EFICÁCIA DA VACINA E OUTROS ASPECTOS DO SARAMPO
EM
SURTO OCORRIDO
EM PLANALTINA,
DISTRITO FEDERAL,
BRASIL’
Roberto Augusto Becker2 e Rosely Cerqueira de Oliveira
Introduqáo
0 Distrito Federal, situado no Planalto Central brasileiro, à altitude media de
1 100 m, ocupa urna área de 5 771 km2,
desmembrada do estado de Goiás. 0
clima mostra duas estacões diferenciadas:
chuvosa no verão (novembro a abril) e
seca no inverno (maio a setembro),
quando a umidade do ar chega a apresen- tar índices inferiores a 20%. A tempera- tura é bastante homogênea durante o ano (1, 2). Está dividido em oito regio& ad- ministrativas, à primeira das quais corres- ponde a cidade de Brasília. As demais regiões são formadas pelas chamadas ci- dades-satélite, grandes áreas urbanas, na
verdade bairros periféricos, situados a
distâncias entre 15 e 40 km do centro (fi- gura 1).
Do ponto de vista demográfico o Dis- trito Federal apresenta-se como área de grande imigracão, intenso trânsito de pes- soas e acelerado crescimento. A tabela 1 mostra a evoluGão da sua populacão entre 1970 e 1980.
Em abril de í983, o Departamento de Saúde Pública da Secretaria de Saúde do
’ Relato de um inquérito epidemmlógico realizado em coopera+ técnica do Departamento de Saúde Pública da Secreta- na de Saúde do Distrito Federal, com a Dwisão Nacional de Epi- demiologia do Ministério de Saúde, Brasil Publica-se em ingles como Resenha no Bulletrn of the Pan Ammmn Hdh Organrration, 18(4):397-400, 1985.
* Ministério da Saúde, Secretaria Nacmnal de A+zs Básicas de Saúde, Divisão Nacional de Epldemiologia, Brasd.
’ Secretarlade Saúde, Departamento de Saúde Pública, Distrito Federal.
Distrito Federal constatou um aumento
do número de casos de sarampo notifica- dos pelas unidades de saúde (figura 2). Numa análise preliminar, verificou-se que esse aumento era generalizado, ocorrendo em todas as regio& administrativas do Distrito Federal. Os dados de registro de vacinacão anti-sarampo mostravam que a cobertura da populacão de menores de 1 ano, nos últimos anos, vinha sendo supe- rior a 70% em todo o Distrito Federal. 0 calculo de cobertura vacinal do grupo etá- rio de 1 a 4 anos, em 31 de dezembro de
1982, resultou em aparente cobertura
maior de 1 OO % . 0 cálculo foi obtido pela formula:4
Vacinas
aplicadas em Vacinas em 79 x 0,25 menores de aplicadas em 80 x 0,50 1 ano, de 1978 + no grupo cm 81 x 0,75 a 1981 dela4anos en182 x 1,0
x 100 Popula~ão de 1 a 4 anos, em 31/12/1982
Isso se explica pelo fato de ter havido in- tensificacão de vacinacão sem registro de-
purado de revacinacões, além de vaci-
nacão de não residentes, cuja registro foi somado ao dos residentes.
Conquanto existissem problemas que
dificultavam o cálculo exato, os dados su- geriam que as coberturas eram relativa-
’ A fórmula considera que as vacinas aplicadas no grupo de 1-4 anos dlstribuem-se homogeneamente por ano de vida. Deste modo, as criancas de 1 ano de idade (25% do grupo 1-4) em 1979 terá 4 anos em 1982 Para as vacinas aplicadas em 1980, 1981 e 1982, pelo mesmo cntério, teremos, respectwunente. 50%, 75% e 100% dentro do grupo de 1-4 anos em 1982.
FIGURA 1 -Divisáo Administrativa do Distrito Federal, Brasil. (As partes sombreadas correspondern às areas urbanas.)
Brazlândia isot I -~
f Jardim /
mente elevadas. De qualquer forma, em face do surto, foi determinada urna nova intensifica#io de vacinacão anti-sarampo, tendo como alvo a populacão de 9 meses a 9 anos de idade (que concetrava cerca de 70 % dos casos notificados), a qual foi rea-
lizada na primeira quinzena de maio.
