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O PARTO CESÁREA NO MUNICÍPIO DE FEIRA DE SANTANA - BAHIA

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O PARTO CESÁREA NO MUNICÍPIO DE

FEIRA DE SANTANA - BAHIA

Carlito Lopes Nascimento Sobrinho * Neilton S. Fiusa** Valterney O. Moraes** Joselice A. de Gois** Dagmar Santana da Silva**

RESUMO — Este estudo descreve a freqüência do parto cesárea entre as diversas opções de parto no Município de Feira de Santana. Foi investigado por estudantes de graduação do curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, o livro de registro de 4 serviços obstétricos, que representaram 75% do total de partos realizados no Município de Feira de Santana, no ano de 1994. Enfatizou--se a categoria de pagamento pelo serviço prestado: se pelo Sistema Único de Saúde — SUS, por convênios ou por desembolso direto pelo

usuário - particular. Entre as modalidades de parto estudadas, o parto cesárea foi menos freqüente (27%) que o parto natural. Entretanto, o parto cesárea foi mais freqüente quando a forma de pagamento foi feita por convênios. Observou-se ainda que, para uma das quatro maternidades, a freqüência de parto cesárea variou de acordo com a categoria de pagamento, sendo maior quando foi efetuado por convê-nios. Apesar da ausência de controle de covariáveis, observou-se uma relação estatisticamente significante (X–2 < 0,05), entre parto cesárea e categoria de pagamento.

ABSTRACT — This study describes the frequency of Caesarean birth among several options of childbirth in Feira Santana municipality. Birth registers, representing 75% of the childbirths in 1994 were examined by nursery students. It was taken into account either the Public Health Care or the Private Health Care. Caesarean birth was less frequent (27%) than natural one. However, Ceasarean birth became more frequent when it was paid by Private Health Care. In one four maternity hospitals the frequency of Caesarean birth increased when it was paid by private

*Prof. Assistente do Dep. de Saúde

**Prof. do Dep. de Medicina Preventiva - Faculdade de Medicina (UFBA) **Mestre em Saúde Coletiva - ISC/UFBA

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Health Care. In spite of lack of controls, there is significant relation (X2< 0,05) between Ceasarean birth and payment.

INTRODUÇÃO

O aumento na incidência de parto cesárea é um fenômeno comum a quase todos os países do mundo. Contudo, não sabemos de nenhum outro país onde a curva de aumento seja tão acentuada, nem as taxas tenham alcançado níveis tão altos, como no Brasil1.

Os dados estatísticos do antigo INAMPS, que pagava por cerca de 75% de todos os partos ocorridos no Brasil, revelaram que, no decênio 1970 -1980 o número de operações cesáreas cresceu de 14,6% para 31% do número total de partos2.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 1982 pelo IBGE2, obteve uma taxa de cesáreas, para o Brasil, de 30,9%, um

valor praticamente igual ao do INAMPS em 1980, sendo que o IBGE entre-vistou uma amostra representativa da população geral. Essa pesquisa reve-lou, também, que em todas as regiões do Brasil, a incidência de cesáreas era tanto maior quanto maior o poder aquisitivo da mulher grávida, com base no salário familiar mensal.

Também observaram-se grandes variações, quando foram analisadas as taxas de cesáreas por Estado. Observa-se uma grande diferença entre o Estado de São Paulo, o mais rico da federação, com 48,8% de partos cesáreas e os estados mais pobres, como, Ceará 17,7% e Pernambuco 17,9%2.

No Brasil, a variação no índice de cesáreas, segundo o nível de rendi-mento familiar das mulheres, parece estar freqüentemente condicionado à conveniência do médico e das empresas médicas, associado às possibilida-des de pagamento da paciente, ao invés de se pautarem exclusivamente em indicação decorrente do estado de saúde da mãe e/ou da criança, seja durante a gestação ou no momento do parto(1,2,3,4).

Em pesquisa realizada no período compreendido entre janeiro de 1977 e abril de 1979, JANOWITZ et alli (4) levantaram de hospitais da cidade de Campinas-SP, informações sobre a condição do parto de mais de 2 000 pacientes. Verificou-se que a proporção de mulheres primíparas para as quais não havia motivo indicado para a realização de cesáreas e que foram subme-tidas a cesareana, foi de 56% entre aquelas que eram pacientes particulares, 12% entre as asseguradas através de convênios ou da previdência oficial e 4% entre as indigentes. O mesmo autor observou que a seqüência mais

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comum de uma freqüência mais baixa para uma mais alta de partos cesáreas foi: indigência, seguro INAMPS, seguro particular e pagamento direto.

A relação entre o nível de rendimento e o índice de cesáreas evidencia--se, mais uma vez, ao observarmos a freqüência desse tipo de parto, segun-do a condição de pagamento segun-dos serviços hospitalares, fornecida através segun-dos dados obtidos na PNAD - 1986 (3). Verificou-se que, para o Brasil como um todo, a maior freqüência de partos cesáreas, 52,9% ocorreu quando a hospitalização ficou totalmente a cargo do usuário. Seguida de 43,9% quando o serviço ficou a cargo da medicina supletiva , 30% quando da previdência oficial - INAMPS, enquanto que para outras condições de utilização do hospital, encontrou-se uma freqüência muito mais baixa, 11,7%.

