Pedro Martins Arezes é engenheiro de produção, mestre em Enge-nharia Humana pela Universidade do Minho, assistente do grupo de engenharia humana do Departamento de Produção e Sistemas da Universidade do Minho.
Alberto Sérgio Miguel é engenheiro químico, mestre em Saúde Ocupacional pela Universidade de Coimbra e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade do Minho, onde é professor catedrático convidado.
A exposição ocupacional
ao ruído em Portugal
PEDRO MARTINS AREZES ALBERTO SÉRGIO MIGUEL
A exposição ao ruído constitui um dos mais importantes riscos ocupacionais em meio industrial. No entanto, cons-tata-se que o registo dos dados, a nível nacional, sobre a exposição ocupacional ao ruído nunca terá sido efectuado de forma estruturada. Este artigo aborda os principais aspectos relacionados com a exposição ocupacional ao ruído, tais como as características dessa exposição, os pro-gramas de conservação da audição nas empresas e a evo-lução legislativa, sendo ainda apresentada uma estimativa do número de pessoas expostas no nosso país. Da análise efectuada é possível retirar algumas conclusões, desta-cando-se o grande número de trabalhadores, presumivel-mente, expostos a níveis de pressão sonora elevados e a necessidade de se diversificar o tipo de soluções adoptadas, tendo em vista prevenir eventuais perdas auditivas. São igualmente referidos alguns aspectos relativos às necessi-dades de investigação futura e de desenvolvimento de ins-trumentos de avaliação e análise mais eficazes, visando diminuir, ou mesmo eliminar, a exposição ocupacional ao ruído e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.
1. Introdução
A exposição ao ruído constitui, actualmente, um dos riscos ocupacionais com maior expressão na indús-tria transformadora.
Os resultados de vários inquéritos e sondagens a nível mundial mostram que uma em cada 10 pessoas sofre de problemas de audição e que, apesar de não se saber, em concreto, qual o número total de pessoas afectadas, admite-se que o mesmo deverá rondar 500 milhões (UK. Hear it, 2001).
Segundo o Livro Verde da União Europeia para a Futura Política Relativa ao Ruído (Comissão Euro-peia, 1996), estima-se que cerca de 20% da popula-ção europeia (aproximadamente 80 milhões de pes-soas) estão expostos a níveis de pressão sonora inaceitáveis, o que, segundo a mesma fonte, origina distúrbios no sono, perturbações do equilíbrio psi-cológico e outros efeitos adversos para a saúde. O mesmo relatório estima que existam 170 milhões de pessoas a residirem em locais cujos níveis de pres-são sonora durante o dia atingem valores susceptí-veis de causarem distúrbios significativos. Por outro lado, sabe-se que a exposição ao ruído elevado, na sua grande maioria nos locais de trabalho, é respon-sável por muitos destes problemas. Segundo estima-tiva do NIOSH — National Institute for Occupational Safety and Health (US NIOSH, 1999 e 2001), nos EUA serão perto de 30 milhões os trabalhadores expostos a ruído excessivo no local de trabalho.
Riscos ocupacionais
2. Reconhecimento do ruído como um risco para a saúde
O ruído constitui uma causa de incómodo para o tra-balho, um obstáculo às comunicações verbais e sono-ras, podendo provocar fadiga geral (Crandell et al., 1997) e, em casos extremos, trauma acústico e alte-rações fisiológicas extra-auditivas.
O ruído é, pois, um som indesejado e incómodo (T. L. C., 1998). Esta é de facto a definição mais simples do ruído. Mas coloca-se a seguinte questão: indese-jado e incómodo para quem? O adolescente, que vemos, frequentemente, com auscultadores ou com um rádio ao ombro, gosta e vibra com os sons que ouve, embora outros se sintam incomodados com estes mesmos sons. Os técnicos de aeronáutica gos-tarão de ouvir o som intenso das turbinas de um avião a jacto em plena aceleração, o que não aconte-cerá certamente com os moradores em áreas por ele sobrevoadas.
