• Nenhum resultado encontrado

Cuidador e Finitude

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Cuidador e Finitude"

Copied!
10
0
0

Texto

(1)

Cuidador e Finitude

Ligia Py José Francisco Oliveira Introdução

A aproximação da morte de uma pessoa idosa requer um atendimento que inclui o idoso e seus cuidadores, familiares ou profissionais.

A organização dessa forma de intervenção alerta para um cenário multifacetado, e pressupõe um preparo peculiar dos profissionais da saúde que, trabalhando com idosos doentes nos arredores da morte, se veem confrontados com uma situação ameaçadora e letal, potencialmente geradora de uma condição emocional desfavorável à boa prática do cuidado.

Lembremos de que envelhecimento e morte são preocupações do homem que têm a idade da humanidade. Atualíssimas, nesta época de propagação do espetáculo da juventude e do império da barbárie, mantêm-se na cotidianidade da vida pública e privada. A exaltação da juventude inscrita no registro social da produção, reprodução, acumulação de riquezas e do consumo, descreve uma lógica de onde nascem os determinantes das formas de discriminação que descartam e excluem os mais velhos (Birman, 1995; Doll e Py, 2007).

Nesse cenário, convivemos com a insegurança frente aos ataques brutais a que individualmente estamos todos expostos, e assistimos passivamente à violência internacionalizada das megamortes, nas formas extremas de atrocidades praticadas contra populações inteiras (Van Den Bergen, 1999). De acordo com Cassorla (2007:275), “essa convivência contínua com a violência e a anestesia da sociedade em relação a ela reflete o fato de que vivemos numa sociedade em que a vida tem pouquíssimo valor, em que a destrutividade e a morte adquiriram tal poder justamente porque esse poder é negado.”

O avanço científico na área do envelhecimento acompanha o progresso contemporâneo nas mudanças de paradigma que se sucedem, derrubando certezas e iluminando incertezas. Dentre as incertezas que nos desafiam estão a perplexidade frente ao nosso próprio envelhecimento, e as perspectivas para a nossa morte, assim como o envelhecimento a morte referidos às gerações futuras (Jeckel-Neto (2000). Apontamos, aqui, para a necessidade urgente de um aprofundamento no conhecimento, a que juntamos a ação humana solidária de cuidar do outro, devendo também cuidado aquele que cuida.

Neste pequeno texto, nos propomos a fazer uma reflexão sobre a relação de cuidado no processo de adoecimento terminal de idosos, considerando o sofrimento e as carências de que sofre o cuidador.

(2)

Acerca do cuidado

Os estudos sobre o cuidado em saúde nos vêm do discurso da Enfermagem que tem a primazia da prática de cuidar. Desde os primórdios da existência, para a preservação da espécie e da vida do grupo, os seres humanos se valem da ação do cuidado, esse “tomar conta” do sustento alimentar, da procriação e criação da prole, da proteção e defesa da habitação e do território (Gonçalves, Alvarez e Santos, 2011).

Nesse sentido, Freud [1927] (1980) pensa a civilização como o resultado da reunião dos humanos, não só para aquisições novas e arrojado sentido de ir adiante, mas, basicamente, para se defenderem dos perigos das forças da natureza. Aí se revela o desamparo do ser humana, experiência revivida desde o instante do nascimento.

Um recém-nascido precisa ser cuidado, condição sine qua non da sua existência. A prematuração do ser humano ao nascer difere da maioria dos animais. Chegamos ao mundo com a necessidade radical de sermos cuidados: “o fator biológico, então, estabelece as primeiras situações de perigo e cria a necessidade de ser amado que acompanhará a criança durante o resto de sua vida” (Freud, 1926/1925] 1980:179).

Assim, podemos dizer que, nessa condição radicalmente humana, cuidar e amar têm a mesma significação. Ao longo da vida, a cada vez que nos deparamos com uma situação de perigo, nos sobrevém o desamparo, demandando um pedido de ajuda. Nas palavras de Pellegrino (1987: 310), “um náufrago, num mar proceloso, se aferrará à sua tábua de salvação na proporção direta do tamanho das ondas que o ameaçam”.

