O Teorema Fundamental do C´
alculo e
Integrais Indefinidas
22.1
Introdu¸
c˜
ao
Calcular integrais usando somas de Riemann, tal qual vimos no cap´ıtulo anterior, ´e um trabalho penoso e por vezes muito dif´ıcil (ou quase imposs´ıvel). Felizmente, existe um m´etodo muito eficiente e poderoso que permite calcular integrais de uma maneira muito mais simples. Este m´etodo, desenvolvido separadamente por Newton e Leibniz, mostra que se uma determinada quantidade pode ser calculada por exaust˜ao (somas de Riemann, por exemplo), ent˜ao pode ser calculada muito mais facilmente com o uso de antideriva¸c˜ao, entendida como o processo de achar uma fun¸c˜ao conhecendo-se a sua derivada. Este importante resultado ´e denominado teorema fundamental do c´alculo e ´e um dos mais importantes de toda a matem´atica. Este teorema relaciona derivadas e integrais e mostra que elas s˜ao, de uma certa maneira, “opera¸c˜oes inversas”.
Este fato ´e evidenciado pela seguinte situa¸c˜ao f´ısica. Considere uma part´ıcula deslocando-se em linha reta, com velocidade conhecida v(t)≥ 0, em cada instante t, com t variando em um intervalo de tempo [a, b]. Se s(t) fornece a posi¸c˜ao da part´ıcula em cada instante t, o espa¸co total percorrido pela part´ıcula em um intervalo de tempo [a, b] ´e dado por s(b)− s(a).
Considere agora uma parti¸c˜ao P do intervalo [a, b] em n subintervalos iguais. O espa¸co percorrido pela part´ıcula, em cada subintervalo de tempo [ ti−1, ti], de comprimento ∆ t, da parti¸c˜ao P , pode ser aproximado por v(ci) ∆ t, onde
ci´e um ponto do subintervalo considerado. Assim, o espa¸co total percorrido pela part´ıcula no intervalo de tempo [a,
b], pode ser aproximado pela soma
n
∑
i=1
v(ci) ∆ t. Esta aproxima¸c˜ao ser´a cada vez melhor `a medida que ∆ t for cada
vez menor. Assim, temos que o valor exato do espa¸co percorrido ser´a dado pelo limite da soma acima, ou seja,
s(b)− s(a) = lim n→∞ n ∑ i=1 v(ci) ∆ t = ∫ b a v(t) dt = ∫ b a s′(t) dt . Este resultado ´e o chamado teorema fundamental do c´alculo .
22.2
O teorema fundamental do c´
alculo
A abordagem de Newton do problema do c´alculo de ´areas parece, `a primeira vista, paradoxal e consiste em substituir o problema do c´alculo da ´area de uma regi˜ao fixa (figura `a esquerda) pelo c´alculo da ´area de uma regi˜ao vari´avel, produzida quando a extremidade direita do intervalo ´e considerada m´ovel, de modo que a ´area seja uma fun¸c˜ao de x, como ´e ilustrado no diagrama da figura `a direita.
0 2 4 6 8 0.20.40.60.8 1 1.21.41.61.8 2 2.22.42.62.8 3 x 4. 2. 2. 1. 0 4. 2. 2. 1. 0 4. 2. 2. 1. 0 4. 2. 2. 1. 0 4. 2. 2. 1. 0 4. 2. 2. 1. 0 301
´
E f´acil descobrir qual ´e a fun¸c˜ao que nos d´a a ´area da regi˜ao vari´avel, como mostra a primeira parte da demonstra¸c˜ao do teorema fundamental do c´alculo enunciado a seguir.
Teorema fundamental do c´alculo:
Seja f uma fun¸c˜ao cont´ınua definida no intervalo fechado [a, b].
1. Se a fun¸c˜ao A ´e definida em [a, b] por
A(x) =
∫ x a
f (t) dt ,
ent˜ao, A′(x) = f (x) para todo x em [a, b]. Uma fun¸c˜ao com tal propriedade ´e chamada de primitiva ou an-tiderivada de f.
2. Se F ´e uma primitiva de f em [a, b], ent˜ao
∫ b a
f (x) dx = F (b)− F (a) .
Antes de demonstrarmos o teorema, vamos salientar alguns aspectos geom´etricos da f´ormula do item 2. Se f ´e positiva em [a, b], ent˜ao a fun¸c˜ao A definida em 1, representa a ´area sob o gr´afico de f desde t = a at´e t = x (figura seguinte `a esquerda).
´
E claro que A cresce com x. Se ∆ x > 0, a diferen¸ca ∆ A = A(x + ∆ x)− A(x) ´e a ´area sob o gr´afico de f de x at´e
x + ∆ x, que corresponde a ´area da faixa mostrada na figura seguinte `a direita.
x b
a a x x+∆x b
Mostraremos que
A(x + ∆ x)− A(x)
∆ x = f (c) ,
onde c est´a entre x e x + ∆ x. Intuitivamente percebemos que se ∆ x tende a zero, ent˜ao c→ x e f(c) → f(x), que ´e o resultado que queremos provar. Este resultado nos diz, simplesmente, que a taxa de varia¸c˜ao da ´area A em rela¸c˜ao a x ´e igual ao comprimento do lado esquerdo da regi˜ao.
Demonstra¸c˜ao
1. Seja ∆ x > 0. Se x e x + ∆ x pertencem a [a, b] ent˜ao, pela defini¸c˜ao da fun¸c˜ao A(x) e pelas propriedades das integrais definidas, temos que
A(x + ∆ x)− A(x) = ∫ x+∆ x a f (t) dt− ∫ x a f (t) dt = ∫ x a f (t) dt + ∫ x+∆ x x f (t) dt− ∫ x a f (t) dt = ∫ x+∆ x x f (t) dt
Assim, podemos escrever
A(x + ∆ x)− A(x) ∆ x = ( 1 ∆ x)( ∫ x+∆ x x f (t) dt) .
Como f ´e cont´ınua, pelo teorema do valor m´edio para integrais, sabemos que existe um n´umero c (que depende de ∆ x) no intervalo (x, x + ∆ x), tal que
∫ x+∆ x x f (t) dt = f (c) ∆ x e, portanto, A(x + ∆ x)− A(x) ∆ x = f (c) .
