P.º R. P. 63/2006 DSJ-CT: Trespasse de estabelecimento comercial. Possibilidade de englobar bens imóveis. Registabilidade da sua transmissão. Forma a observar. Assunção pela sociedade de negócios jurídicos anteriores ao seu registo. Verificação do cumprimento das obrigações fiscais.
Parecer
1 – Em 3 de Outubro de 2005 foi celebrada uma escritura entre a sociedade “N…,
LIMITED”, com sede em … e representação permanente em Portugal, sob a firma “N…,
LIMITED (SUCURSAL), e a sociedade “F…, S.A.”, mediante a qual se trespassava o
estabelecimento comercial que a primeira, por intermédio da sua sucursal, vinha explorando em Portugal, e que englobava os respectivos valores activos e passivos, incluindo os contratos de trabalho em vigor, os bens móveis e os imóveis titulados em nome da sucursal. Procedeu-se à devida identificação das fracções autónomas objecto da transmissão, nos termos prescritos no artigo 44.º, n.º 1, alíneas b) e c), primeira parte, do CRP e no artigo 54.º do CN, e foi fixado o valor correspondente de cada uma delas.
A sociedade “F”, cuja escritura de constituição precedeu a do trespasse, no mesmo dia, está representada pelo administrador, sem que se refira a existência de autorização dada por todos os sócios naquela escritura de constituição à celebração do negócio jurídico em causa.
2 – Com base na fotocópia certificada da certidão da aludida escritura de trespasse, o
advogado IM requereu, na Conservatória do Registo Predial de …1, dois averbamentos de
transmissão das fracções autónomas “A” e “B” do prédio descrito sob o n.º 637, da freguesia de …2, a favor da “F…, S.A.” por trespasse do estabelecimento comercial da referida “N…,
LIMITED” (SUCURSAL), com indicação expressa da disposição legal ao abrigo da qual deveriam ser lavrados os registos em causa – alínea g) do n.º 1 do artigo 101.º do CRP.
Os pedidos, a que corresponderam as aps. n.ºs 53 e 54, de 2 de Novembro de 2005, foram ainda instruídos com duas cadernetas prediais urbanas e com uma fotocópia certificada da certidão do registo comercial da sociedade trespassária.
3 – Sobre os aludidos pedidos recaiu despacho de recusa «uma vez que o acto
requisitado – averbamento de transmissão da fracção – Trespasse – não está sujeito a
1 Em 28 de Novembro de 2005 entrou em funcionamento a Conservatória do Registo Predial
de …, criada pela Portaria n.º149/2005, de 8 de Fevereiro, tendo a freguesia de … passado a pertencer à área de competência desta Conservatória.
2 O reajustamento da área das conservatórias do Registo Predial de Lisboa às alterações
registo, de acordo com o estatuído no art. 2.º do CRP. Arts 68º, 69.º, n.º 1 al. c) e 71º todos do Código do Registo Predial.»
4 – Desta qualificação foi interposto recurso hierárquico onde, em síntese, se
expenderam os seguintes argumentos:
4.1 – A transferência do direito de propriedade sobre as fracções autónomas “A” e “B”
do identificado prédio n.º 637 para a titularidade da sociedade “F…, S.A.”, englobada na transmissão da universalidade de todos os activos e passivos que faziam parte do estabelecimento comercial explorado pela N…, LIMITED, através da sua Sucursal em Portugal, está sujeita a registo, por força do disposto na alínea a) do n.º 1 do artigo 2.º do CRP.
4.2 – O trespasse, por englobar bens imóveis, foi titulado por escritura, não obstante
o artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 64-A/2000, de 22 de Abril, tenha revogado o disposto na alínea m) do n.º 2 do artigo 80.º do CN, deixando de ser obrigatória a celebração de escritura de trespasse de estabelecimento comercial.
No entanto, tal só é aplicável quando a universalidade do estabelecimento trespassado não inclua bens imóveis, pois, neste caso, aplicar-se-á o n.º 1 do artigo 80.º do citado Código.
