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Parte II ADOLESCÊNCIA E RISCO

CAPÍTULO 3 – Comportamentos de risco

3.2 Contextualização do conceito Risco

“Tomar o caminho certo é uma chance, perdê-lo é, assim dizer, um risco”.16

Os sentidos atribuídos ao termo “risco” nem sempre apontam para um mesmo significado, vinculados que estão ao contexto histórico em que se concretizam. No mundo globalizado da pluralista sociedade informacional atual, a própria percepção do risco se dá para além das fronteiras subjetivas individuais, influenciada pela crescente expansão das fronteiras espaciais e temporais, bem como de limites territoriais cada vez mais amplos e interligados.

a) Uma evolução histórica dos usos do termo risco

Ao longo dos séculos o termo “risco” mudou seu sentido, com um uso que tem se tornado mais comumente aplicado a uma série de situações e contextos. Luhmann (1993) menciona que a palavra “risco” aparece na literatura alemã no meio do século dezesseis e na língua inglesa cerca de um século depois, embora desde a renascença o termo latim riscum já fosse empregado em países como a Alemanha.

Diversos autores relacionam a emergência e o conceito do termo com os empreendimentos marítimos, de forma que um primeiro sentido de risco estaria atrelado ao seguro marítimo e aos perigos que poderiam comprometer uma viagem – o que possibilita, por analogia e num sentido simbólico, contemplar a transição da alta adolescência para a fase adulta e mais autônoma de vida como uma “viagem” para a qual não há “garantias” asseguradas de sucesso, estando envolvidos, portanto, uma série de riscos nesse incerto processo.

Ao comentar como a noção antiga de risco excluía a idéia de falha humana e responsabilidade, Luhmann, escreve que “[N]aquela época, risco designava a possibilidade de um perigo objetivo, um ato de Deus, uma força, uma tempestade ou outro perigo do mar que não podia ser imputado a uma conduta equivocada” (p. 226). Sendo assim, não restava muito ao homem a não ser tentar estimar a probabilidade de tais eventos e buscar tomar providências para reduzir o seu impacto.

Ao comentar a ambigüidade do conceito risco, Beck (2006) menciona que a palavra

risco parece ter vindo para o inglês do português ou do espanhol, usada para se referir à

navegação em águas não mapeadas, uma noção que é inseparável da condição de modernidade, de emoção, de aventura.

Mudanças nos significados e usos do termo risco estão associados com a emergência da modernidade, atravessando o século dezessete e se fortalecendo ao longo do século dezoito, mediante o desenvolvimento da ciência probabilística e estatística, campos que se tornariam importantes para a noção técnica moderna de risco. O século dezenove assistiu a uma expansão da noção de risco, uma vez que este não se localizava mais exclusivamente na natureza, mas “[...] também nos seres humanos, em suas condutas, em sua liberdade, nas relações entre si, no fato de sua associação, na sociedade” (Edwald, 1993, p. 226, citado por Lupton, 1999, p. 6).

b) O conceito moderno de risco

O conceito moderno de risco representou uma nova forma de enxergar o mundo, em todas as suas manifestações caóticas, incertezas e contingências. Parece que diversas concepções modernas de risco foram construídas na tentativa de se buscar eliminar uma série de indeterminâncias e incertezas da existência, como se fosse possível transformar, com as

ferramentas do cálculo e da estatística, um cosmos indeterminado e incerto em um que seja gerenciável.

A idéia segundo a qual os riscos podem envolver aspectos e serem valorizados, tanto positiva quanto negativamente, também surgiu com a modernidade. Da forma como o risco é abordado na linguagem dos seguros, este se associa tanto a noções de acaso e probabilidade, como atrelado ao sentido de perda e dano. Visto sob tal perspectiva, o risco pode ser entendido como um conceito neutro, o qual denota a probabilidade de um acontecimento associado à magnitude de possíveis prejuízos ou ganhos. De acordo com McCrimmond e Werhrung (1986), a definição de risco perpassa por três condições: (1) uma possibilidade de haver perda; (2) uma possibilidade de ganho; e (3) uma possibilidade de haver aumento ou de diminuição da perda ou dos danos.

Como bem aludido pela antropóloga Mary Douglas (1992), no final do século vinte a palavra risco passou a ser associada com perigo e o binômio alto risco com perigo eminente, o que aponta para uma mudança entre a abordagem calculista probabilística e o uso atual que tende a associar o risco apenas com resultados inesperados ou indesejados.

