Projeto “Pai Presente”:
Reflexões sobre o não reconhecimento paterno a partir de uma
perspectiva de gênero
*Joice Melo Vieira **
Resumo:
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou em 2010 o projeto “Pai Presente” que objetiva reduzir o número de pessoas sem paternidade reconhecida no Brasil, especialmente menores de idade. Esta iniciativa visa potencializar o que já determinava a Lei n. 8.560, em vigência desde 1992, que regula a investigação de paternidade dos filhos havidos fora do casamento. A legislação atual estabelece que, ao efetuar o registro de nascimento de menor em que conste apenas o nome da mãe, o cartório deve remeter ao juiz a certidão integral do registro de nascimento, anexando ao documento a indicação do nome completo do suposto pai, sua profissão e endereço residencial para investigação de paternidade. Desde a aprovação desta lei em 1992, o procedimento não parece ter sido adotado, ou ao menos não surtido efeito. Segundo levantamento encomendado pelo CNJ ao Ministério da Educação, cerca de 4,8 milhões de estudantes não tinham o nome do pai em seus registros. Dentre estes estudantes, mais de 3,5 milhões eram menores de idade. O objetivo deste artigo é analisar a Lei n. 8.560, o projeto “Pai Presente” e a questão do não reconhecimento paterno a partir de uma perspectiva de gênero. A justificativa para a intervenção do poder público nestes casos fundamenta-se no chamado direito universal à identidade, o direito da criança de conhecer sua origem. Contudo, para além de dar à criança o sobrenome paterno, há também a preocupação de regulamentar a pensão alimentícia e o cumprimento de responsabilidades parentais. Portanto, há também uma dimensão associada ao amparo material. Neste estudo, apresentamos uma breve descrição das crianças de filiação paterna desconhecida, segundo os dados do censo escolar 2010 e buscamos refletir sobre as implicações destas mudanças para as mulheres-mães e homens-pais, bem como o que se coloca como papel da família e do Estado quando se trata do cuidado e amparo de crianças. À luz do modelo de estado de bem-estar vigente em outros países, o que surte mais resultado: o estado assumir o papel de parceiro da mulher que se vê sozinha com um filho, ou buscar identificar o pai e corresponsabilizá-lo pelo cuidado e sustento da criança?
Palavras-chave: Família, gênero, paternidade.
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Trabalho apresentado no XVIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Águas de Lindóia/SP – Brasil, de 19 a 23 de novembro de 2012.
** Pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (NEPO) e professora do Departamento de Demografia (IFCH), Unicamp.
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Projeto “Pai Presente”:
Reflexões sobre o não reconhecimento paterno a partir de uma
perspectiva de gênero
1Joice Melo Vieira2
Introdução
Desde que as discussões sobre a segunda transição demográfica ganharam força (Lesthaeghe, 1995; Van de Kaa, 2002), tem aumentado proporcionalmente o interesse pelos estudos de família. Certamente este interesse renovado não ocorre por acaso. Todas as grandes transformações associadas à segunda transição demográfica têm a família como protagonista, dado que são considerados marcadores desta transição: o decréscimo das taxas de nupcialidade; o aumento das taxas de divórcio; a manutenção da taxa de fecundidade total em níveis muito abaixo do necessário para a reposição populacional; e aumento da coabitação e do número de nascimentos fora do matrimônio. Portanto, todos os indicadores utilizados para descrever a segunda transição demográfica, são na verdade indicadores que descrevem como anda a vida familiar de uma população.
As transformações características da segunda transição demográfica originalmente pareciam ser vistas com bons olhos pelos demógrafos, pois uma das leituras possíveis deste fenômeno era a de que esta nova realidade estava em sintonia com valores libertários, com a ampliação da legitimidade dos direitos individuais e com a crescente hegemonia da auto-realização como valor. Outros consideraram esta visão sobre as mudanças recentes, sobretudo no campo da fecundidade, como demasiado otimista e tentaram chamar a atenção para os “constrangimentos” necessariamente atrelados a este novo contexto. Tais constrangimentos dizem respeito, por exemplo, às formas de organização do trabalho e mudanças estruturais correlatas (Oliveira, 2009). A estrutura atual do mercado de trabalho, a centralidade do trabalho remunerado na vida de homens e mulheres, fez do investimento na carreira e da conquista de autonomia financeira experiências obrigatórias. Não se trata aqui de condenar esta obrigatoriedade, mas de reconhecê-la como tal, pois este é um passo necessário para compreender o processo social e demográfico que estamos vivenciando.