4.3 – Por mera cautela, e na falta de clareza do despacho impugnado, sustenta, ainda,
que o trespasse de estabelecimento comercial pode incluir bens imóveis, citando, em abono da sua tese, o Conselheiro Aragão Seia, in Arrendamento Urbano – Anotado e Comentado, 1995, pág. 436 e 437 (que, por seu turno, remete para o Prof. Antunes Varela) e o Prof. Januário Gomes, in Constituição da Relação de Arrendamento Urbano, 1995, pág. 177, por entenderem que o dono do prédio em que o estabelecimento se encontra instalado pode englobar no trespasse a transmissão da propriedade daquele.
4.4 – Finaliza reafirmando que o correspondente registo, por respeitar à transmissão
do direito de propriedade de fracções autónomas, por efeito de transferência universal do património de um ente colectivo para outro, vertida num contrato de trespasse, deve ser lavrado por averbamento, nos termos previstos na alínea g) do n.º 1 do artigo 101.º do CRP. Consequentemente, por a decisão proferida ser manifestamente infundada e ilegal, deve o recurso hierárquico ser deferido, reparando-se o despacho impugnado e ordenando-se a feitura dos registos recusados nos termos requeridos.
5 – Em despacho de sustentação da recusa, a Sr.ª Conservadora corroborou a posição
6 – O processo é o próprio, as partes têm legitimidade, o recurso é tempestivo e
inexistem questões prévias ou prejudiciais que obstem ao conhecimento do mérito do recurso.
Cumpre, pois, emitir parecer.
Fundamentação
1 – Doutrinariamente a natureza jurídica do estabelecimento comercial tem sido
objecto de múltiplas teorias – da personalidade, do património autónomo, do bem imaterial, da universalidade (de facto, de direito, mista) e ecléctica3 – sendo, contudo, dispensável, à
solução do caso vertido nos autos, a nossa adesão a qualquer uma delas4.
2 – Relevante parece, porém, atermo-nos na fixação dos elementos que permitem
concluir pela existência de um trespasse de estabelecimento comercial5 e o que ele pode
envolver.
Ora, de entre os elementos nucleares do estabelecimento comercial um grupo deles compõe o âmbito mínimo ou necessário e situa-se no âmago da empresa como organização de factores produtivos e sem o qual aquele nem sequer existe.
Outros elementos do estabelecimento inscrevem-se no seu âmbito natural, que corresponde ao que «ele transporta naturalmente consigo sem dependência de uma concreta enunciação»6.
Enquanto outros dos seus elementos, que constituem o âmbito máximo, só transitam entre as esferas jurídicas negociantes do trespasse por acordo das partes firmado ao abrigo da sua autonomia privada (v. g., os direitos reais sobre imóveis).
Temos, assim, que o estabelecimento constitui uma universalidade da qual podem fazer parte bens móveis e imóveis, créditos e débitos, relacionados com a respectiva actividade.
O âmbito do trespasse é, portanto, variável e, desde que seja preservado o funcionamento do estabelecimento enquanto tal, as partes contratantes podem delineá-lo
3 Cfr. Coutinho de Abreu, in Da Empresarialidade (As Empresas no Direito), 1999, pág. 4 e 5,
e Pupo Correia, in Direito Comercial, 2003, págs. 303 e segts.
4 Veja-se, de qualquer modo, Orlando de Carvalho, in Rev. Leg. e Jurisprudência n.º 3699,
Ano 115, pág. 167 - Alguns Aspectos da Negociação do Estabelecimento – que define estabelecimento comercial como «uma organização concreta de factores produtivos como valor de posição no mercado».
5 Coutinho de Abreu, ob. cit., pág. 327, refere que «o trespasse é definível como transmissão
da propriedade de um estabelecimento por negócio entre vivos».
6 Cfr., quanto à problemática dos âmbitos da entrega – mínimo, natural e máximo, Orlando
por mútuo acordo. A liberdade contratual tem apenas como limite a salvaguarda do âmbito mínimo do estabelecimento, sob pena de nem sequer haver negociação do mesmo.