Além da média habitual de aproximada- mente 5 000 doses por mês, foram aplica-
das cerca de 60 000 doses (em todo o Dis- trito Federal).
Tendo em vista que, até meados de
junho, a incidencia estava ainda em
elevacáo, foi solicitada assessoria técnica da Divisáo Nacional de Epidemiologia do
Ministério de Saúde, para avaliar a
situacáo e definir as medidas a serem ado- tadas. A existência de urna epidemia de
sarampo era incompatível com os altos
níveis de cobertura vacinal registrados pe- las unidades de saúde. Ainda mais inex- plicável era sua continuidade após a inten- sificacáo da vacinacáo. Por essa razáo,
decidiu-se realizar urna pesquisa de
campo que permitisse conhecer a real si-
tuacáo tanto das coberturas vacinais
quanto da incidencia do sarampo.
TABELA 1 -Popula@o residente no Distrito Federal, Brasil, por região administrativa, nos cen- sosde1970e1980.
Regiáo Popular+ Popula~áo Populqão Populacão adminis- em 1970 urbana em 1980 urbana
trativa No. 7% NO. 70
Brasília 272 002 100,o 411 305 100,o Gama 75 947 94,2 139 019 95,5 Taguatinga 109 584 94,3 480 109 98,6 Brazlândia 11 521 82,9 22 486 85,l Sobradinho 42 782 91,l 69 082 91,2 Planaltina 21 932 84,3 47 357 84,4 Paranoá 2 237 - 3 483 - Jardim 2 346 - 4 552 -
Materia& e métodos
Os dados disponíveis mostravam o
mesmo tipo de situacáo para todo o Dis-
trito Federal: eleva@0 significativa da
incidencia do sarampo apesar das altas
coberturas vacinais registradas. Na im- possibilidade de realizar rapidamente um
Distrito
FIGURA 2-Média mensal (197611962). Límite máximo esperado e coefi- cientes da incidência do sarampo, Distrito Federal, 1963. (Fonte: Secretaria de Saúde do Distrito Federal.)
FMAMJJ
estudo de campo em todo o Distrito Fede- ral, foi selecionada a regiáo administrativa de Planaltina que, pelo total e pela distribui- cáo da populacáo (cerca de 60 000 habi- tantes em 1983, dos quais cerca de 85 % urbanos), oferecia ótimas condicões para estudos dessa natureza. As informacões buscadas no inquérito referiam-se basica-
mente a: composicáo da populacáo se-
gundo a idade; cobertura vacinal segundo a idade; história de sarampo na popula-
gio; comportamento do sarampo em
1983, com incidência segundo a idade e o estado vacinal e efrcácia da vacina.
0 passo seguinte foi a realizacáo de um
inquérito por amostragem, na área ur-
bana de Planaltina, para a obtencáo dos três primeiros itens acima referidos. 0 ta- manho da amostra foi arbitrado com base
em estudos semelhantes realizados em
outras áreas e em modelos propostos para estudos de cobertura vacinal (3, 4).
Esses estudos mostram que um número mínimo de 500 menores de 5 anos é consi-
derado suficientemente consistente para
proporcionar estimativas seguras da si-
tuacáo vacinal por grupos de idade. Veri-
ficou-se igualmente que esse número de
criancas pode ser encontrado numa amos- tra da ordem de 800 a 1 000 domicílios. Dessa forma, a área urbana de Planaltina foi dividida em 244 conglomerados (quar- teiróes), com urna média de 37 domicílios cada um. Procedeu-se em seguida ao sor- teio de urna amostra sistemática de 30
conglomerados. Nas entrevistas, foram
empregados modelos de questinários
A S 0 N D
(domiciliare de casos de sarampo) adapta- dos do informe de consultor Alan Hinman (5). Foram treinados agentes de saúde do Centro de Saúde e do Hospital Regional de Planaltina que, juntamente com técni- cos do nível central da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e da Divisáo Nacional
de Epidemiologia, constituíram o grupo
de cerca de 20 pessoas, que num período de duas semanas, executou o levanta- mento de campo.
