Fonologia - Aula # 06 – 26/05/09 Ordenação de Regras (Cap. 8)
Por agora vamos nos ater ao texto do Schane (que fornece o feijão-com-arroz sobre a questão da ordenação de regras). Mas é bom atentar para a maneira como o estruturalismo e o gerativismo clássico viam o problema da ordenação de regras (que enunciamos em I e II, respectivamente):
(I)- Visão taxonômica da ordenação de regras
Uma vez que a informação necessária para se determinar o elemento fonético correspondente a um dado elemento fonêmico deve ser inteiramente fonêmica (e vice-versa), nenhuma regra pode se aplicar de modo a destruir qualquer informação necessária à aplicação de outra regra, assim como nenhuma regra pode utilizar informação nova que venha a ser fornecida pela aplicação de outra regra. Assim sendo, as regras devem se aplicar simultaneamente.
(II)- As regras são ordenadas. Cada regra se aplica à forma produzida pela aplicação da regra anterior. A gramática incorpora um arranjo de regras numa lista linear. Cada regra se aplica após todas as regras que a precedem na lista, e antes de todas as regras que a seguem na mesma lista. Nenhuma regra aparece mais de uma vez na lista.
Do capítulo sobre ordenação de regras (cap.8), pudemos ver que as regras devem ser ordenadas. Schane nos mostra isso com os dados do Yawelmani, envolvendo as regras de Harmonia de Sufixo e Rebaixamento da Vogal Longa Alta (v. p. 84).
Outros pontos relevantes do cap. 8 são:
- Ordenação diferenciada de regras, numa mesma língua: este caso (pp. 85-87) serve para nos mostrar como se dá a diferenciação dialetal, na perspectiva da FGC.
- Feeding e Bleeding: casos em que uma regra cria contextos para outra regra se aplicar (Feeding) e casos em que uma regra elimina contextos onde outra regra se aplicaria (Bleeding). (p. 87)
Ordenação Parcial: casos em que um par de regras, X e Y , admite, numa derivação, tanto a ordem X-Y quanto a ordem Y-X. Mesmo que consigamos mostrar que X e Y sucedem as regras A, B, C e D em uma lista, e, ao mesmo tempo, precedem as regras Z, T, e W, temos que dizer que as regras da língua em questão são apenas parcialmente ordenadas. (pp. 87-88)
Regras Ordenadas vs Regras Não-Ordenadas: O que o Schane pretende mostrar aqui é que, mesmo que seja possível substituir um conjunto de regras ordenadas por um conjunto de regras não-ordenadas, de aplicação simultânea, o custo da não-ordenação é muito alto. Daí a preferência por regras ordenadas (ainda que apenas parcialmente). (pp. 88-89)
Ordenação Disjuntiva: São casos em que duas regras podem ser acopladas numa única formulação. Neste caso, considera-se primeiro o contexto maior que, se satisfeito, bloqueia a aplicação da regra no contexto menor. As duas regras acopladas na mesma formulação são, portanto, mutuamente exclusivas (ou seja, a regra não pode se aplicar duas vezes). O exemplo que Schane utiliza é o da regra de acentuação do francês (pp. 89-90). A ordenação disjuntiva, na verdade, cria um sério problema para a hipótese da linearidade, como veremos adiante.
Ordenação Conjuntiva: Aqui duas regras, que se fundem numa única formulação, podem ser aplicadas numa mesma derivação. O exemplo que Schane usa é o do cancelamento de consoante em francês, que opera tanto diante de fronteira de morfema (+) quanto diante de fronteira de palavra (#), nesta ordem. (p. 90)
O restante do capítulo é blá-blá-blá.
Ordenação de Regras – Aspectos adicionais
(Apêndice não-autorizado às idéias mui otimistas do Schane...)Vamos avançar um pouco mais na questão da ordenação de regras fonológicas. Conforme já comentamos, no modelo estruturalista as regras deveriam se aplicar simultaneamente. Isso pode ser enunciado como em (1):
(1)- Visão taxonômica da ordenação de regras
Uma vez que a informação necessária para se determinar o elemento fonético correspondente a um dado elemento fonêmico deve ser inteiramente fonêmica (e vice-versa), nenhuma regra pode se aplicar de modo a destruir qualquer informação necessária à aplicação de outra regra, assim como nenhuma regra pode utilizar informação nova que venha a ser fornecida pela aplicação de outra regra. Assim sendo, as regras devem se aplicar simultaneamente.
