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O SUCESSO DE LUIZ GONZAGA SOB A PERSPECTIVA ANALÍTICO- COMPORTAMENTAL

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

CAMPUS ARAPIRACA

UNIDADE EDUCACIONAL PALMEIRA DOS ÍNDIOS

CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

Maria Clara Costa Souza

O SUCESSO DE LUIZ GONZAGA SOB A PERSPECTIVA

ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL

Palmeira dos Índios 2018

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MARIA CLARA COSTA SOUZA

O SUCESSO DE LUIZ GONZAGA SOB A PERSPECTIVA

ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL

Trabalho de Conclusão apresentado ao curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas/Unidade Educacional Palmeira dos Índios, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Psicologia.

Orientador: Msc. Gérson Alves da Silva Júnior

Palmeira dos Índios 2018

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Catalogação na fonte Universidade Federal de Alagoas Biblioteca Unidade Palmeira dos Índios

Divisão de Tratamento Técnico

Bibliotecária Responsável: Kassandra Kallyna Nunes de Souza (CRB-4: 1844)

S729s Souza, Maria Clara Costa.

O sucesso de Luiz Gonzaga sob a perspectiva analítico -comportamental / Maria Clara Costa Souza, 2018.

71 f.

Orientador: Gérson Alves da Silva Júnior.

Monografia (Graduação em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas. Campus Arapiraca. Unidade Educacional de Palmeira dos Índios. Palmeira dos Índios, 2018.

Bibliografia: f. 62 – 67 Anexo: f. 68 - 71

1. Psicologia. 2. Psicologia (behaviorismo). 3. Música. I. Silva Júnior, Gérson Alves da. II. Título.

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Dedicatória

Dedico a Sarah, principal fonte de reforçadores obtidos durante a realização desse trabalho.

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AGRADECIMENTO

Agradeço imensamente a meus pais, Edvaldo e Sebastiana, que não mediram esforços para me proporcionar o acesso a melhor educação possível e que, por diversas vezes, renunciaram a seus próprios sonhos para que o meu pudesse ser realizado. Também foram eles que sempre estiveram ao meu lado, auxiliando na conclusão desta etapa importante de minha vida, e que, assim como meus irmãos, Theógenes e David, são a razão pela qual me mantive firme.

A Diôgo, a quem decidi amar e compartilhar a vida, com quem pude contar a cada momento, que me incentiva constantemente a ir mais longe do que um dia julguei ser capaz de ir. Lembro-me carinhosamente das suas contribuições, as quais motivaram o esforço para tornar a leitura reforçadora para públicos distintos.

Ao Professor Gérson Alves, modelo de perseverança e de luta, que me ensinou quão importante é deixarmos marcas no mundo e que os sonhos exigem esforço proporcionalmente a grandiosidade das realizações. E assim como Valdenice Guimarães, representa o modelo de profissional a qual desejo seguir.

Aos orientandos, amigos e companheiros de luta, agradeço por todo o apoio. Vocês são grandes modelos para mim: Aldenise,Clariana, Amanda, Tatiana, Cynthia, Júnior, Bárbara, Anne, Elton, Roberto. Ainda sobre aqueles com quem pude compartilhar a vida acadêmica, sou grata a Camilla, Julyanna, Cristina, Talysson e Camila. Danilo e Wellynton, agradeço por contribuírem ao ler e compartilhar suas opiniões sobre esse trabalho.

Aos demais professores que contribuíram com o meu aprendizado e aos servidores da Unidade Educacional de Palmeira dos Índios.

E minha gratidão aos demais familiares e amigos que contribuíram direta ou indiretamente para a minha formação. Nada disso seria possível sem o esforço de todos vocês. Certamente, esta é uma vitória nossa.

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RESUMO

O ambiente tem papel importante na formação dos sujeitos e as pessoas, em especial os artistas, tem servido de modelo ao longo da história da humanidade. Luiz Gonzaga foi um músico que conseguiu deixar grandes marcas. Vale lembrar, que o presente trabalho reconhece a música enquanto uma habilidade adquirida, mantida por sua funcionalidade. Diante disso, fez-se uma análise funcional do que levou Luiz Gonzaga a obter a titulação “Rei do Baião” sob o enfoque Analítico-comportamental. Para isso, realizou-se um levantamento bibliográfico acerca do tema e avaliou-se funcionalmente a importância da mídia para que Luiz Gonzaga recebesse tal titulação. Estes objetivos específicos buscaram solucionar o seguinte questionamento que norteia esse trabalho, que é: Quais as variáveis que possibilitaram a Luiz Gonzaga receber a titulação “Rei do Baião”? A literatura constata que a valorização de Luiz Gonzaga fora importante para os interesses comerciais da época e que a mídia tenha tido um papel fundamental na titulação do já referido músico.

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ABSTRACT

The environment has an important role in the formation of subjects, and people, especially artists and have served as role model throughout the human history. Luiz Gonzaga was a musician who managed to leave big marks. It is worth remembering that the present work recognizes music as an acquired skill, maintained by its functionality. Thus, a functional analysis was made about what led Luiz Gonzaga to obtain the title "King of Baião" under the Analytical Behavioural approach. For this, a bibliographical survey about the topic was carried out and the importance of the media in the process that led Luiz Gonzaga to received such titration was evaluated functionally. These specific objectives sought to solve the following question that guides this work, which is: What variables allowed Luiz Gonzaga to receive the title "King of the Baião"? The literature finds that the appreciation of Luiz Gonzaga was important for the commercial interests of the period and that the media played a fundamental role on his nomination. Keywords: Behavioural Analysis. Functional analysis. Music.

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Beatles gravam música de Gonzaga 32

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – AF do Comportamento do Comportamento de Gonzaga 58

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LISTA DE ABREVIATURAS

BR Behaviorismo Radical

AC Análise do Comportamento

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Sou um artista feliz, muito feliz, com o dom de unir o povo, só

cuido de unir o povo, e nunca se esqueça do povão.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 13

2 MÚSICA E ANÁLISE DO COMPORTAMENTO 17

2.1 Pressupostos básicos da Análise do Comportamento 17

2.2 Música e o Processo Evolutivo 23

3 ANÁLISE FUNCIONAL 33

3.1 Por que realizar uma Análise Funcional? 33

3.2 A influência da Mídia na valorização da produção cultural 35

3.2.1 Mídia: O impacto do Rádio 38

3.2.2 Mídia: O impacto da Televisão 40

3.2 Por que “Rei do Baião”? 44

4 ANÁLISE FUNCIONAL DE RESPEITA JANUÁRIO 57

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 60

ANEXOS 68

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1 INTRODUÇÃO

Saber a razão pela qual os organismos se comportam, é um questionamento fascinante, tanto que grandes nomes da ciência, como Skinner (1904-1990) eIvan Pavlov (1849-1936), dedicaram boa parte da vida em desvendar estes mistérios. Estes, compreendem que as ações possuem uma razão de ser, e que, diferentemente do que prega o senso comum, não deveriam ser justificadas com base em invencionices. Este é um dilema comumente travado pela música, usualmente associada a um caráter místico. Entretanto, de acordo com Skinner (2003), cabe aos cientistas treinar para evitar considerações prematuras, ou seja, baseadas em crenças e não em fatos, e reconhecer valor de ficar sem uma resposta até que uma satisfatória possa ser encontrada.

O presente trabalho aborda a compreensão da Análise do Comportamento acerca da Música, objetivando fazer a análise funcional do que levou Luiz Gonzaga a obter a titulação “Rei do Baião”. Para isso, será realizado um levantamento bibliográfico acerca do tema e avaliar-se-á funcionalmente a importância da mídia para que Luiz Gonzaga recebesse o título de “Rei do Baião”. Estes objetivos específicos buscarão resolver o questionamento que norteia esse trabalho, que é: Quais as variáveis que possibilitaram a Luiz Gonzaga receber a titulação “Rei do Baião”? Sugere-se, que a valorização de Luiz Gonzaga tenha sido importante para os interesses comerciais da época e que a mídia tenha tido um papel fundamental na titulação do já referido músico.

