Processo 33/PP/2020-G
Data do documento 8 de janeiro de 2021
Relator
Margarida Simões
CONSELHO GERAL | ADVOCACIA
Parecer do Conselho Geral
DESCRITORES
Recusa de Notário em Aceitar Procuração Para Inventário
SUMÁRIO
N.D.TEXTO INTEGRAL
CONSELHO GERAL PARECER
Processo nº 33/PP/2020-G Objeto: Recusa de Notário em Aceitar Procuração para Inventário Relatora: Dra.
Margarida Simões Aprovação: 8 de Janeiro de 2021 I- PEDIDO DO REQUERENTE
No dia (…), o Ex.mo Colega Dr. (…) veio solicitar ao Conselho Geral da Ordem dos Advogados, parecer sobre a recusa de Notária em aceitar procuração para inventário alegando que: “Perante a primeira recusa de o Cartório da Sr.ª Notária (…) sito (…), em aceitar a procuração, em anexo, alegando que a dita procuração não serve para o processo que está em curso (INVENTÁRIO)por não referir “inventário” na procuração, entende o signatário ser justificada e devida a competente intervenção da Ordem dos Advogados perante tal arbitrariedade, competindo ao Conselho Geral, nos termos estatuários, pronunciar- se, uma vez que, na opinião do ora subscritor: a) Nos termos conjugados dos artigos 9º e 10º ambos do Código Civil, a referida procuração outorgada pela Cabeça de Casal a favor do filho é bastante e suficiente para partilhar os bens no âmbito do inventário, pois a mesma: i) Confere ao filho poderes para partilhar os bens deixados pelo seu pai, nomeadamente “acordando na composição dos quinhões, pagar ou receber tornas se for caso disso, dar ou aceitar quitações, nos termos, cláusulas e condições que entender convenientes, assinando tudo o que se torne necessário ao indicado fim, nomeadamente a escritura de partilha”… Confere ainda poderes ao filho para, ii) Representar a Cabeça de Casal, sua mãe, em quaisquer repartições públicas ou privadas … iii) Representar a cabeça de casal, sua mãe, em qualquer Tribunal ….
(penúltimo parágrafo); iv) E por último confere poderes para celebrar negócio consigo mesmo …. (último
parágrafo). Ora entende o signatário que se confere todos estes poderes e confere poderes para a escritura de partilha, por maioria de razão (tendo em conta nomeadamente o estipulado nos artigos 9º e 10º ambos do Código Civil), também confere poderes, dizia, para o inventário, quer este corra num Notário ou num Tribunal. Razão pela qual o subscritor entende que a Sr.ª Notária em vez de recusar tal procuração teria que a aceitar sem mais, pois a mesma confere poderes bastantes ao seu filho para representar a cabeça de casal, sua mãe, nos autos de Inventário. E se dúvidas houvesse por parte da Sr.ª Notária, por certo que esta poderia recorrer aos meios que tem ao seu dispor, nomeadamente ao Tribunal para sustentar, com base legal, a decisão sobre tal matéria.
