Brasília Setembro - 2004
III ENCONTRO DE ESTUDOS
DESAFIOS PARA A ATIVIDADE DE
INTELIGÊNCIA NO SÉCULO XXI
GABINETE DE SEGURANÇA INSTITUCIONAL Ministro: Jorge Armando Felix
SECRETARIA DE ACOMPANHAMENTO E ESTUDOS INSTITUCIONAIS Secretário: José Alberto Cunha Couto
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E56 Encontro de Estudos: Desafios para a Atividade de Inteligência no Século XXI (Brasília : 3. : 2004 ). III Encontro de Estudos: Desafios para a Atividade de Inteligência no Século XXI. Brasília: Gabinete de Segurança Institucional; Secretaria de Acompanhamento e Estudos Institucionais, 2004.
153 p.
I. Inteligência. II. Inteligência - controle. III. Agência Brasileira de Inteligência. IV. Segurança Nacional - Brasil. V. Democracia.
CDD - 327.12 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
I
Inteligência e Interesses Nacionais ... 05Armando Amorim Ferreira Vidigal
II
A Importância da Inteligência no Processo Decisório ... 51Jorge da Silva Bessa
III
Perspectivas para a Inteligência Externa do Brasil ... 73Alexandre Martchenko
IV
Síntese do III Encontro de Estudos ... 99Armando Amorim Ferreira Vidigal Vice-Almirante (Reformado), membro do Centro de Estudos Estratégicos e Políticos da Escola de Guerra Naval e do Núcleo de Estudos Estratégicos da UNICAMP.
As relações internacionais e a competitividade entre as na- ções são importantes na definição das áreas de atuação da Inteli- gência. Este é o ponto de partida, portanto, para o nosso estudo.
O fim da Segunda Guerra Mundial (2ª GM) e logo o iní- cio da Guerra Fria marcam a predominância de uma perspectiva nas relações internacionais, dita realista, que veio substituir a perspectiva liberal vigente até o início da 2ª GM, que herdara do projeto iluminista a fé quase absoluta na razão humana, elemento essencial para as transformações que imaginavam indispensáveis na área social.1
A teoria realista pressupõe o caráter permanentemente anárquico do sistema internacional, com os Estados condenados a uma condição de insegurança constante pela falta de qualquer autoridade ou poder coercitivo capaz de obrigá-los ao cumpri- mento de certas regras de convivência como, por exemplo, a que torna ilegítimo o uso da força para a solução dos conflitos inter- Estados. O fracasso da Liga das Nações em impedir a eclosão da 2ª GM – apesar do Pacto Brian-Kellog, que condenava a guerra como instrumento da política, ter sido assinado por quase todos os países que se envolveriam no conflito – contribuiu para reforçar a teoria realista em detrimento da liberal.
Os princípios realistas influenciaram os estudos de segu- rança porque, num ambiente de tanta insegurança, os Estados procurariam, pelo menos, se proteger das ameaças percebidas, reais e imaginárias, mas, muitas vezes, iriam além, procurando aumentar a sua influência e poder no sistema internacional.
1 As considerações que se seguem sobre as vertentes tradicional, abrangente e crítica baseiam-se no trabalho A Contribuição da Escola de Copenhague aos Estudos de Segurança Internacional, de Grace Tanno.
A vertente tradicional, na área da segurança internacional, incorpora as premissas teóricas realistas, restringindo seus estudos praticamente às questões militares e mantendo o Estado como o objeto básico da análise.
As limitações óbvias desta vertente levaram ao surgimento da vertente abrangente (do inglês widener) que, embora mantendo o Estado no papel central do sistema – ela ainda é estadocêntrica –, sustenta que a análise deve incorporar não só as ameaças mili- tares, como as oriundas das áreas política, econômica, ambiental e societal. Esta é a posição da Escola de Copenhague, surgida em 1985, da qual o grande arquiteto é Barry Buzan. A crítica de Buzan deixa clara a posição da Escola: “Estados eram vistos como presos a uma luta de poder, e a segurança era facilmente vista como uma derivada do poder, especialmente do poder militar”.2
Como, para Buzan, a “força” do Estado é diretamente pro- porcional ao seu nível de coesão político-social – a qualidade da dinâmica entre esses elementos determina a condição do Estado forte ou Estado fraco – foi possível à Escola analisar a influência das variáveis domésticas na conformação dos ambientes interna- cionais de segurança; acontecimentos a nível doméstico ajudariam a explicar mudanças no sistema internacional.
A principal crítica à Escola de Copenhague veio da ver- tente crítica, associada à Escola de Frankfurt, que considera que as pesquisas de segurança devem colaborar para o permanente desenvolvimento da espécie humana e, em conseqüência, outros valores devem ser priorizados, além da segurança, como a liber-
2 Citado em A Contribuição da Escola de Copenhague aos Estudos de Segurança Internacional, op.cit.
dade e a fraternidade. A segurança pessoal seria mais importante do que a do Estado. Esta vertente tem uma forte tendência liberal e internacionalista.
Qualquer que seja a visão adotada para os princípios que regem as relações internacionais – a tradicionalista, a abrangente ou a crítica – o papel da Inteligência é a avaliação das ameaças à segurança, embora o significado deste termo comporte diferentes interpretações, e ao desenvolvimento nacionais. Acreditamos que a visão da Escola de Copenhague, temperada em parte pelas críticas da Escola de Frankfurt, é um bom ponto de partida para a definição das áreas de atuação da Inteligência.
Assim sendo, a área de atuação da Inteligência é quase ili- mitada, tanto no campo interno como no externo, sendo necessária delimitá-la em função de diversas variáveis: as ameaças percebidas, o nível de coesão social existente, o grau de presença internacional pretendido, os recursos disponíveis para a área e muitas outras.
A atuação dos órgãos de Inteligência no campo interno é absolutamente imprescindível, e independe do regime de governo, autoritário ou democrático. Os movimentos sociais, de qualquer tendência, mas especialmente os que atuam muitas vezes em des- compasso com a lei, devem ser acompanhados pelos serviços de Inteligência de modo a permitir a ação preventiva do Estado. O fato de que o Estado autoritário possa usar o seu Serviço de Inteligência para perseguir grupos políticos que se opõem aos interesses de governo, não deve coibir a ação do Estado Democrático de Direito de agir sempre que pessoas ou grupos atuem contra os interesses do Estado, identificados pelo estatuto legal. Movimentos sociais, por mais legítimos que sejam, não podem fugir a esta regra.
No Brasil, cabe à Política Nacional de Inteligência estabe- lecer os parâmetros de atuação dos órgãos de Inteligência.
Quando da instituição do Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) e da criação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em 19993, ficou claro que o Sistema Brasileiro de Inteligência está fundamentado na vertente abrangente, mas tendo levado em conta a vertente crítica: as atividades da Agência devem estar “voltadas para a defesa do Estado Democrático de Direito, da sociedade, da eficácia do poder público e da soberania nacional”.4 Não é apenas o Estado o objeto de preocupação do serviço mas, também, a so- ciedade. É digno de registro que as atividades da Agência devem estar voltadas para “a defesa da eficácia do poder público”, o que parece uma preocupação específica com a corrupção dentro do sistema público, já que o papel da Inteligência não deve ser a avaliação da competência administrativa de qualquer órgão do Governo.
Há um outro ângulo que deve ser explorado para a definição das áreas de atuação dos serviços de Inteligência.