Segundo o relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as receitas do mercado global de músicas gravadas tiveram em 2015, um crescimento de 3,2% em relação ao ano anterior, atingindo US$ 15,0 Bilhões. O mesmo relatório aponta um aumento no mercado fonográfico brasileiro (físico e digital) em 2015 de 10,6% em suas receitas, impulsionado pela continuidade do crescimento da área digital (+45,1%). Isso sugere que a valorização de um estilo musical e caracterizá-lo como agradável atende aos interesses de toda uma indústria cultural, e que essa indústria está presente já na compra e venda de materiais audiovisuais ao mercado de itens que são disseminados por meio da associação a esses estilos, logo, possui uma grande relevância econômica.

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O interesse por essa temática teve início a partir do envolvimento da discente em discussões no Projeto de Extensão “Música na universidade: Construção de repertórios comportamentais de afirmação social”, que possibilitou a esta a percepção da música sob a perspectiva da análise do comportamento enquanto ferramenta para a aproximação entre os sujeitos. A ideia ganhou maior proporção mediante a participação da mesma no Grupo de Estudos em Psiconeurobiologia e Análise do Comportamento (GEPAC), que, assim como sua experiência enquanto monitora de Processos Psicológicos Básicos 1 e 2, proporcionaram aumento na apreciação à pesquisa científica. Além disso, esse trabalho parte da necessidade de se compreender, de maneira mais aprofundada, a relação que foi utilizada para se selecionar habilidades musicais ao longo da evolução, das seleções culturais e das aprendizagens individuais.

Esta pesquisa corresponde a uma revisão bibliográfica de cunho qualitativo, teve início em março de 2017, com a construção do projeto de pesquisa e término em julho de 2017. Para que se pudesse atingir sua finalidade, foram realizadas as seguintes etapas metodológicas: Levantamento bibliográfico em artigos científicos, periódicos, teses, e livros; utilizando-se dos seguintes dados de busca: “música e análise do comportamento”, “comportamento musical”, “evolução”, “música” e “análise do comportamento”. Sendo realizada em sites como Google acadêmico, Scielo, Periódicos Capes, em livros de acervo pessoal e da biblioteca da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Em seguida, foi feita a escolha da música a ser analisada, tendo como requisito de seleção o fato de fazer referência a uma situação real que ocorre no período de maior sucesso profissional de Luiz Gonzaga. O acesso a música foi obtido em plataformas da internet como: Google e Youtube. Por fim, foi feita a análise funcional dos dados observados. Deve-se ressaltar que em virtude da quantidade limitada de produções acerca do tema, na visão da Análise do Comportamento, fez-se necessário consultar materiais de outras perspectivas para a obtenção de dados. A exemplo disso, pode-se ressaltar Varella (2011) e Pinker (1997) que embora tenham contribuído para a construção desse trabalho, não dão a devida importância a funcionalidade do comportamento musical. Evidentemente, estas discussões serão abordadas no decorrer do texto.

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A metodologia, que a análise do comportamento tem como proposta, foi de grande valia para que com base nos materiais disponíveis, fossem realizadas leituras focais nos resumos para analisar a relevância dos conteúdos para a pesquisa, responder os questionamentos e fazer análises mais profundas, não meras descrições topográficas de comportamentos, mas das funções.

A literatura disponível acerca do comportamento musical traz algumas discussões sobre os fatores que determinam esse comportamento. De forma geral, sabemos que esses fatores são multideterminantes, ou seja, não têm uma única causa. Fatores sociais, de história de vida e genéticos, estão envolvidos quando se analisa o sucesso de Luiz Gonzaga.

Durante o transcorrer do trabalho pode-se compreender o peso que o ambiente social exerce sobre os indivíduos, apresentando-lhes modelos, como é o caso de Luiz Gonzaga. Em nossa discussão nos preocupamos em entender o comportamento musical não só a nível cultural, mas através dos aprendizados ao longo da vida e das influências dos fatores biológicos. Ou seja, a aprendizagem de comportamentos desde o nascimento acontece mediante a interação do organismo com seu meio. Através de modelos e aproximações sucessivas pode-se conquistar um vasto repertório comportamental. Basta que o ambiente1 proporcione tais interações e

aprendizados. Entender como o organismo reage e se modela de acordo com fatores externos é de fundamental importância para elucidarmos desde os mais simples comportamentos aos mais complexos.

Para efetivar a construção do seguinte trabalho, o mesmo foi estruturado da seguinte maneira. Primeiramente organizamos a introdução do trabalho, onde explicamos o processo de construção da pesquisa. Neste caso, esta pesquisa foi dividida em três capítulos: No primeiro capítulo, conceitua-se o comportamento musical sob a perspectiva da análise do comportamento e identifica-se a funcionalidade deste. No segundo capítulo, nossa discussão perpassou pela investigação dos fatores contingenciais e de história de vida que levaram Luiz Gonzaga a obter a titulação “Rei do Baião”, partindo do pressuposto de que todo

1 Deve-se lembrar, que quando não existe aprendizagem de comportamentos bases, trata-se de um

indivíduo com déficits comportamentais, ou seja, quando uma pessoa não tem habilidades para lidar com situações especificas, inábil.

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comportamento se mantém com base nas consequências que recebe.No terceiro e último capítulo, faz-se a Análise funcional de uma música denominada: “Respeita Januário”, produzida em 1950, fruto de sua parceria com Humberto Teixeira. Esta, descreve a ocasião em que o artista volta a sua terra natal.

Entendemos que essa pesquisa possa discutir dados antes não analisados, e com isso trazer novas reflexões acerca da construção de modelos como Luiz Gonzaga, bem como discussão acerca do Comportamento Musical. A cada novo olhar sobre o tema surgem novas chances de se avançar em direção a soluções e práticas que possam diminuir esses índices. Esperamos que a leitura seja prazerosa, que possa lhe acrescentar informações valiosas e responder alguns pontos sobre o tema proposto.

Com essa pesquisa, nosso objetivo geral foi compreender sob a ótica da análise do comportamento as possíveis contingências que levariam a titulação de Luiz Gonzaga, para assim, categorizar esses desencadeantes e suas consequências.

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2 MÚSICA E ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

Há musicalidade em tudo que existe. Se pararmos para observar, ela tem feito parte do cotidiano das pessoas desde muito tempo na história, de tal modo que faz parte de nossa comunicação, seja para registro de acontecimentos marcantes, expressar emoções, até mesmo homenagear uma pessoa, ou uma localidade.

Além disso, faz parte de um âmbito comercial que envolve diversos estilos, ritmos e consumidores. A música modela comportamentos, nossas preferências (“consumo musical”) e, por sua vez, também são modeladas pelo meio que crescemos. O que transforma a identificação do valor adaptativo da música no processo evolutivo da espécie humana ainda mais valioso.

Este capítulo objetiva proporcionar ao leitor conhecimentos acerca das seguintes temáticas: “Pressupostos Básicos da Análise do Comportamento” e “A música juntamente com o processo evolutivo”. Nesse sentido, uma visão multifatorial do comportamento, bem como a análise funcional da titulação de Luiz Gonzaga enquanto Rei do Baião, tornar-se-ão mais claras posteriormente.

2.1 Pressupostos básicos da Análise do Comportamento

É comum haver informações distorcidas que precedem o contato direto e aprofundado com a Análise do Comportamento e o Behaviorismo Radical. Segundo Weber (2002), o processo de ensino-aprendizagem desses conteúdos em suma, percorre um caminho árduo, pois lida com a disseminação de uma visão rasa e estereotipada que leva a uma rejeição ao conteúdo.

Em uma pesquisa realizada com estudantes do curso de psicologia, Schena et. al. (2011) concluíram que os motivos que levaram os participantes da pesquisa a cursarem psicologia seriam por interessarem-se pelo assunto, por pretenderem se conhecer e por desejarem ajudar os outros. Essas respostas sugerem que os estudantes que adentram na universidade, em sua maioria, advêm de contingências

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que entram em conflito com uma visão funcional da realidade, o que torna uma compreensão mentalista2 mais acessível desde o primeiro momento.