No discurso de Goldani (1999) sobre os novos contratos intergeracionais e de gênero da época atual, a mulher é a protagonista do cuidado aos pais e parentes idosos, doentes.

Ainda que a emergência dos novos valores de gênero traga a proposta de equidade para a responsabilidade de homens e mulheres no cuidado com os idosos dependentes, são mesmo as mulheres que assumem o papel de cuidadoras até as últimas consequências. Ou seja, acabam por priorizar a dedicação ao cuidado, em detrimento dos momentos de lazer, de socialização e até das atividades profissionais, com prejuízos, por vezes fatais, no desempenho e na permanência no emprego.

É importante atentarmos para a visão que Neri (2001) nos oferece como contribuição valiosa para a reflexão e o estudo do cuidado com idosos no Brasil.

Destacamos, da autora, que, na vida contemporânea, há dificuldades para o aprofundamento dos laços de afeição, da busca do significado existencial, da reflexão sobre o sentido da velhice e da morte, da compreensão dos velhos sobre o desempenho do papel de cuidar que agora se inverte na relação com os filhos.

(3)

Esses fatores, aos quais se inclui a carência de ajuda sistemática formal e mesmo informal aos familiares, são coadjuvantes da significação negativa que assume a ação de cuidar de idosos dependentes. No entanto, chama-nos a atenção o posicionamento firme e crítico dessa pesquisadora, na recusa à aceitação do cuidar, exclusivamente como uma situação deletéria para a pessoa cuidadora, apontando para a realidade de experiências positivas na relação do cuidado, com indicadores de crescimento pessoal de quem cuida.

Nos arredores da morte

O medo da morte, o pavor da aniquilação nos é intrínseco, como seres humanos, únicos da natureza com a consciência da própria mortalidade. A capacidade de representação da mente humana não alcança qualquer possibilidade de representar o não existente, que só pode surgir através do terror, da impotência e do desespero (Cassorla, 2007).

Assim, procedemos à repressão da ideia da nossa morte, desde sempre o tormento de todos os humanos, em quaisquer tempo e lugar da história da humanidade. Para lidarmos com esse medo que se torna insuportável ao nosso mundo interno, precisamos uns dos outros, assegurados pela afeição que nos une nos laços familiares, comunitários e sociais. No pensar de Rodrigues (2007:131), “a ruptura dos laços afetivos é a mais verossímil metáfora do nada”.

Em seus estudos, Doll e Py (2007:285) recorrem ao pensamento de Imhof para reafirmarem o valor do pertencimento a uma estrutura social maior e mais duradoura: “No momento em que a força desses vínculos sociais diminui, surge uma sociedade de individualistas que pode contar, hoje, com uma segurança muito maior de alcançar uma idade avançada, porém cada um fica sozinho com as questões inquietantes da morte e da finitude da sua existência“.

No paciente idoso que vive a inexorabilidade da progressão de uma doença incurável, a percepção da proximidade da sua morte pessoal, aliada à experiência vivida ao longo dos anos, tende a redimensionar suas perspectivas de sentido da vida. Ele passa a viver, inapelavelmente, o paradoxo entre a evidência imaginária da imortalidade e uma outra evidência, objetiva e concreta que é a aproximação da morte, que tende a mantê-lo em estado de ansiedade frente a essa realidade assustadora.

A pessoa que cuida desse idoso encontra-se mergulhada nas mesmas situações que o afligem, vivendo uma densa trama relacional, com repercussões profundas na sua vida pessoal. Sofridamente, caminha na trilha final do idoso, faz-se companheiro com talento e habilidade, não raro, para além da sua precária autopercepção. Cuidador cuidadoso, competente e sensível, haverá de estar atento à:

• Cumplicidade – aliança do idoso com o cuidador, concretizada no acolhimento, na compreensão e na objetividade do apoio mútuo.