Paralelamente à pesquisa por amostra- gem, foi realizada urna busca ativa de ou- tros casos de sarampo nos domicilios vi- zinhos e em creches e escolas, tomando por base urna lista de casos notificados. Para cada caso de sarampo assim encon- trado foi preenchido o mesmo tipo de for- mulário utilizado para os casos encontra- dos na área amostrada. A adocáo desse
procedimento foi feita com base na
previsáo de que seria encontrado na amos- tra um número de casos de sarampo insu- ficiente para permitir o desdobramento
por idade e situacáo vacinal, dados
necessários, dentre outros, para o cálculo da eficácia da vacina.
Resultados
Nos 30 conglomerados amostrados,
TABELA 2-Coberturas vacinais anti+arampo,a segundo grupos etirios, em Planaltina, Distrito Federal, em 31 de dezembro de 1982 e 30 de junho de 1983.
Situa$io
31/12/1982 31/6/1983
Va- NãO Va- Náo
cina- vaci- Igno- Cobertura cina- vaci- Igno- Cobertura Idade Total dos nados rados % Total dos nados rados % 9-11 meses 37 13 21 3 38,2 35 23 9 3 71,9
l-4 anos 639 458 132 49 77,6 666 526 71 69 88.1 5-9 anos 622 302 204 116 59,7 630 418 104 108 80,l Total 1 298 773 357 168 68,4 1 331 967 184 180 84.0 d Excluidos os ignorados.
Como o levantamento de campo foi
realizado no final do primeiro semestre de 1983 e a elevacão significativa da incidên- cia do sarampo tinha comecado havia vá- rios meses, foi definido que o estudo abrangeria o primeiro semestre de 1983. Desta forma, caracterizou-se a situacão da
popuIa+o em 3 1 de dezembro de í982,
ou seja, no início da epidemia, e em 30 de junho de 1983, no final da mesma.
Na tabela 2 são comparadas as cober- turas vacinais da populacáo nessas duas datas. A partir dos dados de vacinas apli- cadas por ano de vida, e conforme a idade em que receberam a vacina, foram obtidas as coberturas alcancadas em menores de 1 ano de 1978 a 1981, que aparecem na ta- beia 3.
Como já foi dito, para o estudo de- talhado dos casos de sarampo foram inves- tigados os 69 casos encontrados na área
TABELA 3-Estimativa das coberturas vacinais anti- sarampo em menores de 1 ano em Planaltina, Distrito Federal, de1978a1981.
Ano 1978 1979 1980 1981 *
Cobertura % 62,8 63,6 75.6 66,5
amostrada, os 113 casos notificados e loca- lizados de residentes em Planaltina e os
118 casos encontrados a partir das notifí- cacões. Assim, foi obtido um total de 300 casos de sarampo ocorridos no primeiro semestre do ano, homogeneamente distri- buídos na área urbana de Planaltina.
TABELA 4-Casos de sarampo segundo grupos etários e situaqão vacinal investigados em Planaltina, Distrito Federal, de janeiro a junho de 1983.
SituaGáo vacinal Vacinados
Com
menos Com 9 Grupos de meses Não
etários 9 meses ou mais vacinados Ignorados Total Menos de
lano - 4 57 - 61
l-4 anos 56 21 51 23 151
5-9 anos 19 6 29 11 65
lo-14anos - - 15 - 15
15 anos
ou mais - - 6 2 8
Total 75 31 158 36 300
Eficácia da uacina
Sabe-se que quanto mais elevada for a cobertura vacinal, já que a eficácia es- perada da vacina náo atinge 100 % , maior será a proporcáo de casos em vacinados, devido ao aumento proporcional do níi- mero de criancas vacinadas, mas náo imu- nizadas. Calculando-se a ehcácia da va- cina pela fórmula:
Coeficiente Coeficiente ataque em não - ataque em Eficácia vacinados vacinados
da vacina = x 100
Coeficiente ataque cm não vacinados
o resultado obtido em Planaltina para o grupo etário de 1 a 9 anos foi de 64,7 % , sendo, portanto, sensivelmente inferior aos 90 a 95 % teoricamente esperados.