Tendo em vista reduzir o elevado número de intervenções cesáreas, desde 1980, uma regulamentação específica do antigo INAMPS igualou o custo do parto normal ao do parto cesárea (2,3).

No estado da Bahia, poucos são os estudos que abordam este tema. Dados da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia para o ano de 1992 apontam para uma proporção de 10,9% de partos cesáreas, em relação ao total de partos realizados nos hospitais pertencentes à rede estadual de saúde. Entretanto, os valores variam de 50% para o Hospital Estadual de Cícero Dantas a 0,4% para o Hospital Estadual de Candeias. Em Feira de Santana, o Hospital Clériston Andrade, que pertence a rede de hospitais da SESAB, para o ano de 1992, apresentou um índice de 15,9% de cesáreas, em relação ao total de partos realizados(5).

Para o ano de 1994, no município de Feira de Santana, o serviço que mais realizou partos foi o Hospital D. Pedro de Alcântara(HDPA), com 27%, seguido pelo Hospital Geral Clériston Andrade(HGCA) com 23%, a Materni-dade Matter Dei, com 19% e a MaterniMaterni-dade Stella Gomes, com 8%, correspondendo a mais de 75% dos partos hospitalares realizados no município (7).

Este trabalho tem como objetivo descrever a situação do atendimento ao parto no Município de Feira de Santana, verificando a relação entre partos cesáreas e partos naturais e a forma de pagamento dos serviços prestados, seja pelo convênio SUS, por convênios ou por desembolso direto do usuário.

MATERIAL E MÉTODOS

O estudo foi realizado no mês de maio/junho de 1995, por estudantes de graduação do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Feira de Santana(UEFS), matriculados na disciplina Saúde e Comunidade. Aplicou-se

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serviços obstétricos do Município, contendo dados sobre: idade da mãe, peso da criança ao nascer, tipo de parto, tipo de procedimento obstétrico realizado, forma de pagamento pelo serviço, nome da maternidade.

Foram estudados quatro serviços obstétricos no ano de 1994, um per-tencente à rede própria do Sistema Único de Saúde (SUS) Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), outro classificado como filantrópico, credenciado ao SUS, Hospital D. Pedro de Alcântara(HDPA) e dois serviços classificados como particulares (Maternidade Estella Gomes e Maternidade Matter Dei) apresentando-se credenciados ao SUS e, simultaneamente, credenciados a outros convênios e realizando atendimento por desembolso direto.

Dos serviços particulares, foram estudados todos os procedimentos obstétricos realizados durante os doze meses de 1994. Entretanto, por limites de tempo e devido ao número muito grande de procedimentos obstétricos realizados pelo HCA e HDA, procedeu-se sorteio de dois meses do ano de 1994, sendo estudados apenas os procedimentos realizados nesses dois meses, e a forma de pagamento dos procedimentos, se desembolso direto pelo usuário (particular), SUS ou medicina supletiva (outros convênios).

Construiu-se um banco de dados, utilizando-se o programa EPIINFO. Para o processamento eletrônico dos dados, utilizou-se microcomputador tipo IBM PC 486 do Centro de Processamento de Dados(CPD) da UEFS. Para o teste de hipóteses utilizou-se o chi-quadrado (X2), com valor crítico em 5%.

RESULTADOS

Do total de 3031 partos realizados, 27% foram do tipo cesárea e 73% do tipo natural. A freqüência de parto cesárea variou de 20 a 52%, segundo as quatro maternidades investigadas (Tabela 1)

No Hospital Geral Clériston Andrade, do total de partos realizados, 80% foram partos naturais e 20%, cesáreas, no Hospital D. Pedro de Alcântara, 78% dos partos realizados foram naturais e 22% foram cesáreas. As Mater-nidades Matter Dei e Stella Gomes apresentaram, respectivamente, 80% e 48% de partos naturais e 20% e 52% de partos cesáreas (tabela 1).

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Tabela 1 - Tipo de parto em 4 maternidades do município de Feira de San-tana (Ba), 1994.

Parto

Maternidade Natural Cesárea total n* % n* % HGCA* 416 80 104 20 520 HDPA** 491 78 141 22 632 MMD*** 1127 80 293 20 1420 MSG**** 220 48 239 52 459 Total 2254 73 777 27 3031 * HGCA — Hospital Geral Clériston Andrade

** HDPA — Hospital D. Pedro de Alcântara

*** MMD — Maternidade Matter Dei

*** MSG — Maternidade Stella Gomes

O tipo de parto estava associado com a modalidade de pagamento em duas maternidades (MSG e MMD), (Tabela 2 e 3).

