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Temporality in the Manic Experience: A Selective Review

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Academic year: 2017

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*ServiçodePsiquiatria,HospitalProf.DoutorFernandoFonseca,EPE.[email protected]

a)BaseadonumamonograiarealizadanoâmbitodoCursodeFormaçãoemPsicoterapiaExistencialdaSociedadePortuguesadePsicoterapiaExistencial,

RESUMO:

A vivência do tempo tem sido objecto de estudo, desde os filósofos da antiguidade aos investigadores da neurociência con

-temporânea. Algumas experiências podem perturbararelaçãoqueoserhumanotem

comotempo,sejamestasmundanasege

-rais – como uma criança a brincar com o seu brinquedo (Thomas Fuchs) – ou do domínio da experiência patológica, como experiências de estados depressivos, ma

-níacos ou o modo‑de‑estar‑no‑mundo es

-quizofrénico. Após tecer algumas consi

-derações sobre temporalidade, o presente artigo debruça‑se sobre a perturbação da temporalidadenaexperiênciamaníaca.Em primeirolugarversasobreaperturbaçãodo tempodomundo(cronométrico,explícito) eseguidamentedotempovivido(implícito), recorrendoaaportesdediversosautores,in

-cluindoEugèneMinkowski,LestonHavens, LudwigBinswanger,MedardBosseThomas Fuchs.

Palavras-Chave: Mania; Perturbação Bipo

-lar;TempoVivido;Temporalidade;Fenomeno

-logia.

ABSTRACT:

The human experience of time has been the object of study since antiquity, ranging from philosophers to contemporary neuroscience researchers.

Some experiences may disturb the relation than Man has with Time, be they general and mundane situations – like a child play-ing with his toy (Thomas Fuchs) – to diseas-es, such as depressive or manic experiences or the schizophrenic way-of-being-in-the-world. We outline some concepts regarding temporality and shortly after we head on to the disturbance of temporality in the manic experience, both in the world-time (chron-ometric, explicit) and lived time (implicit) dimensions, with contributions from several authors, such as Eugène Minkowski, Leston Havens, Ludwig Binswanger, Medard Boss and Thomas Fuchs.

Key-Words: Mania; Bipolar Disorder; Lived Time; Temporality; Phenomenology.

“Ha, ha! keep time: how sour sweet music is, When time is broke and no proportion kept! So is it in the music of men’s lives. And here have I the daintiness of ear To check time broke in a disorder’d string; But for the concord of my state and time

A Temporalidade na Experiência Maníaca: Uma Revisão

Selectiva

a)

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Had not an ear to hear my true time broke. I wasted time, and now doth time waste me; For now hath time made me his numbering clock: My thoughts are minutes; and with sighs they jar Their watches on unto mine eyes, the outward watch, Whereto my inger, like a dial’s point,

Is pointing still, in cleansing them from tears.”

InRicardoII W.Shakespeare1

INTRODUÇÃO

Nesteexcertodaobra“RicardoII”,deShakes

-peare,apersonagemdestereiantecipa,emso

-frimento,oseupróprioim.Enojulgardoseu infortúnio,apersonagemencontra‑sejá per-didonotempoeperdido pelotempo,resulta

-dodadesarmoniatemporalemqueseviurei

-nando,tornando‑seporimnumescravodo tempocronológico,aguardandopenosamente oseuim.Nestaslinhasopoetatrazotempo paraaarenadosofrimentoou,antes,traz o tempo para arena da vida humana, com umaacutilânciainvulgar.Defacto,aimpor

-tânciadatemporalidadecomodimensãofun

-damentaldaexistênciadohomemnomundo temsidosublinhadaporilósofosepensadores desdequeoHomemsepropôsrelectiracerca

desimesmo.Otempocomodimensãocate

-gorizável,objectivada,passíveldepercepçãoe medição,temsidoofocodediversosinvesti

-gadores.Nestalinha,otempocomoalgoque sesenteeseperceberemeteparaaquestãodo

órgão do tempo, esse sentido aparentemente órfão de especialização tecidual. Marc Witt

-mannfazumarevisãodosprincipaismodelos neurobiológicosparaaexperiênciadotempo, sublinhando,noprocesso,aescassezdeinves

-tigaçãonestedomínioeaimpossibilidadede chegarconclusõessólidas2.Contudo,esteau

-tor,realçandoarelaçãointrínsecaentreaper

-cepçãodoselfeotempo,sugerequeeventual

-mentearegiãoinsulardolobotemporal(área sensorialprimáriaparasinaisviscerais)pode

-ráparticiparnaexperiênciadapassagemdo tempo.Sendoumacondiçãoessencialàpró

-priadeiniçãodoSer,nãoseráestranhoconce

-berqueestadimensãopossaestarperturbada nosprincipaisquadrospsicopatológicos.A este propósitomerecerelevoaextensarevisãoque MartinWyllieefectuousobreotempo vivido

eapsicopatologia,numaperspectivafenome

-nológica3.Debruça‑se,particularmente,sobre

otempovividonasformasdeserdepressivas (nas suas diversas categorizações nosológi

-cas). João Marques‑Teixeira, num editorial recente,abordatambémavivênciadotempo nodeprimido,tendoemcontaopensamento deEugèneMinkowski4.Masaexploraçãodas

diversasdimensõesdotemponosquadrospsi

-copatológicos,sejapormétodosempíricosou fenomenológicos,nãoéumimemsimesmo: reveste‑sedeutilidadesdiversas.NassirGhae

-mirecordaqueaexploraçãofenomenológica datemporalidadenasperturbaçõesdohumor temcontribuídoparaumamelhorcompreen

-sãodosquadrospsicopatológicos5.Maisainda,

Ghaemisublinhaautilidadeclínicadestain

-formação,nãosónoqueconcerneàinterfa

-ceentreosritmoscircadianoseosepisódios de doença e sua terapêutica, como também quantoàpossibilidadedeintervir–empsico

-terapia–naformacomoatemporalidadese manifestanestasperturbações.

