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Supremo Tribunal Federal

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Academic year: 2021

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HABEAS CORPUS 113.904 RIO GRANDE DO SUL

RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA

PACTE.(S) :BENTO MENEZES FILHO

IMPTE.(S) :DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO

PROC.(A/S)(ES) :DEFENSOR PÚBLICO-GERAL FEDERAL

COATOR(A/S)(ES) :SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

DESPACHO

HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL. EXECUÇÃO PENAL. FALTA GRAVE. PRETENSÃO DE APLICAÇÃO DA LEI N. 12.433/2011. AUSÊNCIA DE MEDIDA LIMINAR. INFORMAÇÕES. VISTA AO PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA.

Relatório

1. Habeas corpus, sem pedido de medida liminar, impetrado pela DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO, em benefício de BENTO MENEZES FILHO, contra decisão da Ministra Maria Thereza de Assis Moura, que, em 26.4.2012, deu provimento ao Recurso Especial n. 1.293.119, interposto pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul:

“EMENTA

PENAL E PROCESSO PENAL. RECURSO ESPECIAL. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. CONTRARIEDADE AOS ARTS. 111, P. ÚNICO, 112, CAPUT, E 118, I, DA LEP. OCORRÊNCIA. PRÁTICA DE FALTA GRAVE. FUGA. ALTERAÇÃO DA DATA-BASE PARA OBTENÇÃO DE NOVA PROGRESSÃO DE REGIME. ERESP 1.176.486/SP. RECURSO ESPECIAL A QUE SE DÁ PROVIMENTO.

DECISÃO

Trata-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO

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HC 113.904 / RS

Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, ementado verbis: AGRAVO EM EXECUÇÃO. FALTA GRAVE. FUGA. I –PRELIMINARES.

I. 1. NULIDADE DO PAD POR INOBSERVÂNCIA DO PRAZO PARA CIENTIFICAÇÃO DO APENADO. A concessão de prazo entre a cientificação do apenado e o interrogatório advém da necessidade de salvaguardar a efetividade da defesa, corolário do princípio constitucional do direito do acusado de cometimento de falta grave à ampla defesa com os meios a ela inerentes, no caso, com o tempo mínimo necessário para implementá-la. Portanto, a finalidade do interregno antecedente ao interrogatório é a de possibilitar ao acusado de cometimento de falta grave a ciência de acusação, em todos os termos, a escolha de um defensor e a preparação para o interrogatório, através da orientação do procurador escolhido. No caso em tela, verifica-se que a Defensoria Pública alegou a nulidade do processo administrativo disciplinar logo que teve acesso aos autos. Preliminar acolhida. POR MAIORIA, ACOLHERAM A PRELIMINAR DE NULIDADE PELA INOBSERVÂNCIA DO PRAZO PARA CIENTIFICAÇÃO, PREJUDICADA A ANÁLISE DO MÉRITO. (fl. 102).

Foram, ainda, opostos embargos de declaração, os quais restaram decididos, nos seguintes termos:

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. EQUÍVOCO NO DECISUM. 1. Os embargos de declaração só são cabíveis caso o acórdão recorrido contenha ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão, nos termos do artigo 619, do CPP, e, por construção pretoriana, quando houver nulidade ou erro material no decisum. 2. Acolhidos os presentes embargos declaratórios com efeitos infringentes, portanto, por equívoco, foi proferida decisão contrária ao entendimento desta Câmara Criminal em face das peculiaridades do caso concreto. 3. Conforme jurisprudência desta 3º Câmara Criminal, há nulidade do PAD sem a presença de advogado e sem apresentação de defesa, por inobservância do princípio constitucional do contraditório e ampla defesa. Todavia, cabe