(4)

§ Gratificação – revisão da história pessoal do idoso: reconhecimento da supremacia dos valores cultivados durante a vida; o cuidador vê-se remetido à sua própria história.

§ Frustração – revisão da história pessoal do idoso: reconhecimento dos fracassos e das impossibilidades; visão crítica das culpas; de novo, o cuidador mergulha na sua história.

§ Pendência – viabilidade das resoluções possíveis para o idoso: reconciliações e valorização do legado; grande lição para realizar-se no presente do cuidador.

§ Espiritualidade – percepção do sentido da vida, respeito ao credo do idoso e assistência religiosa quando demandada: confronto com a realidade da morte e valorização da esperança; um convite a transformações vitalizadoras para o cuidador.

A fala de familiares cuidadores acabou por inscrever-se dolorosamente no drama que os aproximou da intimidade com a morte de um dos seus, irrefutável anúncio da sua própria morte. Foi o que presenciamos em um trabalho de pesquisa que desenvolvemos num hospital universitário (Py, 2004).

Víamos que a ansiedade assumia características especiais, em função do contato dos cuidadores com as perdas progressivas sofridas pelos idosos ao final da vida, acarretando impotência e medo frente àquilo que, incompreensível, lhes ia escapando.

A título de ilustração, trazemos a história de Dona B. que amava e, simultaneamente, se repugnava com as secreções que exalam mau cheiro da boca do marido.

Considerando o nojo como uma figuração do ódio, vemos que Dona B. era habitada por sentimentos opostos: amor e ódio. Vivia, dessa forma, uma ambivalência afetiva na delicada relação de cuidado, assim descrita por Freud ([1915] 1980:338): “Realmente, é estranho tanto à nossa inteligência quanto a nossos sentimentos aliar assim o amor ao ódio; mas a Natureza, fazendo uso desse par de opostos, consegue manter o amor sempre à espreita, por detrás dele. Poder-se-ia dizer que devemos as mais belas florações de nosso amor à reação contra o impulso hostil que sentimos dentro de nós”.

A auto-recriminação e a culpa de Dona B. nos sugeriam a idealização do marido, jamais pensado como um corpo em processo de desintegração. O nojo fez-se presente na fala daquela mulher, como expressão do repúdio a uma situação que se tornara insuportável. Aparecia como um sentimento que mediava a separação, já de alguma forma instalada, anunciando o fim que se aproximava, implacável. Prenúncio da morte de quem, outrora, pôde representar, para ela, o objeto do desejo. A dificuldade maior estava na ambivalência dos sentimentos: uma esposa amorosa se debatia em ebulição simultânea no amor e ódio. O nojo a invadiu, a revolveu internamente, a impeliu à rejeição, sem que ela tivesse alcançado a dimensão do que lhe acontecia. No

(5)

acolhimento do grupo de cuidadores que foi instituído, Dona B. encontrou coragem para falar de si, dos seus temores, das suas dificuldades.

A dedicação dos membros do grupo voltava-se para a criação de um modo de comunicação para Dona B. abordar o marido, que lhe propiciasse criar novas formas, sempre solidárias, para o cuidado. Entendiam que “seria bom Dona B. ser um pouco poupada”. Assim se afrouxou, sem romper-se, o laço que a unia ao marido, com a entrada do filho, da nora e de um amigo no cotidiano da prática do cuidado, expressão saudável da flexibilização de um vínculo que se abriu para novos entrelaçamentos solidários.

Dona B. aceitou retornar ao trabalho dos salgados para venda, que tinha deixado para cuidar do marido. Passou a produzi-los para festas. Essa mulher, mantendo-se na relação de cuidado com o marido, pôde afastar-se o suficiente para viver momentos seus, pessoais. Um pouco mais tarde, passou a acompanhar a entrega dos salgados, alternando o clima de doença, sofrimento e chegada da morte, com o clima de festa, felicidade e comemoração da vida, numa tímida aproximação desejante – “percebe-se lá muita alegria [...] eu cheguei até a porta!”

