IV - O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA O ENSINO DE LIBRAS – CANAL GESTUAL-VISUAL E SISTEMA ESCRITO
1. Sobre Língua de Sinais e Libras
As línguas de sinais são línguas naturais e complexas, que se utilizam de um canal visual-espacial, de articulação das mãos, das expressões e do corpo, para estabelecer sua estrutura. Trata-se de sistemas lingüísticos independentes dos sistemas orais e se apresentam numa modalidade diferente das línguas orais-auditivas. O que é chamado de palavra ou item lexical nas línguas orais-auditivas é denominado sinais na língua de sinais.A Língua de Sinais não é universal, cada país possui sua própria Língua de Sinais e há variações regionais da língua em um mesmo país.
O reconhecimento da Língua de Sinais se deu em 1760, com Abbé L’Epée, ao ensinar duas irmãs com surdez por motivos religiosos. Na época a língua aproveitava os sinais já usados pelas pessoas com surdez e os sistematizava na ordem do idioma francês, facilitando aos alunos a sinalização de qualquer texto escrito ou a escrita correta de qualquer texto em francês, quando ditado.
Para Moura (2000), o trabalho de L’Epée destacou-se não só pela criação de novos métodos para educação de pessoas com surdez, mas também por outros fatores, tais como: a humildade de se aprender a Língua de Sinais com as próprias pessoas com surdez; a montagem do próprio sistema para educá-los; a responsabilidade pela criação da primeira escola pública para pessoas com surdez no mundo, em Paris na França; a possibilidade de passar do ensino individualizado para o coletivo, favorecendo o acesso à escola de todos os alunos.
No Brasil, a Língua de Sinais tem origem através do Alfabeto Francês de Sinais, com a foi introduzida por Ernest Huet, em 1856. O registro mais antigo é do ano de 1875, produzido pelo aluno Faustino José da Gama, intitulado "I Conographia dos signaes dos surdos-mudos",do do INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos. O seu original está na Biblioteca Nacional e uma cópia, na Biblioteca Museu do INES.
comunicação e expressão, de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria. Esse reconhecimento constituiu um marco histórico na vida dessas pessoas.
Atribui-se à Libras o status de língua, porque ela se compõe de níveis lingüísticos: fonológico, morfológico, sintático e semântico. É uma língua com estrutura gramatical própria e uma lingüística bem definida. O que diferencia a Língua de Sinais das demais línguas é a sua modalidade visual-espacial, diferente da maioria das outras que possuem a modalidade oral-auditiva, por isso a Língua Brasileira de Sinais é independente da Língua Portuguesa.
Uma pessoa que entra em contato com uma Língua de Sinais irá aprender uma outra língua, como o Francês, Inglês etc, mas sempre lembrando que são línguas de modalidades diferentes. A Língua de Sinais, assim como as outras línguas, possibilita aos seus usuários discutir, avaliar, relacionar qualquer tema ou assunto relativos a qualquer ramo da ciência ou contexto científico, por ser uma língua complexa, completa e diferente do que muitas pessoas imaginam.
Inúmeros estudos nas áreas da Lingüística e da Educação têm sido realizados com o objetivo de construir uma compreensão teórica dessa língua e de seus usuários.
Nos últimos anos, várias iniciativas foram criadas, no sentido de socializar a Libras junto aos seus usuários e às pessoas ouvintes. Cabe então perguntar como desenvolver ambientes e práticas pedagógicas que possam favorecer o ensino de Libras para pessoas com surdez, respeitando a singularidade e a naturalidade da língua e considerando que esta não é a língua usual da sociedade da qual participam?
Mais do que a difusão e uso da língua de sinais, é necessário conhecê-la, compreender sua estrutura, para que se assegure que ela seja ensinada e aprendida de forma correta. Atendimento Educacional Especializado para o ensino de Libras deve contar com um profissional que conheça a língua em profundidade em seus aspectos gramaticais, o seu sistema escrito, denominado SignWriting; os caminhos metodológicos para o ensino de Libras no AEE, entre outros..
Ao contrário do que muitos imaginam, a Língua de Sinais não é simplesmente constituída por mímicas e gestos soltos, utilizados pelas pessoas com surdez para facilitar a comunicação. Ela possui parâmetros que a estruturam e que precisam ser compreendidos por quem atua diretamente no AEE de Libras, pois são aspectos essenciais para o ensino dessa língua.
2. LIBRAS: parâmetros que a estruturam
A Língua de Sinais é a visual-espacial. Como língua ela tem suas normas, padrões e regras próprias. Seus sinais são formados pelo movimento e pelas combinações das mãos com o espaço em frente ao corpo. Os parâmetros definem as articulações das mãos com os componentes do corpo e conferem à Língua de Sinais uma organização dos movimentos gestuais e das expressões por ela transmitida.
• Configuração das mãos
São as diversas formas que as mãos assumem para realização de um sinal.