Apesar da roupagem nova e do discurso eloquente que convida ao debate do qual nenhum demógrafo contemporâneo poderá fugir, por vezes a discussão sobre a segunda transição demográfica parece uma reedição de antigos antagonismos quase insolúveis: motivações individuais versus constrangimentos sociais; primazia da cultura versus primazia da economia; ou se preferirmos o viés filosófico, o império das vontades versus o império das necessidades. Paulatinamente, é bem possível que cada vez mais passemos a nos dar conta de que estes antagonismos são as duas faces de uma mesma moeda e que a situação não é distinta quando o que está em questão é a segunda transição demográfica. Aqueles que leram Marx nos tempos de universidade, devem se recordar de sua frase quase convertida em clichê: “Os homens fazem sua própria história”. Mas os que de fato receberam uma formação marxista se lembrarão da frase completa: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem arbitrariamente, nas condições escolhidas por eles, mas nas condições dadas diretamente e herdadas do passado” (Marx, O 18 de brumário).
Podemos perceber também no Brasil vários traços característicos da segunda transição demográfica, mas é preciso tomar este cenário contemporâneo à luz da trajetória histórica da
1 Trabalho apresentado no XVIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Águas de
Lindóia/SP – Brasil, de 19 a 23 de novembro de 2012.
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Pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (NEPO) e professora do Departamento de Demografia (IFCH), Unicamp.
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família no Brasil e dos valores culturais vigentes aqui. Para tanto, a Demografia não poderá negligenciar as contribuições da História e da Antropologia. Embora os indicadores sociodemográficos possam apresentar tendências gerais similares, os significados atribuídos a estas novas tendências e como as sociedades estão se adaptando a elas, podem guardar grande heterogeneidade.
Neste artigo, tomamos como ponto de partida apenas um aspecto caro à segunda transição demográfica: o aumento do número de nascimentos fora do matrimônio – e dentro deste universo de crianças – pouco a pouco pretendemos recortar o grupo que permanece sem paternidade reconhecida.
Quando buscamos retratar o fenômeno dos nascimentos fora do matrimônio, o maior obstáculo é que os dados do registro civil não permitem discernir entre crianças nascidas no contexto de uniões consensuais, ou de relacionamentos estáveis mesmo que sem coabitação, e nascimentos de mães solteiras. A inclusão do status conjugal (se vive ou não com companheiro), sem a exclusão da informação sobre estado civil, representaria um ganho significativo para uma aproximação mínima do contexto familiar em que estão ocorrendo os nascimentos no Brasil.
Na medida em que há consenso de que houve a dissociação entre reprodução e casamento e por vezes existe também uma dissociação entre reprodução e conjugalidade, se faz cada vez mais necessária a produção de estatísticas que nos ajudem a dimensionar esta nova realidade. Por vezes se utiliza o estado civil ou o status conjugal da mãe para inferir a presença paterna na vida dos filhos, supondo que filhos de mães solteiras ou separadas/divorciadas necessariamente se encontrariam em situação de maior vulnerabilidade. Da perspectiva dos direitos da criança, a informação do estado civil da mãe diz muito pouco ou nada no cenário contemporâneo. Considerando que a maior parte dos nascimentos no Brasil está se dando fora de uniões formais – e, uma parcela destes deve ocorrer também fora de uniões estáveis – o mais importante seria contarmos com estatísticas fidedignas que retratassem diretamente o vínculo masculino com os filhos, sem a mediação feminina que o estado civil da mãe pressupõe. As novas configurações familiares estão exigindo novas formas de captação da realidade e trazem a necessidade de repensar a forma tradicional como levantamos informações sobre as famílias.
Estatísticas de processos de reconhecimento de paternidade, de número de exames de DNA ou de crianças que contam ou não com o nome do pai podem, à primeira vista, parecer uma curiosidade excêntrica de pesquisadores de linha conservadora. Todavia, o não reconhecimento paterno – ou a “deserção paterna”, como prefere Thurler (2006 e 2009) é um caso extremo de desvinculação do homem em relação à sua prole. Há homens que só dão o nome ao filho enquanto outros nem isso. A ausência, o distanciamento, o abandono material e o polêmico abandono afetivo não descrevem necessária e exclusivamente filhos de paternidade legalmente indeterminada. Entretanto, a necessidade de identificação do nome do pai tem sido vista por parte dos juristas como primeiro passo para levantar a discussão mais ampla do papel do pai na vida dos filhos.
