Verónica Ribeiro da Costa
Do voluntariado à cidadania e ser Socióloga
Verónica Ribeiro da Costa
julho de 2016
UMinho | 2016
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iado à cidadania e ser Socióloga
Universidade do Minho
Instituto de Ciências Sociais
julho de 2016
Relatório de atividade profissional no âmbito do Mestrado em
Sociologia – área de especialização em Organizações e Trabalho
Trabalho efectuado sob a orientação da
Professora Doutora Ana Paula Pereira Marques
Verónica Ribeiro da Costa
Do voluntariado à cidadania e ser Socióloga
Universidade do Minho
iii AGRADECIMENTOS
Estou grata pelo apoio incondicional da minha família. Refeições prontas a horas e roupas cuidadosamente tratadas pela minha mãe, o cumprimento das obrigações escolares e de casa pelos meus filhos Zé e Manel, a revisão paciente do texto pela minha irmã Clara, as dicas informáticas preciosas do meu irmão Romeu e a partida serena da minha querida avó Lurdes facilitaram a minha missão. A vontade de dar o meu melhor foi sendo alimentada nos momentos menos fáceis por estes seres maravilhosos.
Os meus agradecimentos à minha orientadora que sabiamente soube usar as palavras de alento nas fases mais especiais e respeitou sempre a minha liberdade valorizando e enriquecendo as minhas decisões.
v RESUMO
Do voluntariado à cidadania e ser Socióloga
O presente documento constitui o meu relatório de atividade profissional, elaborado em substituição da tese de dissertação, no âmbito do Despacho RT-38/2011, de 21 de junho, que prevê a obtenção do grau de Mestre aos licenciados pré-Bolonha num curso de mestrado da mesma especialidade em que obtiveram a licenciatura, ao abrigo do sistema de graus anterior à implementação do Processo de Bolonha e que possuam mais de cinco anos de experiência profissional relevante, mediante a apresentação e discussão pública de um relatório detalhado sobre a sua atividade profissional.
Tendo em vista a conclusão do Mestrado em Sociologia, apresento neste relatório a minha atividade profissional, procurando contextualizá-la através da inclusão dos meus estudos académicos e formações artísticas e profissionais, enquadradas pelas metodologias e princípios teóricos, técnicos e artísticos que nortearam o exercício das várias funções que fui assumindo ao longo de mais de vinte anos de vida ativa.
Na primeira parte do relatório apresento a atividade desenvolvida, os locais e entidades onde e para quem foi exercida, descrevendo sucintamente as funções assumidas, seguindo uma certa ordem cronológica. Na segunda parte, desenvolvo uma reflexão crítica sobre o exercício da profissão do sociólogo, questionando o âmbito da sua atuação recorrendo a uma breve análise bibliográfica para a sua melhor compreensão. Termino o relatório com breves considerações finais sobre ser sociólogo na atualidade.
vii ABSTRACT
From volunteering to citizenship and being a Sociologist
This document constitutes my professional activity report, and was drawn up to replace the dissertation thesis under the Dispatch RT-38/2011 of June 21, under which pre-Bologna graduates can obtain the Masters degree in a course Masters in the same specialty in which they obtained their college degree, under the degree system previous to the implementation of the Bologna Process and who have more than five years of relevant work experience through the presentation and public discussion of a detailed report on their professional activity.
In order to complete my Masters in Sociology, I present in this report my professional activity, seeking to contextualize it through the inclusion of my academic studies and artistic and professional training, framed by the methodologies and theoretical, technical and artistic principles that guided the exercise of the various functions that I took over for more than twenty years.
In the first part of the report I present the activity I was involved in, the places and entities where and for whom I worked, briefly describing the functions that I performed by following a certain chronological order. In the second part, I present a critical reflection on the exercise of the sociologist profession, questioning the scope of its actions and resorting to a brief literature review for a better understanding. Finally, I write a short exposition about what it is like to be a sociologist nowadays.
ix ÍNDICE
AGRADECIMENTOS ... iii
RESUMO ... v
ABSTRACT ... vii
ÍNDICE DE SIGLAS - ABREVIATURAS ... 10
ÍNDICE DE FIGURAS ... 11
ÍNDICE DE GRÁFICOS ... 11
ÍNDICE DE QUADROS ... 11
INTRODUÇÃO ... 12
PARTE 1. Percursos entre a academia e o profissional ... 13
1.1. Na academia, não totalmente ... 13
1.2. Os princípios na experiência teatral e associativa ... 14
1.3. Do voluntariado ao trabalho remunerado ... 17
1.4. “Resquícios” – ou nem tanto – da formação: a profissionalização da socióloga ... 19
1.5. A entrada na função pública como garantia da prática do voluntariado ... 20
1.6. Ao serviço da política local: um exercício de cidadania ... 21
1.7. A CEC2012 e seu impacto na freguesia ... 25
1.8. Na função pública: do sustento à vocação ... 29
PARTE 2. Reflexão crítica sobre a profissão: alguns apontamentos teóricos ... 33
2.1. A educação integral, do formal ao informal ... 33
2.2. Das associações à política – do poder à cidadania ... 36
2.3. O exercício da profissão num mundo “conexionista” ... 38
2.4. Competências em perspetiva ... 40
2.5. Ser Socióloga ... 43
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 49
10 ÍNDICE DE SIGLAS - ABREVIATURAS
A3ES – Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior
ACB – Associação Comercial de Braga
AFS – American Field Service
ARTAM – Associação Regional de Teatro de Amadores do Minho
CCPFC – Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua
CDU – Coligação Democrática Unitária
CEC2012 – Capital Europeia da Cultura em 2012
CEE – Comunidade Económica Europeia
CLIB – Colégio Luso-Internacional de Braga
FITE – Festival International de Théâtre d'Enfants et de Jeunes
GAPET – Grupo de Amigos Para a Eternidade no Teatro
GIP – Gabinete de Inserção Profissional
IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional
IPJ – Instituto Português da Juventude
INATEL — Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores
INE – Instituto Nacional de Estatística
PAAJ – Programa de Apoio às Associações Juvenis
QREN – Quadro de Referência Estratégica Nacional
RNAJ – Registo Nacional de Associações Juvenis
SAMA – Sistema de Apoios à Modernização Administrativa
SAUM – Serviços Académicos da Universidade do Minho
SIADAP – Sistema Integrado da Avaliação do Desempenho na Administração Pública Tin.Bra – Grupo de Teatro Infantil de Braga
Tin.Gui – Grupo de Teatro Infantil de Guimarães
UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization
11 ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1 - Logótipo do Tin.Bra, elaborado pela Família Guimarães ...15
Figura 2 - Capa da Obra 1, 2, 3, 4: O Princípio do Teatro ...16
Figura 3 - Convite para a exposição Mãos Dadas ...26
Figura 4 - Foto cedida por D. Francisca Correia ...26
Figura 5 - Cartaz sobre a recriação da Marcha da Fome ...27
Figura 6 - Cartaz do espetáculo "Marcha da Fome - Pevidém sustenta os seus Pobres" ...28
Figura 7 - Escola de Arquitetura da Universidade do Minho ...29
Figura 8 - Cartão de visita do Clube de Poesia ...30
Figura 9 - Cartaz do espetáculo "Duas Caras" ...31
Figura 10 - Pêndulo de Foucault, Museu de Tecnologia de Viena...49
ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Agregados domésticos privados com computador, com ligação à Internet em casa e com ligação à Internet através de banda larga (%)……… 35
Gráfico 2 - Despesa de capital das Câmaras Municipais: por domínio cultural (2012-2001)………..47
ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1 - Freguesia de Selho São Jorge – Vila de Pevidém – Guimarães. Censos de 2011 e 2001………..37
Quadro 2 - Situação da profissão por curso (%) - 2006 e 2007………39
Quadro 3 - Relação da taxa de diplomados, taxa de desemprego total e taxa de desemprego com ensino superior Portugal……….………..41
Quadro 4 - Listagem das peças de teatro encenadas desde 1992 a 2011……….45
12 INTRODUÇÃO
O presente relatório foi elaborado no âmbito do Despacho RT-38/2011, de 21 de junho, que prevê a obtenção do grau de Mestre aos licenciados pré-Bolonha num curso de mestrado da mesma especialidade em que obtiveram a licenciatura, ao abrigo do sistema de graus anterior à implementação do Processo de Bolonha e que possuam mais de cinco anos de experiência profissional relevante, mediante a apresentação e discussão pública de um relatório detalhado sobre a sua atividade profissional.