Suponhamos os dados do Uighur, em (2) e (3) abaixo:
(2) a- /al+in+mAq/ RS
b- /al+in+maq/ Harmonia vocálica c- /el+in+maq/ Umlaut
(3) a- /al+in+mAq/ RS b- /el+in+mAq/ Umlaut
c- /el+in+mäq/**Harmonia vocálica
(3c) é agramatical. Mas se a aplicação fosse simultânea, teríamos (2c), que é gramatical. Isso só mostra que, se as regras forem ordenadas, então HV-U, mas não mostra que elas devam ser ordenadas (já que podemos ter o mesmo resultado por aplicação simultânea).
(4) a- /bhaudh+ati/ /bhaudh+sya+ti/ RS
b- ---- bhaudsyati Desaspiração
c- baudhati ---- Lei de Grassmann
d- bodhati bhotsyati RD
ele levanta ele vai levantar
Neste caso, é evidente que a aplicação simultânea das regras não dá certo, uma vez que a Lei de Grassmann precisa do resultado da Desaspiração para poder operar. Logo, as regras devem ser ordenadas. A questão é: Como? Há duas respostas possíveis para esta questão: a- Em ordem aleatória/randômica;
b- Em ordem não aleatória.
Os casos de (2) a (4) nos mostram que a opção (a) não pode ser verdadeira. Assim, podemos enunciar (5)
(5)- As regras são ordenadas. Cada regra se aplica à forma produzida pela aplicação da regra anterior. A gramática incorpora um arranjo de regras numa lista linear. Cada regra se aplica após todas as regras que a precedem na lista, e antes de todas as regras que a seguem na mesma lista. Nenhuma regra aparece mais de uma vez na lista.
É bom notar que a ordem das regras em uma lista não precisa ser a mesma para todos os dialetos, conforme já se viu no texto do Schane. Um dialeto X pode ter a ordem A-B enquanto um dialeto Y pode ter a ordem B-A.
O princípio estabelecido em (5) pode ser chamado de “princípio da linearidade”. E aqui podemos levantar uma outra questão: o princípio da linearidade pode ser violado? Pode, se uma língua contiver, ao mesmo tempo, as regras (6) e (7), a seguir:
(6) A B / X ___ Y (7) B A / X ___ Y
Note-se que, em princípio, as regras (6) e (7) não podem ser ordenadas: se (6) precede (7), só teremos seqüências do tipo XAY; e se (7) precede (6) só teremos seqüências do tipo XBY. É bom notar que este caso é diferente daquele em que duas regras podem ser ordenadas de qualquer modo, produzindo o mesmo resultado. Aqui cada ordenação implica em um único resultado, diferente do outro. Observe, agora, os seguintes fatos do Dinka, em (8) e (9).
(8) Singular Plural Tradução
peei pei lua(s)
tiin tin mão(s)
pal paal faca(s)
(9) + silábico - longo / __________ longo Plural
(9) é uma „exchange rule‟, responsável pelo alongamento/abreviamento da vogal da raiz nominal em Dinka. E os dois processos devem ser simultâneos! Assim sendo, é preciso substituir (5) por (10)
(10)- As regras da gramática são dispostas numa ordem linear, onde cada regra se aplica ao „output‟ da regra que a precede na lista, exceto na situação em que duas regras adjacentes são „abreviáveis‟ pela convenção de coeficientes de traços variáveis; neste caso elas não se aplicam em seqüência, e sim simultaneamente à representação criada pela regra que as precedeu na lista. Uma não se aplica ao „output‟ da outra e a regra que as segue na lista se aplica ao resultado da aplicação simultânea das duas regras em questão.
