15/04/2019
Número: 0601693-22.2018.6.22.0000
Classe: AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL
Órgão julgador colegiado: Colegiado do Tribunal Regional Eleitoral Órgão julgador: Relatoria Corregedoria Regional Eleitoral
Última distribuição : 06/11/2018 Valor da causa: R$ 0,00
Assuntos: Condição de Elegibilidade - Filiação Partidária, Abuso - De Poder Político/Autoridade, Corrupção ou Fraude
Segredo de justiça? NÃO Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia PJe - Processo Judicial Eletrônico
Partes Procurador/Terceiro vinculado
SEBASTIAO VALADARES NETO (AUTOR) AMARILDO CRISOSTOMO BARBOSA (ADVOGADO)
JUACY DOS SANTOS LOURA JUNIOR (ADVOGADO) PSL - PARTIDO SOCIAL LIBERAL DO ESTADO DE
RONDONIA (RÉU)
LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO) KILVIA HELENA DE ARAUJO EVANGELISTA MARQUES
(RÉU)
ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO) LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
JOAO CHRISOSTOMO DE MOURA (RÉU) NELSON CANEDO MOTTA (ADVOGADO)
IGOR HABIB RAMOS FERNANDES (ADVOGADO) CRISTIANE SILVA PAVIN (ADVOGADO)
EVANDRO CESAR PADOVANI (RÉU) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO)
LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
SILMAR REGIS CAMARINI (RÉU) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO)
LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
DARIO SIEGFRIED LOESCHKE (RÉU) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO)
LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
LUANA NUNES DE OLIVEIRA SANTOS (RÉU) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO) LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
DANIELLE LISBOA FREDERICO RAMOS DE CASTRO PRIETO (RÉU)
RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO)
EDUILSON FELIX DINIZ (RÉU) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO)
LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
EDIO DE ALMEIDA ALCANTARA (RÉU) LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO) RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
RAIANE CORTEZ DE ARAUJO (RÉU) ERIKA CAMARGO GERHARDT (ADVOGADO)
RICHARD CAMPANARI (ADVOGADO)
LUIZ FELIPE DA SILVA ANDRADE (ADVOGADO) Procuradoria Regional Eleitoral de Rondônia (FISCAL DA
LEI) Documentos Id. Data da Assinatura Documento Tipo 12189 87 11/04/2019 18:26 Petição Petição
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORIA REGIONAL ELEITORAL EM RONDÔNIA
EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR RELATOR DO EGRÉGIO TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL NO ESTADO DE RONDÔNIA
AIJE n. 0601693-22.2018.6.22.0000 Autor: Sebastião Valadares Neto
Investigados: Partido Social Liberal – PSL e outros Relator: Desembargador Paulo Kiyochi Mori
I. SÍNTESE PROCESSUAL
Trata-se de ação de investigação judicial eleitoral ajuizada por Sebastião Valadares Neto, candidato a deputado federal nas Eleições de 2018, em face do Partido Social Liberal e de todos os candidatos ao cargo de deputado federal lançados pela agremiação, objetivando, em síntese, a declaração de nulidade dos votos obtidos pelo PSL na eleição proporcional federal, determinando-se a desconstituição do mandato eletivo outorgado a João Chrisóstomo de Moura.
Devidamente notificados, os requeridos apresentaram defesa à ID 591887, sustentando, preliminarmente, a inépcia da inicial. No mérito, pugnam pela improcedência da ação, sob o fundamento de que a candidata Kilvia Helena de Araújo Evangelista Marques efetivamente praticou atos de campanha.
Instada, esta Procuradoria Eleitoral manifestou-se, preliminarmente, pelo apensamento da presente ação de investigação judicial eleitoral à ação de impugnação de mandato eletivo n. 0601878-60.2018.6.22.0000, nos termos do artigo 96-B da Lei n. 9.504/97. No mérito, opinou pela procedência da ação, ante caracterização de fraude ao artigo 10, §3º, da Lei 9.504/97 – ID n. 971887.
Em decisão, o relator julgou indeferido, por ora, o pedido de apensamento formulado pela Procuradoria Regional Eleitoral, “sem prejuízo de eventual apensamento após a conclusão das instruções” – ID n. 993937.
