INDIVIDUALISMO
HOLISTA
UMA ARTICULAÇÃO CRÍTICA
DO PENSAMENTO POLÍTICO
DE CHARLES TAYLOR
Diego de Lima Gualda
PRÊMIO DE MELHOR DISSERTAÇÃO DE MESTRADO NO
“Concurso ANPOCS de Obras Científicas
e Teses Universitárias em Ciências Sociais – Edição 2010”
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais
©2011 Diego de Lima Gualda
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G9311 Gualda, Diego de Lima.
Individualismo holista: Uma articulação crítica do pensamento político de Charles Taylor / Diego de Lima Gualda -- Jundiaí, Paco Editorial: 2010.
308 p. c/ Bibliografi a. ISBN: 978-85-64367-10-4
1. Filosofi a política. 2. Charles Taylor. 3. Comunitarismo. 4. Holis-mo. I. Gualda, Diego de Lima. II. Título.
CDD: 190.300
Capa Fernanda Copelli Diagramação e Projeto gráfi co
Laís Foratto Preparação Elisa Santoro Revisão Kátia Ayache 1ª Edição: Maio de 2011 Rua 23 de Maio, 550 Vianelo - Jundiaí-SP - 13207-070
A vida, como a antiga Tebas, tem cem portas. Fechas uma, outras se abrirão. És o último da tua espécie? Virá outra espécie melhor, não feita do mesmo barro, mas da mesma luz. Sim, ho-mem derradeiro, toda a plebe dos espíritos perecerá para sempre; a flor deles é que voltará à terra para reger as coisas. Os tempos se-rão retificados. O mal acabará; os ventos não espalhase-rão mais nem os germes da morte, nem o clamor dos oprimidos, mas tão somen-te a cantiga do amor perene e a benção da universal justiça...
(...)
Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda so-nha com a vida.
(...)
Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.
AGRADECIMENTOS
Um trabalho intelectual como o que segue é paradoxalmente fruto da parcial solidão de seu autor na tentativa de ordenar ideias e visões combi-nada a uma indispensável companhia de familiares, amigos, tutores e co-legas. Sou imensamente grato à minha família e, especialmente, à minha esposa por todo o apoio e compreensão durante o período de concepção desta obra. Aos amigos, retribuo a gentileza do incentivo e da certeza dos resultados deste trabalho nas palavras e gestos. Manifesto meu apreço e especial agradecimento ao meu professor e orientador Cícero Araújo pela paciência e pela preciosa orientação, sem a qual este trabalho não poderia ter se desenvolvido. Agradeço, ainda, aos professores Álvaro de Vita, Luiz Jorge Werneck Vianna e Adrian Lavalle pelos apontamentos e críticas construtivas que desafiaram e enriqueceram o autor e sua obra.
PREFÁCIO
Este livro é resultado de um trabalho de Mestrado no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo. Trabalho excepcio-nal, de altíssima densidade teórica e relevância temática, por isso mesmo merecedor do Prêmio de Melhor Dissertação de Mestrado do Concurso Brasileiro de Obras Ciêntíficas e Teses Universitárias em Ciências Sociais, edição 2010, da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais).
Além de suas qualidades intrínsecas, a obra tem a virtude de trazer ao público brasileiro uma discussão abrangente do pensamento do filó-sofo canadense Charles Taylor, um dos mais profundos e influentes da atualidade. Embora o autor, em sua modéstia, diga tratar-se de uma “in-trodução”, o livro é muito mais do que isso. Sem dúvida, como Taylor é ainda bastante desconhecido no Brasil, Diego Gualda toma o cuidado de fazer, ao longo do texto, explicações de conceitos-chave do filósofo. Mas esse esforço vai além da apresentação, servindo de ponto de partida para uma reconstrução criativa e complexa de todo seu pensamento. Em parti-cular, Diego está preocupado em fazer aquilo que chama de “articulação crítica” da filosofia política tayloriana: algo que não se restrinja à exegese ou comentário, mas desenvolva potencialidades da obra estudada, per-mitindo assim falar de uma contribuição autoral do próprio estudioso. E a elaboração especificamente política de Charles Taylor se presta muito bem a tal empreendimento, desde que nesse âmbito seus argumentos se encontram dispersos e fragmentados na forma de artigos ou ensaios es-critos ao longo da carreira, e mesmo em textos de ocasião, requerendo uma integração mais sistemática à sua filosofia como um todo.