De fato, o Behaviorismo trouxe mais uma frustração ao ser humano, como se já não bastasse Galileu Galilei (1564-1642) ousar provar que a terra não é o centro do universo, Skinner (1904-1990) abalou a concepção de liberdade do homem, ao partir do princípio de que este não seja dono de si mesmo, mas fruto das consequências filogenéticas, ontogenéticas e sociogenéticas.

Vale lembrar que a AC se fundamenta no Behaviorismo Radical (BR), de Burrhus Frederic Skinner (1904 - 1990). Isso implica dizer que já não mais se dedica em contestar a falta de replicabilidade dos experimentos introspectivos de Wundt, pois essa fora uma luta travada e vencida pelo Behaviorismo Metodológico (BM), de John Watson (1878 - 1958). O BM surge na busca por se estabelecer a psicologia enquanto ciência natural e limita-se ao estudo baseado no comportamento observável, percebe que haveria uma ligação direta entre estímulo e reflexo. Posteriormente, Skinner (1904 - 1990) revisa esse conceito e elabora o conceito de operante, ao reconhecer a importância das consequências nessa relação, comprometendo-se em testá-las.

A maior contribuição da ciência do comportamento para a avaliação de procedimentos culturais é a insistência sobre a experimentação, de modo que o experimento formalizado da ciência, somado a experiência prática do indivíduo em um conjunto complexo de circunstâncias, oferece a melhor base para uma ação eficiente. O BR ser mal interpretado não é uma questão recente, o próprio Skinner rebate críticas formuladas na época já na introdução de seu livro “Sobre o Behaviorismo” (About Behaviorism) e em seguida afirma: “Há muita coisa em jogo no modo por que

2 Explicações que partem da premissa de que a razão pela qual um organismo se comporta se daria

por inúmeras características ou possessões internas. Ou seja, defende a existência de uma mente imaterial que é utilizada como justificativa para aquilo que acontece, fazendo parecer que sentimentos e estados mentais sejam causas de comportamento. Isso limita a investigação e negligencia a importância do ambiente. Vale ressaltar, que o materialismo defende que a mente pode ser explicada a partir de leis físicas, da mesma maneira que se explica o corpo e assim como o Mentalismo, sustenta a existência de uma única substância no universo, seja física ou mental. Podemos falar de um monismo materialista ou monismo mentalista, embora a palavra monismo seja frequentemente utilizada para se referir ao monismo materialista.

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nos vemos a nós mesmos e uma formulação behaviorista exige mudanças perturbadoras”. (SKINNER, 2006, p. 10)

Sentir-se perturbado diz respeito a reações fisiológicas do corpo diante de uma situação a qual o organismo não sabe como responder. Nesse caso, assim como quando o coração acelera, ao ouvir uma música que tocava repetidas vezes no mesmo período em que se mantinha um relacionamento, sentir-se perturbado corresponde a um caso que envolve uma série de condicionamentos3, tanto

operantes4 como respondentes5.

Para Darwin (2003), os seres organizados esforçam-se continuamente para multiplicar-se em uma progressão geométrica, posto que no decorrer de cada geração, até mesmo durante períodos de vida, devem lutar pela existência e estar expostos a uma grande destruição. O mesmo alega que, embora a ideia de uma luta universal possa causar desconforto, o consolo pode partir da certeza de que a guerra não é incessante na natureza, e que embora o medo seja desconhecido, e a morte esteja geralmente pronta, são os seres vigorosos e que melhor estabelecerem intercâmbio com o ambiente, que sobreviverão e se multiplicarão.

Diante disso, pode-se considerar que Darwin (1809 - 1882) defende que a exposição a contingências6 desafiadoras seleciona os que melhor estabelecem

intercâmbio com o ambiente. Isso implica dizer que o fato de Luiz Gonzaga ter saído de sua região após ser ameaçado de morte, e ter sido exposto a um novo arranjo contingencial interferiu diretamente em sua construção como músico e, assim como Darwin e Skinner, teve de lidar com situações desconfortáveis. Certamente esta foi uma variável importante para que alcançassem a representação que tem hoje. Vale salientar que essa discussão é feita com caráter mais aproximado no capítulo “Análise Funcional”.

3 Segundo Whaley; Malott (1980), quando se introduz um reforçador positivo imediatamente após uma

resposta, que passa a ser imitida com maior frequência, diz-se que houve condicionamento.

4 No Behaviorismo Radical, corresponde a relação entre uma resposta (R), que ocorre em uma Situação

antecedente (SA) e obtém uma determinada consequência (C), irá influenciar na frequência da resposta

emitida. SA- R-> C

5 No Behaviorismo Metodológico, a relação entre estímulo e resposta S-> R

6 Contingências de reforçamento correspondem ao arranjo tríplice que envolve a resposta, a ocasião a

qual essa resposta ocorre e a consequência que sucede essa resposta. De acordo com Todorov (2007), são estas as variáveis independentes na análise experimental do comportamento, ou seja, condições as quais um comportamento ocorre.

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Nesse sentido, não se buscará compreender se a música “toca a alma” ou não, mas discriminar que essa afirmativa, por vezes dita pelos românticos, ocorre em um contexto específico, é modelada e reforçada positivamente para que consiga se manter. Diante disso, será possível identificar a razão pela qual a música ser agradável não é uma exclusividade dos humanos.

Vale lembrar que inversamente ao Behaviorismo Metodológico, o Behaviorismo Radical não desconsidera os eventos não observáveis, como os sentimentos e as emoções, pois, os eventos privados também estariam sob controle de variáveis ambientais, assim como os eventos públicos, e interpretados por um ponto de vista monista. Assim, o que se sente durante a reprodução de uma música na cena em que o casal da novela finalmente se beija, está sob o controle de variáveis e é possível de se analisar e controlar.

Para que isso se tornasse possível, foram necessárias contribuições como a de Ernest Mach (1838 – 1916), que de acordo com Chiesa (2006) desconsiderou a necessidade de uma força propulsora para que houvesse um elo entre estímulo e resposta. Segundo Porto e Borges (2013) Skinner herdou de Mach a postura filosófica empírica e descritiva, a negação da metafísica e a recusa da noção de força como mecanismo causal, assim como a aplicação do conceito de relação funcional na explicação do comportamento. Posteriormente, Skinner rompeu com a hipótese de que uma aproximação entre o conhecimento e o real não fariam sentido. Na proposta Skinneriana, o processo de conhecer é uma resultante da relação entre um sujeito ativo e uma realidade independente.

Está claro que o objeto de estudo da Análise do comportamento são as interações entre os organismos e o meio; e que os processos psicológicos, a exemplo, os eventos privados, são entendidos como comportamentos, possíveis de serem observados, previstos e controlados. Logo, tanto um cantor habilidoso é reforçador para o público, quanto é reforçado por ele. O que, de acordo com Todorov (2007), uma característica inovadora da AC: explicar o comportamento por meio da relação existente entre resposta, os estímulos antecedentes e as consequências sucedidas.

Mas o que torna algo reforçador? Será que o que é reforçador para um indivíduo, também o é para toda a sociedade? De fato, existem reforçadores universais de alta magnitude, que são comuns à espécie humana. Entretanto, há

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também a possibilidade de que algo se torne reforçador mediante a aprendizagem individual. Ou seja, sabe-se que o sexo e a comida são reforçadores universais7,

assim como é possível observar que as pessoas atribuíram ao dinheiro valor reforçador, pois ele possibilita, inclusive o acesso a contato sexual. Vale lembrar que algo se torna reforçador à medida que propicia o condicionamento do comportamento ao qual foi associado.

Deu-se preferência ao termo condicionamento, ao invés de aprendizagem, corroborando com a ideia de Whaley e Malott (1980), de que aquele seria mais específico, definido como a introdução imediata de reforço positivo após a ocorrência de uma resposta, o que culminaria em um aumento na frequência da emissão desta. Ou seja, quando uma criança reproduz uma música com qualidade, é provável que as pessoas ao redor notem e sinalizem aprovação, se isso não ocorre imediatamente, não haverá aumento na frequência do comportamento.