Em fevereiro de 1982, o Ministério da Saúde, com base em estudos sorológicos realizados em diversos países, entre os quais o Brasil (6), alterou a norma nacio- nal de vacinacáo anti-sarampo, elevando de 7 para 9 meses a idade mínima reco- mendada para recebê-la. Desta maneira, as criancas que em 1983 tinham menos de 2 anos de idade foram vacinadas, em sua grande maioria, quando tinham 9 meses ou mais, enquanto as acima daquela idade foram geralmente vacinadas com a idade de 7 ou 8 meses. A partir desses dados, e esperando-se aumento de eficácia da va- cina, quando aplicada a partir dos 9 meses de idade, o calculo foi desdobrado:
Coeficiente ataque em Coeficiente vacinados Eficácia ataque em não - com menos da vacina vacinados de 9 meses
aplicada = x 100
com menos Coeficiente ataque em de 9 meses não vacinados
Coeficiente ataque em Coeficiente - vacinados Eficácia ataque em não com 9 meses da vacina vacinados ou mais
aplicada = x 100
com 9 meses Coeficiente ataque ou mais cm não vacinados
Os resultados desse desdobramento de
cálculo mostraram urna eficácia de 82,9 % para a vacina aplicada a partir de 9 meses de idade e de 42,7 70 para a vacina apli-
cada antes dos 9 meses de idade.
Transmissão do sarampo em menores de um ano
Dos 300 casos investigados, 61 (20,3 %) ocorreram em menores de 1 ano; destes,
39 (64%) ocorreram em menores de 9
meses. Para o conhecimento mais de-
talhado do comportamento do sarampo
em menores de 1 ano, foram investigados, nos 61 casos desse grupo etário, o local de ’ infecccão e a idade do infectante. Os resul- tados, encontrados nas tabelas 5 e 6, mos- tram que os menores de 1 ano são infecta- dos quase que exclusivamente a partir de criancas maiores de 1 ano, basicamente no domicílio ou no peridomicílio.
Discussáo e conclusóes
Eficácia da vacina
Em comparacáo com os poucos estudos sobre efkácia da vacina contra o sarampo realizados no Brasil, o resultado obtido
TABELA B-Casos de sarampo em menores de 1 ano, com histbria de contágio conhecida, se. gundo a idade do infectante, em Planaltina, Dise trito Federal, de janeiro a junho de 1983.
Casos Idade de infectante No. %
Menos de 9 meses” 1 3.3
9- ll meses” 1 3,3
l-4 anos 18 60,O
5-9 anos 4 13.3
10 anos e mais 6 20,o
Total 30 100,o
TABELA 6-Casos de sarampo em menores de 1 ano, com histbria de contágio conhecida, se. gundo o local em que ocorreu, em Planaltina, Dis. trito Federal, de janeiro a junho de 1983.
ChSOS
Local de contágio Vizinhanca” Mesmo domicílio Ambulatório ou hospital Visita a ou de parentes e amigos Creche
No. %
14 36,8 12 31,6 8 21,l
3 73
1 2.6
Total 38 100,o
a Contágio ocorrido dentro ou fora do domicílio vizinho.
em Planaltina (64,7 %) é, aparentemente, um dos mais baixos. Assim, em Serrana, São Paulo, a eficácia da vacina foi calcu- lada em 7 1,4% para menores de 1 ano, em 84,0% para criancas de 1 a 4 anos e em 97,0% para criancas de 5 a 9 anos (7). Já num estudo realizado em São José do
Rio Preto, São Paulo (8), a efícácia entre os 2 e os 7 anos foi de 89,8%. Por um es- tudo realizado no município de São Paulo (9), pode-se calcular a eficácia da vacina, entre os 7 e os 35 meses de idade, em
84,7%. Finalmente, o único resultado
equivalente foi obtido em Santa Vitória, Minas Gerais (lo), onde a eficácia da va- cina no grupo etário de 1 a 4 anos foi calculada em cerca de 67%. Entretanto nenhum dos estudos citados faz referência à eficácia da vacina segundo a idade em que foi aplicada, mas somente segundo a idade em que ocorreu o sarampo.