É geralmente aceite que a percepção individual do ruído depende das características do mesmo, isto é, da intensidade, do espectro e da frequência com que ocorre. Até certo ponto, são factores como a idade do indivíduo, o seu estado emocional, os gostos, as cren-ças ou o modo de vida que determinam o grau de incomodidade do ruído.
A exposição ao ruído não é um risco recente. Antes mesmo da revolução industrial, embora em pequeno número, já existiam pessoas expostas a ruído elevado nos seus postos de trabalho. O advento da máquina a vapor, conjuntamente com a revolução industrial, veio despertar o interesse para o estudo do ruído como um factor de risco ocupacional. Os trabalhado-res que nessa época fabricavam caldeiras a vapor contraíam perdas auditivas em tal extensão que a patologia associada foi então designada como «doença dos caldeireiros».
A crescente mecanização em todas as indústrias e actividades económicas tem vindo a agravar o pro-blema do ruído. Até muito recentemente este era encarado como um indicador de industrialização, ou seja, as sociedades «silenciosas» primavam pelo pouco desenvolvimento, ao contrário das sociedades «ruidosas», que possuíam as maiores e mais potentes máquinas, logo maior desenvolvimento industrial (Australia. Safety News, 2000). Contudo, nos últimos anos o ruído industrial foi-se metamorfoseando numa necessidade de silêncio, considerando-se que a exis-tência de ambientes silenciosos não era um luxo, mas uma necessidade crescente, quer nos locais de traba-lho, quer fora destes.
Embora fora do âmbito deste artigo, convém referir a importância dos problemas derivados da exposição ao ruído de populações, também designado por ruído
ambiental, cuja envolvência não se restringe ao meio ocupacional. Assume particular relevância a exposi-ção ao ruído proveniente de empresas, estabeleci-mentos comerciais, espectáculos, tempos livres e ser-viço militar (Jan, 2000) em termos de efeitos sobre os indivíduos (Delange, 1975; Costa, 1994; Gunderson, Moline e Catalano, 1997; Hohmann, Mercier e Felchlin, 1999; Toppila e Starck, 2000).
As intervenções com o objectivo de reduzir a expo-sição dos trabalhadores ao ruído têm vantagens óbvias, para além da preservação da audição. Citam--se, a título de exemplo, benefícios ao nível da redu-ção do absentismo e reduredu-ção da sinistralidade (Berger, 1981; Berger, 1985).
Tais intervenções não poderão ser encaradas como acções pontuais, de curto prazo, mas antes inseridas na política geral da empresa, com efeitos visíveis de médio/longo prazo. Apesar de potencialmente muito variadas, desde a adopção de medidas técnicas à pro-tecção individual, à formação de quadros e ao acom-panhamento clínico, deverão ser sempre encaradas como um conjunto de acções concertadas e com objectivos convergentes. Por outras palavras, a inter-venção no âmbito da redução da exposição ocupacio-nal ao ruído deverá ser delineada no âmbito da polí-tica da empresa, e não como um conjunto de acções casuísticas e dispersas no tempo.
3. Programas de conservação da audição (PCA)
Sempre que a exposição ao ruído nos postos de tra-balho for passível de originar efeitos adversos, deve-rão ser tomadas medidas para reduzir os níveis de pressão sonora, de forma a proteger os trabalhadores expostos e, simultaneamente, monitorizar a efectivi-dade do processo de intervenção.
Ao conjunto de medidas estruturadas de prevenção da exposição ao ruído em meio ocupacional é nor-malmente atribuída a designação de programas de conservação da audição (PCA).
Os PCA são essencialmente recomendáveis e desejá-veis em situações que envolvam trabalhadores cuja exposição diária, não protegida (isto é, exposição sem a utilização de protectores auditivos), iguale ou exceda 85 dB(A). Por outras palavras, os PCA são desejáveis sempre que existam trabalhadores expos-tos, isto é, cujo nível de exposição diária, ou LEp,d, exceda o nível de acção.