Há, assim, elementos do estabelecimento que podem não transitar se a vontade das partes se manifestar nesse sentido e desde que dessa exclusão não resulte a
descaracterização do estabelecimento7. Desrespeitado o âmbito mínimo (necessário ou
essencial), o trespasse fica de todo inviabilizado
A relação do estabelecimento com o imóvel pode ou não ser relevante consoante o estabelecimento em causa, sendo certo que alguns o dispensam em absoluto (estabelecimentos ambulantes e estabelecimentos imateriais), enquanto outros o exigem sempre (estabelecimentos de farmácias, hotéis, cinemas).
Como se sabe, a inclusão do prédio na organização pode decorrer de diversos títulos – direito de propriedade, contrato de arrendamento, etc.8.
Neste contexto, a transmissão do direito de propriedade sobre o imóvel considerar-se-á integrada, tal como o direito ao arrendamento ou subarrendamento, dentro da figura própria definida por lei, que é o trespasse, se essa for a vontade das partes deduzida da respectiva declaração negocial9.
Neste sentido, Antunes Varela, a propósito do artigo 1118.º do Código Civil (depois, artigo 115.º do Regime do Arrendamento Urbano, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 321-B/90 de 15 de Outubro10), entende que se o dono do estabelecimento, que pretende trespassá-lo,
for também proprietário do imóvel, pode transmitir definitivamente o seu domínio11.
Face ao exposto, podemos seguramente concluir que o trespasse pode envolver
(mesmo naturalmente12, segundo alguns autores, ou convencionalmente, de acordo com a
maioria), a transmissão do imóvel onde se localiza o estabelecimento comercial.
3 – No caso que nos ocupa, o trespasse engloba «os respectivos valores activos e
passivos, incluindo os contratos de trabalho actualmente em vigor, os bens móveis e os imóveis …», ou, dito de outra forma, abrange a transmissão do estabelecimento na sua máxima amplitude.
7 Cfr. Menezes Cordeiro, in Manual de Direito Comercial, I Vol., 2001, pág. 247.
8 Vide parecer proferido no proc.º n.º R.Co.3/2002DSJ-CT, in BRN n.º 9/2002, II, pág. 39. 9 Veja-se o sumário do Acórdão do STJ, de 15 de Outubro 1996, in Arrendamento Urbano, de
Aragão Seia, 6.ª edição, pág. 658, nota n.º 1.
10 Actualmente revogado pelo artigo 60.º da Lei n.º 6/2006, de 27 de Fevereiro, que aprovou
o Novo Regime do Arrendamento Urbano.
11 Cfr. Aragão Seia, ob. cit., pág. 658, e, também no mesmo sentido, Januário Gomes, in
Constituição da Relação de Arrendamento Urbano, 1995, pág. 177.
12 Coutinho de Abreu, in Curso de Direito Comercial, I Vol., 2002, pág. 280, sustenta que
Considerando que o trespasse foi celebrado por escritura13, na qual as partes
contratantes manifestaram expressamente a vontade de operar a transmissão das referidas fracções autónomas inscritas em nome da trespassante para a trespassária, e que aquela transmissão se encontra vertida em título bastante, é registável (não o trespasse, que, aliás, nem foi requerido), por força do preceituado na alínea a) do n.º 1 do artigo 2.º do CRP.
4 – No entanto, não constando da escritura de trespasse que o negócio jurídico tenha
sido celebrado ao abrigo de autorização dada por todos os sócios da sociedade “F”, como determina o disposto na alínea d) do n.º 1 do artigo 19.º do CSC, o mesmo não é automaticamente assumido pela sociedade como efeito directo e necessário do registo definitivo da constituição da respectiva sociedade.
Apesar disso, porém, os direitos e obrigações decorrentes do aludido negócio podem ser assumidos pela sociedade, mediante decisão da administração, que deve ser comunicada à contraparte nos 90 dias subsequentes ao registo14, nos termos previstos no n.º 2 do artigo
19.º do citado Código.
Para a elaboração do registo peticionado em termos definitivos é imperioso, contudo, que seja apresentado documento comprovativo da referida assunção pela sociedade dos direitos e obrigações decorrentes do negócio jurídico celebrado em seu nome, visto que aquela, in casu, não opera automaticamente com o registo da constituição da sociedade.