Como x < c < x + ∆ x, segue que lim
∆ x→0+f (c) = limc→x+ f (c) = f (x) e da´ı, pela igualdade anterior,
lim ∆ x→0+
A(x + ∆ x)− A(x)
∆ x = f (x) . Se ∆ x < 0, demonstra-se, analogamente, que lim
∆ x→0−
A(x + ∆ x)− A(x)
∆ x = f (x) . Os limites laterais acima implicam que
dA
dx = lim∆ x→0
A(x + ∆ x)− A(x)
∆ x = f (x) , o que quer´ıamos demonstrar.
2. Seja A(x) = ∫ x
a
f (t) dt como definida em 1. Ent˜ao, A(a) = 0 e A(b) = ∫ b
a
f (t) dt.
Pela parte 1, A′(x) = f (x). Por hip´otese, temos tamb´em que F′(x) = f (x). Logo, pelo corol´ario 2 do teorema do valor m´edio, as fun¸c˜oes A e F diferem por uma constante, isto ´e,
A(x) = F (x) + C .
Para x = a, temos 0 = A(a) = F (a) + C, isto ´e, C =−F (a). Assim, A(x) = F (x)− F (a). Logo, para x = b,
A(b) =
∫ b a
f (t) dt = F (b)− F (a)
e o teorema est´a demonstrado.
Observa¸c˜oes
1. A igualdade A′(x) = f (x) que aparece na parte 1 do teorema fundamental do c´alculo pode ser reescrita como d
dx
∫ x a
f (t) dt = f (x)
e nos mostra que a derivada desta fun¸c˜ao ´e, simplesmente, o valor do integrando calculado no limite superior da integral. Temos tamb´em que ∫
x a f (t) dt = ∫ x a d dtF (t) dt
e por sua vez ∫
x a
d
dtF (t) dt = F (x)− F (a)
Neste sentido, diz-se que as opera¸c˜oes de deriva¸c˜ao e integra¸c˜ao s˜ao inversas uma da outra. 2. Usa-se a nota¸c˜ao F (x)|ba para representar a diferen¸ca F (b)− F (a). Assim, escrevemos
∫ b a
f (x) dx = F (x)|ba= F (b)− F (a) .
3. Qualquer primitiva de f (x) servir´a para o c´alculo da ∫abf (x) dx. A veracidade desta afirma¸c˜ao ´e facilmente comprovada se lembrarmos que quaisquer duas primitivas de f diferem por uma constante. Assim, se F ´e uma primitiva de f , ent˜ao qualquer outra primitiva desta fun¸c˜ao ´e obtida adicionando-se uma conveniente constante
C `a fun¸c˜ao F para obter F + C. Deste modo, como
(F (x) + C)|ba = (F (b) + C)− (F (a) + C) = F (b) − F (a) ,
a constante arbitr´aria C n˜ao tem efeito sobre o resultado, portanto, podemos sempre escolher C = 0, quando estamos achando primitivas com o prop´osito de calcular integrais definidas.
4. Este teorema torna o dif´ıcil problema de calcular integrais definidas por meio do c´alculo do limite de somas num problema muito mais f´acil de encontrar primitivas. Portanto, para achar o valor de∫abf (x) dx n˜ao precisamos mais calcular limites de somas de Riemann; simplesmente achamos, da maneira que for poss´ıvel (por inspe¸c˜ao, por algum c´alculo inteligente, por inspira¸c˜ao divina, procurando numa tabela, usando o Maple), uma primitiva
F da fun¸c˜ao que queremos integrar e calculamos o n´umero F (b)− F (a).
5. A tarefa de encontrar primitivas de fun¸c˜oes n˜ao ´e trivial e, em alguns casos, ´e imposs´ıvel determinar primitivas em termos de fun¸c˜oes elementares – polinˆomios, senos e cossenos, logaritmos e exponenciais, ou combina¸c˜oes e composi¸c˜oes destas fun¸c˜oes. No entanto, a fun¸c˜ao A(x) definida no teorema fundamental do c´alculo, existe sempre que o integrando for uma fun¸c˜ao cont´ınua no intervalo [a, x], mesmo que n˜ao saibamos calcul´a-la explicitamente, e ´e cont´ınua, pois ´e deriv´avel. Neste sentido, por exemplo, o problema de se achar uma f´ormula expl´ıcita para a integral
∫ x a
sen(x2) dx
est´a fora do nosso alcance. Entretanto, se em vez de procurarmos uma f´ormula expl´ıcita para esta integral quisermos apenas uma fun¸c˜ao bem definida, a express˜ao F (x) =∫axsen(x2) dx servir´a como uma boa defini¸c˜ao para a fun¸c˜ao procurada. (Veja o Exemplo 5.)
Exemplo 1
Se n ´e um inteiro positivo, calcule uma primitiva de xn e use este resultado para calcular∫−12 x5dx.
Solu¸c˜ao Como d dx ( x(n+1) n + 1 ) = xn, temos que x 6
6 ´e a primitiva procurada. Assim, pelo teorema fundamental do
c´alculo obtemos: ∫ 2 −1 x5dx = x 6 6 2 −1 = 2 6 6 − (−1)6 6 = 63 6 . Exemplo 2 Calcule ∫ 2 −1 x2− xdx .
Solu¸c˜ao: Como x2− x ≤ 0 em (0, 1) e x2− x ≥ 0 em (−1, 0) e (1, 2), usando as propriedades da integral definida, temos ∫ 2 −1 x2− xdx = ∫ 0 −1 x2− x dx + ∫ 1 0 x− x2dx + ∫ 2 1 x2− x dx = [ x3 3 − x2 2 ]0 −1 + [ x2 2 − x3 3 ]1 0 + [ x3 3 − x2 2 ]2 1 = −((−1) 3 3 − (−1)2 2 ) + ( 1 2− 1 3) + [ 23 3 − 22 2 − ( 1 3 − 1 2)] = 11 6 .
Exemplo 3 Considere a fun¸c˜ao f (x) = 2 x3+ 2 x2− 4 x . (a) Calcule∫−21 f (x) dx.
(b) Ache a ´area da regi˜ao limitada pelo gr´afico de f e o eixo x.