Após, o investigado João Chrisóstomo de Moura apresentou alegações finais à ID n. 1120087, sustentando, em sede preliminar, a inadequação da ação de investigação judicial eleitoral para questionar a prática de fraude à legislação eleitoral. No mérito, requer a improcedência da ação, sustentando a validade da filiação partidária de Kilvia ao Partido Social Liberal, apresentando, para tanto, os documentos IDs n. 108887, 1008937, 1009037 e 1120137.
À ID n. 1120837, a parte autora apresentou alegações finais, aduzindo, em suma, a caracterização da prática de abuso de poder de autoridade pela agremiação partidária, materializada na prática de fraude à formação da cota de gênero prevista no artigo 10, §3º, da Lei 9.504/97. Assim, reitera os termos da exordial, pugnado, por fim, pela procedência dos pedidos iniciais.
Ato contínuo, à ID n. 1121487, o Partido Social Liberal e os demais investigados apresentaram alegações finais, pugnando pelo acolhimento da preliminar de inépcia da inicial, e, no mérito, pela improcedência dos pedidos iniciais.
Após, vieram os autos para manifestação desta Procuradoria Regional Eleitoral.
Relatado no essencial.
II. FUNDAMENTOS JURÍDICOS
2.1. Preliminar de inadequação da via eleita
Em alegações finais (ID n. 1120837), sustenta o investigado João Chrisóstomo de Moura que a via eleita pelo autor mostra-se inadequada para questionar a prática de fraude no decorrer das eleições de 2018.
Aduz que a ação de investigação judicial eleitoral tem por objeto principal investigar a prática de “uso indevido, desvio ou abuso do poder econômico ou do poder de autoridade, ou utilização indevida dos meios de comunicação social”. Contudo,
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aponta que o autor da ação cingiu-se a indicar a prática de fraude à formação da cota de gênero prevista no artigo 10, §3º, da Lei n. 9.504/97, cujo instrumento processual adequado para questionamento seria a ação de impugnação de mandato eletivo, prevista no artigo 14, §10, da Constituição Federal.
Ato seguinte, sustenta o autor que a presente ação de investigação eleitoral tem como objeto principal o abuso de poder de autoridade praticado pelo Diretório Estadual do Partido Social Liberal, que, mediante a “exclusiva prerrogativa constitucional de conduzir as candidaturas à Justiça Eleitoral (…) agiu de forma contrária à lei, tangenciando a disposição legal mencionada e desviando-se do rumo pelo ordenamento jurídico de regência”.
De fato, extrai-se dos autos que a presente ação de investigação judicial eleitoral encontra-se fundamentada na prática de abuso de poder praticado pelo Partido Social Liberal, materializado na inclusão de candidatura “laranja” para fraudar a legislação eleitoral, preenchendo o percentual mínimo de gênero previsto no artigo 10, §3º, da Lei n. 9.504/97.
Sobre o tema, o Tribunal Superior Eleitoral já se manifestou no sentido de que as fraudes praticadas em DRAP, com apresentação de candidaturas “laranjas”, podem ser aferidas mediante a propositura de AIJE, considerando a fraude como espécie do gênero de abuso de poder político/autoridade. Cite-se:
(…) 4. É possível verificar, por meio da ação de investigação judicial eleitoral, se o partido político efetivamente respeita a normalidade das eleições prevista no ordenamento jurídico – tanto no momento do registro como no curso das campanhas eleitorais, no que tange à efetiva observância da regra prevista no art. 10, § 3º, da Lei das Eleições – ou se há o lançamento de candidaturas apenas para que se preencha, em fraude à lei, o número mínima de vagas previsto para cada gênero, sem o efetivo desenvolvimento das candidaturas. 5. Ainda que os partidos políticos possuam autonomia para escolher seus candidatos e estabelecer quais candidaturas merecem maior apoio ou destaque na propaganda eleitoral, é necessário que sejam assegurados, nos termos da lei e dos critérios definidos pelos partidos políticos, os recursos financeiros e meios para que as candidaturas de cada gênero sejam efetivas e não traduzam mero estado de aparências. (TSE – Recurso Especial n. 24342, Rel. Min. Henrique Neves da Silva, Publicada em 11/10/2016)
Nesse sentido, manifesta esta Procuradoria pelo não acolhimento da preliminar de inadequação da via eleita, ante a possibilidade de ajuizamento de ação de
investigação judicial eleitoral para aferição de fraude na formação do DRAP partidário, nos termos do entendimento adotado pela Corte Superior Eleitoral.