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humor, cursando tipicamente com expansi

-vidade associada a uma plêiade de sinais de incrementodeactividadeeexcitabilidadedas funçõespsíquicas.Nocontactocomosdoentes afectosdemaniasomosfrequentementecon

-frontadoscompistasdeumavivênciaeexpe

-riênciadistintasdotempo.Quandoinstadosa aguardaremunsminutosiram‑sefacilmente, invocando terem esperado uma eternidade. Poucotempodepoisdeosentrevistarmosso

-mos surpreendidos com um “Finalmente!” como aguardassem por uma audiência há longashoras.Mobilizam‑separatarefasher

-cúleas que pretendem completar em pouco tempo: pretendem escrever livros inteiros numanoite,revolucionaropensamentoilo

-sóicoempoucashoras,escreverumsoftware

inovadoraindaantesdojantar.

Oobjectivodapresenterevisãoselectivaéaten

-tarsobreasalteraçõesnotempo do mundoe

no tempo vividoqueseoperamnosquadros de perturbação do humor que cursam com mania,pretendendo‑seporestaviacontribuir paraacompreensãodosmesmos.

MÉTODOS

Os autores efectuam uma revisão selectiva sobreatemporalidadeemdoentesafectosde mania.Noqueconcerneainvestigaçõessobre adimensãocronométrica(tempodomundo), osautoresefectuaramumapesquisanaPub

-medcomasseguintespalavraschave:“time” E(“sense”OU”perception”OU”experience”) E(“mania”OU“affective”),sendoescolhidos artigosquerelevassemparaoobjectodoes

-tudo.Quandoàdimensãodotempoimplícito /vivido,osautorespesquisaramumnúmero

restritodeobrasconsideradasrelevantesnessa temática.Emambososcasosforamprocura

-das referências bibliográicas adicionais que surgissem citadas em artigos ou trabalhos obtidos.

A QUESTÃO DO TEMPO: TEMPORALI-DADE E AS SUAS DIMENSõES

Martin Heidegger (1889‑1976) ajuda‑nos a esclarecerapertinênciadotemaeoestadodo nossoconhecimentosobreele:“Continuamos perguntando: o que é o tempo? Pergunta‑se isso há 2500 anos e ainda não há resposta suiciente6”.Aquestãodanaturezadotempo,

umadasdimensõesfundamentaisdaexistên

-ciaquepermeiatodasascoisasetodosossig

-niicados, tem sido amplamente interrogada desdeaantiguidade.

NosSeminários de Zollikon, Martin Heide

-gger dedica várias conferências ao tempo6.

Partindo sobre a forma como interrogamos otempo,oilósofodepara‑secomanatureza pré‑dada do tempo: “Quando pergunto pela hora,perguntoquehorassão?Pergunto,pois, porumquanto,ouseja,poralgomedido.Em todaamedidadetempo,otempojádeveser pré‑dado6”.Naspalavrasdesteinvestigador,a

estrutura tripartida de cada instante tempo

-ral torna‑se igualmente clara: “Cadaagora

quedizemosésimultaneamente,também,um

acaba de eumlogo a seguir,istoé,otempo aquenosdirigimoscomonomedeagoratem emsiumlapso.Todoagoratemsi,também,

um acaba deeumlogo a seguir6.Contudo,

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Heideggerdescrevediversascaracterísticasdo tempo6.Aprimeiraéasuainterpretabilidade:

tem‑se sempre tempopara algo, sendo que estapertenceaotempoemsimesmoenãoa umqualqueractointencionaldosujeito.Uma outraéasuadatabilidade,queémais“ori

-ginal”eprecedeadataçãofornecidaporum qualquer calendário. O tempo possui ainda umcertograudeamplitude temporal(não éumponto)eumestado público,nosentido emquetodos–semsernecessáriaqualquer mediação–percebemosqueumdadoagoraé “percebidodirectamenteemcomumporcada umdospresentes”.

Masfalardetemporalidadenãoéfalardere

-lógios.Estessãomerosobjectoscomosquais nospodemosrelacionar.Aessepropósito,Hei

-degger‑nosSeminários‑exploraocasode umdoenteesquizofrénicoquehaviasidoapre

-sentadoporFranzFischer6.Ocasotinhasido

expostopor,segundoomédico,nãoapresentar nadadeespecial“paraalémdasperturbações dotempoepensamento”.Odoenteteriadito, aoobservarosponteirosdeumrelógiodepa

-rede:“Paraquemeserveorelógio?Tenhoque icarolhando‑o.(...)Senãohouvesserelógio naparedeteriadeperecer.Nãosoueumesmo umrelógio?”.Heideggerreclamaquesetrata

apenasdarelaçãodeumhomemcomumre

-lógio de parede, que no caso exposto não se trata“dotemponemdaestruturadotempo”, massomentedarelaçãocomumrelógio,um medidordetempo.Apropósitodesteexemplo, e de forma incidental, Heidegger chama a atençãoparaaimportânciadométodofeno

-menológico:“osfatosemquestãojásãomal interpretadosdeantemão(...)numainterpre

-tação,nãosetrataemprimeirolugardecomo

algodeveserexplicado,massimdeverosfa

-tosfenomenológicos”6.MedardBoss,names

-ma linha do exemplo citado por Heidegger, adiantaquetodososrelógioseartefactosde mediçãooudataçãodotemposervemapenas opropósitodemedirecalcularotempo,não sedebruçandosobreasuanatureza7.

No seu tratado de psicopatologia geral Karl Jaspers (1883 – 1969) estabelece primeiro a distinção entre oconhecimento do tempo e aexperiência dotempo.Enquantoqueopri

-meiroserelacionacomotempoobjectivo(i.e. otempodomundo)eanossacapacidadedeo avaliar,osegundoserefereaumaconsciência total do tempo,naqualaavaliaçãodadura

-çãodeumdadointervaloéapenasumaparte. Sublinhaaindaqueotempotemsempreum papelfundamentalnosprocessosisiológicos, nosprocessosderegulaçãocircadianae,tam

-bém,nosprocessospsicológicos.Aexperiência do tempo constitui umaexperiência básica de continuidade, sendo que contém em si tambémumelementodedirecção(futuroou passado)8.