Solu¸c˜ao (a) Como a fun¸c˜ao F (x) = x24 +2 x33 − 2 x2´e uma primitiva de
f (x) = 2 x3+ 2 x2− 4 x, tem-se que ∫ 1 −2 2 x3+ 2 x2− 4 x dx = x 4 2 + 2 x3 3 − 2 x 2 1 −2 = 1 2+ 2 3 − 2 − ( (−2)4 2 + 2 (−2)3 3 − 2 (−2) 2) = 9 2 (b) Observe o o seguinte gr´afico da fun¸c˜ao f :
R2 R1 –3 –2 –1 0 1 2 3 4 5 y –3 –2 –1 1 x 2 3
A regi˜ao limitada pelo gr´afico de f e o eixo x ´e composta de duas regi˜oes R1 e R2. A ´area de R1 ´e dada por ∫ 0 −2 2 x3+ 2 x2− 4 x dx = x 4 2 + 2 x3 3 − 2 x 2 0 −2 =− ( (−2)4 2 + 2 (−2)3 3 − 2 (−2) 2 ) = 16 3
No intervalo (0, 1) a fun¸c˜ao ´e negativa, de modo que, para obter a ´area (positiva) da regi˜ao R2, devemos mudar o sinal da integral de f neste intervalo. Assim, a ´area de R2 ser´a dada por
− ∫ 1 0 2 x3+ 2 x2− 4 x dx = − [ x4 2 + 2 x3 3 − 2 x 2 ]1 0 =−(1 2+ 2 3 − 2) = 5 6. Logo, a ´area R da regi˜ao pedida ser´a
R = R1 + R2 =16 3 + 5 6 = 37 6 .
Este racioc´ınio ´e equivalente a integrarmos o valor absoluto de f no intervalo considerado, pois ∫ 1 −2| f(x) | dx = ∫ 0 −2 f (x) dx− ∫ 1 0 f (x) dx ,
e esta soma fornece a ´area que queremos calcular. Esta conclus˜ao ´e ilustrada pelo gr´afico de y =| f(x) |, mostrado a seguir. Compare este gr´afico com o de y = f (x) tra¸cado anteriormente.
–3 –2 –1 0 1 2 3 4 5 y –3 –2 –1 1 x 2 3 Exemplo 4 Calcule dy dx, se (a) y = f (x) = ∫ x 0 t3sen(t) dt (b) y = h(x) = ∫ x2 0 t3sin(t) dt
Solu¸c˜ao (a) A primeira parte do teorema fundamental do c´alculo afirma que a derivada de uma integral em rela¸c˜ao ao seu limite superior ´e igual ao valor do integrando naquele limite. Assim, se y(x) =∫0xt3sen(t) dt, temos, imediatamente, que dydx = x3sen(x).
(b) Este caso ´e um pouco mais complicado, pois o limite superior da integral ´e uma fun¸c˜ao da vari´avel em rela¸c˜ao a qual desejamos derivar a fun¸c˜ao dada. Neste caso, seja u = g(x) = x2. Assim, se
F (u) =
∫ u
0
t3sen(t) dt
ent˜ao, h(x) = (F ◦ g)(x). Pela regra da cadeia,
dh dx = dF du du dx = u
3sen(u)2x = x6sen(x2) 2x = 2x7sen(x2)
Exemplo 5 A integral S(x) =∫0x sen ( π t2 2 )
dt ´e chamada fun¸c˜ao de Fresnel e apareceu pela primeira vez no trabalho do f´ısico
(a) Para que valores de x esta fun¸c˜ao tem m´aximos locais. (b) Em que intervalos esta fun¸c˜ao ´e cˆoncava para cima?
Solu¸c˜ao (a) A primeira parte do teorema fundamental do C´alculo nos mostra que
S′(x) = sen ( π x2 2 ) .
A partir desta informa¸c˜ao, podemos aplicar os m´etodos do c´alculo diferencial para analisar esta fun¸c˜ao. Como S′ ´e cont´ınua em toda a reta, os pontos cr´ıticos de S s´o poder˜ao ocorrer onde S′(x) = 0, ou seja, onde sen
(
π x2
2 )
= 0. Da´ı, decorre que x =±√2 k, para k = 0, 1, 2 . . ..
Para decidir quais destes pontos s˜ao m´aximos locais, vamos aplicar o teste da derivada segunda. Assim, como
S′′(x) = π x cos (
π x2
2 )
, temos que, para valores ´ımpares de k, S′′(√2 k) ser´a negativa e, portanto, os pontos x =√2 k (k ´ımpar ) ser˜ao m´aximos locais da fun¸c˜ao S.
A an´alise ´e an´aloga para o caso em que x =−√2 k. O ponto (0, 0) ´e um ponto de inflex˜ao da fun¸c˜ao S. (Confira!) O item (b) ´e deixado como exerc´ıcio para o leitor.
Veja abaixo, `a esquerda o gr´afico desta fun¸c˜ao tra¸cado com a ajuda do Maple e abaixo `a direita um detalhe do mesmo (para x variando de 0 at´e 2,5) tra¸cado em conjunto com a sua derivada. Observe que as conclus˜oes obtidas acima coincidem com os gr´aficos apresentados.
–0.6 –0.4 –0.2 0 0.2 0.4 0.6 –4 –3 –2 –1 1 2x 3 4 –1 –0.8 –0.6 –0.4 –0.2 0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 0.2 0.4 0.6 0.8 1 1.2 1.4 1.6 1.8 2 2.2 2.4x
22.3
Integrais indefinidas
Uma integral como ∫ b
a
f (x) dx ´e chamada integral definida de f. Uma fun¸c˜ao F , tal que F′(x) = f (x) ´e uma primitiva de f (x), assim como F (x) + C, onde C ´e uma constante real qualquer. `A medida que variamos C, obtemos o conjunto de todas as primitivas de f . Podemos representar este conjunto por
∫
f (x) dx = F (x) + C.
A integral que aparece nesta express˜ao ´e chamada integral indefinida de f e ´e usada para especificar a primitiva mais geral de f . Assim, ∫
f (x) dx = F (x) + C se e somente se F′(x) = f (x) e podemos escrever que
d dx ∫ f (x) dx = d dx(F (x) + C) = f (x) e ∫ f (x) dx = ∫ d dxF (x) dx = F (x) + C .