Além das „exchange rules‟, há um outro tipo de regra, já visto em sala, que contraria a ordenação linear. São as regras disjuntivas. Considerem, p. ex., a regra de acento do latim, em (11)
(11) a- monossílabos: acento na única sílaba (ré:s) b- dissílabos: acento na penúltima sílaba (tóga)
c- polissílabos: (a) se a penúltima vogal é breve e seguida de, no máximo, uma consoante, acentua-se a antepenúltima (confíciunt); (b)- se apenúltima é longa ou seguida de um cluster, ela recebe o acento (inimí:cus, impediménta)
Os 3 casos de (11) podem ser representados por 3 regras independentes, como em (12) e abreviados numa única regra, como em (13)
(12) a- V + acento / _____C0# b- V + acento / _____ C0V C0# c- V + acento / _____ C0 V C01 V C0# - longo (13) V + acento / _____ (( C0 V C01 )V C0 )# - longo
A regra (13) é disjuntiva, ou seja, considera-se primeiro a seqüência maior e por último a menor, mas só uma delas. Portanto, é preciso substituir (10) por (14)
(14)- As regras da gramática estão dispostas numa ordem linear, onde cada uma delas se aplica ao „output‟ da regra que a precede na lista, exceto:
a- No caso de (10) acima, e
b- Quando duas regras adjacentes são formalmente relacionadas de tal modo que a elas seja aplicável a notação de parênteses (i.e., regras disjuntivas). A aplicação da primeira (= „a
mais comprida‟) bloqueia a aplicação da segunda, ainda que a descrição estrutural desta segunda regra seja satisfeita.
Temos, portanto, duas violações à ordenação linear: as regras de aplicação simultânea (v. fatos do Dinka) e as regras disjuntivas (v. fatos do latim).
A ordenação linear obedece algumas restrições. São elas: a- Conectividade: dadas duas regras, A e B, temos A-B ou B-A b- Irreflexibilidade: Nenhuma regra precede a si mesma.
c- Antissimetria: Se A-B e B-A, então A e B são, de fato, uma única regra. d- Transitividade: Se A-B e B-C, então A-C.
Mas, pensam que acabou? Nada disso! Há ainda outros fatos misteriosos, dados pelas regras de imagem espelhada e pelas regras iterativas... (que passo a comentar brevemente).
Uma regra de imagem espelhada (mirror image rule) tem a seguinte forma: (15)- X Y/Z
Esta regra pode ser satisfeita em duas situações: (16a)- X Y/ ____Z
e
(16b)- X Y/Z____
A questão é: as duas subpartes de regra são ordenadas? O que acontece quando a regra é „satisfeita‟ dos dois lados? Vejamos os seguintes fatos do islandês:
Em islandês temos as regras (17a) e (17b)
(17a)- V
- acento [-silábico] / ______ [+ silábico] + alto
(17a)- V
- acento [-silábico] / [+ silábico] ________ + alto
Estas duas regras podem ser abreviadas numa regra de imagem espelhada como (17c)
(17c)- V
- acento [-silábico] / [+ silábico] + alto
No islandês, uma seqüência como /...iu.../ passa a /...yu.../ e nunca a */...iw.../. Por quê? Um caso semelhante no português envolve palavras como sóbrio em que [..yu../ é OK mas [..iw..] é * !
O caso das regras iterativas é ainda mais desafiador. Como já vimos, nenhuma regra pode aparecer mais de uma vez na lista de regras. Mas observe a regra (18), do letão:
(18)- quando seguido de ou ou
(19)- + silábico -consonantal
+ baixo [- baixo] / ___ X - baixo
- posterior - posterior
Em letão temos alternâncias do tipo / / „eu cavaria‟ e // „ele cavará‟. A forma // é, subjacentemente, ##. Como derivá-la? Se a regra se aplicar uma só vez, então somente um dos poderá ser convertido em . A „saída‟ é uma regra iterativa, que se aplica a seu próprio output, violando a irreflexibilidade!!!
Exercícios de ordenação de regras
1. Inglês
(a) t s / _____ + iy (b) siy / _____ V -acento
2. Dieguenho (a) Ø / C ___ + C (b) / ___ /++/ > /++/ > 3. Finlandês (a) Ø / _____ (b) t d / ____ V( i ) C C # (c) e i / ___ # (d) t s / ___ i /käte/ > käsi /kätissä/ > käsissä /mätäinä/ > mätinä /kätessä/ > kädessä /mätäissä/ > mädissä /kätinä/ > käsinä