É incontestável que o mundo está mais interligado. A efici- ência na movimentação de bens e produtos e a transmissão eletrô- nica de informações e de dinheiro criaram um ambiente propício à proliferação de atividades transnacionais – legais ou ilegais.
O crime organizado, em especial o tráfico de drogas e o contrabando de armas, as atividades financeiras ilegais, entre as quais a lavagem de dinheiro, são objetos da preocupação dos go- vernos e representam um desafio para os Serviços de Inteligência de qualquer país. Incontestavelmente, um eficaz Serviço de Inte-
3 Lei n° 9.883, de 07 de dezembro de 1999. O Sisbin foi regulamentado, inicialmente, pelo Decreto n°
4.376, de 13 de setembro de 2002, e depois pelo Decreto nº 4.872, de 06 de novembro de 2003.
4 Agência Brasileira de Inteligência (Abin), www.abin.gov.br.
ligência, capaz de prover as informações necessárias, é a melhor arma para o combate ao crime organizado.
Depois dos ataques terroristas ao World Trade Center e ao Pentágono um outro problema veio se somar ao do crime organi- zado: o terrorismo. Embora o Brasil não seja um alvo preferencial do terrorismo internacional, tem a responsabilidade de proteger em seu território os bens e os nacionais dos demais países, bem como de impedir que propriedade nacional – embarcações, aeronaves, contêineres, etc – possam ser usados como veículos para ataque ao território dos países-alvo. Também neste caso, as informações são absolutamente indispensáveis, sendo, sem sombra de dúvida, o meio mais eficaz de combate ao terrorismo quando associadas às medidas políticas corretas.
Sendo esses crimes transnacionais, a comunidade interna- cional tem procurado – por meio de acordos bi ou multinacionais – estabelecer regras comuns para o trato dessas questões. Estão nessa categoria os acordos para o combate ao tráfico de drogas, à lavagem de dinheiro, à pirataria (no que diz respeito ao direito de patentes e direitos autorais), etc. Com relação ao terrorismo, algumas medidas têm sido tomadas coletivamente ou, de forma individual, por um Estado que se sinta particularmente ameaça- do.
Assim, em dezembro de 2002, a Organização Marítima In- ternacional (IMO), por pressão dos EUA e outros países, adotou emendas à Convenção Marítima Internacional para Salvaguarda da Vida Humana no Mar – Convenção Solas – que, inter alia, introduziram o Código Internacional para a Proteção de Navios e Facilidades Portuárias (Código ISPS), com o propósito de proteger embarcações, portos e terminais de ataques terroristas e, conco- mitantemente, impedir que as embarcações e suas cargas possam
servir de veículo para atos terroristas. O Código está em vigor desde 1° de julho de 2004.5
De forma unilateral, os EUA criaram a Lei do Bioterrorismo, que obriga todos os exportadores de alimentos para aquele país, sejam destinados ao uso humano ou animal, a identificar todas as partes in- tervenientes no processo de produção e comercialização do produto.
Ainda nos EUA, foi criada a Iniciativa para a Proteção de Contêineres (CSI) que implica a realização de um acordo bilateral entre os EUA e qualquer outro país, para permitir que um contêiner, uma vez fiscalizado por americanos no porto de origem, tenha liberação mais fácil e mais rápida no porto americano de destino.
A atuação em conjunto dos Serviços de Inteligência de países envolvidos no combate ao crime organizado ou ao terrorismo é essencial para o sucesso dessas ações. É importante, porém, que na relação entre países de poderes nacionais muito díspares, a cooperação não se faça em termos da subordinação do mais fraco, com o comprometimento de sua soberania.
A transnacionalização do crime organizado e do terrorismo cria um outro problema: o relacionamento entre os órgãos voltados para o
5 Como em português – aliás, em quase todas as línguas latinas – só existe uma palavra para traduzir secu- rity e safety – segurança – por decisão unânime do Grupo de Trabalho instituído pela Autoridade Marítima para a aplicação do Código Isps aos navios, o security foi traduzido por proteção para que, a bordo dos navios, não fosse confundido com a segurança. Por exemplo, a bordo, desde a instituição do Código ISM – para gerenciamento da segurança nos navios – existe o oficial de segurança do navio (safety); o novo código Isps exige a criação de um oficial de security que, para que não fosse confundido com o de safety, passa a ser o oficial de proteção do navio. Entretanto, o Grupo de Trabalho instituído para a aplicação do Código Isps aos portos e terminais, por não ter o mesmo problema, está usando a palavra “segurança” para traduzir o safety, o que vai trazer alguns problemas futuros na inevitável interface entre navios e portos. A padronização parece indispensável e ela deveria ser feita padronizando-se, no caso da aplicação do Código Isps, a tradução de security por proteção. A ressalva é feita porque, em outras situações, já há expressões padronizadas – como é o caso de Segurança Nacional que traduz o National Security – que dificilmente serão modificadas.
serviço de inteligência e os órgãos responsáveis pela repressão ao crime, órgãos que exercem o direito de polícia. As áreas de interesse dessas duas comunidades sobrepõem-se crescentemente: como o crime organizado e o terrorismo constituem-se em ameaças à segurança nacional são, cada vez mais, objeto de interesse dos Serviços de Inteligência. O problema surge porque as duas comunidades têm regras e objetivos diferentes, bem como dispõem de fontes de informação e usam métodos diferenciados e, ainda, têm padrões diferentes de avaliação das informações que coletam.
Em geral, as Agências de Inteligência buscam informações para os for- muladores da política do país enquanto os investigadores dos órgãos po- liciais procuram informações que permitam a montagem de um processo judicial que leve ao julgamento e punição dos culpados. A Comunidade de Inteligência colhe enorme quantidade de informações com base num conjunto complexo de necessidades e exigências estabelecidas pelos formuladores de políticas e estas informações, freqüentemente, são pro- curadas simplesmente para esclarecer um assunto e não, necessariamente, como etapa inicial de uma ação; diferentemente da Inteligência colhida pelos órgãos de repressão ao crime, muitos dados obtidos pelos Serviços de Inteligência são de confiabilidade questionável e não são destinados ao conhecimento público – a informação coletada é revista e avaliada por analistas que definirão a sua acuracidade e confiabilidade.6
Esta interferência entre os órgãos de Inteligência e os órgãos de repressão ao crime têm sido crescente nos EUA, envolvendo a Central Intelligency Agency (CIA) e o Federal Bureau of Investigation (FBI), e o critério para evitar as dificuldades criadas é dar prioridade para co- ordenação ao órgão voltado para o exterior sempre que o foco da ação
6 “IC-21: The Intelligence Community in the 21st Century, part XIII, Intelligence and Law Enforcement.
está fora do país e, pelo contrário, se o foco estiver no próprio país, a coordenação ficará por conta dos órgãos aos quais compete à repressão ao crime.
O combate ao crime organizado, ainda quando restrito ao terri- tório nacional, pode trazer problemas entre as agências de Inteligência e os órgãos policiais, pelas mesmas razões já apontadas em relação ao crime transnacional. Impõe-se aqui uma clara definição das respectivas responsabilidades e das formas de cooperação entre as duas comunida- des. No Brasil, eventuais problemas poderiam ocorrer entre a Abin e a Polícia Federal.
