UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
PRÓ-REITORIA PÓS GRADUAÇÃO E PESQUISA
MESTRADO EM PSICOLOGIA
Comportamentos de risco na
alta
adolescência: um estudo de caso
em proposta transdisciplinar.
Gustavo Galli de Amorim
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA - UCB
PRÓ-REITORIA PÓS GRADUAÇÃO E PESQUISA
MESTRADO EM PSICOLOGIA
Comportamentos de risco na
alta
adolescência: um estudo de caso
em proposta transdisciplinar.
Gustavo Galli de Amorim
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Psicologia.
Orientadora:
Professora Doutora Ondina Pena Pereira
Dedicatória
Dedico este trabalho aos anjinhos da guarda, verdadeiras e maravilhosas variáveis intervenientes de todos aqueles que de uma forma ou de outra se expõe ao risco, anjinhos
esses que tanto protegem e permitem, assim preservando a vida, a ampliação da variabilidade e do repertório de respostas, tão necessários a um viver mais maduro, responsável e consciente. Que eles não nos abandonem e que assim se possa melhor e mais aprender com os antecedentes e efeitos das ações e escolhas no mundo – ambiente em contínuo devir no qual o indivíduo tem que fazer-se, assim se havendo consigo mesmo.
E como não dedicar e agradecer a todos os clientes, pacientes, sujeitos, pessoas, indivíduos e existentes a quem tive o privilégio de poder atender, e que, pela riqueza da troca propiciada, possibilitaram o compartilhar de humanidades em sempre novas instâncias e dimensões de
ser. Obrigado pela confiança e pela abertura. Grato sou-lhes pela lembrança contínua do se ter de buscar discernir mapa de território, árvore de floresta, fundo de figura... e do singular o universal, vice-versa e também nada disso.
Dedico este trabalho, por fim, a todos os generalistas,inter, multi e transdisciplinaristas, esses que se arriscam e revolucionam, por entre e através do percorrido e vivido, fecundas e necessárias alquimias leigo ou acadêmicas, digerindo, articulando e transformando especiarias
Agradecimentos
Agradeço ao maravilhoso ambiente no qual venho vivendo e interagindo, aí incluídos minha família de origem (meus pais, Lúcio e Vânia; meus irmãos, Maria e Tomás), por todo o seu apoio disponibilizado; à minha família há mais de uma década constituída na reflexividade
de tão boas escolhas e projetos, família que agüenta o meu “psicologês” e me fornece os reforçadores mais nutritivos para um viver prenhe de sentido – obrigado Soraya (Vidya), admirável, sempre presente e paciente companheira!, Thais e Raquel, filhas-enteadas tão lindas!, e ao Liu Gente Boa, que cão legau!, por serem do jeitinho que são; a meus amigos, com quem compartilho e de quem aprendo a importância da convivência e troca (em especial aos que leram e opinaram sobre o texto antes dele ter sido assado no forno dos prazos finais – especialmente a Geovanna, pela participação no trajeto e a Alberto pela escuta ente os chás de ervas compartidos); a todos os professores e alunos que me expandem o repertório de conhecimento ao longo do incessante percurso de aprendizagem (obrigado, Wander, pela disposição possível; Tânia Mara, pela participação em um momento difícil, e ao Prof. Júlio Cabrera pela oportunidade de desembaçar, quando não momentaneamente desvencilhar-me, das lentes de psicólogo ao longo dos fecundos e instigantes encontros de preceptoria filosófica); e a todos os meus pacientes, esses que desafiam e espelham possibilidades e escolhas tantas...! E a você, “Murilo”, obrigado pela oportunidade do se haver podido realizar isto que se encontra dissertado ante as suas, as nossas, escolhas – guardo boas recordações de nossos encontros e lamento havê-lo recortado com as tesouras acadêmicas e as lentes especialistas de um “estudo de caso”, o qual de fato muito pouco retrata do seu real existir em toda a sua complexa singularidade. Boas escolhas e projetos de vida!
Como não agradecer, muito também, à professora Maria Alexina Ribeiro, quem dadas as circunstâncias acadêmicas de tão mútuas e necessárias decisões, ante os riscos, receios, limites e incertezas afloradas – e desfolhadas, acabou por propiciar todo um novo, prazeroso, desafiante e enriquecedor reaprumado percurso.
Resumo
Este trabalho é resultante do desafio de se buscar ampliar o escopo de compreensão e análise do(s) sentido(s) da manifestação de comportamentos e práticas de risco, com ênfase no consumo de bebidas alcoólicas, no período referido como alta adolescência (a partir dos 17 anos de idade) e no contexto pós-tradicional de uma alta modernidade na qual a vida social implica numa reflexividade que se torna parte das formas de ação adotadas pelos indivíduos e grupos, de tal forma que a modernidade acaba sendo constituída por e através de conhecimento reflexivamente aplicado e socialmente refratado. Ao partir de inquietações advindas da práxis psicológica clínica, pela aplicação de um viés inicial de base comportamental, cada novo encontro clínico realizado com o paciente aqui chamado Murilo – recortado como um estudo de caso propício à discussão da temática em questão – serviu para constatar a importância de se desenvolver um olhar mais abrangente que recorresse a aportes das ciências humanas para uma relativização e expansão de noções como: comportamentos, escolhas e exposição ao “risco”, relacionadas ao indivíduo em sua interação com o mundo. Partiu-se, assim, rumo a uma proposta de investigação efetuada em dimensão transdisciplinar – mais que formulada em meras e habituais descrições e enquadramentos psicológicos comportamentais que priorizam a função e o contexto em detrimento do sentido. O paciente foi abordado na concretude de sua situação e relação existencial, na temporalidade e historicidade de seu existir e ressaltando-se a singularidade ilustrada pela proposta de compreensão do caso, como possibilidade de transcendência de conhecimentos e diagnósticos univocamente psicológicos, para além dos limites de análise das condições espaço-temporais clínicas compartilhadas em consultório.Ao conclamar uma proposta transdisciplinar ao caso e tema foram buscados contribuições e aportes, inter-relacionados em interfaces possíveis, às seguintes áreas: a) princípios teóricos do behaviorismo radical de Skinner, com ênfase para conceitos como história de reforçamento, contingências e metacontingências; b) conceitos da teoria sociológica contemporânea, articulados em noções como modernização reflexiva, auto-monitoração reflexiva de ações e sociedade de riscos; c) aportes da antropologia relacionados aos ritos de passagem/transição e a entrada na vida adulta; e, finalmente, d) aportes da filosofia da existência, a partir da ontologia proposta por Sartre, pensador que discorreu sobre noções como: escolhas, liberdade, projeto, autonomia e autenticidade. O trabalho realizado permite concluir que o ambiente social estimula práticas e comportamentos sem que no entanto sejam fornecidos os recursos, os ambientes e as condições mais propícias para que a exposição ao risco na alta adolescência possa ser vivenciada consciente e auto-recursivamente, no sentido de realizar-se de forma menos danosa à integridade da saúde física, emocional e social dos adolescentes, e de maneira a se propiciar, quem sabe assim, um melhor bem estar, finalidade e sobrevivência não apenas do indivíduo, mas de sua própria espécie.