O ponto de partida do livro é por em questão o vínculo de Taylor com o chamado “comunitarismo”, corrente da teoria política contemporânea de origem anglo-saxã, na qual ele costuma ser enquadrado. O comunita-rismo é geralmente entendido como uma crítica e uma alternativa ao pen-samento político liberal, especialmente sua versão rejuvenescida a partir da obra do filósofo norte-americano John Rawls, tomada como uma cor-rente individualista. Nesse enquadramento, teríamos, simplificadamente, duas tendências políticas opostas do debate teórico, uma que coloca em
seu centro o valor da comunidade e a outra, o do indíviduo. Logo de início, Diego Gualda marca uma distância em relação a essas opções, valendo-se para tanto de um artigo de Taylor, “Propósitos entrelaçados: o debate liberal-comunitarista”, publicado na coletânea Argumentos Filo-sóficos. Ali, o filósofo propõe uma separação de argumentos que, no de-bate entre os expoentes das duas tendências, aparecem inadvertidamente misturados. Por um lado, temos os argumentos que se preocupam com aquilo que consideramos os termos últimos “na ordem da explicação”; por outro, os argumentos “de defesa”, que procuram constituir uma po-sição política ou moral, uma proposta de intervenção prática. Para usar o jargão filosófico, argumentos ontológicos e normativos. Taylor discute não só a importância de respeitar a distinção desses níveis, mas também os motivos que levam à tendência de confundir posições filosóficas num nível a partir de posições no outro nível. Assim, o atomismo no plano ontológico é frequentemente confundido com o individualismo no plano normativo. Em outras palavras, se voltarmos ao debate entre liberais e comunitaristas, uma crítica à ideia do caráter agregacionista do bem co-mum (o todo é pura e simplesmente a soma das partes) é indevidamente tomada como uma crítica ao valor da individualidade humana. Taylor faz uma crítica a esse “entrelaçamento” inadvertido, a seu ver decorrente de uma discussão contemporânea excessivamente centrada nas questões normativas e que não presta atenção em seus pressupostos ontológicos, ou que os considera irrelevantes.
No mesmo artigo, o autor canadense sugere que, dessa crítica, po-de-se encontrar uma ainda pouco explorada sinergia entre uma posição ontológica não-atomista (que chama de “holismo”) e uma defesa nova e mais rica do individualismo. Diego Gualda leva muito a sério essa suges-tão, a qual vai dar o fio condutor dos argumentos no livro e que, aliás, esclarece o seu título: a ideia de um liberalismo que, ao mesmo tempo, aproxima liberdade e individualidade, e assume o caráter irredutivelmente social dos bens humanos. Isto é, a concepção do “individualismo holista”. O livro explora as diversas implicações dessa concepção e mostra como elas efetivamente dialogam com as outras dimensões, mais sistemáticas, da filosofia de Charles Taylor. Em particular, o livro reconstrói
mara-vilhosamente a sua teoria da história, que naturalmente desemboca na discussão sobre o significado da Modernidade, para em seguida retornar aos temas mais propriamente ligados à teoria política.
Um desafio importante do trabalho é entender como esse liberalismo “holista” dialoga com outras vertentes do liberalismo contemporâneo, es-pecialmente aquele renovado a partir das contribuições de John Rawls. Diego toma como autoevidente que o ponto comum e irrenunciável desse diálogo são os valores que derivam do valor da própria individualidade, isto é, a liberdade moderna e o pluralismo. O desafio maior é saber como a questão ontológica levantada pela obra de Taylor informaria aqueles va-lores, enriquecendo seus significados políticos e morais. Problema nada simples, pois o liberalismo rawlsiano, versão que no plano normativo mais claramente enfrentou a justificação desses valores, pouco se abre à elaboração do nível ontológico, fato que, todavia, não impede Diego Gualda de colocar sua “colher”, pelo contrário, desde que lhe permite mostrar, na esteira de seu inspirador, como a tradição liberal poderia ser fortalecida (em vez de enfraquecida) com essa elaboração.
Deixemos agora que o livro fale por si. O texto longo e de costura minuciosa é devidamente temperado por uma escrita clara e fluente. Ao terminá-lo, estamos certos que o leitor sairá não só com uma compreen-são mais profunda da potência intelectual de um filósofo incontornável do debate contemporâneo, mas com aquele algo a mais que deriva do entu-siasmo e da originalidade do jovem autor desta empreitada.
