Linhares Filho (Para Bella fozef, que nos propôs esse tema)
1.1 Encontro do literário cotn o ontológico
Mostram a filosofia e a ciência que o prazer carnal e/ ou es
piritual é a mola do mundo e da vida. Prazer é o incentivo que a
natureza concede ao homem para a conservação da espécie e, como
tal,
relaciona-se intrinsecamente com toda criação e constitui a base
da Ontologia. Revela o ser do homem e instaura a realidade. As
sim,
quanto maior for a capacidade de prazer de um ente, mais
ele transita para o Ser, alcançando a plenitude dinâmica do estar
no-mundo.
/
E pelo prazer que a vontade de sobrevivência do mais forte,
como energia vital, determinou e determina a evolução biológica;
é a vontade de prazer que sempre se realiza quando os super
homens de Nietzsche exercem o poder; e, embora nunca se reali
ze o prazer segundo o pessimismo de Schopenhauer, a filosofia
deste indigita o mesmo prazer como centralizador da
problemáti-/
ca
v
ital
.
E o prazer que, como renúncia
ou
negação da dor,
essen-cialmente se busca no epicurismo, e o budismo é todo uma prepa
ração para a fruição do prazer supremo do nirvana. Freud e
Marcuse denunciam a repressão do prazer, o primeiro com uma
visão
psicológica ou psicanalítica, o outro a subordinar o psicoló
gico ao
soc
iológico; Georges Bataille concebe o prazer como uma
experiência individual, incomunicável, mística, feita de solidão e
silêncio, experiência com que se supera o interdito e se assegura a
continuidade do ser
.
Huizinga subentende o prazer no jogo como.
213-�-. ---�;
-> ...\-.._
. .. ...
elemento da cultura. E vem de Ar
is
tóte
l
es
o pr
ess
upo
sto de que a
mimese acarreta o prazer, ela qu
e é, na obra de arte, imitação cria
tiva ou desrealização, exa
cerbando
-se em catarse, que é uma puri
ficação, um extravasamento, "a plenitude da desrealização para a
realização da literariedade"1 na palavra de Eduardo Portella.
.
Assim como, para a criação de um ser, no plano físico,
0prazer é móvel de ação, assim também ocorre na mimese, em que,
usando-se definição de Heidegger, "o Ser é fundado pelo pen
sar"2: ora, é a necessidade de prazer, isto é, da plenitude existen
cial, que leva o homem à imaginação criativa para que se instaure
o Ser. Mesmo que a matéria da arte seja a dor, é sempre o prazer o
seu resultado tanto para o emissor como para o receptor da obra
artística, pois que, embora esta faça sofrer, consola e encanta.
Amimese sublinha o êxtase ou traz a evasão; comove, transcende,
plenifica o Ser. Compreendendo esse relacionamento entre o pra
zer e a mimese é que escreve Eduardo Portella: "Para além do
racional e do irracional, da lucidez e da loucura, as funções lúdicas
instauram o mito e a poesia."3
Essa interação da mimese com o prazer como instauradora
da realidade recebe o apoio de Heidegger, filósofo da Ontologia,
quando admite que, para a estética, "arte é a expressão do belo,
entendido como aquilo que agrada por dar prazer."4 E acrescenta
que "De fato, porém, a arte é a abertura do Ser do ente."5 Essa
abertura equivale à da ambigüidade mimética, para que da reali
dade aparente se funda a verdadeira realidade, que não é a do
real concreto, pois, segundo ainda Portella, "O real concreto é in
capaz de levar à sua plenitude tudo aquilo que é"6 e "O artista
não está cercado pelas imposições de correspondência à realida
de - êle parte da realidade para criar a realidade."7
Qual, afinal, a realidade da arte? Aquela instaurada pela
mimese e o prazer, aquela que se baseia no real comum,
cotidia-1 PORTELLA, Eduardo. Teoria da comunicação literária. p. 36. 2 HEIDEGGER, M. Introdução à metafísica. p. 215.
3 PORTELLA, E. Fundamento da investigação literária. p. 140. 4 HEIDEGGER, M. p. 156.
5 lbidem. p. 156.
:
PORTELLA, E. Teoria da comunicação literária. p. 34. lbidem. p. 24.n
o
,
da
na
tu
reza,
mas
transc
ende
-
o
;
a
q
ue
la
q
ue,
conforme
Osca
r
Wilde
, "corrige a
n
atttrez
a
";
aque
la que, partindo da representa
ç
ão
,
ou sej
a
,
do c
ódigo lingüís
t
ic
o,
des
via
-
se
para o "algo mai
s
"
na concepção de
T
. S
. Elio
t
,
ou para a "outra coisa" na de Fernando
Pessoa. A r
ea
lidade da arte é, numa síntese
fe
l
iz de Nova
lis, fa
lando sobre a
P
oesia
,
a do "autêntico real a
bs
olu
to",
p
ois, como
a
f
i
rma, "
quanto mais
poé
tico,
mais
verdadeiro".
Des
t
ar
t
e,
s
ó
se compreende como artística a obra de um
Alberto Caeiro
-
que preconiza um "obje
t
ivismo absoluto" -
pelo
transbordamento do exagero do real, que assim atinge metafisi
camente o idealismo, o incomum, o imaginário, inscrevendo-se
na busca mimética e catártica do Ser.
À
luz dessas reflexões, podemos dizer que, por exemplo, o
feito histórico do descobrimento do Brasil, atribuído a Cabral como
seu principal responsável, é superado pelo verbo mais ou menos
criativo do encantamento e entusiasmo de Pera Vaz de Caminha,
verdadeiro descobridor deste país, por havê-lo fundado pela maior
plenitude da imaginação, dando significado, pela palavra mais
ou menos mimética de missivista, ao ato do navegador.