Dos filhos havidos fora do matrimônio
O Gráfico 1 apresenta a evolução da proporção de nascimentos fora do casamento no Brasil e em países europeus selecionados entre 2000 e 2009. Nota-se que o fenômeno tem no Brasil uma magnitude comparável àquela encontrada em países nórdicos, onde se encontram os mais elevados percentuais de nascimentos fora do matrimônio de toda Europa. Nestes países, os nascimentos fora do casamento são explicados em geral pela rejeição às instituições tradicionais e uma ênfase na igualdade, autonomia e independência de homens e mulheres (Perellis-Harris e Gerber, 2011). Trata-se de países que embora não tenham taxas de
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fecundidade tão baixas quanto àquelas encontradas no sul da Europa, compartilham os valores individualistas normalmente associados à segunda transição demográfica.
Gráfico 1
Brasil e países europeus selecionados, 2000 e 2009: Proporção de nascimentos fora do matrimônio
Fonte: Para o Brasil, DATASUS e para a Europa, Eurostat.
Embora a proporção de crianças brasileiras nascidas fora do casamento possa parecer alta se comparada àquelas encontradas na maioria dos países europeus, dentro do contexto latino-americano a situação brasileira não é atípica, como se pode constatar a partir dos dados apresentados no Gráfico 2.
Certamente uma parte considerável destas crianças está nascendo dentro de uniões consensuais ou estáveis. Alguns estudos já chamaram a atenção para as características históricas das uniões consensuais na América Latina (Rodríguez, 2004; Therborn, 2006) e particularmente no Brasil (Brügger, 1996), frisando que para um parcela da população esta é a opção que resta, uma vez que o casamento formal lhes seria inacessível dado os custos de uma cerimônia e os impedimentos de ordem econômica. O casamento estaria associado a uma ideia de estabilidade econômica inatingível para certas pessoas. Outros estudos mais recentes buscaram discutir a existência de um princípio de segunda transição demográfica nesta região (Castro Martín e Puga, 2008; Quilodrán, 2011) argumentando para a coexistência de dois modelos de uniões consensuais: um que continuaria seguindo o padrão histórico onde a falta de documentos é uma das muitas expressões da marginalização social; outro perfeitamente ajustado à logica da segunda transição demográfica com maior penetração nos grupos socialmente privilegiados pertencentes às camadas médias urbanas e altamente escolarizados. Com maior ou menor ênfase, costuma-se sublinhar que o primeiro modelo expõe especialmente as mulheres a uma situação de maior vulnerabilidade, uma vez que se a relação se mostra instável, ela pode terminar só, e se ver com uma prole que na prática dependerá quase que exclusivamente dela. O segundo modelo se adequaria mais ao perfil de mulheres
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emancipadas e economicamente independentes (para quem o ônus de uma ruptura seria menos cruel), mas para o qual também se pode aventar que o comprometimento socioafetivo masculino com a prole seria maior e não passaria necessariamente pelas convenções legais. O pai continuaria pai, independente da história conjugal passada ou futura com a mãe do filho. A maior igualdade de gênero teria como corolário transformações profundas na forma de vivenciar a paternidade e no lugar que os filhos ocupariam na vida do homem-pai.
Entretanto, este modelo de relações classificadas como modernas onde impera a autonomia e independência entre homens e mulheres não deixa de ser paradoxal, pois embora se espere especialmente do homem maior envolvimento afetivo a ponto de prescindir de formalizações, também se reconhece a possibilidade de projetos de maternidade solteira por opção, em que a mulher não deseja compartilhar a satisfação e as responsabilidades da parentalidade com o pai da criança. No modelo da segunda transição demográfica aparentemente todas as alternativas podem ser negociadas e discutidas entre as partes, em um mundo que teoricamente se aproximaria do ideal de “modernidade reflexiva” (Giddens, 1991). Se os padrões morais já não tem a mesma força, cresce a necessidade de se discutir a ética nos relacionamentos afetivo-sexuais bem como na reprodução.