Índice
Introdução...11
Capítulo 1 O Holismo Tayloriano, um Comunitarismo Ontológico...17
1. Os Termos do debate Liberal-Comunitarista...18
2. Propósitos Entrelaçados...22
3. Ontologia e Consequência Normativa...37
3.1. Atomismo...39
3.2. Formalismo...42
3.3. Subjetivismo...45
3.4. Voltando às consequências...48
4. O Self e o Bem...51
5. Racionalidade prática, fusão de horizontes e articulação...64
Capítulo 2 Interpretando a modernidade e suas consequências normativas...77
1. Modernidade e articulação...80
2. Articular é propor uma teoria abrangente do bem?...89
2. Que tipo (ideal) de teoria da modernidade?...110
3. O Percurso da Identidade...120
3.1. Interioridade...120
3.2. A afi rmação da vida cotidiana...129
3.3. Excurso sobre Taylor e o comunitarismo...134
3.4. A voz da natureza...144
3.5. Rebentos da identidade moderna, suas repercussões...152
4. O Problema da Demarcação...159
Capítulo 3
Um Liberalismo como política do bem...195
1. A Identidade do Liberalismo ...196
2. A política do bem comum...223
3. Neutralidade, Direitos e Liberdade...248
4. Algumas dinâmicas de exclusão...270
5. A política do reconhecimento...291
Capítulo 4 Apontamentos Finais...299
INTRODUÇÃO
Charles Taylor é considerado um dos principais filósofos contem-porâneos em atividade. O filósofo canadense se inclui num seleto grupo de pensadores, cuja envergadura alcança um amplo leque de temas. Em todos eles, a fecundidade do pensamento tayloriano esboça contribuições importantes. Sua obra mais conhecida e talvez principal, As Fontes do Self, pode ser considerada o centro de gravidade de suas preocupações, embora A Secular Age certamente exiba o mesmo perfil da primeira, ten-dendo a ocupar um papel cada vez mais relevante no conjunto teórico de Taylor. Mas é na primeira que inicialmente se encontra formulações entrecruzadas dos principais problemas para os quais o filósofo dedicou atenção. Hartmut Rosa sugere uma composição destas preocupações em oito grupos: 1) textos que objetivam o desenvolvimento de um humanis-mo socialista e controvérsias com o marxishumanis-mo; 2) trabalhos sobre meto-dologia e teoria da ciência; 3) estudos sobre Hegel; 4) ensaios tendentes a construir uma antropologia filosófica; 5) a formulação de uma teoria da linguagem expressivista; 6) a reflexão sobre a constituição da moder-nidade; 7) ensaios sobre teoria política e filosofia moral; 8) a questão do reconhecimento e a problemática do multiculturalismo.1 Mas se pudesse
propor apenas uma pequena reparação, diria que a reflexão sobre as con-dições da modernidade parece atrair e organizar os demais temas. É o es-pecífico desafio da construção da identidade, que a modernidade colocou à condição humana, que torna virtuosa a exploração das demais questões a que Taylor se refere. Por isso, As Fontes do Self é um estudo da cultura moderna num sentido amplo, comportando a inclusão de uma série de diferentes debates sobrepostos. Sem dúvida, esse caráter abrangente de sua teoria impõe um desafio maior de interpretação e compreensão.
