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Messias é um de vocês

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Academic year: 2021

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A DÁDIVA DO RABINO

Com as lembranças que ficaram da leitura que fiz, há algum tempo, de uma maravilhosa história, vou procurar recontá-la. Seria a minha versão de uma história que deve ter muitas outras versões mas, por certo, um só título, a Dádiva do Rabino.

É a história de um mosteiro e de uma Ordem decadentes. O que existia era o que restara de tempos difíceis. Havia sido uma grande Ordem com muitas

ramificações, há uns duzentos anos atrás, mas só restavam agora cinco monges, um abade e quatro outros, e todos com mais de 70 anos de idade. Realmente a Ordem estava no fim e o mosteiro em ruínas.

Ocorre que, na floresta densa que cercava o mosteiro, havia uma pequena cabana, em que um rabino de uma cidade vizinha costumava usar para retiro e meditação.

Os monges sempre percebiam quando o rabino estava presente e, um dia, ocorreu ao abade que via a sua Ordem agonizando, visitar o rabino e perguntar se ele tinha alguma sugestão que pudesse salvar o mosteiro.

O rabino recebeu muito bem o abade e, quando este explicou o motivo da sua visita, o rabino pode apenas se solidarizar com ele dizendo que entendia o que estava acontecendo. Disse que "o espírito havia abandonado as pessoas" e que o mesmo havia acontecido na sua cidade onde quase ninguém ia mais à sinagoga e, diante dos fatos, restou apenas chorarem juntos. Depois leram trechos da Torá e falaram de coisas profundas. Mas, quando chegou o momento de regressar, o abade, abraçando o rabino, disse que o encontro tinha sido maravilhoso, mas aproveitou a oportunidade para insistir e perguntou se o rabino não tinha, pelo menos, algum conselho que pudesse salvar a Ordem agonizante. Infelizmente não tenho, voltou a dizer o rabino, mas a única coisa que posso afirmar é que o

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"Messias é um de vocês".

Quando o abade regressou ao mosteiro, todos os monges o cercaram e

perguntaram sobre a visita e sobre o que o rabino havia falado. O abade falou da visita e relatou que diante do estado de desolação em que as suas comunidades viviam, tinham chorado juntos. Que tinham lido partes da Torá e que a única coisa que o rabino havia dito, e que era algo enigmática, é que o Messias é um de nós e que ele, o abade, não sabia exatamente o que o rabino tinha desejado dizer. Nos tempos que se seguiram, os velhos monges meditaram acerca do possível significado das palavras do rabino. O Messias é um de nós? Um dos monges do mosteiro? Se fosse, qual deles seria? Talvez o abade. Sim, possivelmente seria o abade, o líder por mais de uma geração. Mas poderia ser o irmão José, um homem santo e todos sabiam que José era um homem iluminado. Certamente não seria o irmão Mário, às vezes irritadiço mas, afinal, que quase sempre ele estava certo nas suas colocações. Talvez Felipe fosse o Messias. Por certo o rabino não se referia a mim, que sou apenas uma pessoa comum, pensava um dos monges. Mas suponha que seja eu o Messias. Ho! Não. Eu não poderia ser tanto.

Pensando assim, os monges começaram a se relacionar mutuamente com um extraordinário respeito porque um deles era o Messias. E porque a floresta em que viviam era muito bonita, acontecia que as pessoas da cidade iam lá para passar o dia e aproveitavam para visitar o velho mosteiro, orar e meditar na capela em ruínas e, procedendo desta forma, sentiram a aura de extraordinário respeito que rodeava os cinco monges e que se irradiava e penetrava na

atmosfera do lugar. Havia algo de estranhamente atraente. Não se davam conta do porquê, mas eles começaram a voltar mais freqüentemente e passaram a trazer os seus amigos a este local tão especial. E os amigos passaram a levar outros amigos. E aconteceu que alguns jovens que visitavam o mosteiro

conversavam com os velhos monges e alguns perguntaram se podiam se juntar a eles. Depois outros e mais outros manifestaram o mesmo desejo. Assim a Ordem prosperou e, graças à Dádiva do Rabino, tornou-se um grande e vibrante centro de luz e de espiritualidade.

DE AKRON PARA O MUNDO - UMA MENSAGEM SEM FRONTEIRAS Dr. Laís Marques da Silva

Ex-Custódio e Presidente da JUNAAB

Num primeiro momento, vou enfocar dois fatos históricos de especial importância para a Irmandade de A.A..

O primeiro está ligado à espiritualidade.

Carl Gustaf Jung foi quem mais procurou casar psicologia e espiritualidade. Teve um importante papel na criação do A.A. e também para o fato de termos um programa espiritual.

No início dos anos 30 do século passado, um americano chamado Rowland, banqueiro e ex-senador, viajou para Zurique, na Suíça, para tratar do seu

problema de alcoolismo com o famoso psiquiatra Jung. Rowland recaiu algumas vezes e, após um ano de terapia, não apresentou nenhum progresso. Jung

comunicou ao paciente que ele estava gastando dinheiro à toa e que não poderia ajudá-lo. Rowland perguntou se havia alguma esperança, se não havia nada que ele pudesse sugerir. A resposta foi que a única coisa que poderia fazer seria procurar uma conversão, uma profunda mudança interior. Disse que ouvira relatos de pessoas que, após uma conversão religiosa, tinham parado de beber e que isso fazia sentido para ele.

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Rowland passou a freqüentar um movimento religioso, muito conhecido naquela época, os Grupos Oxford. Conseguiu a desejada conversão e parou de beber. Já sóbrio, procurou um velho companheiro de bebida, chamado Ebby, o convidou para beber e a resposta foi: eu não bebo mais. Ebby ficou espantado e perguntou: o que você quer dizer com isso? Você é um alcoólico sem esperança como eu. Rowland relatou o que lhe havia acontecido e Ebby, seguindo o mesmo caminho, conseguiu parar de beber por um longo período de tempo.

Estando sóbrio, Ebby foi visitar um velho amigo, Bill W., e recebeu dele o mesmo convite para beber e a resposta foi: não bebo mais. Aí foi a vez de Bill ficar

espantado. Ebby relatou o que havia acontecido e Bill pensou que trilhar este caminho seria uma boa idéia. Procurou tratamento e, no decurso dele,

experimentou um despertar espiritual. Cerca de seis meses mais tarde iniciou a primeira reunião de A.A. em Akron, Ohio.

O segundo fato histórico está ligado à solidariedade humana, à compreensão, à troca interpessoal de riquezas interiores que ocorre ao compartilhar experiências, tão característico do modo de ser de A.A. e, ao mesmo tempo, fundamento para a formação de uma comunidade, entendida como um grupo de pessoas que vivem na mesma área e que tem uma base de interesse comum, como a comunidade financeira ou um grupo de nações que têm interesses comuns. A comunidade se caracteriza como um corpo unificado de pessoas com interesse comum e que vivem numa sociedade maior e, nesse aspecto, ela é muito diferente de uma simples coletividade.

Em novembro de 1934, Bill alcançou a sobriedade e, durante seis meses, não foi bem sucedido ao tentar ajudar outros alcoólicos. Nenhum deles desejou aquilo que Bill pensou que tinha para dar. Mas, no dia das mães de 1935, estando em Akron, Ohio, sentiu-se o mal estar próprio da compulsão e teve medo de voltar a beber. Procurou então um alcoólico que pudesse entender o que sentia e foi ter com o Dr. Bob pelo que Bob, como alcoólico, podia dar a ele. Bill não procurou para dar, mas para receber e foi aí, ao receber, que conseguiu, finalmente, dar. Estava aberta a poderosa via de mão dupla.

O Dr. Bob se sensibilizou com o fato de Bill não só admitir que necessitava dele, mas também por ter agradecido pela ajuda que havia recebido, o que deu

condições a ele, Bill, de se manter sóbrio. Aquele muito obrigado de Bill tocou e acalmou os sentimentos do Dr. Bob. Alguma coisa havia mudado no seu íntimo, agora ele era diferente.

Por ser um alcoólico, o Dr. Bob tinha condições de não apenas ouvir, mas

também compreender e compartilhar. Experimentaram a via de mão dupla vivida em A.A., no dia a dia dos seus membros. Essa via de mão dupla é um dos elementos mais importantes na formação de uma verdadeira comunidade.

Esses foram os dois fatos históricos que considero de relevante importância para o desenvolvimento da espiritualidade e para o nascimento da comunidade de Alcoólicos Anônimos.

Num segundo momento, focamos o Programa de Recuperação.