RobertSokolowski,emIntroduction to Phe-nomenology, discorre sobre a estrutura da temporalidade9. Podemos distinguir três ní

-veisnessaarquitectura.Oprimeiro–o tem-po do mundo – (outempo transcendente ou objectivo)refere‑seaotempodoseventos domundo,épúblicoeveriicável(utilizando um relógio, por exemplo). O segundo nível –o tempo interno –(outempo imanente ou subjectivo)refere‑seàduraçãoesequên

-cia dos actos mentais ou experiên-cias, aos “eventosdavidaconsciente”.Umaactivida

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-tencional,épercebidocomoocorrendoantes, depoisouaomesmotempoqueumoutro.O indivíduotemconsciênciadasequênciades

-teseventosmasnãoosmedenasuaduração como o faria para cronometrar uma corri

-dadecavalos.Esteníveltemporaléprivado. Otempodomundoestánadependênciado tempoimanente,queéumacondiçãoneces

-sáriaparaordenarosactosintencionais:“a explicitação do tempo objectivo ocorre‑nos apenas porque possuímos tempo subjecti

-vo”9.Umterceironível–inaleabsolutoem

simesmo–equeécondiçãoparaaexistên

-ciadotempointerno‑refere‑seà consciên-cia do tempo imanente.Estaconsciência do tempo internoconstituiatemporalidadede tudooqueseapresentaàconsciênciae,con

-sequentemente,éocentrodetodasasformas detemporalidade(incluindo,porextensão,o tempodomundo).Otermopresente vivido

tem sido utilizado para signiicar a “expe

-riênciaimediatatotaldatemporalidade”que temosemcadainstanteequeécompostapor trêscomponentesinseparáveis:aimpressão primordial,aretençãoeaprotensão.Are

-tenção“retém”opresente vividoqueacabou de ser experienciado, i.e., a experiência da temporalidadedoqueacaboudeservivido.A protensãoéoreverso,orientadaparaofutu

-ro,fornecendoaimpressãoquealgoseapro

-ximadopresentevivido.Aprotensão“abrea dimensão do futuro” e permite a antecipa

-ção.Dereferirqueestesconceitossãomais elementares que a memória: eles precedem a memória e fornecem a abertura original danossaexperiênciaaofuturoeaopassado. Uma vez que cada instante é dotado destas trêscomponentes,otempoévividocomoum

luxocontínuoenãocomoumasequênciade momentosisolados.

Adverte‑se,contudo,queestadivisão(ouqual

-queroutra)dosaspectostemporaisnãoénem consensualnemlivredecríticas.MedardBoss, aestepropósito,lembra:“Falamosnestesdias (...)de«sensaçãodetempo»ousensaçãodo tempo,de«experiênciadotempo»,de«cons

-ciênciadotempo»(…)bemcomoasdistin

-çõescomunsquesãofeitasentretemposub

-jectivoeobjectivo,tempodomundoetempo doego,tempomedidoetempoexperienciado, tempoquantitativoetempoqualitativo(…) tudo suportado em (…) pressuposições não explicadasnemprovadassobreanaturezado homemedasuarelaçãocomotempo”7.

Boss,noseuopusExistential Foundations of Medicine and Psychology,deineatempora

-lidadedaexistênciacomoumadascaracterís

-ticasfundamentaisdoserhumano7.A“tempo

-ralidadeoriginal”dohomemédadapelasua relaçãosigniicantecomascoisase,comotal, édessatemporalidadequesucedeotempodo relógio,quesóéexistencialmentesigniicante sedecorrerdessatemporalidadeoriginal10.Em

cadamomentooHomemcongregaopassado, opresenteeofuturodeumamaneiraúnica: “produzimoseformamosaestruturamomen

-tâneadotempo”eaexistênciadecadaSerno mundo “signiica estendermo‑nos simulta

-neamenteparaastrêsdimensões(...)dopas

-sado,presenteefuturo”.Contudo,airmaBoss, “poderemosmesmoicarpresosnumadastrês [dimensões]”, estabelecendo‑se a possibili

-dade da perturbação desta dimensão funda

-mental7.Éprecisamentesobreaperturbação

(6)

NOTAS SOBRE A TEMPORALIDADE EM MANUAIS DE PSICOPATOLOGIA

Alguns manuais de psicopatologia abordam aquestãodatemporalidadenamania,ainda que não sejam inteiramente concordantes. NaPsicopatologia Clínica de Fish o doente maníacoédescritocomoexperienciandoque o“temposeacelera”eque“osdiasnãosão suicientementelongos”paraexecutarami

-ríadedeprojectosqueseatribui11.Navigência

daelaçãopatológicadohumor“otempovoa”. Já na obra de Andrew Sims, às perturbações dotemposãodedicadasmaispalavras12. Sims

diferenciaentreo“tempodorelógio”–cro

-nológico,físicoouhistórico–eo“tempopes

-soal”–quedecorredaexperiênciadotempo naexistênciaconcretadoindivíduo,sublinha

-doqueambospodemserperturbados.Mesmo em circunstâncias normais, um estado de maiorfelicidadefazcomqueo“tempocorra excessivamente rápido”. No caso da pertur

-baçãomaníaca,odoentesente“queotempo exterior”estáasucederdeformamaislenta, oquegeralmenteestáassociadoaumasensa

-çãodeaumentodavelocidadedopensamento eraciocínio.Nalgunscasosdemaniapoderá ocorrer ainda a sensação de que o tempo se suspendeu, em particular nos estados de êx

-tase,noqual“apessoapodesentirqueestáa existirnopassado,nopresenteenofuturoao mesmotempo”.Nomanualdepsicopatologia deScharfetteraeuforiamaníacaéapontada como um dos contextos onde decorre uma “vivência da aceleração do tempo”13. Na In-trodução à Psicopatologia GeraldeCarvalho Teixeiraéfeitaumadivisãodasalteraçõestal comoestasperturbamotempovivido14.Noses

-tadosmaníacospodemosencontrar taquicro-nia(vivênciadeaceleraçãodotempovivido; “aextensãosubjectivaqueéexperimentadaé menordoqueaobjectiva”)eumpredomínio dotempo presente(em“desfavordasdimen

-sõesdopassadoedofuturo”),respectivamente alteraçõesdavivênciadaduraçãodotempoe dascategoriasdotempovivido.