A linha teórica adotada pelo Behaviorismo Radical é a seleção por consequências. Isso implica dizer que todo comportamento, e obviamente isso inclui o comportamento musical, é aprendido, modificado e controlado mediante a necessidade de adaptação do organismo ao meio. Por essa razão, o comportamento será aqui compreendido enquanto resultante da interação de três níveis de seleção, são eles: filogêneses, ontogêneses e sociogêneses.

De acordo com Skinner (2003), a seleção natural, ou filogenia, nos ajudaria a compreender a origem das diferenças entre espécies - contingências de sobrevivência. A seleção operante, ou ontogenia, compreenderia a origem das diferenças comportamentais entre os indivíduos - contingências de reforçamento que correspondem aos comportamentos selecionados no decorrer da história do indivíduo e do ambiente ao qual faz parte. O terceiro nível de seleção pelas consequências é a sociogêneses, a nível de seleção cultural, que corresponde ao processo de seleção de práticas culturais. Sendo o segundo e o terceiro nível de seleção correspondentes ao campo de atuação da Análise do Comportamento.

Mas afinal, o que é cultura? De acordo com Skinner (2003), são os usos e costumes adquiridos num determinado grupo. Ela é um grande processo de controle,

7 Vale ressaltar, que reforçadores universais também podem se tornar aversivos a depender da

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semelhante às famosas caixas de Skinner, só que em um nível macro. Evidentemente, o modus operandi do sujeito dependerá em parte dos costumes vigentes em determinados grupos de modo que o comportamento é modelado de acordo com os padrões de uma dada comunidade à medida que certas respostas são reforçadas e outras acabam não sendo reforçadas ou recebem punição.

Diante disso, pode-se afirmar que pessoas que foram modeladas com base nos preceitos religiosos e que ocupam cargos de liderança, independentemente de discriminarem isso ou não, assim o fazem porque obtêm ganhos, estes não precisam ser unicamente financeiros, tanto o reforço social quanto o acesso sexual são consequências mantenedoras de comportamentos. Por exemplo, uma pessoa que goste de cantar nos rituais religiosos, pode não ter consciência, mas, em partes, sua motivação para cantar é decorrente da possibilidade de ser apreciado por outros indivíduos, possíveis de se relacionar.

De acordo com Skinner (2003), o indivíduo adquire do grupo o qual faz parte, um extenso repertório de usos e costumes; aquilo que o sujeito escolhe para se alimentar, o modo como o faz, como constrói sua habitação, como compõe suas músicas, os tipos de comportamento sexual em que se empenha, e até mesmo os assuntos os quais cala ou fala, bem como os tipos de relações pessoais que têm, e os tipos que evita, dependem dos procedimentos do grupo de que é membro. Os usos e os costumes vigentes em muitos grupos, têm sido extensamente descritos por sociólogos e antropólogos, porém, em raríssimos casos se analisa funcionalmente estes usos e costumes.

Assim, é possível compreender que o ambiente social tem fundamental importância para que se possa explicar o comportamento. Evidentemente, esta não se configura como uma tarefa fácil, pois o indivíduo pode ser exposto a contingências que não tenham conexão com a cultura do grupo, corroborando com a afirmação de Skinner (2003), que alega impossibilidade de consistência no ambiente social.

Skinner (2003) ressalta que Thorstein Veblen, em sua Teoria de classe ociosa, demonstrou que costumes ou usos que pareciam não ter consequências comensuráveis e eram explicados em termos de princípios duvidosos de beleza e gosto tinham efeito importante sobre os membros do grupo. Ou seja, de acordo com Skinner (2003), um sujeito não escutaria a música de Luiz Gonzaga simplesmente

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porque ela é bonita. Essa característica é atribuída a um determinado estilo porque a cultura na qual se está inserido reforça determinados gostos. Verbalizar que gosta, assim como gostar, são comportamentos, logo têm função, que pode ser tanto um modo de fazer parte de um grupo, quanto, a depender das contingências as quais se está inserido, pode ser um modo de controlar aqueles que não são capazes de se comportar da mesma maneira.

2.2 Música e o Processo Evolutivo

É evidente que a compreensão de música, embora por vezes descrita por uma visão puramente poética, deva agora também ser compreendida sob uma perspectiva científica. Isso implica dizer que a música será aqui descrita não sob uma perspectiva mentalista, que se baseia em definições circulares de um conceito, mas enquanto comportamento, que no caso é o comportamento musical. Segundo Andrade (2004),

este comportamento está presente em todas as sociedades humanas e, assim como a linguagem, estaria no cerne de suas manifestações. Deste modo, torna-se importante averiguar a importância deste comportamento para a sobrevivência.

Primeiramente, deve-se lembrar que o comportamento musical corresponde a uma classe de comportamentos, ou seja, uma gama de comportamentos que fazem parte de um mesmo padrão. Sendo assim, a referência ao comportamento musical envolve micro comportamentos como a capacidade de apreciar a música e de executar, seja por meio do canto, seja pelo manuseio de instrumentos. Vale lembrar que isso não ocorre somente com o que entendemos como comportamento musical, mas também diversos outros padrões. A exemplo disso, podemos citar o que compreendemos por padrão de comportamento assertivo, que corresponde a uma classe de comportamentos que o sujeito emite e que por serem socialmente aceitas, acarretam-lhe consequências reforçadoras.

Varella (2011) aponta que a arqueologia possui registros de instrumentos musicais mais antigos que o início da agricultura, como flautas de ossos e marfim, datando de 30.000 a 40.000 anos. Entretanto, de acordo com Huron (2012), em 1995,

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o paleontólogo Ivan Turk descobriu uma flauta de osso, durante a escavação de um túmulo antigo em Divje Babe, na Eslovênia e com o auxílio de spin eletrônico, pôde verificar que a idade flauta datava entre 43.000 e 82.000 anos. Huron (2012) indica que o registro arqueológico implica que o fazer musical provavelmente se originou entre 50.000 e 250.000 anos atrás.

Darwin (2003) iniciou o estudo de explicações evolutivas acerca da musicalidade humana, se utilizando do raciocínio das convergências adaptativas principalmente entre aves e mamíferos, ou seja, baseou-se na identificação de semelhanças entre organismos de espécies distintas que permaneciam no mesmo ambiente por um longo período e que acabaram adquirindo semelhanças morfológicas pelo processo evolutivo, graças à seleção natural. Ou seja, passam por pressões seletivas semelhantes.

A priori, deve-se compreender os conceitos de seleção natural e seleção sexual. Darwin (1809-1882) define seleção natural, enquanto capacidade do mais hábil de conservar as diferenças e variações individuais que são favoráveis à sobrevivência e à eliminação das variações nocivas ao organismo. Quanto às variações insignificantes8, isto é, que não são uteis e que também não são nocivas ao

indivíduo, não são certamente afetadas pela seleção natural e permanecem no estado de elementos variáveis. Já no caso da seleção sexual a luta pela sobrevivência ocorreria entre os indivíduos de um sexo, ordinariamente os machos, para assegurar a posse do outro sexo. Nesse sentido, a luta não termina pela morte do vencido, mas pela falta ou pela pequena quantidade de descendentes.

Tanto a seleção sexual quanto a seleção natural correspondem ao modo como os organismos reagem à pressão seletiva, nesse caso, o foco não é o animal, mas a pressão seletiva, que é o papel exercido pelo meio ambiente na seleção dos genes de uma população. No entanto, quando a seleção é o foco, as convergências adaptativas representam uma das pistas mais poderosas para as adaptações, pois podemos excluir efeitos de inércia filogenética9, ou seja, poderá se excluir as

8 Darwin (2003) exemplifica que é possível observar em certas espécies polimorfas, graças à

natureza do organismo e às das condições de existência. P.83

9 O homem possui dedos oponíveis e isso possibilita que possamos utilizar garfo e faca, mas não são

adaptações para tais tarefas, observando os primatas, o grupo ao qual pertencemos, podemos verificar que o dedo oponível é uma caraterística das mãos já existente em nossos ancestrais. É importante lembrar sempre da herança filogenética para separar o que é inércia do que é, de fato, adaptativo.