Buscamos, no grupo, conseguir um desenlace do par constituído pela esposa e o marido, que se mantinha exclusivo, aprisionado nas tarefas exaustivas de cuidar, para, então, criar laços múltiplos que, unindo, libertaram os que ali compartilhavam.

Delegar é obra de arte e renúncia. Não se tratava de fazer a esposa sair de cena, mas de favorecer a sua integração junto àqueles que se dispunham a colaborar. A relação de dependência, a princípio humilhante para o idoso e tirana para a esposa, transformou-se por obra e graça da solidariedade, libertando todos os incluídos e favorecendo o seu crescimento pessoal na dinâmica das relações renovadas.

O luto

O ser humano passa por um luto por qualquer perda que lhe aconteça. No caso da morte de um dos seus, o trabalho de luto se constitui no penoso processo psíquico da pessoa que sofre a perda, implicando na necessidade de elaboração do vínculo afetivo com a pessoa falecida que resulte numa abertura de perspectivas, para um redirecionamento dos afetos depositados nesse vínculo, no sentido de uma outra pessoa, uma atividade ou algo do seu interesse (Doll, 2011).

Há um luto antecipatório a ser trabalhado antes da perda concreta da vida, oferecendo, a todos os envolvidos, a oportunidade de acesso a uma forma de elaboração psíquica, na peculiaridade da morte com aviso prévio, quando o paciente, os familiares, os amigos e os profissionais percorrem um tempo de espera.

A proposta do luto antecipatório vem atender a uma característica muito comum da população idosa, que é o transcurso fatal de uma doença

(6)

crônico-degenerativa, configurado como um tempo propício ao desenvolvimento de uma prática multidisciplinar apropriada aos cuidados ao fim da vida desses idosos.

A atenção ao luto vem sendo destinada àqueles que sofrem a perda de um ente querido. No entanto, o luto também acontece com a própria pessoa próxima à sua morte, uma vez que ela vive, com intensa angústia, um processo de perdas sucessivas, expressando sentimentos de tristeza, hostilidade, raiva, revolta e culpa. Aí se manifestam aspectos ansiosos e depressivos, sem necessariamente se caracterizarem como doença, mas, sim, como dimensões do sofrimento humano ao fim da vida.

A intervenção, acolhedora e calorosa, vai contemplar a facilitação de uma reflexão sobre a sua própria vida e o consequente desligamento, incluindo a resolução possível das pendências, para favorecer um caminho de afastamento gradual, regido pela realidade da morte (Torres, 2000).

Os familiares cuidadores, envolvidos com o idoso ao fim da vida, vivem as emoções decorrentes desse processo de morte. Múltiplos sentimentos se forjam no seu mundo interno, articulando conteúdos de medo e ameaça frente à própria morte, exacerbados pela história da relação que estabeleceram com o idoso. Assim, não se trata, apenas, da amorosidade na iminência da perda de uma pessoa, mas de todos os afetos envolvidos. Por exemplo, o ódio que pode estar figurado em diversas modalidades, como raiva, nojo, revolta e vingança. A intervenção visa à livre expressão desses sentimentos, numa dinâmica

informativo-reflexiva, onde se ofereça a essas pessoas, tanto

instrumentalização para lidar com o idoso, quanto uma compreensão que seja facilitadora de um trabalho psíquico, capaz de conduzi-las a uma mudança na significação daquilo que as aflige.

Lembramos, aqui, a história de Dona B: sugere-nos um segmento do processo psíquico da elaboração de luto antecipatório pelo qual ela passou com, a ajuda solidária do grupo de cuidadores: quebrou-se a rigidez do vínculo que a ligava ao marido com a entrada de outros personagens na cena do cuidado, abrindo-se para ela possibilidades de começar a transferir a força do vínculo depositada na relação de cuidar, para uma outra atividade que deu sentido à sua existência (Freud, 1917[1915]).