ABSTRACT
This work results from the challenge of trying to expand the scope of comprehension and analysis of the meaning(s) of manifestation of risk behaviors and practices, with an emphasis on the consumption of alcoholic beverages in the period referred as late adolescence (starting at 17 years of age) and in the post-traditional context of a late modernity in which social life implies in a reflexivity that becomes part of the ways of action adopted by individuals and groups, in such a way that modernity ends up being constituted by and through reflexively applied and socially refracted knowledge. Starting from inquietudes aroused from the clinical psychological praxis, through an initial behaviorist frame, each new clinical session with the patient here called Murilo – portrayed as a case study propitious to the discussion of the theme at hand – helped to evidence the importance of developing a broader glance which wouldcall upon contributions from human sciences in order to relativize and expand notions such as: behaviors, choices and exposure to “risk”, related to the interaction of the individual with the world. The aim was to set out towards a proposal of investigation carried out in a transdiciplinary dimension – beyond the usual descriptions and psychological behavioral frames which prioritize function and context to the detriment of meaning. The patient was approached in the concreteness of his existential relation and situation, in the temporality and historicity of his existence and through the highlighting of the singularity illustrated by the case´s proposal of comprehension, as a possibility of transcendence of solely psychological diagnoses and knowledge, far beyond the limits of analysis and clinical space-time conditions shared in the psychologist’s office. In calling out for a transdisciplinary proposal to the case and theme, contributions and data were interrelated in possible interfaces to the following areas: a) theoretical principles of Skinner´s radical behaviorism, emphasizing concepts such as
history of reinforcement, contingencies and metacontingencies of reinforcement; b) concepts from current sociological theory, articulated in notions like reflexive modernization, self reflexive monitoring of actions and risk society; c) contributions from anthropology related to
rites of passage/transition and the way to adulthood; and, finally, d) contributions from philosophy of existence, from the ontology proposed by Sartre, a thinker who discoursed about notions like: choices, freedom, project, autonomy and authenticity. The work carried out allows for the conclusion that the social environment stimulates practices and behaviors without the provision of adequate resources, environments and propitious conditions so that the exposition to risk in late adolescence may be experienced more consciously and self-resourcefully, in the sense that it be carried out in a less harmful way to the physical, emotional and social health of adolescents, and in a manner to perhaps provide for a better well-being, purpose and survival not only of the individual, but of its own species.
Sumário
INTRODUÇÃO
1
PARTE I – NARRATIVA DO CASO
CAP 1 – Narrativa do caso “Murilo”
a) Considerações prévias
b) Contato inicial e entrevista com a mãe de Murilo
c) Primeiro encontro com Murilo
d) Breve descrição da evolução do caso
20 24 29 34
PARTE II – ADOLESCÊNCIA E RISCO
CAP 2 – Um panorama do desenvolvimento do adolescente
2.1 Características gerais do desenvolvimento na adolescência 37
a) Uma perspectiva histórica
b) Adolescência: em busca de uma definição
c) Puberdade, adolescência e juventude
d) As fases da adolescência
e) O pensamento adolescente
f) Como o adolescente é visto
41 41 42 43 46 47 2.2 A adolescência: um processo psicossocial 49
CAP 3 – Comportamentos de risco
3.1 Comportamentos de risco na adolescência 53
a) Adolescência e saúde
b) Estressores da juventude
c) Álcool, alcoolismo e juventude
54 57 59 3.2 Contextualização do conceito “Risco” 68
a) Uma evolução histórica dos usos do termo risco
b) O conceito moderno de risco
c) Ocorrência do termo risco na mídia
d) A teorização do risco
68 69 71 73
CAP 4 – Teorias de “Exposição ao Risco” na adolescência
77 4.1 A exposição ao risco sob o enfoque de comportamento-problema 77 4.2 A exposição ao risco como elemento dedesenvolvimento normal 79 4.3 A exposição ao risco como resultado do egocentrismo adolescente 80 4.4 A teoria da aprendizagem social 82 4.5 A exposição ao risco como busca de sensação 84
PARTE III – RUMO A UMA PROPOSTA
TRANSDISCIPLINAR DO CASO E TEMA
PRIMEIRO OLHAR:
CAP 5 – Aportes da psicologia: uma perspectiva behaviorista
radical de análise do comportamento
5.1 Princípios conceituais do Behaviorismo Radical 91
a) O Comportamento
b) A noção de Contingências e a análise do comportamento
c)Metacontingências: um recente conceito para o estudo de processos culturais
d)A análise funcional
e) O papel dos efeitosreforçadores e da modelagem do comportamento
95 97 102 108 114 5.2 Elementos para uma análise funcional psicológica do caso Murilo 116
a) Descrição comportamental do caso
b) Demanda e objetivos terapêuticos
c) Contextualização do caso Murilo (históricosdo paciente)
d) Alguns objetivos clínicos alcançados com a terapia
e) Breves elementos para uma “análise metacontingencial”
117 119 124 128 129 5.3 Formulação comportamental do caso 136
EXPANSÃO DO OLHAR:
CAP 6 – Aportes das ciências sociais
156 6.1 Vivendo em uma sociedade de pluralidades, incertezas e riscos 156
a)Alta modernidade, modernidade tardia ou modernização reflexiva b) Ulrich Beck e a sociedade de riscos ou sociedade de incertezas
c)Modernidade e identidade segundo Giddens
d) O psicólogo clínico: mais um especialista?
157 164 166 169 6.2 Ritos de passagem, transiçãoe entrada na vida adulta 174
a) A noção de ritos de passagem
b)Transição à vida adulta em sociedades descontínuas e pós- tradicionais c)Os comportamentos de riscos enquanto ritos de passagem
174 177 183
6.3 A função ritual da psicoterapia: para além da práxis especialista 186
CAP 7 – Aportes da filosofia: uma perspectiva existencialista
194 7.1 A Filosofia e a busca de sentido 194 7.2 Um árduo exercício da escolha: o existencialismo de Sartre 200 7.3 Sartre, fenomenologia e psicologia 206CAP 8 – Aproximações e limites entre o behaviorismo e o
existencialismo
211
8.1 Os limites de uma abordagem behaviorista 211 8.2 Pontos de interface entre as idéias de Sartre e Skinner 227
POR UM NOVO OLHAR:
CAP 9 – Interações entre o behaviorismo, a teoria sociológica e a
filosofia existencialista
244
CAP 10 – Reflexões e desafios que se apresentam
266
CONCLUSÃO 272
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: O continuum de abordagens epistemológicas ao risco 75 Tabela 2: Comparação geral entre os sistemas behavioristas 94 Tabela 3: Ambientes de confiança e risco nas Culturas Pré-Modernas e Modernas
“O conhecimento é, ao mesmo tempo, penetração e
INTRODUÇÃO
Se eu não sou por mim mesmo, quem será? E se eu sou apenas por mim, quem sou eu?1
A ave sai do ovo. O ovo é o mundo.
Quem quiser nascer tem que destruir o mundo.2
Ao longo dos últimos anos, minha atuação profissional de psicólogo clínico tem
possibilitado um rico contato com inúmeros jovens na faixa etária denominada adolescência, sem rigidez na definição das margens etárias. Em consultório e no que se refere mais
especificamente ao atendimento a jovens situados na fase descrita como de alta adolescência, a partir dos 17 anos de idade, não tem sido pouco freqüente o deparar com questões que
envolvem, quer direta ou indiretamente, a exposição desses pacientes a diversos contextos e
práticas de risco.
Essa realidade tem-me levado, a partir da conclusão de uma especialização em análise
clínica do comportamento dentro de uma visão behaviorista radical, a empreender análises
funcionais e formulações de perspectiva comportamental na procura não apenas de uma
compreensão do por que, do para que e do como isso vem se dando na vida e na sociedade dos pacientes atendidos, mas numa busca pelo desenvolvimento de melhores formas e estratégias
de intervenção e prevenção. Contudo, conforme minha atuação clínica vem constatando,
parece que nem as visões nem as análises e o escopo de intervenção do campo estritamente
psicológico têm se revelado suficientes para uma compreensão mais aprofundada das
possibilidades que uma investigação dentro de novas dimensões e olhares ao tema encerram.