O desenvolvimento de um PCA poderá assumir for-mas muito diversas, for-mas com um único ponto comum, o de combater e prevenir a surdez profissio-nal por exposição ao ruído. Poderão destacar-se aspectos como a protecção auditiva, a protecção
lância da saúde.
O NIOSH (US. NIOSH, 1998), assim como outras entidades estatais (Brasil. Comité Nacional de Ruído e Conservação Auditiva, 1999; Berger et al., 2000; Austrália. Queensland Government, 2001), recomen-dam que a estrutura de um PCA contenha, pelo menos, os seguintes tópicos:
1. Auditorias iniciais e anuais aos procedimentos utilizados;
2. Avaliação do ruído ocupacional;
3. Medidas de controlo técnico e administrativo das exposições ao ruído;
4. Avaliação e monitorização da função auditiva dos trabalhadores;
5. Utilização de protecção individual auditiva para exposições superiores ou iguais a 85 dB(A), inde-pendentemente da duração da exposição; 6. Formação e motivação dos trabalhadores; 7. Arquivo dos registos.
Na realidade industrial portuguesa são poucos os casos em que se verifica a existência de PCA (Bar-roso e Gomes da Costa, 1996; Arezes, 1997; Arezes
et al., 2000), pelo menos no sentido estruturado que
aqui é referido. No entanto, existem preocupações neste domínio por parte de muitas entidades e empre-sas.
Por força da legislação existente, há necessidade de as empresas cumprirem determinados requisitos associados a estes programas, nomeadamente a ava-liação dos níveis de pressão sonora e do espectro de ruído nos locais de trabalho, a dosimetria individual e a caracterização audiométrica dos trabalhadores.
4. Evolução legislativa
A história legislativa referente à exposição ocupacio-nal ao ruído está intimamente ligada à própria legis-lação sobre as condições de trabalho em geral. Assim, a primeira referência surge na Portaria n.o 53/ 71, de 3 de Fevereiro, que aprova o Regulamento Geral de Segurança e Higiene do Trabalho nos esta-belecimentos industriais, posteriormente alterado pela Portaria n.o 702/80, de 22 de Setembro. A expo-sição ao ruído, ou de uma forma geral a agentes físi-cos, é ainda abordada no Decreto-Lei n.o 347/93, de 1 de Outubro, e na Portaria n.o 987/93, de 6 de Outu-bro, ambos relativos às prescrições mínimas de segu-rança e saúde nos locais de trabalho.
Pese embora a importância dos diplomas anterior-mente citados, a exposição ao ruído surge pela
pri-mento Geral sobre o Ruído. Este decreto-lei, embora com objectivos mais alargados do que a regulamen-tação da exposição ocupacional, constitui o primeiro passo na legislação em matéria de exposição ao ruído. Em 1989 são alteradas algumas disposições do Regulamento Geral sobre o Ruído através do Decreto-Lei nº 292/89, de 2 de Setembro. Embora estes dois últimos diplomas refiram a exposição ocupacional ao ruído, os aspectos de maior especifi-cidade são remetidos para legislação própria, onde se inclui a exposição ao ruído nos locais de trabalho. Marco importante em termos legislativos referentes ao ruído é a Directiva comunitária n.o 86/188/CEE, de 12 de Maio, que estabelece o quadro geral de protecção dos trabalhadores contra os riscos devi-dos à exposição ao ruído durante o trabalho, trans-posta para a ordem jurídica interna pelo Decreto-Lei n.o 72/92 e regulamentada pelo Decreto Regulamen-tar n.o 9/92, ambos de 28 de Abril.