Também os profissionais padecem o luto pela perda dos idosos de quem cuidam. Acreditamos firmemente que deve estar presente, na capacitação profissional dos cuidadores, uma sistemática de encontros vivenciais que, fundamente a competência técnica numa base ético-existencial.

A finalidade é a redução de tensões que viabilize o confronto com os conflitos para transformá-los em problemas, para os quais se buscam soluções.

O profissional, como um ser que também envelhece e é mortal, deve ter assegurado, nessa área, a oportunidade de se pôr ao trabalho psíquico que viabilize a promoção de re-arranjos no seu mundo interno.

(7)

Desse modo, ele pode vir a alcançar uma outra significação para a sua existência e um redimensionamento da sua prática de cuidado para os idosos ao fim da vida.

O ‘cuidador’ ferido

Na antiga Grécia, Quirón é o curador ferido, para nós, aqui, o ‘cuidador ferido’. Condenado à dor eterna, fez do seu sofrimento a experiência pessoal de perscrutar a natureza da dor. E isso o fez sábio, entregando-se a mitigar a dor do Outro a partir da sua própria dor (Vasconcelos, 2006).

O ‘cuidador ferido’ precisa cuidar das dores que guarda em si, carentes de alívio. O ‘cuidador ferido’ há que se reconciliar com o seu próprio sofrimento, com as suas próprias feridas.

As dores que ferem o coração do ‘cuidador ferido’ transbordam à procura do alívio que pode ser encontrado na sua dramática entrega ao cuidado de alguém ... até o fim.

As mãos do ‘cuidador ferido’ tocam o idoso e abrem novas cortinas onde parece já não haver horizontes. Acompanham sinais e sentimentos que formam a base dramática e trágica da existência, onde, se a esperança fenece, ainda reina a profunda expectação (Py e Oliveira, 2011).

E, ao final da vida, lá estão as mãos competentes e generosas do ‘cuidador ferido’, cerrando os olhos do idoso na entrega à morte, selando uma relação ouro que se fez presente na vida.

A relação do ‘cuidador ferido’ com o idoso acontece, muitas vezes, em lugares onde as condições de trabalho aviltam a dignidade dos cuidadores e a dos idosos. Lugares que profanam a humanidade de ambos. É então que quaisquer reflexões e discursos se inviabilizam se não incluem a crítica, a denúncia e a proposta transformadoras.

Na verdade o ‘cuidador ferido’ necessita de especial cuidado e firme apoio. A presença urgente do idoso doente não pode fazer desaparecer a presença do ‘cuidador ferido’. O diálogo aí se torna imperioso.

É imprescindível fazer com que seus sentimentos possam vir à tona, tenham espaço para serem elaborados, possam se recolocar em termos de compreensão e não de censura.

O ‘cuidador ferido’, já tão cansado e estressado por sua pesada lide, precisa assegurar-se de que suas reações, mesmo que reprováveis em princípio, na emergência dos fatos, serão aceitas como inevitáveis.

Seu fatigante trabalho deve ser objeto de reconhecimento, de agradecimento. É essencial que o ‘cuidador ferido’ experimente a solidária cumplicidade das pessoas que estão à sua volta. É essencial que o ‘cuidador ferido’ experimente

(8)

a satisfação de saber que essas pessoas são capazes de perceber o conteúdo emocional subjacente à sua fala e ao seu comportamento, e que elas são capazes de dividir com ele o quinhão de responsabilidade que se deve ter com a pessoa idosa doente ao fim da vida (Py e Oliveira, 2011).

Considerações finais

Concluímos com as reflexões de Oliveira (2011) acerca do par de opostos: decisão e submissão.