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características herdadas dos ancestrais que não foram necessariamente geradas por especiação.

Diante disso, pode-se considerar que Huron (2012), assim como Pinker (1997), o alega que a música não possua função adaptativa, ambos se posicionam como adaptacionistas e consideram a música um subproduto da evolução, uma pura tecnologia do prazer. Vale lembrar que a permanência dos comportamentos está atrelada a sobrevivência. Uma visão funcional da realidade compreende que os comportamentos permanecem enquanto tem função.

Atualmente, utiliza-se uma grande quantidade de sinais, sem necessariamente discriminarmos o porquê de utilizarmos. Segundo Darwin (2003), a percepção, e o prazer que se tem na execução de cadências musicais e de sons ritmados, é provavelmente comum a todos os animais, e sem dúvida relaciona-se a natureza fisiológica comum de seus sistemas nervosos. Diante disso, pode-se exemplificar o fato de que os pássaros, podem emitir diversos tipos de chamados: alimentares, de perigo, sexuais, parentais e de movimento de grupo. (Grier; Burk, 1992 apud Varella, 2011). Deste modo, percebe-se que os sinais estão intimamente ligados à sobrevivência.

Segundo Varella (2011), um sinal reprodutivo que auxilia na manutenção dos casais de certas aves seria o fato de que, por exemplo, os ovários da fêmea do periquito australiano (Melopsittacus undulatus) se desenvolvem em resposta ao estímulo: canto do macho. Ressalta-se que Darwin (2003) já sabia que, para que houvesse um desenvolvimento adequado do canto das aves canoras, seria necessário que estas fossem expostas ao canto de aves adultas. Esse é um exemplo do que Skinner denominou modelação, que corresponde a aprendizagem por imitação.

Darwin (2003) também postulou que a aprendizagem vocal, subjacente às canções complexas animais, exemplificaria uma compreensão análoga, que se trata de uma capacidade que aparece com função semelhante em diversas espécies, mesmo não tendo se apresentado em ancestrais comuns, sendo assim, adaptações para lidar com questões semelhantes.Assim também ocorre com as asas dos insetos

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e das aves, que possuem função semelhante, embora não tenham o ancestral mais próximo em comum.

A música, segundo Varella (2011), pode ser considerada um novo mecanismo de unificação do grupo, semelhante ao processo de catação, que os macacos, nossos parentes primatas, fazem. Macacos que passam por esse processo de catação, também chamado grooming (em inglês) [afagar a pele ou os pêlos e catar ectoparasitas10 uns dos outros], tendem a defender os parceiros de catação.

Quanto maior o tempo gasto nisso, maior a coalisão. Macacos do novo mundo apresentam algo além da catação física, chamados de contato e vocalizações usadas como uma catação física a distância. O mesmo, sugere que a música, a linguagem e humor, seriam análogos a essa catação.

Varella (2011) aponta que nos casos comparados relativos à evolução de uma capacidade sonora complexa, aprendida de forma variável, e que agrega muito valor estético, estão envolvidos mecanismos de seleção sexual. Diante disso pode-se exemplificar características das aves da ordem Passeriformes: a cauda do pavão, a plumagem da ave do paraíso e o ornamentado ninho do macho bowerbird.

Ao perceber que na maioria das vezes é o macho11 quem canta e isso se dá

principalmente no período de acasalamento, Darwin (2003) postula que a seleção sexual ocorre por escolha da fêmea, e este é um fator crítico para a evolução do canto dos animais. Afinal, se os sons emitidos pelos machos não atraíssem as fêmeas, por qual razão emitiriam? Certamente, esse comportamento não seria emitido com frequência e mantido ao acaso.

Segundo Varella (2011), é provável que a musicalidade humana, assim como sua capacidade sonora especializada, tenha evoluído do mesmo modo que a comunicação sonora dos animais. Isso é possível de se compreender, à medida que se tem uma visão funcional acerca do comportamento. E qual será a função do comportamento musical para a nossa espécie?

10 Correspondem a parasitas que se instalam no exterior do corpo do hospedeiro.

11 O livro ecologia comportamental demonstra que a espécie que corre atrás é a que faz menor

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Finuras (2016) alega existirem evidências consideráveis que apontam que a voz surge para beneficiar os indivíduos. Este, questionou-se sobre a funcionalidade da extensão do vocabulário inglês, o qual somente 5% é realmente necessário para se manter uma conversa ou fazer uma leitura. Este, seria o ponto de partida para a conclusão de que em um dado momento da história da humanidade, quando os bandos tomam uma grande proporção, o tamanho do vocabulário foi a associado à inteligência, característica importante para a coordenação de grupos e que naturalmente é critério de seleção por parte fêmeas, por caracterizar-se enquanto uma vantagem evolutiva.

De acordo com Skinner (2003), o que determina o valor de sobrevivência de uma prática cultural são as contingências vigentes. Algumas variações podem ser modeladas por essas contingências, originando traços ou práticas mais desenvolvidas ou evoluídas, tanto na seleção natural, como na evolução da cultura respectivamente, de modo que, práticas prejudiciais podem contribuir para a extinção da cultura em questão.

Deste modo, percebe-se que a razão pela qual se tem um vocabulário tão extenso estaria relacionada as bases da sobrevivência do indivíduo: sexo, segurança e alimento. Ou seja, em um dado momento da história, uma mutação possibilita o surgimento de seres diferenciados. Um sujeito com um cérebro altamente desenvolvido, acaba contribuindo para o sucesso do grupo na resolução de problemas, de modo que recebe lugar de destaque e é vislumbrado como parceiro sexual, portanto, é também o que deixará mais descendentes. Logo, precisou haver um aumento representativo que pudesse se utilizar dessas vantagens contra grupos que não pensassem de maneira mais ampliada.

Andrade (2004) aponta que Rousseau já defendia que a música e a linguagem teriam uma origem comum. Corroborando com a compreensão de Darwin de que o comportamento musical teria sido determinante na seleção reprodutiva, e sua relação com a linguagem seria o fato de que esta última teria se desenvolvido a partir dos sistemas de comunicação sonora. Isso sugere que essas habilidades correspondem a uma variável importante para a escolha dos parceiros sexuais dos indivíduos de mesma espécie.

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As habilidades artísticas, como a pintura, e o canto são características que assim como a linguagem, exigem a compreensão de finitude do homem e da necessidade de se transmitir conhecimento, sendo bastante utilizada para atrair pessoas para uma realidade semelhante. Esta é também uma demonstração de inteligência que certamente fazem de exímios músicos como Luiz Gonzaga, potenciais parceiros. (Finuras, 2016)

Em “The Science of Sex Appeal Documentary” faz-se experimentos para averiguar o que torna uma voz atraente. Os resultados apontaram que a maioria das mulheres preferem homens com vozes mais graves, que consequentemente tem índices de testosterona mais altos e os homens tendem a preferir mulheres com vozes mais agudas, o que é um indicativo de jovialidade e de índices elevados de estrogênio. Ressalta-se que os hormônios estão relacionados não somente aos timbres, mas também com as formas do rosto e do corpo dos sujeitos, ou seja, uma voz atraente indica um corpo atraente. Um ponto importante a ser lembrado, é que no período em que as mulheres estão ovulando, que é quando há uma maior produção de estrogênio e progesterona, a voz, assim como as formas de seu corpo se alteram, tornando-as mais atraentes. Quando não se dominava a eletricidade, à noite, os sons eram os principais domínios os quais se davam as interações sexuais. Mesmo que esse cálculo não seja feito conscientemente, percebeu-se que homens com maiores quantidades de testosterona no organismo tendem a ter ombros mais largos e rostos quadrados. As mulheres tendem a ter corpos com mais curvas, cada vez mais próximos de uma proporção em que a cintura represente 70% do quadril.