Vinte anos depois de ter-se recuperado, Bill W. escreveu para Jung e relatou o papel que, involuntariamente, ele havia desempenhado na criação do A.A.. Em resposta, Jung, por meio de carta datada de 30 de janeiro de 1961, enfatizou a importância da experiência religiosa e das barreiras protetoras formadas pela comunidade humana e ressaltou ainda que a palavra álcool significava espírito e que era usada tanto para designar a mais alta experiência religiosa quanto o mais depravador dos venenos e colocava, finalmente, que a receita é "spiritus" contra "spiritum", ou seja, a espiritualidade contra as bebidas chamadas espirituosas e que talvez o alcoolismo fosse uma condição espiritual. Seria a espiritualidade

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contra a droga álcool, "Spirit against spirits". É um programa de conversão espiritual, de modificação profunda do ser, um programa psicológico em que se destaca a força de mensagens curtas e breves, de aforismos e provérbios. Para progredir no Programa, o alcoólico é apoiado pela existência de um sistema de apadrinhamento, uma das formas de proteção da comunidade humana. O

padrinho é uma espécie de psicoterapeuta não profissional e não pago. É também um fato considerado normal, além de ser bem aceito, que o afilhado possa

superar, do ponto de vista da recuperação, o seu padrinho e, se julgar

conveniente, procurar outro num determinado momento da sua trajetória em A.A., e nisso, o apadrinhamento é superior à terapia tradicional. Finalmente, vejo o Programa de Recuperação como um programa importante para o

estabelecimento de uma verdadeira comunidade. A palavra comunidade se refere a um grupo de pessoas que vivem numa mesma área e, numa acepção mais abrangente, que possuem interesses ou características comuns.

Quase todos os Passos do Programa de Recuperação são voltados para o autoconhecimento, para o conhecimento de si mesmo. Nos Diálogos de Platão, Sócrates diz: "Eu preciso primeiro conhecer-me, conforme a inscrição de Delfos - Conhece-te a ti mesmo".

Praticar o Programa de Recuperação é estar na busca de si mesmo pela vida inteira e o homem só começa a ter valor quando procura conhecer a si mesmo. A jornada em A.A. é a caminhada rumo ao interior e que começa já no Primeiro Passo.

Na busca da sua individualidade, da sua singularidade espiritual, o membro de A.A. encontra a resposta à grande indagação: Quem sou eu? Enquanto fazendo o Programa de Recuperação, os alcoólicos são seres humanos voltados para a descoberta do seu mundo interior, onde vão encontrar a espiritualidade e a solução dos seus problemas íntimos e também o seu valor e a sua dignidade. O evento, de importância fundamental para a recuperação de alcoólicos, ocorreu em Akron, Ohio, quando Bill e Bob se encontraram para fazer o que foi a primeira reunião de A.A..

A difusão da mensagem que não encontra fronteiras.

Surpreendentemente, a mensagem de A.A. expandiu-se pelo mundo, a despeito da existência de fronteiras físicas, culturais, étnicas, religiosas ou qualquer outra que se possa imaginar. É que a mensagem se dirige à nossa humanidade, à humanidade que dá sentido e valor à vida do homem, vivendo ele em qualquer parte do mundo e nos mais diferentes tipos de sociedade. Embora o A.A. possa ser entendido como uma criação da classe média americana, ele se expandiu para muitas outras culturas e grupos demográficos com características muito diferentes do meio cultural do seu nascimento. Assim, num primeiro momento, ele alcançou países de língua inglesa e os países do norte da Europa onde a cultura protestante era dominante e onde tinham surgido movimentos de natureza

espiritual poderosos e duradouros, inspirados numa cultura voltada para a temperança como um modo de enfrentar o beber desintegrador.

Numa primeira onda, o A.A. havia alcançou o mundo anglo-saxão e o mundo protestante. Daí alcançou os países católicos da Europa e das Américas. Após as revoluções que aconteceram na Europa, o A.A. espalhou-se para o leste europeu e para outros países da Europa. Finalmente, tem alcançado países asiáticos industrializados, independentemente das etnias, das religiões e culturas, tornando-se um fenômeno mundial.

EU SOU RESPONSÁVEL Dr. Laís Marques da Silva

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Mais de 44.000 membros de A.A. celebram a sobriedade na Convenção Internacional realizada em Toronto, de 1 a 3 de julho de 2005.

Em Toronto, no Canadá, em 4 de julho de 1965, no Maple Leaf Graten, 10.000 membros de A.A., amigos e familiares, deram-se as mãos e se uniram ao cofundador Bill W. e Lois, sua esposa, para declarar, pela primeira vez: "Eu sou responsável. Quando qualquer um, em qualquer lugar, estenda a sua mão pedindo ajuda, quero que a mão de A.A. sempre esteja ali. E por isso: eu sou responsável."

Quarenta anos depois, mais de 44.000 membros de A.A. se reuniram novamente em Toronto para celebrar o 70º aniversário de A.A. com o lema "Eu sou

responsável".

Box 459, vol.38, nº4/agosto-setembro de 2005

Costumamos dizer: é da sua responsabilidade. Aqui, o termo responsabilidade se refere a alguém ou alguma coisa pela qual alguém ou uma organização é

responsável. É o nosso caso. Esta é a acepção, das existentes, que se ajusta às nossas circunstâncias. Ser responsável é ser capaz de responder.

Responsabilidade é a obrigação de responder pelas próprias ações e pressupõe que as mesmas se apoiem em razões ou motivos, ou seja, a responsabilidade implica numa escolha e, ao mesmo tempo, numa decisão racional. Isto significa que a responsabilidade é o fundamento da liberdade. A liberdade pode ser física, civil, de expressão, etc. mas, filosoficamente, a liberdade moral está relacionada à capacidade humana de escolher e de decidir racionalmente os atos que se vai praticar. Assim, a liberdade implica que sejamos responsáveis antes do ato, ao decidirmos por uma escolha racional, conhecendo os motivos da nossa ação. Também implica em ter responsabilidade durante a prática do ato, ou seja, pela forma na qual atuamos e ainda depois do ato, ao assumir as consequências decorrentes da ação praticada. Essa avaliação mais ampla do que se deve entender por responsabilidade é importante porque a ética, a moral e a

responsabilidade determinam a perfeição das nossas ações, do nosso modo de ser.

Estamos habituados a entender responsabilidade como sendo uma atitude que se tem em relação a instituições, a chefes de serviços, a patrões, enfim, a superiores hierárquicos ou não, o que deixa uma ideia de verticalidade, algo que é voltado para cima. Mas, no nosso caso, a responsabilidade tem um componente espiritual muito valioso pois que ela coloca o membro de A.A. na condição de responsável em relação àqueles que ainda sofrem no alcoolismo. Responsabilidade em

relação a seres humanos que estão sendo batidos pelo alcoolismo, mas de quem não se conhece a face. Sendo horizontal e dirigida a quem não se conhece, a responsabilidade traduz-se num ato de amor ao próximo e que se estende a um número elevado de dependentes. Além de ser horizontal e também um ato amoroso, é uma atitude mental abrangente, ampla, alargada até os limites do amor ao próximo. Ou seja, a responsabilidade em A.A. é ato que enobrece cada membro que a assume. No nosso caso, a responsabilidade não só tem

características muito peculiares mas engrandece a quem a assume.

A declaração de responsabilidade é um chamado para uma transcendência, para um ir além de si mesmo, em que o dom de cada um não se vê limitado a

familiares próximos e a amigos, mas traduz uma atitude de solidariedade que vai além de vinculações comunitárias, religiosas, étnicas ou nacionais. É um

chamado para uma forma de solidariedade mais ampla. A declaração de

responsabilidade, nessa visão, ganha a dimensão de ato de amor ao próximo. A declaração clama para uma expansão ilimitada do dom de si, pois que ela se

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dirige àquele que ainda sofre nas garras do alcoolismo, não importando quem e onde, independente de laço privilegiado ou preestabelecido pela tradição. André Malraux, grande escritor de assuntos culturais e políticos francês, falou "sobre a possibilidade de um acontecimento espiritual em escala planetária", o que poderá ocorrer no século em que vivemos. Então, que comece por nós.

O GRUPO - MUDANÇA NA MATRIZ

DR. LAIS MARQUES DA SILVA, ex- PRESIDENTE DA JUNTA DE SERVIÇOS GERAIS DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS DO BRASIL

Este é o tema da XVI Conferência a realizar-se em Brasília, de 12 a 16 de abril de 1992. Foi colocado para um ano de estudo e reflexão para cada um dos membros de Alcoólicos Anônimos. Digo cada um porque me refiro aos membros da

Irmandade individualmente, de "per si". Um ano parece muito tempo mas, na realidade, não o é diante de tema tão forte e de tanta densidade.

A mudança sugerida se dirige à Matriz, ao Grupo, a unidade mais importante porque formadora, fonte e origem de tudo o que ocorre na Irmandade de A.A., mas que é também repositório das nossas melhores expectativas na convicção da grandeza, da riqueza e do imenso potencial de crescimento humano contido no Programa de Recuperação de A.A.. Nisto está o fundamento para uma análise crítica, pois colocamos, lado a lado, tanto uma avaliação da realidade atual dos nossos grupos quanto o grande potencial de crescimento dos seus membros que eles, os grupos, encerram.