O SISTEmA DEmOCRáTICO E A INTELIGÊNCIA
Ao fim do ciclo dos governos militares no Brasil, uma parte da sociedade, a mais atuante na oposição durante aquele período, fez uma associação indevida entre a existência de um Serviço de Inteligência e o autoritarismo: alguns por ignorância, outros por má fé ou sob a influência de uma ideologia, repudiaram os Serviços de Inteligência como incompatíveis com o sistema democrático de governo.
A meu ver, houve – e em setores restritos ainda há – uma certa confusão entre o papel dos serviços de Inteligência e o dos serviços de repressão aos ilícitos identificados. Na seção anterior mostramos as características diferentes das duas comunidades.
Para qualquer governo, é essencial a posse de informações que lhe permitam, no campo interno, identificar a existência de problemas que possam vir perturbar a ordem pública, a paz social ou prejudicar a economia, e, no campo externo, identificar as ameaças que possam se contrapor aos interesses nacionais.
Cabe ainda ao governo se proteger contra os serviços de Inteligência estrangeiros – não apenas governamentais – não só no que se refere a assuntos militares mas, também, em relação à matéria não-militar, como, por exemplo, segredos industriais: a Contra-Inte- ligência. O Brasil vem resistindo a um tipo de inspeção da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – ou assim insinuam certos elementos da mídia internacional – não por se rebelar contra as dis- posições do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), mas para proteger o segredo industrial das suas centrífugas que podem vir a ser um importante fator na entrada do País no rico mercado internacio- nal de urânio enriquecido (a razão, entretanto, pode ser unicamente política, isto é, forçar a adesão do Brasil ao Protocolo do TNP, mais exigente em termos de visitas do que o Tratado).
Os EUA – indubitavelmente de uma enorme tradição demo- crática – dedicam anualmente no orçamento US$ 40 bilhões para as Agências de Inteligência, o que demonstra a importância que atribuem a esse serviço.7
Num estudo de 1996, feito pelos membros do Comitê Perma- nente do Congresso dos Estados Unidos sobre Inteligência, a impor- tância dos serviços de Inteligência, mesmo após o fim das tensões geradas pela Guerra Fria, é destacada:
“Os Estados Unidos continuam a precisar de uma Comunidade de Inteligência (IC) forte, altamente eficaz e crescentemente flexível. Esta necessidade não diminuiu com o fim da Guerra Fria. Na verdade,
7 “9/11 Panel Is Said To Urge New Post for Intelligence”, Philip Shenon.
a atual situação internacional é, de muitas maneiras, mais complexa e mais difícil de lidar do que era du- rante a relativamente estável bipolaridade da Guerra Fria. Portanto, embora julguemos a nossa segurança nacional menos ameaçada, as exigências de inteligên- cia persistem. O foco da nossa segurança nacional mudou, mas a missão da comunidade de inteligência não: prover, na hora certa, informações confiáveis aos formuladores civis e militares de políticas; apoiar as operações militares e outras – inclusive ações encobertas – conforme determinado por pessoal le- galmente competente para isso”. [trad. nossa]8 Esta colocação foi feita bem antes dos atentados de 11 de setem- bro de 2001 e, embora defina as preocupações de uma superpotência, ela é válida para qualquer país, em qualquer época, ainda que, em alguns casos, com menor ênfase no campo externo. Para um país como o Brasil, que procura assumir uma posição de relevo no campo externo, cresce a importância de Sistemas de Inteligência e de Contra-Inteligência efica- zes.
Apesar das considerações feitas sobre o Estado democrático e os Serviços de Inteligência, não julgamos que o emprego da Inteligência não comporte riscos, principalmente quando o Estado democrático enfrenta sistemas totalitários – no passado recente o fascismo e o comunismo – ou
8 “IC-21: The Intelligence Community in the 21st Century.
9 The CIA and the Cult of Intelligence, Victor Marchetti & John D. Marks, Introdução de Marchetti. Este é o primeiro livro que levou os EUA a apelarem à Justiça a fim de levá-lo à censura pela CIA antes de sua publicação. Todas as partes que, depois de longa batalha judicial, foram vetadas, foram deixadas em branco no texto.
está engajado numa luta de morte contra algo como o terrorismo, não relacionado especificamente a um determinado Estado nacional. Entre os perigos, há o de imitar os métodos do inimigo e, portanto, colocar em risco a própria democracia que se está pretendendo defender.9
A discussão sobre o Estado Democrático e os Serviços de In- teligência leva, naturalmente, à questão das relações entre a Ética e a Inteligência.
Num governo democrático é extremamente importante assegurar a manutenção de um padrão ético pelos órgãos de Inteligência. Esta é, indiscutivelmente, uma questão difícil mas inarredável numa discussão pública.
O primeiro debate que se faz necessário diz respeito às relações entre o governo e os órgãos de Inteligência, estes totalmente dependen- tes daquele. Serem independentes na dependência – no sentido de que os serviços de Inteligência devem estar voltados para os interesses do Estado e não necessariamente do governo – eis o grande desafio.
O uso pelo governo dos Serviços de Inteligência para investigar e perseguir desafetos políticos, como parte de uma luta pelo poder, é inaceitável sob o ponto de vista ético. Sendo o objetivo dos Serviços de Inteligência a segurança nacional e o bem público, o seu emprego para a manutenção do poder não se justifica, por não se coadunar com o sistema democrático de governo. O caso Watergate, que acabou por levar o Presidente Nixon à renúncia, é um exemplo recente do uso da Inteligência com propósitos político-partidários.
O espectro das possibilidades de ingerência indevida do governo sobre a Comunidade de Informações é, porém, ainda mais amplo. As justificativas dos EUA para irem à guerra contra o Iraque, e as do Reino Unido para apoiá-los, basearam-se em informações que atribuíam ao Iraque a posse de armas químicas e biológicas e o desenvolvimento ace-
lerado de armas nucleares, bem como ligações estreitas com o terrorismo internacional – especificamente a Al Qaeda – responsável pelos atentados contra os EUA. Posteriormente, todas essas informações mostraram- se infundadas, não se encontrando as armas de destruição em massa e comprovando-se a inexistência de qualquer ligação de Saddam Hussein com Osama Bin Laden.
O relatório apresentado pelo ex-chefe do grupo de inspeção ame- ricano relativo a armas de destruição em massa no Iraque, David A. Kay, da CIA, critica os Serviços de Inteligência pelos erros cometidos.10
Uma pergunta, porém, se impõe: erro grosseiro dos sistemas de inteligência ou uma gigantesca fraude dos governos americano e britânico para justificar uma agressão militar cuja verdadeira causa era o petróleo?
A Comissão do Congresso americano que investigou as causas do 11 de setembro de 2001, constituída por democratas e republicanos em igual número, encontrou “profundas falhas institucionais” que criaram as condições para o ataque terrorista, mas como foram encontradas falhas tanto durante o Governo Clinton como o Governo de W. Bush, não foram apontados os responsáveis, o que, especialmente num ano eleitoral, foi conveniente para os dois partidos. Com isso, deixaram de ser apurados os erros, esses de exclusiva responsabilidade de Bush, que levaram os EUA à guerra contra o Iraque.11
Nem todos concordaram que as agências americanas e britânicas tenham sido incompetentes a ponto de alimentar a Casa Branca e Downing Street com tantas e reiteradas informações falsas. Acusar os órgãos de In-
10 “Ex-Inspector Says C.I.A. Missed Disarray in Iraq Arms Program”, James Risen e, Ex-Arms Monitor Urges an Inquiry on Iraqui Threat, Richard W. Stevenson e Tom Shanker.