Gráfico 2
Brasil e países latino-americanos selecionados (2006-2009): Proporção de nascimentos fora do matrimônio
Fonte: Nações Unidas e Sustain Demographic Dividend Project.
http://www.un.org/esa/population/publications/WFR2009_Web/Data/DataAndSources.html http://sustaindemographicdividend.org/e-ppendix/sources
Em um estudo recente Esteve, Lesthaeghe e López-Gay (2012) procuram explicar o rápido crescimento das uniões consensuais na América Latina. O argumento principal deles é que a América Latina tende a convergir em direção ao padrão europeu da segunda transição demográfica. Eles sustentam esta posição apoiando-se em duas constatações: 1) o casamento sempre esteve mais fortemente associado às camadas mais abastadas e mais escolarizadas; apesar da escolaridade geral da população ter aumentado, não foi a proporção de casados que aumentou e sim a de coabitantes, indicando certa ruptura com a visão de coabitação tradicional restrita aos meios socialmente desprivilegiados; 2) a comparação entre duas
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rodadas do World Values Surveys (para os anos de 1990-91 e 2006) sinaliza mudanças ideacionais importantes em direção a maior secularização, tolerância, crescimento da autonomia individual e maior igualdade de gênero (idem, 2012: 76). Para os autores, o Brasil constitui uma exceção na região, no que diz respeito à secularização. A sociedade brasileira constitui um caso particular onde se nota transformações ideacionais importantes sem avanço da secularização. Mesmo quando comparado a outros países latino-americanos, o Brasil se destaca pela religiosidade, entretanto, sem que isso se reflita em intolerância frente ao divórcio ou à homossexualidade. Frente ao aborto sim permanece uma grande resistência, superior àquela encontrada na Argentina e no Chile. Por fim, os autores acreditam que, embora a postergação da nupcilaidade e da fecundidade, bem como os níveis de fecundidade abaixo da reposição não tenham se generalizado na América Latina, estas seriam mudanças esperadas para o futuro, como um desdobramento quase que lógico seguindo À luz dos resultados apresentados neste estudo, buscamos recuperar as informações do World Values Survey contrastando diretamente dados de alguns países latino-americanos com aqueles de países nórdicos e dos Estados Unidos.
Gráfico 3
Países selecionados, 2005-2007: Atitude frente às mães solteiras
Fonte: World Values Survey (2005-2007). Disponível em:
<http://www.wvsevsdb.com/wvs/WVSIntegratedEVSWVSvariables.jsp?Idioma=I>
No Gráfico 3 apresentamos o nível de aceitação da maternidade solteira em distintos países. Selecionamos os países latino-americanos de maior peso populacional no continente, os Estados Unidos por ser um país com tradição nos estudos de maternidade solteira e países nórdicos, onde há grande proporção de crianças nascidas fora do casamento formal.
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Gráfico 4
Países selecionados, 2005-2007: Valores expressos acerca da família e da religiosidade
Fonte: World Values Survey (2005-2007). Disponível em:
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Pode-se observar que, à exceção do Brasil, os latino-americanos tendem a aprovar mais a decisão feminina de ter filho sozinha, do que os norte-americanos e nórdicos. O nível de aprovação desta opção no Brasil (46,1%) se aproxima daquele encontrado na Suécia (47,3%), mas está mais distante daquele verificado em outros países latino-americanos, com níveis de aprovação iguais ou superiores a 60%. Dentre os países selecionados, apenas a Noruega (33,6%) apresentou um nível de aprovação mais baixo do que o Brasil. Dentre os latino-americanos, os brasileiros também foram os mais cautelosos neste tema: 14,7% acreditam que aprovar ou não a decisão da mulher depende da situação. Este percentual é mais que o dobro daquele encontrado em outros países latino-americanos, e está mais próximo dos patamares encontrados na Suécia (13,1%) e Finlândia (12%).
De certa maneira, o que estes dados parecem indicar é que a população se encontra bastante dividida em relação ao tema da maternidade solteira sem qualquer participação masculina, e que no caso do Brasil, mais da metade dos entrevistados mantém certa reserva diante da possibilidade de uma dissociação total entre reprodução e conjugalidade ou das chamadas produções independentes.