Esses dados são importantíssimos e são amplamente utilizados para fins comerciais. Os animes, e principalmente as produções denominadas hentai, segundo Lima de Faria (2008), destinados ao público adulto e abordam o sexo de forma explícita, mesmo não exibindo as genitais masculinas e femininas. Destaca-se as vozes excessivamente agudas e expressivas das personagens femininas, que atreladas a respiração ofegante, em muito se assemelham aos sons emitidos pelas mulheres durante o orgasmo. Outro detalhe importante a ser ressaltado é que os seios, os olhos e as curvas dos corpos assumem uma proporção muito maior do que as características presentes na maioria das japonesas.

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Ressalta-se que utilização de seios em um contexto sexual é uma exclusividade dos humanos, nos demais mamíferos essa é uma ligação feita com a cria. A razão pela qual os homens se sentem atraídos por seios, inicia-se durante a amamentação, pois segundo o Manual de aleitamento materno quando o bebê suga, impulsos sensoriais vão do mamilo ao cérebro e em resposta, a parte anterior da hipófise libera a prolactina, que vai através do sangue para a mama e faz com que as células secretoras produzam leite e a parte posterior da hipófise, libera o hormônio denominado ocitocina, que possibilita a contração das células musculares, auxiliando no fluxo durante a mamada. Esse processo incentiva a produção de dopamina no bebê, e possibilita a criação do vínculo, influenciado pela atenção recebida.

Logo, esta fascinação é biológica e também influenciada pela cultura. A preferência por seios grandes se dá não somente por estes serem indicativos de que a mãe poderá amamentar as crias, mas por ativar lembranças de uma relação já recebida com a mãe, e liberando os hormônios novamente. Esta necessidade está enraizada na necessidade de se deixar a maior quantidade de descendentes e com as características mais variadas possíveis para aumentar a probabilidade de perpetuação do próprio material genético. Vale lembrar que a presença dessas características, torna o anime cada vez mais reforçador, logo, ainda mais rentável.

Inegavelmente, há muito a propaganda tem se atrelado a reforçadores primários para despertar a atenção. A utilização desses recursos para possibilitar a venda de produtos não é uma exclusividade da propaganda oriental, visto que também ocorre em comerciais direcionados ao Brasil, como o da Sandália Love Xu, protagonizado pela atriz brasileira Xuxa Meneguel, [que ficou bastante conhecida por apresentar um programa infantil de cinco horas na Rede Globo] e teve sua divulgação proibida. Pode-se observar, que embora direcionadas para a sandália, as meninas que participam da gravação, que é toda feita em inglês, reproduzem sons, especificamente, gemidos, acompanhados de expressões faciais características, de gozo; inclusive, uma delas até mesmo acaricia os seios ao se referir ao produto.

Logo, o comportamento musical proporciona meios específicos para o estudo da evolução da estrutura social humana e de sua cultura. Brown et al (2000) apud Andrade (2004), defendem que a música deva ser evidenciada mesmo que tenhamos, há muito, nos voltado especialmente para a linguagem. É evidente que, se assim não

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fosse, tal característica não se manteria até o momento. Mas a razão pela qual o comportamento musical tem se mantido ao longo da história é o que mobiliza a construção deste capítulo.

As músicas se tornaram um elemento primordial para a transmissão da cultura. Isso se dá não somente pela estruturação da letra, mas também pelos instrumentos utilizados e as ocasiões as quais são reproduzidas. No decorrer da história da humanidade, tem se atrelado a atividades de guerra e atividades eróticas.

Os livros bíblicos mencionam que em todas as batalhas e guerras, quem vai à frente do exército são os músicos, cantando hinos, tocando instrumentos e louvando a Iahweh. Isso indica que música tem sido utilizada com a finalidade de estimular os soldados à luta através dos tempos.

A seguir, depois de ter deliberado com o povo, designou cantores que, revestidos com os ornamentos sagrados, marchassem diante dos guerreiros, louvando a Iahweh e repetindo: Celebrai a Iahweh, porque o seu amor é para sempre. (A BIBLIA DE JERUSALÉM, 1985, p.60612).

Jaber e Müller (2004) ressaltam que ainda hoje marchas e cantos são amplamente utilizados, a exemplo disso pode-se considerar o treinamento de militares em todo o mundo. A sucessão de sons reproduzidos de maneira marcada e potente facilita a concentração e a disciplina, bem como as letras repetitivas, principalmente nos gritos de guerra, incentivam os soldados no combate.

Diante disso, pode-se exemplificar a comunidade tradicional da Nova Zelândia, denominada Maori, que, segundo Pereira e Moraes (2016), possui práticas de manutenção baseadas na oralidade. A perpetuação da tradição se dá por meio de rituais, poesias, histórias, mitos, lendas, narrativas, provérbios. Destaca-se waiatae, que diz respeito a cantos solos e o haka que corresponde a uma dança em grupo acompanhada de um canto que o grupo entoa com a finalidade de afugentar o inimigo, aumentar a autoconfiança e também para invocar ajuda espiritual.

Pereira e Moraes (2016), O haka é tem como principais elementos: 1) Wana: intensidade dos sujeitos que realizarão a performance (vale lembrar que as mulheres

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também dançam o haka); 2) Pūkana: olhos estalados; 3) Whetero: línguas colocadas para fora em arco (apenas os homens realizam a whetero); 4) Tu: postura com pernas separadas, joelhos flexionados, coluna ereta; 5) Waewae takahia: batida das pernas e pés, dá o ritmo ao haka, é o coração batendo; 6) Kaitātaki: o líder do grupo que apóia e incentiva a manter o ritmo, acertar o tom e elevar a intensidade.

É possível observar uma semelhança entre o haka e o xaxado. Em ambos os casos, há uma forte marcação do ritmo e estão atreladas ao contexto de guerra, bem como a presença de uma liderança. O xaxado, segundo José, L. (2013) faz referência a onomatopeia das sandálias que arrastam durante a execução, porém, essa é uma dança exclusivamente masculina na qual a marcação do ritmo é feita com o rifle batido no chão, esta, original do alto Sertão Pernambucano e divulgada por Lampião13 e seu

grupo de cangaceiros.

Graburn (2008) alega que na China, Xiawutan, uma aldeia Bu Yi na área Minzu embora correspondam às mais pobres, se destacam por possuírem um turismo organizado. A esse respeito, alega que se apresentavam coreografias das danças entre casais enamorados, que dançam no palco a arrulhar, posteriormente, os turistas são convidados a participar, seja cortejando as jovens locais, seja dançando ou tocando os instrumentos musicais típicos [destaca-se que comunidades poligâmicas].

Segundo Varella (2011), embora a música tenha sido tradicionalmente atrelada às ciências humanas, na última década, tem sido abordada por um enfoque evolucionista, e, assim como a psicologia, tem se aproximado das Ciências Biológicas. Este é um indicativo de que a concepção de música tem se aprimorado para que uma visão funcional desse conceito se torne cada vez mais acessível.

A espécie humana não é apenas linguística, mas também musical e é possível considerar que ambos os casos possuam funções semelhantes. Ian Cross (2008) compreende essa semelhança e sugere que a música, assim como a fala corresponde a um produto biológico e também de interações sociais, tendo papel central na evolução.

13 Segundo Lins (1997), Virgulino fora um cangaceiro de grande representatividade, tido por uns como

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Andrade e Konkiewitz (2011) alegam que os jogos de imitação com música e dança são universais e as próprias danças tribais podem ser vistas como uma das mais frequentes formas de jogos de imitação, usadas para desenvolver o senso de “pertencimento ao grupo”, ambos os sentimentos de “ser como o outro” e de o outro “ser como eu” e assim de pertencer a um grupo.

Diante disso, considera-se que ao longo da vida, os organismos são testados e à medida que conseguem sobreviver e deixar descendentes, possibilitam a evolução da espécie. Esse é um jogo o qual se busca exibir as mais diversas características para impressionar o sexo oposto e garantir a continuidade de seus genes. Ao passo que o sujeito consegue planejar, a finalidade real torna-se velada e essa complexidade é o que de fato, encanta.

Nesse sentido, as habilidades musicais, assim como a escrita e os homens gostarem de seios, correspondem a subprodutos da evolução. Vale ressaltar que estes são desdobramentos acidentais, que tem se tornado primordiais no cotidiano dos sujeitos. A música, é, portanto, um produto de interações sociais que requerer inteligência e capacidade de organização, logo, uma vantagem evolutiva e por essa razão tem se mantido.