Esta dissertação de mestrado é fruto tanto do desafio de se ampliar o escopo de análise
e de intervenção clínica, quanto da certeza das possibilidades de se alargarem as fronteiras, ou
camadas, por assim dizer, dos diversos campos do saber que aportam conhecimento para uma
melhor investigação da temática dos comportamentos e práticas de risco na alta adolescência, de tal forma que uma proposta transdisciplinar se faça não apenas possível, mas sobretudo
oportuna, senão necessária.
Para além do consultório, desenvolvi ao longo de todo o ano de 2005 em uma
renomada instituição da rede particular de ensino de Brasília, projetos na área escolar que
abordaram, quer direta ou indiretamente, o tema dos comportamentos de risco no contexto da
modernidade atual. Trabalhei em estreito contato com a comunidade escolar: seus alunos, pais
de alunos, professores, funcionários, coordenadores escolares e a direção, a partir de um
objetivo traçado que visava expandir o escopo de observação, diálogo e intervenção ante uma
série de temáticas abordadas, organizadas em quatro eixos básicos: auto-estima,
relacionamentos inter e intra-pessoais, sexualidade e drogas. Em tais projetos, proferi palestras
para pais, alunos e professores; formulei e participei de grupos de discussão e consultorias
para os coordenadores escolares e professores; coordenei debates com a comunidade escolar;
ministrei workshops e vivências para os alunos, além de elaborar e fornecer material didático que já abordava, à época e ainda sem uma preocupação maior com um agora sim necessário
rigor acadêmico, a principal temática desta dissertação – os comportamentos e práticas de
risco.
Em psicologia, de um modo geral, entende-se por comportamento de risco o
envolvimento em atividades que podem comprometer a saúde física, mental e social do
indivíduo (Jessor, 1998; Feijó & Oliveira, 2001). O precursor sistema de monitoramento de
comportamentos de risco juvenis – Youth Risk Behavior Surveillance System (YRBSS),
comportamentos que contribuem para violência e ferimentos não-intencionais; ii) uso de
tabaco, iii) uso de álcool e outras drogas; iv) comportamentos sexuais que contribuem para
gravidez não-intencional e doenças sexualmente transmitidas, incluindo a infecção por HIV;
v) comportamentos nutricionais pouco saudáveis; e, vi) falta de prática ou prática de atividade
física inadequada (CDC, 2004). O estudo de caso que embasa este trabalho se deterá mais
especificamente na terceira categoria, sobretudo no que se refere ao consumo abusivo de
bebidas alcoólicas.
A minha escolha de enfoque em uma fase específica da adolescência, denominada por
certos autores como alta-adolescência (Cronau & Brow, 1998) ou adolescência tardia (Leal & Saito, 2001), correspondendo a jovens com idade a partir de 17 anos de idade,deve-se a
uma maior probabilidade de um indivíduo nessa fase de vida se expor ao risco, fato que, por si só e por vezes tantas, implica no motivo principal que leva muitos pais a encaminharem seus
filhos ao consultório de um psicólogo clínico.
Dados corroborados por diversas pesquisas indicam que, de uma forma ou de outra, a
maioria dos jovens nesse período de vida estão se comportando ou escolhendo se comportar, ao se exporem a situações de risco, a despeito da informação que possuem quanto às
conseqüências negativas que tais práticas de risco trazem ao desenvolvimento de sua saúde
física, mental e social. Ao longo das últimas décadas muitos trabalhos empíricos e teóricos
pesquisaram o fenômeno, gerando-se todo um novo e importante aporte de conhecimentos que
aos poucos configura uma explicação mais aprofundada que contempla tanto variáveis
contextuais, culturais e psicossociais, quanto biológicas, biográficas e históricas.
Diversos autores apontam que a exposição ao risco pode ser reconhecida como uma
característica normal do desenvolvimento adolescente e, não raras vezes, tais condutas têm
individualidade e identidade, ao longo das fases de seu ciclo de desenvolvimento vital. Em
tantas outras vezes, ocorrem por influência e pressão do meio em que se encontra inserido,
sobretudo ao se levar em conta que “comportamentos são aprendidos” (Skinner, 1953).
Contudo, se as funções, contextos e fatores de ocorrência e prevalência dos comportamentos
de risco não forem identificados, tais condições podem ocasionar a consolidação destas
atitudes e escolhas, implicando em significativas e preocupantes conseqüências para o
desenvolvimento saudável do jovem nas esferas individual, familiar, escolar e social.
Os comportamentos de risco na adolescência estão entre as principais causas de morte
não naturais dos adolescentes e os óbitos associados a tais condutas vêm aumentando de forma
alarmante ao longo dos anos, fator revelador de um preocupante problema de saúde pública. A
maioria das campanhas e programas de prevenção – de caráter costumeiramente alarmante,
quando não aversivo – tendem a enfatizar, sobremaneira, as conseqüências negativas dos
comportamentos de risco. Tais iniciativas costumam abordar as práticas de risco de forma
compartimentalizada, numa restrita visão de comportamento-problema, o que, na
complexidade do mundo moderno, pouco contribui para uma compreensão mais ampla das
relações funcionais e do sentido de tais condutas em seu contexto cultural de ocorrência e prevalência.
A expansão do habitual enfoque ou olhar psicológicoespecialista – por assim traduzir
o que não somente dessa forma procuro enxergar em minhas análises clínicas – pelo qual
vinha investigando e abordando o fenômeno do papel, do contexto e da função de exposição e
prevalência dos comportamentos e práticas de risco dos jovens pacientes atendidos,
suscitou-me a procura de outros vieses de análise, ou, na tentativa de encontrar uma analogia recursiva
Foi precisamente nesse sentido que me lancei na busca de uma compreensão mais
ampla, de dimensão multidisciplinar, à nível não apenas do alegado domínio do saber
psicológico, mas muito também do cultural, do social e do filosófico, sem pré-domínios assim
tão disciplinarmente delimitados, rumo ao desenvolvimento de uma proposta transdisciplinar
do estudo de caso e do tema abordado. Buscava alcançar uma inter-relação e articulação dessa
compreensão com os conhecimentos e estudos psicológicos com os quais até então me sentia
tão à vontade, mas que teimavam, e teimam, em não se bastarem para uma explicação, a mais
ampla possível, do sentido do envolvimento juvenil com o risco.
Tamanha inquietação ensejou-me a procura de um percurso que não tardou em confluir
em importantes aportes de conhecimentos ediscussões empreendidos por distintos campos de
investigação das ciências humanas, a exemplo de contribuições da antropologia, da teoria
sociológica, do existencialismo e da própria psicologia. Essa perspectiva me reaproximou de
forma nova e expandida ao meu objeto de estudo clínico habitual – a existência dos pacientes
em suas múltiplas, complexas e multi-determinadas interações, traduzidas, numa terminologia
behaviorista, pela ação de “se comportar”, com grande atenção para o contexto ambiental e a
função em que tal comportar-se ocorre e assim adquire sentido.
A partir do ingresso no curso de mestrado, interessei-me em enfatizar a questão do
contexto das escolhas e dos sentidos de exposição e envolvimento com o risco, pensando tanto numa adequada metodologia de trabalho quanto em melhores formas de análise e intervenção
para minha práxis cotidiana, na qual todo paciente atendido é sempre “um novo estudo caso”.
E casos que, em sendo singulares, são também, e sob diversas instâncias, coletivos, novos,
presentes e futuros estudos de caso, inescapáveis às suas intercircunscritas camadas
de certo também diversas e inter-relacionáveis podem ser as camadas e dimensões daquilo que
se conceba e aborde como um risco, um comportamento, uma prática ou mesmo uma escolha.
