Ode
1Triunfal -‐ Álvaro de Campos
Exaltação existente em «Ode Triunfal»
• O «eu» exalta a máquina, a vida mecânica e industrial, a civilização moderna, o quoBdiano das gentes, ou melhor, as sensações fortes que defluem do amor à vida moderna em toda a sua variedade.
Estado de alma que subjaz à exaltação que atravessa o poema «Ode Triunfal»
• O «eu» poé*co revela-‐se possuído pela febre da modernidade («Tenho febre e escrevo […] a beleza disto […] desconhecida dos anBgos»; «E arde-‐me a cabeça»; «excesso de contemporâneo»; «Em febre e olhando os motores»; «Ó coisas todas modernas/Ó minhas contemporâneas»; «Na minha mente
turbulenta e encandescida»; «rubro ruído contemporâneo»; «ruído cruel e delicioso da civilização de hoje»), que exalta com um furor crescente indisfarçável («Em fúria fora e dentro de mim»; «Promíscua fúria de ser parte-‐agente»; «ó raiva/Que como uma febre e um cio e uma fome»), conver*do à violência do sen*r, e à paixão desmedida e sem preconceitos pelo excesso («um excesso de carícias ao corpo»; «Rasgar-‐me todo»; «Amo-‐vos a todos, a tudo como uma fera/Amo-‐vos carnivoramente,
perverBdamente»; «Possuo-‐vos como a uma mulher bela»). Um sen*r externo que não exclui o sadomasoquismo (estrofe que inicia com o verso «Eu podia morrer triturado») e a desvalorização das grandes catástrofes (a parBr de «Eh-‐lá grandes desastres de comboios») diante da grandeza do «ruído cruel e delicioso da civilização». O que importa é que o «eu» tudo integre em si («Poder ao menos penetrar-‐me fisicamente de tudo isto»; «tornar-‐me passento/A todos os perfumes de óleos e calores e carvões».), sem respeitar limites.
1ode -‐ vocábulo de origem grega que significa um CânBco laudatório (de louvor) de uma pessoa, de uma insBtuição ou de um
Relação entre o estado de alma, o @tulo e o úlBmo verso do poema
• Todas as sensações desenfreadas do «eu» resultam do seu desejo de iden*ficação com o mundo e com a humanidade inteira («estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios/De todas as partes do mundo»; «Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!»), como forma de viver triunfalmente a vida no seu todo.
Mudança brusca de tom
• O furor do «eu» que grita o seu amor pela civilização muda bruscamente de tom.
• A estrofe de nove versos que, significaBvamente, surge entre parênteses e que começa com o verso «(Na nora do quintal da minha casa…» marca uma mudança de tom no discurso do sujeito poéBco, uma vez que traduz uma reminiscência ao seu eu interior, uma evocação nostálgica da infância. • Nesta estrofe, o sujeito poéBco reflete sobre o mistério do mundo, a fatalidade da morte e a ternura
perdida da infância.
Recurso à comparação inesperada. (alguns exemplos)
• «olhando os motores como a uma Natureza tropical»;
• «Possuo-‐vos [couraçados, pontes, docas…] como a uma mulher bela»;
• «(Um orçamento é tão natural como uma árvore/E um parlamento tão belo como uma borboleta.)».
Influências:
• Futurismo de Marinec:
• SubsBtuição da estéBca aristotélica do Belo (conseguida através da imitação da Natureza) pela
exaltação da energia, da velocidade, do dinamismo, da agressividade e da força da civilização mecânica do futuro.
• Sensacionismo de Walt Whitman:
• Expressão de todas as sensações experimentadas pelo arrebatamento cosmopolita e pela apologia da civilização mecânica. Pessoa define-‐o, referindo que “a única realidade da vida é a sensação. A única realidade da arte é a consciência da sensação”.
Ambiente moderno, mecânico, dominado pela técnica e pela evolução industrial.
• «grandes lâmpadas eléctricas da fábrica»; • «Ó rodas, ó engrenagens»;
• «andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes»; • «flora estupenda, negra, arBficial e insaciável»;
• «ó fábricas, ó laboratórios, ó music-‐halls, ó Luna-‐Parks, / ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes»
Conceito de Belo associado à força, à energia, à violência e à velocidade das máquinas.