11 “Choque, mas não surpresa”, O Globo.
teligência é muito conveniente aos interesses eleitorais de Bush e de Blair que alegam terem agido de boa fé, não tendo motivos para desconfiar dos dados que lhes foram apresentados. A atribuição da responsabilidade a su- bordinados protegidos pelo anonimato é altamente conveniente, mas não é totalmente convincente.
Alguns importantes jornalistas americanos, como Paul Krugman e Nicholas D. Kristof, acusam o Governo Bush de manipular informações sobre as armas de destruição em massa do Iraque, encomendando relatórios – a acusação é feita também contra Blair – que dessem apoio à decisão já tomada de atacar o Iraque.12
Fontes dos Serviços de Inteligência dos EUA acusaram o vice- presidente Dick Cheney e seus assessores de terem feito várias visitas à CIA para questionar os analistas sobre o programa de armas do Iraque, constrangendo-os quando os relatórios não concordavam com os pontos de vista oficiais. Antigos Agentes da Inteligência declararam ter sido continu- amente pressionados, não só por Cheney, mas também por Paul Wolfowitz, Subsecretário de Defesa, e George J. Tenet, Diretor da CIA, para produzirem relatórios que ajudassem o governo a mostrar a necessidade urgente de um ataque preemptivo ao Iraque.13
Parece difícil negar que tanto o Governo americano quanto o britâ- nico pressionaram seus órgãos de Inteligência nesse sentido ou, pelo menos, distorceram os relatórios, interpretando-os de acordo com suas conveni- ências: “A filosofia central do trabalho de inteligência – a de que deve ser resguardado de considerações políticas – foi profundamente ferida”. 14
12 “O procedimento padrão do governo Bush” e “Negação e Fraude”, de Paul Krugman, e “Pentágono torna submissas agências de inteligência”, Nicholas D. Kristof.
13 “As visitas de Cheney à CIA”, Walter Pincus e Dana Priest.
14 Kristof, op.cit.
A legislação brasileira estabelece que os conhecimentos ad- quiridos pelos Serviços de Inteligência, em momento algum, poderão ter utilização de caráter pessoal ou em favor de grupos, diversa de seu fim específico.15
Há outros aspectos da ética que devem ser discutidos.
O primeiro deles diz respeito às operações encobertas dos Servi- ços de Inteligência. Um ex-funcionário da CIA que trabalhou na Agência por 14 anos, Victor Marchetti, pergunta:
Deveria a CIA funcionar da maneira inicialmente proposta – como uma agência coordenadora respon- sável pela coleta, avaliação e preparo das informações oriundas do estrangeiro para o uso dos formuladores de políticas governamentais – ou deverá ser permi- tido que ela funcione, como tem feito durante anos – como um braço operacional, um instrumento da Presidência e de um punhado de homens poderosos, totalmente independente do acompanhamento públi- co, cuja principal finalidade é interferir nos assuntos domésticos de outros países (e talvez do nosso) por meio de agentes infiltrados, propaganda, intervenções paramilitares encobertas e de uma quantidade de outros truques sujos?16
Para o autor, essas operações clandestinas ilegais e antiéticas, que
15 Agência Brasileira de Inteligência, op. cit.
16 Marchetti & Marks, op. cit., p. 11-2.
são realizadas a pretexto das necessidades da Inteligência e justificadas pelos governos de forma dúbia, são questionáveis, tanto em termos morais como de benefícios práticos para a nação.17 Marchetti e Marks concluem: “... no longo prazo, a não interferência e a correção de atitudes irão aumentar a posição e o prestígio internacional...”18
Sem dúvida, este é um aspecto ético de grande complexidade, que põe em dúvida uma parte substancial das tarefas da Inteligência.
Segurança e Ética são conceitos conciliáveis? Talvez o velho ditado britâ- nico de que “o serviço secreto é um jogo sujo demais para ser executado por outra pessoa que não um gentleman”, embora não respondendo à pergunta, exponha o dilema.
A interferência de um Estado nos negócios domésticos de outro – para conseguir controlar ou influenciar o governo desse país, muitas vezes contra a vontade majoritária da sociedade – é, inegavelmente, condenável sob o ponto de vista da Ética, mas dificilmente um país, que vê nessa interferência um benefício substancial para si, deixará de atuar nesse sentido. Mormente se é poderoso.
O caso dos EUA é esclarecedor: o papel que eles se auto-im- puseram de árbitros das mudanças sociais, econômicas e políticas dos países emergentes da Ásia, África e América Latina os têm levado a usar quaisquer métodos clandestinos que tenham à sua disposição.19
A respeito diz o já citado Marchetti:
[A CIA] engaja-se em espionagem e contra-espio- nagem, em propagando e desinformação (a circu-
17 Ibidem, p. 11.
18 Ibidem, p. 373.
19 Ibidem, p. 4.
lação deliberada de falsa informação), em guerra psicológica e atividades paramilitares. Ela penetra e manipula instituições privadas e crias as suas próprias organizações (chamadas“proprietaries”) quando necessário. Recruta agentes e mercenários; suborna e chantageia servidores estrangeiros para executarem as suas tarefas mais detestáveis.
Faz qualquer coisa que seja necessária para atingir seus objetivos, sem qualquer consideração ética ou das conseqüências morais de suas ações. Como o braço secreto da política externa americana, a mais poderosa arma da CIA é a intervenção encoberta nos negócios internos dos países que o governo dos EUA deseja controlar ou influenciar.[trad. nossa]20 Hoje, sob a justificativa do combate ao terrorismo as ações en- cobertas ganharam novo ímpeto, o que sugere, especialmente para os países emergentes, a importância de um eficaz serviço de Contra-Inteli- gência.
Um outro desses aspectos envolvendo a Ética, diz respeito à coleta de informações. Uma distinção deve ser imediatamente feita: a coleta no campo interno e no campo externo.
No que concerne ao campo interno, julgo que a Ética implica o estrito cumprimento da legislação nacional pertinente. Impõe-se total observância dos direitos civis e dos direitos humanos: escuta telefônica,
20 Ibidem, p. 5. Proprietaries, de proprietary corporation, são instituições ostensivamente privadas e negó- cios que são de fato financiados e controlados pela CIA (p. 534).
quebra de sigilos bancário, fiscal e postal, por exemplo, só poderão ser feitas com autorização judicial e os resultados, enquanto inconclusivos, não poderão ser divulgados; interrogatórios deverão ser conduzidos sem violência física ou mental – acredito que seguir o estabelecido na Convenção de Genebra para prisioneiros de guerra é um parâmetro útil para qualquer situação.
No caso brasileiro, a legislação existente é categórica a respeito, especificando que as Atividades de Inteligência serão desenvolvidas, no que se refere aos limites de sua extensão e ao uso de técnicas e meios sigilosos, com irrestrita observância dos direitos e garantias individuais, fidelidade às instituições e aos princípios éticos que regem os interesses e a segurança do Estado.
A infiltração de agentes em organizações ou grupos que devem ser acompanhados – aqui há a sobreposição de interesses entre a Comuni- dade de Inteligência e a de repressão ao ilícito penal – e o agenciamento de informantes, que prestam serviço em troca de recompensa financeira ou de outra natureza, são procedimentos valiosos que não podem ser ignorados pela Inteligência, passíveis ainda de um tratamento ético.