Uma análise de pesquisas na área não tardou em constatar que a maior parte dos
estudos e pesquisas sobre comportamentos de risco no Brasil são realizados em populações de
classe baixa, seja em jovens em situações de risco/vulnerabilidade (como no caso de meninos
de rua, menores infratores ou jovens institucionalizados), em alunos de escolas públicas ou em
internos de instituições de assistência social. São poucos os dados sobre populações de níveis
econômicos mais elevados, como se afigura a realidade do sujeito analisado pelo estudo de
caso analisado neste trabalho, um jovem da Classe A de um bairro nobre de Brasília3.
Para se chegar a uma explicação mais aprofundada da função e do contexto de
prevalência de comportamentos de risco na adolescência, é primordial que se busque um
entendimento da dimensão psicossocial na qual o jovem se encontra inserido, o que
necessariamente implica em voltar o olhar para a sociedade e a cultura que circunscrevem e
compõem essa dimensão.
Comportamentos adequados ou inadequados são aprendidos e mantidos por uma série
de processos e variáveis, contingências4 e metacontingências (as relações entre práticas culturais e suas conseqüências) que não estão sob o completo conhecimento e controle da
família, da escola e dos demais sistemas nos quais o jovem se relaciona, aí incluído o sistema
formado e o papel desempenhado por um psicólogo que eventualmente o esteja atendendo,
conforme ocorreu e como procurei descrever e discutir ao longo da evolução do caso ilustrado.
3 De acordo com uma das perguntas sobre Classes Sociais no Brasil, do censo de 2007 (Qual a sua classe
social?), a “Classe A” seria aquela na qual a renda domiciliar mensal é superior a 7.600 Reais, o que se aplica ao caso em questão.
4 O termo contingência adquire significados diversos conforme empregado por distintos campos do saber. Ao
Para além do meio familiar e escolar, o ambiente no qual o jovem se relaciona também
está nos modismos, rituais e práticas sociais, na sua rede de relacionamentos, na mídia, no seu
lazer, no seu padrão de consumo, nos seus anseios, valores, percepções e angústias de futuro,
assim como na cultura e no tipo de sociedade da qual faz parte, apenas para citar alguns e sem
perder de vista a situação e condição existencial humana desse jovem enquanto um
“ser-no-mundo”, conceito amplamente desenvolvido por uma série de pensadores existencialistas.
Esta dissertação também se propõe a discutir, entre seus múltiplos e interligados
conteúdos, como a omissão da sociedade em abordar estratégias de enfrentamento para
questões como o consumo de álcool juvenil, pode ser considerada, ela própria, uma prática de
risco, uma vez que delega ao grupo de amigos, à mídia, aos modismos sociais e a uma série de
outras variáveis – aí incluídos os psicólogos e especialistas – o poder de influência sobre os
antecedentes e conseqüentes atrelados às contingências de reforço de uma série de
comportamentos de risco. Proibir, coibir e se omitir sem ensinar ou oferecer alternativas é, em
si, uma perigosa contingência e metacontingência em uma sociedade bastante fértil na
disseminação e manutenção de inúmeros estímulos a reflexivos contextos de incertezas e
riscos.
O sentido do termo reflexividade, conforme vem sendo abordado por autores da
sociologia contemporânea – tendo no inglês Anthony Giddens e no alemão Ulrich Beck os
dois principais expoentes – consiste no fato de que “[...] as práticas sociais são constantemente
examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando
assim constitutivamente seu caráter” (Giddens, 1990/1991, p. 45). A vida social moderna
implica numa reflexividade que se torna parte das formas de ação adotadas pelos indivíduos e
grupos, de tal forma que a modernidade acaba sendo constituída por e através de
Giddens, que a equação entre conhecimento e certeza revelou-se equivocadamente
interpretada, pois ao eco de seu pensamento: “Estamos em grande parte em um mundo que é
inteiramente constituído através de conhecimento reflexivamente aplicado, mas onde, ao
mesmo tempo, não podemos nunca estar seguros de que qualquer elemento dado deste
conhecimento não será revisado” (p. 46).
Conforme denotado pelo prefixo trans, o termo transdisciplinaridade indica aquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além destas. Adquire sentido diferente de pluri ou multi-disciplinaridade, posto que tais termos dizem respeito ao estudo de um objeto, de uma questão, situação ou problema por várias disciplinas
ao mesmo tempo. E é diferente também de inter-disciplinaridade, ao não se restringir a uma mera transferência de métodos de uma disciplina para outra.
De acordo com Nicolescu (em Weill, D’ambrósio & Crema, 1993), o uso do termo
"transdisciplinaridade" remonta a Jean Piaget, quem na década de 70 comentou que, no estágio
das relações interdisciplinares, pode-se esperar o aparecimento de um estágio superior que
seria transdisciplinar, o qual não se contentaria em atingir as interações e reciprocidades entre pesquisas especializadas, mas que no entanto, situaria essas ligações no interior de um sistema
total sem fronteiras estáveis entre as disciplinas.
A transdisciplinaridade implica numa interação entre as disciplinas, onde cada uma delas
busca um além de si, e cuja finalidade é a compreensão do mundo presente, de modo a se
constituir uma unidade plural de conhecimentos. O espaço descontínuo da
transdisciplinaridade advém da dinâmica engendrada pela ação de vários e diferentes níveis de
realidade ao mesmo tempo (Nicolescu, 1999).
Convento de Árrida, em Portugal, no ano de 1994, deixa clara a proposta da
transdiciplinaridade:
A transdiciplinaridade é complementar à abordagem disciplinar: faz emergir da
confrontação das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma
visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as
várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e ultrapassa
(s/num. pág.).
Uma psicologia constituída como saber interdisciplinar não será nunca uma posição
cômoda ou estável, devendo ser capaz de atravessar e ser permanentemente atravessada por
outros saberes, o que, na visão de Figeiredo (2004a), “[...] daria a esta disciplina um curioso aspecto, o de ser, para além da interdisciplinaridade constitutiva e da transdisciplinaridade
obrigatória, um saber fecundamente indisciplinado, ou seja, um saber que pela sua própria
natureza está sempre transgredindo os limites da disciplina” (p. 112). Nenhuma disciplina
científica pode assegurar-se de haver alcançado limites definitivos, devendo tanto estar aberta
a subdivisões internas – a emersão de novas especialidades – como sendo capaz de ajustar-se
ao que se passa nas disciplinas e domínios afins. Figueiredo (2004a) menciona como o saber
interdisciplinar está sempre sujeito a dois riscos: (a) o risco de se descaracterizar e pender
univocamente para algum dos campos que o constituíram; e (b) o risco de fechar-se a outros
saberes, perdendo o seu caráter interdisciplinar ao deixar de ser atravessado por eles, de modo
a enfrentá-los e, na medida do possível, incorporá-los. Conforme discutido pelo referido autor,
uma ciência interdisciplinar que almeje manter-se viva e crescer, precisa abrir-se para uma
prática de pesquisa e um pensamento transdisciplinar, ou seja, “um pensamento que seja
Entendo que o campo da psicologia clínica, muito embora de caráter interventivo e de
tendência crescentemente especialista, se apresenta e revela propício a possíveis recortes e
abordagens multi-teóricas que, ao não confluírem ou refluírem de perigosos dogmatismos ou
ecletismos, permitem aproximar e fazer interagir diversos enfoques e concepções de homem,
num verdadeiro convite para que “pontes entre disciplinas” sejam atravessadas e solidificadas,
rumo a uma fecunda e oportuna circularidade de pensamentos, abordagens, práticas e
intervenções de caráter transdisciplinar.