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HC 113.904 / RS

excepcionar desta regra a hipótese de determinadas faltas graves, por exemplo, a fuga na medida em que a sua comprovação, de regra, depende tão somente do acolhimento ou não das explicações sobre o motivo da fuga dadas oralmente pelo apenado em audiência judicial e na presença de advogado. Assim, consistindo a falta grave cometida pelo apenado em fuga, ficam afastadas as alegações de nulidades decorrentes da ausência de defensor no PAD e não observância do prazo de cientificação. 4. PRESCRIÇÃO DO PAD. Não obstante a previsão do artigo 37 do Regimento Disciplinar Penitenciário do Rio Grande do Sul (Decreto nº 46.534/09), que regula o prazo para a conclusão do Procedimento Disciplinar, a prescrição administrativa não deve ser reconhecida. Com efeito, é defeso ao Regimento Disciplinar Penitenciário do Rio Grande do Sul legislar sobre matéria de direito penal, uma vez que tal atribuição compete privativamente à União, nos termos do art. 22, inciso I, da Constituição Federal. Assim, inexistindo legislação específica acerca do prazo prescricional para a conclusão, do procedimento, que eventualmente implicará em sanção disciplinar, deve ser observado o menor prazo previsto no art. 109 do Código Penal, qual seja dois anos se anterior à Lei nº 12.234/2010, ou três anos quando posterior, porquanto é o menor lapso prescricional previsto no mencionado dispositivo. 5. PRÁTICA DE FALTA GRAVE: FUGA. Incontroversa a prática a falta grave prevista no art. 50, inciso II da LEP. 6. PERDA DOS DIAS REMIDOS. A perda dos dias remidas não acarreta qualquer violação aos direitos do apenado, visto que a concessão do benefício está condicionada ao não cometimento de falta grave. Ademais, não se está diante de direito adquirido, ou coisa julgada, mas sim de mera expectativa de direito. Apenas na hipótese de já ter sido declarada a extinção da pena é que se tem a impossibilidade da perda dos dias remidos. Outrossim, a constitucionalidade do art. 127 da LEP foi declarada pelo Supremo Tribunal Federal, culminando com a edição da Súmula Vinculante nº 9. Por outro lado, o Superior Tribunal de Justiça tem reiteradamente decidido que o art. 127 da LEP determina a revogação integral dos dias

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HC 113.904 / RS

remidos. Ainda que assim não fosse, a perda do total dos dias remidos não configura excesso no caso concreto, sendo apenas consequência da gravidade da falta cometida pelo condenado. 7. ALTERAÇÃO DA DATA-BASE PARA CONCESSÃO DE NOVOS BENEFÍCIOS. Em virtude do princípio constitucional da legalidade, aplicável à execução penal, o cometimento de falta grave não acarreta a interrupção do prazo: (a) para obtenção do livramento condicional (Súmula nº 441, do STJ); (b) para a progressão de regime prisional; (c) para a obtenção de indulto ou comutação de pena, por falta de previsão legal. Com efeito, o art. 118 da LEP não prevê a alteração da data-base de cumprimento da pena, pelo cometimento de falta disciplinar de natureza grave, mas somente a regressão de regime prisional e o novo período a que alude o art. 127 da LEP concerne exclusivamente à aquisição de nova remição. Assim, a determinação de interrupção do prazo de cumprimento de pena, pelo cometimento de falta grave, configura coação ilegal. Trata-se de interpretação analógica sem base legal prejudicial ao apenado, que ofende o princípio constitucional da legalidade (CF, art. 5º, incisos II e XXXIX). À UNANIMIDADE ACOLHERAM OS EMBARGOS DECLARATÓRIOS COM EFEITOS INFRINGENTES E, PROCEDENDO NOVA ANÁLISE DO AGRAVO DE EXCUÇÃO, AFASTARAM AS NULIDADES AVENTADAS PELA DEFESA. POR MAIORIA DERAM PARCIAL PROVIMENTO AO AGRAVO EM EXECUÇÃO, VENCIDO O PRESIDENTE QUE O DESPROVIA. (fls. 122/124).

Sustenta o recorrente, às fls. 158/170, além de divergência jurisprudencial, contrariedade aos artigos 111, parágrafo único, 112,

caput, e 118, inciso I, todos da LEP, em virtude de o acórdão recorrido

não ter considerado o cometimento da falta grave, consistente na fuga do estabelecimento prisional, para alterar a data-base para concessão de novos benefícios.

As contrarrazões foram apresentadas às fls. 188/194. O Tribunal de origem admitiu o recurso às fls. 204/214.

O Ministério Público Federal manifestou-se às fls. 253/266, pelo

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HC 113.904 / RS

provimento do recurso especial, nos seguintes termos:

RECURSO ESPECIAL. AGRAVO EM EXECUÇÃO. FALTA GRAVE PRATICADA DURANTE O CUMPRIMENTO DE PENA. O cometimento de falta grave durante o cumprimento de pena tem como consequência a regressão de regime prisional, a perda de parte dos dias remidos, a alteração da data-base e o reinício da contagem do lapso temporal para a concessão de benefícios executórios. Precedentes do STJ e do STF.