• «Ah, poder exprimir-‐me todo como um motor se exprime!/Ser completo como uma máquina!/Poder ir na vida triunfante como um automóvel úlBmo-‐modelo!/Poder ao menos penetrar-‐me fisicamente de tudo isto,/ Rasgar-‐me todo, abrir-‐me completamente, tornar-‐me passento/A todos os perfumes de óleos e calores e carvões»;
• «Amo-‐vos a todos, a tudo, como uma fera. /Amo-‐vos carnivoramente, /PerverBdamente e enroscando a minha vista /Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,/Ó coisas todas modernas,/Ó minhas
contemporâneas, forma actual e próxima /Do sistema imediato do Universo! /Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!»
Perceção do real baseado num excesso de sensações (visuais, audiBvas, olfaBvas, gustaBvas e táteis)
• Sensações visuais -‐ «luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica»;
• Sensações audiBvas – «ó grandes ruídos modernos, / de vos ouvir demasiadamente de perto»; «quase-‐ silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão»; «ruído cruel e delicioso da civilização de hoje»
• Sensações olfaBvas – «perfumes de óleos»
• Sensações gustaBvas – «por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto»;
• Sensações táteis -‐ «tenho os lábios secos»; «fazendo-‐me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma»; «Ah, como todos os meus senBdos têm cio de vós!»
Expressão do excesso de sensações, por vezes contraditórias, provocadas pela beleza / fascínio pelas máquinas.
• «Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, / De vos ouvir demasiadamente de perto, / E arde-‐ me a cabeça de vos querer cantar com um excesso / De expressão de todas as minhas sensações, / Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!»
A máquina, irracional e exterior, como lugar onde se projetam os sonhos e os desejos do poeta.
• «Ah, poder exprimir-‐me todo como um motor se exprime!/Ser completo como uma máquina!/Poder ir na vida triunfante como um automóvel úlBmo-‐modelo! /Poder ao menos penetrar-‐me fisicamente de tudo isto, /Rasgar-‐me todo, abrir-‐me completamente, tornar-‐me passento /A todos os perfumes de óleos e calores e carvões /Desta flora estupenda, negra, arBficial e insaciável!»;
• «Giro, rodeio, engenho-‐me. /Engatam-‐me em todos os comboios./Içam-‐me em todos os cais./Giro dentro das hélices de todos os navios./Eia! eia-‐hô eia! /Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!»
Presença de um certo masoquismo sádico na necessidade de experimentar sensações novas e violentas.
• «Eu podia morrer triturado por um motor /Com o senBmento de deliciosa entrega duma mulher
possuída./ABrem-‐me para dentro das fornalhas! /Metam-‐me debaixo dos comboios! /Espanquem-‐me a bordo de navios! /Masoquismo através de maquinismos! /Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!»
Fusão do passado e do presente num tempo único (ao contrário do que foi preconizado por MarineZ).
• «canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, / porque o presente é todo o passado e todo o futuro / e há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas / só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão»
Visão irónica da sociedade industrial, ao apresentar o lado negaBvo e escandaloso da época: a desumanização, a hipocrisia, a corrupção, a miséria, a pilhagem, os falhanços da técnica (desastres, naufrágios), a imoralidade, a prosBtuição de menores, etc.
• «A maravilhosa beleza das corrupções políBcas, /Deliciosos escândalos financeiros e diplomáBcos, / Agressões políBcas nas ruas,/E de vez em quando o cometa dum regicídio»;
• «Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,/Que emprega palavrões como palavras usuais,/Cujos filhos roubam às portas das mercearias /E cujas filhas aos oito anos -‐ e eu acho isto belo e amo-‐o!/Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada./A gentalha que anda pelos
andaimes e que vai para casa /Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. /Maravilhosa gente humana que vive como os cães, /Que está abaixo de todos os sistemas morais»;
• «Eh-‐lá grandes desastres de comboios!/Eh-‐lá desabamentos de galerias de minas!/Eh-‐lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânBcos!»
Recursos formais que reforçam o «excesso de expressão». • Uso recorrente de (alguns exemplos):
• Interjeições e onomatopeias – As interjeições confirmam o louvor do sujeito poéBco à civilização mecânica e a sua conrnua agitação. As onomatopeias sugerem a tentaBva do sujeito poéBco de
imitar os sons ruidosos das máquinas, exprimindo assim o barulho e a velocidade estonteantes da vida moderna:
• «Eh-‐lá-‐hô fachadas das grandes lojas!/Eh-‐lá-‐lô elevadores dos grandes ediscios!»; • «r-‐r-‐r-‐r-‐r-‐r-‐r-‐eterno!»;
• «Hup-‐lá, hup-‐lá, hup-‐lá-‐hô, hup-‐lá,!/Hé-‐lá! He-‐hô! H-‐o-‐o-‐o-‐o-‐o! Z-‐z-‐z-‐z-‐z-‐z-‐z-‐z-‐z-‐z-‐z!»;
• Apóstrofes -‐ confirmam o esBlo laudatório do poema e a exaltação da civilização industrial, tal como as exclamações.