A atuação de agentes fora do país exige outro tipo de considera- ções. Aqui só trataremos do que diz respeito à busca de informações e não de agentes encarregados de sabotagem, assassinato seletivo e outros atos agressivos, entre os quais, matéria já aqui tratada, a interferência nos negócios domésticos de outro país, com o objetivo de influenciar ou controlar o seu governo, embora esses tipos de operações venham crescendo, principalmente as mais violentas.
Além de Israel, os EUA vêm empregando assassinato e sabo- tagem: a criação pela CIA do Grupo de Operações Especiais (SOG), constituído por mercenários contratados para o assassinato de terroristas, para a destruição de instalações militares, inclusive nucleares, e outras atividades não-convencionais, comprova a difusão do método. A prova
de que o Grupo está ativo é a morte em uma emboscada, nas cercanias de Shkin, no Afeganistão, de dois veteranos das forças especiais ameri- canas, engajados, na qualidade de mercenários, numa operação do SOG não especificada; recentemente, Bush renovou a autorização presidencial para ações desse gênero.21 Também a China demonstra uma preocupação grande com este tipo de operação. Eles identificam três tipos de operações de guerra: as operações militares de combate (as operações de guerra convencional), as operações militares de não-combate (o equivalente aproximado das “operações militares que não-guerra” dos americanos e ao “emprego político do poder militar” brasileiro) e as operações não- militares de não-combate, algo como assassinato, sabotagem e outras ações, como ação de hackers, etc.22
Todo o pessoal diplomático, em geral, procura obter informações do interesse do seu país de forma ostensiva, através da leitura de jornais e revistas, da conversação com pessoas bem informadas e, em alguns casos, solicitando as informações a membros do governo do país – é um procedimento comum aos adidos militares quando as informações não são sigilosas.
21 James Risen, op. cit., Stevenson & Shanker, op. cit. e Modern modes of assassination, Daniel Schorr.
Em 1976, o Presidente Ford assinou uma ordem executiva dizendo que, ninguém trabalhando para os EUA
“engajar-se-á ou conspirará em assassinato”, em decorrência de uma investigação do Senado que apontou a ocorrência de seis tentativas de assassinato de Fidel Castro e a existência de planos em diversos estágios para o assassinato de líderes de esquerda em países do Terceiro Mundo: Lumumba, no Congo; Duvalier, no Haiti; Sukarno, na Indonésia e Trujillo, na República Dominicana, entre outros.
Ao longo dos anos, a proibição foi sofrendo “interpretações” como a de que líderes envolvidos em ações de terrorismo não estariam incluídos na proibição: Reagan autorizou o bombardeio da residência de Kadafi, em 1986, e Bush (pai) o bombardeio do palácio de Saddam, em 1991. Em 1998, Clinton, após um fracas- sado ataque com mísseis a um campo no Afeganistão contra Osama Bin-Laden, autorizou o uso de “força letal” contra a Al-Qaeda. O atual presidente Bush apresentou à CIA uma lista de cerca de duas dúzias de terroristas aos quais não se aplicará a proibição de assassinato. Em novembro de 2002, mísseis Hellfire, lançados por um avião teledirigido Predator, mataram um líder da Al-Qaeda quando ele estava dirigindo numa faixa de deserto no Iêmen. Cinco outros pessoas no carro foram mortas, talvez inocentes.
22 Unrestricted Warfare, Qiao Liang & Wang Xiangsui
O tenente-general Reinhard Gehlen, um dos primeiros tecnocratas da informação, que serviu a Hindenburg, a Hitler, à CIA e, finalmente, durante 26 anos, à República Federal da Alemanha como chefe do Ser- viço de Informações anti-soviéticas, dizia com muita propriedade:
Um Chefe de Órgão de Informações deve fazer tudo ao seu alcance para desfazer a heresia de que o serviço secreto só deve se ocupar de fontes secretas e não dar atenção ao material ostensivo, que se encontra livremente à disposição em jornais e livros por todo o mundo.23
Também Marchetti destaca a importância das informações co- letadas através de canais diplomáticos e fontes ostensivas, como jornais e revistas.24
O agente encoberto, que na literatura policial aparece com o “es- pião”, que usa a ação sigilosa para a obtenção de informações, procurando vencer as dificuldades criadas pela contra-inteligência local, representa um dos aspectos das relações internacionais que pouco tem a ver com a Ética, embora suas ações não envolvam – nas nossas considerações restritas apenas à busca de informações – sabotagem, assassinato ou in- terferência nos negócios domésticos de outro país. A ilegalidade de suas operações – segundo o ponto de vista dos espionados – necessariamente não fere os direitos civis ou os direitos humanos das pessoas envolvidas, embora possa envolver suborno e corrupção. Talvez a evolução tecnoló-
23 “O Serviço Secreto”, Reinhard Gehlen, p. 68-69.
24 Marchetti & Marks, op. cit. p. 9.
gica possa contribuir para a eliminação dos procedimentos menos éticos da Inteligência.
Sobre essas operações, os comentários de Marchetti e Marks são pertinentes:
Em tal operação encoberta mas não-paramilitar, o agente tende a manter as suas mãos limpas de san- gue, e os seus crimes são do tipo do colarinho branco – conspiração, suborno, corrupção. Seu fracasso ou sua exposição são, em geral, punidos apenas com a sua expulsão do país onde ele está operando. Em última análise, ele está meramente engajado num jogo de cavalheiros. O agente envolvido em ações para- militares, pelo contrário, é um gângster que trabalha com a força, o terror, a violência, ... [trad. nossa]25 No mundo de alta tecnologia atual, o agente secreto tem à sua disposição equipamentos de grande sofisticação que facilitam o cum- primento de suas tarefas: micro-câmeras, aparelhos de escuta de alta sensibilidade, sistemas de comunicação ultrapotentes, etc.
Diz Gehlen:
Os progressos científicos nos campos da eletrônica, cibernética e automação tornam necessários novos meios para se obter informações; mas, também, dão ao inimigo novos meios para guardar seus segredos.
25 Marchetti & Marks, op. cit., p. 108-9
Um verdadeiro arsenal de aparelhagem sofisticada tem sido acrescentado aos instrumentos convencio- nais do passado. Há necessidade de se dedicar uma atenção especial aos novos métodos científicos de busca de informes.26
Há, ainda, uma outra conseqüência do desenvolvimento tec- nológico que não pode ser esquecida: o agente encoberto vai sendo paulatinamente substituído pelo emprego da alta tecnologia – satélites espiões, sistemas de interceptação e escuta de comunicações, localização a laser, etc. No já citado relatório de David Kay, a CIA é severamente criticada por ter se tornado excessivamente dependente desses meios, bem como de espiões estrangeiros, que agem por dinheiro ou por convicção político-ideológica, pouco confiáveis quando comparados aos agentes nacionais.27
A história de espionagem na 2ª GM comprova a pouca confiabi- lidade de espiões estrangeiros – eu diria, de qualquer espião – devido à sua duplicidade, em geral servindo aos dois lados. Parece uma caracte- rística inerente à própria natureza do serviço: a clandestinidade encoraja a amoralidade profissional e daí à duplicidade é um passo apenas.