Tendo em vista a conclusão do Mestrado em Sociologia, apresento neste relatório a minha atividade profissional, procurando contextualizá-la através da inclusão dos meus estudos académicos e formações artísticas e profissionais, enquadradas pelas metodologias e princípios teóricos, técnicos e artísticos que nortearam o exercício das várias funções que fui assumindo. O relatório apresenta-se por uma certa ordem cronológica ascendente que nem sempre foi possível seguir pela inclusão de algumas considerações anacrónicas.
Na primeira parte, procuro articular uma breve narrativa biográfica ligada a atividades de voluntariado com os meus percursos académicos e profissionais. O método privilegiado é o estudo de casos, concretamente o meu próprio caso, recorrendo a fontes tais como o meu jornal pessoal, fotografias, material de divulgação, como programas, cartazes, desdobráveis, entre outros.
Na segunda parte, desenvolvo uma reflexão crítica sobre a profissão de sociólogo aplicando técnicas de recolha bibliográfica e pesquisa documental incluindo dados estatísticos disponibilizados por organismos nacionais e internacionais.
Finalmente, termino o presente relatório apresentando breves considerações finais sobre os desafios para o sociólogo na atualidade.
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PARTE 1. Percursos entre a academia e o profissional
1.1. Na academia, não totalmente
Há momentos que marcam o percurso de vida talvez porque exista uma complexidade de fatores que favorecem a tomada de decisão. O período da formação académica no Ensino Superior (1990-1994) apresentou-se como o mais profícuo, potencializado, por um lado, pela conquista da maioridade e, por outro, pelo abandono parcial da casa de família.
Todo um campo se apresentava para explorar, apenas limitado por alguns condicionalismos financeiros que a dependência ainda à família impunha. Eu não dispunha de um vencimento porque os meus pais faziam questão de suportar as despesas com a minha educação formal. Apenas me exigiam um bom aproveitamento. Contudo, era pouco para todas as despesas relacionadas com estadia, alimentação e material escolar. Se aqueles condicionalismos representavam uma limitação numa primeira fase, rapidamente se tornaram numa oportunidade. Aproveitei todas as ofertas para colaborar em trabalhos de investigação de docentes da Universidade, enquanto aluna da Licenciatura em Sociologia das Organizações, primeira edição na Universidade do Minho. Destaco a colaboração com um docente que, apercebendo-se do fascínio que eu tinha pelo teatro, emprestou-me uma obra que marcou o início de uma odisseia ainda hoje inacabada. Trata-se de
A Construção do Personagem
de Constantin Stanislavski (1989). A busca pelo autêntico, mesmo que no ato de representar, parecia-me o caminho a seguir tanto na minha formação académica como nas atividades que estava prestes a abraçar.Frequentei um curso de iniciação teatral, no qual participei em dinâmicas de grupo em que cada elemento podia superar-se em nome de um trabalho coletivo sem nunca o resultado corresponder meramente à soma das suas partes. Este caminho, que inicialmente se configurava como paralelo à formação académica na área da sociologia, ganhava zonas de intercessão importantes para a compreensão de várias teorias e autores. Destacam-se os autores ligados à Escola de Chicago (1915-1940), Erving Goffman e a sua obra
A Representação do Eu na Vida Cotidiana
(1989), e14
Jacob Levy Moreno com a sua obra
O Teatro da Espontaneidade
(1984)1. A abordagem qualitativaserá a dominante nos meus trabalhos empíricos para a Universidade durante o curso académico. Decorridos oito anos, regressei ao ensino superior por sentir necessidade de complementar a minha atividade profissional muito ligada à educação. Desta feita, concluo a pós-graduação em Educação – Área de Especialização em Sociologia da Educação e Políticas Educativas, em 2003. Conhecer a obra de Paulo Freire (2000; 2002) e todo o processo de alfabetização encetada no Brasil deu-me mais alento, pois era um testemunho importante de intervenção na sociedade para a sua mudança na melhoria das condições de vida das populações.
1.2. Os princípios na experiência teatral e associativa
Dois cursos foram muito importantes para complementar o caminho que eu decidi tomar. O primeiro, previamente mencionado, durante um semestre do ano letivo de 1990-1991, foi o Curso de Iniciação ao Teatro organizado pelo Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL), delegação de Braga; e o segundo, o VI Curso de Encenação também promovido pelo INATEL pela delegação de Lisboa, durante o mês de setembro de 1992, de forma intensiva. Estavam reunidas as condições para legalizar o grupo que, entretanto, formei, depois do primeiro curso, constituído maioritariamente por crianças. O processo, bastante complexo, envolvendo a redação de estatutos, constituição de listas e elaboração do regulamento interno, levou mais de dois anos. Finalmente, no dia 25 de maio de 1996 foram publicados, em Diário da República, os Estatutos da Associação, reconhecidos pelo 2º Cartório Notarial de Braga no dia 6 de fevereiro de 1995. Esta é a data de formalização da Associação dedicada à cultura, com vocação predominante para o teatro infantil e juvenil. Durante mais de uma década fui responsável pela encenação, direção e formação dos atores, marketing, plano orçamental e relatório de contas, filme e fotografia, entre outras funções, exercendo o cargo de presidente da direção. Tornou-se um verdadeiro “balão de ensaios” para os conhecimentos académicos que estava a receber. Fazia
1 Segundo Moysés Aguiar, Psicólogo, com especialização em psicologia da arte, “Moreno está sendo reeditado na Inglaterra, por obra e graça de
Zoli Figusch, psicodramista de origem húngara, radicado no país britânico, porém estreitamente vinculado ao movimento psicodramático brasileiro. […] Sua mais recente investida no campo editorial apresenta seu primeiro fruto: a reedição de The Theatre of Spontaneity, num ambicioso projeto em parceria com The North-West Psychodrama Association, […]. Esta obra é conhecida dos psicodramatistas brasileiros, principalmente através da tradução feita por Maria Silvia Mourão Neto, publicada pela Summus, em 1984. Antes disso, nosso contato se fazia através de edições em inglês ou espanhol. Ela foi publicada originalmente na Alemanha, em 1923, anonimamente. O próprio Moreno a traduziu, posteriormente, para o inglês, assumiu a paternidade e a revisou, reescrevendo algumas partes, para uma primeira edição nos Estados Unidos em 1947, pela Beacon House, e depois, sucessivamente, em 1973 e 1983, pela mesma editora por ele fundada e dirigida. É esse texto que aparece agora, em 2010, na Inglaterra” (Aguiar, 2010: 197-198).
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mais sentido, pois a componente teórica, bastante intensa, ofuscava por vezes mais do que esclarecia.
Um dos primeiros trabalhos práticos foi trabalhar a imagem do grupo, antes mesmo de verem formalizados os Estatutos. Havia necessidade de procurar um nome que o identificasse, um logótipo e um conjunto de valores. A disciplina de Técnicas de Informação e Publicidade do 4º ano foi bastante útil para esta matéria. O resultado foi muito bom, pois teve uma aceitação positiva junto dos restantes membros do grupo e demais públicos. Chamar-se-ia Tin.Bra – Grupo de Teatro Infantil de Braga e o logótipo foi sugerido por duas irmãs, com cerca de 13 anos, que participaram na sua fundação. Depois, foi preciso organizar uma equipa de trabalho constituída por voluntários que assegurasse as atividades mais administrativas da associação, tais como ofícios, relatórios, conta corrente, elaboração de projetos, entre outros. Nesta área, as disciplinas de Sociologia do Trabalho, Gestão de Recursos Humanos e Psicossociologia das Organizações foram muito importantes para um enquadramento adequado e rigoroso da estrutura que se estava a criar de raiz. A atividade mais visível - o teatro infantil e juvenil - tinha condições para crescer de forma mais ou menos sustentada. Isto porque o valor da independência era central para que se pudessem desenvolver trabalhos, por um lado, descomprometidos e, por outro, profundamente envolvidos com temáticas tais como a justiça social, a igualdade de direitos, a participação cívica e a liberdade. O estabelecimento de parcerias foi fundamental para garantir a qualidade das produções teatrais em termos de cenários e guarda-roupa. Para as restantes áreas, contava-se com a boa vontade de familiares e amigos que doavam o seu tempo em forma de serviços: compra de tecidos, costura, pintura de cenários, cedência de adereços, entre outros.