Se bem que os diplomas anteriores, em especial o decreto regulamentar, sejam bastante detalhados em termos de especificações técnicas referentes a proce-dimentos de avaliação, monitorização, selecção da protecção e arquivos, existe uma série de normas publicadas que especificam com pormenor e maior detalhe técnico alguns dos procedimentos previstos na legislação. Exemplos destas normas são a NP 1733 (1981), as NP 1730:1, 2 e 3 (1996), e todas as normas relacionadas com a protecção auditiva, como, por exemplo, as NP EN 352:1 (1996), NP EN 352:2 (1996), NP EN 352:3 (1997) e NP EN 458 (1996). Mais recentemente, surgiu o Decreto-Lei n.o 292/ 2000, de 14 de Novembro, que aprova o novo Regu-lamento Geral sobre o Ruído, ou, como a nova desig-nação preconiza, Regime Legal sobre a Poluição Sonora. Este último, tal como o seu antecessor, não refere aspectos particulares da exposição ocupacional ao ruído, remetendo estes para legislação especial.
5. Estimativa do número de pessoas expostas a ruído ocupacional
Analisados os dados de vários inquéritos a nível mundial, estima-se que uma em cada 10 pessoas so-fra de perdas auditivas (UK. Hear it, 2001). Os mes-mos estudos mes-mostram que as pessoas com perdas auditivas são cada vez mais novas, demonstrando que a causa primária destas perdas é a exposição a ruído excessivo.
A título de exemplo, um estudo publicado em 1999 pelo Royal National Institute for Deaf People (UK. Hear it, 2001) e pelo Trade Union Congress sobre o
Riscos ocupacionais
ruído ocupacional no Reino Unido, com base num inquérito realizado a diversos trabalhadores, mostra que:
• Aproximadamente um quarto das respostas aponta para a existência de sons elevados descon-fortáveis no posto de trabalho por mais de 4 horas diárias;
• Um terço das respostas indica que as tarefas desempenhadas originam uma perda da capaci-dade de audição e, em 16% dos casos, essa perda é contínua;
• 20% das respostas do questionário indicam que as tarefas desempenhadas originam um zumbido ou prurido nos ouvidos ou cefaleias por mais de 5 minutos;
• Aproximadamente dois terços das respostas do questionário indicam que os trabalhadores têm de elevar a sua voz para se fazerem ouvir numa con-versa a uma distância de aproximadamente 2 metros.
Apesar de metade dos participantes terem respondido que se preocupavam com o facto de o ruído no tra-balho poder afectar a sua audição, apenas um quarto partilhou esta preocupação com outras pessoas e, destes, apenas 2 em 3 confrontaram este facto com a entidade empregadora. Estes dados fornecem-nos, igualmente, indicação de que as pessoas expostas não reconhecem, muitas das vezes, o risco dessa exposi-ção ou, na maioria dos casos, subestimam o seu efeito.
Em Portugal é, igualmente, possível constatar a importância que o ruído assume como risco ocupa-cional. Para tal basta verificar os dados sobre incapa-cidades por doenças profissionais. Assim, pela aná-lise dos dados disponíveis, a surdez profissional atingia em 1997, aproximadamente, um quarto dos trabalhadores com incapacidade, abrangendo cerca de 4500 trabalhadores, sendo apenas ultrapassada pelas pneumatoses, que contribuíam com cerca de 57% das incapacidades (Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, 1999). Para além disso, é possível também constatar o número cres-cente de trabalhadores com surdez profissional, com um aumento de 19% no período de 1990 a 1997. A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho publicou um estudo piloto (European Agency for Safety and Health at Work, 2000), com base num inquérito à população laboral, a nível euro-peu. Uma das questões colocadas nesse inquérito tinha em vista conhecer a percentagem de trabalha-dores expostos a ruído com base na informação sub-jectiva de ter de elevar a voz para manter a conver-sação. O valor obtido para Portugal foi de 15%,
situando-se a média europeia em 10%. Saliente-se que este último valor representa a percentagem de respostas, considerando uma exposição, do tipo refe-rido, na maior parte do tempo de exposição. O mesmo estudo revela a inexistência de dados exactos sobre a exposição ocupacional ao ruído em Portugal. Existem disponíveis alguns dados nacionais sobre a exposição ao ruído em termos ambientais (Valadas, Guedes e Coelho, 1996), sem, contudo, se referir nestes qualquer dado sobre a exposição ocupacional. Existem alguns estudos e estatísticas realizados nou-tros países que referem estimativas do número de pessoas expostas ao ruído (ocupacional e não ocupa-cional) e, muitas vezes, o custo estimado desta expo-sição (Bauer et al., 1991; US. NIOSH, 1998 e 2001; Davis e Sieber, 1998; US. NSC, 2000; UK. Hear it, 2001).