Na linguagem do senso comum, risco costuma apontar para uma ameaça, um perigo, um dano ou mal, e o uso do termo tem sido empregado nos mais diversos contextos e áreas. Os discursos leigo e especialista têm incorporado o substantivo “risco” e o adjetivo “arriscado” à linguagem descritiva de uma série de processos e aparatos de pesquisa, conhecimento e consultoria, a exemplo de campos especialistas como: análise de risco, avaliação de risco, comunicação de risco e gerenciamento de risco, e em áreas tão diversas quanto a medicina e a saúde pública, o direito, os negócios, as finanças e a indústria, apenas para citar algumas (Lupton, 1999).

Uma pertinente distinção entre risco e perigo é estabelecida por Giddens (1994). O conceito de perigo diria respeito a ameaças que estão envolvidas na busca de resultados desejados, ao passo que risco constituiria uma estimativa acerca do perigo. Giddens (1999/2002) menciona como nos contornos da alta modernidade a expressão “perigo e oportunidade” se aplica às condições do mundo como um todo.

Ao desenvolver o conceito de modernidade como uma ordem pós-tradicional, e não no sentido de uma ordem em que as certezas da tradição e do hábito hajam sido substituídas pela certeza do conhecimento racional, Giddens (1999/2002) não apenas pondera que “em circunstâncias de incerteza e múltipla escolha, as noções de confiança e risco têm aplicação particular” (p. 11), mas que a modernidade é uma cultura do risco, e não no sentido de que a vida social seja inerentemente mais arriscada que antes, pois isso não ocorre para a maioria das pessoas nas sociedades desenvolvidas, mas: “Antes, o conceito de risco se torna fundamental para a maneira como tanto os leigos quanto os especialistas organizam o mundo social” (p. 11) – uma perspectiva que será desenvolvida no Capítulo 6 deste trabalho, no qual serão examinados alguns aportes das ciências sociais ao tema da exposição ao risco.

c) Ocorrência do termo risco na mídia

Ao empreender um estudo analítico sobre a ocorrência do termo risco em títulos de artigos de periódicos acadêmicos, Lupton (1999) menciona haver encontrado estudos que apontam para um aumento exponencial do uso do termo entre os anos de 1966 a 1982, sobretudo após o início da década de 70 e de forma acelerada próximo ao final da década de 80. Um primeiro recurso explicativo para essa constatação aponta para aprimoramentos no cálculo da probabilidade estatística e nos avanços da informática. Mudanças no enfoque do paradigma científico tradicional voltado para um determinismo mono-causal, para novos olhares multi-determinados e complexos de abordagem dos fenômenos, também podem ser

mencionados. Outros estudiosos apontam para mudanças na natureza dos riscos como sendo fatores suscitadores de maiores interesses leigos e científicos, sobretudo em um mundo no qual os próprios riscos têm se tornado mais globalizados e distribuídos.

Em um nível mais amplo de análise pode-se argumentar, também, que o aumento no enfoque dado ao conceito de risco encontra-se embasado nas mudanças inerentes as próprias transformações das sociedades, as quais passaram de estágios pré-modernos para modernos e, atualmente, como proferido por diversos autores, para sociedades avançadamente modernas (ou pós-modernas, como preferem nomear outros teóricos).

O instigante artigo de Spink, Medrado e Mello (2002)17, respalda como “[...] a noção de risco que é própria da modernidade está intimamente relacionada à incorporação cultural da noção de probabilidade” (p. 151). O referido artigo teve por objetivo entender o papel da mídia na circulação e consolidação da linguagem dos riscos mediante uma análise criteriosa efetuada através de três procedimentos de pesquisa: (1) mapeamento da diversidade de termos utilizados para falar sobre possibilidade de ocorrência de eventos concebidos como ocasião para ganho ou perda; (2) análise diacrônica de uma amostra representativa de matérias com a palavra risco no título (1921-1998); e (3) análise do uso da linguagem de risco por área temática (CD-Rom Folha, 1994-1997 – o qual reúne 98.2% dos textos jornalísticos publicados pelo jornal em cada ano). Os autores concluíram que os resultados apontam que o uso da linguagem dos riscos na mídia é recente e diversificado, ora apoiado na linguagem formal do cálculo de risco, ora no uso metafórico do termo para referir-se à desordem na sociedade atual. Para diversos teóricos da sociologia contemporânea, o conceito de risco é central nas condições da modernidade. Tanto Giddens (1999/2002) quanto Beck (1992), por exemplo,