O grupo não era apenas formado pelos seus membros mais diretos. Se assim fosse, não sobreviveria mais do que um a dois anos. Envolver, primeiro os familiares das crianças e jovens, num projeto que sentissem fosse também seu, foi essencial para garantir a sustentação e independência da associação. Nestas condições, foram desenvolvidos trabalhos que acabaram por ser reconhecidos por júris em Festivais de Teatro, como por exemplo os organizados pela Associação Regional de Teatro de Amadores do Minho (ARTAM) e também pelo
Festival
International de Théâtre d'Enfants et de Jeunes (FITE)
, em Toulouse França, representandoPortugal no dia 10 de junho de 1997, com a peça “O Grilo Assobiador” através da qual queríamos
Figura 1 - Logótipo do Tin.Bra, elaborado pela Família Guimarães
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denunciar o que se estava a passar em Timor Leste, sendo a atriz principal uma menina timorense com então 12 anos, refugiada em Lisboa com o seu avô, único elemento da família que conseguiu fugir à guerra. Foi uma experiência única porque houve necessidade de lhe ensinar português, por um lado, e, por outro, foi uma oportunidade para se conhecer alguma cultura e costumes timorenses na primeira pessoa. Esta viagem teve um enorme impacto no reconhecimento do trabalho de intervenção que um grupo tão jovem e constituído, maioritariamente, por crianças e jovens passou a ter no panorama local, mas também nacional. Os convites para apresentar espetáculos surgiram um pouco de todo o lado. O grupo foi convidado para participar nas “manhãs do Goucha” na TVI. Chegou-se à conclusão de que, na época, éramos o único grupo, em Portugal, a apresentar teatro infantil. Havia muitos grupos a representar teatro para a infância, uns profissionais e outros não. Os atores do grupo não tinham mais do que 14 ou 15 anos, tendo a maior parte entre os 6 e 12 anos. Esta faixa etária requeria uma forte formação, pelo que, influenciada pelos cursos que ia frequentando na área do teatro, dramaturgia, encenação, organizei um programa diferenciado por faixas etárias que assegurasse uma formação integrada do ator. Pretendia que a criança ou jovem encontrasse a sua função no grupo e para isso, era necessário mostrar as várias valências, desde a criação artística - trabalho de ator, encenação, luminotecnia, sonoplastia - à componente técnica – som, luz, equipamentos, vídeo, fotografia – e até administrativa – agendamento de espetáculos, apoio de sala (adereços e pertences), organização de convites e convívios. Este aspeto, apesar de importante, era secundarizado pelo ensino sobre os valores do grupo, organizados a partir do seu próprio nome: “T” de Trabalho e Tolerância, “I” de Iniciativa e Imaginação, “N” de Nobreza,
“B” de Bondade e Brincadeira, “R” de Respeito e Responsabilidade, “A” de Amizade e Amor. A partir destes, um dos membros criou a letra e música do Hino da Associação, apresentado publicamente em 1998.
A montagem de uma a duas produções por ano, acompanhada por atuações em vários palcos e localidades, levantava uma necessidade: preservar os direitos de autor dos textos criados ou adaptados pelo grupo, sob a minha orientação. Em setembro de 1997, é lançado o livro
1, 2,
3, 4: O Princípio do Teatro
, com as quatro primeiras peçasde teatro estreadas pelo grupo, com uma tiragem de mil exemplares.
Figura 2 - Capa da Obra 1, 2, 3, 4: O Princípio do Teatro
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Tive ainda a oportunidade de orientar duas pessoas: uma para o seu trabalho de final de curso profissional do Porto, com a montagem de uma peça de teatro com as crianças, em 2002; outra para conclusão da sua licenciatura em sociologia, em que trabalhou o grupo como organização de educação não formal, em 20032. Ambos os trabalhos foram concluídos com sucesso e significaram
um importante momento de introspeção. Efetivamente, o trabalho com crianças constituía uma gratificação ímpar. Tratava-se de uma faixa etária onde a verdade e a sinceridade imperavam. Com adultos, a situação mudou totalmente. Eu tinha receio de não conseguir um bom resultado. Por essa razão, o facto de ter sido um sucesso representou mais um momento de aprendizagem único. A orientação implicou um compromisso sério de acompanhar sem impor, de encorajar sem obrigar, de indagar sem insistir e para além disso de alguma cumplicidade.
O grupo alcançava a sua maturidade. Apesar disso, não era possível dedicar-me profissionalmente, uma vez que as verbas conseguidas não chegavam para assegurar um vencimento. Tudo o que se conseguia com as atuações pagavam uma parte das despesas. As restantes eram cobertas pelos subsídios conseguidos, maioritariamente, junto do então Instituto Português da Juventude (IPJ), através do Programa de Apoio às Associações Juvenis (PAAJ), e alguns junto da Câmara Municipal de Braga.
1.3. Do voluntariado ao trabalho remunerado
Os meus primeiros trabalhos remunerados foram na área do teatro e foram conseguidos através das pessoas que conheci no Tin.Bra. Fui professora da disciplina de Técnicas de Aplicação – Expressão Dramática, na Cooperativa de Ensino MisarelaCoop, em Montalegre, durante o primeiro semestre de 1993-1994. Os jovens alunos nunca tinham visitado uma sala de teatro. Com o apoio da direção, organizei uma deslocação ao Theatro Circo para assistirem a um espetáculo. Com estes alunos, tão empenhados, foi possível montar uma pequena representação sobre a lenda da Ponte de Mizarela em apenas dois meses. No ano letivo seguinte, dei aulas de Expressão Dramática, na Escola Secundária de Barcelos a alunos de 10º e 11º anos. A história local era muito rica servindo de pano de fundo para uma das peças que montei com uma das turmas no Paço dos Condes de Barcelos. Durante uma semana, os alunos representavam
A Romagem dos
2O relatório de estágio, defendido em dezembro de 2003 por Laura Amélia de Araújo Oliveira Batista, intitulava-se “Levantar o pano da socialização
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Agravados
de Gil Vicente, como trabalho de avaliação final. Como havia muita afluência, tivemosque repetir o espetáculo mais do que uma vez por noite. A adesão foi muito positiva por parte do público e os alunos estavam completamente comprometidos e envolvidos, tendo-se assistido a um crescimento positivo nos seus desempenhos.
Entre 1994 até 1997, fui contratada como encenadora do grupo de teatro da associação Casa do Professor de Braga. Semanalmente, reunia-me uma a duas vezes com um grupo de professores, a maior parte reformados, que tinha como missão levar as histórias da Disney às escolas através do teatro musical. O que mais admirava neste grupo era o sentido de humildade e a vontade de aprender não obstante a minha idade, nalguns casos as diferenças podiam chegar aos 40 anos. O Centro de Formação da Casa do Professor convidou-me a dinamizar uma ação de formação destinada aos educadores de infância e aos professores dos 1º ao 3º ciclos do ensino básico. Organizei o curso de Metodologia do Português com Recurso à Expressão Dramática, no âmbito da formação contínua de professores, desde 1995 a 1997. Pude constatar o nível extraordinário de criatividade do corpo docente com desempenhos excelentes ao nível da expressão plástica e dramática. Então porquê que não se recorria mais vezes a estas expressões na sala de aula? Vários foram os constrangimentos que me explicaram, principalmente relacionados com o cumprimento criterioso de conteúdos programáticos deixando o horário totalmente preenchido. Outros de ordem financeira, porque a escola não dispunha de verbas para custear os materiais necessários para cenários e guarda-roupa.