• «Ó fazendas das montras! Ó manequins! Ó úlBmos figurinos!»;
• «Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!/Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!»;
• «Ó rodas, ó engrenagens...».
• Enumerações -‐ traduzem o frenéBco desejo do sujeito poéBco de senBr tudo de todas as maneiras, registando de forma aparentemente caóBca as sensações que experimenta:
• «Desta flora estupenda, negra, arBficial e insaciável!»;
• «Eh, cimento armado, betão de cimento, novos processos!». • «Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!»; • «guerras, tratados, invasões,/Ruído, injusBças, violências»,
CARACTERÍSTICAS ESTÉTICO-‐ESTILÍSTICAS
• Anáforas -‐ expressam a sucessão caóBca dos fenómenos da civilização industrial, permiBndo ao sujeito poéBco acompanhar o seu ritmo alucinante e vigoroso:
• «Olá grandes armazéns…/Olá anúncios eléctricos…/Olá tudo»;
• «Eh-‐lá-‐hô fachadas…!/Eh-‐lá-‐hô elevadores…/Eh-‐lá-‐hô recomposições ministeriais!» • «Por todos os meus nervos (...) Por todas as papilas...»;
• «Poder ir na vida triunfante (...) Poder ao menos penetrar-‐me...»; • «Ó coisas todas modernas, / Ó minhas contemporâneas...»;
• Irregularidade estrófica, métrica e rimá*ca, que resulta num ritmo irregular e nervoso. • Presença de alguns desvios sintá*cos:
• «..fera para a beleza disto...»;
• «Por todos os meus nervos dissecados fora...»;
• Repe*ções, as enumerações e as onomatopeias que consBtuem um processo retórico
aparentemente caóBco que se desBna a esgotar a expressão, num esBlo torrencial, em catadupa. (As
enumerações traduzem o frenéBco desejo do sujeito poéBco de senBr tudo de todas as maneiras, registando de forma aparentemente caóBca as sensações que experimenta):
• «Desta flora estupenda, negra, arBficial e insaciável!»;
• «Eh, cimento armado, betão de cimento, novos processos!».
• Palavras desprovidas de carga poé*ca e de índole técnica -‐ «ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de
ferro ondulado!/Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!» ;
• Metáforas e as imagens deste texto evidenciam a ínBma relação do sujeito poéBco com o mundo mecânico e industrial, permiBndo até a sua plena integração na civilização moderna:
• «E arde-‐me a cabeça...»; • «...Natureza tropical...»;
• «PerverBdamente enroscando a minha vista...»;
• «Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força...»;
• «E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas...»;
• Neologismos e emprés*mos -‐ traduzem a ligação do sujeito poéBco às inovações da modernidade
e à universalidade do progresso técnico, assim como o vocabulário de caráter técnico:
• «parte-‐agente»; «quase-‐silêncio» • «music-‐halls»; «Luna-‐Parks»; «rails»
• «motores»; «fornalhas»; «guindastes»; «êmbolos»;
• Aliterações:
• «de ferro e fogo e força»; -‐ aliteração em /f/ que reforça a força dos maquinismos em fúria; • «Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando»; -‐ aliteração em /r/, /g/ e /d/ que,
aliada à repe*ção do gerúndio, confere uma dinâmica estonteante e con_nua aos maquinismos da indústria.
• «quase-‐silêncio ciciante» -‐ aliteração em /s/ que reforça o som «monótono das correias de transmissão» que ciciam.
• Adje*vação -‐ traduz o excesso de sensações que dominam o sujeito perante a modernidade; • Sequências com três ou mais adje*vos:
• «Desta flora estupenda, negra, arBficial e insaciável!»; • «Em vós, ó grandes banais, úteis, inúteis»;
• «Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus»; • «Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos». • Adje*vos e advérbios que melhor servem a exaltação do belo e do atroz.
• «Maravilhosa gente humana que vive como cães.»; • «Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!»;
• «Eh-‐lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânBdos!»; • «ruído cruel e delicioso da civilização»;
• «Progressos dos armamentos gloriosamente morrferos!»;
• «Amo-‐vos carnivoramente, /perverBdamente».
• Advérbios de modo evidenciam a atração eróBca e carnal do sujeito pelas máquinas e pela modernidade:
• «demasiadamente»;
• «carnivoramente»;
• «perverBdamente».
• Exclamações -‐ a frequência das expressões exclama*vas que sublinham a emoção do sujeito perante os fenómenos da vida moderna.