A ExPERIêNCIA DO TEMPO DO MUN-DO: DIMENSÃO CRONOMÉTRICA DA MANIA

Existe um reduzido número de investigações empíricas sobre a dimensão cronométrica (tempo do mundo)destasperturbações.Para alémdisso,temexistidoalgumaconfusãode conceitosetermosqueimportaclariicar.Se

-guimosaquiadesignaçãopropostaporBschor ecolaboradores15.Umadasdimensõesestuda

-daséaexperiência temporal subjectiva,que avaliaapercepçãoqueoindivíduotemsobre oluirdotempo,sendogeralmenteavaliada subjectivamente pelo próprio ou através do usoescalas.Jáojulgamento ou juízo tem-poral refere‑se à capacidade mensurável ob

-jectivadeavaliaraquantidadedetempoque decorreu num determinado intervalo, sendo avaliadaporprovasdeestimação(épergun

-tadoaosujeitoquantotempodecorreu)oude

produção (é pedido ao sujeito que produza umintervalodetempocomumacertadura

-ção).

Umdosprimeirosestudosfoiorealizadopor MezeyeKnight,envolvendo14doenteshipo

-maníacos16. Embora à luz dos critérios cien

-tíicos modernos o trabalho padeça de algu

(7)

de diagnóstico utilizados) os seus métodos e achadosestabeleceramumimportanteponto de partida. Nesta investigação os doentes hi

-pomaníacosexperienciavam o tempo como

passandorápidooumuitorápidoesobreava

-liavamotempodecorrido,tantoemtarefasde

estimação como nas deprodução (quando comparadoscomre‑testeapósmelhoriaecom doentescomperturbaçãodepressiva).Quando inquiridosparaavaliarperíodosmaislongos detempo(aduraçãodaentrevistaetodosos testes aplicados) os doentes hipomaníacos subestimaram a duração, mais ainda que doentesdepressivoseosmesmosdoentesem recuperação,umachadoquenãovoltouaser replicadoatéhoje.Osautoresconcluemque a sua hipótese – da existência de um assin

-cronismotemporalentreotempo pessoal eo

tempo do relógio ‑icavaconirmada. Tysk, num estudo controlado envolvendo 11 doentescomhipomaniaoumania(DSM‑III), conirmou a sobrestimação da passagem do tempo, embora esse efeito se dissipasse para intervalosmaislongos17.

Oestudocommaiorespreocupaçõesmetodoló

-gicaseamostrademaiordimensãorealizado atéhojefoiexecutadoporBschorecolabora

-dores,envolvendo93indivíduos,incluindo30 doentesmaníacos(critériosDSM‑IVcompon

-tuação≥15naescalademaniadeBechRafael

-sen)15.Nesteestudoaexperiênciadapassagem

do tempo foi avaliada por uma escala visual analógicaeojulgamentotemporalutilizando umaaplicaçãoinformática.Osdoentesmanía

-cosreportaramterexperienciado queotempo estavaacelerado(resultadossigniicativos ver-susdepressivos–queoexperienciavamlentii

-cado–econtrolos).Quantoaojulgamentoda

passagemdetempo,tantonasprovasdeestima

-çãocomonasdeproduçãoosdoentesmanía

-cossobrestimaramaduração.Curiosamenteos doentes deprimidos também sobrestimaram o tempo,aindaquedeformamenosintensaque osmaníacosesódeformaestatisticamentesig

-niicativanasprovasdeprodução(osdoentes maníacostinhamresultadossigniicativosnas duasprovas).

Num estudo realizado em 2008, dirigido ex

-clusivamenteparaprovasdereproduçãotem

-poral (há lugar a uma re‑produção de um período temporal previamente testemunha

-do), foram testados 90 indivíduos, incluindo 30 doentes maníacos (critérios DSM‑IV com pontuação≥15naescalademaniadeBech Rafaelsen)paraintervalosde1,6e37segun

-dos18.Oracionalparaofoconasprovasdere -produção prende‑se com o pressuposto que estas, ao contrário das provas de estimação e produção clássicas, se centram no compo

-nentemnésicodapercepçãotemporaleserão menosafectadasporperturbaçõesnosmarca ‑passostemporaisdeacordocomaSTT( Sca-lar Timing Theory)19.Osintervalosreprodu

-zidos pelos doentes maníacos foram sempre inferioresaosdoentesdeprimidos(masequi

-valentesaogrupocontrolonosintervalosde1 e6s),sendoquesubestimaramaduraçãodo intervalolongo(37s)mesmoversuscontrolo. De forma inversa, os doentes com depressão sobrestimaramointervalode6seestimaram correctamenteointervalode37s.Osautores concluem, após apontarem algumas limita

-çõesdoestudo,queestamemóriaqueosinter

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percepção temporal que habitualmente são encontradasnasperturbaçõesafectivas. Maisrecentemente,Zhaoecolaboradoresre

-plicaramasubestimaçãodapassagemdotem

-poemdoentesmaníacos,utilizandoprovasde re‑produção20. Nos 22 doentes com mania

testadosasubestimaçãoestavainversamente correlacionada com a gravidade do quadro clínico(avaliadopelaescalademaniadeBech Rafaelsen),oquenãotinhasidoencontrado nosestudosdeMahlberg(2008)oudeBschor (2004).