No ano letivo de 2003-2004, orientei uma Oficina de Teatro no Colégio Luso-Internacional de Braga (CLIB) para crianças. Apesar de se tratar de uma entidade privada, não existiam instalações apropriadas para o desenvolvimento de atividades dramáticas. O polivalente acabou por ser o mais adequado por ter um espaço aberto, sem cadeiras, nem barreiras arquitetónicas (colunas ou escadas).
Este período revelou-se gratificante porque se tratava do reconhecimento de um trabalho, apesar de voluntário, baseado em princípios profissionais de resultados surpreendentes. Em média, em três anos de atividade intensa na associação, as crianças conseguiam melhores resultados na escola. Uma das meninas que representava curou parcialmente uma paralisia facial, os tímidos ganhavam à-vontade, os hiperativos acalmavam-se. Escutava-se e cada um tinha a sua voz. O lema era “Com o teatro se vai longe”, sugerido por uma das crianças e aprovado por todos. Na altura da criação do Tin.Bra, eu não esperava estes resultados. Esta descoberta foi tão importante
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que marcou a minha decisão de manter o trabalho coletivo voluntário com crianças e jovens como uma missão. Mesmo que assegurar a sobrevivência implicasse outros trabalhos, a criação de uma família obrigasse a um afastamento temporário, dificuldades na mudança de funções e do local de trabalho, o comprometimento no envolvimento e formação de grupos manteve-se uma constante no meu percurso de aprendizagem ao longo da vida. Nestes contextos, devolvi competências, tais como gestão de conflitos, dinâmica de grupo, trabalho em equipa, tolerância, criatividade, adaptação e flexibilidade, análise e resolução de problemas, planeamento e organização, entre outras, que são centrais no desempenho das minhas funções atualmente, em termos profissionais.
1.4. “Resquícios” – ou nem tanto – da formação: a profissionalização da socióloga
Os meus primeiros trabalhos remunerados como socióloga tiveram lugar a partir de 1994 até 1996, na área da formação profissional sobre organização pessoal e social, orientação profissional, psicologia social e recursos humanos. Os formandos eram diversos, desde jovens a adultos empregados e desempregados, em diferentes centros de formação. Ainda havia, nessa época, um grande investimento da Comunidade Económica Europeia (CEE) em formação. Com a crise do Vale do Ave, criaram-se novos programas de apoio à inserção sobretudo da mulher, uma vez que esta foi a mais afetada com a crise dos anos 80, segundo os dados estatísticos da altura. São os métodos, trazidos da minha atividade com o teatro, inovadores para a área da formação nos anos 90, que me popularizaram sendo contratada por várias entidades: centros de formação, associações de professores e empresários, Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) e IPJ. Através de métodos ativos com os quais eu estava familiarizada, a exposição de conteúdos tornava-se mais dinâmica e os formandos revelavam uma elevada motivação e conseguiam atingir os objetivos de forma extraordinária, segundo as avaliações por eles realizadas e dos próprios diretores dos centros de formação.
O primeiro estudo no qual colaborei como socióloga designava-se
Identificação das Oportunidades
Nacionais Para o Comércio Local
, a pedido da Associação Comercial de Braga (ACB), entre abrile outubro de 1996. Para além da elaboração do inquérito a ser aplicado, levantamento do público-alvo para a determinação da amostra, analisei os dados, colaborando no relatório final publicado pela associação e apresentado publicamente num congresso.
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1.5. A entrada na função pública como garantia da prática do voluntariado
A dedicação à preparação das sessões de formação, a participação no referido estudo, aliada à minha atividade voluntária nas associações, ocupava todo o tempo e pouco restava para mim. Tomei consciência de que precisava de estabilizar a parte profissional para poder continuar a garantir a minha participação associativa. Aceitei colaborar num serviço técnico-administrativo que me oferecia um vencimento razoável e um horário fixo, a partir de 1997. Esta situação permitiu-me constituir família, que tanto desejava, e continuar a dedicar-permitiu-me ao Tin.Bra. Tratava-se do Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua (CCPFC), um serviço público de âmbito nacional, com sede em Braga. As minhas funções consistiam em analisar os pedidos de acreditação de entidades formadoras, ações de formação e de qualificação de potenciais formadores, dando pareceres técnicos sobre a sua possível acreditação. Uma das minhas missões consistia na elaboração de relatórios parciais que, após aprovação pelas chefias, faziam parte do boletim informativo, cuja organização e edição estavam sob a minha responsabilidade. Até setembro de 2004, fiz atendimento personalizado aos representantes das entidades formadoras, estabelecendo uma rede de contactos que possibilitou a organização de encontros nacionais sobre a temática da formação do pessoal docente.
Alterações na minha situação familiar obrigaram-me a mudar de cidade, dificultando a dedicação à associação. Um ano após a transferência da minha atividade profissional em outubro de 2004, despedi-me do Tin.Bra, com grande pesar e com sentido de dever cumprido.
A intervenção na comunidade continuava, a partir dessa altura nos locais frequentados pelos meus filhos. Primeiro, no centro infantil onde me ofereci para dinamizar jogos teatrais, devidamente autorizados pelos encarregados de educação. A adesão foi positiva e a satisfação dos pequeninos e pequeninas foi grande. Fiz questão em demonstrar ao público os trabalhos, que foram amplamente aplaudidos. Nesta altura, a transformação a que eu assistia nas crianças do pré-escolar já não me surpreendia. Confirmava-se o sentimento de realização de algo maior do que eu própria porque o grupo funcionava mais do que um todo, contrariando a lógica da matemática uma vez que o resultado ultrapassava a soma das partes e, logo, a magia continuava.
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Seguiu-se o primeiro ciclo e, novamente, ofereci-me para criar grupos por faixas etárias, com a finalidade de montar pequenas peças de teatro a apresentar à comunidade escolar e familiar, essencialmente, em dois momentos: na festa de Natal e na festa de final de ano. Porque não ficava indiferente e fazia sugestões de melhoria nas reuniões gerais da escola, a associação de pais convidou-me a participar nos órgãos sociais. Como eu já tinha tido mais de quinze anos de experiência nos órgãos de direção, colaborei apenas na Assembleia Geral, porque pretendia disponibilidade para continuar a criar projetos teatrais. A minha intenção era manter os grupos informais e evitar a criação de uma nova associação dedicada ao teatro infantojuvenil. Sabia muito bem que a componente administrativa de uma associação requeria muita disponibilidade, algo de que eu dispunha de forma bastante mais reduzida. O trabalho de ator, a linguagem corporal, a colocação e projeção da voz e o domínio do espaço cénico são áreas que voltei a pôr em ação com as cerca de quase três dezenas de crianças entre os 5 e 10 anos, semanalmente. O envolvimento dos pais, mais uma vez, contribuiu para o sucesso desta iniciativa. Havia uma nova motivação para ir para a escola, a leitura melhorava e as professoras reconheciam a complementaridade da atividade no sucesso escolar dos seus alunos. Permaneci cerca de cinco anos na escola do 1º ciclo. Como os meus filhos passaram para a escola EB 2/3, voluntariei-me para fazer teatro com os jovens.
Aí o desafio era bastante diferente. Alguns tinham experiência, mas pouca disciplina. Essa era uma das maiores dificuldades pois o nível de comprometimento era baixo e os interesses vários. Os horários estavam desfasados uns dos outros. Tinha a perfeita consciência de que não iria resultar pois, para além das dificuldades já apontadas, o corpo docente estava muito pouco envolvido nas atividades artísticas extracurriculares e a escola não dispunha de um espaço próprio. O teatro não parecia ser uma prioridade.