Outra exemplificativa conclusão é que o poeta português
Sá-Carneiro, cuja biografia de infeliz e suicida justifica a "disper
são" de uma obra, que o mostra como um poeta que não se reali
zou como pessoa humana, realizou-se pela mimese: disperso na
mensagem da obra, isto é, na vida lírica e também na vida contin
gente, plenifica-se pela realização artística, em que o eu se encon
tra e o homem se humaniza.
Diante do absurdo da vida, enquanto dispomos, segundo a
Psicologia, de diversos mecanismos defensivos do ego, como· o
da racionalização da raposa de Esopo, o da escotomia (mecanis
mo do avestruz perseguido), o da protelação, o da sublimação
,
o
da projeção, a Ontologia propõe uma aprendizagem
,
que não dei
xa de ser uma fuga, mas uma fuga da aparência e da falsidade
para a essência e realidade do Ser. Um encontro do ser consigo
mesmo, uma aceitação de si mesmo, uma integração no cosmos
,
o
que é virtualmente Ser em plenitude.
Só se compreende o absurdo da tragédia do Ser com o ab
surdo do mito, da fantasia, do maravilhoso, do onírico
,
do
•
vel
,
que
,
em t
e
n
são
com o real
co�
u
m,
tr
a
n
sce
nd
e-
o, an
c
orando
na
p
otencialidad
e
do Ser em p
len1
!
ud
: .
_
.
Consideramos válida a
contr1bui
çao
que a Ontologia trouxe
à Litera
tu
ra
,
ajudando o leitor a compreender m�
i
t
as
obras sem
prejuízo para o enfoque in
t
rín
sec
o e op
e
r
ocê
ntn
c
o
?
o literário,
apenas ocorre que Aristóteles se encontra com He1degger, e a
mimese e o prazer do texto id
e
ntific
a
m
-se
com a invenção e pleni
tude do Ser. Partindo dessas idéias, ana
l
i
s
ar
e
mo
s
o romance
UmaAprendizagem ou o Livro dos Prazeres,8
de Clarice Lispector, em que,
como em outras narrativas de sua autoria e em obras de ficcionistas
como André Malraux, Jean Paul Sartre, Albert Camus, Vergílio
Ferreira, Almeida Faria, José Saramago, a condição humana
éinvestigada ontologicamente, sem que o filosófico desmereça os
valores literários da ficção, e a humanização do homem opera-se
nessas produções tanto pelo ontológico como pelo literário.
1.2 As personagens con1o agentes vicários da criação
e representantes transreais da vida
V eremos que as duas personagens do livro de Clarice
Lispector instauram, com sua vida virtual, a realidade, encontran
do-se a si mesmas dentro do espaço da mimese, de tal forma que o
ontológico e a criatividade do romance têm na própria ação das
personagens um exemplo, e o seu discurso -, nessa narrativa de
pouca ação e muito pensamento, (entendendo-se esta palavra no
duplo sentido de raciocínio e imaginação, como acontece em geral
com os livros de ficção da autora -, é ora a exteriorização, ora a
sugestão de uma doutrina ontológica. E as próprias personagens
praticam a mimese e alcançam o prazer do encontro de si mesmas,
como agentes vicários do ato criador da autora e representantes da
vida comttm das pessoas, porém com a ampliação da transcendência
artística, conforme a afirmação de Eduardo Portella:
"
Sem dúvida
o ser humano encontra-se no personagem romanesco. Mas encon
tra-se catarticamente, integrando as suas dimensões transreais
"
.9 8 LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.Convencionamos a sigla ALP, seguida do número da página para referir-nos, daqui em diante, ao livro em estudo, da autora. 9 PORTELLA, E. Teoria da comunicação literária.
p. 66-67.
•
;
Bem di
stin
tas
as
ca
rac
t
e
rís
ticas
do disc
u
r
so
de
Ló
r
i
da
s qua
lidades do de U
li
sses.
Odisc
t
t
rso daquela mu
itas
vezes
se co
n
f
und
e,
como que
l
ir
i
ca
mente, co
m
o da autora, que é
sempr
e
anis
ciente e usa com freqü
ê
n
c
ia o discur
so indireto livre, embora
seja
uma verdade a nota que se lê
q
uase
na portada do roman
ce:
"Es
te
livro se pediu uma liberdade maior que tive mêdo de dar
.
Ele
está
muito
acima de
mim. Humildemente tentei e
screvê-lo.
Eu sou mai
s
forte do que e
u".
(A
LP
,
p. 5).
É
que o próprio discurso da autora, isto é, do eu criador
desta
, não se identifica com o do indivíduo Clarice Lispector, que
é superado pelo eu criador, e assim constatamos, logo no início da
leitura do livro, que aí o eu mimético chega à transcendência do
Ser
,
instaurando-se a verdadeira realidade, porque profunda, in
tuitiva, absoluta, - a realidade do irreal poético .
2 ANÁLISE ONTOLÓGICO-LITERÁRIA DE UMA
APRENDIZAGEM OU O I41VRO DOS PRAZERES, DE
CI.ARICE LIS PECTOR
.
2.1 Sistefilatização efil filovitnentos e justificação da tnobilidade da filatéria indicada etn seus enunciados
O itinerário de Lóri até Ulisses, isto é, a evolução de Lóri do
devir heraclitiano até o rompimento do interdito por uma liber
dade e uma responsabilidade completas, atingindo o
Dasein
heideggeriano, com o amor pleno, com a aceitação da dor e da
morte como complementos da vida, com o prazer do encontro de
si mesma, o que é um ato de criação permanente, com a consciên
cia fundadora e solidária do estar-com-os-outros, enfim
,
com a
transcendência alcançada pela humanização, eis a matéria do li
vro em apreço. Assim, propomos este tema como síntese da men
sagem do romance: o percurso feito pelo ente, da angústia do devir
ao processo da catarse do Ser em plenitude dinâmica
.