Não se trata de reforma física do prédio onde se realizam as reuniões nem da aquisição de novo mobiliário. Falando em Matriz, referimo-nos ao grupo: a mais importante unidade de atuação, de transformação e de recuperação. A idéia de mudança no grupo conduz, necessariamente, à transformação de cada um dos seus membros. A mudança se dirige às pessoas e para elas está voltado o

Programa de Recuperação e exatamente elas é que deverão ser exemplos vivos, verdadeiros modelos que, em consequência, induzirão nova forma de estruturar uma nova dinâmica de recuperação. Não se pretende mudar o A.A.. A

Conferência apenas deseja o reencontro com o verdadeiro programa de A.A.. O A.A. não precisa ser mudado. O programa é que precisa ser feito. Quem precisa mudar somos nós e não o mundo que nos cerca. A recuperação se dirige ao alcoólico e a mudança a ocorrer à sua volta será decorrência da sua própria mudança. Este tema responde a uma necessidade e/ou uma expectativa de melhora, em face da riqueza do Programa de Recuperação, dos Princípios e das Tradições de A.A..

Agimos por atração. Há considerável esforço em levar à sociedade e à

comunidade profissional informações relativas à Irmandade e ao que ela oferece àqueles que sofrem no alcoolismo.

Muitos dos que chegam ao grupo não permanecem nele porque, para eles, o grupo não é atraente, não está ao nível das suas necessidades ou expectativas ou se mostra pouco aderente. É válido indagar: como estão os nossos

depoimentos? Como estamos fazendo o nosso Programa de Recuperação? O que se está passando nos grupos de A.A. nos dias de hoje?

É frequente observar, especialmente entre os mais antigos, que vários deles estejam fazendo exatamente os mesmos depoimentos ao longo dos anos, centrados, ainda, no Primeiro Passo. Descobrindo serem impotentes diante do álcool, passaram a relatar o que faziam quando estavam alcoolizados. Não fazem o mesmo em relação ao que estão fazendo hoje, sem o álcool. Muitas vezes, apenas parando com o álcool e não progredindo no programa, o alcoólico

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permanece o mesmo prepotente, dono da verdade, pisando nos familiares e companheiros. Aí ficam as vaidades, os orgulhos e os narcisismos não tratados e tudo isso entra como elementos desencadeadores de comportamentos pouco sadios e geradores de tantos problemas. Não esperamos navegar em mar de calmaria. Entre nós se encontram pessoas em diferentes estágios de

recuperação. Alguns ainda estão muito mal. Espera-se, sim, que haja progresso, que se evolua no Programa de Recuperação de A.A., que não precisa ser

mudado porque é muito bom mas precisa ser feito por cada membro da Irmandade, por cada um de nós.

Entende-se haver grande alegria quando, ao fazer o Primeiro Passo e parar de beber, o alcoólico fica maravilhado diante de si e do mundo que o cerca. Era tudo o que ele queria e por tanto tempo não conseguira. É um renascimento. Tudo isso é maravilhoso. Mas nascer é um ato singular enquanto que crescer é um

processo contínuo. O crescimento sucede ao nascimento. Muitas vezes, esses companheiros não estão dispostos a fazer os outros Passos e aí param de beber, mas não acrescentam nada de novo às suas vidas e, como consequência, não há crescimento e tudo se reduz em repetir e repetir os seus depoimentos. O lema para muitos companheiros é: aqui estou, aqui fico. Mas este lema pode ser para eles os seus epitáfios. Quanto à Recuperação e aos Passos, fazem depoimentos pobres e, se ficarem nesse estágio, o grupo se reduz a uma mesmice que não motiva as pessoas a permanecerem nele. Essas pessoas gostam e se beneficiam desses depoimentos a princípio, mas depois perdem, pela repetição e pela

pobreza, o interesse.

Esses depoimentos ligados ao Primeiro Passo são importantes, geram

identificação para os recém-chegados. A verdade daquele que o faz contribui para a honestidade de cada membro do grupo e, também este, o grupo, auxilia o

depoente na busca da própria honestidade e sanidade. O problema não está nisso, mas em ficar só nisso; está na inexistência de um trabalho de reformulação pessoal. A Irmandade distingue e enfatiza duas condições diferentes: sobriedade e serenidade. É preciso evitar o primeiro gole a cada 24 horas e estar sóbrio para ver a si mesmo e o mundo com olhos claros, límpidos, sem a névoa do álcool, mas é preciso, também, caminhar no Programa de Recuperação e alcançar a serenidade, a paz traduzida em um nova condição de equilíbrio mental, na capacidade de estabelecer prioridades e no aprendizado da conceituação de valores, o que habilita o companheiro a viver sem esquentar fora da justa medida, sem correr o perigo das recaídas. A maioria se recupera com o programa de A..A., mas há outros, portadores de patologias concomitantes com o alcoolismo,

necessitados de tratamento especializado e que a Irmandade de A.A. não

oferece. Nessas casos, os cuidados dos profissionais da área da saúde deverão ser procurados.

O depoimento ligado ao Primeiro Passo, muitas vezes, ao longo dos anos, vai sendo retocado e, aí, já não vale mais porque não é honesto e porque sendo incompleto, não atinge a finalidade do desabafo catártico. Depoimento indolor não acrescenta, não contribui para a recuperação e, depois de muito repetido, acaba decorado também pelos demais companheiros do grupo. Mas não é esse o único perigo. Se existirem muitos companheiros do grupo nessa situação, pode ocorrer que, movidos pela vaidade, se estabeleça um "campeonato de desgraças" e, com este campeonato, pode até ocorrer que os mais inibidos e os novatos não

encontrem oportunidade de falar.

O assunto é tanto delicado quanto complexo e há sempre novos ângulos a abordar. Relatar o que se fez há muitos anos é muito pouco. Daquele que ficou anos sem beber e ainda frequenta os grupos de A.A. espera-se um relato do que

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fez ultimamente em função do crescimento pessoal dentro do programa de A.A.. Importa apreciar o progresso alcançado ao fazer cada um dos Passos. Esse relato é importante. Pode constituir-se num exemplo vivo de recuperação, com grande possibilidade de ser seguido porque não é preciso ser letrado para ver e entender o que é oferecido como exemplo. O programa precisa ser praticado para que sejamos o exemplo vivo. É preciso estudar o programa para aplicar em nós o que aprendemos, porque, se tudo isso for feito apenas para os outros, valerá, então a máxima de que "quem sabe faz e quem não sabe ensina".

É muito frequente observar que o Primeiro e o Décimo Segundo Passos sejam feitos por todos os membros de A.A. e, deste último, apenas a primeira parte. Mas o programa é de 12 Passos, o tesouro está em todo o conjunto e o crescimento depende de se fazer todos os 12 e não em sobrevoar os 10 do meio.

As recaídas são um fato observado com frequência. Ignoramos, na quase totalidade dos casos, as suas causas e mecanismos mas constatamos faltar alguma coisa a esses doentes. Há companheiros com tendência especial à recaída. São doentes graves. Provavelmente vão morrer do alcoolismo. Voltar ao mesmo grupo, muitas vezes deficiente nos 12 Passos, nada vai acrescentar. Eles já estiveram lá antes, sem alcançar a sobriedade e a

serenidade. As recaídas nos levam a pensar nos nossos grupos, em como está a nossa Matriz. Quais são os companheiros com tendência à recaída e quais as causas? Será que para eles não há alternativa, a não ser beber e beber? Diante de uma recaída, devemos nos satisfazer com as habituais explicações: "não havia chegado ao fundo do posso", "não estava pronto", "não estava motivado", "não fez o que eu aconselhei", "recaiu porque não frequentava o grupo"? Será que o grupo se detém sobre o Programa de Recuperação de A.A.? Será que o grupo está bem estruturado e em condições de receber esse tipo de doente grave? Será que o grupo é realmente harmônico e composto de irmãos que veem nas

diferenças não uma causa de conflito mas um estímulo ao crescimento?

Os recaídos são doentes graves, envolvidos numa rede de equívocos. Eles se acham culpados e desamparados e esses sentimentos reforçam a recaída. Muitas vezes sentem não ter outra saída senão o colapso emocional, a loucura, o

suicídio ou simplesmente voltar a beber e, aí, beber pode parecer até a escolha mais sensata. É preciso evitar também, em relação a esses doentes, que os grupos desenvolvem uma atitude preconceituosa, um estigma.

Os grupos devem compreender que a doença do alcoolismo tem um modo de agir sobre o alcoólico na ativa, e acerca disso todos os seus membros têm uma visão clara, mas também atentar para o fato, cada vez mais evidente, de que a doença do alcoolismo tem, também, um modo de atuar durante a sobriedade -ela é uma doença crônica e incurável- e esta ação é potencialmente destrutiva quanto ao seu modo de atuar na fase de sobriedade.

A perda de controle vem antes da recaída. O companheiro entra em dificuldade e depois perde o controle. É necessário uma ajuda imediata quando o companheiro percebe que a cabeça está esquentando. Os padrinhos devem estar atentos para o aparecimento das manifestações usualmente surgidas nos companheiros que recaem e aumentar os cuidados e atenções para evitá-las. Aqui também é necessário pensar no papel do padrinho e avaliar como ele vem sendo desempenhado.