Diante da magnitude do autor, é curioso o fato de Taylor não ter ocu-pado, ainda, o espaço de reflexão que merecia, especialmente no Brasil. Par-ticularmente para a teoria política, que é o registro em que este trabalho
1 ROSA, H. Identität und kulturelle Praxis. Politische Philosophie nach Charles
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Diego de Lima Gualda
se insere, a apreensão de sua reflexão é demasiadamente lateral, derivada das assim chamadas críticas comunitaristas ao liberalismo, e da política su-postamente multiculturalista do reconhecimento. Dessa apreensão indireta resultaram algumas qualificações bastante conhecidas, mas nem sempre as mais precisas. Republicanista, comunitarista e multiculturalista são alguns rótulos que enquadram a teoria tayloriana na sua dimensão política, e talvez sejam até justificáveis; mas traçar fronteiras para o alcance destas alcunhas e, mais importante, diferenciar o conjunto teórico do filósofo canadense de outros distintos autores aos quais esses epítetos são colocados, também é um esforço compreensivamente relevante, ao qual, contudo, a dedicação tem sido menor. Especialmente quando tratamos de pensadores pouco restritos a um campo de preocupações e com agendas extensamente multidisciplina-res, é sempre árduo admitirmos a necessidade de ultrapassar as fronteiras da ciência especializada. Mas esse é um imperativo irrecusável, exceto se se pu-der contentar com uma apreensão relativamente contingente e, muitas vezes, injusta sua reflexão. Sugiro que a interpretação política da obra de Taylor pa-deça deste problema. Até agora, poucos estudos sobre o filósofo canadense foram empreendidos no campo da teoria política, e um número menor deles admitiu seguir a gramática própria da embocadura de sua teoria, ainda que sob a forma de um pressuposto metodológico. Não é um problema elemen-tar o fato de Taylor não ser um filósofo político no sentido estrito, e que em função disso, algumas de suas afirmações teóricas contrariam velhos hábitos referentes ao recorte do político e à especialização do campo. É grande a di-ficuldade em darmos abertura mínima para encarar essas “transgressões” a cânones bem estabelecidos. Em certo sentido, não diferenciamos bem acatar metodologicamente um pressuposto metateórico sugerido pelo autor – do qual podemos discordar – na tentativa de compreendê-lo, da atividade de jul-gar as proposições teóricas uma vez que as tenhamos compreendido. É ver-dade que nem sempre essa diferenciação é plenamente aferível. Mas quando essa abertura à gramática alheia não é permitida, existirá invariavelmente algum prejuízo em termos compreensivos.
Há, ainda, dificuldades adicionais. O autor de As Fontes do Self não primou por ser exaustivo, nem tão sistemático na temática política. Suas contribuições voltadas para esses problemas são apresentadas na forma
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INDIVIDUALISMO HOLISTA: Uma articulação crítica do pensamento político de Charles Taylor
de artigos, com embocaduras e objetivos distintos e limitados. Por outro lado, Taylor nunca escondeu a influência causal de sua militância, pre-ferências políticas pessoais e os debates da comunidade política em que vive, o Canadá, no horizonte de suas preocupações teórico-políticas2.
Todos estes fatores parecem justificar a empreitada de dedicarmos um estudo ao autor canadense, em especial no que se refere à política. Pois bem, o objetivo deste livro é propor uma articulação crítica do pensamento polí-tico de Charles Taylor. Articulação possui um sentido específico importante e autoreferenciado neste trabalho, o que já indicará que não sou indiferente às questões propostas pelo autor canadense. A articulação não envolve pro-por uma introdução ao pensamento político do autor, nem reconstruí-lo, ela comporta um importante elemento autoral do próprio intérprete. Espero que a discussão desenvolvida nas linhas adiante possa esclarecer de forma mais exata o alcance do conceito. Por agora, basta dizer que a relativa fragmen-tariedade, ausência de sistematização e pluralismo de temas abordados pelo autor exige uma leitura transversal da obra, que vislumbre o tema da política, requerendo, ainda, certo rearranjo teórico por parte do intérprete, a partir dessa chave de leitura interpretativa obtida. Creio que exista um legítimo trabalho de construção do tema e não apenas uma releitura3. O mote desta
chave teórica é um protesto feito pelo próprio Taylor, exposto principalmen-te em Propósitos Entrelaçados4, de que o debate liberal-comunitarista não
estaria dando a devida atenção a uma diferença fundamental no teor dos argumentos que separa a ordem de argumentação ontológica e a ordem de argumentação normativa. Certamente numa empreitada auto-referenciada, Taylor parece não estar satisfeito com a alcunha de comunitarista quando
2 LAFOREST, G. Philosophy and political judgment in a multinational
federa-tion. Philosophy in an Age of Pluralism: the philosophy of Charles Taylor in question. TULLY, J; WEINSTOCK, D. (Ed.). Cambridge: Cambridge Univer-sity Press, 1994.
3 Esse é o caso, por exemplo, de Hannah Arendt quando propôs uma recons-trução da crítica do juízo kantiana enfocando possíveis consequências políticas que poderiam, inclusive, contrariar sua reflexão admitidamente política. A arti-culação procura, em contraste, uma chave de leitura construtiva que mantenha o variado conjunto teórico do autor ainda auto-referenciado.
4 TAYLOR, C. Propósitos entrelaçados: o debate liberal-comunitário. Argumen-tos Filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000.