A constante C ´e chamada de constante de integra¸c˜ao. Para cada valor de C temos uma primitiva de f . Veja a figura a seguir, onde tra¸camos o gr´afico de v´arias primitivas da fun¸c˜ao f (x) = (x− 2)2, obtidas pela varia¸c˜ao do valor da constante C. c =3 c = 2 c = 1 c = 0 c = –1 c = –2 –4 –2 0 2 4 y 1 2x 3 4
Em geral, n˜ao se explicita o dom´ınio de F . Sup˜oe-se sempre escolhido um intervalo em que f seja integr´avel. Tal como no caso de integrais definidas, aqui tamb´em ´e irrelevante o s´ımbolo adotado para a vari´avel de integra¸c˜ao, por exemplo,∫f (t) dt,∫f (u) du, etc. originam sempre a mesma fun¸c˜ao F . Como a integral indefinida de f ´e uma primitiva desta fun¸c˜ao, o teorema fundamental do c´alculo nos d´a a seguinte rela¸c˜ao entre integrais definidas e indefinidas:
∫ b a f (x) dx = [∫ f (x) dx ]b a
Assim, conhecida a integral indefinida de uma fun¸c˜ao f , podemos calcular qualquer integral definida desta mesma fun¸c˜ao. Al´em disso, a partir das propriedades operat´orias de deriva¸c˜ao, podemos estabelecer algumas regras b´asicas para as integrais indefinidas. Por exemplo, a propriedade operat´oria para derivar somas de fun¸c˜oes pode ser traduzida em termos de integrais indefinidas como
∫ (f (x) + g(x)) dx = ∫ f (x) dx + ∫ g(x) dx
Da mesma forma, se C ´e uma constante arbitr´aria, ∫
C f (x) dx = C
∫
f (x) dx
Assim, tal como no caso de integrais definidas, toda regra de deriva¸c˜ao pode ser transformada em uma regra de integra¸c˜ao. Por exemplo, como
d dx (√ x2+ 5)= √ x x2+ 5 ⇒ ∫ x √ x2+ 5dx = √ x2+ 5 + C
Esta observa¸c˜ao nos permite construir uma tabela de integrais “invertendo” uma tabela de derivadas, como ´e feito nos exemplos a seguir.
Exemplo 1 A regra da potˆencia para integrais definidas ´e dada por ∫
xndx = x
(n+1)
n + 1 + C, para todo racional n̸= −1.
Exemplo 2 Da mesma maneira, valem as regras
∫ sen(x) dx =−cos(x) + C ∫ cos(x) dx = sen(x) + C ∫ sec2(x) dx = tg(x) + C ∫ cossec2(x) dx =−cotg(x) + C ∫ 1 1 + x2dx = arctg(x) + C ∫ 1 √ 1− x2dx = arcsen(x) + C
Como j´a dissemos, a tarefa de encontrar primitivas e, portanto, de calcular integrais indefinidas, n˜ao ´e trivial. Nos pr´oximos cap´ıtulos, desenvolveremos m´etodos que ser˜ao ´uteis no c´alculo de integrais indefinidas.
22.4
Exerc´ıcios
1. Calcule as integrais abaixo usando o teorema fundamental do c´alculo: (a) ∫ 3 1 x2dx (b) ∫ π 0 sen(x) dx (c) ∫ π 0 cos(x) dx (d) ∫ 1 0 5 x3− 4 x2+ 2 dx (e) ∫ π 4 0 sec2x dx
2. Use o teorema fundamental do c´alculo e as propriedades de integral para calcular as integrais abaixo: (a) ∫ 1 −1 5 x5+ 3 x3+ sen(2 x) dx (b) ∫ π 0 sen(x) cos(x) dx (c) ∫ 9 1 √ 3 x− 2 dx (d) ∫ 4 2 √ 3 x−√1 xdx (e) ∫ π 0 cos(5 x) dx (f) ∫ 3 1 5 x4 − 2 x3dx (g) ∫ 2 1 x3+ x4 x dx (h) ∫ π 0 2 x cos(x2) dx
3. Usando as propriedades das integrais definidas e o teorema fundamental do c´alculo, prove que a integral de um polinˆomio de grau n ´e dada por:
∫ b a n ∑ i=0 cixidx = n ∑ i=0 ( ci i + 1 ) x(i+1) b a 4. Seja f (x) = { x + 1 x < 0 cos(x) x≥ 0. Calcule ∫ 1 −1 f (x) dx.
5. Em cada um dos itens abaixo, determine um n´umero c que satisfa¸ca a conclus˜ao do teorema do valor m´edio para integrais definidas: (a) ∫ 4 0 √ x + 1 dx (b) ∫ 1 −1 (2 x + 1)2dx (c) ∫ 2 −1 3 x3+ 2 dx (d) ∫ 9 1 3 x2dx
6. (a) Se f (x) = x2+ 1, determine a ´area da regi˜ao sob o gr´afico de f de−1 a 2. (b) Se f (x) = x3, determine a ´area da regi˜ao sob o gr´afico de f de 1 a 3.
7. Use integra¸c˜ao para calcular a ´area do triˆangulo delimitado pela reta y = 2 x, pelo eixo x e pela reta x = 3. Confira sua resposta usando geometria.
8. Use uma integral definida para provar que a ´area de um triˆangulo retˆangulo de base b e altura a ´e dada por ab2.. 9. Cada uma das curvas a seguir tem um arco acima do eixo x. Calcule a ´area da regi˜ao sob o arco.
(a) y =−x3+ 4 x (b) y = x3− 9 x
(c) y = 2 x2− x3 (d) y = x4− 6 x2+ 8 . 10. Ache a f´ormula geral para F (x) =∫0xt2+ 2 t + 5 dt. Idem para∫x
a t
5− 2 t3+ 1 dt.
11. Ache a primeira e a segunda derivada de cada uma das fun¸c˜oes dadas abaixo (a) f(x) = ∫ x 5 t2dt (b) g(x) = ∫ x π t3+ 1 dt (c) h(x) = ∫ x −4 √ 1 + t8dt (d) g(x) = ∫ 3 x (1 + t3)100dt (e) f(x) = ∫ 5 x 1 t dt, para x > 0.
22.5
Problemas
1. Ache a ´area sob o gr´afico de y = √x
x2+1 desde x = 1 at´e x = 2.
(A menos que vocˆe consiga se lembrar de alguma fun¸c˜ao cuja derivada seja√x
x2+1, vocˆe n˜ao ter´a como resolver este
problema. O radical no denominador sugere que, de alguma forma, vocˆe deve tentar usar a f´ormula (√f )′ = f′ 2√f. 2. Calcule ∫ 1 −1 t √
t2+ 1dt. Sugest˜ao: Esboce o gr´afico desta fun¸c˜ao e explique por que o valor desta integral pode ser determinado sem ser necess´ario fazer nenhum c´alculo!