Foto 1 Configuração das mãos para realizar sinais em Libras
• Ponto de articulação, orientação e direção
O ponto de articulação é o espaço em frente ao corpo ou uma região do próprio corpo, onde os sinais se articulam.
Orientação/direção: direção é a forma que a palma da mão assume durante o sinal; e orientação das mãos é a região de contato (parte da mão que entra em contato com o corpo).
• Movimento
São diversos os movimentos e deslocamentos que a mão assume para realizar um sinal. • Expressão facial e corporal
São componentes não-manuais muito importantes, que participam da composição dos sinais, podendo alterar seu significado (interrogação, exclamação, negação, afirmação…).
3 - SignWriting: sistema escrito para língua de sinais
SignWriting é um sistema de escrita para registrar as línguas de sinais. Tem como objetivo expressar/registrar os movimentos, as formas das mãos, as marcas não-manuais e os pontos de articulação, parâmetros específicos das línguas de sinais. Vários estudiosos, e especificamente, as pessoas com surdez têm pesquisado este sistema escrito da Libras bem como a sua aplicabilidade na educação das pessoas com surdez.
O sistema Signwriting foi desenvolvido pela norte-americana Valerie Sutton, por volta da década de 70. Sutton criou-o para grafar balés tradicionais denominados
DanceWriting.Nesta época, Sutton estava na Universidade de Copenhague, na Dinamarca.
Este novo sistema despertou a atenção de pesquisadores da língua de sinais dinamarquesa dessa Universidade que aventaram a possibilidade da escrita dos sinais utilizados pelas pessoas com surdez, com base no registro de um passo/movimento de balé. Este foi o motivo que deflagrou o primeiro registro escrito da Língua de Sinais, um língua que era considerada ágrafa, tendo apenas como canal comunicacional o visual-gestual.
Na década de 80 este sistema foi se expandindo cada vez mais e se tornando mais conhecido em vários países. Por meio do próprio movimento Sutton para grafia das línguas visuais, o sistema, que era representado apenas no papel, passou a ser um sistema possível de ser escrito no computador, com o programa Signwriter.
Em 2004 foi criado um programa que utiliza a plataforma Windows e que foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Católica de Pelotas, denominado SWEdit. Embora ainda seja uma versão experimental, pode-se produzir uma infinidade de materiais em Libras por meio dele.
O computador tornou o SignWriting muito popular nos Estados Unidos e em vários outros países. Hoje em dia, o sistema de escrita de sinais não tem mais a mesma forma que o sistema criado em 1974, pois evoluiu muito ao longo dos anos.
4 - Termos técnico-científicos
Os estudos e as pesquisas dos termos técnico-científicos, ou seja, dos conceitos que não são usados no cotidiano e sim na vida acadêmica e na formação profissional específica são ainda raros. No entanto, as pessoas com surdez não conseguirão construir e compreender um conceito sem esses termos.
É essencial o estudo e criação dos sinais para esses termos para que alunos com surdez possam aprofundar seus estudos.
4.1. - Qual é a importância do estudo de termos técnico-científicos nas escolas?
A criação e sistematização de termos técnico-científicos em Língua de Sinais Brasileira visa encontrar possíveis alternativas para as dificuldades inerentes ao processo de aquisição de conhecimentos em Língua de Sinais Brasileira pelos alunos-usuários com surdez no ambiente escolar.
A criação desses termos é fundamental para:
• subsídiar o intérprete e ao professor bilíngüe a trabalhar com a Libras em seus vários contextos científicos;
• fornecer à pessoa com surdez referencial teórico que possibilite a apreensão de termos inerentes ao conhecimento científico;
• ampliar o vocabulário técnico-científico de Língua de Sinais Brasileira em várias áreas do ensino escolar, já que ainda é uma lacuna que poderá impossibilitar o desenvolvimento cognitivo e lingüístico do aluno com surdez ingresso na escola; • facilitar a construção de conceitos em sala de aula e possibilitar ampliação das
competências lingüísticas da pessoa com surdez em Libras e Língua Portuguesa.
Egito Antigo e uma estátua da cabeça de um faraó.
5 - Caminho metodológico para o ensino de Libras no AEEPS
O ensino de uma língua requer cuidado e critérios metodológicos. O aprendizado de Libras não pode ser descontextualizado e sem significado para a criança/pessoa com surdez, restringindo-se à aprendizagem de meras sinalizações de palavras de uso cotidiano.
Como, então, ensinar esta língua, cujo canal é gestual-visual? Quais os recursos que podem e precisam ser utilizados?
Como se constitui o Atendimento Educacional Especializado de Libras - AEE de Libras?
A organização deste atendimento deve ser bem pensada e planejada pelo professor de Libras, pois envolve o ensino de uma língua.
