do autor da arrematação (art. 693), não o assinaNdo o juiz quando entender que o lance vencedor na praça ou no leilão haja sido vil”. (in Instituições de Direito Processual Civil, 2004, p. 560)
Em relação à dificuldade de conceituação do tema, o Professor Cássio Scarpinella Bueno considera que:
“É difícil – senão impossível – definir o que é preço vil em abstrato. E isso porque se trata de conceito vago e indeterminado que, como tantos outros do próprio CPC, pressupõem um fato concreto, certo e delimitado no tempo e no espaço para ser expresso, definido, concretizado. É conceito que só existe na aplicação do direito, em sua dinâmica”. (in Código de Processo Civil Interpretado. Coord. Antonio Carlos Marcato. 2004, p. 1964)
A propósito, este E. TRT já se manifestou da seguinte forma, a saber:
“ARREMATAÇÃO. PREÇO VIL. O conceito de preço vil se dá em decorrência da necessidade de se atribuir um certo grau de valoração subjetiva ao ato expropriatório, de forma que seja levado em consideração o valor da avaliação, a quantidade de interessados pelo bem, o grau de dificuldade de seu
aproveitamento no mercado, entre outros fatores. Ora, o valor pode até ser considerado baixo, aos olhos do agravante, o que não se confunde com o conceito de vil”. (00341-1999-262-01-00-6 – RTOrd, Relator Juiz Convocado Marcelo Antero de Carvalho, DJ 11.11.2009)
A par dessas considerações e utilizando como parâmetro o percentual de 20% a fim de perquirir a caracterização, ou não, do lance vil, na hipótese dos autos, verifica-se que os bens foram arrematados, em média, pelo equivalente a 20% do valor da avaliação, afastando-se a tese do executado.
Conforme Auto de Penhora e Avaliação estampado às fls. 139-139v, o elevador para carros foi avaliado pelo oficial de justiça no valor de R$ 6.000,00 (seis mil reais) e arrematado por R$ 1.473,00 (hum mil, quatrocentos e setenta e três reais), conforme se vislumbra à fl. 196, ou seja, em quantia acima do percentual aludido.
Da mesma forma, a girafa guincho hidráulico, em bom estado, foi avaliada em R$ 1.100,00 (hum mil e cem reais) e arrematada por R$ 220,00 (duzentos e vinte reais), consoante fl. 193, o que representa exatamente 20% do valor consignado na avaliação.
Nessa trilha, apenas o painel de secagem foi arrematado por 10% da quantia referente à avaliação, uma vez em tal momento foi atribuído o importe de R$ 2.000,00 (dois mil reais) e na arrematação o bem alcançou o lance de R$ 200,00 (duzentos reais).
A despeito de o painel de secagem ter sido arrematado por quantia inferior ao percentual citado, entendo que a arrematação deve ser mantida para fins de satisfação do crédito do demandante que
corresponde a R$ 21.513,93 (fl.131), afinal deve ser levado em consideração a ausência de interessados no produto, sua difícil absorção no mercado e o tempo transcorrido entre a avaliação e a arrematação, de 1 (um) ano.
No mais, devem ser prestigiadas, no caso em tela, a duração razoável do processo e a efetividade da execução, pois o reconhecimento da nulidade da arrematação em virtude do lance vil implicaria no retardamento do levantamento do crédito judicialmente reconhecido do reclamante, de natureza alimentar.
E mais, em sede de penhora online, apenas foi bloqueado o valor de R$ 197,11 (cento e noventa e sete reais e onze centavos), o que denota a incapacidade econômica da executada. Registra-se, por oportuno, que os demais bens penhorados, quais sejam, máquina repuxadora, máquina de limpeza, coletora de CFC e alinhadora digital sequer perceberam lances, inviabilizando o adimplemento do quantum debeatur.
Assim, com amparo no princípio constitucional da duração razoável do processo e, ainda, ensejando assegurar a efetividade da execução, considero como válida a arrematação dos bens penhorados, razão porque nego provimento ao remédio recursal.
Ante o exposto, CONHEÇO do agravo de petição interposto pela ré, salvo no que tange à dedução dos valores supostamente sacados pela reclamante referentes ao FGTS e ao seguro desemprego do crédito alimentar objeto da presente execução e, no mérito, NEGO-LHE
PROVIMENTO, mantendo-se intocável a decisão hostilizada, em
consonância com a fundamentação supra.
dispõe o artigo 789-A da CLT e I.N. n. 20 do C. TST. Vistos e bem examinados,
A C O R D A M os Desembargadores da 7ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, por unanimidade, CONHECER do agravo de petição interposto pela ré, salvo no que tange à dedução dos valores supostamente sacados pela reclamante referentes ao FGTS e o seguro desemprego do crédito alimentar objeto da presente execução e, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO, mantendo-se intocável a decisão hostilizada, em consonância com a fundamentação. Custas pelo agravante, no importe de R$ 44,26, consoante dispõe o artigo 789-A da CLT e I.N. nº 20 do C. TST.
Rio de Janeiro, 12 de setembro de 2012.
Sayonara Grillo Coutinho Leonardo da Silva
Desembargadora do Trabalho Relatora