Esta dissertação foi organizada em três partes interligadas. Na Parte I do trabalho,
intitulada “Narrativa do caso”, optei por apresentar o estudo de caso buscando preservar a sua
cronologia de evolução, redigindo-o em estilo croniqueiro e propositalmente livre de recortes
ou maiores tentativas de apreensão de singularidades, para posteriormente revesti-lo por
múltiplos olhares e concepções teóricas. Meu intuito foi o de buscar envolvê-lo, e não apenas
ao caso, mas ao próprio leitor, como estímulo a que se questione sobre as diversas análises e
visões possíveis, quer pelo prisma psicológico, sociológico, antropológico e o filosófico, e
nunca de forma estanque, mas sim para convergir em olhares e interfaces mais amplos que
transcendam prováveis visões disciplinares estampadas ao caso, propiciando-se todo um
contexto mais vasto de compreensão e discussão da temática abordada.
Ao longo da revisão de literatura efetuada na Parte II do trabalho, dedicada a uma
visão de noções sobre “Adolescência e Risco”, elaborei uma breve síntese das principais
teorias de exposição ao risco na adolescência, quais sejam: o enfoque de
comportamento-problema (Jessor & Jessor, 1977); a exposição ao risco como elemento de desenvolvimento
normal (Erikson, 1968); como resultado do egocentrismo adolescente (Elkind, 1967); a teoria
aproximação ao fenômeno pesquisado que remete a uma contextualização reflexiva dos
desafios históricos apresentados pelas concepções de adolescência, juventude e risco.
A questão do alcoolismo juvenil foi abordada no trabalho de uma forma
indagativamente provocativa, encaminhando a dissertação para sua Parte III, “Rumo a uma
proposta transdisciplinar do caso e tema”, a qual lançou um primeiro olharao caso sob as
lentes e o viés da psicologia, mediante uma análise funcional e formulação comportamental de
perspectiva behaviorista radical, que logo confluiu numa busca de expansão do olhar, por
entre aportes e considerações das ciências humanas, recorrendo-se a sociólogos
contemporâneos que têm destacado o fato de estarmos vivendo um período caracterizado
como de modernidade reflexiva, numa sociedade pós-tradicional (como é o caso de uma
grande parte da sociedade brasileira) e sob condições de incertezas e riscos, nas quais a
auto-identidade dos indivíduos há de ser construída por escolhas constantes sempre abertas à
revisão e a um cada vez mais inescapável exercício de individualização. Foram discutidas, em
seguida, noções antropológicas sobre os “ritos de passagem”, a transição para a vida adulta
em sociedades “descontínuas” e “pós-tradicionais”, e associações que podem ser estabelecidas
para os comportamentos de riscos enquanto ritos de passagem, finalizando com uma discussão
de uma possível função ritual da psicoterapia clínica.
Daí então, e após fazer o existencialismo comparecer ao trabalho, a visão lançada ao
caso se conclamou Por um novo olhar, donde foram buscadas interações entre o
behaviorismo, a teoria sociológica e a filosofia existencialista, como forma de convergir em
reflexões e desafios que se apresentam e relacionam o percurso percorrido aos múltiplos
sentidos encontrados para o ato, comportamento, escolha do querer beber de Murilo,
De modo que ao se dar por entre uma paisagem de caminhos entrelaçados à
proximidade de horizontes que se apresentam multi e transdisciplinares, singulares e ainda assim coletivos, tanto mais o trabalho terá atingido sua meta. Espero haver logrado desdobrar
e relacionar o título do trabalho, Os comportamentos de risco na alta adolescência, a todo um amplo e interligado contexto maior do qual sejam analisadas certas condições e contornos
sociais da atualidade e da própria “condição humana”, de modo a que uma análise do(s)
sentido(s) de exposição ao risco de um sujeito, como o aqui chamado Murilo, recortado pelas
tesouras acadêmicas em um estudo de caso clínico, possa propiciar toda uma discussão,
dimensão e finalidade suscitada pelo sub-título do trabalho, um estudo de caso em proposta transdisciplinar.
Buscar aproximar, articular e transcender os distintos campos do saber previamente
mencionados implicou num movimento que partiu ao encontro de questões assim brevemente
resumidas:
a) inter-relacionar pontos como:
i) uma visão que teima em prevalecer na literatura revisada sobre os comportamentos de
risco que, quando não estanque, se apresenta limitada e limitante, posto que as principais
teorias de explicação da exposição ao risco raras vezes dialogam entre si e a maior parte
das pesquisas parece não conseguir avançar em questões como: a co-variação de
comportamentos de risco; os aspectos reforçadores, ou, dito de forma simples, as
conseqüências positivas envolvidas no engajamento em tais práticas; bem como a quase
inexistência de pesquisas nacionais com populações de classe média/média-alta –
precisamente aquela que costuma, em algum momento, delegar ao psicólogo especialista
como de alta adolescência, dada a iminência de possíveis e preocupantes conseqüências decorrentes de um envolvimento com o risco;
ii) importantes e recentes aportes teóricos do behaviorismo radical – com especial ênfase
para o ainda recente e pouco desenvolvido conceito de metacontingências (as relações
contingentes entre práticas culturais e suas conseqüências, derivadas, mas não
equivalentes, a contingências comportamentais) – e as possibilidades ensejadas por um
diálogo desta abordagem com outros campos das ciências humanas, mesmo quando, em
seu arcabouço conceitual (encapsulado por um cientificismo que para muitos psicólogos e
profissionais de outras áreas transpira um alegado solipsismo teórico que certamente não facilita o conhecimento, a popularização e o convite a um diálogo do behaviorismo com
outras disciplinas), o comportamentalismo inquiete a tantos ao perseverar em descrições de
tal rigor e minúcia dos fenômenos investigados, que, não pouco freqüentemente, acabe por
inviabilizar uma apreensão sintética do fenômeno que seja assim tão insistentemente
“cientificamente” delimitado, pois, como bem cabe fazer refletir: será que muito descrever
e funcionalizar se traduzirá sempre como lograr explicar? Ou, dito de outra forma, qual seria o limite a partir do qual uma descrição se transforma em uma explicação que revele
também o(s) sentido(s)? E como seria possível ao behaviorismo, portanto, dentro da
temática da busca de uma explicação para o contexto de manifestação dos comportamentos
de risco e a partir do material aportado pelo estudo de caso relatado, dialogar com outros
campos do saber de modo a se atingirem explicações que inter-relacionem conhecimentos
de um modo que não se restrinja apenas à compreensão de especialistas comportamentais?
Afinal, qual o sentido que um behaviorista atribuiria à exposição e condutas de risco na
por conseqüências em três níveis proposta por Skinner podem contribuir para o
aprofundamento de uma discussão sobre o tema abordado?
iii) a quase ausência de ritos de iniciação e de passagem apropriados a uma sociedade
moderna que se apresenta descontínua em preparar os jovens para o importante processo de transição da juventude à fase adulta de vida – o que me lançou no campo de
investigação da antropologia na busca de uma compreensão daquilo que se apresenta como
uma “extrema desritualização (ou arritualização) da passagem”, na complexa sociedade
“pós-tradicional” contemporânea – com diversas implicações que podem ser associadas,
portanto, às concepções modernas lançadas sobre a noção de risco.