Graças ao trabalho e à dedicação dos pioneiros de A.A. do Brasil e dos mais antigos, foi possível abrir e manter em funcionamento milhares de grupos com todos os benefícios daí resultantes para os alcoólicos, ainda que tenham ficado exatamente como tudo começou: um alcoólico conversando com outro. Dos veteranos, ouvi muitas vezes o relato entusiasmado de como o A.A. do Brasil

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progrediu com o advento da literatura e a criação do ClAABA. Esperamos que hoje fenômeno semelhante esteja ocorrendo em função da análise crítica acerca de como está sendo realizado o nosso Programa de Recuperação sugerida no tema adotado pela Conferência de 1991 e que, em função dele, se abra um novo e amplo horizonte para os sofredores dessa doença em nosso País.

Espero que todos se detenham e reflitam sobre este tema; que levem suas dúvidas e conclusões aos Delegados de Área e que eles, representando a consciência coletiva dos grupos, possam contribuir para a grandeza, para uma dimensão maior a ser alcançada na XVI Conferência de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil.

Não precisamos de Heróis.

Não precisamos de cavaleiros em armaduras de aço, defendendo o mundo contra dragões.

Não precisamos de seres especiais com mensagens de paz e de amor, pois eles já estiveram por aqui e os recebemos com flechas, cruzes, pedras e espadas. O que realmente precisamos é de seres humanos, humanos como eu e você. Seres cheios de falhas, defeitos e fracassos, mas também carregados de boa vontade e de vitórias do dia-a-dia. com coração bondoso.

Precisamos de pessoas que despertem a cada amanhecer com a consciência tranqüila e cristalina de que estão fazendo o melhor que podem com a

experiência chamada Vida.

Que gostem de ajudar outras pessoas, não porque a religião assim recomenda ou porque Deus lhes dará alguma recompensa, mas apenas pelo simples prazer de ver outra pessoa feliz e sorrindo, pela boa vontade de dar a mão aos que vivem no escuro e seguem a cada dia caindo, caindo.

Pessoas que brilhem ao falar de amor ou do quanto contribuíram na vida de um estranho e que fiquem envergonhadas ao ouvir elogios e fujam correndo ao ouvir algum agradecimento.

Porque elas não querem um diploma ou ter escrito na testa o quanto estão sendo reconhecidas.

Afinal, elas não são anjos, mas apenas o José, a Maria, o André, o João, a Kátia ou a Cristina.

Que, mesmo famintos, compartilham o seu único pão sem egoísmo, sem obrigação, sem segunda intenção.

Pessoas assim são apenas gente, povão.

Não são intelectuais querendo caridade no curriculum, nem possuem os segredos do antigo Egito.

São donas de casa, trabalhadores, estudantes.

São velhos, jovens, brancos, pretos, letrados ou sem dentes, que, mesmo com motivos para chorar, escolheram sorrir.

Foram cravados por desilusões, tragédias, dores, mas continuam a caminhada. Por que perceberam que Deus é Pai, é Mãe, é a Entrada e também a Saída e que, se Ele existe, Ele é amor transbordando, como um temporal e não um sujeito irritado, brincando com dados, julgando a nossa cegueira espiritual.

Esse Amor, que gera vida, vibra pelo ar mantendo a ordem, equilibrando o desequilibrado.

E se não cai uma folha sem Ele assim desejar, será que é por isso que, após a tempestade, teima o sol sempre em brilhar?

Alguns dirão que o sofrimento fez essas pessoas mais humanas, mas outros se lembram que o caminho da dor faz surgir tanto o ocioso quanto o trabalhador. E para esses guerreiros da vida, o sofrer foi apenas uma ponte a atravessar, e, ao final da jornada, sementes deram lugar a um lindo pomar.

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Seguindo sozinhos ou em grupos, nas religiões que fizeram para Cristo, nas cantigas de Krishna, na quietude do Budista ou no orar para Alah, em toda parte da terra essa gente ajuda, essa gente carrega.

Eles, sim, são verdadeiros alquimistas da alma, que transformam milhões de erros em amor vibrante e alegria interna.

Ajudando o são ou o moribundo, seguem brilhando na sua ventura de ser humano no mundo.

Se você conhece alguém assim, não aplauda, nem agradeça. Não faça isso ou assim.

Observe os seus passos e perceba como eles se entusiasmam fazendo outro sorrir.

Então você entenderá por que esses indivíduos seguem lutando e acreditando, mesmo com tudo para desistir.

Eles, sim, são heróis. São exemplos a seguir. OBRIGADO PELO SILÊNCIO DE VOCÊS Dr. Lais Marques da Silva,

Ex-custódio e presidente da JUNAAB.

O silêncio que se observa nas reuniões dos grupos de A.A. cria uma atmosfera de confiança e respeito recíprocos entre o alcoólico que faz o seu depoimento e os demais companheiros. O olhar daquele que faz o seu depoimento encontra calor humano e resposta por parte daqueles que o escutam em silêncio, tudo isso levando a uma comunhão de interioridades. O silêncio permite o estabelecimento de uma abertura, de uma disponibilidade pessoal em relação àquele que oferece a sua experiência além de facilitar o aparecimento de uma relação marcada pelo sentimento de confiança, fundamental para a comunicação, para que se possa abrir para o outro, para que haja o relacionamento que possibilita o

desenvolvimento de liames profundos e para o surgimento de amizades

verdadeiras. Confiar é indispensável para se livrar de doenças e é manifestação de fé em si mesmo, nos outros e no Poder Superior. O silêncio é o caminho que leva ao encontro consigo mesmo e com o outro.

O silêncio de quem escuta um depoimento transmite a seguinte mensagem a quem o faz: eu sei que você tem valor, sei que você é apenas um doente, sei que você é um ser humano e que, como eu, sofre de uma devastadora enfermidade. Por tudo isso, você merece o meu silêncio, a minha atenção e o meu respeito, a minha compreensão e a minha compaixão, esta, entendida como a consciência profunda do sofrimento de outra pessoa associada ao desejo de ajudá-la.

Dar atenção ao próximo é ato de amor, e a maneira mais comum e importante do exercício da atenção é escutar. Mas aprendemos na escola a ler e a falar, mas não a escutar, a despeito de que as pessoas, na sua vida diária, passam muito mais tempo escutando do que falando ou escrevendo. Mas é difícil escutar bem e, na maioria dos casos, as pessoas simplesmente não escutam ou praticam uma escuta seletiva em que ficam atentos apenas ao que lhes interessa ou para encontrar o momento certo em que uma conversa possa ser encerrada.

Para escutar, é necessário calar, silenciar, abrir os ouvidos e se por atentamente a escutar quem fala. Ouvir profundamente significa auscultar, prestar atenção, dar ouvidos, compreender, acolher, entender, examinar, discernir. O silêncio dos que escutam um depoimento é como se fosse uma substância mágica que possibilita a expressão daquele que doa o seu depoimento. A relação com o conjunto do grupo não se faz apenas pela continuidade da fala mas também, dispondo de tempo, pelos momentos de suspensão em que aquele que oferece o seu

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depoimento organiza o raciocínio, pelos momentos em que se cala; até porque a fala não revela o pensamento por inteiro e porque também é habitada pelo silêncio, completada pelo impensado e pelo paradoxo.

É preciso estar disposto a se esforçar para conseguir escutar verdadeiramente. O esforço para escutar o depoimento de um companheiro vem do fato de entender que ele necessita da nossa atenção e que é digno dela. Por outro lado, a atenção dedicada pelo companheiro que ouve um depoimento também o beneficia, pois resulta em seu próprio crescimento que, por outro lado, ocorre a partir do

conteúdo daquilo que está recebendo. No momento de silêncio, em que ouvimos atentamente o depoimento de um companheiro, suspendemos todos os nossos juízos, pensamentos e preocupações. Desapegamo-nos do nosso próprio ser. Esse silêncio nos convida a superar os obstáculos do preconceito, da exclusão, da falta de diálogo e da falta de solidariedade.

Podemos avaliar, a partir das considerações que vimos fazendo, a importância de se estar em um ambiente em que se desfrute de um profundo e acolhedor silêncio quando nos lembramos de situações que, muitas vezes, marcaram muito as nossas vidas. Recordamos de várias situações das quais saímos nos sentindo muito mal por não termos conseguido dizer o que desejávamos. Não é que

tenhamos sido muito exigentes, mas, apenas, que tivemos dificuldade em articular calmamente o que desejaríamos ter dito e o resultado é que ficamos frustrados, raivosos e nos sentindo culpados. Quando podemos, descarregamos essa raiva em alguém e o que resulta é que as pessoas que estão à nossa volta fecham seus ouvidos para as nossas colocações, resultando que fica, por mais essa razão, ainda mais afastada a esperança de se entrar em harmonia com os outros. Podemos também, por decoro, jogar a raiva para dentro e, nesse caso, vamo-nos tornando progressivamente mais descontentes e tendemos a abandonar o

convívio daquelas pessoas ou até mesmo a abandonar uma instituição a que pertencêramos.