Para a Maternidade Stella Gomes, a freqüência de parto natural variou de 59%, quando o pagamento realizava-se pelo convênio SUS, a 41%, quan-do o pagamento dava-se por outros convênios. O mesmo ocorreu para o parto cesárea que variou, respectivamente, entre 38% e 62%. Os partos remune-rados por desembolso direto do usuário (particular), não foram levados em consideração na análise, devido ao número muito pequeno em que eles apareceram.

Para a Maternidade Matter Dei, os resultados encontrados são seme-lhantes, entretanto, para as diversas formas de pagamento, o número de partos cesáreas é menor (19% a 50%), como conseqüência, o número de partos naturais apresenta-se maior (81% a 50%), entretanto ainda permanece a diferença entre os tipos de parto e a modalidade de pagamento dos mesmos (tabela 4).

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Constatou-se que, do total de partos realizados no Município de Feira de Santana, a forma mais comum de remuneração desses procedimentos foi pelo convênio SUS, representando 89% do total de partos realizados, 10% dos partos fotam remunerados por outros convênios e apenas 1% foi pago por desembolso direto do usuário.

Tabela 2 - Freqüência de parto natural e cesárea, de acordo com a forma de pagamento na Maternidade Stella Gomes, Feira de Santana, (BA) 1994.

Forma de Pagamento

Tipo de Parto SUS Outros Convênios Particular Total n* % n* % n* % natural 133 59,0 84 38,0 03 30,0 220 cesárea 94 41,0 38 62,0 07 70,0 239 total 227 100,0 222 100,0 10 100,0 459 X2 < 0,05

Tabela 3 - Freqüência de parto natural e cesárea de acordo com a forma de pagamento na Maternidade Matter Dei, Feira de Santana, (BA) 1994.

Forma de Pagamento

Tipo de Parto SUS Outros Convênios Particular Total n* % n* % n* %

natural 1 092 81 31 50 04 80 1 127 cesárea 261 19 31 50 01 20 293 total 1 353 100,0 62 100,0 05 100,0 1 420 X2< 0,05

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

- O SUS é responsável pelo pagamento da maior parcela dos procedi-mentos obstétricos no Município de Feira de Santana, o mesmo ocorrendo para o Brasil como todo(3 e 4);

- Observou-se, para Feira de Santana, uma alta freqüência de partos cesáreas para o ano de 1994 (27%), coincidindo com os achados de outros autores para o Brasil e para determinadas regiões (1, 2, 3 e 4);

- Verificou-se uma frequência maior de cesáreas na rede filantrópica e particular credenciada ao SUS, que na rede própria do SUS, indicando uma relação entre tipo de parto e a natureza de pagamento do serviço, essa associação também foi encontrada por outros autores (1, 3 e 4);

- Constatou-se que, para uma mesma maternidade, obteve-se freqüên-cia diferente de cesáreas, de acordo com a modalidade de pagamento do parto, favorável à modalidade de pagamento por convênios, reforçando a associação tipo de parto/natureza do pagamento do serviço;

- Obteve-se uma associação estatisticamente significante, entre cesárea e modalidade de pagamento por convênios.

Logo, parece importante refletir sobre a variação observada no índice de cesáreas segundo a categoria de pagamento do parto (SUS, convênios e desembolso direto), uma vez que para a cidade de Feira de Santana, a decisão sobre o tipo do parto parece condicionada, frequentemente, pela conveniência do médico das empresas médicas, associada as possibilidades de pagamento da paciente, ao invés de se pautar exclusivamente em indica-ções clínicas, decorrente do estado de saúde da mãe e/ou da criança, seja durante a gestação ou no momento do parto. Entretanto deve-se registrar que as limitações metodológicas apontadas deste estudo restringem a capacidade de generalização dos resultados.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FAÚNDES, A. As cesáreas e as modificações nos níveis de fecundidade. Po-pulação e Saúde. Campinas: Unicamp, 1986. v.1 p.73-91.

FAÚNDES, A., CECATTI, J.G. A Operação Cesárea no Brasil. Incidência, Tendências, Causas e Consequências e Propostas de Ação. Cadernos de Saúde Pública, ENSP, Rio de Janeiro,v. 7 n.2 p.150-173, abr./jun., 1991.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 1982.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 1986.

JANOWITZ, B. “Cesarean section in Brazil”. Soc.Scie. & Med. n.16 p.19, 1982. NASCIMENTO SOBRINHO, C.L. Indicadores de Saúde em Feira de Santana

Bahia. comunicação pessoal, 1994.

SECRETARIA DE SAÚDE DO ESTADO DA BAHIA. Anuário Estatístico - Infor-mações de Saúde - Bahia - dados por município. CIS/SESAB, Salvador, Bahia, 1993.

SECRETARIA DE SAÚDE DO ESTADO DA BAHIA. Anuário Estatístico - Infor-mações de Saúde - Bahia - dados por município, CIS/SESAB, Salvador, Bahia, 1994.

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