O NIOSH conduziu entre 1981 e 1983 um grande estudo de caracterização da exposição ocupacional, onde se incluía a exposição ao ruído, e que designou por National Occupational Exposure Survey (US.
NIOSH, 1998), abrangendo empresas em todos os estados dos EUA. Os resultados deste estudo foram obtidos por medições de campo, o que garante uma maior fiabilidade dos dados em relação a outros pro-venientes de estudos baseados exclusivamente em inquéritos a trabalhadores.
Como resultado desse estudo foram apresentados, entre outros, os valores de exposição ocupacional ao ruído para vários tipos de actividades e indústrias (US. NIOSH, 1998; Davis e Sieber, 1998).
Com base nos resultados do estudo referido, expres-sos em percentagem de trabalhadores expostos a níveis de pressão sonora superior a 85 dB(A), foi possível estimar o número de trabalhadores expostos em Portugal, admitindo-se que a percentagem de indivíduos expostos seria semelhante.
Procurou-se então obter uma estimativa do número total de trabalhadores, ou seja, da população empre-gada, e da forma como se distribuíam pelos ramos de actividade económica existentes. Esta informação foi conseguida através dos dados do Instituto Nacional de Estatística (Portugal. INE, 1998, 2000 e 2001). Os dados utilizados reportam-se a 1998 e 2000, uma vez que nesses anos é descrita a distribuição dos tra-balhadores por ramo de actividade específico, e não apenas por sector de actividade, permitindo, assim, uma maior comparabilidade com os dados norte--americanos. Foi possível efectuar uma estimativa mais geral para 2001, considerando os dados da população empregada no 2.o trimestre deste ano. Na Tabela 1 apresentam-se os resultados da estima-tiva efectuada.
A coluna referente à percentagem de trabalhadores expostos é estimada com base no estudo americano
seriam os trabalhadores com um nível de exposição diária de 8 horas igual ou superior a 85 dB(A), o que, aliás, coincide com o disposto na legislação
portu-res foram, em alguns casos, obtidos por ponderação de várias actividades, tendo em conta a percentagem de trabalhadores afectos a cada sector de actividade.
Número de trabalhadores Percentagem Número de trabalhadores (103) (a) estimada expostos (103) (c)
de trabalhadores
1998 2000 2.o trimestre expostos (b) 1998 2000 2.o trimestre
2001 2001 4 738,8 4 908,5 4 983,8 639,5 616,3 645,2 19,8 126,621 122,027 127,50 1 694,7 1 719,6 1 696,7 (d) 25,0 423,821 47,9 44,9 17,9 8,574 8,037 119,0 117,4 34,0 40,509 39,964 403,5 370,8 36,1 145,835 134,016 135,5 132,0 33,5 45,354 44,183 138,7 128,8 20,7 28,718 26,668 116,7 108,1 24,9 29,090 26,946 81,2 100,1 8,1 6,577 8,108 55,8 47,8 14,3 7,987 6,842 79,7 76,1 28,3 22,555 21,536 516,7 593,5 19,1 98,586 113,240 2 404,6 2 572,5 2 641,9 (d) 8,8 232,082 121,1 137,0 1,4 1,695 1,918 100,7 133,3 5,3 5,337 7,065 432,7 452,7 20,9 90,434 94,614 245,0 253,6 9,1 22,295 23,078 177,6 180,4 7,8 13,853 14,071 104,2 104,6 1,5 1,563 1,569 158,8 188,9 1,5 2,382 2,834 287,4 306,7 9,1 26,153 27,910 275,4 271,2 9,1 25,061 24,679 200,5 243,1 0,6 1,203 1,459 301,1 301,1 8,9 26,798 26,789 777,182 777,553 783,652 16,4 15,8 15,7
(a) Valores constantes dos anuários estatísticos de 1998 e 2000 e das estatísticas gerais de 2001.