A competência humana é o mais oportuno sinônimo da solidariedade humana. Fomos cuidados ao nascer e havemos de ser cuidados ao morrer. A vida é um processo contínuo de decisões. De outra parte, a submissão é um ato de desumanidade. É uma profanação do espaço sagrado da dignidade humana. Viver e morrer com os direitos e a dignidade preservados e respeitados é:

§ Fundamento de todo conhecimento biomédico científico § A base de toda habilidade técnica

§ Compromisso de toda sensibilidade ética

Só humanizamos o que ocorre no mundo do sofrimento em geral, e em nosso particular pequeno mundo de sofrimento, quando falamos e repartimos decisões que nos afligem e nos afetam. É dessa fala que se nutrem os cuidados; é dessa fala que se alimentam os cuidados; e é no curso dessa fala (sempre um diálogo) que aprendemos, cada vez mais, a ser humanos.

Repartir as decisões e superar a submissão, eis a nossa proposta.

As decisões que afirmam a nossa humanidade não podem ser profanadas pela submissão, fonte de todas as opressões, expressão de todas as alienações e proclamação de toda a indignidade.

Na verdade, o adjetivo ‘digno’ é o mais contundente predicativo do ‘humano’. Assumir o máximo de humanidade possível, esta é uma boa formula para as ações e decisões dos que cuidam, e dos que são cuidados.

Por outro lado, a submissão desponta como a demonstração cabal de alguém que não tem a posse de si mesmo, que não é senhor de si mesmo.

Não será por isso que Sócrates de Atenas se apropriou da inscrição do Oráculo de Delfos e andava proclamando nas Ágoras: “Homem, conhece-te a ti mesmo”.

A dignidade das decisões não exclui as originais inquietações da mente e dos corações das pessoas. A oferta de cuidados é uma permanente luta pela superação da angústia e dos eventuais enigmas das decisões de nosso cotidiano. Talvez tudo isso nos dê o direito de ousar referir Heidegger: o homem é um “ser para mais”, muito antes de ser um “ser para a morte”.

(9)

Referências

Birman, J. “Futuro de todos nós: temporalidade, memória e terceira idade na psicanálise”. In: Veras, R.P. (org.). Terceira idade: um envelhecimento digno para o cidadão do futuro. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/UnATI/UERJ, 1995, p. 29-48.

Cassorla, R.M.S. “A negação da morte”. In: Incontri, D.; Santos, F.S. (orgs.). A

arte de morrer: visões plurais. Bragança Paulista (SP): Comenius, 2007, p.

271-279.

Doll, J. “Luto e viuvez na velhice”. In: Freitas, E.V.; Py, L. et al. Tratado de

Geriatria e Gerontologia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011, p.

1335-1349.

Doll, J.; Py, L. “O idoso na relação com a morte: aspectos éticos”. In: Neri, A.L. (org.) Qualidade de vida na velhice: enfoque multidisciplinar. Campinas, (SP): Alínea, 2007, p. 279-300.

Freud, S. (1915). “Reflexões para os tempos de guerra e morte”. In: Obras

psicológicas completas de Sigmund Freud. Ed. Standard Brasileira, v. XIV. Rio

de Janeiro: Imago, 1980, p. 327-339.

Freud, S. (1917[1915]). “Luto e melancolia”. In: Obras psicológicas completas

de Sigmund Freud. Ed. Standard Brasileira, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago,

1980, p. 275-291.

Freud, S. (1926 [1925]) “Inibições, sintomas e ansiedade”. In: - Obras

psicológicas completas de Sigmund Freud Ed. Standard Brasileira, v. XX. Rio

de Janeiro: Imago, 1980, p. 107-198.

Freud, S. (1927). “O futuro de uma ilusão”. In: Obras psicológicas completas de

Sigmund Freud. Ed. Standard Brasileira, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1980, p.

15-80.

Goldani, A.M. “Mulheres e envelhecimento: desafios para novos contratos intergeracionais e de gênero”. In: Camarano, A.A. (org.). Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros. Rio de Janeiro: IPEA, 1999, p. 75-113.

Gonçalves, L.H.T.; Alvarez, A.M.;Santos, S.M.A. “O cuidado na enfermagem gerontogeriátrica: conceito e prática”. In: Freitas, E.V.; Py, L. et al. Tratado de

Geriatria e Gerontologia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011, p.