2.2. Mérito
No presente caso, extrai-se a existência de fraude eleitoral na formalização do pedido de registro de candidatura da chapa proporcional ao cargo de deputado federal do Partido Social Liberal – PSL, materializada na inclusão de candidata
“laranja” para o preenchimento da cota de gênero prevista no art. 10, § 3º, da Lei n. 9.504/97
e do art. 20 da Resolução TSE 23.548/17.
Quanto ao tema, dispõe o art. 10, § 3º, da Lei n. 9.504/97:
Art. 10. Cada partido ou coligação poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, a Câmara Legislativa, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais no total de até 150% (cento e cinquenta por cento) do número de lugares a preencher, salvo:
(…)
§3o Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou
coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo.
Em mesmo sentido, dispõe o art. 20 da Resolução TSE n. 23.548/17:
Art. 20. Cada partido político ou coligação poderá registrar candidatos para a Câmara dos Deputados, a Câmara Legislativa e as Assembleias Legislativas no total de até 150% (cento e cinquenta por cento) do número de lugares a preencher, salvo nas Unidades da Federação em que o número de lugares a preencher para a Câmara dos Deputados não exceder a 12 (doze), para as quais cada partido político ou coligação poderá registrar candidatos a Deputado Federal e a Deputado Estadual ou Distrital no total de até 200% (duzentos por cento) das respectivas vagas.
(…)
§ 2º Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido político ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo.
(…)
§ 4º O cálculo dos percentuais de candidatos para cada sexo terá como base o número de candidaturas efetivamente requeridas pelo partido político ou coligação e deverá ser observado nos casos de vagas remanescentes ou de substituição.
§ 5º O deferimento do pedido de registro do partido político ou coligação ficará condicionado à observância do disposto nos parágrafos anteriores, atendidas as diligências referidas no art. 37.
A redação trazida pela Lei n. 12.034/2009 substituiu a expressão “deverá reservar” pelo termo imperativo “preencherá”, de modo a impor que os percentuais
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de cotas de gênero tomem por base o número de candidatos cujos registros forem, de fato, requeridos pelo partido ou pela coligação.
Trata-se, portanto, de requisito de indispensável e indissociável à participação do partido político e/ou coligação partidária nas eleições aos cargos proporcionais, a ser aferida no ato do requerimento de registro do Demonstrativo de Regularidade dos Atos Partidários.
Nota-se que a atualização legislativa buscou a máxima efetividade do princípio constitucional da isonomia entre homens e mulheres (art. 5º, caput e inciso I, da Constituição Federal1), visando a resguardar e incentivar a inclusão e a participação feminina na vida política, razão pela qual a apresentação de pedido de registro de candidatura
manifestadamente inadmissível ou sem qualquer viabilidade de êxito, apenas com o
escopo de preencher, fictamente, a cota prevista na legislação eleitoral, ofende o ordenamento jurídico.
A representatividade política das mulheres é questão determinante para efetividade do princípio constitucional da igualdade. É parte da capacidade eleitoral (ativa e passiva), que integra o direito de cidadania das mulheres e complementa o movimento sufragista, iniciado há cerca de um século. As mulheres pretendem votar e ser votadas, participando integralmente da vida política da nação.
Não obstante cerca de 52,25% (cinquenta e dois por cento) do eleitorado brasileiro seja composto por mulheres, o Brasil tem atingido menores índices de participação proporcional de mulheres no Legislativo do que outras nações de menor consolidação democrática.
A Constituição da República, ao consagrar a democracia, o pluralismo político e a igualdade de gênero, garante que mulheres participem da vida política em igualdade de condições com os homens. Por esta razão, a análise do presente caso assume relevância que transcende até mesmo os limites subjetivos do feito e demanda uma resposta
1 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
jurisdicional para que não restem dúvidas sobre o patamar de igualdade da participação das mulheres brasileiras na vida política do nosso país.
Sobre o tema, a Corte Superior Eleitoral já assentou que “o incentivo à presença feminina constitui necessária, legítima e urgente ação afirmativa que visa promover e integrar as mulheres na vida política brasileira, de modo a garantir-se observância, sincera e plena, não apenas retórica ou formal ao princípio da igualdade de gênero (art. 5º, caput e I, da CF/88)” – Rp n. 28273/2017.