Na vida real, contudo, infelizmente as coisas não são nem tão simples nem tão claras no que concerne à Ética. A legislação, por boa que pareça, está sujeita a inúmeras interpretações ou, se não houver rigoroso controle, pode simplesmente ser ignorada. Se Bush e Blair, no caso do Iraque, mesmo tendo forçado justificativas falsas, agiram não por inte-
26 Gehlen, op.cit., p. 177
27 Risen, op. cit., e Stevenson & Shanker, op. cit.
resses pessoais, mas pelo que consideravam o legítimo interesse de seus países, o seu procedimento poderia ser justificável? Estaria o interesse nacional acima da Ética? É possível dar um tratamento ético às ações encobertas? Quando o valor da informação é muito grande – pode, por exemplo, salvar milhares de vidas, talvez inocentes – o interrogador tem o direito de abusar física ou mentalmente do interrogado, ou, em nome dos direitos humanos, respeitar o interrogado arriscando muitas vidas inocentes?
São questões aparentemente difíceis. Cabe aqui uma reflexão de Hannah Arendt:
Somos talvez a primeira geração a adquirir plena consciência das conseqüências fatais de um modo de pensar que nos força a admitir que todos os meios, desde que sejam eficazes, são permissíveis e justifi- cados quando se pretende alcançar alguma coisa que se definiu como um fim.28
A atual política de Ariel Sharon para enfrentar o terrorismo palestino – o uso de “assassinatos seletivos” dos líderes terroristas, as punições impostas aos parentes dos homens-bomba, a construção do muro para separar os dois povos invadindo terra palestina, etc – tem se mostrado, até o momento que escrevo estas linhas, eficaz na redução dos atentados terroristas.29 A questão ética, porém, persiste.
28 “A Condição Humana”, Hannah Arendt.
29 No final de agosto, dois ataques terroristas destruíram dois ônibus em Israel, com a morte de dezesseis pessoas. O Hamas responsabilizou-se pelos atentados. Como seria de esperar, a estratégia de Sharon não é a adequada para dar uma solução definitiva ao problema. Só uma paz justa dará fim ao terrorismo palestino.
A tão decantada afirmação de que “os fins justificam os meios”
serve hoje, como sempre, para justificar as maiores violências contra o homem. As ideologias redentoras têm sido responsáveis pelos piores crimes contra a humanidade: as guerras religiosas do passado, o fascismo, o nacional-socialismo alemão, o comunismo e, agora, o terrorismo e o antiterrorismo.
A possibilidade de estarmos em erro é, talvez, um antídoto, o melhor, contra a violência.
O problema talvez esteja ligado às características do Serviço:
Profundamente incorporada à mentalidade clandesti- na está a crença de que a ética humana e as leis sociais não têm nada a ver com as operações clandestinas ou com os homens que as executam. A profissão da inteligência, devido ao seu arrogante objetivo ‘a segurança nacional’, está livre de todas as restrições morais. Não há necessidade de enfrentar tecnicalida- des legais ou julgamentos quanto ao certo e ao errado.
Os fatores determinantes nas operações secretas são totalmente pragmáticos: o trabalho precisa ser feito?
Pode ser feito? Pode ser mantido em segredo (ou é plausível o seu desmentido)? [trad. nossa]30
Os exemplos recentes, envolvendo um dos países cuja tradição liberal é indiscutível – os Estados Unidos da América – não são anima- dores.
30 Marchetti & Marks, op. cit., p. 249
Logo após os atentados de 11 de setembro, numa clara tentativa de dar uma resposta rápida à sociedade, os EUA prenderam 762 suspeitos de en- volvimento com o terrorismo, muitos dos quais presos porque apresentavam alguma irregularidade em relação às leis de imigração. Esses presos, segundo o Inspetor Geral do Ministério da Justiça, foram submetidos a “um padrão de abusos físicos e verbais” – tais como a manutenção das celas iluminadas noite e dia durante meses, transferências com algemas e grilhões, ausência de qualquer acusação formal, negativa de acesso a advogados, etc – numa clara violação dos seus direitos.31 Não havia nenhuma evidência contra a maioria desses presos: eles, simplesmente, estavam irregulares no país. Tanto isso é verdade que, posteriormente, foram apenas deportados.
Também nas prisões do Afeganistão, há claras violações dos direi- tos dos presos: num centro secreto de interrogatórios que a CIA montou na base aérea de Bagram, ao norte de Cabul, dois afegãos presos morreram de
“traumatismo craniano causado por força bruta”; um outro preso foi morto numa pequena prisão do exército nas imediações de Asadabad, província de Konar, na região leste do país.32
Com relação ao Iraque, a situação é ainda pior.
Uma série de fotografias veio a público, evidenciando abusos contra presos na prisão de Abu Ghraib. A comissão de investigações de alto nível do Exército dos EUA, estabelecida para apurar os abusos, concluiu que membros da Inteligência militar tiveram um papel importante, estando envolvidos em, pelo menos, 44 casos de abusos entre julho de 2003 e fevereiro de 2004.33
Muitos desses abusos foram cometidos durante interrogatórios
31 “EUA admitem que guerra ao terror maltratou presos”, Philip Shenon, e “Relatório aponta abusos nos EUA”, ibid.
32 “EUA investigam a morte de afegãos”, José Meirelles Passos.
33 Abuses at Prison Tied to Officers in Intelligence, Eric Schmitt.
e tinham o propósito de arrancar informações dos prisioneiros; com re- lação a outros abusos praticados, nem essa desculpa pôde ser alegada:
tratava-se apenas de puro sadismo.
O relatório do Exército veio confirmar o de um painel indepen- dente, chefiado por James R. Schlesinger, ex-Secretário de Defesa, no que diz respeito à responsabilidade pelos abusos: esta não foi apenas dos que efetivamente os cometeram mas de toda a cadeia de comando, do Golfo Pérsico até os altos escalões de comando em Washington. Para o senador republicano, da Carolina do Sul, membro do Comitê das Forças Armadas no Senado, Lindsey Graham:
“Quando esses relatórios são vistos em conjunto, há uma clara mensagem de que o sistema falhou de forma generalizada”.34
Também o relatório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC) sobre o tratamento, pelas Forças da Coalizão, dos prisioneiros de guerra no Iraque, e outras pessoas protegidas pela Convenção de Genebra, é taxativo:
De acordo com as alegações colhidas pelo ICRC, maus tratos durante interrogatório não eram sistemá- ticos, exceto no caso de pessoas presas em conexão com suspeita de crimes contra a segurança ou que se supunha terem valor para a ‘inteligência’. Nesses ca- sos, pessoas privadas de sua liberdade sob supervisão da Inteligência Militar ficaram sob grande ameaça de serem submetidas a uma variedade de tratamentos duros, que iam desde insultos a ameaças, tanto de
34 Ibidem.
coerção física como psicológica, e a humilhações, que, em alguns casos, eram equivalentes à tortura, a fim de forçar à cooperação com os seus interroga- dores. [trad. nossa]35
O mais grave problema da violação dos direitos humanos diz respeito aos presos na base americana de Guantánamo, em território cubano. Submetidos a condições desumanas desde o fim da campanha contra o Afeganistão, isolados completamente do mundo exterior, submetidos a maus tratos, privados de qualquer assistência jurídica e sem qualquer acusação formal, esses presos têm recorrido, cada vez com maior freqüência, ao suicídio.36
O governo dos EUA não os reconhece como prisioneiros de guerra e, como não são cidadãos americanos e estão presos fora do território dos EUA, alega-se que eles não têm diretos constitucio- nais:
“A qualificação dos elementos da ‘Milícia Talibã’, levados para a Base de Guantánamo, como ‘combatentes ilegais’ (nem terroristas, nem criminosos e nem prisioneiros de guerra) visou a evadir-se às normas da Convenção de Genebra”.37
O PROfISSIONAL DE INTELIGÊNCIA
Pelo que até agora foi dito, não há um Profissional de Inteli- gência, mas uma série de qualificações indispensáveis para o Serviço
35 Report of the International Committee of the Red Cross (Icrc).
36 Guantánamo: desespero e desejos de morte, Carlotta Gall e Neil Lewis.
37 O Ataque ao Iraque no Contexto do Pós-Modernismo Militar, Marcos Henrique Camilo Côrtes.
de Inteligência, que terão de ser atendidas por diferentes profissionais, com características e formações diversificadas.