1263-1269.

Jeckel-Neto, E.A. “Gerontologia e interdisciplinaridade”. In: Jeckel-Neto, E.A.; Cruz, I.B.M. (orgs.). Aspectos biológicos e geriátricos do envelhecimento. v. 2. Porto Alegre (RS): EDIPUCRS, 2000, p. 15-21.

Neri, A.L. (org.). Cuidar de idosos no contexto da família: questões psicológicas e sociais. Campinas (SP): Alínea, 2001.

Oliveira, J.F.P. Poder de Decisão X Submissão. Conferência proferida no VI Congresso de Geriatria e Gerontologia da SBGG-RJ (Geriat-Rio). Rio de

Janeiro, 20 de outubro de 2011. Disponível em: www.sbgg.org.br

Pellegrino, H. “Édipo e a paixão”. In: Cardoso, S. (org.). Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 307-327.

Py, L. Velhice nos arredores da morte: a interdependência na relação entre

(10)

Py, L.; Oliveira, J.F.P. “Um cuidador a ser cuidado”. In: Moritz, R.D. (org.).

Conflitos bioéticos do viver e do morrer. Brasília (DF): Conselho Federal de

Medicina, 2011, p. 89- 99.

Rodrigues, J.C.S. “A morte numa perspectiva antropológica”. In: Incontri, D.; Santos, F.S. (orgs.). A arte de morrer: visões plurais. Bragança Paulista (SP): Comenius, 2007, p. 129-136.

Torres, W. C. “As perdas do paciente terminal e o luto antecipado”. Psicologia e

argumento, v.19, n. 28, p. 7-12, abril, 2000.

Van Den Bergen, K. (1999). “Vivência e finitude: anotações de um velho estudante”. In: Py, L. (org.). Finitude: uma proposta para reflexão e prática em

Gerontologia. Rio de Janeiro: Nau, p. 31-44.

Vasconcelos, E.M. “Podemos ser curadores, mas sempre também feridos! Dor, envelhecimento e morte e suas implicações pessoais, políticas e sociais”. In: Vasconcelos, E.M. (org.). A espiritualidade no trabalho em saúde. São Paulo: Hucitec, 2006, p. 223-264.

_____________________________

Ligia Py - Psicóloga. Doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da

UFRJ. Presidente da Comissão Permanente de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). E-mail:

[email protected]

José Francisco P. Oliveira - Professor de Filosofia. Mestre em Filosofia pela

Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma (Itália). Coordenador da área de Espiritualidade da Comissão Permanente de Cuidados Paliativos da Sociedade

Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). E-mail:

Referências

Documentos relacionados

Para aprofundar a compreensão de como as mulheres empreendedoras do município de Coxixola-PB adquirem sucesso em seus negócios, aplicou-se uma metodologia de

O objetivo deste trabalho foi realizar o inventário florestal em floresta em restauração no município de São Sebastião da Vargem Alegre, para posterior

Para além deste componente mais prático, a formação académica do 6º ano do MIM incluiu ainda disciplinas de cariz teórico, nomeadamente, a Unidade Curricular de

Nesse contexto, o presente trabalho tem como objetivo realizar testes de tração mecânica e de trilhamento elétrico nos dois polímeros mais utilizados na impressão

Os principais objectivos definidos foram a observação e realização dos procedimentos nas diferentes vertentes de atividade do cirurgião, aplicação correta da terminologia cirúrgica,

O relatório encontra-se dividido em 4 secções: a introdução, onde são explicitados os objetivos gerais; o corpo de trabalho, que consiste numa descrição sumária das

psicológicos, sociais e ambientais. Assim podemos observar que é de extrema importância a QV e a PS andarem juntas, pois não adianta ter uma meta de promoção de saúde se

Finally,  we  can  conclude  several  findings  from  our  research.  First,  productivity  is  the  most  important  determinant  for  internationalization  that