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Parte II ADOLESCÊNCIA E RISCO

CAPÍTULO 2 – Um panorama do desenvolvimento do adolescente

2.2 A adolescência: um processo psicossocial.

“No mundo moderno, onde o avanço tecnológico na área da comunicação fez confrontar culturas distintas e determinou processos de múltiplas aculturações e de rápidos ajustamentos, o ambiente que serve de pano de fundo do processo adolescente é extremamente mutável”.11

Ao se conceber a adolescência enquanto um processo psicológico e social, há de se ter em conta que ela terá peculiaridades distintas de acordo com o ambiente social, econômico e cultural em que o indivíduo adolescente se desenvolve e encontra inserido. Mas será que é possível se afirmar que existe algo em comum a toda experiência adolescente? Berger (2003) escreve que todos os adolescentes são confrontados com a mesma tarefa no desenvolvimento: “eles devem ajustar suas mudanças de tamanho e forma, com o despertar da sexualidade e com as novas maneiras de pensar. Todos eles se empenham em alcançar a maturidade e a independência econômica que caracterizam a vida adulta” (p. 283).

Em sendo a adolescência um processo psicossocial peculiar ao ambiente social, econômico e cultural no qual o adolescente se encontra inserido, não se pode pressupor um modelo de adolescência imutável, abstrato e universal. Em diversas sociedades tradicionais e menos complexas que a sociedade moderna da qual um jovem como Murilo faz parte, a passagem do período infantil para o período adulto ocorre gradativamente, com a criança recebendo funções e direitos até que atinja uma plena condição de adulto, sem necessariamente apresentar as características do que tem sido constantemente referido como uma antecipada “crise da adolescência”.

Uma característica típica dos contextos urbanos contemporâneos e que muito tem contribuído para mudanças na dinâmica da família, reduzindo significativamente o tempo de

convivência entre pais e filhos, está associada à ampliação das demandas do mundo do trabalho sobre homens e mulheres (Preto, 1994). Na visão de Cavalcanti (1988), o fator econômico não é a única variável sociogênica decisiva para a invenção sociológica da adolescência. Diversos outros fatores hão de ser contemplados, como por exemplo: i) as leis trabalhistas que protegem e limitam o trabalho do menor, diferenciando as condições de trabalho dos adolescentes das do adulto; ii) a implantação e expansão de um sistema educacional democrático de livre acesso à grande massa da população; iii) a postergação da entrada no mercado de trabalho profissional em face da crescente exigência de estágios probatórios e maior número de anos de formação técnica e escolar; iv) o fenômeno da liberação das atividades sexuais sem a contra partida de um casamento prévio para sua concretização, adiando as responsabilidades da vida conjugal. Tudo isso implica que a adolescência não existe à parte de um contexto social definido. Um contexto que é relacional e sistêmico.

Para Cárdenas (2000), o adolescente vive no campo das virtualidades, refletindo acerca do que pode vir a ser, na busca da integração de suas experiências passadas e do desenvolvimento da autoria de seu próprio destino. Segundo McLoyd (2000), o desenvolvimento de cada adolescente se processa contra um fundo cultural de contextos, ou ambientes, que incluem famílias, colegas, escolas, vizinhanças, igrejas, cidades, países, e tantos outros, cada qual com seu legado e trajetória histórica, econômica, social e cultural.

Ao discutir aspectos importantes sobre a adolescência na América Latina, Macedo (1985) reflete que a maioria dos valores básicos da civilização ocidental está associada aos problemas de juventude, ao mesmo tempo em que esta se vê amedrontada por esses mesmo valores. Outeiral (2003) menciona como, ao se estudar a adolescência, há de se considerar que

comum, dependem do contexto psicossocial onde vive o adolescente. Nas classes sociais menos favorecidas, por exemplo, o adolescer tende a começar e a terminar mais cedo, ao passo que em se tratando de classes sociais mais favorecidas ele acontece também mais cedo, embora tenha seu término mais posteriormente.

Na atualidade, a experiência evolutiva dos adolescentes vem sendo entrecortada e influenciada por rápidas e intensas transformações no contexto de uma complexa sociedade moderna, marcada pelo alcance global de diversas práticas culturais em curso – práticas estas que são retroalimentadas, quando não inventadas ou refinadas, por uma poderosa indústria cultural. De tal forma que, nas condições da modernidade, os dilemas e as perspectivas dispostos aos adolescentes contemporâneos são impactados, entre tantos fatores, por: i) acelerados avanços tecnológicos; ii) a instantaneidade de conhecimentos fugazes de rápida difusão; iii) o fenômeno da globalização, propagadora de cenários e condições de risco e incertezas, iv) a pós-tradicionalidade da complexa sociedade moderna ocidental atual; v) o alcance das novas mídias; e, vi) a realidade de crescentes desigualdades sociais – apenas para sinalizar, numa visão panorâmica, o contexto psicossocial moderno ao qual os adolescentes se encontram expostos.

Alguns preocupantes indicadores da realidade social que aflige de forma crescente os adolescentes modernos podem ser constatados pelos seguintes alarmantes fatores: (a) o uso corriqueiro de drogas, álcool e tabaco, em idades cada vez mais precoces, com especial atenção quanto ao aumento do consumo de drogas sintéticas e o emprego de auto-medicação; (b) o envolvimento em atividade sexual promíscua - especialmente perigosa, em vista da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e as DST (doenças sexualmente transmissíveis), bem como o alarmante aumento de casos de gravidez juvenil e prática de abortos; (c) a conduta irresponsável e com freqüência ilegal na condução de veículos

automotivos (a conduta irresponsável dos passageiros também é um fator de risco) aumentando, sobremaneira, a propensão a acidentes – principal causa de morte de adolescentes em famílias de classe social mais elevada; (d) uma grande susceptibilidade à virtualidade dos relacionamentos inter-pessoais modernos, em um mundo cada vez mais inseguro e violento; (e) o aumento nos casos de ideação e tentativas de suicídio, bem como práticas recorrentes de auto-lesão e flagelação; (f) uma alta incidência no aumento de casos de depressão, ansiedade e estresse juvenil; (g) uma baixa resistência à frustração, ausência de comprometimento, disciplina e esforço para o empreendimento e envolvimento em projetos de médio e longo-prazo; (h) exposição gratuita à violência; (i) culto exacerbado ao corpo ideal; (j) comportamentos transgressores da lei; entre tantos outros que poderiam ser mencionados, e todos eles podendo serem qualificados de comportamentos, ou práticas, de risco.