argumentam que na fase de modernidade avançada as decisões são menos racionais e mais arriscadas devido à falta de conhecimento sobre os resultados. O filósofo da existência, Martin Heidegger (1980) concebia o risco como sendo inerente à vida, ao movimento e à possibilidade de escolha, pois o próprio ato de viver implica em correr risco, constituindo-se a incerteza como um componente essencial da própria existência e do conceito de risco.

d) A teorização do risco

O fenômeno do risco e sua percepção têm sido teorizados e abordados de variadas formas na literatura científica. Uma das principais abordagens toma por base a ciência

cognitiva, atrelada ao campo da psicologia e dentro de um enfoque técnico-científico. Uma

visão alternativa advogada por aqueles que estão interessados nos aspectos sociais e culturais do risco é denominada, de forma ampla, de construcionismo social.

Sob a perspectiva de abordagens tecno-científicas, oriundas de distintos campos como a engenharia, a estatística, a economia, a epidemiologia e a psicologia, o risco tende a ser associado com a noção de perigo ou dano a partir de avaliações e cálculos probabilísticos. Nesse sentido o risco tende a ser definido como o produto da probabilidade e das conseqüências de um evento adverso (Lupton, 1999). Dentro de tais áreas tecno-científicas o debate sobre o risco tende a girar em torno de questões e pesquisas sobre: (a) Quão bem um risco foi calculado ou identificado; (b) o nível de gravidade de um risco em termos de seus possíveis efeitos adversos; (c) a precisão da ciência empregada para medir e calcular determinados riscos; (d) Quão inclusivos são os modelos preditivos causais utilizados na busca de compreensão sobre a ocorrência dos riscos e do porquê as pessoas respondem a eles de diferentes formas (ibidem).

É importante se observar, contudo, que sob tais abordagens, uma pergunta que não costuma ser formulada diz respeito à forma como os riscos são construídos como fatos sociais,

pois tais pesquisas tendem a reduzir os sentidos e comportamentos associados com a percepção e avaliação de riscos ao nível individual – como se possível fosse atomizar riscos e comportamentos associados.

Como denotado pelo próprio nome, as perspectivas sócio-culturais de enfoque construcionista tendem a enfatizar os contextos sócio-culturais nos quais os riscos são compreendidos, oriundas que foram de disciplinas como a antropologia cultural, a filosofia, a sociologia, a história, a geografia cultural, entre outras. Tais visões partem de um olhar mais dinâmico, transcendendo a concepção do risco enquanto um fenômeno estático e objetivo, rumo a uma compreensão do risco como sendo um fenômeno continuamente construído e negociado como parte integrante da rede de interação social e formação de sentido. O que é julgado como um risco, dano ou perigo em um contexto histórico-cultural, pode não ser assim considerado em um outro contexto, o que instiga a busca de compreensão quanto à forma como conhecimentos e significados sobre riscos são gerados e desenvolvidos.

Os teóricos com enfoque sócio-cultural podem ser categorizados em ao menos três grandes grupos (Lupton, 1999):

a) A visão da antropóloga Mary Douglas e seus colegas, caracterizada como “a perspectiva simbólica-cultural” – a qual fornece um enfoque sobre o risco que se revela uma importante contraposição ao enfoque individualista que predomina na perspectiva realista;

b) os teóricos da “sociedade de risco”, com os sociólogos Ulrich Beck e Anthony Giddens como principais expoentes – ambos entendendo o conceito do risco como uma temática central de nossa contemporaneidade e como resultante do processo de modernização da sociedade, de tal forma que na sociedade avançadamente moderna os riscos mudaram suas características, com maiores ramificações e impacto sobre o tempo e espaço; e,

c) um terceiro grupo que pode ser descrito como o dos teóricos da “governabilidade”, os quais recorrem ao pensamento do filósofo francês Michel Foucault – quem embora não havendo escrito especificamente sobre o tópico, fez ecoar ao longo de sua vasta obra a importância de se estudar as formas mediante as quais todo um aparato de discursos, estratégias, práticas e instituições vêm a constituir um determinado fenômeno.