No entanto, ao contrário, desfrutando do silêncio respeitoso reinante nas reuniões dos grupos, os alcoólicos têm oportunidades repetidas de, calmamente, ir se desenvolvendo e se tornando progressivamente mais capazes de realizar uma comunicação plena sem que ocorra o fechamento dos ouvidos por parte dos que ouvem o depoimento. Desfrutando do silêncio do grupo, pelo contrário, muitos companheiros vêm curtindo a sensação positiva de liberdade, de alívio e de relaxamento que vem depois de terem podido passar as suas mensagens, de terem participado e colaborado. À medida que os depoimentos se sucedem, o raciocínio vai ficando cada vez mais claro, as ideias vão sendo arrumadas, a qualidade do relacionamento com os companheiros do grupo vai melhorando. Fica clara a importância da lingüística nos processos de socialização e de individuação que possibilitam o entendimento e a aprendizagem social.

Na verdade, a língua presa e o sentir-se culpado são manifestações longínquas de falta de afirmação pessoal, de incapacidade de ser assertivo e aí vale notar que a falta de auto estima está na raiz do problema. Sem acreditar que temos valor, não seremos capazes de fazer as nossas colocações, de expressar as nossas necessidades de modo convincente e, nessa condição, os nossos argumentos irão falhar e recuaremos ou concordaremos quando o que desejávamos era dizer não.

A essa altura, é importante destacar que o amor ao próximo é uma via de mão dupla porque, estando dirigido para aquele que faz o depoimento, o faz perceber a concentração, a atenção e o amor que lhe chegam da parte de quem o escuta, e o faz se sentir gratificado. Quem faz o depoimento doa a sua experiência, valiosa e única, e quem o escuta, o receptor, se torna, desse modo, também

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doador, na medida em que oferece ao depoente a sua atenção e o seu amor. Escutar com atenção total e completa, avaliando cada palavra e entendendo cada frase, é a verdadeira forma de escutar, que exige um grande e indispensável esforço de concentração ao dedicar o seu tempo apenas a quem faz o seu depoimento, colocando de lado as suas preocupações, os seus pensamentos. É um esforço amoroso. Fazê-lo é prova de estima e consideração e, quem escuta, ao valorizar o depoimento, faz o depoente se sentir valorizado. Sentindo-se assim, o depoente ficará estimulado a fazer relatos de maior conteúdo. Fica disposto a oferecer a sua estima e, com isso, estabelece-se um ciclo, ascendente e criativo, de evolução e de crescimento. Mas esse ciclo virtuoso exige atenção, concentração e, portanto, esforço, e não poderá ocorrer senão em ambiente de silêncio completo. O barulho, as conversas e os movimentos de pessoas dentro do grupo tiram a atenção, quebram a concentração e todo o riquíssimo processo fica comprometido.

A escuta atenta implica em contenção e em afastamento da própria personalidade e isso leva à aceitação do outro. Por outro lado, percebendo-se aceito, o

companheiro que faz o seu depoimento sente-se menos exposto, menos

vulnerável e isso cria um caminho para que o companheiro possa abrir-se mais completamente. Importa ainda considerar que, freqüentemente, o depoente recebe atenção amorosa depois de muitos anos de um grande vazio e, às vezes, até pela primeira vez na vida.

O fato importante e fundamental para a recuperação do alcoólico, e que só é possível no ambiente silencioso dos grupos de A.A., é que o companheiro só ganha consciência da importância da sua individualidade na medida em que é reconhecido como tal pelos outros companheiros, pelas outras consciências. Isso ocorre na família, posteriormente na vida social e, especialmente, nos grupos de A.A.. A identidade da consciência individual, subjetiva, depende desse

reconhecimento uma vez que a identidade do eu só ocorre através da identidade do outro que me reconhece como tal e que, por outro lado, depende também de que eu o reconheça. Este é um mecanismo extremamente importante na

construção do indivíduo, pois que indispensável para o crescimento da sua própria humanidade. E isso acontece no ambiente respeitoso e silencioso dos grupos de A.A..

A compaixão que é despertada nos companheiros dos grupos, numa atmosfera marcada pelo silêncio, significa que eles sentem no coração um impulso forte para ajudar aquele que faz o seu depoimento a se livrar do seu sofrimento. É uma saudável atitude da mente e do corpo que procura aliviar a dor e o sofrimento de outros seres humanos. A compaixão é a resposta espontânea de um coração que está aberto para os companheiros do grupo. Resulta, então, que as pessoas se sentem mais próximas e mais confortáveis no convívio mútuo. Pensam nas outras pessoas, chegam a uma compreensão madura de si mesmas e das suas relações com os outros.

Não há sentimento mais denso e mais enriquecedor que a compaixão. Nem mesmo a nossa própria dor pesa tanto quanto a que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogando conosco, começamos a imaginar como deve ter sido grande o sofrimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu depoimento, dor que é prolongada por muitos ecos, ou seja, pelas lembranças que conservamos e que voltam à nossa consciência repetidas vezes. Esses sentimentos compõem a espiritualidade e aumentam a nossa dimensão humana; despertam o amor ao próximo, o sentimento de fraternidade.

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compaixão no mundo. O problema está em que, freqüentemente, não nos encontramos abertos para sentir dor. Se fugimos dela e nos defendemos, isto significa que também nos fechamos para o aparecimento da compaixão. Mas não é preciso ser santo para sentir compaixão, ela é a resposta natural de um coração aberto em relação a outro ser humano.

Usualmente estamos com os corações fechados para sentir dor. Afastamo-nos da dor, nos fechamos, nos defendemos. Neste caso, a fonte da compaixão

permanece fechada e saímos do que é verdadeiro e próprio do ser humano para o que é fabricado, decepcionante e fonte de confusão, isso quando nos voltamos para as coisas do mundo que nos cercam.

Compaixão não é o mesmo que tristeza. As pessoas usualmente têm uma aversão ao sofrimento, à tristeza, mais do que uma abertura em relação a ela. Assim, dizemos que uma pessoa é "baixo astral" e nos afastamos dela porque nos faz sofrer. Afastamo-nos ou fazemos alguma coisa para aliviar a nossa tristeza. Fazemos isso por nós. Mas se prestarmos atenção à diferença entre tristeza e compaixão, veremos que, na compaixão, não há fixação nem aversão e que a condição de abertura em relação ao sofrimento do outro é realmente a grande motivação para uma resposta hábil e efetiva. A tristeza incomoda, a compaixão abre o coração para o sentimento de amor ao próximo, para o fato de sermos irmãos.

Nos grupos, não há uma atmosfera de tristeza, como se poderia imaginar e as pessoas que não conhecem o A.A. pensam que lá existe muita tristeza. Ao contrário, o ambiente é alegre, composto por pessoas vitoriosas e que têm os seus corações abertos ao sofrimento, que sentem compaixão; e a alegria se traduz em saúde e é uma forma de terapia. Agora é possível imaginar o quanto de silêncio e respeito é necessário existir numa reunião de grupo para que se vá absorvendo essas realidades, sentindo essas tênues diferenças, mesmo não estando consciente delas.

O silêncio respeitoso propicia o surgimento da empatia, que é a tendência para sentir o que se sentiria caso estivesse na situação e nas circunstâncias

experimentadas por outra pessoa. Os companheiros abrem, então, os seus corações porque aprendem como é o verdadeiro amor, como é grande o valor da oração e que é pelo amor e pela dor que os homens se elevam do seu chão cotidiano. Isso acontece justamente em momentos difíceis, em que o amor se tornou aparentemente impossível e o coração parece ter se transformado em pedra. Só o silêncio cria as condições para que tão importante aprendizado ocorra.

O silêncio permite que se desenvolva uma interação entre os companheiros dos grupos e que essa mesma interação se desenvolva dentro de um padrão de relação entre as pessoas que poderia ser entendido pelo binômio eu-tu,

relacionamento direto e profundo, do olho no olho. O olho é a porta da alma e isso é conhecido desde os egípcios que pintavam as faces de perfil e sempre com um grande olho. Também nos mosaicos bizantinos os artistas retrataram as figuras humanas com olhos grandes, desproporcionais.

Ao olhar diretamente para a face de outros seres humanos, o companheiro percebe que algo o atrai e que vai além de si mesmo. Surge, na mente daquele que faz o seu depoimento, uma espécie de responsabilidade, o sentimento de uma ética. Deus, que não nos impõe seguir ou não uma lei, de algum modo, se revela na face do próximo. Fica criado o campo propício para o surgimento de uma espiritualidade leiga, de uma ideia do sagrado.

Graças ao desenvolvimento da solidariedade, da compaixão, do amor ao próximo e, em especial, à sinergia que o silêncio propicia, um fraco mais um fraco não

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mais são dois fracos e sim um forte. Do mesmo modo, uma asa mais uma asa significam uma ave completa, que pode voar, e que, por ser inteira, recupera a sua liberdade e ganha altura. Em A.A. ouvimos, com freqüência, os seus

membros dizerem que são pássaros de uma asa só e que, por isso, têm que estar sempre juntos. Mas é importante enfatizar que, num grupo, só estarão realmente juntos quando em sintonia, que só é possível dentro de um ambiente marcado por um silêncio respeitoso.