5 – No que respeita à forma a observar para o registo da transmissão das fracções
autónomas referidas, parece-nos admissível o seu ingresso nas tábuas mediante averbamento à respectiva inscrição de aquisição, nos termos previstos na alínea g) do n.º 1 do artigo 101.º do CRP, que contempla a transmissão de imóveis por efeito de transferência de património de um ente colectivo para outro.
Com efeito, o trespasse do estabelecimento comercial, como uma universalidade de relações jurídicas, implica a transferência em globo dos direitos (e obrigações) integrantes do património do ente colectivo trespassante para o ente colectivo trespassário, no qual se inclui a transmissão das fracções autónomas em causa15.
13 Coutinho de Abreu, ob. cit., pág. 280, nota n.º 225, propende para a dispensa de escritura
mesmo que o trespasse envolva o prédio, por o negócio ser uno (de trespasse) e uno ser o seu objecto (o estabelecimento, uma coisa, embora complexa, constituída pelo prédio e outros bens, que até podem ser mais valiosos), e por a lei não distinguir o trespasse com ou sem transmissão do prédio.
14 No que respeita aos efeitos inerentes à falta de comunicação à contraparte veja-se o
acórdão do STJ, de 10 de Dezembro de 1997, in BMJ n.º 472, pág. 501.
15 Cfr. a II conclusão da deliberação do CT tomada no proc.º n.º R.P.57/2001, DSJ-CT, in
Salientamos, ainda, que, tratando-se de um único facto que envolve a transmissão de duas fracções autónomas, deverá ser lavrado um averbamento a cada uma das respectivas inscrições de aquisição, em conformidade com o prescrito no artigo 100.º, n.º 4 do CRP.
6 – Por último, não podemos deixar de abordar a questão relativa ao cumprimento das
obrigações fiscais decorrentes das transmissões ocorridas.
Da análise conjugada do disposto no n.º 1 do artigo 1.º e no n.º 1 do artigo 2.º do CIMT resulta que o imposto municipal sobre as transmissões onerosas de imóveis incide sobre as transmissões, a título oneroso, do direito de propriedade, qualquer que seja o título por que se operem.
Considerando que a respectiva escritura foi lavrada em desconformidade com o prescrito no artigo 49.º do CIMT, porquanto nela não é mencionado o arquivamento da declaração prevista no artigo 19.º do citado Código, acompanhada do correspondente comprovativo de cobrança, deveria ter sido apresentado, com o pedido de registo, documento comprovativo do pagamento do IMT devido, nos termos prescritos no artigo 50.º do CIMT.
Em consequência das aludidas omissões, o registo peticionado deve ser lavrado como provisório por dúvidas, ao abrigo do prescrito no n.º 3 do artigo 101.º do CRP, convertível mediante a apresentação dos documentos comprovativos do cumprimento das respectivas obrigações fiscais e da autorização prevista no artigo 19.º n.º 1 da alínea d) ou da assunção pela sociedade “F” dos efeitos do negócio jurídico em causa nos termos do n.º 2 do citado artigo 19.º.
Em face do exposto, somos de parecer que o presente recurso hierárquico merece
provimento parcial.
Em consonância, firmamos as seguintes
C O N C L U S Õ E S
II – Sendo o trespassante também dono do imóvel, a venda deste considerar-se-á integrada no trespasse se essa for a vontade manifestada pelos outorgantes.
III – A transmissão do imóvel, devidamente titulada, deve ingressar nas tábuas mediante averbamento à respectiva inscrição, por se tratar da transferência de uma universalidade de relações jurídicas de um ente colectivo para outro.
IV – A assunção pela sociedade de negócios jurídicos celebrados sem autorização concedida por todos os sócios na escritura da sua constituição é feita mediante decisão da administração, comunicada à contraparte nos 90 dias posteriores ao registo do contrato da sociedade.
V – A necessidade de verificar o cumprimento das obrigações fiscais coloca-se sempre que exista transmissão de imóveis, independentemente do título subjacente à mesma.