Lupton (1999) fornece um interessante modelo de referência (tabela 1) para contrastar as distintas abordagens supra-mencionadas, salvaguardando o fato de que tal esquema acaba por descambar para um certo reducionismo que não leva em conta a consideração de que algumas abordagens podem combinar aspectos de mais de uma das perspectivas categorizadas.

Tabela 1 – O continuum de abordagens epistemológicas ao risco nas ciências sociais

(Reproduzido na íntegra, em tradução livre, de Lupton, 1999, p. 35).

Posição Epistemológica Teorias e perspectivas

associadas

Perguntas-chave

Realista: Risco é uma ameaça, dano ou perigo objetivo que existe e pode ser medido

independentemente de processos sócio-culturais, mas pode ser distorcido ou preconcebido por meio de quadros sócio-culturais de interpretação.

Perspectivas Técnico-científicas A maior parte das teorias da ciência cognitiva

Quais riscos existem? Como devemos gerenciá-los? Como as pessoas respondem cognitivamente ao risco?

Construcionismo fraco: Risco é

uma ameaça, dano ou perigo objetivo que é inevitavelmente mediado através de processos sócio-culturais e nunca pode ser conhecido isolado desses processos.

A perspectiva da “Sociedade de risco”

O estruturalismo crítico

Algumas abordagens psicológicas.

A perspectiva simbólica/cultural,

O estruturalismo funcional, a psicanálise, a fenomenologia.

Qual a relação entre o risco e as estruturas e processos da alta modernidade?

Como o risco é entendido em distintos contextos socioculturais? Por que alguns perigos são selecionados como riscos e outros não? Como um risco opera como uma medida de fronteira simbólica? Quais são as psicodinâmicas de nossas respostas ao risco? Qual é o contexto situado do risco?

Construcionismo forte: Nada é

um risco por si só – aquilo que entendemos como um ‘risco’ (ou um dano, ameaça ou perigo) é um produto de ‘formas de ver’ que são historicamente, socialmente e politicamente contingentes.

A perspectiva. da ‘Governabilidade’, O pós-estruturalismo.

Como os discursos e práticas sobre o risco operam na construção da vida subjetiva e social?

De modo a melhor contextualizar e compreender uma série de implicações de certos comportamentos de Murilo denominados, por um primeiro olhar, como comportamentos de

risco – e ao buscar percorrer, inter-relacionar e atravessar distintos campos do conhecimento

ao longo do trabalho – optei por me deter mais especificamente nos teóricos da assim chamada

sociedade de riscos (e de incertezas, como também aludido por Beck e Giddens), no período

atual de alta modernidade reflexiva, conceitos que serão oportunamente aprofundados no capítulo 6 desta dissertação. Por ora, vale dizer que tais sociólogos estão predominantemente interessados nos processos macro-sociais que eles vêem como característicos da sociedade na modernização reflexiva e sua relação com a conceitualização do risco.

Ao me referir a um primeiro olhar que denomina comportamentos como de risco, faço-o sob a lente do psicólogo, com os óculos de especialista clínico em análise do comportamento que recebeu em seu consultório um paciente cujas principais queixas orbitavam as seguintes questões: (a) um “perigoso” envolvimento e exposição ao risco, pelo consumo abusivo de álcool, e; (b) a susceptibilidade aos relacionamentos inter-pessoais e a dificuldade de enfrentar mudanças. Antes, porém, de esmiuçar o caso Murilo mediante os procedimentos e instrumentos da análise funcional behaviorista, por meio de uma formulação comportamental do caso, apresento de forma abreviada algumas das principais teorias psicológicas de “exposição ao risco” na adolescência.

CAPÍTULO 4 – Teorias de “Exposição ao Risco” na adolescência.

“… How many roads must a man walk down through, before you can call him a man? …”.18

Diversas teorias tentam explicar os determinantes para a exposição ao risco em populações juvenis. De maneira geral, a exposição ao risco tem sido considerada pela literatura psicológica sob o viés de três abordagens distintas, podendo ser tanto (e todas elas, como não?): uma característica da personalidade, um comportamento aprendido ou um fenômeno do desenvolvimento. É inegável que as teorias e abordagens que pesquisam o assunto trazem importantes contribuições para a compreensão do contexto e da função da exposição ao risco, embora não se bastem em explicações mais amplas eaprofundadas.