(b) Valores estimados por analogia com os valores americanos. Em alguns casos a estimativa baseou-se na representatividade de cada sector (expressa em número de trabalhadores) no sector de actividade mais geral.
(c) Valores obtidos por afectação da percentagem ao número de trabalhadores total. (d) V. texto, ponto 5.
Sector de actividade
População empregada
Agricultura, silvicultura e pesca Indústria, construção, energia e água
Indústrias extractivas e produção e distri-buição de electricidade, gás, água e vapor
Indústrias alimentares Indústrias têxtil e calçado
Indústrias da madeira e do papel, de edi-ção e impressão
Produtos petrolíferos, químicos, de borra-cha e de plástico e outros minerais não metálicos
Indústrias metalúrgicas de base e de pro-dutos metálicos
Fabrico de máquinas electrónicas e eléc-tricas
Fabrico de automóveis e outro material de transporte
Fabrico de mobiliário e reciclagem Construção
Serviços
Comércio e manutenção de automóveis e combustíveis
Comércio por grosso e intermediários Comércio a retalho, reparação de bens
pessoais e domésticos Hotéis e restaurantes
Transportes e actividades conexas, cor-reios e telecomunicações
Intermediação financeira e seguros Actividades informáticas, investigação e
desenvolvimento
Administração pública, defesa e segu-rança social obrigatória
Ensino
Saúde e serviços sociais Outras actividades de serviços TOTAL
Percentagem total de trabalhadores expostos
Tabela 1
Riscos ocupacionais
Assim, em casos de actividades agregadas, como, por exemplo, as relativas à indústria da madeira e do papel, de edição e impressão, a percentagem de trabalhadores expostos foi calculada com base na ponderação da representatividade das três actividades específicas, consideradas neste sector, no valor geral da actividade agregada.
Considerando o exemplo anterior, verifica-se que as indústrias da madeira, do papel e de edição e impres-são apresentam um valor de 33,5% de trabalhadores expostos, calculado com base nas percentagens das três actividades em separado e que constituem esta actividade agregada.
A informação do Anuário Estatístico do INE de 1998 (Portugal. INE, 1998) e do estudo do NIOSH (1998) é a constante da Tabela 2.
Para o cálculo do valor estimado de 33,5% de traba-lhadores expostos nesta actividade agregada utiliza-ram-se essas ponderações multiplicadas pelos respec-tivos valores do estudo do NIOSH (1998), ou seja, Σ [coluna (a)*coluna (b)] da Tabela 2. Para o exem-plo citado temos:
(0,413*0,525) + (0,338*0,131) + (0,214*0,344) = 0,335, ou seja, 33,5%
Encontrando-se disponíveis os dados sobre o número médio de trabalhadores no 2.o trimestre do ano 2001, foi feita uma estimativa do número actualizado pre-visível dos trabalhadores expostos no ano de 2001. Este encontra-se no final da Tabela 1, sendo de cerca de 783 000, representando, aproximadamente, 15,7% da população empregada total.