iv) a constatação de que diversos teóricos sociais vêm se referindo à sociedade ocidental
contemporânea e ao período histórico vivido com adjetivos do tipo: sociedade
pós-tradicional; sociedade informacional globalizada; sociedade de incertezas, ou de riscos;
período de modernização reflexiva; alta modernidade ou modernidade tardia, e, ainda, modernidade pluralista – o que certamente confere novos enfoques e concepções para as muitas dimensões e vernizes vertidos ou convertidos sobre o termo risco, o qual tanto pode relacionar-se a perigo, ameaça, probabilidade e perda, ou, conforme se discutirá também, ao descortinamento de possibilidades, à promoção de experimentação e variabilidade, ao
confronto com as condições de liberdade, ao desenvolvimento de maturidade,
independência e autonomia, e, sobretudo, às ricas oportunidades para o exercício e auto-responsabilização por decisões e escolhasindividuais – matéria prima do projeto de si;
v) da atitude crítica filosófica: importantes e necessários questionamentos levantados pela
filosofia existencialista de Sartre, pensador que tanto versou sobre tópicos recém aludidos,
modernização reflexiva vivida – e mais ainda ao se discutir a dimensão ontológica do ser humano em seu estar-aí no mundo, havendo-se com a existência que o insta a fazer-se
escolhendo-se a si mesmo.
b) a metodologia adotada, um estudo de caso clínico que se abordou como oferecido à
possibilidade de um prisma de análise de dimensão multi-disciplinar, rumo a construção de
uma proposta transdisciplinar para melhor compreender o sentido de comportamentos e
práticas de risco de jovens na alta-adolescência e numa modernidade reflexiva – com especial ênfase para a questão do consumo de bebidas alcoólicas; e, finalmente, constatações sobre:
c) a retumbância de minha própria realidade profissional, acadêmica e pessoal ao tratamento
dado ao caso apresentado, no sentido que minha trajetória de formação e atuação profissional
passou por campos diversos, transitando entre uma quase conclusa graduação em filosofia, o
interesse sempre presente pelas ciências humanas e a escolha última pela psicologia como
campo de atuação, refletindo, assim, muito de minha própria história de vida ao processo de
composição da paleta empunhada para as análises e intervenções realizadas, dentro e fora do
consultório, na pintura dos posicionamentos e análises das questões que refletem essa
sociedade, cultura e a própria psicologia, das quais entendo sermos todos co-criadores,
receptores e agentes. O que, concluindo, faz deste trabalho um convite aberto para que
especialistas de todas as ciências contemplem a possibilidade de se desenvolver, a partir de um
estudo de caso apresentado, um olhar e viés de análise generalista e transdisciplinar.
A escolha do estudo de caso enquanto metodologia, como bem apontado por Diniz
(1999), deve-se ao fato do estudo de caso ter um caráter exploratório e destinar-se à apreensão
de um problema nos seus diferentes traços, o que gera uma ruptura do senso comum com
relação ao tema estudado por meio de um processo de compreensão dos elementos mais
Martinelli (1999) salienta que, na pesquisa qualitativa, é necessário que se reconheça a
singularidade do sujeito, onde conhecê-lo significa permitir que ele se manifeste através do
seu discurso e da sua ação. Além disso, o importante seria conhecer o modo de vida do sujeito,
ou seja, o modo como o sujeito constrói e vive a sua vida, e não apenas as suas condições de
vida como renda e moradia. Dessa forma, o pesquisador vai à procura dos significados que
uma vivência tem para um determinado sujeito.
Em consonância com essa postura, o estudo de caso é um dos métodos adotados na
pesquisa qualitativa por propiciar, segundo Lüdke e André (1999), a emersão de novos
elementos que não faziam parte dos pressupostos do pesquisador, bem como uma
interpretação das situações no contexto em que o fenômeno ocorre; além de buscar retratar a
realidade de forma completa e profunda, com vista a permitir a generalização naturalística, de
modo que o leitor possa verificar o que se poderá aplicar de um determinado estudo de caso
para uma situação com a qual venha a tomar contato. De forma geral, o estudo de caso é um
estudo em que se pretende saber como e/ou por que um determinado fenômeno ocorre,
empregado quando se pretende analisar situações concretas com certa complexidade, nas suas
particularidades.
De acordo com Yin (2002), o estudo de caso é uma inquirição empírica que investiga
um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da vida real, quando a fronteira entre o
fenômeno e o contexto não é claramente evidente e onde múltiplas fontes de evidência são
utilizadas. Dessa forma, o conhecimento que o estudo de caso gera é um conhecimento mais
concreto, contextualizado e mais voltado para a interpretação do leitor, uma vez que o leitor ao
generalizar o estudo para uma população de referência, participa da pesquisa. Nesse sentido, a
O paciente cujo atendimento embasa o estudo de caso discutido neste trabalho, um
jovem de 16 anos de idade (logo transformados em 17, pouco decorrido o início do
atendimento) a quem chamei ficticiamente de “Murilo”, chegou-me através de um contato
telefônico estabelecido por sua mãe, que procurava um psicólogo, especialista, para atendê-lo
em uma série de queixas que envolviam, ao eco do relato materno e de forma resumida,
questões como: (a) graves riscos impingidos à própria saúde devido à ingestão descontrolada
de bebidas alcoólicas; (b) a preocupante influência negativa para a vida de Murilo de muitos
de seus pares; (c) dificuldades de relacionamento inter-pessoal entre mãe e filho (sobretudo
por parte da mãe); (d) uma diminuição em seu rendimento escolar, e, (e) a necessidade de
definições vocacionais iminentes em função da proximidade do processo seletivo de entrada
para uma vaga em uma boa universidade pública.
Uma boa experiência clínica não demora em perceber as distintas dimensões e
implicações daquilo que, se num primeiro desponta como queixa, logo se desdobra e revela
enquanto subjacente demanda de questões a serem efetivamente abordadas e trabalhadas.
Recorrendo a um conhecido binômio da psicologia gestáltica, como analogia, poder-se-ia
conceber as queixas iniciais como figuras que sobressaem de um fundo (ou de uma demanda) do qual essas figuras, ou queixas despontam. Assim como parece não fazer sentido aludir a
figuras sem fundo, tampouco costumam se apresentar queixas que não apontem para
demandas efetivas de trabalho. Em palavras outras: aquilo que para os pais de Murilo –
quando não para a sociedade, como lamentavelmente costuma ser o caso – era visto como
risco no sentido de perigo e ameaça, antes eram, para Murilo, oportunidade, possibilidade e
condição de desenvolvimento de uma necessária independência e autonomiapelo exercício da
liberdade, embrionária nas suas escolhas de exposição e aprendizagem com o risco; uma
e escola, como muito também pelo meio social que isso não lhe propiciava; uma tentativa de
autonomia (no sentido de auto-gestão e auto-fundação) que possibilitava a Murilo, em decurso
de sua exposição deliberada ao risco, uma amplitude na variabilidade do seu comportar-se.
Essa variabilidade propiciava a Murilo o desenvolvimento de importantes repertórios para ele
se haver com o seu momento existencial de jovem à beira da maioridade socialmente definida,
mas não assim estabelecida, num mundo em constantes, aceleradas, incertas, pluralistas,
reflexivas e arriscadas transformações.
Para o existir de Murilo, mais parece que não arriscar-se seria, isso sim, um enorme e
improfícuo risco, o risco de não se confrontar e constituir o seu ser-no-mundo pelo seu fazer e
agir no mundo, ante a inescapável finitude da existência que, por sua facticidade, conclama à
ação e ao desafio da autenticidade e autonomia pela escolha, com enormes riscos envolvidos
ante a incerteza de como se deve ser e o que fazer de si neste mundo.
As queixas da mãe de Murilo apontavam, portanto, para uma provável demanda de um
trabalho clínico que logo iria ao encontro de importantes e destacadas questões existenciais
como: liberdade, responsabilidade, projeto, escolhas e autonomia, todas estas intrinsecamente
relacionáveis à temática da exposição ao risco, e todas elas questões abordadas e discutidas
por diversas perspectivas filosóficas, sociológicas e psicológicas, mesmo quando isso tenda a
ocorrer de forma setorizada, em perspectivas geralmente enfocadas por um olhar de alcance
uni, ou, quando muito, multi-disciplinar.