Sem dúvida, o analista de informações é o que exige a maior gama de conhecimentos para o exercício de sua tarefa. Conhecimentos de ciência política, sociologia, psicologia, história, etc – em síntese, uma sólida cultura geral – parecem requisitos indispensáveis. É neces- sário aliar uma grande capacidade de leitura à reflexão. O analista, na grande maioria das vezes, não é formado pelos Órgãos de Inteligência;
ele é recrutado já com as qualificações essenciais, só necessitando ser orientado paras as peculiaridades do Serviço de Inteligência e sobre os parâmetros estabelecidos pela Política Nacional de Inteligência.
Para o mestre Gehlen:
O conhecimento não cai do céu como um maná.
Ele é recomposto, peça por peça, a partir de um grande número de fatos individuais, que têm de ser reunidos e relacionados mutuamente, com base em sólido conhecimento geral e absoluta percepção da própria situação e da de outros aliados, bem como da dos inimigos reais e em potencial.38
O trabalho de análise é um processo contínuo ao longo do tempo e sistemático para garantir que todas as informações tenham sido con- sideradas:
A ausência de um processo de análise contínuo e sistemático, que trabalhe em conjunto com todas
38 Gehlen, op. cit., p. 26
as fontes de informes, pode conduzir a que alguns itens possam ser grosseiramente superestimados e outros completamente ignorados.39
Tendo em vista a amplitude e diversidade das matérias do interesse da Segurança Nacional, conforme já apontado, seria alta- mente recomendável, no meu entender, que as análises de informa- ções fossem da responsabilidade de um grupo multidisciplinar, com especialistas nas áreas política, econômica, societal, ambiental e militar.
Já a coleta de informações exige outro tipo de habilidades que, em boa parte, dependem da forma como a informação vai ser buscada:
no exterior, ou no próprio país, através do exame de documentos, de entrevistas pessoais, por infiltração nos órgãos ou grupos a serem investigados, através de informantes, do interrogatório de presos, de maneira ostensiva ou encoberta, etc. A definição das qualificações dos coletores de informações será dada em função das necessidades identificadas. Cursos específicos – que incluirão inclusive técnicas relativas aos métodos que serão utilizados pelos coletores e prática de equipamentos disponíveis para a coleta de informações – são indis- pensáveis. É importante que os selecionados conheçam os parâmetros éticos fixados pela agência para a sua atuação.
Além de analistas e coletores de informações, outros elementos são necessários numa Agência de Inteligência: técnicos em cripto- grafia, em sistemas de comunicação e computação, etc.
Técnicos em propaganda e desinformação são, comumente,
39 Ibidem, p. 67
usados nas Agências de Inteligência, e necessitam de qualificação especial para esse tipo de atividade: jornalistas e publicitários têm os conhecimentos básicos para essa função mas necessitam de cursos específicos para atuarem na área de Inteligência.
A respeito do assunto, cabe aqui dizer que as sociedades não- democráticas são mais sujeitas à ação da propaganda e desinforma- ção:
Tendo como alvo uma sociedade fechada, o sim- ples fato de ser prover informações e notícias que o governo quer manter fora do conhecimento de seu povo pode ter um efeito significativo. Se, além disso, alguma desinformação puder ser inserida, tanto melhor. Os ouvintes, vendo que muito do que estão ouvindo é verdadeiro, tendem a acreditar que tudo que lhes é dito é correto. [trad. nossa]40 Deve-se observar, porém, que a difusão de notícias falsas ofe- rece risco para o próprio Serviço, pois outras agências podem tomar as notícias por verdadeiras e basear suas análises nelas.41
Um dos pontos de maior relevância para o Serviço de Inteli- gência é a existência de um sistema eficaz para organizar, armazenar, transmitir e fazer uso das informações colhidas.
A correta avaliação de uma situação, fator essencial para a to- mada de decisão, depende disso: “Um dos elementos essenciais para a
40 Marchetti & Marks, op. cit., p. 159
41 Ibidem, p. 160
tomada de decisões é o fornecimento rápido, imediato e consciencioso de informações sobre a situação... A correta avaliação de uma situação só pode ser baseada num fluxo rápido e seguro de informações”.42
Se uma informação não pode ser rapidamente recuperada ela é absolutamente inútil e, em geral, o volume de informações neces- sárias torna esta uma tarefa de grande complexidade. Para Gehlen, o acúmulo em grande escala de uma infinidade de minúsculos detalhes – que em si mesmos nada tem de importante ou valioso – pode produzir inestimáveis e vibrantes dividendos em termos de informações, uma vez que tenham passado pelo crivo de profissionais experimentados, capazes de compor um todo bastante significativo das miríades de peças, como num quebra-cabeça.43
É fora de dúvida, porém, que o excesso de informações, pode ser prejudicial por entupir o sistema, tornando difícil para os analistas separar o que é realmente importante e produzir material suficiente- mente maturado para os formuladores de políticas. Uma superabun- dância de informações coletadas resulta num excesso de informes acabados, muitos, de pouco uso para a formulação de políticas; acaba por existir demasiado número de informes, sobre demasiado número de assuntos, de tal forma que as pessoas a quem eles se dirigem são incapazes de usá-los convenientemente.44
Esta conclusão, apontada num dos inúmeros relatórios apre- sentados por comissões nomeadas nos EUA para procurar melhorar a eficiência dos Serviços de Inteligência (de 1967), foi corroborada por outra comissão (de 1970):
42 Gehlen, op. cit., p. 121.
43 Gehlen, um gênio da informação, Charles Whitting, p. 80.
44 Marchetti & Marks, op. cit., p. 96 e 209.
Acredito que o Pentágono sofre de um excesso de inteligência. Ele não pode usar o que tem porque demasiado foi coletado. Quase seria melhor que eles não tivessem esses dados porque é difícil determinar o que é importante.45
A informática é um poderoso instrumento para o estabeleci- mento de um eficiente sistema de arquivo. Embora em todas as Áreas da Inteligência a confiança seja requisito indispensável, o controle e arquivo das informações exige não só pessoal altamente qualificado mas de absoluta confiança do encarregado da agência.