E os se
guintes movimentos para divisão da narrativa:
1. A angústia do vir-a-ser sentida pelo ente (da p. 9 à p
.
74).
2. O encontro do Ser em mimese pelo ente (da p
.
74 à p. 154).
217
•
4. o Ser em pl
e
n
i
tu
de
dm
a
m1
ca
ou em processo de call4&&
(p
.
163à p.
177).Saliente
-
se que os enun
ci
ado
s
d
ess
a
s
i
s
t
e
matização não
possuem rigidez inabalável, porquanto o vir
-
a
-s
er, e o Ser, isto é, a
angústia do devir e o encontro do eu
_?
Correm em todos os movi
mentos, numa gradação ou graduaçao decrescente do primeiro
caso e ascendente do segundo. Haja vista que Lóri, no quarto
movimento, ainda teme, às vezes, coerente com a sua condição
humana, embora com o Ser em quase contínua transcendência,
perder
0estado de graça, o prazer, a felicidade que consegue, e já
no primeiro movimento acham-se vários aspectos de recriação do
mundo, de invenção, de encontro da personagem por ela mesma
como ocasiões a mais de exercício da mimese da elaboração artís
tica, porque a aprendizagem de Lóri começa antes mesmo da pri
meira frase do primeiro capítulo, que significantemente abre com
uma vírgula. Apontemos como exemplo dessa aprendizagem
ontológica e humanista de Lóri a da ciência do perfumar-se como
"uma das suas imitações do mundo", com a qual " de algttm modo
intensificava o que quer que ela era" (ALP, p. 14).
Essas alternâncias no comportamento de Lóri são processo
de um ensaio e erro para a construção de si mesma, cujas quedas
ela compara com as de Cristo e identifica supostamente com os
"apesar de" (Cf. ALP, p. 25) a que se referira Ulisses. Tais alter
nâncias dão-se, também, porque dor e prazer, vida
·
e morte mistu
ram-se na temporalidade de Lóri, e adivinha-se que o prazer e a
vida tendem a prevalecer no tempo das personagens para além
da narrativa, transformando-se, por uma aceitação profunda, a
dor e a morte em prazer e vida, já que a morte passa a ser con·
siderada pelas personagens um complemento natural da vida. Essa
r�flexão
�
tanto mais viável quanto mais se verifique que a narra·
tí
;
a termma (não terminando) com dois pontos.
E,no último ca·
p1tulo, quando Lóri admite a falência humana, pensando ainda
em perder o bem do encontro consigo mesma
,
encontro que, se
gundo a d
�
utrina filosófica esposada no livro
,
deve ser um conti·
nuo aperfeiçoamento, a personagem equilibra-se com idealismo
coerente, crendo na irradiação daquele momento para
o futuro:(
''M
as ela
p
o
d
eria
se
m
p
r
e
r
e
t
e
r na
s
m
ã
o
s
um
p
ou
c
o do que agora
co
nh
ec
i
a
,
e e
ntã
o
s
eri
a
mai
s
f
ác
i
l
viv
e
r n
ã
o viv
e
nd
o
, mal
vive
n
-do".
(ALP
, p.
169)
.
Outras vezes, a a
p
ree
n
são vi
si
t
a
-
a naquela ú
l
tima
noi
te
fo
-ca
l
iza
d
a pela a
ut
ora
,
mas a tensão mim
é
t
i
c
a entre
idea
l
i
s
m
o e
r
e
a
l
is
m
o, ao mesmo tempo que confirma arti
s
ti
c
am
e
nt
e
a in
s
t
a
ur
a
ção da realidade no derradeiro capítulo e no desfecho da n
a
rr
a
ti
va, i
mp
e
l
e
,
numa observância ontológica, a dor de amb
as as
p
e
r
sonagens para junto do prazer, porque não só Ulisses, mas tam
bém Lóri
"
es
t
ava sofrendo de vida e de amor". (ALP, p
.
177)
.
Por essas considerações, justifica-se uma certa mobilidade
na matéria dos enunciados dos movimentos, em que dividimos
o
romance em estudo, e
l
embre-se que isso é reflexo da própria
aber
tura
criativa, mediante a qual não se pode obter um modelo rígi
do como quer a posição estruturalista, mas um
trans-modelo,
que
é, na teoria de Eduardo Portella, o modelo do
entre
-
texto.
10
·
2.2 A angústia do vir-a-ser sentido pelo enteAlguns altos momentos verificam-se no primeiro movi
mento como o de tensão emocional e criativa da seqüência dos
"faz de conta" (ALP, p. 10-11), em que o ambíguo confunde o
trágico com o aprazível, não se sabendo se Lóri ri ou chora, ten
são que se enfatiza com o caótico da paragrafação. Diante da
elaboração de trechos assim é que se confirma a afirmação de
Eduardo Portella: "Só a ambigüidade pode corresponder à ri
queza de matizações da totalidade do real" .
11Uma intensa
aber
tura
não se encontra apenas no primeiro movimento
,
dissemina
se por todo o livro pelo abundante emprego de paradoxos
,
das
interrogações sem resposta, do silêncio sugestivo
,
do jogo entre
a humanização de Deus e a divinização do homem
,
entre a dor e
o prazer, a vida e a morte etc.