É
interessante notar que, no município de São Paulo, apenas cerca de 43% das criancas vacinadas tinham menos de 9 meses no momento da vacina@ío (9), en-quanto em Planahina, aproximadamente
65% das criancas vacinadas antes da mu- danca da idade de vacinacão de 7 para 9 meses, recebiam a vacina com menos de 9 meses. Esse fato explica, ao menos em parte, a diferenca de eficácia encontrada nos dois estudos: 84,7% em São Paulo e
64,7 % , em Planaltina. Paradoxalmente, a eficácia foi maior em São Paulo do que em Planaltina, devido à menor eficiência
da vacinacão precoce. Essa conclusão
parece ficar mais evidente quando se
calcula -e isto foi feito até agora apenas em Planaltina- a efkácia da vacina se- gundo a idade da aplicacão: 42,7 % antes dos 9 meses, contra 82,9 % a partir desta idade.
Transmissão do sarampo em menores de 1 ano
Os dados apresentados na tabela 5 de- mostram um fato bastante conhecido, em- bora nem sempre corretamente avaliado: a fonte de infeccão dos casos de sarampo que ocorrem antes de 1 ano de idade é constituída de criancas maiores de 1 ano.
Incidhcia do sarampo antes dos 9 meses
Um dos problemas que têm preocupado os epidemiologistas é a elevada incidencia no Brasil de casos de sarampo em menores de 9 meses (10). Esse fato, já em 1973, le- vou o Ministério da Saúde a recomendar a
vacinacão anti-sarampo a partir dos 8
meses (ll), idade reduzida posterior-
mente para 7 meses. Ta.l procedimento, porém, não parece ter sido capaz de con- trolar a doenca, nem de alterar sua distri- buicão etária, devido, antes de tudo, às baixas coberturas vacinais médias obtidas no país. Entretanto, mesmo nas áreas que têm obtido coberturas elevadas, essa es- tratégia não logrou o êxito esperado, per- manecendo alta a incidencia da doenca, inclusive em criancas na faixa etária de 6 a 8 meses.
mas publicacões, como, por exemplo, Controle das doencas transmissíveis no homem (12), não surtiu efeito, além de apresentar vários inconvenientes a saber:
l baixa eficácia da vacina aplicada an-
tes dos 9 meses de idade, mantendo-se elevada a proporcão de criancas suscetí- veis;
l elevacáo considerável dos custos do
programa;
l dificuldade operacional em assegurar
a aplicacáo da segunda dose; e
l resposta imunitária a urna segunda
dose, em criancas que náo responderam à
primeira, aparentemente náo superior a
50% (13).
Na verdade, a análise dos aspectos epi-
demiológicos aqui considerados pode
oferecer a solucáo adequada para o con- trole do sarampo. Como a eficácia da va- cina é baixa, quando aplicada antes dos 9
meses de idade, e praticamente náo há
transmissáo de sarampo entre menores de 1 ano, será necessário, para protecão das criancas que náo atingiram a idade de va- cinacáo, diminuir ou eliminar seu contato com as fontes de infeccão, que são os maiores de 1 ano. Isso só será possível se forem atingidas altas coberturas vacinais, com elevada efkácia. Para tanto, deve-se aplicar a vacina quando a crianca atinge a idade mínima de 9 meses, sendo entáo ne- cessária apenas urna dose.
Medidas de controle adotadas
Como já se assinalou, a intensifica@0 da vacinacáo náo foi capaz de controlar o surto de sarampo, a despeito do volume de doses aplicadas (cerca de 6 000, apenas em Planaltina) e das coberturas vacinais já existentes (tabelas 2 e 3).
É
importante sa- lientar que a maioria das criancas vacina- das com menos de 1 ano recebeu a vacina antes dos 9 meses, do que resultou a sua baixa eíkácia. Por essa razáo a cobertura imunitária da populacáo de 1 a 9 anos era sensivelmente menor do que a sua cober- tura vacinal em 31 de dezembro de 1982, mesmo considerando que muitas criancas já tinham tido sarampo (tabelas 2 e 7). Acomparacáo desses dados em 31 de de- zembro de 1982 com a situacáo em 30 de junho de 1983 mostra que a vacinacáo de
maio nao representou um acréscimo
muito significativo à cobertura vacinal
nem à imunidade, aparentemente por
terem sido revacinadas criancas já vacina- das ou imunes por ocorrência anterior de sarampo.