Há de se alertar quanto à impossibilidade de se lograr, ao âmbito e alcance de uma
dissertação de mestrado, articular todo o material suscitado pelo caso e pela ampla (e que
espero não haja sido fatigante) revisão de literatura efetuada, com os pontos e possibilidades
Caberá, pois, ao próprio leitor – num convite embutido de uma proposta de reflexão (e
reflexividade) quanto às múltiplas e complexas possibilidades de análise e discussão do tema,
mais do que do estudo de caso apresentado – buscar elucidar, naquilo que a leitura do trabalho
desvelar oportuno, uma expansibilidade do caso “Murilo” que possibilite, quem sabe, o
empreendimento de uma verdadeira e singular análise trans-caso. Uma análise de alcance e
dimensão multi e transdisciplinar para a investigação da questão da exposição a
comportamentos de risco na alta adolescência, e não apenas na de Murilo, dentro dos
contornos de uma também alta modernidade reflexiva.
Afinal, conforme bem caberia indagar, existe indivíduo que não se constitua coletiva e
socialmente, ao mesmo tempo receptor, reprodutor e também agente da cultura na qual suas
práticas e comportamentos adquirem função, contexto e sentido? Existiriam atos, condutas,
hábitos, comportamentos, práticas, ou seja lá o que for do repertório das possibilidades do
humano, que não se tenha procurado entender sob prismas aparentemente tão diversos – e tão
possivelmente confluentes – como os das ciências humanas, em suas abordagens e recortes
referidos como psicologia, antropologia, sociologia e filosofia, apenas para citar alguns? E de
que forma e/ou sob quais condições se poderia, então, buscar relacionar tais aportes
multi-disciplinares a uma proposta de dimensão e alcance transdisciplinar, de modo a possibilitar
uma melhor compreensão da questão da exposição a comportamentos de risco na alta
adolescência de um indivíduo cuja existência transcorre num período de modernização
reflexiva e que ao longo de nove meses freqüentou o consultório de um psicólogo clínico que o confrontou não apenas com os antecedentes e conseqüentes de suas ações, mas com a sua
própria condição de existente (embora não tanto, ao momento efetivo dos encontros clínicos
É o que procurei investigar ao estudar o tema a partir daquilo que o caso Murilo toca,
em suas muitas camadas inter-comunicantes, dentro do que se vier a chamar e conceber como
o risco de tais comportamentos e práticas, em concepções e conceitos que, para além de múltiplos, revelam-se todos eles oportunos, co-relacionáveis e, por que não, multi, inter e
transdisciplinarmente necessários.
CAPÍTULO 1 – Narrativa do caso “Murilo”
a) Considerações prévias
Uma importante consideração que o leitor há de ter presente ao abordar o caso “Murilo”,
nome fictício do paciente5 que embasa o estudo de caso apresentado neste trabalho, refere-se
ao fato deste caso atendido em minha clínica particular ter-se iniciado cerca de dois anos antes
de meu ingresso no curso de mestrado. Isso implica que os dados coletados para o caso não
atenderam a um maior rigor metodológico que aquele habitualmente conferido aos meus
atendimentos corriqueiros, não havendo sido, portanto, registrados na íntegra para posteriores
análises recursivas.
Quando já aluno do mestrado e havendo me decidido pela metodologia do “estudo de
caso” para a dissertação, o que se deu cerca de um ano após o encerramento do trabalho com
Murilo, resolvi procurá-lo de modo a sondá-lo sobre seu interesse em participar de minha
pesquisa de mestrado, explicando-lhe tanto a intenção de meu projeto quanto a necessidade de
obtenção de sua assinatura em um “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido” que
atendesse a todos os esclarecimentos e limites pressupostos por tal instrumento. O termo
firmado por Murilo se encontra anexado ao trabalho. Nesse encontro pessoal com Murilo,
entreguei-lhe sob forma impressa uma grande parte da revisão de literatura até então efetuada,
de modo a que ele tivesse uma idéia clara da temática, da metodologia e da finalidade do
trabalho antes da assinatura do termo.
5 Paciente, sujeito, cliente, indivíduo, ser, ente, pessoa... como é difícil restringir a uma só palavra a
Uma outra necessária consideração refere-se aos dados utilizados no trabalho. Com a
passagem dos anos, minha prática clínica consolidou o hábito de efetuar o registro das notas
de sessão em cadernos que subdivido para cada paciente atendido, meio oportuno que
encontrei para coletar e registrar desde dados biográficos, genograma6 familiar, observações
de reações e estados afetivos, respostas ou comentários que me chamaram a atenção nas
sessões, até frases literais verbalizadas pelo paciente (ou por mim mesmo) e atividades
realizadas em sessão, bem como o registro de tarefas sugeridas para casa e possíveis pontos
dignos de serem retomados em futuros encontros. A maior parte desses registros dão-se ao
longo do transcurso das sessões, embora em muitos casos o caderno também receba anotações
posteriores à partida do paciente, entre um e outro atendimento, quando o tempo, a
necessidade ou o interesse assim as justifiquem.
No que se refere aos dados técnicos do atendimento, saiba-se que Murilo foi atendido
ao longo de um total de 21 sessões, transcorridas num período de 9 meses. Nos atendimentos
prestados a menores de idade tenho por hábito agendar um primeiro encontro, ou “sessão
devolutiva”, com os responsáveis do paciente atendido, o que costuma ocorrer entre a terceira
e a quinta sessão, sem a presença do paciente. A depender da evolução do caso e da
disponibilidade e/ou interesse dos pais, é possível que outras sessões devolutivas venham a ser
marcadas, intercaladas a cada 5 ou 6 sessões do paciente atendido. Eventualmente pode
ocorrer desses encontros contarem com a presença de todos, paciente e pais ou responsáveis,
desde que com o consentimento prévio do paciente. No que se refere ao caso Murilo, a mãe
dele compareceu aos três encontros marcados especificamente para os pais, já o pai de Murilo
compareceu a apenas uma dessas sessões, na companhia da esposa.
As frases apresentadas ao longo da narrativa do caso que aparecerem entre aspas e em
itálico dizem respeito a frases verbalizadas por Murilo ou por um de seus pais, conforme
foram registradas no caderno de anotações. E aqui cabe uma importante ressalva, posto que o
dinamismo inerente ao transcurso dos diálogos reais ocorridos nas sessões pode resultar numa
imprecisão da literalidade das frases efetivamente transcritas para o caderno de notas de
sessão, implicando, portanto, numa provável perda da fidedignidade das mesmas, o que
somente se evitaria pelo registro integral, sob a forma gravada e/ou filmada das sessões. Ainda
assim, e conforme espero deixar claro pela própria construção e evolução do texto deste
trabalho, bem como pela forma como o caso foi tratado, entendo que isso não traga prejuízos
às articulações teóricas, discussões e conclusões empreendidas a partir dos dados
apresentados. Na eventualidade da leitura do texto por parte de algum dos envolvidos citados
não coincidir em uma mesma memória, saiba-se que procurei me ater ao máximo, e sempre
dentro do possível, aos registros de sessão.
Quanto aos pais de Murilo, entendo seja justo mencionar que estes não foram
consultados sobre a participação do filho na pesquisa de mestrado, o que de fato não seria
necessário, dada a maioridade de Murilo ao momento da assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido, uma decisão que espero melhor se esclareça em motivos e
finalidade conforme a leitura do trabalho avance.