3. Calcule ∫ π
2
−π
2
sen(x) (cos(x) + 3 x2− x sen(x)) dx.
(Se vocˆe achou este problema dif´ıcil, use o Maple para tra¸car o gr´afico do integrando e conclua porque n˜ao ´e necess´ario nenhum c´alculo para resolver esta integral!)
4. (a) Se f (x) ´e uma fun¸c˜ao ´ımpar, isto ´e, f (−x) = −f(x), mostre, geom´etrica e analiticamente, que∫−aa f (x) dx = 0.
(b) Se f (x) ´e uma fun¸c˜ao par, isto ´e f (−x) = f(x), mostre geometrica e analiticamente, que ∫−aa f (x) dx =
2 ∫0af (x) dx
5. O gr´afico de y = x2, x≥ 0, pode ser considerado como sendo o gr´afico de x = √y, y ≥ 0. Mostre, por geometria, que isto implica a validade da equa¸c˜ao ∫0ax2dx +∫a2
0
√y dy = a3, a > 0. Confira este resultado calculando as integrais.
6. Para calcular a integral ∫−11 x12dx, um aluno de C´alculo I raciocinou da seguinte maneira:
Seja F (x) =−1x. Como F′(x) = x12, temos que
∫ 1 −1 1 x2dx = F (1)− F (−1) = −1 − (− 1 −1) =−2.
O resultado acima representa, geometricamente, a ´area sob o gr´afico da curva y = x12, de x =−1 at´e x = 1 que,
evidentemente, n˜ao pode ser negativa. Qual a falha no racioc´ınio deste aluno?
7. (a) Seja um ponto P que se move com velocidade cont´ınua v numa reta coordenada. Mostre que a velocidade m´edia deste ponto, no intervalo [a, b], ´e igual `a m´edia de v em [a, b].
(b) Se f tem derivada cont´ınua em [a, b], mostre que a taxa m´edia de varia¸c˜ao de f (x) em rela¸c˜ao a x em [a,b], ´
e igual ao valor m´edio de f′ em [a,b].
8. Uma pedra cai de um edif´ıcio de 40 metros de altura. Ache a velocidade m´edia da pedra se ela demora 18 segundos para atingir o solo.
9. A temperatura m´edia da praia de Copacabana em um dia de ver˜ao das 8 da manh˜a `as 6 da tarde ´e dada, aproximadamente, por T (t) = 25 + 16 sen(π t
10). Considerando t = 0 `as oito da manh˜a, calcule a temperatura m´edia da areia no per´ıodo de 10 horas discriminado acima.
10. Os itens abaixo se referem `a fun¸c˜ao F (x) =∫0x1+t14dt, qualquer que seja x real.
(a) Ache F (0) e F′(1).
(b) Justifique por que F (3)− F (1) < 1.
(c) Justifique por que F (x) + F (−x) = 0, qualquer que seja o n´umero real x. (d) Mostre que F ´e invert´ıvel em toda a reta e calcule (d F−1
dx )(1).
11. (a) Ache a ´area A, como uma fun¸c˜ao de k, da regi˜ao no primeiro quadrante limitada pelo eixo y, pela reta y =
k , k > 0, e pelo gr´afico da fun¸c˜ao y = x3. (b) Qual o valor de A quando k = 1?
(c) Se a reta y = k est´a se movendo para cima a uma taxa constante de 101 unidades de comprimento por segundo, qual a taxa de varia¸c˜ao de A quando k = 1?
12. Seja g(x) =∫4x f (t) dt, onde f ´e a fun¸c˜ao cujo gr´afico ´e mostrado a seguir. (a) Calcule g(4), g(−4), g(−3), g(0) e g(2).
(b) Em que intervalos g ´e crescente?
(c) Em que ponto g atinge o seu valor m´aximo? (d) Esboce o gr´afico de g.
(e) Use o gr´afico obtido no item anterior para esbo¸car o gr´afico de g′. Compare o gr´afico assim obtido com o gr´afico de g. –1 –0.8 –0.6 –0.4 –0.2 0.2 0.4 0.6 0.8 1 –4 –2 2 4
13. Suponha que g′(x) < 0 para todo x≥ 0 e seja F (x) =∫0xt g′(t) dt, para todo x≥ 0. Justifique a veracidade ou a falsidade das afirma¸c˜oes:
(a) F ´e negativa para todo x≥ 0. (b) F ´e cont´ınua para todo x≥ 0.
(c) F′(x) existe para todo x > 0. (d) F ´e uma fun¸c˜ao crescente.
14. Seja f (x) uma fun¸c˜ao duas vezes diferenci´avel tal que f′′ ´e cont´ınua em toda a reta. Sabendo que f (0) =−4, f (1) = 3, f′(0) = 5, f′(1) = 2, f′′(0) = 3 e f′′(1) = 1, calcule∫01 f′′(x) dx e∫01 f′(x) dx. 15. Mostre que d dx (∫ u2(x) u1(x) f (t) dt ) = f (u2(x)) ( d u2 dx ) − f(u1(x)) ( d u1 dx )
. Use este resultado para calcular
d dx (∫ x3 x2 1 t dt )
22.6
Um pouco de hist´
oria: A integral de Lebesgue
O m´etodo de calcular ´areas e volumes de figuras geom´etricas complicadas por meio de ´areas e volumes de figuras mais simples, j´a era usado por Arquimedes (287-212 A.C.). Tal id´eia foi o germe do que se convencionou chamar de c´alculo infinitesimal. Embora esta id´eia seja t˜ao antiga, sua formaliza¸c˜ao matem´atica, denominada teoria da integra¸c˜ao, teve seu apogeu no s´eculo atual. Podemos afirmar que o conceito de integral aparece, de fato, em forma embrion´aria, nos trabalhos de Arquimedes, ao utilizar o M´etodo da Exaust˜ao criado por Eudoxo (408-355 A.C.), no c´alculo de comprimento de curvas, de ´areas e de volumes de figuras geom´etricas. Um dos resultados obtidos por Arquimedes com o emprego deste m´etodo ´e descrito no projeto Arquimedes e a quadratura da par´abola.