Observa-se que a cobertura vacinal
subiu de 68,2% para 84,0% (tabela 2).
Entretanto, entre criancas que náo
tinham tido sarampo, a cobertura apenas aumentou de 50,0% para 55,4% (tabela 7). Isso explica por que tal vacinacáo náo foi capaz de bloquear o surto. Nota-se que, na tabela 7, foram corrigidas as co-
TABELA ir-Situacão imunitária de populaqão até nove anos,a segundo vacinaqáo e sarampo prévios, e conforme a idade ao ser vacinada, em Planaltina, Distrito Federal, em 31 de dezembro de 1982 e 30 de junho de 1983.
Situacão imunitária %
Data
D
A B C Subtotal Não Vacinados
Vacinados Imunizados Tiveram Imunizados não tweram Total (Sem sarampo) pela vacina sarampo (B+C) sarampo (A+C+D)
31/12/1982 50,o 32,5 25,4 57,9 24,6 100,o
30/6/1983 55,4 41,8 27,5 69,3 17,l 100,o
berturas de imunizados levando-se em
consideracao, além de sarampo prévio e
cobertura vacinal, a eficácia da vacina se- gundo a idade em que foi aplicada. Res- tavam ainda, em 30 de junho, mais de 30 % de suscetíveis entre as criancas de até 9 anos, proporcão que foi capaz de manter intensa circulacão de vírus de sarampo em
Planaltina. Como solucão imediata, foi
recomendada pelo Ministério de Saúde e
executada pela Secretaria de Saúde a vaci- nacão em massa contra 0 sarampo em todo o Distrito Federal, no dia 13 de agosto de 1983, dia nacional de vacinacão
contra a poliomielite. A vacina anti-
sarampo foi aplicada a todas as criancas de 9 meses a 4 anos completos, que não com- provaram, através de caderneta de vaci- nacão, ter recebido urna dose com a idade mínima de 9 meses. 0 total de doses apli- cadas nesta populacáo-alvo foi de 62 756, sendo 2 416 em Planaltina.
Resumo
Em abril de 1983, ocorreu um aumento do número de casos de sarampo no Dis- trito Federal, Brasil, apesar da elevada cobertura vacinal registrada. A intensifí-
cacáo da vacinacáo náo diminuiu a in-
tensidade do surto. Em face disso, foi
realizado um inquérito epidemiológico
por amostragem na cidade-satélite de
Planaltina, além da busca ativa de casos. Do total de 300 casos de sarampo assinala-
dos na localidade, 70% ocorreram em
menores de 5 anos, e 40,2 % de todos os casos ocorreram em criancas que tinham sido vacinadas. A efkácia da vacina foi calculada em 64,7% para o grupo de 1 a 9 anos. Calculada segundo a idade de apli- cacáo de vacina, a eficácia foi de 82,9% quando aplicada em criancas com 9 meses ou mais e de 42,7 % quando aplicada an- tes dos 9 meses. A análise dos dados levan- tados indica que a fonte de infeccáo dos casos que ocorreram antes de 1 ano de idade era constituída de criancas maiores
de 1 ano. Para proteger, portanto, as
criancas que náo atingiram a idade de va- cinacáo é necessário diminuir ou remover do seu convívio as fontes de infeccáo, que sáo as criancas maiores de 1 ano. Os autores discutem as questões relativas à idade para aplicacáo da vacina e as al-
ternativas operacionais e de esquemas de
vacinacáo . w
Agradecimento
Os autores agradecern as seguintes pessoas que participaram em urna ou mais fases do tra-
balho: Marina W. Osanai, Marília M.
Bulhões, Luíz A. de Oliveira e Ana R. Santos
(Ministério da Saúde); Ady M. da Costa, Clé-
lia M. Cordova, Martha M. K. E. Souza, Al-
fonso A. de Oliveira, Edmilson Mira, Farné-
sio F. Rodrigues, Glória G. de Oliveira,
Helder J. de Sousa, Márcia A. Ferreira, M. Eunice E. Gomes, Maria J. P. Lacerda, Marluce C. Ferreira, Jobo M. G. Evangelista, Ayr C. Viana, Orlando C. de Melo, Jairo J. Ribeiro, Maria H. Dias e Maria G. Linhares (Secretaria de Saúde, Brasília).