,
Convém que salientemos outros momentos importantes do
primeiro segmento. De início, a seqüência de frases com a locução
prepositiva ou conjunção concessiva "apesar de" empregada,
num
10 PORTELLA, E. Fundamento da investigação literária. p. 54. 11 lbidem. p. 68. - -219 • ·� • · .. , -- __,....::.=-.. �· • � ·� �- -�-- -� ... - ' �;ttl . ·-·� ... . ' • N> • • •
•
expressivo desvio gramatical, ora
c
omo adv
é
rb
io
de modo, ora
como substantivo,
tran
s
formando-
se
o morfema, por sua valori
zação, em semantema, e acionando a
sig
n
i
fi
caçã
o de otimismo,
encorajamento ante os contrat
e
mpo
s
e vi
ciss
itud
es:
Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar
de.[
.
.
. ]Apesar de, se deve amar
.
[
.
.
.
]Foi o ap
es
ar de que me
deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha
própria vida.
(ALP,
p. 23).
Depois, merece atenção o momento da mensagem escrita
para Ulisses, na qual, usando uma linguagem
aberta,
Lóri constrói
um mito poético, um símbolo, o do cavalo preto, que significaria
o Amor em disponibilidade. Afinal, o instante em que Lóri, desa
bafando-se, escreve pela segunda vez a Ulisses, de tal forma que,
pela mimese, consegue o prazer de ser, embora sem a perfeição
da plenitude, dada a acidentalidade da situação. Trata-se de um
movimento dionisíaco não na escrita, mas na vida:
Escrever aliviou-a. Estava de olheiras pela noite não dormi
da, cansada, mas por um instante- ah como Ulisses gosta
ria de saber - feliz. Porque, se não expressara o inexpressível
silêncio, falara como um macaco que grunhe e faz gestos
incongruentes, transmitindo não se sabe o quê. Lóri era.
Oquê? Mas ela era.
(ALP, p. 37).
2.3 O encontro do Ser etn tnit11ese pelo ente
O instante superlativo do segundo movimento e o que inau
gura este, separando-o do primeiro, é aquele em que, na piscina,
Lóri, acompanhada por Ulisses, ao ouvir o elogio dele ao silêncio
,
observa silenciosa as pessoas sendo, e ela também
,
num estra
nhamento de si própria, começa mais efetivamente a ser.
É
o en
contro do Ser em mimese pelo ente:
220
Ent�o es
t
ranhou
-
se a si própria e isso parecia levá-la a uma
í
J
M
es
mo
a
rri
sc
ando que
Ul
i
s
ses
não a p
e
r
ce
b
esse
, di
sse
-
lh
e
be1n baixo
:
-
E
s
t
ot
t
se
ndo
.
.
.
(ALP,
p
.
74).O estranhamento de L
ó
ri
é
a
criação
de
si
m
e
s
m
a
,
a sua
mimese
,
a sua in
venç
ã
o
,
porque ela
se ac
ha, recuperando
o·ser
d
isperso
,
e integra
-s
e no mundo que, pela imaginação
s
il
e
n
ciosa
,
ela faz ser
.
"Lóri estava suavemente e
s
pantada
.
Então i
ss
o era
a
felicid
ad
e
"
(AL
P
,
p
.
76): mimese e prazer instauravam nela a rea
lidad
e. Aquele estranhamento é o que para Vergílio Ferreira
é
a
"
aparição
"
da essência ou do Ser, que se livra do simples existir;
para
H
ei
degger
, a transcendência do Ser; para Clarice Lispector,
ai
nd
a, o estado de graça, o milagre, o impossível ou o extraordi
nário do ordinário:
De algum modo já aprendera que cada dia nunca era sem
pre extraordinário. E que a ela cabia sofrer o dia ou ter pra
zer nêle. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão
simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário
que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o
extraordinário.
(ALP,
p. 133).
Junto à piscina, Lóri e Ulisses, por estarem sendo, como que
se renovaram e "Ficaram calados como se os dois pela primeira
vez se tivessem encontrado". (ALP, p. 75). E lê-se, em decorrência
daquela transformação, um dos mais belos trechos do livro
,
no
qual se interpreta a visão iluminada que Lóri tem das pessoas e
coisas circundantes, que, falando através da acomodação à sua
maneira própria de ser, dão o seu testemunho nesta frase
,
várias
vezes repetida, na maioria das quais com valor de prosopopéia:
"Estou sendo". (Ibidem)
Elemento importante para a mimese e o encontro do Ser é o
silêncio, e é este que Lóri aprende a fazer e ouvir
,
tal como deve
ocorrer em tudo que exige uma experiência profunda e pessoal
ou peculiar, haja vista o que preconiza Georges Bataille sobre
O·erotismo e o que defende Portella com a
"
teoria de inclusão do
silêncio", baseada na "transmanência":
A
voz
do poema fala mai
s
alto quando
se
ca
la
, já
que
0silên.
cio não é
0es
paço
v
a
zio por
é
m o má
x
imo de concentração
dafa
l
a.
[
..
.] osilêncio
é
a força da experiência co
nfrontada
comd
- 12a fraque
z
a a expr
ess
ao
.
o extremo catártico confundido com o silêncio depreen
demos deste passo do livro
Nítido Nulo,
de Vergílio Ferreira,
atra-LIMITE de todos os limites, so o silencio e a voz.
Poder-se-ia
afirmar, intertextualizando o escritor português, que o irreal é a
REALIDADE de todas as realidades, só o silêncio é a sua voz,
pois Lóri calou na piscina, para sentir-se sendo com o mundo e,
criando a sua realidade, seguiu a orientação de Ulisses, com que
aprendia a ler nas entrelinhas da vida e que lhe dizia:
"Eêsse
silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem
vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio. (ALP, p.