INvESTIGAÇõES FENOMENOLÓGICAS SOBRE A vIvêNCIA DO TEMPO NA MANIA

OsconceitosdeHenriBergsonsobreotempo viriamacontribuirdecisivamenteparapers

-pectivasdediversosfenomenologistas.Nasua obraTime and Free Will: an Essay on the Immediate Data of Consciousness, Bergson discorre sobre o conceito deduração21. Esta

apresenta‑secomoocorrerdotempo,unoe interpenetrado, indivisível, “uma multiplici

-dadequalitativa,semparecençacomumnú

-mero(…)osmomentosdeduraçãointerna nãosãoexternosunsaosoutros”.Paraeste ilósofo“[existe] fora de nós uma externali

-dademútuasemsucessão;dentrodenósuma sucessãosemexternalidademútua”.Éacons

-ciência, portanto, que “introduz a sucessão [temporal] nas coisas externas”. Esta “ideia do tempo mensurável” surge através de um “compromisso entre as ideias de sucessão e de externalidade”. Para Bergson estetempo espacializado,“é espaço na medida em que éumahomogeneidadeeduraçãonamedida emqueéumasucessão”,merecejustacrítica

porser“umaideiacontraditóriadesucessão nasimultaneidade”.Oconceitodeduração de Bergson, uma dimensão qualitativa de uma experiência de continuidade temporal, asse

-melha‑seaoconceitodetempo vividopropos

-tomaistardeporMinkowski.

EUGèNE MINkOwSkI

Defendendo que a aplicação “dos dados ge

-raisdotempoaosfactospsicopatológicosnão apenas os não degradam de forma alguma como, pelo contrário, os torna fecundos, os animadeumavidanova”,EugèneMinkowski (1885‑1972)debruça‑sesobreoestudofeno

-menológicodotemponapsicopatologia22.De

formaapermitirumacompreensãodasideias deMinkowski,poderáserbenéicorevisitaral

-gunsconceitos.Paraestemédicoeilósofo,o tempo–“umamassaluida,esseoceanoem movimento,misterioso,grandiosoepoderoso” –édesignadopordevenir22.Otempoapresen

-ta‑se“próximodenós”,comoum“fenómeno primitivo”,sendosinónimo“davida”.Nasen

-da dos conceitos introduzidos por Bergson e porHusserl,Minkowskipugnapelaideiaque “existir signiica viver o tempo”23 e, na sua

obraLe temps vécu, sublinha primeiramen

-teadiferençaentreotemponaperspectivade usocorrente,como«medida,distância,inter

-valos»,numaaplicaçãosemelhanteàsmedi

-dasqueutilizamosparaoespaço,eotempo vivido22.Enquantooprimeiro,otempomen

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-ras,adistânciaqueosseparaunsdosoutros», o segundo refere‑se ao“tempo qualidade ou tempovivido”,umtempovividonaintrospec

-ção,comoapareceàconsciência22.Deixando

departeoprimeiroporconstituiruma“base demasiadoestreita”,Minkowskiprocedepara

o tempo vivido.Estetempo‑qualidadeévivi

-donaintrospecção,talequalcomoaparece àconsciência,nãosereduzindoàsdimensões espaciaismensuráveis23.Noestudodeste tem-po vivido,Minkowskiabordouassuasdiver

-sasdimensões,incluindoopresente eoagora,

o futuro, opassado, aactividade e espera,

o desejo e aesperança, e ainda aprece e a

acção ética, cujo desenvolvimento excede o âmbitodestetrabalho.

O presente não surge naturalmente, antes é umaproduçãododevenir,eincluiemsimes -mo o agora (momentâneo).Esteé“pontual”, nelenãoobservam“fenómenosdeduraçãoou sucessão”, constituindo o “último momento dopassadoeoprimeiromomentodofuturo”. Opassadoeofuturosãounidospelopresente, que se caracteriza pela“duração, sucessão e continuidade”,nãosendoportantonemnum ponto nem tendo limites claramente deini

-dos23.Esteautorpropõeduasinstânciasentre

otempoeespaço,quevãoescalonarosfenó

-menostemporo‑espaciaisnavida:aduraçãoe asucessão vividaseacontinuidade vivida22.

Olaçoqueligaprecisamenteestesdoisníveis designou‑oporprincípio da implantação.

Para Minkowski, nas psicoses afectivas – in

-cluindo‑se aqui os estados de excitação ma

-níaca–existemalteraçõesnas“propriedades estruturais e formais da sintonia”22. A sinto

-niacontémelaprópriaumfactordeduração vividae,noseucurso,exibeum“elementode

harmonia,deritmoigual”entreodevenirdo Euedoambiente–odesignadosincronismo vivido.Poroposiçãoaodoenteesquizofrénico, omaníacomantémcontactocomarealida

-de. Contudo, assevera Minkowski, é um con

-tacto“unicamenteinstantâneo”,faltando‑lhe apenetração na realidade, não possuindo a

duração vividanelemesmo,ouseja,aoma

-níacofalta‑lheaimplantação no tempo22 no agora (momentâneo)queviveomaníaco eéprecisamenteaíondecomeçaeterminao seucontactocomomundo.Nomaníaco“não há mais presente (...) não há qualquer im

-plantaçãonotempo”,vivendoumaverdadeira “subducçãonotempo”.Deumaformaremi

-niscentedasobservaçõesdeLudwigBinswan

-ger, Minkowski – exempliicando com uma descriçãoclínicadeKraepelin–referequea perturbaçãodopensamento,afugadeideias, adistractibilidade,ojogodepalavras,enim, as diversas manifestações da síndrome ma

-níaca,“traduzem (...) a retracção particular quesofre(...)ocontactovitalcomarealida

-de”.Essaretracção do contacto,quesetorna supericial, torna o doente num joguete do

agora,queestásujeitoaumamutaçãocons

-tante22.O“livrejogodopresente”estáprejudi

-cadonomaníaco.

LESTON HAvENS

OmédicopsiquiatraLestonHavens,quepug

-nouporumavisãomaisintegrativanodomí

-niodaspsicoterapias,abordouatemáticado encontrar o outro nas dimensões do tempo e do espaço na sua obraMaking Contact24.