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Diego de Lima Gualda
por isso se compreende certa afirmação normativa da precedência da comu-nidade sobre os indivíduos e as demais consequências, notadamente antili-berais, que esta afirmação pode comportar. O filósofo canadense sugere que sua própria defesa teórica, ao contrário, é interna à tradição liberal, mas o eclipse da distinção entre estas ordens de argumentos tem obscurecido uma influente corrente do pensamento político liberal. Para Taylor, a corrente do individualismo holista representa “uma importante tendência de pensamento plenamente cônscia da inserção social (ontológica) dos agentes humanos, mas que, ao mesmo tempo, valoriza muito a liberdade e as diferenças individuais”5.
O individualismo holista é uma tipologia teórica em que na esfera ontológica, âmbito no qual fazemos afirmações sobre as condições e a natureza da ex-periência e ação humanas, se mantém uma forte âncora na “tese da matriz social”, mas que normativamente, em face das condições históricas seculares e plurais apresentadas pela modernidade, defende uma postura de individu-alismo. Porém, essa não é uma questão somente de autointerpretação. Para Taylor, o eclipse da discussão ontológica traz sérios prejuízos e distorções para o campo normativo, de forma que seu argumento pretende afirmar que fazer ou deixar de fazer essa discussão não é uma questão de escolha ou gos-to dos augos-tores, mas uma necessidade para abordarmos cergos-tos problemas de maneira clara. Assim, optar por essa chave teórica, discutida na sequência, não diz respeito apenas a um possível incremento na compreensão teórica do autor canadense, mas também foca um problema específico e estruturante da reflexão política de Taylor que dá substantividade a todo seu pensamento político e o conforma.
Nesse contexto, meu objetivo imediato é mostrar como essa chave interpretativa pode alterar a compreensão da reflexão política do autor canadense ao mesmo tempo em que ela se torna mais compatível com o conjunto amplo de suas preocupações teóricas, os temas não propria-mente políticos. Assim, espero que certos julgamentos ou classificações dispensadas ao autor canadense possam ser, no mínimo, revisitadas. Mas mediatamente, o gancho de Taylor permite abordar também os méritos deste problema estruturante do seu pensamento político em contraste
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INDIVIDUALISMO HOLISTA: Uma articulação crítica do pensamento político de Charles Taylor
com os usuais argumentos colocados no debate. Espero, por fim, ser possível proporcionar o início da construção de um quadro comparati-vo mais completo da reflexão política de Taylor com a tradição liberal, mas também com os seus assim chamados parceiros comunitaristas. Seja como for, este trabalho não tem como matéria principal o próprio debate liberal-comunitarista embora tenha que abordá-lo e, se pudesse escolher do que posso ser cobrado ao final, o “objetivo imediato” citado acima seria minha opção.
Diante disso, introduzo o percurso argumentativo. No primeiro ca-pítulo iremos explorar o conjunto conceitual referido ao holismo taylo-riano. Em especial, tratamos de assentar as bases da distinção proposta por Taylor entre a esfera ontológica e esfera normativa de argumentação, traçar suas implicações para o debate liberal-comunitarista e apontar as possíveis implicações interpretativas desta distinção na reflexão política do filósofo canadense. Veremos que a defesa do holismo num registro ontoló-gico não quer afirmar a inocência destes argumentos na esfera normativa. Pelo contrário, os argumentos ontológicos, que tentam pontuar as indis-pensáveis condições corporificadas e engajadas do agente com o mundo físico e simbólico para a experiência e ação humanas, têm consequências normativas bastante relevantes, embora não impliquem necessariamente a defesa normativa de alguma modalidade política antiliberal, conservadora e/ou coletivista. Mais exatamente, o holismo ontológico pretende confor-mar e calibrar o campo de significação histórica em que o individualismo passou a ser uma referência normativa central para a agência.
No segundo capítulo, tratamos da relação da dimensão da ontologia com o núcleo gravitacional teórico de Taylor, qual seja, sua interpreta-ção da modernidade. A discussão sobre a formainterpreta-ção e as fontes morais historicamente apontadas da identidade moderna, através de formula-ções típico-ideais, fornece a substantividade necessária à infraestrutura ontológica holística, de maneira que a incursão teórica à modernidade operacionaliza as implicações ontológicas tanto para a agência e a pessoa, no que ela definitivamente extrapola a preocupação política, mas também delineia e possibilita-nos vislumbrar as consequências normativas mais exatas do holismo no campo teórico e prático da política.