74).
Dentre os instantes de desânimo e aflição de Lóri, que, no
segundo movimento em que dividimos a narrativa em estudo,
aparecem antes dessa personagem atingir o Ser em plenitude di
nâmica no último segmento, destacamos o instante do capítulo
em que ela usa e questiona a máscara, cujo uso é de uma "liberda
de horrível de não-ser". (ALP, p. 91). Trata-se, portanto, do ques
tionar-se a favor da epifania.
Uma das passagens mais valiosas em que a criatividade ou
mimese de Lóri se exerce é a da entrada da personagem no mar,
por uma deserta madrugada. O ritual com que fica em intimidade
com o mar lembra ainda o da prática do erotismo, focalizada por
�
Georges Bataille. E que o ato de criar, como o ato erótico, deve ser
de uma grande religiosidade. E Lóri redescobre o mar. Dá-lhe sig
nificação e chega a ser com ele. Faz dele um símbolo e do contato
,
c
�
� as suas aguas uma parábola ambígua e cheia de enigmas.
�on com o mar, que é origem da vida e para a personagem signi·
fica a presença fertilizadora masculina ou o sêmen
,
ensaia a entre
ga total a Ulisses, aprende com o mar e com este se prepara
maispara a coragem do amor pleno. Tem sugestões sensuais a descri·
12 PORTELLA, E. et ai. Teoria literária. p. 16. 13 FERREIRA, V. Nítido nulo, p. 312.
•
ção dos gestos de L
óri no mar, "es
p
antada de pé, f
e
rtilizada".
(ALP,
p.
84). E
l
ê-se a
t
é o
segui
nt
e:
Com a concha das mão
s
e com a alt
i
vez
do
s
que nun
c
a darão
explicação nem
aêles me
s
1no
s
: com a concha
da
s
mão
s
cheia
s
de ág
ua
,
bebe
-
a em goles grande
s
, bon
s
para a
s
aúde de
um corpo.
E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o
líquido espêsso de um homem. (Ibidem).
Reparemos que esse ato de tomar a água do mar é de uma
criatividade que tem força de catarse, tal é o incomum desse ges
to, a aproveitar matéria-prima tão comum, comparável ao código
lingüístico ou ao texto que, na teoria portelliana, se encontra em
tensão como o
pré-texto
para que se retire o
entre-texto.
O que fize
mos foi tentar desentranhar
·
dessa tensão o
entre-texto
do banho
de Lóri, que, conforme se declara naquele capítulo, em relação ao
mar, "é a amante que não teme pois que sabe que terá tudo de
nôvo". (ALP, p. 84-85).
Em discurso indireto livre a autora confirma o sentido de
criatividade e encontro ontológico de sua personagem naquele
contato marítimo, traduz-lhe as reflexões em face de criações de
Ulisses e toma palavras dele mesmo ao referir-se a seus poemas:
"
"Ele fazia poemas como o exercício mais profundo do homem. E
ela? Que fazia como exercício profundo de ser uma pessoa? Fazia
o mar da manhã ... " (ALP, p. 122).
Ligada ainda ao mar é o hipocorístico Lóri, do seu verda
deiro nome, Loreley, que, segundo explicação de Ulisses e como
sabemos, denomina personagem lendário do folclore alemão
,
o
qual seduzia os pescadores, que por isso acabavam morrendo no
mar. E apressa-se em dizer que ele, Ulisses, é que seduz a Lóri
,
não obstante esta se enfeitar para ele. (ALP, p. 106). Vemos que
ambos são mostrados como dois afluentes que se unirão para for
mar o mar, ou melhor, para se acrescentarem ao mar da vida pelo
amor, em realização total, assim como há milênios dois germes
,
um masculino e outro feminino, ter-se-iam unido no oceano como
partes dele mesmo para dar origem à vida.
Um adiantado p
asso
na
a
pre
nd
izage
m de Lóri ass·
m
0trecho em qu
e,
por
e
l
a
b
o
r
aç
ã
o
do
s
e
u mundo interior
es
d
· Id
.
"
e co
mp
õe-se uma
p
ágina repleta e
p
oe
s
1a
.
rra 1a deleite e
reaJi.ativamente se imagina a escolh1da d
as,
f?lhas
.
(ALP,
p. 124). Aargumentação imaginosa .usada por
�
on
-, estabelecendo
umatensão entre o racional e o 1deal com o f1m de provar o seu
priviJé.gio e a maravilha, o efeito mágic�
�
�s ocorrê�ci�s entre ela e
asfolhas-, abre caminho para a possibilidade propr1a da mimese.O
mesmo valor criativo descobrimos no gesto delicado de Lóriguar.
dar uma folha que caíra sobre ela, valorizando-a mais com o equi
líbrio, anulador da pieguice, em ela jogar fora a mesma folha, quan
do esta secou. A justificativa desse ato traz, ainda, a ma
rca
datensão artística entre realismo e idealismo e denota adaptação
àvida que marcha, com o descontínuo gerando o contínuo, preci
sando-se ser em cada novo momento, que se deve viver
com intensidade: "Jogara-a fora: não lhe interessava o fetiche morto
comolembrança. E também porque sabia que novas folhas iriam coinci
dir com ela". (lbidem). E lê-se, também, esta declaração, de
umfino sabor poético: "Um dia uma fôlha que caíra batera-lhe
noscílios. Achou então Deus de uma grande delicadeza". (lbidem).