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3 ANÁLISE FUNCIONAL

Escutar música é um comportamento emitido por pessoas de todas as idades. Evidentemente, cada sujeito aprende a gostar mais de determinados estilos, que de outros. Afirmar que se gosta de um determinado estilo musical é um comportamento verbal, e como já exposto no capítulo anterior, difere de gostar; todo comportamento é mantido por suas consequências, sejam elas sensoriais, sociais, de bens tangíveis e até mesmo que possibilitem a este evitar eventos desagradáveis.

Reconhecer as variáveis de instalação e manutenção, possibilita a construção de um estilo, até mesmo construir a imagem de um artista de sucesso. Diante disso, este capítulo trará a Análise Funcional das contingências que levaram ao sucesso que garantiu a Luiz Gonzaga a titulação de “Rei do Baião” com base nas temáticas: “Por que realizar um Análise Funcional? ”, “A influência da Mídia na valorização da produção cultural” e “Por que “Rei do Baião”? ”.

3.1 Por que realizar um Análise Funcional?

Como abordado no capítulo anterior, Varella discute exaustivamente sobre a função do comportamento, mas não apresenta uma definição clara do que ele compreende como função. Inclusive, faz críticas a Steven Pinker, alegando que o mesmo também não compreende o processo de uma forma funcional.

Entretanto, os analistas do comportamento compreendem a função do comportamento enquanto fatores consequenciais que dirigem o organismo em sua ação, que determinam a ação do organismo da mesma forma. Analisar os comportamentos a partir de seus fatores consequenciais significa que estes, compreendem a realidade a partir de uma visão funcional.

A AF é o instrumento básico do trabalho do analista do comportamento, por meio da qual identifica-se as contingências que estão operando em determinado comportamento. Ou seja, pode-se inferir sobre as variáveis que possivelmente

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operaram no passado e então estabelecer relações de contingência para o desenvolvimento e instalação de comportamentos. Assim, torna-se possível alterar padrões comportamentais.

Segundo Whaley e Malott (1980), estes últimos correspondem a comportamentos que são emitidos com maior frequência e que já possibilitam ao indivíduo a obtenção de reforço natural, que é um tipo de reforço que é típico e de ocorrência comum no ambiente. Logo, a Análise Funcional possibilitará identificar as variáveis que moldaram as habilidades musicais de Luiz Gonzaga, assim como os arranjos contingenciais que lhe fizeram receber a titulação de Rei.

Ao referenciar o teólogo e historiador natural inglês Charles Darwin, Matos (1999), defende que o analista do comportamento deve compreender as mudanças comportamentais, sejam elas operantes ou respondentes, enquanto resultantes de um processo de seleção pelas consequências. Segundo Meyer (1997), isso ocorre quando há alteração nas contingências de reforço. Ou seja, quando há modificação na inter-relação entre a ocasião em que a resposta ocorre, a própria resposta e as consequências reforçadoras.

Isto sugere que os organismos sejam dotados de uma sensibilidade ao efeito destas consequências, que podem ser reforçadoras, quando aumentam a probabilidade de que a resposta emitida aconteça, ou punitivas, quando ocasionam a redução do comportamento. Outro ponto importante a ser ressaltado é que o reforço pode ser caraterizado enquanto positivo, quando uma consequência reforçadora é adicionada; e negativo, quando uma consequência reforçadora é retirada. Deste modo, evita-se o equívoco de atrelar positivo e negativo a adjetivos como bom e mau. (Whaley; Malott, 1980)

Setti (1997) e Barros (2011) concordam que em sociedades tribais os músicos eram vistos socialmente como parte integrante do grupo produtor de música, enquanto que a família lidava com a dualidade entre criticá-los por sua boêmia e aparente descompromisso e benevolência por serem agentes responsáveis por momentos de

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festa, religiosidade e lazer. Logo, obtinham atenção social tendo os padrões mantidos por reforçamento natural14.

De acordo com Matos (1999), é por meio da realização de uma Análise Funcional (AF) que se identifica a função de um comportamento, isto é, o seu valor de sobrevivência. A exemplo disso, pode-se afirmar que o comportamento musical; seja cantar, tocar um instrumento, possuem um valor. Evidentemente, muitos organismos, almejam obter os reforçadores que estes comportamentos podem desencadear, entretanto, poucos conseguem atingir o nível que Luiz Gonzaga alcançou.

Quando se fala que Luiz Gonzaga alcançou sucesso nacionalmente, implica dizer que este grupo - no caso, os brasileiros -, em um determinado momento discriminou este artista como extremamente reforçador em sua produção. Por conseguinte, este, também obtinha ganhos. Isso nos possibilita questionar acerca das variáveis que lhe fizeram alcançar tamanho reconhecimento e também como o mesmo conseguiu manter essa imagem.

De acordo com Matos (1999), o comportamento é governado e modificado por associações adquiridas por experiência, ou seja, o indivíduo aprende determinados comportamentos ao longo da vida e estes irão se manter em seu repertório com base em sua utilidade biológica, ou seja, por sua função de sobrevivência, seu valor adaptativo. Neste sentido, à medida que há alteração nas contingências, um determinado comportamento ou até mesmo um padrão comportamental se altera.

Este processo adaptativo irá possibilitar a sobrevivência do indivíduo. Sua ocorrência se dá porque representa um mecanismo de lidar com ambientes complexos. Logo, possui uma função. O mesmo ocorre com o comportamento musical, o que sugere que produzir música certamente é reforçado pois se mantém no decorrer da história da humanidade. Vale ressaltar, que para Skinner (1975), o termo reforço é aqui compreendido para além da obtenção de reforçamento; em outros termos, não mais encaramos o comportamento e o ambiente como coisas ou eventos separados, mas nos preocupamos com a sua inter-relação. A identificação

14 Tem como base o repertório já existente no comportamento do sujeito e reforça uma ampla classe

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das contingências de reforço, possibilita interpretar o comportamento com mais sucesso.

O reforço social 15é das razões pelas quais o comportamento de produzir

música emitido por Luiz Gonzaga se manteve assim como o comportamento dos consumidores. Para facilitar a compreensão de reforço social, Silva (2008) alega que do ponto de vista comportamental, uma pessoa vai à igreja não necessariamente por acreditar em Deus, mas porque determinadas consequências, no caso, os reforçadores sociais, como a atenção, aumentam a probabilidade de ocorrência desse comportamento. A crença pode atuar como regra no governo de outros comportamentos, mas a formação e manutenção tanto da crença quanto do comportamento social por ela governado tiveram origem nas contingências sociais.

A música indígena integra-se frequentemente a um evento coletivo ou a uma função social importante para toda a comunidade – como uma festa, um canto de trabalho, uma incitação à guerra, um ritual de passagem, um encantamento, um exercício de memória coletiva, uma dramatização mitológica. (SETTI, 1997, p. 18-19)

Como já discutido, organismo está sujeito a arranjos contingenciais que selecionam comportamentos. À medida que o ambiente sofre alteração, novos arranjos se configuram, logo, novos comportamentos são selecionados. Isso implica que dizer que desenvolvimento de instrumentos que possibilitam a divulgação de informação em massa inserem os sujeitos em um novo arranjo.

3.2 A influência da Mídia na valorização da produção cultural

Torna-se importante considerar que a titulação “O Rei do Baião” recebida por Luiz Gonzaga é aqui compreendida enquanto um recurso para a sua propaganda pessoal, afinal, essa caracterização influencia no consumo de um produto, que no caso, é a música produzida por ele. Segundo Machado (2000), consumimos

15 Um exemplo de reforço social: atenção contingente, sorriso, sinais verbais (nossa, como você canta

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continuamente desde remotas épocas, uma condição imprescindível para a vida em sociedade. Houve diversas transformações, desde a invenção do dinheiro, a alteração do modo como consumimos mediante o surgimento da propaganda. Obviamente, não consumimos apenas produtos e serviços, também consumimos ideias, impulsionados por expectativas de reforçamento que se baseiam na história de reforçamento anterior voltada para o consumir.