Devo pontuar ainda que, ao me empenhar em preservar a identidade dos envolvidos,
dentro de um máximo rigor e senso de ética possível, algumas informações de certo podem ter
sido omitidas ou levemente alteradas de modo a não possibilitar a identificação dos indivíduos
envolvidos citados no caso. Como dificilmente se daria o contrário, em se tratando da
questões referentes aos pais de Murilo, mesmo quando pudessem revelar-se pertinentes à
discussão do caso.
Para finalizar, manifesto que não foi tarefa fácil, mesmo a partir das possibilidades
auferidas pela assinatura do Termo de Livre Consentimento Esclarecido, articular o conteúdo
do material surgido ao longo das sessões à descrição, dentro de pressupostos
ético-metodológicos, de um caso que passa a ser tornado público e aprofundado como elemento
chave de uma dissertação de mestrado.
b) Contato inicial e entrevista com a mãe de Murilo
No ofício de psicólogo clínico costumo me valer da conversa ao telefone como
primeiro instrumento de contato com possíveis novos pacientes a serem atendidos em minha
clínica. Isso porque a maior parte de minha clientela chega a partir de indicações de pacientes
e ex-pacientes, alunos, amigos ou clientes, bem como do público em geral a quem presto ou
prestei algum tipo de serviço, seja na forma de atendimentos, consultorias, projetos, palestras,
aulas, entrevistas, aconselhamento ou a partir de uma simples conversa. E com “Murilo”, não
foi diferente. Eu vinha realizando um projeto na área escolar ao longo do segundo semestre do
ano de 2004 e a mãe de Murilo pedira à coordenação dessa antiga escola do filho uma
indicação de um psicólogo particular para atendê-lo, mais especificamente, conforme
salientado no pedido dela, um psicólogo do sexo masculino.
Após um primeiro contato telefônico por ela estabelecido, agendamos uma entrevista
prévia, ou primeiro encontro, como assim dou início aos atendimentos a pacientes abaixo da
idade considerada pela constituição como de maioridade, um primeiro encontro com os
responsáveis do jovem que possivelmente venha a ser atendido. E aqui cabe uma ressalva
profissional de saúde adequado para trabalhar com o(s) filho(s), como estabelecer o contato
telefônico inicial, comparecer ao primeiro encontro no consultório e acompanhar com um
maior envolvimento e dedicação o transcurso do trabalho realizado.
De modo que assim começa nosso caso, numa agradável tarde do findar de um
primaveril mês de novembro de 2004, ao receber a visita de mais uma mãe desacompanhada
para dela ouvir, junto aos primeiros goles mútuos de café, as queixas que motivaram os pais de
Murilo a recorrer a um psicólogo homem em busca de soluções – que não tão instantâneas e
solúveis quanto a bebida compartida.
A entrevista
Ouvir, importante e necessária ferramenta do psicólogo. Ouvidos que acolhem o relato
que chega e que assim aporta elementos primeiros para observações iniciais. Após
apresentações recíprocas e esclarecimentos prestados, sob pedidos dela, quanto ao projeto que
realizara na escola que me havia indicado, “Mirtre” – assim me referirei à mãe de Murilo, foi
objetiva em relatar o porquê de procurar um psicólogo do sexo masculino para atender o filho,
expressando em tom sério e suave a seguinte queixa inicial:
- “Murilo é um bom menino, mas está sendo muito influenciado por preocupantes amizades com colegas... colegas da atual escola, da antiga escola e de nossa quadra7”.
E veja-se que Mirtre não se furtou em “dar nome aos bois”, listando, quando indagada, de
nomes a motivos para a rejeição que tinha aos amigos do filho que tanto a incomodavam,
apenas para denunciar, em seqüência, que o filho vinha mudando muito ultimamente, e que:
7 O termo Quadra refere-se a uma típica área residencial da classe média/média alta do plano piloto de Brasília.
- “... a situação chegou a um limite. É preciso fazer alguma coisa. Estamos muito preocupados ... Acho que Murilo será melhor tratado por um psicólogo homem... acho que isso será mais adequado ao momento pelo qual ele está passando”.
Uma primeira contextualização sócio-econômica da família de Murilo aponta para um
confortável padrão de vida. Ele é o primogênito de uma família constituída por uma irmã três
anos mais jovem e por seus pais, ambos profissionais atuantes na área de saúde, o que
proporciona à família um elevado padrão aquisitivo e cultural que possibilitou Murilo residir
em boas residências e estudar sempre nas melhores escolas, usufruindo e beneficiando-se do
típico padrão de vida de um jovem da classe média-alta da capital do país.
Independente de sua classe social e de acordo com as estatísticas, Murilo é um dos 34.1
milhões de brasileiros entre 15 e 24 anos, faixa etária que representa 20,1% da população
geral brasileira. Desse total, 32% tem de 15 a 17 anos, 30% tem de 18 a 20 anos e 38% tem de
21 a 24 anos. Murilo ajuda a compor o percentual de 71% dos jovens brasileiros que
cresceram em contextos urbanos.
Com idade bem próxima aos 17 anos de idade, Murilo aparenta levar uma vida normal
para a idade, sai com os amigos para churrascos, freqüenta ocasionais festas e eventos nos
salões de festas e nas casas de colegas, assiste a filmes em cinemas com a turma e passeia nos
shoppings e clubes da cidade. Também pratica esportes, estuda idiomas e se dedica com afinco
aos estudos, com liberdade para freqüentar os lares de diversos de seus pares e sair para se
divertir com os amigos aos finais de semana. Vez que outra, ocupa o pouco tempo livre que
lhe resta comunicando-se com os amigos pelo computador, através da internet, ou ao telefone.
Como principal queixa apresentada, Mirtre destacou que acha o filho uma pessoa
haver perdido o sentido e ficado inconsciente, precisando de atendimento médico emergencial
em duas dessas ocasiões. E, o pior, na última vez em que isso ocorrera, Murilo foi deixado por
um grupo de amigos, em estado deplorável, na emergência do hospital em que o próprio pai
trabalhava, dando entrada com um quadro caracterizado como de pré-coma alcoólico.
- “Essa foi a gota d´água”, emocionou-se a mãe, “Nós não sabemos mais o que fazer. Ele desrespeita as proibições do pai... mas sempre foi um menino tão obediente! Ele precisa de ajuda, precisa de um tratamento... precisa conversar e se abrir com alguém...”.
Ao prosseguir, Mirtre relatou que o rendimento escolar do filho, quem sempre estivera
entre os melhores alunos, vinha caindo. Insistia que: “ele não é mais o mesmo de antes”,
embora fosse “um bom menino e que nunca deu muito trabalho antes”. Mencionou que a
última mudança de escola, quando da transição do filho para o ensino médio, implicou numa
lenta adaptação à nova instituição de ensino, mas que após o transcurso de um semestre,
Murilo parecia finalmente satisfeito, incomodando-a, contudo, que tivesse mantido as antigas
amizades.
Mirtre compartilhou ainda, em tom confessional, que após o nascimento de Murilo ela
fora acometida por uma intensa depressão pós-parto, levantando com isso a possibilidade
quanto a muitas de suas alegadas dificuldades de relacionamento com o filho estarem
relacionadas a esse difícil momento de vida. Ela sentia que deveria buscar se aproximar mais
do filho, relatando uma dificuldade de se abrir com ele. Mirtre também fez questão de pontuar
que havia um perigoso e preocupante histórico de alcoolismo na família, por parte de alguns
parentes, e que tanto ela e o marido estavam muito preocupados com os arriscados hábitos
que o filho vinha desenvolvendo. Ela frisou, sem margens a dúvidas, a visão patológica que
ela e o marido, ambos médicos, lançavam sobre o envolvimento do filho com o consumo