(10)

-riênciadotempopoderáicarperturbada.Na ausênciadepsicopatologia“umapessoa(...) experiencia‑se a si próprio como crescendo em direcção ao futuro”. Esta orientação em relação ao futuro, o qual nunca se atinge e seconstituicomoumlugarde“antecipação, do inesperado, do planeamento e do mudar deplanos”,tambémsigniicaaexistênciade “umpassadoluidoounãoixo,umavezque opassadoestácontinuamenteaserreavaliado à medida que nos movemos em direcção ao futuro”.Abordandodirectamenteapsicopato

-logia,Havensdebruça‑sesobreamania.Nesta, ao contrário da depressão (onde o futuro se perdeeopassadoseixanumponto),opas

-sado“perde‑se, à medida que ele [o sujeito] seprojectadeformamaníacaemdirecçãoa um futuro irreal. São feitas listas de forma a ocupar e controlar o futuro antes que ele aconteça.Aantecipaçãotorna‑seumadoença quandoopresentesefundecomofuturo:não existemaisnadanopresentequeestefuturar

(...)opresentedesapareceudentrodofuturo”.

LUDwIG BINSwANGER

LudwigBinswanger,nasuaobraMelancholie und Manie (1960),debruça‑sesobreoestudo fenomenológicodestasduasformasdeexistên

-cia,atentandotambémsobreaperturbaçãoda temporalidadequenestasocorrem25.Embora

admitindo que, ao contrário da melancolia, nãoexistirianamaniaum“iocondutor”tão claroparaainvestigaçãodapresençafrustra

-dadoDasein,Binswangerpropõe‑seainves

-tigarquaisosmomentosfrustradosnaestru

-turaintencionaldaobjectividadetemporalda mania. Partindo da análise do caso de Elsa

Strauss como exemplo, Binswanger airma queesta“vivenamaniasomentenaspresen

-çasisoladas”i.e.,sem“possibilidadedeorde

-narestaspresençasnumcontinuumdabio

-graiainterna”.Aretençãoeaprotensãoestão ausentes‑“vivedeinstanteeminstante”ou “nãovivesenãoparaoinstante”.Asalterações naestruturaintencionaldaobjectividadetem

-poralocorremporcausadaausênciadosmo

-mentosretentivoseprotentivos25.Apropósito

daanálisedocasodoDr.Ambühl,Binswanger apontaparaaexistênciaumafalha na estru-tura intencional da constituição temporal

doEgo.Defacto,propõequenabasedasal

-teraçõesdopensamentonamaniae,portanto, nabasedafugadeideias,encontramosuma alteração da experiência temporal. Este fun

-damentoéigualmenteválidoparaafalhada apresentação do outro. Se habitualmente se veriica um “predomínio das apresentações sobre as presenças actuais”, no maníaco as

apresentações biográicas secundarizam‑se totalmenteperanteas“apresentaçõesactuais oumomentâneas”.Estasobservaçõesremon

-tamparaoconceitohusserlianode“unidade imanentedatemporalidadedoviver”.Nocaso damania,emcadaconsciênciavivida–aqui isoladanasuapassagemtemporal–háuma perturbaçãodessaunidadeimanentedatem

-poralidade. O Dr. Ambühl, médico cirurgião respeitado,benfeitoretidocomoíntegro,no contextodeumacessomaníacotorna‑se“ti

-rano”, proferindo “conferências” interminá

-veis aos seus empregados, transformando a organizaçãodomésticanumcaos.Binswanger sublinhaqueadecisãodeproferirumaconfe

(11)

pelabiograia”enãotemigualmenteconse

-quências biográicas. Voltando aos conceitos de Husserl, a conferência“não está fundada porumasériederetenções”enãoésenãova

-gamente determinada“por um horizonte de protensões”. A conferência deve a sua emer

-gência apenas à simples aparição de uma ideiameramentepresente,situadadeforade todoocontextobiográico,nãosendoapoia

-daemnenhumaexperiênciatemporal.Todas asapresentaçõessãodeitadasforaeháuma rupturado“iocondutor”em“inúmerosfrag

-mentosseparadosouisolados”25.Binswanger

fala mesmo na “desaparição da articulação temporal intencional”, com perda dos ios condutores da estrutura da objectividade temporal,istoé,daretençãoedaprotensão. Esta“alteraçãonaestruturadaobjectividade temporal”,segundoBinswanger,manifesta‑se de duas maneiras. Por um lado há um“de

-feito na continuidade do sentido e do curso do pensamento” e por outro há um“defeito na continuidade da apresentação”, ou seja, háumdefeitonasapresentações“ancoradas biograicamente” (habituais, no sentido de Husserl)25.Afalhadaconstituiçãotemporalna

maniatraduz‑senumafrouxamentodaestru

-turatemporaldo“mundopróprioouprimor

-dialdoEgo”,ocorrendoumdesaparecimento dos momentos transcendentais retentivos e protentivos, reduzindo‑se as apresentações habituais, substituídas por uma pura actua

-lidade. Por outras palavras, o maníaco vive somente“paraoinstante”25.Assim,naforma

deexistênciamaníacao“temposeencurta”e o“ritmodovividoérápido”.Binswangerfala mesmodeuma“formadeexistênciasaltitan

-teouescorregadia”ou,comosereferenoutro

localdamesmaobra,oDaseindotipodafuga deideiaspodesercaracterizadocomoum Da-sein“saltitante”ou“balouçante”25.

Na primeira conferência de Lexington dedi

-cadaàfenomenologia,organizadaporErwin Strausecujostrabalhosforampublicadosem 1964, Ludwig Binswanger proferiu uma co

-municaçãoondeabordouomodomaníacode ser‑no‑mundo26.Nadescriçãodessemodopar

-ticular,Binswangerdedicoualgumtemposo

-breaformacomoarelaçãocomotempoestá perturbada. “Em contraste com uma pessoa realmenteocupadaquetemsempretempo,o maníacodesperdiçaoseutempo,nãoseocu

-pandoverdadeiramente”.Paraesteautor,uma vezqueparaomaníacotudoestáàsuadispo

-sição para agarrar e usar,“tudo é imediata

-menteapropriadoeutilizado”sem“distância, atrasosouespera”,então“elevivequaseintei

-ramentenopresentee,decertaforma,ainda nopassado,masjánãonofuturo”.Umavez quetodasascoisasetodasaspessoasestãoao seualcanceeimediatamentedisponíveis,não háfuturo,nãohádistância,“tudoéjogadono presente,nomeroaquieagora”.Estanoçãode imediatismonasatisfaçãoeutilizaçãotempa