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Ao recusar tal procuração de certa forma está a obstar ao livre exercício da advocacia, coisa que acontece com alguma frequência noutros cartórios ao imporem o uso de “minutas” fornecidas pelos mesmos. O subscritor não aceita que o cartório imponha “minutas”, muito menos aceita a recusa da procuração em causa. Entende, pois, o Advogado que não pode compactuar com tais situações arbitrárias e por essa razão pede o presente parecer.” Junta, em anexo, no seu requerimento, cópia da referida procuração, cópia do requerimento por si enviado ao processo de inventário nº (…), a correr termos no Cartório Notarial da Sr.ª Dr.ª (…), sito na (…), em nome do seu constituinte, aí interessado, e procurador, a quem foram conferidos os poderes constantes da referida procuração, pela cabeça de casal sua mãe, na partilha dos bens deixados por óbito de seu pai. Junta a notificação que lhe foi dirigida pela Sr.ª Notária no processo de inventário supra referenciado, com cópia do despacho por esta proferido, no qual relativamente à procuração junta pelo constituinte do requerente se refere o seguinte:
“III – Da procuração junta aos autos a (…) A (…), o interessado (…) veio aos autos juntar procuração forense com poderes gerais a favor do Ilustre advogado Exmo. Senhor Dr. (…). A (…), o interessado (…), através do seu Ilustre mandatário, veio aos autos juntar procuração outorgada a (…) pela ora aqui cabeça de casal (…) a favor do interessado (…). Ora, e como já transmitido informalmente por conversa telefónica estabelecida entre este Cartório Notarial a (…) e o Ilustre mandatário do interessado (…), a procuração apresentada por este último não é bastante nem suficientemente especifica para ser aceite nos presentes autos de inventário, como adiante se explanará. Uma procuração para atos a praticar na conferência preparatória de uma conferência de interessados outorgada de um interessado a outro interessado na partilha de bens de uma herança deve ser entregue nos autos de inventário pelo próprio outorgante, neste caso, pela cabeça de casal (…), e não pelo mandatário do interessado (…), o qual, não é mandatário daquela cabeça de casal. Mesmo que tal entrega fosse admitida, as procurações para os actos a praticar na conferência devem conter poderes especiais, não podendo ter carácter genérico “… no sentido de, por exemplo, de que os poderes são conferidos para intervir em quaisquer partilhas, tornando-se necessário indicar o autor da herança, cuja partilha origina o inventário, e os actos que podem ser praticados na conferência em nome e no interesse do mandante, v.g., o modo por que deve realizar-se a composição do quinhão do representado, a aprovação do passivo…” (Processo de Inventário, Fernando Neto Ferreirinha, 2020, 1ª Edição, página 247 Almedina e também 2ª Edição de 2015, páginas 272 e 273). No entanto, “se a
procuração for passada por um ou mais interessados na herança a favor de outro interessado ou por vários interessados a favor do mesmo procurador, deve, a nosso ver, ir-se mais longe especificando-se nela os termos concretos segundo os quais os representados pretendem ver preenchidos os seus quinhões e os valores atribuídos aos bens que compõem a herança, designadamente as verbas que devem compor, no todos ou em parte, o quinhão do representado, e os valores por que devem ser adjudicados; as verbas ou lotes e respetivos valores a serem objeto de sorteio pelos interessados; a faculdade de se
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chegar a acordo na venda total ou parcial dos bens da herança e na distribuição do produto da alienação pelos diversos interessados (…)” (op.cit). Nenhum dos pontos acima indicados encontra-se explanado na procuração, à qual acresce ter sido outorgada a (...), quando os presentes autos se iniciaram a (…), não se fazendo nela referência a estes autos de inventário. Pelo que não se aceita a procuração apresentada a (…), por genérica e não cumprir os pontos acima referidos, indeferindo-se o requerido pelo interessado (…).”
II) APRECIAÇÃO Conforme se constata do requerimento apresentado, o requerente em face da recusa da Sr.ª Notária em aceitar a procuração anexa, entende ser “justificada e devida a competente intervenção da Ordem dos Advogados perante tal arbitrariedade, competindo ao Conselho Geral nos termos estatutários…”. Mais refere que “Ao recusar tal procuração de certa forma está a obstar ao livre exercício da advocacia, coisa que acontece com alguma frequência noutros cartórios ao imporem o uso de “minutas”