Há também uma forma de relacionamento que se faz com as coisas e aí o binômio é outro, é o eu-isso. Muitas vezes, os seres humanos entram numa relação com os outros seres humanos no modo de eu-isso e aí a qualidade do relacionamento inter-humano se deteriora, pois que deixa de ser eu-tu. O pior é que esta relação, que reduz a dimensão humana da outra pessoa, ocorre freqüentemente. O relacionamento eu-isso é marcado pela ideia de posse, que não existe na relação eu-tu. No decurso das nossas vidas, nos relacionamos com pessoas e coisas e muita gente se relaciona com as outras pessoas como se elas fossem coisas, procurando tirar vantagem de uma relação que, neste caso, não tem a qualidade de ser verdadeiramente humana.

O relacionamento nos grupos de A.A. tem a qualidade do eu-tu, relacionamento precioso, mas que necessita de uma abertura do coração e de uma atmosfera de silêncio respeitoso, indispensáveis ao estabelecimento de troca de interiores. A qualquer quebra de atenção durante um depoimento, a relação eu-tu se desfaz e deixa de haver as trocas enriquecedoras de interiores. Vale lembrar que as reuniões de A.A. são eventos em que se fala e que dão espaço e suporte para uma profunda mudança existencial.

A compreensão empática, que só ocorre quando há silêncio, significa que sentimos, precisamente, os sentimentos e os significados pessoais daquilo que está sendo relatado pelo companheiro. É como se os que ouvem em silêncio estivessem dentro do mundo privado daquele que faz o seu depoimento, de modo que é possível entender não só o significado do que é conscientemente relatado, mas também o que está abaixo do nível de consciência. Ouvimos até o inaudível pois que, no silêncio, nos tornamos mais sensíveis e capazes de entender até o que não é relatado num depoimento. É ir além das suas dimensões. Há uma expansão da interioridade do ser humano em direção ao outro.

O silêncio cria condições para que aquele que faz o depoimento abra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal e isso é indispensável para a sua própria realização existencial. Por outro lado, o companheiro que faz o

depoimento precisa ser ouvido e compreendido e não apenas escutado, como se fosse simplesmente um isso, uma coisa falante, um dispositivo eletrônico ou uma pessoa a pregar no deserto. O grupo de A.A. propicia o espaço de visibilidade necessário em que a grandeza fugaz da frágil existência humana possa aparecer além do fato de que a nossa existência só pode se desenvolver no estar-junto dos homens nesse mundo que nos é comum. Ademais, o silêncio também cria

condições para uma comunicação ilimitada, o que é da máxima importância porque a própria verdade é comunicativa e desaparece quando não existe comunicação.

Desfrutando de um silêncio respeitoso, o companheiro pode abrir-se inteiramente, pode estar realmente presente, de corpo e alma, diante dos demais

companheiros, aceitando-os e sendo aceito por eles. Esta presença, inteira e completa, de si mesmo, faz com que o companheiro fique presente também para os outros; os outros sentem a sua presença. Este aspecto é de extrema

importância, pois muitas vezes estamos falando com uma pessoa que, como se diz, não está nem aí e encontra-se dispersa em seus pensamentos e interesses

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pessoais enquanto falamos. Freqüentemente ficamos falando sozinhos, o outro está presente, mas, em realidade, não está. Deste modo, entendemos a

necessária ênfase quando falamos de presença inteira e completa. No grupo, o companheiro se sente vivendo no tempo presente, vivendo o agora e, assim, em condições de alcançar o seu mais elevado potencial emocional: aberto à empatia, à compaixão e ao perdão. Conhecemos pessoas que estão sempre presentes e disponíveis e que significam muito para nós. Não há o eu sozinho, há sempre o eu-tu, na sua totalidade. Quando existe o silêncio empático, sente-se a presença inteira e completa das pessoas.

Aquele que faz o depoimento também se identifica, também ganha dimensão no processo de comunicação. O relacionamento do eu com o tu quebra o isolamento, integra as pessoas. É preciso estar presente para se tornar presente para os outros. Como acentuei, às vezes, conversamos com pessoas que parecem estar muito distantes, pensando em outras coisas ou, como se diz, estão no mundo da lua e isso destrói o relacionamento entre seres humanos e, especificamente, o tu da relação eu-tu.

É importante lembrar ainda que a fala é poderosa e que, ao fazer o seu

depoimento, o companheiro está consciente do que está relatando e que a sua fala vem do coração. Estar consciente é indispensável para entrar no reino dos humanos e para o estabelecimento de uma base indispensável para a vida espiritual. Em realidade, é preciso estar consciente tanto da fala quanto das ações. Sendo verdadeiro e oferecendo a sua enriquecedora experiência de vida, o companheiro se torna um polo de atração, e mais, ao ser consciente e honesto, a sua mente se torna mais serena e mais aberta e o seu coração mais feliz e mais pacífico. O estabelecimento de uma relação de harmonia virtuosa com o grupo traz luz ao coração e claridade à mente.

Numa atmosfera marcada pelo silêncio, estabelece-se uma vibração recíproca a partir do face-a-face, do olho-no-olho, da comunicação profunda que permite que se veja, no fundo do olho das pessoas, o que vai no seu interior; o silêncio

respeitoso é indispensável para que se estabeleça essa relação profunda. Por outro lado, a comunicação superficial, feita por monossilábicos, frases gravadas e esperadas, torna as pessoas ansiosas, resultando que voltam às suas

exposições, aos seus temas ou explicações porque não se sentem percebidas. O companheiro que faz o seu depoimento fala dos seus sentimentos, de emoções escondidas, reprimidas e que geram doenças. Desabafar, confidenciar, partilhar a intimidade, segredos e pecados, neste ambiente muito especial, é de grande poder curativo; é excelente terapia. Por outro lado, somente quem vive a experiência de ouvir o outro é capaz de amá-lo na sua totalidade, de todo o coração, e isso significa dar-se por gratuidade, sem reservas, de coração a coração e sentir a experiência da alegria, do medo, da coragem, do

descontentamento, do sofrimento, do desejo e da tristeza.

O relacionamento que se estabelece no grupo é gratuito. Um companheiro oferece o seu depoimento, a sua experiência, e os outros membros do grupo oferecem o seu silêncio respeitoso, a sua compreensão, o seu amor de irmão. Não há nenhum interesse interposto na relação entre o membro que faz o depoimento e os demais que o escutam. Um doa a sua riqueza interior, a sua experiência, e os outros a aceitam respondendo com um sentimento de compaixão e de compreensão.

Essa é uma relação muito rica e enriquecedora que pode acontecer entre seres humanos quando assentada na reciprocidade, na capacidade de entender e de amar o próximo. Um ser só cresce com os outros dentro deste tipo de

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Permite a manifestação da palavra com todo o seu poder e que, por sua vez, conduz à reciprocidade, entendida como um poderoso mecanismo totalizador capaz de fazer com que todos fiquem envoltos em uma só atmosfera, que cria as condições para que aquele que faz o depoimento encontre o seu interior, a sua subjetividade e que se identifique como sendo uma pessoa, um ser humano, porque também não há o tu sem o eu. A elevada compreensão cria condições para que haja paz entre os seres humanos.

Não estamos acostumados ao silêncio, à sua dimensão profunda, tão profunda que assusta, amedronta e angustia porque nos coloca diante de nós mesmos e o medo ocorre porque não nos conhecemos.

Tudo isso ocorre dentro da liberdade de tomar a decisão de prestar o seu depoimento que, no silêncio respeitoso e na relação empática, conduz a uma relação inter-humana profunda, que é o fundamento da existência em A.A.. Meditando acerca do conteúdo dos depoimentos e se abrindo para a dor e o sentimento de compaixão, os membros do grupo estarão ganhando dimensão humana e espiritualidade e isso numa época em que as pessoas se permitem esquecer cada vez mais daquilo que é mais característico do homem, que é a sua humanidade.

O silêncio atinge e penetra o coração humano e é aí que está a nossa interioridade, o lugar onde somos o que somos.

Estas considerações foram feitas a partir de uma prática que sempre me encantou em A.A.. Muitos companheiros, após o seu depoimento, agradecem dizendo: "Obrigado pelo silêncio de vocês". Isso sempre me tocou muito e passei a meditar e a procurar o porquê, e penso que encontrei a sua essência.

PANFLETO SOBRE APADRINHAMENTO EM A.A..

Escrito por Clarence H. Snyder, em 1944. Ele ficou sóbrio em Cleveland-Ohio, no dia 11 de fevereiro de 1938 com a ajuda do seu padrinho, cofundador, o Dr. Bob. Em 18 de maio de 1939, fundou o grupo nº. 3 de A.A. em Cleveland-Ohio e este foi o primeiro grupo a usar o nome "Alcoólicos Anônimos". Faleceu na Florida, em 22 de março de 1984, com 46 anos de sobriedade.