-ralelocomospressupostosdadessincroniza

-çãocomodescritaporThomasFuchs,adiante elaborada.Estemododesermaníaco,presen

-tiicado, impede a“comunicação existencial, qualquer entendimento entre ser humano e serhumanoéimpossível”,nosentidoemque um acordo “implica uma nota promissória desenhada no futuro”, função essa que aqui estáprejudicada.ParaBinswangeromaníaco, deformasemelhanteaodeprimido,“vivepu

(12)

MEDARD BOSS: PERTURBAÇÃO NA CON CRETIzAÇÃO DA DISPOSIÇÃO AFEC TIvA

Tendopresentequeparaesteautor–doponto devistaexistencial–asperturbaçõesdohu

-mor decorrem necessariamente de um fun-damental – adisposição ou sintonização afectiva – que modula as possibilidades de abertura ou restrição para os sentimentos, emoções,afectosehumoremcadaexistência concreta,énestaperspectivaqueBossexpla

-nouaformaconcretacomoessaperturbação podeterlugarnamania7.“Apercepçãodestes

doentesestátãoseveramenterestringidaque emcadacoisaqueencontramnãovêemsenão umúnicosigniicado:tudoserelacionacom elesapenascomoumacoisaaserdominada eengolida”7.Aperturbaçãodatemporalidade

estárelacionadacomaprocuraincessantede novos objectos. A pessoa maníaca “perde‑se asiprópriaeaosseresdoseumundonuma espiralestonteantedeagarrarqualquercoisa quevenhanasuadirecção”.Concretizandoa vivência temporal, Boss refere‑se a um “re

-moinhoquevarretodooseupassadoefuturo para o instante presente”, de forma a que a existênciadomomentosetornadesproporcio

-nadamenteimportante.

THOMAS FUCHS: DESSINCRONIzAÇÃO, TEMPO IMPLÍCITO E ExPLÍCITO

Thomas Fuchs desenvolveu a temática do temponapsicopatologiatendocomobaseos conceitosdetemporalidadeimplícitaeexplí

-citaedasuadessincronização27-29.Nabaseda

experiênciatemporal(edaprópriaconsciên

-cia)estaráadelimitaçãodoindivíduodoseu meioambiente.Aocontráriodasplantas,que vivem em troca imediata e constante com o seuambiente–semdiscrepânciastemporais –osanimaisexperienciamlapsosentreasne

-cessidadeseasuasatisfação.Este“estaràpro

-curadealgo”constituiodiferencialtemporal primordial.Éapartirdesteconceitoisiológi

-coqueFuchsparteparaaanálisedatempo

-ralidade.Otempo implícito ou tempo vivido

refere‑se“aomovimentodavidaelaprópria”, éomododetemporalidadepré‑relexivaque preenchetodaanossaexperiênciasempreque estamosenvolvidosnumaactividade,quenão se projecta nem no passado nem no futuro. Naspalavrasdesteautor,nestamodalidade“o sentidodotempoéperdido”numasequência luidadeactividades,comoumacriançaque, “brincandocomosseusbrinquedos”,nãoex

-periencia a passagem do tempo. Já otempo explícito ou tempo experienciadoéamoda

-lidade que se impõe sobre o modo implícito semprequearelaçãocomumdadoobjectoé perturbadaporalgoexterno.Nessesmomen

-toso“continuumintemporal”queéotempo implícito é interrompido. Estaperturbação ou negação origina experiências de “ainda não”ede“jánão”.Estasexperiênciasexplí

-citasdotemposãoacompanhadasdealguns estados emocionais especíicos. As experiên

-ciasde“aindanão”,referentesaofuturo,ge

-radorasdeumatensãoapetitiva,vividascomo uma“perseguiçãodealgo”,sãoacompanha

-dasdedesejo,impaciência,esperançaouân

-sia, enquanto que as de“já não”, referentes ao passado lembrado, são acompanhadas de remorso,lutoouarrependimento.Otempoex

(13)

passadoefuturo.Assim,Fuchssublinhaque a experiência desta modalidade explícita do tempo contém frequentemente um elemento de“desconfortoousofrimento”.Arelaçãodes

-tasformasdetemporalidadeestáassociadaà experiênciadocorpovividoedocorpoobjec

-tivo.Emboraescapandoumpoucoaoâmbi

-todesteartigo,seráinteressanterealçarque, para este autor, a temporalidade implícita é praticamentesinónimadavivênciasubjectiva docorpo,istoé,docorpocomo“meiotácito” paraasactividades.Estarelaçãoexplicaque, quandoadoecemos,“experienciamosonosso corpocomoumobjectoouobstáculo”muitas vezesassociadoaumadesaceleraçãodotem

-po,enquantoque“quantomaisestamosen

-volvidosnasnossastarefasmaisnosesquece

-mosdotempoetambémdocorpo”29.Thomas

Mann,emA Montanha Mágica,expõeadmi

-ravelmenteestarelação,nomomentoemque HansCastorp,sentindo‑seadoecer,confundeo ritmodassuaspalpitaçõescomodeummero batermecânicoprovenientedoseuespaçoex

-terior30.Finalmente,parapodercompreender

apsicopatologianasuatemporalidade,Fuchs refere‑seaoconceitodetemporalidade inter-subjectiva.Paraesteautor,encontramosnos organismosbiológicosumaadaptaçãocontí

-nuaentretemporizadoresouritmosendóge

-noseexógenos.Estasincronizaçãocomosrit

-mosexternosafectaigualmentearelaçãocom o seu“ambiente social”, entre o seu próprio tempoeotempodomundo.Todooprocesso dedesenvolvimentoeaprópriasociedadees

-tãorepletosdetemporizadoresede“processos de sincronização” mais ou menos explícitos (e.g. rotinas diárias, horários, pontualidade, transições biográicas), existindo igualmente

processosdesincronizaçãotemporaldoqual nãoestamosgeralmenteconscientesqueFu

-chsdesignadecontemporalidadebásica.Esta coordenação temporal, contudo, não está sempreainadaepassapordiversasfasesde dessincronização,quepodemservividascomo umestando“demasiadotarde”ou“demasia

-docedo”ou,poroutraspalavras,umalentii

-caçãoouaceleraçãodotempopessoalrelativo aosprocessossociais.Asexperiênciasdedes

-sincronizaçãodotempointersubjectivopodem servividasdeformadesagradável.