Prazer e mimese em tempo de ser verificam-se, ainda,
dentro do segundo movimento, entre outras passagens, nas cenas
dafeira, (Cf. ALP, p. 138-140), quando Lóri vai degustando
cornosolhos, o ta to, o olfato e o próprio paladar todo um mundo senso
rial transportado da natureza. Aquela página lembra o poema
"Num Bairro Moderno", de Cesário Verde, com menos fantasia
mas não menor senso sugestivo, lembra também o "objetivismo
abs�luto'
:
de Alberto Caeiro, sempre, porém, com uma doçura
eum 1deahsmo mais nítido, que, em tensão com a realidade,
instauram mais suavemente o real poético .
•pronta para a plenitude do Ser. A partir desse instante
,
a narra
passa para um novo mov
i
me
nt
o, porque L
ó
ri
tem alcançado
nova
etapa na a
p
ren
d
izage
m de ser ela m
e
s
ma
.
M
a
s
é jus
t
a
me
nte
por
que sai de si e acha os ou
t
ros
que ela se a
p
e
rfeiçoa, enc
ontrando
se
m
ais.
Depois de ouvir de L
ó
ri a confissão de
sua s
olidariedad
e
para com as crianças da escola, U
li
sses
p
romove
-
a, introduzind
o
-
a
e a si mesmo numa fase de espera mais fervoro
sa, de esperança
mais efe
t
iva:
"-
Você está pronta,
L
óri. Agora eu quero o que
você
é, e você quer o que eu sou. E toda essa troca será feita na
casa,
Lóri, na minha casa e não no seu a
p
ar
t
a
m
en
t
o".
(ALP, p
.
154).
E Lóri que
,
já no primeiro movimento, sentia necessidade de
dar-se a alguém, não achando sentido no viver que não se entregasse
a outrem
, "
sabia que teria de dar a alguém o que ela era, senão o que
faria de si?" (A LP, p. 63), agora chega a uma necessidade mais defini
da de doação: é
quando
sente "vontade extrema de dar essa noite tão
secreta a alguém. E êsse alguém era Ulisses". (ALP, p. 161)
Aquela mulher aproximava-se da exuberância do saber pela
exuberância do prazer do dar-se. No "estado de graça" em que fica,
após morder a maçã, no segundo movimento, ela entra nt1ma luci
dez que a faz ver "a profunda beleza, antes inatingível, de outra pes
soa" (ALP, p. 149), lucidez que a integra no universo e faz com que
ela sinta uma "energia", que "é a maior verdade do mundo e é
impalpável". (Ibidem). Identificamos essa lucidez e essa energia com
o
logos,
princípio da inteligibilidade, sobretudo com o
logos
na con
cepção de Heráclito, o qual é "o princípio supremo de
cação
,
portador do ritmo, da justiça e da harmonia que regem o universo
"
.14Obtendo pelo prazer o saber - "Era uma lucidez de quem
não adivinha mais: sem esfôrço, sabe" (ALP, p. 149) -, Lóri partici
pa da unificação do universo, por isso ela e a chuva
,
num belo
processo de mimese autêntica, como que se misturam neste ter
ceiro movimento: "A chuva e Lóri estavam tão juntas como a água
da chuva estava ligada à chuva". (ALP, p. 160). Depois disso
,
che
gará Lóri, no quarto movimento, a ser tanto, que pôde equiparar
se a um macrocosmo e ao mesmo tempo a um microcosmo
,
o que
atesta que, no seu amor, na sua criatividade e no seu prazer tinha
uma lúcida consciência ontológica do estar-no-mundo
.
14 FERREIRA, A. 8. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. p. 955.
•
2.5 o Ser em plenitude dinâmica ou em processo
de catarse
A maçã
c
o
n
s
titui
-
s
e num do
s s
ímb
o
l
o
s
importante
s
do livro
em análise e da obra de Clarice Li
s
p
ec
tor, que já o explora no ro
mance
A Maçã no Escuro.
Ve
j
amo
s
, através de tal motivo, etapas
da evolução de Lóri para o achamento de si própria e a criação da
realidade. No primeiro movimento, Lóri
Jôra
àcozinha para arrumar as compras e dispor na fruteira
as maçãs que eram a sua melhor comida, embora não sou
besse enfeitar uma fruteira, mas Ulisses acenara-lhe com a
possibilidade futura de por exemplo embelezar uma frutei
ra.
(ALP,
p.
9).Notamos que, do primeiro para o segundo movimento, Lóri,
que já se torna capaz de não comprar uma batata que acha bonita
na feira para não "vê-la emurchecer em casa e muito menos
cozinhá-la", excede as expectativas diante de uma maçã sobre a
mesa, desenvolvendo por si mesma as sugestões de prazer dos
ensinamentos de Ulisses, prazer que atinge pela recriação do
mundo e a realização pessoal. Há uma espécie de sensualidade
no modo como Lóri examina, morde e valoriza a maçã. Lê-se:
E, oh Deus, como se fôsse a maçã proibida do paraíso, mas
que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como
antes. Ao contrário e Eva, ao morder a maçã entrava no
paraíso.
(ALP,
p. 148).
O trecho, que lembra o verso de Bilac na "Alvorada do
Amor"- "Terra melhor que o céu, homem maior que Deus!
",
con
firma a irradiação sensual da página em apreço
,
por ligar-se à in
terpretação tradicional e popular do episódio bíblico da desobe
diência paradisíaca; ratifica, ainda
,
o humanismo do livro e repre
senta a superação do interdito para o Ser do ser em liberdade.