Fonte: http://silkworth.net

Sua história está publicada nas 1ª, 2ª. E 3ª. Edições do Big Book, nas páginas 297/303

Dados históricos oferecidos pelo companheiro Laerte A., de Niterói-RJ Tradução feita pelo Dr. Lais Marques da Silva, ex- Presidente da Junta de Custódios.

Este foi o primeiro trabalho escrito sobre apadrinhamento e o seu título original era "Apadrinhamento em A.A... suas Obrigações e Responsabilidades"e foi Impresso pelo Comitê Central de Cleveland.

Prefácio

Cada membro de A.A. é um padrinho em potencial de um novo membro e deveria reconhecer claramente as obrigações e deveres de uma tal responsabilidade. A aceitação da oportunidade de levar o plano de A.A. para aquele que sofre no alcoolismo compreende responsabilidades muito reais e criticamente importantes. Cada membro, ao praticar o apadrinhamento de um alcoólico, deve lembrar que está oferecendo o que é, frequentemente, a última chance de reabilitação, de sanidade, ou mesmo, de vida.

Felicidade, saúde, segurança, sanidade e vida de seres humanos são as coisas que temos que manter em equilíbrio quando apadrinhamos um alcoólico.

Nenhum membro é suficientemente sábio para desenvolver um programa de apadrinhamento que possa ser aplicado, com sucesso, a todos os casos. Nas

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páginas seguintes, no entanto, delineamos um procedimento que é sugerido e que, suplementado pela própria experiência do membro, tem-se mostrado bem sucedido.

Ganhos pessoais de ser um padrinho.

Ninguém colhe todos os benefícios de qualquer irmandade a que esteja ligado a menos que, de coração, se engaje nas suas importantes atividades. A expansão de Alcoólicos Anônimos para campos mais largos e o benefício maior para um número crescente de pessoas resulta diretamente do acréscimo de uma nova pessoa, de membros ou associados que são de valor.

Qualquer membro de A.A. que não tenha experimentado as alegrias e satisfações de ajudar outro alcoólico a retomar o seu lugar na vida, ainda não terá percebido completamente os benefícios que pode auferir desta irmandade. Por outro lado, deve ficar claramente guardado na mente que a única razão possível para levar um alcoólico para o A.A. é o benefício daquela pessoa. O apadrinhamento nunca deve ser feito para:

1-aumentar o tamanho do grupo;

2-satisfação ou glória pessoal ou, ainda,

3-porque o padrinho sente, como sendo do seu dever, refazer o mundo.

Até que um membro de A.A. tenha assumido a responsabilidade de colocar um trêmulo e impotente ser humano de volta no caminho para se tornar um membro saudável, útil e feliz da sociedade, ele não terá desfrutado a completa sensação de ser um membro de A.A..

Fonte de nomes - indicações para apadrinhamento

A maior parte das pessoas tem, entre os seus próprios amigos e relações, alguém que se beneficiaria dos nossos ensinamentos. Outros têm seus nomes dados por igrejas, por doutores, empregadores ou por algum outro membro que não pode fazer um contato direto.

Por causa da ampla gama de atividades do A.A., os nomes frequentemente chegam de lugares não usuais e inesperados. Esses casos deveriam ser contatados assim que todos os dados como: estado civil, relações domésticas, estado financeiro, hábitos de beber, emprego, e outras informações facilmente acessíveis, estivessem em mãos.

É o cliente potencial um candidato?

Muito tempo e esforço poderiam ser poupados ao se conhecer, tão cedo quanto possível, se:

1- A pessoa realmente tem um problema com a bebida? 2- Sabe que tem um problema?

3- Deseja fazer alguma coisa acerca do seu beber? 4- Deseja ajuda?

Às vezes, as respostas a essas questões não podem ser obtidas até que o candidato potencial tenha tido alguma informação sobre o A.A. e de ter uma oportunidade de pensar. Frequentemente são dados nomes, que depois de uma verificação, mostram que o candidato potencial não é, de forma nenhuma, um alcoólico ou ainda que está satisfeito com o atual modo de viver. Não deveríamos hesitar em descartar esses nomes das nossas listas. Devemos estar certos, no entanto, de fazer com que o potencial candidato saiba onde pode nos alcançar em qualquer data futura.

Quem deveria se tornar membro?

O A.A. é uma irmandade de homens e mulheres ligados pela sua inabilidade de usar o álcool em qualquer forma razoável com proveito ou prazer. Obviamente, qualquer novo membro introduzido poderia ser do mesmo tipo de pessoa, sofrendo da mesma doença.

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A maior parte das pessoas pode beber razoavelmente, mas estamos somente interessados naquelas que não podem. Bebedores de festas, bebedores sociais, festeiros e outros que continuam a ter mais prazer do que dor no seu beber, não são de interesse para nós.

Em alguns casos, um indivíduo pode acreditar que é um bebedor social quando ele definitivamente é um alcoólico. Em muitos desses casos, mais tempo deve passar antes que a pessoa esteja pronta para aceitar o nosso programa.

Pressionar tal pessoa antes que esteja pronta pode arruinar as suas chances de, em algum momento, se tornar um membro de A.A., com sucesso. Não se deve excluir a possibilidade de uma ajuda futura ao se pressionar demais no início. Algumas pessoas, embora definitivamente alcoólicas, não têm desejo ou

ambicionam melhorar o seu modo de viver e, até que elas o façam... o A.A. não tem nada a oferecer.

A experiência tem mostrado que idade, inteligência, educação, situação ou a quantidade de bebida alcoólica ingerida tem pouco, se tem, a ver com o fato de uma pessoa ser ou não um alcoólico.

Apresentando o projeto

Em muitos casos, a condição física de uma pessoa é tal que deveria ser hospitalizada, se possível. Muitos membros de A.A. acreditam que a hospitalização, com tempo suficiente para planejar o futuro, livre das preocupações domésticas e das preocupações com negócios oferece uma vantagem significativa. Em muitos casos, o período de hospitalização marca o início de uma nova vida. Outros membros são igualmente confiantes no fato de que qualquer pessoa que deseje aprender sobre o projeto de vida de A.A. pode fazer isso em seu próprio lar ou enquanto engajado nas ocupações normais. Milhares de casos são tratados de cada modo, que tem-se mostrado satisfatórios. Passos sugeridos

Os seguintes parágrafos delineiam um procedimento sugerido para apresentar o projeto de A.A. ao possível candidato, em casa ou no hospital.

Qualificar-se como um alcoólico

1-Ao atender a um novo possível candidato, tem-se mostrado melhor que o padrinho se qualifique como sendo uma pessoa normal que tem encontrado felicidade, contentamento e paz por meio do A.A.. Deve tornar claro,

imediatamente, que você é uma pessoa engajada nas coisas da vida, em ganhar a vida. Fale que a única razão para acreditar que é capaz de ajudá-lo é que você mesmo é um alcoólico que tem tido experiências e problemas que podem ser semelhantes ao dele.

Relate a sua história

2-Muitos membros têm achado desejável iniciar imediatamente com a sua história pessoal com a bebida como um meio de obter a confiança e cordial cooperação do possível candidato.

É importante relatar a história da sua própria vida de bebedor e fazê-lo de um modo que irá descrever um alcoólico, mais do que falar de uma série de situações humorísticas de bêbados em festas. Isso capacitará a pessoa a ter uma visão clara de um alcoólico e deveria ajudá-lo a decidir definitivamente se é um alcoólico.

Inspire confiança no A.A.

3-Em muitos casos, o possível candidato irá tentar vários meios de controlar o seu beber, incluindo atividades de recreio, igreja, mudança de residência, mudança de associações e várias outras atitudes visando o controle. Esses meios irão,

naturalmente, se mostrar sem sucesso. Focalize a sua série de esforços

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que você se tornou capaz de parar de beber com a prática dos princípios de A.A.. Isso encorajará o futuro candidato para olhar com confiança a sobriedade em A.A., a despeito dos muitos fracassos anteriores que tenha tido com outros planejamentos.

Fale de vantagens adicionais

4-Fale francamente ao possível candidato que ele não poderá entender

rapidamente todos os benefícios que estarão chegando por meio do A.A.. Relate a felicidade, a paz de espírito, saúde e, em muitos casos, os benefícios materiais que são possíveis através do entendimento e da aplicação do modo de viver de A.A..

Fale da importância de ler o livro

5-Explique a necessidade de ler e de reler o livro de A.A.. Destaque que esse livro dá uma descrição detalhada das ferramentas do A.A. e dos métodos de aplicação dessas ferramentas para construir um fundamento de reabilitação para viver. Esse é um bom momento para enfatizar a importância dos doze passos e dos quatro absolutos.

Qualidades necessárias para o sucesso em A.A.

6-Faça saber ao possível candidato que os objetivos de A.A. são prover os meios e modos para um alcoólico voltar ao seu lugar normal na vida. Desejo, paciência, fé, estudo e aplicação são o mais importante em determinar cada planejamento individual de ação para ganhar inteiramente os benefícios de A.A..