Nesse cenário, importa ressaltar que, para que a ação afirmativa de inclusão feminina na política atinja sua finalidade, é preciso que as candidaturas lançadas pelos partidos políticos sejam viáveis, não apenas como mero propósito de cumprir um critério legal. Faz-se necessário que essas candidaturas se desenvolvam ou, ao menos, que
tenham potencial para se desenvolverem.
Candidaturas fictícias atribuem às mulheres ao papel figurativo na disputa político-eleitoral, exatamente o que a norma malferida – que cumpre a garantia da máxima efetividade constitucional em relação à isonomia entre homens e mulheres – busca evitar. A isonomia, portanto, é comprometida sob diferentes perspectivas e a fraude perpetrada é, de fato, ao Texto Maior.
Da análise pormenorizada dos autos, esta Procuradoria Regional Eleitoral identificou a existência candidatura feminina sem a devida demonstração de
filiação partidária, condição de elegibilidade prevista no art. 14, § 3º, inciso V, da
Constituição Federal.
É cediço que a filiação a partido político consiste em elemento indissociável à condição de elegibilidade, inexistindo, em regra, a possibilidade de registro de candidatura avulsa no ordenamento jurídico brasileiro. Assim, por figurar como condição ao exercício da capacidade eleitoral passiva, a filiação partidária pressupõe o pleno gozo dos direitos políticos do filiado. Cite-se:
Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:
(…)
§ 3º São condições de elegibilidade, na forma da lei:
I – a nacionalidade brasileira;
II – o pleno exercício dos direitos políticos; III – o alistamento eleitoral;
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IV – o domicílio eleitoral na circunscrição;
V – a filiação partidária;
Nesse sentido, dispõe o art. 9º da Lei n. 9.504/97 que, para que o cidadão possa concorrer a cargo eletivo, faz-se necessário que o requerimento de filiação tenha sido deferido pelo diretório do partido no prazo de 6 (seis) meses antes da eleição.
Assim, o ato de filiação partidária possui natureza interna corporis, pactuado em uma relação linear filiado-partido político, cabendo ao órgão de direção partidária, periodicamente, encaminhar relação atualizada à Justiça Eleitoral, indicando os nomes dos filiados, o número dos títulos eleitorais e das seções às quais encontram-se vinculados, nos termos do art. 4º, caput, da Resolução TSE n. 23.117/092.
Consoante leciona Rodrigo Zilio, a remessa das listas de filiados à Justiça Eleitoral possui efeito meramente declaratório, visando a conferir publicidade aos atos de filiação, dando-se transparência às relações jurídicas firmadas entre os filiados e o órgão partidário, como instrumento hábil a evitar eventual cerceamento ao direito de livre associação – art. 5º, inciso XVII, da Constituição Federal3.
Com efeito, o art. 21 da Resolução TSE n. 23.117/09 dispõe que “a prova da filiação partidária, inclusive com vista à candidatura a cargo eletivo, será feita com base na última relação oficial de eleitores recebida e armazenada no sistema de filiação”.
De fato, a atualização periódica dos dados partidários no Sistema de Filiação Partidária da Justiça Eleitoral – FILIAWEB, confere maior credibilidade e transparência à aferição do preenchimento da condição de elegibilidade prevista no art. 14, §3º, inciso V, da Constituição Federal.
De outro modo, sabe-se que o Tribunal Superior Eleitoral já assentou o entendimento de que a filiação partidária poderá ser demonstrada, em caráter subsidiário, “por outros elementos de convicção, salvo quando se tratar de documentos produzidos unilateralmente, destituídos de fé pública” - Súmula TSE n. 20.
2 Art. 4º Na segunda semana dos meses de abril e outubro de cada ano, o partido, por seus órgãos de direção municipais, regionais ou nacional, enviará à Justiça Eleitoral para arquivamento, publicação e cumprimento dos prazos de filiação para efeito de candidatura, a relação atualizada dos nomes de todos os seus filiados na respectiva zona eleitoral, da qual constará, também, o número dos títulos eleitorais e das seções em que estão inscritos e a data do deferimento das respectivas filiações (Lei nº 9.096/95, art. 19, caput).
Frise-se que, nos autos do procedimento de registro DRAP (0600736-21.2018), o partido político, após parecer desta Procuradoria Regional Eleitoral, acostou aos autos cópia das atas de convenção do partido, restando patente a ausência de filiação da candidata ao Partido Social Liberal – PSL.