Parecer pelo provimento do apelo. É o relatório.

A insurgência merece prosperar.

Inicialmente, importante destacar que prevalecia nesta Sexta Turma, o entendimento no sentido de que a prática de falta grave não teria o condão de interromper o lapso para concessão de benefícios, pois o artigo 127 da Lei de Execuções Penais prevê, em casos de falta grave, apenas a perda dos dias remidos, devendo entender-se que o novo período que alude a norma refere-se à aquisição de nova remição.

No entanto, recentemente, restou assentado pela 3ª Seção desta Corte Superior de Justiça, no julgamento dos Embargos de Divergência nº 1.176.486/SP, que a prática de falta disciplinar de natureza grave deve determinar a interrupção do prazo para concessão de progressão de regime. Assim, em homenagem à missão uniformizadora desta Corte Superior, adoto referido posicionamento firmado pela maioria (…).

Ante o exposto, dou provimento ao recurso especial, para restabelecer a decisão do juízo das execuções, no que concerne à alteração da data-base para concessão de nova progressão de regime (fl. 97)”.

2. A Impetrante alega que:

“Com o advento da Lei nº 12.433/11, o caput do artigo 127, em

caso de falta grave, o juiz poderá revogar até 1/3 (um terço) do tempo remido, observado o disposto no art. 57, recomeçando a contagem a partir da data da infração disciplinar.

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Não obstante o supramencionado dispositivo legal não prever expressamente a remição para aqueles que estejam cumprindo a pena, há de se entender que é plenamente possível a incidência da remição em face da falta de previsão legal literal a quem cumpre a sanção estatal esculpir não de forma hermenêutica mas sim positivada em nosso ordenamento pátrio, a fim de respeitar-se os Princípios Constitucionais da Isonomia e Proporcionalidade insculpidos no artigo 5º da Constituição da República.

Insurge, portanto, a proibição por falta de previsão legal a perda dos dias remidos aos reeducandos cometedores de faltas de natureza grave, que variavelmente, por muitas vezes, se quer foram aferidas por meio de processos administrativos a fim de verificar a real natureza do cometimento faltoso, se de natureza leve, media ou grave. O cotidiano carcerário incumbe ao diretor simplesmente inserir nos assentos pessoais dos reeducandos o cometimento faltoso, muitos deles uma simples manifestação contrária ao entendimento discricionário do agente carcerário já ensejaria numa falta grave.

(…) é necessário consignar que não há qualquer previsão legal para o recomeço da contagem do lapso temporal quando do cometimento de falta grave pelo condenado.

Ora Excelência, não é demais repisar, que seria criar requisito objetivo não estabelecido em lei, o entendimento de que uma vez cometida falta grave o detento será obrigado a cumprir, novamente, o prazo necessário para a concessão do benefício”.

Este o teor dos pedidos:

“a) No mérito, seja concedida a ordem, a fim de afastar o

constrangimento ilegal sofrido pelo paciente e, desta forma, assegurar o direito do paciente em obter os seus dias remidos novamente;

b) a título de pedido subsidiário, que o juízo ‘a quo’ aprecie a situação do paciente à luz da nova Lei nº 12.433/11, com imediata expedição de oficio ao juízo;

c) sejam solicitadas as informações de estilo, caso V.Exa., entenda necessário;

d) requer, por derradeiro, a intimação pessoal do Defensor

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Público-Geral Federal para acompanhar o presente feito, inclusive quando da colocação do presente writ em mesa de julgamento, vez que há interesse do impetrante em sustentar oralmente as razões que dão lastro à impetração; contados em dobro todos os prazos, na forma do inciso I do art. 44 da Lei Complementar nº 80/1994”.

3. Não havendo requerimento de medida liminar a ser apreciado, oficie-se ao juízo da Vara de Execuções Criminais da Comarca de Rio Grande/RS, para, com urgência e por fax, prestar informações pormenorizadas quanto ao alegado na presente impetração e ao andamento atualizado da execução da pena do Paciente e forneça cópia da decisão restabelecida pelo julgamento do Recurso Especial n. 1.293.119 e de outros documentos que considerar pertinentes.

Remeta-se com o ofício, a ser enviado com urgência e por fax, cópia da inicial e do presente despacho.

4. Prestadas as informações, vista ao Procurador-Geral da República.

Publique-se.

Brasília, 1º de agosto de 2012.

Ministra CÁRMEN LÚCIA Relatora

Referências

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