A Contra-Inteligência, embora deva fazer parte da cultura de todos os que trabalham no Serviço de Inteligência, requer que o pes- soal específico da atividade tenha uma boa experiência pregressa na Área de Inteligência. Agentes que tenham atuado por tempo razoável em Ações de Inteligência e tenham demonstrado sua aptidão nas fun- ções, são os mais adequados para o trabalho de Contra-Inteligência, em especial no que diz respeito à proteção da própria agência, de seus métodos de trabalho e de seu pessoal. No campo mais amplo – que envolve determinadas instalações industriais, áreas onde se desenvolvem certas atividades que não se querem conhecidas ou que envolvem conhecimentos sensíveis, etc, cuja proteção normal está a cargo das pessoas públicas ou privadas que as operam – caberá à Contra-Inteligência instruir os seus operadores para que adotem procedimentos corretos de proteção.
No Brasil, a Abin desenvolveu o Programa Nacional de Pro-
45 Ibidem, p. 100.
teção ao Conhecimento (PNPC) onde procura sensibilizar segmentos da sociedade brasileira sobre as ameaças ao desenvolvimento e à segurança nacionais, representadas pelas ações de espionagem em alvos econômicos, industriais e científico-tecnológicos.46 Sendo ne- cessária uma mudança cultural radical nos hábitos nacionais, o êxito de tal programa só pode ser visualizado a longo prazo se a Agência persistir nos seus esforços tanto no setor público como no privado.
O recrutamento de analistas, agentes e técnicos não pode seguir as regras normais do setor público. Há que se estabelecer critérios específicos, que mantenham a discrição indispensável nesses casos.
É ainda Gehlen que ensina:
Um Serviço de Inteligência nem sempre pode ser dirigido da mesma maneira adotada para outras agências governamentais. Estas exercem uma função puramente administrativa e uma Agência de Informações tem a função vital de obter e ava- liar informações; os aspectos administrativos e financeiros da Agência são de menor importância.
É nesse particular que um Órgão de Informações difere dos outros setores do executivo, para os quais as funções administrativas e reguladoras são as mais importantes... É preferível administrar um Órgão de Informações por especialistas de Informações com experiência do Serviço Público, do que por funcionários comuns, com tendência a
46 “A Agência Brasileira de Inteligência”, op. cit.
tolher, por motivos administrativos, as operações de Informações.47
Ressalta assim a importância de controles interno e externo para o Serviço de Informações. Há, evidentemente, que casar essa necessi- dade de controle com a necessidade de discrição e esta é uma questão difícil. De acordo com a lei que criou a Abin, no Brasil o controle e fiscalização internos, no âmbito do próprio Executivo, são feitos por dois órgãos – a Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional, que supervisiona a execução da Política Nacional de Inteligência, e a Secretaria de Controle Interno da Presidência da República (Ciset), que inspeciona a aplicação das verbas orçamentárias – e os externos, a cargo do Poder Legislativo, são exercidos pelo Tribunal de Contas, no que concerne à gestão de recursos orçamentários, e pela Comissão Mista do Congresso Nacional, com respeito à execução da Política Nacional de Inteligência.48
Um dos controles, tanto interno como externo, tem a ver com a aplicação das verbas, e o outro, também interno e externo, tem a ver com o enquadramento das ações da Abin às disposições da Política Nacional de Inteligência.
Neste ponto cabe uma outra observação de Gehlen:
O dinheiro posto à disposição de uma Agência de Informações deve ser destinado a produzir frutos e não para o custeio de uma estrutura gigantesca
47 Gehlen, op. cit., p. 165
48 “A Agência Brasileira de Inteligência”, op. cit.
e dispendiosa. Se isso se der, haverá o risco desse órgão tender a obedecer a Lei de Parkinson, tor- nando-se um fim em si mesmo.49
Os controles, porém, não podem tirar a necessária flexibilidade da Agência:
É de fundamental importância preservar a flexibi- lidade com que uma Agência de Informações pode aplicar seus meios técnicos e financeiros, de modo a poder colocar imediatamente em atividade suas decisões operacionais.50
Além dos analistas, coletores de informações e técnicos in- dispensáveis ao Serviço de Inteligência, há ainda que considerar o pessoal administrativo necessário para que as atividades burocráticas tenham o seu curso normal – secretárias, serviços de copa, etc. Este pessoal, que não precisa ter conhecimentos especializados sobre In- teligência, pode ser recrutado no funcionalismo público, embora seja essencial uma cuidadosa verificação da sua confiabilidade, através da checagem de sua vida particular e de entrevista por pessoal para isso credenciado e qualificado.
Além dos controles interno e externo, é absolutamente impres- cindível que o Serviço de Inteligência tenha o seu autocontrole, isto é, um sistema da própria Agência capaz de fiscalizar o seu funcio-
49 Gehlen, op. cit., p. 160
50 Ibidem, p. 165
namento administrativo bem como todos os seus integrantes, o que Gehlen chamou de Segurança Orgânica, com a ênfase específica na segurança:
A Segurança Orgânica é talvez a tarefa mais ingrata de um Serviço de Informações. Se se pode dizer dos serviços secretos em geral que eles trabalham por trás de portas fechadas, não devendo esperar o reconhecimento do público, isto é muito mais verdadeiro no que diz respeito às suas seções para a Segurança Orgânica. Como o goleiro no time de futebol, esta seção leva toda a culpa quando ocor- rem fracassos na segurança. E, paradoxalmente, quando o serviço lavra um tento como esse, trata-se mesmo como a admissão de uma derrota, pois fica estabelecido que, até o momento de sua descoberta, o elemento detectado pôde desenvolver, desper- cebidamente, sua traição... O bom funcionamento de uma Seção de Segurança Orgânica acentuará a eficiência do Órgão de Informações; sua influência é sentida em toda a máquina; ela afeta o desen- volvimento posterior da estrutura da organização, desempenhando um importante papel no bem-estar e no recrutamento do pessoal interno.51
51 Ibidem, p. 231
LEGISLAçãO
Cabe ao governo dar uma clara definição do que espera do Serviço de Inteligência nos campos interno e externo. Devido à abrangência da área de atuação desse serviço, é preciso escolher criteriosamente os setores de maior interesse para a segurança nacional e proteção da sociedade, selecionando as ameaças mais significativas. A limitação de recursos – sempre se recebe muito menos do que se quer – determinará o que é possível fazer, dentro das prioridades estabelecidas pelos formuladores de políticas.
A existência de uma Política Nacional de Inteligência é, pois, fun- damental mas é imperioso reconhecer que nenhuma legislação é, por si só, suficiente, mormente nesta área delicada, para garantir a eficácia do Sistema de Inteligência. A legislação, em geral, é redigida em termos que permitem diversas interpretações ou pode ser simplesmente ignorada, em especial se os sistemas de controle e fiscalização internos e externos e, ainda mais, o sistema de autocontrole da Agência, não são eficazes.
É a qualidade dos homens que compõem o Serviço que mais importa, sua lealdade ao país e ao sistema, sua independência em relação às pressões políticas ou de qualquer natureza que não se coadunem com a finalidade pre- cípua do Sistema.
Alguns princípios devem servir de base para orientar a elaboração da legislação pertinente e o comportamento de todo o pessoal do Serviço de Inteligência. A relação que se segue não é exaustiva e deve ser encarada apenas como um ponto de partida para uma discussão completa do problema:
● uma agência nacional de Inteligência única deve coordenar as ações de inteligência interna, externa e militar;
● um serviço de Inteligência voltado para o campo interno é indispensável, independentemente do sistema de governo, autocrático ou democrático;