Abordandoagoraaexperiênciadotempona mania,Fuchsreferequeexisteuma“acelera

-çãodotempopessoal”emrelaçãoaoambiente equeestapoderáservividacomo“impaciên

-cia,pressãoouagitaçãodisfórica”,quepode decorrernanecessidadedeespera.Alternati

-vamente, pode originarenfado, realçando a discrepânciaentreaspossibilidadesdeacção eosestímulosexternos.Nocasodeexcitação maníaca esta discrepância origina inquieta

-çãoeagitação.Sónamaniaeufórica,avança Fuchs, é que esta assincronia entre o tempo pessoalesocialnãoévividodeformadescon

-fortável28,29.

DISCUSSÃO E CONCLUSõES

A clariicação das perturbações da tempora

-lidade poderá contribuir para uma melhor compreensãodasalteraçõesdocomportamen

-to ou da mundivisão da forma de existência maníaca(QuadroI).Odoentemaníacovive numperpétuoagora,nummundoondetudo estáimediatamenteacessível(semesperaou pedido),numpresentequeperdeuassuasli

(14)

otempocomocorrendomaisrápido.Compa

-randocomaexperiênciadealguémqueestá adequadamente exaltado com a sucessão de determinados acontecimentos, onde poderá igualmente existir uma experiência de ace

-leração temporária da passagem do tempo explícito, é habitual veriicar‑se, recorrendo

àexperiênciaesensocomum,umadilatação temporal na reprodução mnésica do vivido. Paraalémdisso,nãoseveriicaqualquerrup

-turanaimplantação no tempoounainser

-ção do vivido nahistoricidade do indivíduo, marcas da mania na perturbação do tempo vivido.

Quadro I: SinopsedasPerturbaçãodaTemporalidadenaMania.

Perturbações no tempo do mundo (explícito)

Experiênciadequeotempodomundopassarápido,muitorápidoouestáacelerado; sobrestimaçãodapassagemdotempo(sejaemprovasdeestimaçãooure/produção)

Perturbações no tempo vivido (implícito) Eugène

Minkowski Alteraçãodaspropriedadesestruturaiseformaisdasintonia;mantémumcontactounicamenteinstantâneocomarealidade(retracçãodocontacto, quesetornasupericial),faltando‑lheaimplantaçãonotempo(nãopossui duraçãovivida);torna‑senumjoguetedoagora(momentâneo)

Leston

Havens Futuroeopresentefundem‑se;nadamaisexistenopresentedoqueumfuturar permanente Ludwig

Binswanger Falhadaconstituiçãotemporalcomdesaparecimentodos momentostranscendentais retentivoseprotentivos

Oritmodovividoérápido;viveno presenteeimediatismo;tudoestánoaqui eagoraparaasatisfação,nãoexistindo distâncianemfuturo,viveparaoinstante, ahistoricamente

Medard

Boss

Perturbaçãodadisposiçãoafectiva

fundamental Opassadoefuturoconcentram‑senoinstantepresente.Aexistênciado momentotomaumaimportância desproporcionada

Thomas

Fuchs Falênciadosprocessosdesincronizaçãotemporal,levando aumades‑sincronização(atéà assincronia)

(15)

A investigação da temporalidade nas perturba

-çõesafectivaspoderácontribuirparaoestudodas variáveiscircadianas,umcampocompossíveis implicaçõesnaisiopatologiaetratamentodestas perturbações31.Maisainda,acompreensão(na

medidaemqueestabelecerelaçõesdesigniica

-do)doqueocorreunaqueledoentemaníacoem concretopoderáresultarembenefíciodarelação médico‑doente ou terapeuta‑cliente e, por essa via, facilitar todas as intervenções que nela se suportam,nomeadamenteadapsico‑educação. Umalimitaçãofundamentalnasinvestigações fenomenológicassobreotempovividorealiza

-dasatéagora(sejanamelancoliaounama

-nia) é a inconstância nas próprias categorias edeiniçõesdosepisódiospsicopatológicos.No campo das perturbações afectivas, particular

-mentenaperturbaçãobipolar,tem‑seassistido nasúltimasdécadasaumaautênticarevolução namaneiracomosãoconceptualizadososepi

-sódiosafectivosecomosãovaloradosossinaise sintomaspesquisados.Concretamente,anoção de espectro bipolar, incluindo muitas formas de episódios previamente classiicados como unipolares,temevidenciadoumpesocadavez maior para os chamados episódios mistos32.

Poder‑se‑ia pensar que as investigações feno

-menológicas–incluindoaquelassobreotempo vivido–teriamqueserrevistasoutalvezmes

-mo abandonadas, co-mo se tivessem perdido utilidade.Contudo,éimportanterecordarque ométodofenomenológicoaplicadonessasin

-vestigações,aindaquelimitadoàscategoriza

-ções pressupostas (i.e. o que previamente era consideradoumepisódiomaníaco),nãoperde asuaeicácianoestudodofenómenoconcreto e portanto o seu resultado permaneceria útil nacompreensãodoepisódiomaníaco.Ghaemi,

namesmalinha,reconhecendoqueosestados mistos afectivos serão mais frequentes que as formaspurasdedepressãooumania,mantém queexistemcaracterísticasqueasdiferem,in

-cluindo a experiência do tempo5. Será impor

-tante, contudo, que venham a ser efectuadas investigações fenomenológicas sobre o tempo vivido nas categorias renovadas de episódios mistos.Asmesmasconsideraçõesseaplicamao estudodaexperiênciadotempodomundo.

Conlitos de Interesse / Conlicting Interests:

Osautoresdeclaramnãoternenhumconlitode interessesrelativamenteaopresenteartigo.

The authors have declared no competing inter-ests exist.

Fontes de Financiamento / Funding:

Não existiram fontes externas de inanciamento paraarealizaçãodesteartigo.

The author have declared no external funding was received for this study.

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Referências

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