Assim, partindo-se da convicção de que o partido político figura como único responsável pela elaboração da listagem de filiados encaminhada à Justiça Eleitoral e, sobretudo, detém a exclusiva prerrogativa constitucional de conduzir as candidaturas à Justiça Eleitoral, mostra-se inadmissível concluir que agremiação desconhecia a ausência de
vínculo filiado-partido político ao tempo do registro de candidatura.
Com efeito, desconsiderando-se a candidatura manifestadamente
incabível, constata-se que, dentre os 11 (onze) pedidos de registro de candidatura do partido, apenas três candidatas preencheram todas as condições de elegibilidade exigidas pela
legislação eleitoral, totalizando cerca de 27% (vinte e sete por cento) do número total de candidatos, situação que acarretaria o indeferimento parcial do DRAP partidário e, consequentemente, de todos os candidatos ao cargo de deputado federal.
Conclui-se, portanto, que a inclusão da impugnada Kilvia Helena de
Araújo Evangelista Marques se deu, única e exclusivamente, para viabilizar a manutenção
do quantitativo proporcional de gênero previsto na legislação eleitoral, possibilitando a inclusão de um maior número de candidatos do sexo masculino, apresentando ao eleitorado estadual candidatura natimorta, sem qualquer possibilidade de se desenvolver.
Por oportuno, registra-se que não se desconhece de julgado do Tribunal Superior Eleitoral (RESPE n. 160892, Rel. Ministro Henrique Neves) que concluiu pela inexistência de fraude na cota partidária quando decorrente de renúncia de candidatas do sexo feminino, formalizadas após o deslinde do prazo para substituição das candidaturas, uma vez que tais atos seriam de natureza unilateral e imprevisíveis.
No entanto, o que se extrai do presente caso é que a agremiação partidária, de maneira consciente e deliberada, requereu o registro de candidatura de
candidata que sequer possuía filiação à agremiação, em flagrante intuito de burlar a norma eleitoral, preenchendo, apenas fictamente, a cota mínima de 30% de candidaturas
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Outrossim, ressalta-se que, ao permitirem a apresentação de pedido de candidatura natimorto, a própria candidata (e a agremiação partidária) obstou a possibilidade de outras candidaturas femininas pudessem disputar o pleito e garantir a representatividade necessária aos interesses femininos no cenário político federal.
Além disso, corrobora a intenção fraudulenta ora impugnada a manifesta omissão partidária ao não realizar o procedimento de substituição da candidatura feminina indeferida, conforme facultado pelo art. 13 da Lei n. 9.504/97.
Desta feita, verifica-se que a burla praticada pela grei viabilizou a homologação do DRAP partidário e o deferimento do registro de candidaturas inaptas, expondo ao eleitorado candidatura natimorta, que sequer preenchiam condições mínimas de participação, em nítida demonstração de desrespeito às normas eleitorais e à higidez do processo eletivo.
Tal o quadro, nota-se que a fraude perpetrada pelo partido não só ensejou o deferimento dos registros de candidatura vinculados ao DRAP, mas viabilizou a conquista de uma cadeira na Câmara Legislativa Federal, a ser ocupada pelo candidato diplomado João Chrisóstomo de Moura, além da diplomação do 1º Suplente, Evandro Cesar Padovani.
Por tais razões, deve a ação ser julgada procedente a fim de que seja determinada a cassação dos diplomas expedidos aos candidatos João Chrisóstomo de
Moura – deputado federal – e Evandro Cesar Padovani – 1º suplente –, declarando-se
nula a integralidade da chapa proporcional ao cargo de deputado federal formada pelo Partido Social Liberal – PSL.
III. CONCLUSÃO
Desta forma, esta PROCURADORIA REGIONAL ELEITORAL manifesta-se pelo não acolhimento da preliminar de inadequação da via eleita, reiterando, por oportuno, o pedido de apensamento e o julgamento conjunto da presente ação com a AIME
n. 0601878-60.2018.6.22.0000, nos termos do art. 96-B, da Lei n. 9.504/97, formulado à ID
971887. No mérito, manifesta-se pela procedência dos pedidos contidos na inicial.
[ASSINADOELETRONICAMENTE]
LUIZ GUSTAVO MANTOVANI