Analisando a Tabela 1, verifica-se que a evolução do número de trabalhadores ao longo dos anos não é, em termos de sector de actividade, uniforme, isto é, o número de trabalhadores poderá aumentar no sector da indústria, diminuindo, no entanto, num tipo de indústria específico. Para ilustrar este exemplo veja-mos, nesta Tabela 1, o caso do sector da indústria, construção, energia e água, o qual sofreu um
aumento de 1998 para 2000, e, em contrapartida, o caso da indústria têxtil e do calçado, onde se verifi-cou uma diminuição no mesmo período. Assim, para a estimativa do número de trabalhadores expostos para o 2.o trimestre de 2001 foram utilizados os dados da população empregada por sector de activi-dade agregado. Para tal foram utilizadas as corres-pondentes percentagens de trabalhadores expostos [valores anotados com a letra (a) e (b) na Tabela 1], tendo sido calculadas com base na média ponderada das diversas percentagens associadas a cada activi-dade em separado. Nessa ponderação considerou-se a distribuição dos trabalhadores por cada actividade. Constata-se que, em termos gerais, o número de tra-balhadores expostos na indústria diminuiu de 1998 para 2000. Porém, é necessário atendermos ao facto de esta estimativa não ser evolutiva, pois baseia-se na mesma percentagem de trabalhadores expostos, sendo alterado apenas o número de trabalhadores em cada actividade. Assim, na realidade, a diminuição do número de trabalhadores expostos na indústria que se verifica na estimativa representa uma diminuição dos trabalhadores nesse sector de actividade, e não, necessariamente, a diminuição real do número de postos de trabalho afectados pelo ruído.
O pequeno aumento do número total de trabalhadores expostos que se verifica entre 1998 e o 2.o trimestre de 2001 (de 777 182 para 783 652 trabalhadores) deve--se, essencialmente, à redução do número de trabalha-dores na indústria, onde a estimativa da percentagem de trabalhadores expostos é maior. O aumento do número estimado de trabalhadores expostos ao longo dos anos analisados justifica-se, em grande parte, pelo aumento do número de trabalhadores nos serviços. Finalmente, é necessário evidenciar os casos das indústrias têxtil e de calçado e da indústria da cons-trução, que, em conjunto, representam quase um ter-ço do total dos trabalhadores expostos. Se no caso do primeiro é reconhecido o problema do ruído no sec-tor, embora sem grande consequência a nível prático, na construção civil é ainda subestimado.
Tabela 2
Dados estatísticos para o cálculo do número estimado de trabalhadores expostos a ruído
Percentagem Percentagem de trabalhadores de trabalhadores
Actividade CAE expostos na actividade
em NIOSH (1998) agregada
(a) (b)
Indústria da madeira e da cortiça e suas obras, excepto mobiliário 20 41,3 52,5 Fabricação de pasta, de papel e de cartão e seus artigos 21 33,8 13,1 Edição, impressão e reprodução de suportes de informação gravados 22 21,4 34,4
A exposição ocupacional ao ruído constitui, sem dúvida, uma questão transversal, na medida em que abrange um grande número de situações ocupacio-nais que vão desde a indústria à agricultura, passando pela construção e pelos serviços.
Apesar de este risco ser normalmente equacionado em meios ocupacionais, a verdade é que pouca importância se lhe tem dado, optando-se, geralmente, pela solução mais imediata, a adopção da protecção individual auditiva.
Embora a estimativa do número de trabalhadores expostos tenha sido efectuada com base em dados da indústria americana, é expectável um perfil de distri-buição dos níveis de pressão sonora semelhante, designadamente nas pequenas e médias empresas industriais.
Os valores percentuais apresentados por esta estima-tiva, que, aliás, são muito próximos dos valores apontados por outro estudo já referido (European Agency for Safety and Health at Work, 2000), são alarmantes, dado que se estima que mais de um quarto da população laboral no sector da indústria, construção, energia e água está exposto a níveis de pressão sonora considerados elevados.
Num estudo recente levado a cabo pela Comissão Europeia sobre as condições de trabalho nos Estados membros (Merllier e Paolli, 2000) verificou-se um aumento do número de pessoas expostas a ruído intenso, passando de 27% em 1990 para 29% no ano 2000, aumento esse que, apesar de não ser significa-tivo, representa um retrocesso na vontade de dimi-nuir a exposição ocupacional ao ruído. Portugal, a par com a Itália, surge como o país europeu com a mais baixa taxa de utilização de equipamentos de protecção individual. É, além disso, o país em que os trabalhadores recebem menos formação paga ou for-necida pela entidade empregadora. Diminuindo a percentagem de trabalhadores de 1995 para o ano de 2000 de 18% para 12%, respectivamente, o que cor-responde à maior descida da União Europeia em ter-mos percentuais (33%).