Mas qual a contribuição da mídia para a modelagem16 de comportamentos? Ou

seja, como ela pode ser útil para que novos comportamentos sejam adquiridos? Vasconcelos (2006) alega que a exposição diária e prolongada de crianças e jovens à mídia, sobretudo quando dissociada da participação ativa dos responsáveis, pode contribuir para o desenvolvimento de padrões comportamentais inadequados. Neste sentido, compreende-se que a mídia interfere diretamente no comportamento dos sujeitos.

Diante disso, pode-se questionar o modo como isso ocorreria. Machado (2000) sugere que a mídia contribuiria de tal modo para a modelagem de comportamentos, que poderia ser acrescida à sessão “agências controladoras” do livro Ciência e Comportamento Humano, de Skinner. Com essa afirmação, aponta a mídia como um instrumento de controle, assim como a religião, a psicoterapia, e demais instrumentos de controle citados pelo autor.

Sendo a mídia uma agência controladora e a música um artifício poderoso, pode-se afirmar que esta, pode ser utilizada não somente para demonstrar habilidades ligadas a inteligência, ou para modelar guerreiros eficientes, mas também para coesão grupal. Diante disso, Jaber e Müller (2004) exemplificam que a partir do reconhecimento do poder da influência da música sobre os organismos, diversos setores da economia são especializados na comercialização da música como forma ideológica, política e de entretenimento.

16 De acordo com Moreira e Medeiros (2007), corresponde ao reforço diferencial de aproximações

sucessivas do comportamento-alvo. Ou seja, em etapas, reforça-se comportamentos aproximados do comportamento esperado até que seja possível emitir o comportamento alvo.

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3.2.1 Mídia: O impacto do Rádio

A mídia enquanto instrumento de controle possibilitou a transmissão de cultura em larga escala. Segundo Jaber e Müller (2004), a música é um modo de se transmitir informação mesmo que o sujeito não discrimine. Logo, quando explorada com uma determinada finalidade, é um mecanismo eficiente para reforçar determinados comportamentos.

A esse respeito, Jaber e Müller (2004) alegam que a capacidade de influenciar o comportamento dos organismos, principalmente por eliciar emoções e por seu caráter congregacional, fez da música transmitida pelo Rádio, um importante instrumento de mobilização social por parte das ditaduras, a exemplo disso pode-se citar: o fascismo italiano, o comunismo soviético, o regime de Franco na Espanha, de Mao Tse-Tung, na China e de Getúlio Vargas, no Brasil, que tiveram manifestações musicais específicas.

Jaber e Müller (2004), exemplificam que durante o exercício do poder de Getúlio Vargas, em 1932, o então Presidente do Brasil, criou o Ministério da Educação e Cultura e nomeou o maestro Heitor Villa-Lobos a Superintendente de Educação Musical e Artística, que se utilizou da música para fomentar o patriotismo, construir uma identidade nacionalista vinculada ao Estado Novo.

Logo, é possível identificar que há muito a música vem sendo utilizada para a construção de modelos a serem seguidos. De acordo com Azevedo (2002) em 1930 iniciara um processo de hibridização do nacional e do estrangeiro, denominado massificação radiofônica, que atinge seu ápice nos anos 1950 e ressalta que entre 1940 e 1950, houve uma busca por valorização popular e consumo cultural massivo, e a grande novidade, que foi a criação de diversos ídolos da cultura popular. Essa dedicação às camadas populares se deu em consequência de o fato do rádio ter se tornado um produto acessível. Esse momento ficou conhecido a partir do movimento denominado modernismo.

Segundo Azevedo (2002), foram criados serviços alto-falantes em cidades do interior, e isso culminou no aumento da credibilidade dos locutores de rádio em relação

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aos ouvintes. Nesse período, ser cantor ou ator de uma grande emissora carioca ou paulista era o suficiente para que o artista conseguisse sucesso em todo o país obtivesse destaque na imprensa escrita e até mesmo frequentasse os meios políticos, como convidado especial e até mesmo como candidato a algum cargo político. Foi justamente o que aconteceu com Luiz Gonzaga ao assinar o seu primeiro contrato com a gravadora RCA Vitor.

Inclusive, Azevedo (2002) postula que a segunda metade da década de 1940, demonstrou o seu potencial enquanto formadora de hábitos e divulgação de informações e de produtos. A exemplo disso, pode-se citar o comportamento de escovar os dentes com frequência, instalado com o auxílio desse meio de comunicação. Vale lembrar que nessa época, havia predominância de audiência feminina e as propagandas começaram a ser modeladas de acordo com o público ouvinte; vinculadas a imagem de artistas. Inclusive, em 1950, houve um aumento na audiência dos programas populares.

Jacinto Silva, em entrevista para seu livro organizado por Luciano José, alega que a razão pela qual suas músicas começaram a ser reproduzidas nas rádios no horário da madrugada, advinha do fato de que o forró sempre fora discriminado e que ao contrário de cantores como Roberto Carlos, que tinham como produtor o superintendente da gravadora, seu produtor era Abdias, um tocador de 8 baixos, e essa foi eleita por ele como uma diferença importante; enfatiza que na época, haviam apresentadores que recebiam jabá para reproduzir determinadas músicas.

Diante disso, sendo os artistas criados com a finalidade de modelar comportamentos e sendo o rádio um mecanismo de transmissão destes padrões a serem seguidos, pode-se perceber que nesse momento, os radialistas eram importantes formadores de opinião, que junto ao público ouvinte, seria capaz de selecionar o que se colocaria em evidência. E isso, é de grande interesse para a compra e venda de produtos, assim como para um regime de governo.

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3.2.2 Mídia: O impacto da Televisão

Sendo o que o sujeito ouve, uma variável independente para a modelagem de comportamentos, a televisão, segundo Machado (2000) insere o indivíduo em diferentes metacontingências17, tanto tecnológicas quanto cerimoniais, as quais

devem integrar a análise dos comportamentos sociais emitidos por eles. Por esta razão, o mesmo autor traz a necessidade de aumentar os investimentos nesse tipo de pesquisa, pois, torna-se importante averiguar sobre esses comportamentos sociais, principalmente no que tange à manutenção destes.

A televisão está presente em todas as classes sociais e é um dos poucos produtos culturais que é consumido pelas classes populares, em comparação a outros produtos, como: livros, cinema e teatro (CAPPARELLI, 1998/2002 apud VASCONCELOS, 2006). Isso indica que esta ferramenta, assim como o rádio, conseguiu atingir a população de tal modo que pôde tanto influenciar, quanto sofrer influência do público, como base nos índices de audiência.

Segundo Giacomini Filho (1998/2002) apud Vasconcelos (2006), a população brasileira é formada por 40% de crianças e 12% de jovens, o que, de acordo com o censo do IBGE de 1991, corresponde a 50 milhões de crianças entre 0 e 14 anos. De acordo com a Agência de Notícias dos Direitos da Criança - Andi (2004) apud Vasconcelos (2006), são 21 milhões de jovens entre 12 e 17 anos. Estes, são expostos diariamente a televisão durante um período varia de três (Carmona, 1998/2002 apud Vasconcelos, 2006) a quatro horas (Guareschi, 1998/2002 apud Vasconcelos, 2006), sendo esta também a média de exposição dos jovens (Andi, 2004). (VASCONCELOS, 2006, p.357-358) Perante o exposto, pode-se afirmar que a televisão exerce controle sobre a criança, o que, em uma visão analítico-comportamental, corresponde ao efeito de uma determinada fonte de variáveis (a televisão), e de um contexto, sobre o desenvolvimento de alguns padrões de comportamento. Esta é uma concepção diferente daquelas que apresentam o controle enquanto um indicador da eliminação de variabilidade ou de diferenças individuais, produzindo padrões de comportamentos idênticos, entre diferentes organismos. (VASCONCELOS, 2006)

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Mas apenas no século XIX, através de Schleiermacher, em seus vários esboços e discursos acadêmicos, no período de 1805 a 1833, e da sua obra Hermenêutica e crítica, de 1819,