fornecidas pelos mesmos.” Da documentação enviada pelo Sr. Dr. (..), não é referido ter sido junto aos autos de inventário com o requerimento a juntar a referida procuração do cabeça de casal a favor do seu constituinte, qualquer substabelecimento deste a favor do seu advogado. Ao apreciar a procuração junta a tal processo de inventário, verificamos que se estará perante a figura de um mandato representativo, isto é, um contrato pelo qual alguém se obriga a praticar o ato / negócio por conta de outra parte e que lhe confere simultaneamente poderes para o fazer em sua representação: o mandante / representado dá instruções mais ou menos precisas ao mandatário / representante e dessa medida defendendo o espaço de intervenção da vontade do próprio representante. Somos de parecer que estamos perante um verdadeiro mandato representativo, inevitavelmente acompanhado de um “acordo” entre o outorgante / cabeça de casal e o procurador, seu filho, constituinte do requerente, dando-lhe poderes e instruções precisas e bastante detalhadas. Isto é, estamos perante uma procuração de onde consta que a cabeça de casal constitui seu procurador o seu filho, como seu representante, para praticar atos ou negócios jurídicos / contratos em seu nome, atuando o mesmo também por conta da cabeça de casal. No entanto, conforme se extrai da referida procuração, não estamos perante um mandato forense, entendido como um mandato especial que envolve a atribuição de poderes específicos ao mandatário para representar o mandante em todos os atos e termos de um processo principal, e respetivos incidentes, mesmo perante tribunais superiores – art.º 44º do C. P. Civil. Ou seja, o mandato forense é um mandato representativo atípico assente na atribuição de um poder geral para pleitear em juízo e, se expresso, de poderes especiais para confessar, transigir ou desistir em qualquer causa, o que permite ao mandatário realizar, em nome da
parte, todos os atos ordinariamente compreendidos na tramitação dos processos judiciais e outros em que seja admissível a intervenção de advogado. Decorre do art.º 67º do Estatuto da Ordem dos Advogados que Largo de S. Domingos, 14, 1º . 1169-060 Lisboa T. 21 882 35 50 . Fax: 21 886 04 31 E-mail:
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“ 1- Sem prejuízo do disposto na Lei nº 49/2004, de 24 de agosto, considera-se mandato forense: a) O mandato judicial para ser exercido em qualquer tribunal, incluindo os tribunais ou comissões arbitrais e os julgados de paz; b) O exercício do mandato com representação, com poderes para negociar a constituição, alteração ou extinção de relações jurídicas; c) O exercício de qualquer mandato com representação em procedimentos administrativos, incluindo tributários, perante quaisquer pessoas coletivas públicas ou respetivos órgãos ou serviços, ainda que se suscitem ou discutam apenas questões de facto”. Por seu lado, estabelece o art. 2.º da Lei nº 49/2004 (Regime dos Atos Próprios dos advogados e solicitadores) que
“considera-se mandato forense o mandato judicial conferido para ser exercido em qualquer tribunal, incluindo os tribunais ou comissões arbitrais e os julgados de paz”. Decorre das normas referidas, que o EOA prevê um conceito de mandato forense mais abrangente do que a Lei nº 49/2004 que estabelece o Regime dos Atos Próprios dos Advogados e dos Solicitadores. Enquanto nesta Lei nº 49/2004 equipara-se o mandato forense ao mandato judicial, no EOA, o mandato forense envolve não só o mandato judicial, como também a representação ou o exercício do mandato perante outras entidades. Assim, quando alguém atribui poderes forenses a um advogado para o representar, tal não só prevê a representação em tribunal, o também denominado mandato judicial, como também prevê a representação perante quaisquer pessoas coletivas públicas ou respetivos órgãos ou serviços, como são, por exemplo, os Serviços de Finanças e Cartórios Notariais (neste sentido os pareceres do Conselho geral da Ordem dos Advogados nos processos nº 35/PP/2017-G e 35/PP/2018-G). Pelo que teremos de concluir sem mais, que no caso concreto não se está perante o exercício de qualquer mandato forense, até porque não houve substabelecimento por parte do constituinte do Sr. Dr. (…) a favor deste, dos poderes que lhe foram conferidos em tal procuração, pela cabeça de casal, sua mãe. Dispõe o artigo 46º nº 1, alínea d) do Estatuto da Ordem dos Advogados que compete ao Conselho Geral deliberar sobre todos os assuntos que respeitem ao exercício da profissão, aos interesses dos advogados e à gestão da Ordem dos Advogados que não estejam especialmente cometidos a outros órgãos da Ordem, sem prejuízo do disposto no nº 2 do artigo 33º. Pelo que entendemos que, pese embora as razões invocadas pelo Sr. Dr. (…), não é este Conselho Geral competente para apreciar o seu pedido, em face de tal normativo, não estando aqui em causa o mandato forense, mas apenas o mandato representativo entre particulares.
Assim, somos do parecer que este Conselho Geral é incompetente para apreciar tal pedido.
Este é, s.m.o., o nosso parecer que submetemos à deliberação do Conselho Geral.
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Viseu, 31 de dezembro de 2020
A Vogal Conselheira (Margarida Simões)
Aprovado em reunião Plenária do Conselho Geral de 8 de Janeiro de 2021
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Fonte: https://portal.oa.pt