1.6. Ao serviço da política local: um exercício de cidadania
Sem me aperceber, o meu envolvimento na vida associativa da vila chamava a atenção das forças políticas locais. Recebi convites para integrar duas listas diferentes para a candidatura à junta de freguesia. Os partidos locais não eram valorizados porque era nos seus líderes que as pessoas mais acreditavam. Entre 2003 e 2005, fiz parte do Conselho Nacional do Partido Ecologista Os Verdes, tendo tido a oportunidade de ter um contacto mais direto com as políticas nacionais.
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Localmente, a Coligação Democrática Unitária (CDU) estava no poder e demonstrava um bom trabalho em prol da freguesia. A sua presidente era uma pessoa afável, comunicativa, humilde e com uma grande força de vontade para resolver os assuntos das pessoas, por mais pequenos que pudessem parecer. Aceitei integrar a lista da CDU, que acabou por ganhar as eleições a 9 de outubro de 2005.
Como membro da assembleia de freguesia, dava o meu parecer nas áreas da juventude, associações e cultura. Depois, tive o apoio incondicional do executivo da junta para criar o curso de formação teatral de seis meses destinado aos jovens. Deste, resultou um grupo informal de jovens no qual a atividade predominante era o teatro. Batizei-o como Grupo de Amigos Para a Eternidade no Teatro (GAPET) porque a minha preocupação era o estabelecimento de amizades, baseadas no contacto uns com os outros. Uma vez que eu dominava as técnicas ligadas à representação, o teatro pareceu-me um forte meio para atingir os meus objetivos.
Entre 2005 e 2013, durante os dois mandatos em que estive envolvida na política local, o condicionalismo financeiro que dominava muitos dos trabalhos que realizei no âmbito das associações e obrigava-me a constituir uma rede de contactos extensa de voluntários deixava de ser central. Obviamente, havia constrangimentos financeiros, mas em nada se comparavam com a vida nas associações. Existia claramente uma vontade política de apostar na cultura. Tudo fluía de outra forma e a criação rompia com algumas barreiras. Neste cenário, era possível manter os dois grupos: o das crianças na escola do 1º ciclo, o grupo de Teatro Infantil de Guimarães (Tin.Gui), e o dos jovens na sede da junta de freguesia, o GAPET. Eram grupos de intervenção que, à sua maneira, iam dizendo e mostrando o que lhes ia na alma. Algumas produções baseavam-se em textos de autores portugueses. Na maioria dos casos, o texto dramático surgia a partir de reflexões e discussões no grupo à volta de temas pré-selecionados, também eles coletivamente. Este fio condutor, desde as minhas primeiras experiências nos anos 90, continuava a fazer sentido e a resultar em trabalhos pertinentes porque com significado para cada um dos seus membros. Era também a metodologia mais rica porque a pessoa dava-se a conhecer nas suas posições, pensamentos e sentimentos. Neste processo ia descobrindo as suas próprias contradições, fraquezas e forças. Não só se dava a conhecer, mas conhecia-se a si mesma, fortalecendo as relações no grupo, num processo dificilmente linear porque caraterizado por tensões, recuos e avanços.
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Uma das iniciativas que realizei, envolvendo os jovens, foi o Encontro de Teatro Juvenil nos dias 27 e 28 de março de 2009. Três grupos demonstraram o seu trabalho dramático e conviveram entre si. Convidei o grupo que fundei nos anos 90, o Tin.Bra, e outro com cariz escolar, sediado noutro concelho. O público estava assegurado e comemorava-se o Dia Mundial do Teatro com a Mensagem Internacional escrita, em português, por Augusto Boal3 e, em leitura dramatizada,
apresentei-a junto com outras mães ao som da música intitulada "August's Rhapsody", composta por Mark Mancina, para o filme August Rush - O Som do Coração. A homenagem estava a ser feita ao teatro, mas, sem me aperceber, também à pessoa, ao artista Augusto Boal pois, dois meses mais tarde, era anunciada a sua morte. A sua mensagem terminava de forma majestosa: “Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!”.
Uma das lacunas sentidas pelas famílias que viviam na freguesia era a falta de programas de ocupação dos tempos livres para crianças e jovens nos períodos de pausas letivas. Criei o "Embarca em Pevidém”, um programa de ocupação dos tempos livres dedicado a crianças e jovens entre os 6 e os 14 anos, em parceria com algumas empresas locais. Sem o investimento da junta, este programa dificilmente poderia existir. Na primeira edição no Natal de 2007, inscreveram-se cerca de setenta participantes. No ano seguinte, o número duplicou. Consegui a licença de organização de Campos de Férias atribuído pelo então IPJ, aumentando as fontes de financiamento. Várias empresas da localidade colaboraram e montou-se um programa diversificado e de qualidade. Foi possível cobrar preços baixos junto da população que demonstrava satisfação pela iniciativa. Foi a primeira vez que existiu um programa com estas características: aberto a todos, independentemente da instituição escolar frequentada pelos menores. O alcance social desta iniciativa ficou por avaliar. Contudo, a sua importância foi evidenciada pela continuidade que a lista vencedora, atualmente no poder, e de um quadrante político totalmente oposto, deu ao programa desde a sua tomada de posse em outubro de 2013.
Para os jovens acima dos 14 anos, criei programas de ocupação dos tempos livres em parceria com o IPJ, desempenhando o papel de gestora de projetos nas áreas do brincar pedagogicamente e da educação ambiental, entre 2007 e 2010. Os apoios financeiros escasseavam e deixou de haver verba do governo central para a atribuição dos subsídios aos jovens participantes. Em 2011, o IPJ propôs o programa “Voluntário Jovem para as Florestas”, comparticipando na atribuição de
3É a primeira vez que o Instituto Internacional do Teatro, desde 1962 (ano de divulgação da primeira mensagem), convida uma personalidade da
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um valor simbólico no subsídio a atribuir. Não ia deixar escapar esta oportunidade e apresentei a candidatura em nome da junta de freguesia e, nesse verão, dez jovens estiveram ocupados a vigiar as florestas da localidade. Os resultados foram apresentados ao público em geral no mês de setembro, com a presença de representantes do IPJ. A avaliar pelas apresentações e intervenções, os objetivos foram alcançados de forma bastante positiva, ultrapassando as expectativas. Desafiei os jovens a aproveitarem os tempos “mortos” para criarem rotas pedonais nos três planaltos onde estiveram. Desse trabalho, montaram desdobráveis que ofereceram aos presentes, convidando-os a realizar caminhadas nos trilhos propostos e devidamente sinalizados.
As questões ambientais estiveram sempre muito presentes nas minhas prioridades. Quando em 2009 foi anunciado o projeto nacional “Limpar Portugal 2010”, sugeri ao executivo da junta de freguesia a sua integração na proposta do plano de atividades para 2010, sugestão unanimemente aceite. Era a primeira vez que se realizava esta atividade em Portugal, que tinha sido criada pela Estónia, em 2008. Comecei a participar em formações através de reuniões concelhias. Com a colaboração das associações locais, identificaram-se sete zonas, na freguesia, que necessitam de intervenção urgente. Iniciei os contactos com pessoas chave que já tinham demonstrado capacidade para assumir responsabilidades na organização de grupos e com espírito de liderança. Selecionei sete líderes e apresentei sessões práticas com identificação dos locais, medidas de segurança, entre outras. A junta participou no fornecimento de luvas e sacos e na coordenação de toda a atividade. Algumas empresas colaboraram com a cedência de transporte e motorista e houve uma que destacou alguns dos seus trabalhadores para participarem. Foram retiradas cerca de 63 toneladas de lixo! As equipas não esperavam tal quantidade. O meu papel consistiu em monitorar as equipas, fornecer sacos, avaliar a possível deslocação de uma equipa para ajudar outra com mais trabalho, registar a quantidade que ia sendo retirada e reportar à Câmara Municipal de Guimarães os resultados. O dia 20 de março de 2010 dificilmente será esquecido pelo envolvimento sério das equipas e seus voluntários, pelo entusiasmo dos seus membros, pela constatação da quantidade extraordinária de lixo depositado ilegalmente, pelo sentido de dever cumprido na esperança de que se tenha passado um importante testemunho aos jovens que participaram. E certamente por terem limpado profundamente o local onde se vive.