Este momento didático pedagógico é da responsabilidade do professor e/ou instrutor de Libras (preferencialmente por pessoas com surdez). O professor com surdez é mais indicado que o ouvinte, porque o contato com crianças, jovens e com adultos surdos favorece a naturalidade no processo de aquisição da língua.
Para atuar no AEE de Libras, o professor de AEE precisa: ter amplo domínio da estrutura da Libras; saber ensinar a língua de sinais dialogicamente, estabelecendo interações comunicacionais; não usar o canal da Língua Portuguesa para ensinar a Libras, ou seja, falar e ou escrever e logo em seguida sinalizar; saber desenvolver os vários conceitos da Libras de forma vivencial, sem excluir os conceitos abstratos; elaborar recursos didáticos com o uso de imagens; trabalhar a partir de um contexto.
O atendimento se inicia com o acolhimento do aluno com surdez. Este fator é de extrema importância, uma vez que o aprendizado de uma língua requer confiança na pessoa que a ensina, mesmo sendo esta língua o canal natural de quem está aprendendo. O aluno precisa se sentir seguro e ter auto-confiança para o aprendizado da Língua de Sinais, sendo esta construção algo natural e tranqüilo que fará parte de toda a sua vida.
para ver em que nível estão e se realmente compreendem a sua estrutura e utilizam os vários recursos que ela oferece.
Após a avaliação inicial, o professor de Libras precisa pensar na organização didática desse atendimento, que implica o uso de muitas imagens e de todo tipo de referências, uma vez que o canal desta língua é o visual-gestual.
No decorrer do atendimento os alunos interagem e vivenciam diálogos e trocas simbólicas. Os professores e os alunos recorrem a vários recursos pedagógicos, tais como DVDs, livros, dicionários, materiais concretos, dentre outros.
Quatro imagens expostas uma ao lado da outra. A primeira imagem é uma sala com vários brinquedos, a segunda são imagens de revistas, a terceira uma televisão e a quarta é uma foto de retroprojetor.
Foto 5 Material utilizado para o ensino de Libras
O professor do AEE de Libras avalia sistematicamente a aprendizagem dos alunos em Libras,
utilizando uma ficha de registro onde consta: uso de mímica; conhecimento dos sinais de Libras, fluência e simetria. Em fluência e simetria, analisam: configuração de mão; ponto de articulação; movimento; orientação e expressão facial. Estudam também, o grau de complexidade do domínio da língua, como emprego de termos técnico-científicos das várias ciências. É importante ressaltar que a avaliação considera a idade, o ano ou ciclo escolar em que o aluno com surdez se encontra.
Em resumo,
• o atendimento para a aprendizagem de Libras enriquece a aprendizagem dos alunos com surdez;
• esse atendimento exige uma organização metodológica e didática e especializada; • o professor que ministra aulas de Libras deve ser qualificado para realizar o
atendimento das exigências básicas do ensino, não praticar o bimodalismo, ou seja, misturar a Libras e a Língua Portuguesa, que são duas línguas de estruturas lingüísticas diferentes;
• a avaliação processual do aprendizado por meio de Libras é importante para que se verifiquem, pontualmente, o desenvolvimento e a aprendizagem dessa língua pelo aluno com surdez;
• a qualidade dos recursos visuais é primordial para facilitar a compreensão do conteúdo de libras;
• a organização do ambiente de aprendizagem e as explicações do professor de Libras propiciam uma compreensão do contexto da língua;
• o atendimento educacional especializado de Libras oferece ao aluno com surdez segurança e motivação, sendo, portanto, de extrema importância para a inclusão.
Dois professores de Libras, numa sala com cinco alunos com surdez sentados. O professor explica em Libras a partir de gravuras de paisagem expostas no quadro.
Professora de Libras segurando um painel de fotos de cidade e um aluno com surdez explicando em Libras. No quadro tem fotos de cidade e fazenda.
PARA SABER MAIS
BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial: Brasília, livro 3 / MEC / SEESP, 1994.
DAMÁZIO, Mirlene Ferreira Macedo. Educação Escolar de Pessoa com Surdez: uma proposta inclusiva. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2005. 117 p. Tese de Doutorado.
________, Mirlene Ferreira Macedo. Atendimento Educacional Especializado: Pessoa com Surdez. São Paulo: MEC/SEESP, 2007. 52 p.
FERREIRA BRITO, Lucinda. Por uma Gramática de Línguas de Sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995.
LUFT, Celso Pedro. Dicionário Globo. São Paulo: Editora Globo, 2001.
MOURA, Maria Cecília. O Surdo: Caminhos para uma Nova Identidade. Rio de Janeiro: Revinter, 2000.
OLIVEIRA, Ahygo Azevedo e MACEDO, Mirlene Ferreira. Aígo – A Arte de Comunicar 1 – Língua de Sinais. Uberlândia: AMEDUCA, 1998.
QUADROS, Ronice M. de. &KARNOPP, Lodenir B. Língua de sinais brasileira. Porto Alegre: Artmed Editora, 2004.