�
e
�
te quart
?
movimento, a aprendizagem de Lóri alcança
um estad10 supenor, melhor se podendo aquilatar
,
aqui
,
o valor
•
da literatura para
-s
i
,
de Clarice Li
s
p
ec
tor
.1
5
O amado, agora
já em
união íntima
,
perfeita com Lóri, tem o seu sexo m
a
i
s
int
e
n
sa
m
e
nt
e
sugerido como a
"
fru
t
a do mundo", expressão
s
em
e
lh
a
nt
e à
qu
e
l
a
usada para o mar
,
tomado como símbolo de esperma ou da pr
e
sença sexual masculina, conforme vimo
s:
"as águas do mund
o
"
.
(ALP
,
p. 84). E a transgressão do interdito, aqui, aparece por insi
nuar-se fortemente a felação:
Foi nêsse estado sonho-vislumbre que ela sonhou vendo que
a fruta do mundo era dela. Ou se não era, que acabara de
tocá-la. Era uma fruta enorme, escarlate e pesada que ficava
suspensa no espaço escuro, brilhando de uma quase luz de
ouro. E que no ar mesmo ela encostava a bôca na fruta
e
conseguia mordê-la, deixando-a no entanto inteira, treme
luzindo no espaço. Pois assim era com Ulisses: eles ser haviam
possuído além do
.
que parecia ser possível e permitido, e no
entanto êle e e
l
a
.
estavam inteiros. A fruta estava inteira,
sim, embora dentro da bôca sentisse como coisa viva a comi
da da terra.
(ALP, p.170-171).
Observemos que o ambíguo e o sugestivo desse trecho cons
troem-se, entre outros elementos, pela indeterminação do nome
da fruta, que, como a maçã, que parecia "uma fotografia no espa
ço vazio", era "pesada, escarlate" e "ficava suspensa no espaço
escuro", o que suscita a idéia do falo em ereção.
Uma das mais expressivas passagens do quarto movimento
é esta, em que, declaradamente, Lóri cria o já criado, e a sua ima
ginação, que é a de quem, pelo prazer, é em essência
,
torna-se
,
mais uma vez, o espaço da mimese da narrativa:
Estendeu o braço no escuro e no escuro sua mão tocou
no
peito nu do homem adormecido: ela assim o criava pela sua
própria mão e fazia com que esta para sempre guardasse na
pele a gravação de viver.
(ALP,
p. 170).
15 Cf: AZEVEDO FILHO, L.
A. de. A metacomunicação na linguagem de Clarice L.
.
Rev1sta da Cultura, Vozes, p. 797. lspector.
•
•
•
Veja
-
se que esse trecho sugere o
a
fr
�
sc
o de Mi
c
helangelo,
representativo d
'
A
Criação do Mundo,
pr
ee1s
am
e
nt
e
o detalhe da
criação do primeiro homem por D
e
u
s.
É
a partir do momento superlativo da vé
s
p
era do amor
to-tal
,
quando Lóri, já no apartamento de Ulisses, segura a cabeça
deste ajoelhado "diante da mulher como diante da mãe" (ALP, p.
163) que começa o quarto movimento, porque aí a mulher amante
e amada inicia a ser em plenitude, e a narrativa entra, com ela,
naplenitude da mimese, que é a catar
se.
3 CONCLUSÃO
O relógio da Glória vai marcando a glorificação daquele
amor em humanização e prazer. E, no auge da vida em gozo,
antegozavam a morte, porque para eles esta podia ser também o
auge da vida, tão impregnados de vida estavam
.
Eros e Tanatos
se encontram. De tão criativos que se tornaram pelo prazer do
Ser, deveriam pensar, e é o que o livro sugere, que o orgasmo pa
rece assaz com o estertor da morte, porque ambos são o extremo
da vida, sendo ambos, em essência, uma só coisa:
ummodo de
atingir-se a plenitude do Ser.
Essas reflexões coadunam-se com o pensar de Heidegger:
Para os que só têm sentido para o próprio e particular (die
Eigen-sinnigen), a vida é somente vida.
A
morte é, para êles,
morte e mais nada. Na realidade,
porém, o ser da vida
é, aomesmo tempo, morte. Tudo, que começa a viver, já começa
também a morrer, a caminhar para a morte,
de sorte que
amorte e também vida.16
Por tudo isso é que, num livro de primavera
,
se dá tanto
'
apreço a morte, ostentando ele este subtítulo
: "
A Origem da
Pri-mavera ou a Morte Necessária em Pleno Dia
".
(ALP
,
p.7).
Mas só o espírito de criação revela o Ser ao homem
. Lóri
sóo atingiu quando não mais "esquecia que ela mesma era fonte de
16 HEIDEGGER, M. Introdução à metafísica. p. 156.228
•
O homem
éna
l
inguagem
.
Como então pen
s
ar a
lingua
gem
sem pensar o homem? Como ima
g
in
�
�
l
a ap
e
na
s
�m
mecanismo a mais no
h
o
r
i
z
on
t
e de
s
ua
s
ut
z
l
zdade
s
? A lzn
guagem
éo lugar inevitável do acontecimento exi
s
t
e
n
ci
al
.17
Em verdade, o imaginativo da arte, fazendo os signos
pas
sarem a Signo, confere ao homem o poder do divino, do impossí
vel, instaurando o Ser "apesar de". Apesar da própria morte
.
.
Lóri, sendo em plenitude (dinâmica), afirma:
- Você tinha me dito que, quando me perguntassem meu
nome eu não dissesse Lóri, mas "Eu". Pois só agora eu me
chamo "Eu".
E
digo: eu está apaixonada pelo teu eu. Então
nós
é.Ulisses, nós
éoriginal.
(ALP,
p. 168).