O executivo da junta de freguesia nomeou-me coordenadora dos Censos 2011. Tive a oportunidade de conhecer caminhos que ainda não tinha percorrido, recordar os conteúdos da disciplina de Geografia Humana e aprender a trabalhar com novos programas informáticos de apoio à
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Geografia, tal como o Geoedif. Uma das fases mais difíceis foi o processo de recrutamento de sete recenseadores. A bolsa de desempregados disponível no Gabinete de Inserção Profissional (GIP) da junta de freguesia contava uma lista extensa de nomes. A maior parte vivia na freguesia e a pressão foi tremenda. O trabalho remunerado e aparentemente de fácil execução atraía o interesse da maior parte. Contudo, foi necessário estabelecer alguns critérios: o primeiro, o da confiança; segundo, preferencialmente desempregado; e terceiro, com residência na localidade. As técnicas de recrutamento aprendidas na Universidade tinham pouca utilidade neste contexto. Apresentavam-se demasiado morosas para serem aplicadas. Atrasos por parte do Instituto Nacional de Estatística (INE) no envio da informação aos delegados municipais e a falta de acesso à internet por parte de um importante número de famílias criaram um enorme desafio: formar a equipa, enviá-la para o terreno e inserir os inquéritos na plataforma do INE em apenas dois meses! Parecia uma missão quase impossível. Com o apoio imprescindível do restante executivo da junta foi possível atingir os objetivos. Todos os recenseadores, exceto um, receberam o prémio de desempenho que significava um bónus financeiro. A caracterização da população estava feita até ao ínfimo pormenor. Se eu já conhecia a maior parte das pessoas da freguesia, agora tinha um quadro estatístico claro e atualizado de todas as pessoas residentes. E são muitas mais do que as que eu conhecia. No total, havia 5625 habitantes, mais do que em 2001, aquando do último censo. E a taxa de desemprego era absolutamente assustadora: 16,4%. Apesar de haver um GIP, este não parecia ser suficiente. Era urgente fazer mais.
1.7. A CEC2012 e seu impacto na freguesia
No dia 12 de maio de 2009, a cidade de Guimarães foi oficialmente designada, em Bruxelas, Capital Europeia da Cultura em 2012 (CEC2012). Seria esta a oportunidade de criar novos postos de trabalho?
Tendo desenvolvido uma boa parte das minhas atividades, nos últimos vinte anos, na área da cultura e estando responsável por esta pasta no executivo da junta de freguesia, entre 2009 e 2013, a CEC2012 contaria com a minha participação ativa. Pouco depois da tomada de posse da direção da Fundação Cidade de Guimarães, responsável pela programação, consegui uma audiência, após várias tentativas, com a então presidente, e expus um tema sobre o qual as associações da freguesia mostraram interesse: a Marcha da Fome.
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Apesar da boa recetividade, estes primeiros contactos não tiveram frutos. Curiosamente, passados alguns meses, em junho de 2010, uma equipa da CEC2012 deslocou-se às freguesias e mostrou que queria estar mais próxima dos interesses locais: a Área de Comunidade. A partir dessa altura, houve alguma esperança em ter expressão numa Capital que também fosse das pessoas do concelho. Este sentido de pertença só começou a criar-se após vários encontros e uma residência artística, com Walter Almeida, em Pevidém.
A presença de vários profissionais, através de residências artísticas, do projeto Krisis criado pela Área de Comunidade da CEC2012 envolvendo a população, fez acreditar que esta seria capaz de mostrar a sua história com um nível de qualidade elevado. Daquela simbiose com esta ambição só podia resultar um BOM trabalho. Um dos exemplos foi a criação da “Manta das Memórias”, no âmbito da exposição Mãos Dadas que, pela sua dimensão, teve que ser exposta no estádio de futebol D. Afonso Henriques e, mais tarde, foi doada a várias instituições da cidade. Envolveu muitos voluntários, principalmente pessoas reformadas, que viram as suas ocupações diversificarem e descobriram competências que lhes eram estranhas: trabalho de criação em equipa, expressão de sentimentos através do desenho.
A história sobre a “Marcha da Fome” movia as associações locais. Tudo começou com a minha curiosidade em perceber as razões pelas quais tinham sido colocados, há muitos anos atrás, nas entradas da freguesia, letreiros que diziam “É proibida a mendicidade - Pevidém sustenta os seus pobres”. Ora, neste contexto, por que
razão terá havido uma marcha da fome nos anos 40 quando aqueles letreiros já existiam?
Devido à Segunda Guerra Mundial, a pobreza e a miséria grassavam por todo
o país. Por volta de 1939, surgiu um movimento de solidariedade humana por parte dos homens influentes da terra para criar uma casa destinada a proteger os mais carenciados. Criaram a Casa dos Pobres. Distribuíam-se refeições aos habitantes da terra como também aos “passantes”. Talvez esta seja a razão pela qual foram colocados os letreiros nas entradas da freguesia proibindo
Figura 4 - Foto cedida por D. Francisca Correia Figura 3 - Convite para a exposição Mãos Dadas
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a mendicidade. Para além de refeições, segundo D. Francisca Correia, ex-diretora do Lar de S. Jorge, antiga Casa dos Pobres, e uma descendente de um dos fundadores, também se oferecia assistência médica, medicamentos, roupas, ajuda no pagamento das rendas e funerais. As próprias “senhoras da terra” deslocavam-se às casas das pessoas que não podiam vir à Casa dos Pobres. Apesar de toda a ajuda, ela não parecia suficiente. Foi necessária uma forte motivação para que muitas pessoas arriscassem a sua vida numa manifestação que, apesar de silenciosa, era proibida. Um dos períodos de maior crise social em Pevidém aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), havendo muita miséria e falta de alimentos. O povo reuniu-se e veio para a rua. Homens, mulheres e crianças, em marcha silenciosa, de bandeiras e panos pretos empunhados em sinal de fome, percorreram a pé a distância até Guimarães. Essa marcha de protesto ficou conhecida como a Marcha da Fome do Povo de Pevidém.
O descontentamento geral devido à crise económica e social dos nossos dias foi a condição para que a adesão ao projeto de recriação da Marcha da Fome fosse massiva. Era a vontade de fazer renascer um acontecimento que marcou uma geração numa época em que quase tudo era silenciado… por isso, a coragem foi, nos anos 40, uma atitude admirável. Representá-la, no século XXI, permitiu reviver uma forma de manifestação que encheu os corações de orgulho e enobreceu os grupos, associações, escolas, empresas e pessoas participantes. A Área de Comunidade da CEC2012 tornou mais significativa esta iniciativa que teve lugar a 10 de junho de 2011, ainda antes da abertura oficial da CEC2012, ao oferecer a filmagem da Marcha por uma equipa de profissionais. O filme, inicialmente programado para dez minutos, ficou com cerca de vinte e, através da sua apresentação pública no Paço dos Duques de Bragança, a 9 de julho de 2011, recebeu ótimas críticas. Se da Marcha original apenas se conseguiu um breve artigo de jornal4, com este projeto criou-se um registo
documental de grande qualidade. Este tema acabou por influenciar outras atividades que viriam a ser criadas ou apoiadas pela CEC2012, designadamente o lançamento da obra
Marcha da Fome
4Trata-se do jornal então clandestino Avante que refere uma marcha da fome em Pevidém, ocorrida em maio de 1944.