Ainda que os conceitos de derivada como coeficiente angular da tangente e da integral definida como ´area sob uma curva fossem familiares a muitos pensadores desde a Antiguidade, dizemos que Newton e Leibniz lan¸caram as bases do c´alculo diferencial e integral porque eles, trabalhando quase ao mesmo tempo e independentemente um do outro, foram os principais descobridores do teorema fundamental do c´alculo e aqueles que primeiro compreenderam a sua importˆancia, come¸cando a construir a necess´aria teoria para o estabelecimento destas no¸c˜oes em bases s´olidas, aplicando os seus resultados, com sucesso espetacular, a problemas de mecˆanica e geometria.
Entretanto, Newton e Leibniz n˜ao possu´ıam com clareza a no¸c˜ao de limite, deixando duvidosos e obscuros v´arios pontos de seus trabalhos, com a introdu¸c˜ao do conceito de infinit´esimo.
Posteriormente, com os trabalhos de Cauchy (1789-1857) e Riemann (1826-1866), o conceito de integral foi estab-elecido em bases matem´aticas rigorosas, tornando-se para a ´epoca um instrumento poderoso na resolu¸c˜ao de in´umeros problemas.
Durante muito tempo foi desenvolvida uma teoria de integra¸c˜ao baseada nas id´eias de Riemann. Esta teoria, entre-tanto, cont´em certos inconvenientes que a tornam inadequada ao estudo de v´arios problemas da an´alise matem´atica. Na se¸c˜ao Para vocˆe Meditar, deste cap´ıtulo, focalizamos um desses inconvenientes.
Como a no¸c˜ao de integral de Riemann apresenta certas deficiˆencias que a tornam ineficaz para a resolu¸c˜ao de um grande n´umero de problemas, fez-se necess´aria a reformula¸c˜ao de tal conceito, com o objetivo de se obter uma integral sem as deficiˆencias da integral de Riemann e a contendo como um caso particular. Dito de outro modo, dever-se-ia obter uma integral tal que a nova classe de fun¸c˜oes integr´aveis contivesse a classe de fun¸c˜oes integr´aveis a Riemann (onde as duas integrais deveriam coincidir) e na qual os inconvenientes da integral de Riemann desaparecessem ou, pelo menos, fosse minimizados.
O passo decisivo no sentido de se obter uma defini¸c˜ao de integral que eliminasse as deficiˆencias existentes na integral de Riemann foi dado por Henri Lebesgue (1875-1941), quando em 1902 publicou sua famosa tese de doutoramento, intitulada “Int´egrale, longuer, aire”, que atualmente est´a contida no livro “Le¸cons sur l’Integration et la Recherche des Fonctions Primitives”. O conceito de integral originalmente proposto por Lebesgue baseia-se na no¸c˜ao de medida de conjuntos, e as suas id´eias se afastaram tanto dos cˆanones da ´epoca que foram, em princ´ıpio, refutadas e sever-amente criticadas. Todavia, a originalidade de suas id´eias encontrou crescente reconhecimento, vindo a completar definitivamente certas lacunas inerentes `a integral de Riemann.
A integral de Lebesgue foi a primeira tentativa frut´ıfera de organiza¸c˜ao matem´atica da no¸c˜ao de integral. Neste sentido, costuma-se dizer que a teoria de integra¸c˜ao foi criada no s´eculo XX.
22.7
Para vocˆ
e meditar: Uma conclus˜
ao intuitiva ou um erro te´
orico?
Dizemos que uma fun¸c˜ao u :(a, b)→ R ´e uma fun¸c˜ao escada quando existe uma parti¸c˜ao do intervalo (a, b) tal que
u ´e constante em cada subintervalo desta parti¸c˜ao. No cap´ıtulo anterior, utilizamos ´areas de retˆangulos inscritos (ou circunscritos) a uma regi˜ao para obter aproxima¸c˜oes para ´areas sob gr´aficos de fun¸c˜oes f positivas. Observe o gr´afico a seguir e conclua que, se mi ´e o menor valor da fun¸c˜ao f em cada subintervalo da parti¸c˜ao, a ´area dos retˆangulos
0 1 2 3 4 0.2 0.4 0.6 0.8 x1 1.2 1.4 1.6 1.8 2
No cap´ıtulo anterior conclu´ımos, tamb´em, que o valor exato da ´area sob uma curva poderia ser obtido tomando-se o limite das ´areas desses retˆangulos. Seguindo o mesmo racioc´ınio, podemos observar que `a medida que o n´umero de intervalos considerados na parti¸c˜ao aumenta, a seq¨uˆencia de fun¸c˜oes escadas un associadas, da maneira descrita
acima, a cada subintervalo das parti¸c˜oes, converge para a fun¸c˜ao f , isto ´e, lim
n→∞un= f e desse modo, lim n→∞ ∫ b a un(x) dx = ∫ b a lim n→∞un(x) dx = ∫ b a f(x) dx . Estas afirma¸c˜oes s˜ao ilustradas no diagrama:
Considere agora a seq¨uˆencia de fun¸c˜oes gn definidas por
gn(x) = 2 n2x, 0≤ x ≤ 2 n1 2 n− 2 n2x, 2 n1 ≤ x ≤ n1 0, 1n ≤ x ≤ 1 Observe os gr´aficos de g1(x) e g2(x): 0 0.2 0.4 0.6 0.8 1 0.2 0.4 x 0.6 0.8 1 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 0.2 0.4 x 0.6 0.8 1 ´
E f´acil ver que, `a medida que n cresce, para cada x fixado, a seq¨uˆencia gn(x) converge para zero. Assim, podemos
dizer que lim
n→∞gn(x) = 0. No entanto, para cada n, temos que
∫1
0 gn(x) dx = 1
2 (por quˆe?) e, portanto
lim n→∞ ∫ 1 0 gn(x) dx = 1 2 ̸= 0 = ∫ 1 0 lim n→∞gn(x) dx
• E agora, ser´a que a nossa defini¸c˜ao de ´area sob uma curva est´a errada, pois n˜ao ´e verdade que limn
→∞ ∫ b a un(x) dx = ∫ b a lim n→∞un(x) dx?
• Se a conclus˜ao no primeiro exemplo apresentado acima ´e correta, qual a diferen¸ca entre os dois exemplos dados?