Uma das conclusões que é possível retirar desta aná-lise é o facto de a grande importância do ruído em termos ocupacionais não se reflectir nas medidas levadas a cabo para diminuir a exposição dos traba-lhadores. De facto, como podemos ver pelos números apresentados, o ruído é um agente ocupacional com tendência crescente, a qual será, eventualmente, agra-vada, caso não sejam tomadas medidas e estabeleci-dos programas estruturaestabeleci-dos para a sua redução.
lizada da protecção individual auditiva, solução que é frequentemente adoptada pela sua relativa facilidade de implementação e baixo custo. Embora se possa pensar que esta solução resolverá, se não todo, parte do pro-blema, tal não se confirma na prática, entre outros moti-vos, pelo desfasamento existente entre a atenuação cata-logada e a atenuação real conferida pelos protectores auditivos (Arezes e Miguel, 2001). Acresce o facto de a protecção auditiva ser pouco utilizada, mesmo nos casos em que é disponibilizada pela entidade empregadora. Apesar de grande parte da resolução dos problemas poder estar associada a uma prevenção adequada, existe ainda muito a fazer neste domínio, designada-mente no desenvolvimento de instrumentos de pre-venção. Assim, a pesquisa actual e futura deverá ser baseada na definição precisa de instrumentos eficien-tes, sejam eles métodos de avaliação da função audi-tiva, métodos de formação ou indicadores biológicos de susceptibilidade.
Existe ainda muito espaço de manobra em termos de melhoria dos PCA e noutros campos de pesquisa, qui-çá mais importantes, como, por exemplo, o da identi-ficação precoce de susceptibilidade às perdas auditivas ou da identificação precoce do desenvolvimento des-tas. É o caso da medição das emissões otoacústicas para determinação da susceptibilidade às perdas audi-tivas induzidas pelo ruído (Lutman e Hall, 2000). Este exemplo dá-nos uma ideia de como poderá ser enca-rado o futuro dos PCA, isto é, com instrumentos que poderão não substituir os actuais, como as audiometrias, mas complementar a análise e, se possí-vel, evidenciar indicadores com maior utilidade. Outro aspecto previsível é a evolução dos métodos de análise da eficiência dos PCA, a qual poderá pas-sar pela utilização de outro tipo de métodos que não configurem exclusivamente a análise dos audiogra-mas, mas incluam outros parâmetros, como a obser-vação de comportamentos que prevejam o sucesso da implementação de um PCA ou ainda do desenvolvi-mento de análises comportamentais que incidam sobre o conhecimento dos trabalhadores e o relacio-nem com o seu comportamento e atitudes.
Independentemente das previsões sobre as orienta-ções dos PCA, o futuro da prevenção no tocante à exposição ao ruído passará, sem dúvida, pelo desen-volvimento e aperfeiçoamento de instrumentos de avaliação e análise mais eficazes, no sentido de dimi-nuir, ou mesmo eliminar, o efeito deletério da expo-sição ocupacional ao ruído e a consequente diminui-ção da qualidade de vida dos trabalhadores.
Riscos ocupacionais
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OCCUPATIONAL NOISE EXPOSURE IN PORTUGAL Given its relevance, noise exposure is one of the main occu-pational risks in industrial environments. However, a struc-tured survey about national occupational noise exposure was never made. This paper focus on the main aspects concerning noise occupational exposure, namely exposure characteristics, hearing conservation programs and the evolution of Portu-guese legislation concerning noise exposure, presenting yet an estimation of the number of people exposed to occupational noise in Portugal. From this analysis, it is possible to draw some conclusions, namely the great number of workers, prob-ably exposed to high noise levels and the need to adopt diver-sified measures in order to prevent hearing losses among workers. This paper also focus some aspects related to future research perspectives in this area and the need to develop more efficient assessment methods, in order to reduce, or even eliminate, occupational noise exposure and, therefore, improve the quality of life of workers in general.