Figura 5 - Cartaz sobre a recriação da Marcha da Fome
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de Pevidém: Memórias de um passado na inquietude do agora
, dos autores Luiza Cortesão eFrancisco Neves, a 3 de novembro de 2012 e o espetáculo “Então Ficamos…”, que encerrou a programação da CEC2012, a 21 de dezembro de 2012. Neste, participaram centenas de pessoas do concelho de Guimarães e vários artistas convidados. Os participantes estavam organizados em grupos temáticos. O de Pevidém, no qual participei ativamente como atriz e uma das coordenadoras de cerca quarenta jovens, era o Grupo da Revolta, pelos temas que queríamos trabalhar. Foram meses de trabalho intenso em que se podia encontrar uma quase perfeita simbiose entre os profissionais e os amadores. Foi uma aprendizagem ímpar porque profunda, intensa e cada um de nós saiu muito mais enriquecido. Pude constatar o crescimento artístico dos jovens, sendo que a maior parte não tinha tido qualquer experiência nesta área antes da CEC2012.
Quase um ano depois, a 14 de setembro de 2013, estreou, finalmente, o espetáculo “Marcha da Fome - Pevidém sustenta os seus Pobres”, em Pevidém. Apesar da estreia estar programada para 2012, os atrasos constantes da Fundação na atribuição das verbas para as associações locais obrigaram ao adiamento. Pela primeira vez, foi possível agregar um número elevado de entidades com o mesmo propósito: mostrar como uma manifestação silenciosa teve um grande impacto na população e na sociedade de então, representando um movimento nacional de luta pelo pão. Este espetáculo integrou as várias manifestações culturais, desde o canto, a música, a dança, o teatro, o cinema, a criação plástica, desenvolvidas, algumas, há várias dezenas de anos de forma parcelar. Agregá-las foi o grande desafio, pois a sua força residia na expressão de todas num todo que era diversificado por isso mais rico e mais profundo. Esta foi a última atividade em que participei como membro do executivo da junta de freguesia pois, nas eleições autárquicas de outubro de 2013, a lista em que eu participava passaria a ocupar o papel de oposição. Decidi, então, abandonar a política porque não me revia nesse papel. Apesar de poder ser ativo no sentido da crítica à ação política, ele não previa implementação ou criação de medidas ou atividades.
Figura 6 - Cartaz do espetáculo "Marcha da Fome - Pevidém sustenta os seus Pobres"
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A CEC2012 trouxe muitas oportunidades e a freguesia demonstrou saber aproveitar. Não foi pacífico, porque raramente o apoio foi financeiro e havia muita expectativa de que este grande acontecimento trouxesse algumas verbas para o restauro de alguns equipamentos culturais da freguesia. Isso não aconteceu. Ao invés, houve muita formação e apoio logístico. Portanto, a criação de emprego propriamente dito não se veio a verificar.
1.8. Na função pública: do sustento à vocação
A passagem pela política deu-me a prova de que eu precisava de manter o meu emprego na função pública, porque o trabalho ao serviço da política local não era remunerado, sendo que os vogais, cargo que formalmente ocupei no último mandato, recebiam uma senha de presença no valor aproximado de vinte e um euros por mês desde que não se faltasse às reuniões.
Entre setembro de 2004 a outubro de 2010, desempenhei as minhas funções no Departamento Autónomo de Arquitetura e participei na sua passagem para Escola. Implementei, entre outros: o Sistema Integrado da Avaliação do Desempenho na Administração Pública (SIADAP); o inquérito de empregabilidade dos diplomados em arquitetura pela Universidade do Minho; a poupança energética nos espaços sanitários; a reciclagem dos materiais deixados pelos alunos, nas pausas letivas do verão; a leitura ótica dos questionários de satisfação aplicados aos docentes e alunos da Escola; o dossiê para o reconhecimento automático do diploma de Arquitetura pela Universidade do Minho, em conformidade com a Diretiva 85/384/CEE, de 10 de junho; a proposta, no âmbito do processo de Bolonha, enviada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior sobre o registo de adequação do Curso de Mestrado Integrado em Arquitetura, tenho sido aprovado o seu funcionamento a partir do ano letivo de 2006-2007; a inserção dos currículos dos professores na plataforma DeGóis; o relatório digital para a acreditação dos cursos do 1º e 3º ciclos na página da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). Destaco, particularmente, o estudo que realizei junto dos diplomados, uma vez que, por um lado, foi possível conseguir uma base de dados sobre os contactos de endereços eletrónicos e números de telemóvel em cerca de 98% dos diplomados e obter dados estatísticos concretos sobre a sua empregabilidade e, por outro,
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estabelecer uma relação estreita entre a Escola e os seus ex-alunos. Este terá sido um dos aspetos mais interessantes, a avaliar pelos comentários dos arquitetos, que mostravam satisfação pelo facto de a Escola “querer saber deles”. A partir dessa altura, enviavam-se notícias sobre iniciativas e atividades, ofertas de trabalho, edição de publicações e convites para participarem em colóquios ou conferências.
Em outubro de 2010, mudei totalmente de funções, desenvolvendo a minha atividade profissional na Divisão de Pós-Graduação dos Serviços Académicos da Universidade do Minho (SAUM), até à presente data. O primeiro ano foi muito difícil, pois exigiu a leitura de vasta legislação, despachos e regulamentos sobre matérias praticamente novas. A falta de procedimentos escritos levou-me a elaborar alguns documentos orientadores. A partir do terceiro ano, já comecei a sentir uma certa confiança prestando um serviço de atendimento centrado no rigor e na qualidade. Neste contexto, a função pública podia ser exercida no seu pleno sempre que centrada no outro. Este enfoque não era novo e, portanto, foi com alguma facilidade que o adotei no meu novo contexto profissional, obtendo resultados bastante positivos a avaliar pelas respostas dos alunos nos inquéritos de avaliação da satisfação, aplicados anualmente.
Apesar de me sentir realizada profissionalmente, constatei que não conseguia permanecer afastada do trabalho voluntário. É como se se tratasse do próprio oxigénio que completa a minha forma de ser, estar e sentir. Por isso, mensalmente, reúno-me com os membros do Clube de Poetas do Selho. Este grupo informal foi apresentado ao público no dia 11 de fevereiro de 2012, numa tarde cultural realizada na junta de freguesia. Do programa faziam parte o lançamento do livro de Raúl Rocha “Guimarães no Séc. XX” (1940 – 1970), o segundo de três volumes sobre a história de Guimarães, um momento de poesia com a declamação de poemas de Alexandre Moreira e Mandina Fernandes e um concurso de quadras pelos alunos da Escola Básica nº 1 de Pevidém. A missão do Clube consiste na divulgação e prática da riqueza que constitui a língua portuguesa. O que mantém o grupo unido é esta profunda preocupação e os laços de amizade cada vez mais especiais, contrariando o isolamento que caracteriza as nossas sociedades. O Clube tem sido convidado para participar em várias atividades culturais, tais como a Feira da Terra em S. Torcato e também a Citânia Viva em Briteiros.
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A partir de 2013, convidei A Outra Voz - Associação Cultural, criada no âmbito da CEC2012, a dinamizar um grupo em Pevidém. Esta associação tem por objetivo a exploração da voz enquanto som, palavra, canto, espaço, corpo e movimento e reúne cerca de uma centena de participantes de diferentes faixas etárias e origens culturais, residentes, maioritariamente, no concelho de Guimarães. Os encontros são semanais, entre uma hora e meia a três horas, em localidades distintas. O grupo só se reúne todo nos ensaios gerais, nos quais são evidenciadas as competências dos profissionais que os orientam. Foi-se produzindo um vasto reportório composto por temas do legado oral nacional, e também por temas originais propostos por elementos do seu conselho artístico informal constituído por todos aqueles com quem colaborou no passado recente, durante a CEC2012: Amélia Muge, António Durães, José Mário Branco, Carlos Nobre (Pacman), Catarina Miranda, Coletivo Pele, Cristina Mendanha, Fernando Lapa, Jonathan Uliel Saldanha, José Martins (Trovante), Luís Carvalho (Riotous Company), Mão Morta, Mia Theil Have (Riotous Company, Odin Teatret), Michales Loukouvikas, Nikola Kodjabashia, Peter Bergamin, Rafaela Salvador, Teresa Campos (Sopa de Pedra) e Colectivo Soopa. É admirável a relação que se estabelece entre profissionais e amadores com a missão de divulgar a cultura portuguesa. É central nesta associação, o que a torna original e bastante atrativa.