Por que no primeiro caso vale a igualdade lim n→∞ ∫ b a un(x) dx = ∫ b a lim n→∞un(x) dx
e no segundo este resultado n˜ao se aplica?
(Sugest˜ao: O cerne deste problema est´a na defini¸c˜ao de convergˆencia para seq¨uˆencia de fun¸c˜oes. O modo como as seq¨uˆencias acima convergem para a fun¸c˜ao limite ´e diferente nos dois casos apresentados. Tente entender onde est´a esta diferen¸ca!)
22.8
Projetos
22.8.1
Arquimedes e a quadratura da par´
abola
Vamos examinar o procedimento utilizado por Arquimedes para calcular a ´area de um segmento parab´olico, isto ´e, a ´
area da regi˜ao limitada por uma par´abola e pela reta AB como mostra a figura `a esquerda.
Para calcular a ´area desta regi˜ao, Arquimedes utilizou triˆangulos da maneira descrita a seguir. Sua primeira aproxima¸c˜ao foi o triˆangulo ABC, onde o v´ertice C ´e escolhido como o ponto em que a tangente `a par´abola ´e paralela `
a reta AB. (Veja figura `a direita).
B A 0 2 4 6 8 –3 –2 –1 1 x 2 3 C B A 0 2 4 6 8 –3 –2 –1 1 x 2 3
Sua segunda aproxima¸c˜ao foi obtida juntando-se ao triˆangulo ABC os dois triˆangulos ACD e BCE, onde o v´ertice D ´e o ponto em que a tangente ´e paralela `a reta AC e o v´ertice E ´e o ponto em que a tangente ´e paralela `a reta BC, continuando com este processo, at´e “exaurir” a ´area do segmento parab´olico.
Desta maneira, Arquimedes calculou a ´area do segmento parab´olico e mostrou que existe uma rela¸c˜ao entre esta ´
area e a ´area do primeiro triˆangulo utilizado para este c´alculo.
O objetivo deste projeto ´e utilizar conhecimentos de c´alculo, para descobrir no procedimento descrito acima a rela¸c˜ao existente entre as ´areas do segmento parab´olico e do primeiro triˆangulo utilizado por Arquimedes em um caso particular.
1. Considere a reta y = m x + b e a par´abola y = x2. Determine o ponto P no arco AOB da par´abola que maximize a ´area do triˆangulo APB, onde A e B s˜ao os pontos de interse¸c˜ao da reta e da par´abola e O ´e a origem do sistema de coordenadas.
2. Relacione a ´area deste triˆangulo ´otimo com a ´area da regi˜ao delimitada pela reta e pela par´abola.
3. Usando o teorema do valor m´edio, mostre que no ponto P a reta tangente `a par´abola ´e paralela `a reta AB. 4. Use os itens anteriores para concluir qual a rela¸c˜ao estabelecida por Arquimedes no seu trabalho sobre a
quadratura da par´abola.
22.8.2
Separa¸
c˜
ao de vari´
aveis, velocidade de escape e buracos negros
Grande parte da inspira¸c˜ao original para o desenvolvimento do C´alculo veio da F´ısica, mais especificamente, da Mecˆanica e estas ciˆencias continuam ligadas at´e hoje. A Mecˆanica ´e baseada em certos princ´ıpios b´asicos que foram formulados por Newton. O enunciado destes princ´ıpios requer o conceito de derivada, e suas in´umeras aplica¸c˜oes dependem do conceito de integral aplicado `a resolu¸c˜ao de equa¸c˜oes diferenciais: equa¸c˜oes que envolvem uma fun¸c˜ao e suas derivadas.
Resolver uma equa¸c˜ao diferencial significa encontrar uma fun¸c˜ao inc´ognita a partir de informa¸c˜oes dadas a respeito de sua taxa de varia¸c˜ao. Essas equa¸c˜oes aparecem t˜ao freq¨uentemente em problemas f´ısicos, biol´ogicos e qu´ımicos que seu estudo, hoje, constitui-se num dos principais ramos da matem´atica.
No projeto Estudando a queda dos corpos - Movimento uniformemente acelerado, vimos, como a partir de leis f´ısicas (no caso a segunda Lei de Newton), foi poss´ıvel obter uma equa¸c˜ao diferencial que modela a queda livre de corpos e ent˜ao deduzir v´arias f´ormulas para este movimento que usamos desde o segundo grau, sem uma justificativa mais profunda.
Nos exemplos estudados naquele projeto, tratamos a acelera¸c˜ao da gravidade como se fora uma constante e vimos que esta hip´otese ´e razo´avel para corpos que se movem pr´oximos `a superf´ıcie da Terra. No entanto, para estudar o
movimento de um corpo que se move para fora da Terra, no espa¸co, devemos levar em conta que a for¸ca da gravidade varia inversamente com o quadrado da distˆancia do corpo `a Terra.
Esta lei, conhecida como lei da gravita¸c˜ao de Newton, em homenagem ao grande matem´atico e f´ısico que a estabeleceu, afirma que duas part´ıculas quaisquer de mat´eria no universo se atraem com uma for¸ca proporcional a suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distˆancia entre elas. O objetivo deste projeto ´e utilizar esta lei e nossos conhecimentos sobre integrais para estabelecer a velocidade necess´aria para que um foguete escape da atra¸c˜ao gravitacional da Terra.
Equa¸c˜oes diferenciais e separa¸c˜ao de vari´aveis
Vimos que a equa¸c˜ao ∫f (x) dx = F (x) ´e equivalente a F′(x) = f (x). Esta afirma¸c˜ao pode ser interpretada de duas maneiras.
(a) Podemos pensar no s´ımbolo∫ . dx operando sobre a fun¸c˜ao f (x) para produzir sua primitiva. Dessa maneira, o sinal de integral e o s´ımbolo dx s˜ao, juntos, parte de um mesmo s´ımbolo. O sinal de integral especifica a opera¸c˜ao, e o ´unico papel de dx ´e assinalar qual ´e a vari´avel de integra¸c˜ao.