Essa passagem, com a funcional transgressão do código
.
lingüístico, exprime a liberdade artística, que se combina com a
transgressão do interdito tão bem.caracterizada pelas palavras de
Ulisses: "O sexo e o amor não te são proibidos. Você enfim
apren-"
deu a existir" (ALP, p. 175). E que Lóri "era antes uma mulher que
procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade
era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos
nem formas" (ALP, p. 169).
"
E preciso não ter modos nem formas para moldar espiritual
e essencialmente as coisas do mundo na senda do Ser. No primei
ro movimento, numa imaginação criativa, sentiu Lóri que o seu
.
corpo moldava o vestido (Cf. ALP, p. 13). Graças ao molde do seu
molde, "Porque no Impossível é que está a realidade
"
(ALP
,
p
.
118). é
�
�e o po
�
er artístico de Cla
:
ice Li
�
pector estabeleceu aquela
necessar1a tensao entre
.
a percepçao e a Imaginação
,
entre
0realis
mo e o idealismo, dando possibilidade, coerência interna e
abso-17 PORTELLA, E. Fundamento da investigação literária. p. 59.
•
luta a ações do romance que pod e� p�recer �veros,símeis. As
sim, aceitamos, por exemplo, a paCienCia de _Uhs_:;es a espera de
Lóri; a castidade que,
à
espera da amada, se Impos; a delicadezapoética de ornamentar com r�sas o apa�ta�ento
à
espera da mulher do seu desejo; a ajoelhaçao (sem pieguice mas numa expan são sincera da intimidade) diante de Lóri; a sujeição de Lóri, mu lher vivida, a uma preparação imposta por Ulisses, para se uni
rem; 0 enrubescimento dela ante os delicados eflúvios do amor,
após a experiência de vida íntima com cinco amantes; o deixar Lóri de comprar a batata da feira para poupar-lhe a beleza etc. Tudo se aceita diante do convencimento com que artisticantente
nos envolve a autora.
O
fato de Ulisses ser esclarecido e Lóri umapessoa que padecia da fome de calor humano é uma das fortes razões para fazer o leitor concordar com o sublime do livro. De pois, os sacrifícios de Lóri para não telefonar a Ulisses e a falta de pressa ao avistá-lo, além de construírem atitudes de quem ainda não está "preparada", afinam com a psicologia feminina, que pode
resistir na entrega. Ademais, barreiras como estas
à descrença do
leitor sabe construir a autora: "Lóri suportava a luta porque Ulisses, na luta com ela, não era seu adversário; lutava por ela". (lbidem). "Temia que Ulisses se cansasse daquela sua resistência paqui dérmica em deixar o mundo entrar nela, e desistisse." (ALP, p. 64).
Pelo exposto, somos, como Ulisses, ao definir o seu Deus,
"dos que crêem no que é inacreditável" (ALP, p.
122)
e somoscomo Lóri, que "parecia ver a super-realidade do que é verdadei
ramente real" (ALP p.
27).
"mais real que a realidade" (lbidem),segundo ainda Ulisses nessa frase que lembra uma que já cita
mos, de Novalis. Por tudo i.sso, no livro de Clarice Lispector,
mimese e prazer instauram a realidade.
4 BffiUOG IA
ARISTÓT ELES.
Poética.
Tradução de Eudoro de Sousa. Porto Ale gre: Globo,1966 .
---
· Arte retórica e arte poética.
Tradução de Antônio Pinto de
Carvalho. Rio de Janeiro: Tecnoprint, [s.d.]
230
AZEVEDO FILHO
,
Leo
d
eg
á
rio
A.
d
e
.
V
er
g
í
l
io F
e
rr
e
i
ra e
o roman
ce
da verticalidade hum
a
n
a
. ln
:
C
on
g
re
ss
o B
r
a
s
i
l
eiro de
L
ín
g
ua
e
Lit
e
ra
-tura
,
2. Rio de
J
a
n
eiro
:
G
e
rna
s
a
,
1971
.
--
. A
metaco
mun
icaçã
o na linguagem de C
larice
Li
s
pe
c
t
or
.
Revista de C�tltura Vo
z
e
s
,
Rio de Janeiro, 10, dez
.
1
972
.
BAT AILLE
,
George
s.
L' érotísme.
P
a
r i
s :
Union G é n é ra l e
d
'
É
d
itions
,
1957.
E
C
O
, Umberto.
Obra aberta.
Tradução de Giovanni Cutol
o
.
São
Paulo: Perspectiva, 1971.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda.
Novo
dicionário da lín
gua portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, [s.d.]
FERREIRA, Vergílio.
Aparição.
Lisboa: Portugália, 1968.
__
.Nítido nulo.
Lisboa: Portugália, 1971.
HEIDEGGER, Martin.
Introdução
àmetafísica.
Tradução de
Emmanuel Carneiro Leão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.
HUIZINGA, Johan.
Homo ludens:
o jogo como elemento de cultura
.
São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo/Perspectiva
,
1971.
LISPECTOR, Clarice.
Uma
aprendizagem ou o livro dos prazeres
.
Rio
de Janeiro: Sabiá, 1969 .
.
MARCUSE, Herbert.
Eros e civilização:
uma interpretação
filosófi-/
ca do pensamento de Freud. Tradução de Alvaro Cabral. Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1975.
PADOVANI, Humberto
&CASTAGNOLA, Luís.
História da filo
sofia.
São Paulo: Melhoramentos, 1967.
PORTELLA, Eduardo.
Teoria da co1nunicação literária.
Rio de Janei
ro: Tempo Brasileiro, 1970.
___
.
Fundamento da investigação literária.
Rio de Janeiro
:
Tempo
Brasileiro, 1974.
___