A Outra Voz participou, em abril de 2014, na estreia da peça sonora e cénica inspirada na Via-sacra, intitulada “Sancta Viscera Tua”, do músico e compositor Jonathan Saldanha, que trabalhou sobre a arquitetura sonora das igrejas de Santa
Clara, no Porto, e de São Francisco, em Guimarães. Neste espetáculo, o público foi convidado a circular livremente pela igreja.
Em 2015, a Outra Voz produziu e montou o espetáculo "Duas Caras", uma encenação de António Durães. Tratava-se de uma narrativa dividida em dez pequenos quadros, com composições originais dos Mão Morta, José Mário Branco, Amélia
Muge, entre outros, tendo como ponto de partida um conceito que faz parte da tradição popular vimaranense, assente na voz humana coletiva e no movimento do grupo num espaço de grandes dimensões, numa envolvência de reflexão performativa. Outra particularidade foi o facto de a encenação ter sido pensada na partilha do mesmo espaço entre o público e os atuantes.
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A Outra Voz representa a coletividade na partilha de saberes de que resulta uma simbiose única, criando potencialidades desconhecidas porque colocadas em ação numa descoberta da pessoa na sua relação com o outro, os outros e a própria criação artística. Interessa-me este processo de transformação cujo alcance é difícil de compreender dada a sua complexidade. Foi sempre nas coletividades, formais ou informais, que mais liberdade encontrei para poder participar nesse processo caracterizado também por um conjunto de situações e emoções profundamente contraditórias. Permanece uma forte vontade: quando me é dado a conhecer o limite, ir mais além com a mesma inquietação e SER MELHOR.
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PARTE 2. Reflexão crítica sobre a profissão: alguns apontamentos teóricos
2.1. A educação integral, do formal ao informal
O facto de nunca ter requerido subsídio de desemprego, apesar de ter uma licenciatura numa área pouco compreendida pela população em geral, deve-se em grande parte à educação integral que fui recebendo ao longo da vida na qual se incluem os cincos anos de frequência do ensino superior. Como se viu na primeira parte, a experiência que ia criando com atividades complementares permitiu a aquisição de novas competências fundamentais para os trabalhos que fui assegurando nos primeiros anos de vida profissional. Alguns foram propositadamente deixados de fora porque representaram apenas momentos de passagem para outros um pouco mais estáveis e estruturados. Foram os casos das vendas porta a porta de mercadorias que davam entrada em Portugal, da colaboração num posto de abastecimento, da orientação vocacional individualizada, entre outros.
Um dos autores que distinguiu três tipos de educação foi Jaume Trilla (2004)5, explicando a
importância de cada um: educação formal, educação não formal e educação informal. A educação formal envolve “instituições e meios de formação e ensino com uma estrutura educativa graduada, hierarquizada e oficial.” (Oliveira, 2011: 29). São as instituições e meios de formação que fornecem os títulos académicos que, tradicionalmente, dão acesso a uma profissão. No meu caso, uma vez que exerço funções que não exigem a aquisição de um diploma específico, diria que o título de Licenciatura em Sociologia das Organizações me ajuda no desempenho das minhas atuais funções nos SAUM, cujo grau de complexidade pode classificar-se de média-alto. O atendimento personalizado a estudantes dos 2º e 3º ciclos, envolvendo o conhecimento rigoroso dos regulamentos, designadamente o regulamento académico, procedimentos internos, orientações de serviço, modelos de requerimentos, taxas e emolumentos, exige o domínio da língua inglesa, a capacidade de comunicação e de adaptação contínua, o relacionamento interpessoal, a gestão de conflitos, o conhecimento especializado dos programas informáticos de apoio ao atendimento, tais como a gestão de verbas, a intranet e, mais recentemente, iniciada em 2014, a gestão documental na sequência da desmaterialização progressiva de processos administrativos, no âmbito do
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Sistema de Apoios à Modernização Administrativa (SAMA), com apoio do Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN).
A educação não formal é bastante flexível, com objetivos heterogéneos conforme a finalidade da ação educativa num determinado contexto. Pode fornecer diplomas de participação e é importante no fortalecimento das relações entre as pessoas. Um dos exemplos mais conhecidos é o voluntariado no seio das associações sem fins lucrativos. Apesar de existir alguma formalização na aprovação de planos e relatórios de atividades, estes apenas servem de orientação na condução dos destinos da coletividade. Concretamente, a minha passagem pelas associações moldou-me como pessoa e como profissional, tornando-me mais tolerante, flexível e pronta para qualquer iniciativa. Ainda hoje, como conselheira da associação Intercultura American Field Service (AFS), sou conhecida como a “bombeira”, porque disponível para intervir em sede de famílias de acolhimento e respetivos jovens estudantes por elas acolhidos.
Jaume Trilla (2004) considera ainda um terceiro setor da educação, o informal, como aquele que se baseia nas relações espontâneas da pessoa com o meio em que está inserida. Não sendo este tipo de educação institucionalizado, é difícil de definir no concreto, reconhecendo-se, contudo, a potencialidade educativa de um processo comunicativo como o poderá ser a vida familiar, o grupo de amigos, as cerimónias religiosas, entre outros. A vivência, em França, com diferentes raças e etnias nos primeiros contactos que tive, em criança, foi enriquecida com a importância do trabalho para a conquista de melhores condições de vida. Fui adquirindo, em contexto, os valores da igualdade, da tolerância e do empenho no trabalho, que influenciaram grandemente as opções tomadas na fase adulta.
Contudo, é verdade que a educação informal se pode tornar em “deseducação” se o ambiente for, por exemplo, de grande violência física e/ou emocional nos primeiros anos de vida. Verifica-se atualmente grandes dificuldades nas escolas caracterizadas por ambientes escolares conflituosos, agravados pela crise económica. Por essa razão, partilho da sugestão de Catarina Oliveira sobre a “integração da educação emocional e da educação para o optimismo nos currículos escolares (…), com o desenvolvimento de actividades dissuasoras dos problemas e desafios colocados à escola” (Oliveira, 2011: 69). Trata-se de uma formação que se pretende experiencial, envolvendo os vários saberes, desde o saber, fazer, estar e saber-ser, transversal aos vários domínios disciplinares, que permita “interpretar informação nova que sempre se tornará obsoleta” (Silva, 1997: 55). Daí que a aprendizagem ao longo da vida, como
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têm demonstrado instâncias internacionais e europeias como a
United Nations Educational,
Scientific and Cultural Organization
(UNESCO)6 e a União Europeia (EU)7, seja muito importantepara, entre outros motivos, combater a infoexclusão, principalmente nas faixas etárias mais elevadas. Apesar dos vários programas existentes para promover a inclusão nas novas tecnologias, Portugal ocupa o vigésimo quarto lugar da lista dos países europeus com agregados domésticos privados com computador e acesso à internet, conforme a leitura do gráfico que se segue.
Gráfico 1 - Agregados domésticos privados com computador, com ligação à Internet em casa e com ligação à Internet através de banda larga (%)
Valor(es) do(s) ano(s) 2015 e 2006 1. Países Baixos 2. Luxemburgo 3. Dinamarca 4. Alemanha 5. Reino Unido 24. Portugal 25. Grécia 26. Roménia 27. Lituânia 28. Bulgária
% agregados domésticos com computador (Proporção - %)
2006 2015
Fontes/Entidades: Eurostat | Institutos Nacionais de Estatística, PORDATA
Os portugueses demonstraram interesse em continuar a investir em novas tecnologias, mantendo o mesmo lugar de 2006 em 2015 com 71% das famílias com computador e ligação à internet. No entanto, continuam longe dos valores do país no qual mais se investe, os Países Baixos, com 96%.
6A Diretora-Geral da UNESCO, Irina Bokova, escreve no prefácio de um relatório recente “to ensure every girl and boy, every woman or man can
benefit from quality education and lifelong learning. This is an essential foundation for building a better future for all” (2014: 4).