(b) Uma segunda interpreta¸c˜ao para a equivalˆencia acima ´e baseada na nota¸c˜ao e no conceito de diferencial de uma fun¸c˜ao introduzido no Cap. 20. Usando diferenciais, a igualdade F′(x) = f (x) pode ser escrita como
dF (x) = f (x) dx , onde f (x) dx ´e encarada como a diferencial da fun¸c˜ao F (x). Segundo este ponto de vista, o sinal de integral pode ser entendido como um operador que age sobre a diferencial de uma fun¸c˜ao, ou seja, sobre
f (x) dx , retornando, como resultado, a pr´opria fun¸c˜ao. Assim, o s´ımbolo de integral significa a opera¸c˜ao que ´e a inversa da diferencia¸c˜ao.
Esta segunda interpreta¸c˜ao ´e particularmente conveniente para a resolu¸c˜ao de certas equa¸c˜oes diferenciais simples. Como dissemos na introdu¸c˜ao, uma equa¸c˜ao diferencial ´e uma equa¸c˜ao que envolve uma fun¸c˜ao (a inc´ognita do problema) e suas derivadas. A ordem de uma equa¸c˜ao diferencial ´e a ordem da maior derivada que ocorre na equa¸c˜ao. Ao integrarmos uma fun¸c˜ao qualquer, estamos resolvendo uma equa¸c˜ao diferencial de primeira ordem. Assim, usando nota¸c˜ao diferencial, a equa¸c˜ao dydx = 3 x2 ´e equivalente a dy = 3 x2dx . Para resolver esta equa¸c˜ao diferencial, basta
integrarmos ∫
dy =
∫
3 x2dx⇒ y = x3+ C
Esta solu¸c˜ao ´e chamada solu¸c˜ao geral da equa¸c˜ao diferencial dada, e escolhas diferentes para a constante de integra¸c˜ao C fornecem solu¸c˜oes particulares.
De um modo geral, se uma equa¸c˜ao diferencial pode ser escrita na forma
g(y) dy = f (x) dx
com as vari´aveis x e y “separadas” em diferentes membros da igualdade acima, podemos integrar ambos os lados da identidade para obter a solu¸c˜ao da equa¸c˜ao.
Velocidade de escape
Suponha que um foguete seja lan¸cado para cima com velocidade inicial v0 e depois disso se mova sem nenhum gasto posterior de energia. Para valores grandes de v0, este foguete sobe bastante antes de atingir o repouso e iniciar sua queda de volta `a Terra. O problema que propomos ´e o de calcular a menor velocidade v0 para que o foguete jamais atinja o repouso e, por causa disso, escape da atra¸c˜ao gravitacional da Terra.
De acordo com a lei da gravita¸c˜ao de Newton, a for¸ca F que atrai o foguete para a Terra ´e dada por F =−G(M m s2 ),
onde G ´e uma constante positiva, M e m s˜ao as massas da Terra e do foguete, respectivamente, e s ´e a distˆancia do foguete ao centro da Terra (neste caso toda a massa da Terra est´a concentrada no seu centro). Como pela segunda lei do movimento de Newton, F = m a, temos que
(∗) m(d 2s dt2) =−G( M m s2 )⇒ d2s dt2 =− G M s2
Esta equa¸c˜ao nos diz que o movimento do foguete n˜ao depende da sua massa. Al´em disso, podemos determinar o valor da constante G se lembrarmos que, quando s = R (raio da Terra), a acelera¸c˜ao ddt22s ´e igual a −g (acelera¸c˜ao a
gravidade).
Ent˜ao, temos que GM = gR2, e como ddt22s=
dv
dt, podemos escrever (*) como
(∗∗) dv
dt =− gR2
Como, pela regra da cadeia, dvdt = (dvds)(dsdt) = (dvds)(v), a equa¸c˜ao (**) se transforma em
vdv ds =−
gR2 s2 .
1. Separe as vari´aveis e integre para obter a solu¸c˜ao geral desta equa¸c˜ao diferencial.
2. Use a condi¸c˜ao inicial v = v0, quando s = R, para determinar, dentre todas as solu¸c˜oes poss´ıveis da equa¸c˜ao, a solu¸c˜ao particular que nos interessa, isto ´e, determine o valor da constante de integra¸c˜ao a fim de que a solu¸c˜ao encontrada satisfa¸ca os dados iniciais do problema em estudo.
3. Examinando a solu¸c˜ao encontrada, determine a velocidade de escape da Terra. (Lembre-se de que a velocidade do foguete deve ser sempre positiva, pois se a velocidade se anular, o foguete p´ara e, ent˜ao, cai de volta `a Terra.) 4. Estime o valor da velocidade de escape usando para g o valor de 9,8 m/s2 e para R, 6, 37× 106 m.
5. Como vimos na discuss˜ao acima, a lei da gravita¸c˜ao de Newton implica que a gravidade na superf´ıcie de um plan-eta ou qualquer outro corpo celeste ´e diretamente proporcional `a massa do planeta e inversamente proporcional ao quadrado do seu raio.
(a) Se gL denota a acelera¸c˜ao devido `a gravidade da Lua, use o fato de que a Lua tem, aproximadamente, 113
do raio e 811 da massa da Terra para mostrar que gL´e aproximadamente igual a g6.
(b) Calcule a velocidade de escape para a Lua.
(c) Explique por que se o raio de um corpo diminui e sua massa se mant´em constante a velocidade de escape para este corpo cresce.
Buracos negros
A maioria das estrelas normais ´e mantida em seu estado gasoso em virtude da press˜ao de radia¸c˜ao de dentro, que ´e gerada pela queima de combust´ıvel nuclear. Quando o combust´ıvel nuclear se distribui, a estrela sofre um colapso gravitacional, transformando-se numa esfera muito menor com, essencialmente, a mesma massa.
A mat´eria comprimida e degenerada dessas estrelas que ca´ıram em colapso podem alcan¸car dois tipos de equil´ıbrio, dependendo da massa da estrela. As estrelas an˜as brancas s˜ao as que se formam quando a massa ´e menor que cerca de 1,3 massas solares, e estrelas de nˆeutrons aparecem quando a massa est´a entre 1,3 e 2 massas solares. Para estrelas mais pesadas, o equil´ıbrio n˜ao ´e poss´ıvel e o colapso continua at´e que a velocidade de escape na superf´ıcie atinja a velocidade da luz. Estrelas em colapso deste tipo s˜ao completamente invis´ıveis, pois n˜ao emitem nenhuma radia¸c˜ao. Estes s˜ao os chamados buracos negros.
• Se o sol pudesse ser concentrado numa esfera menor com a mesma massa, qual seria um valor aproximado do seu raio