Reintroduza a fé

7-Desde que a crença em um Poder Superior a nós mesmos é o coração do projeto de A.A. e de que o fato de que essa idéia é frequentemente difícil para uma nova pessoa, o padrinho deveria tentar introduzir o inicio de um

entendimento acerca dessa importante característica.

Frequentemente, isso pode ser feito por um padrinho ao relatar a sua própria dificuldade de captar um entendimento espiritual e falar sobre os métodos que usou para superar suas dificuldades.

Ouça a sua história

8-Enquanto falando ao recém chegado, ganhe o tempo para ouvir e estudar as suas reações a fim de que você possa apresentar a sua informação de um modo mais efetivo. Deixe-o falar também. Lembre ... vá com calma.

Leve a diversas reuniões

9-Para dar ao novo membro um quadro amplo e completo do A.A., o padrinho deveria levá-lo a várias reuniões a conveniente distância da sua casa. Assistir diversas reuniões dá ao novato a oportunidade de selecionar um grupo em que se sinta mais feliz e confortável e é extremamente importante para deixar que o possível candidato tome a sua própria decisão em relação a que grupo irá se juntar. Acentue que ele será sempre bem-vindo a qualquer reunião e que pode mudar de grupo se assim desejar.

Explique o A.A. à família do possível candidato

10-Um padrinho bem sucedido aceita o esforço e faz qualquer empenho

necessário para ficar certo de que as pessoas próximas e com interesse maior no seu doente (mãe, pai, esposa, etc,) sejam inteiramente informadas acerca do A.A., seus princípios e seus objetivos. O padrinho cuida para que essas pessoas sejam convidadas para reuniões e as mantém informadas, a todo momento, da situação corrente do possível candidato.

Ajude o possível candidato a se antecipar às experiências a serem vividas em um hospital.

11-Um possível candidato irá ter mais benefício de um período de internação se o padrinho descrever a experiência e ajudá-lo a se antecipar a elas, preparando o

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caminho daqueles membros que irão chamá-lo. Consulte os membros antigos de A.A.

Essas sugestões para o apadrinhamento de uma nova pessoa nos ensinamentos de A.A. não são completas. Elas pretendem somente dar uma moldura e um guia geral. Cada caso individual é diferente e deveria ser tratado como tal. Informação adicional para o apadrinhamento de uma nova pessoa pode ser obtida a partir da experiência de um companheiro mais experiente nesse tipo de serviço. Um Co padrinho, com experiência, trabalhando com um novo companheiro no

apadrinhamento de um possível futuro membro tem-se mostrado satisfatório. Antes de assumir a responsabilidade de apadrinhamento, um membro deveria estar certo de que é capaz de realizar a tarefa e de estar disposto a dar seu tempo, esforço e meditação que uma tal obrigação implica. Pode acontecer que ele queira selecionar um Co padrinho para compartilhar a responsabilidade ou pode sentir necessário solicitar a outro companheiro que assuma a

responsabilidade pela pessoa que ele tenha localizado. Se você vai ser um padrinho, seja um bom padrinho.

Os capítulos não faziam parte do texto original. Foram adicionados e estão presentes nas impressões seguintes.

SÍNDROME DE DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL-ALCOOLISMO Dr. Laís Marques da Silva

Ex-custódio e Ex-presidente da JUNAAB

Em Alcoólicos Anônimos o que importa não é o alcoolismo, mas sim o alcoólico. Não se fazem estudos ou pesquisas sobre o alcoolismo mas dedicam-se todas as atenções e cuidados às pessoas que sofrem dessa doença. É o ser humano, é o doente que importa.

Além do mais, a Irmandade resolve o problema do diagnóstico de uma forma adequada. Ninguém faz diagnóstico, ninguém rotula ninguém mas, depois de algum tempo de convivência com membros do grupo de A.A. e chegando às suas próprias conclusões diante do que viu e ouviu nas reuniões, é o próprio alcoólico que decide ser ou não um membro do grupo e é também ele quem diz se é ou não um alcoólico. Mas as pessoas, depois de passarem por tratamentos médicos e ao se reconhecerem como alcoólicos, passam, como é natural, a ter um

interesse, uma curiosidade em relação à sua doença. Desejam conhecer um pouco acerca do alcoolismo.

A palavra alcoolismo foi usada pela primeira vez em 1849 pelo médico sueco Magnus Huss no seu trabalho "Alcoolismo Crônico", expressão essa que se tornou o modo corrente de tratar os que apresentavam embriagues habitual, chamados a partir daí de alcoólatras, alcoólicos ou alcoolistas. Bebem repetida e excessivamente bebidas alcoólicas com prejuízos para si mesmos e para outras pessoas sendo que os danos se expandem para áreas tão diferentes como mentais, econômica, sociais, legais, etc.

Por ser o controle voluntário muito pequeno e o beber compulsivo, o alcoolismo é considerado como adição e como doença. Daí que, numa visão simples, é tido como sendo a doença que resulta do beber compulsivo e crônico.

N No entanto, do ponto de vista farmacológico e fisiológico, o alcoolismo é entendido como uma adição química que leva à necessidade de beber doses crescentes para produzir os efeitos desejados ou aliviar o desconforto da

abstinência e que pode resultar na síndrome de abstinência quando esse beber é interrompido. Mas, diferentemente da adição que ocorre pelo uso de outras drogas, nem sempre o alcoólico necessita de doses crescentes da substância.

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Por outro lado, o alcoólico desenvolve graus variáveis e baixos de tolerância ao álcool de modo que a dose letal, aquela que leva à morte, só ocasionalmente pode ser alcançada ou ultrapassada

Do ponto de vista do comportamento, o alcoolismo é uma desordem em que o álcool se torna muito importante na vida de uma pessoa que experimenta a perda de controle em relação ao seu beber. Aí, com dependência ou não, o consumo do álcool é suficientemente intenso para causar problemas físicos, mentais, sociais, econômicas, legais, etc. A desordem é entendida como doença porque persiste por anos, é fortemente hereditária, progressivamente incapacitante e importante causa de morte. O álcool compromete a livre decisão de beber ou não e de quando parar. Ainda, diferentemente da maioria dos maus hábitos, a força de vontade vale pouco em relação ao álcool.

Do ponto de vista sociológico, o alcoolismo é tido como um desvio social mas, ele deveria desaparecer com a maturidade, como ocorre em muitas outras formas de desvio social, mas isso não acontece com o alcoolismo. Como é quase impossível submeter todo um grande grupo de indivíduos a estes o entendimento do

alcoolismo pode ficar por conta da quantidade e da freqüência em que é ingerido, pelo número de internações relacionadas ao álcool, pela freqüência de mortes por cirrose ou por prisões decorrentes de mau comportamento relacionado com o uso de álcool.

É preciso ainda discernir três condições diferentes: o uso do álcool, o abuso e a dependência. Abusa do álcool aquele que tem um comportamento social

desviante em relação ao seu consumo, que bebe regularmente e, o mais

importante, que apresenta problemas de saúde, além de sociais e/ou profissionais em conseqüência da ingestão do álcool. O abuso pode evoluir para a

dependência e aí encontraremos a compulsão para a ingestão de álcool a fim de experimentar os seus efeitos ou para evitar o desconforto da sua falta. Aqui, na dependência, também são importantes os componentes sociais e

comportamentais e, mais ainda, os componentes biológicos e psíquicos traduzidos na tolerância e na compulsão, respectivamente. Nos conceitos de abuso do álcool e na síndrome de dependência do álcool está o que é entendido por alcoolismo. A psicose alcoólica, a cirrose hepática, a gastrite alcoólica, etc, ficam como complicações. Em rápidas palavras, beber sem problemas traduz o beber social, beber com problemas se constitui no abuso do álcool e beber com problemas e apresentando a dependência química caracteriza a Síndrome de Dependência do Álcool.

Acontece que um alcoólico na ativa pode procurar um médico porque está tendo problemas sexuais e para ele alcoolismo pode ser a perda de potência. Para a sua mulher, que foi espancada, o alcoolismo está ligado ao espancamento.

Quando, por essa razão, ela o leva ao hospital e lá o médico faz vários testes e as provas de funções hepáticas se mostram alteradas, a enzima gama glutamil

transferase se encontra elevada e o volume dos glóbulos vermelhos está

aumentado, o médico o considera um alcoolista em face do quadro clínico e dos exames complementares realizados. Já um pouco melhor, no dia seguinte, o paciente sai dirigindo alcoolizado e os vizinhos dizem que ele é um alcoólico porque dirige alcoolizado. Então, afinal, o que é o alcoolismo?

Do ponto de vista da quantidade de bebida consumida, uma pessoa com 100 quilos pode beber uma grande quantidade de bebida alcoólica sem apresentar muitas manifestações, mas a mesma quantidade de bebida seria catastrófica para uma pessoa com pouco peso e epilética ou ainda para um piloto de avião com uma úlcera no estômago. Um taberneiro francês que beba mais de dois litros de vinho por dia pode não ser considerado um alcoólico pelos seus parentes e

Referências

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