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Eficacia de la vacuna y otros qspectos del brote de sarampión ocurrido en Planaltina, Distrito Federal, Brasil (Resumen)
En abril de 1983 ocurrió un aumento del
número de casos de sarampión en el Distrito
Federal, Brasil, a pesar de la elevada cobertura
de vacunación registrada. La intensificación
de la vacunación no disminuyó la intensidad
del brote. En vista de eso se realizó una en-
cuesta epidemiológica por muestreo en la
ciudad satélite de Planaltina, además de una
búsqueda activa de casos. Del total de 300 ca- sos de sarampión encontrados en la localidad,
70% ocurrieron en menores de 5 años, y
40,2% de todos los casos ocurrieron en niños que habían sido vacunados. La eficacia de la
vacuna se calculó en 64,7 % para el grupo de 1 a 9 años. Calculada según la edad de aplica-
ción de la vacuna, la eficacia fue de 82,9% cuando era aplicada a niños de 9 meses o más y de 42,7 % cuando se aplicaba antes de los 9 meses. Un análisis de los datos recogidos in- dica que la fuente de infección de los casos que
ocurrían antes de un año de edad eran los
niños mayores de 1 año. Por tanto, para prote- ger a los niños que no alcanzaban la edad de vacunación era necesario disminuir o sacar de su contacto las fuentes de infección, que son los niños mayores de 1 año. Los autores discu- ten los problemas relativos a la edad de aplica-
ción de la vacuna y las alternativas opera-
cionales y de esquemas de vacunación.
Effectiveness of the vaccine and other aspects of the measles outbreak at Planaltina, Federal District, Brazil (Summary)
In April 1983 there was an increase in the erage of the population. Since intensified vac-
number of cases of measles in the Federal Dis- cination did not diminish the intensity of the
companied by an epidemiological sample sur-
vey conducted in the satellite town of
Planaltina. Of the 300 cases of measles re-
ported in this locahty, 70% were children un- der five years of age, and 40,2 % of al1 the cases
were children who had been vaccinated. The
effcacy of the vaccine was calculated at 64,7 % for the 1-9 year age group. Based on the age at
which the vaccine was administered, the effi-
cacy was calculated at 82,9% in children 9
months or older and at 42,7 % in infants under
9 months. Analysis of the survey data indicates that the source of infection for the cases youn- ger than one year of age was older children. Hence, for the protection of infants not yet of
vaccinating age, their proximity to sources of
infection-children over 1 year of age-must
be reduced or eliminated. The authors discuss
matters relating to age of vaccination and al-
ternative methods of operation and vaccina- tion arrangements.
Efficacité du vaccin et autres aspects de la poussée de rougeole à Planaltina,
district
fédéral, Brésil (Résumé)En avril 1983, il s’est produit un accroisse- ment du nombre de cas de rougeole dans de district fédéral du Brésil, malgré une large
campagne de vaccinations de la population.
Comme l’intensifícation de la vaccination n’a
pas permis de diminuer l’intensité de l’épidé- mie, on a procédé à un intense effort de dépis-
tage accompagné d’une étude épidémiolo-
gique par échantillonnage dans la ville satellite
de Planaltina. Sur les 300 cas de rougeole
signalés dans cette localité, 70% portaient sur des enfants de moins de 5 ans et 40,2 % de tous les cas avaient trait à des enfants qui avaient
déja été vaccinés. L’effcacité du vaccin a été
évaluée à 64,7 % pour le groupe d’âge de 1 à 9
ans. Sur la base de l’âge auquel le vaccin a été
administré, on a estimé l’effcacité à 82,9%
chez les enfants de 9 mois ou plus et à 42,7% chez les bébés de moins de 9 mois. L’analyse des données de l’enquête indique que la source de l’infection chez les enfants de moins de un an était des enfants plus âgés. Par conséquent, pour la protection des bébés non encare en âge d’être vaccinés, il faut réduire ou éliminer la proximité de ces bébés des sources d’infection, c’est-a-dire des enfants de plus d’un an. Les
auteurs examinent les questions relatives a