De acordo com os dados do censo demográfico de 2010, dentre as mulheres que haviam tido filhos nos últimos doze meses anteriores ao censo, 79,1% viviam com companheiro no momento do levantamento (45,1% em união consensual e 34% eram casadas); 11,1% não viviam com companheiro na data do censo, mas já haviam estado unidas alguma vez na vida e 9,8% haviam se tornado mães dentro dos últimos 12 meses sem nunca haver vivido com cônjuge ou companheiro. Ou seja, comprovadamente a maior parte dos nascimentos fora do casamento está ocorrendo dentro de uniões estáveis; as mães propriamente solteiras respondem por 9,8% dos nascimentos e as mães sós (considerando todas as mulheres sem companheiro no momento do levantamento, independente do estado civil) respondem por 20,9% dos nascimentos.
Tal como se pode observar a partir do Gráfico 4, os latino-americanos são mais propensos a acreditar que uma criança precisa de um lar com pai e mãe, e os brasileiros em especial, no contexto latino-americano, são os que menos concordam com a afirmação de que o casamento é uma instituição ultrapassada. Neste ponto, novamente os brasileiros se aproximam mais dos suecos do que de outros latino-americanos. Dentre os oito países considerados, os brasileiros estão entre os que mais gostariam de poder dar mais ênfase à vida familiar, são os que mais consideram que Deus é muito importante em suas vidas, os que mais acreditam que as igrejas dão respostas aos problemas familiares e os que mais condenam o aborto.
Permitimo-nos esta digressão, porque estes valores orientam nossas leis e estão refletidos nelas como veremos a seguir.
A atual legislação brasileira sobre filiação e a origem do Projeto Pai Presente
A Constituição de 1988 assegurou total igualdade entre os filhos nascidos dentro ou fora das uniões formais, ao estabelecer que: “Os filhos havidos dentro ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação” (Constituição Federal, Art. 227, §6º).
O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) vai um pouco mais longe ao fixar que o direito da criança à filiação está acima de qualquer interesse dos pais ao afirmar no Art. 27 que: “O reconhecimento do estado de filiação é direito personalíssimo, indisponível e imprescritível, podendo ser exercitado contra os pais ou seus herdeiros [grifo nosso], sem qualquer restrição, observado o segredo de Justiça”.
Dois anos mais tarde entrou em vigor a Lei nº 8.560 que “regula a investigação de paternidade dos filhos havidos fora do casamento e dá outras providências”. Esta lei
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estabelece que o registrador civil deve comunicar ao juiz todos os casos de crianças registradas sem o nome do pai. Cabe ao registrador encaminhar ao Juizado a certidão de nascimento anexando a ela a informação sobre a identidade e endereço do suposto pai, conforme declaração prestada pela mãe da criança. O pai é notificado independente de seu estado civil. O homem tem o direito de se manifestar sobre a paternidade que lhe é atribuída confirmando-a ou negando-a. Em caso de negativa, e havendo evidências de que o homem pode ser o pai biológico da criança, o Ministério Público abre processo de investigação de paternidade, se houver insistente recusa da paternidade este processo inclui o recurso ao exame de DNA a expensas do Estado. Uma modificação desta lei em 2009 determinou que em caso de o homem indicado como pai se negar a ceder material genético para o exame de DNA, assume-se a presunção de paternidade considerando outros elementos do processo.
Embora esta lei esteja em vigência há duas décadas, ela não era aplicada com rigor. Os registradores raramente comunicavam aos juízes sobre os casos de crianças com paternidade desconhecida e um número ainda menor de juízes dedicava tempo e esforço na identificação dos pais, a menos que um processo fosse aberto por iniciativa da mulher ou do próprio filho.
Diante deste quadro, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)3
A atuação do CNJ tem buscado facilitar o reconhecimento paterno de todas as formas possíveis. No início de 2012, decidiu-se que nos casos onde o pai está disposto a assumir espontaneamente a paternidade a inclusão de seu nome nos documentos do filho seja feita diretamente no cartório de registro civil, sem necessidade de tramitação no Ministério
lançou em 2010 o Projeto Pai Presente, que visa diminuir o número de pessoas com paternidades desconhecida no Brasil. Através de uma parceria do CNJ com o Ministério da Educação, foram utilizados dados do censo escolar para identificar crianças que não tinham a paternidade declarada nos registros escolares. Parte dos dados contidos no censo escolar reproduzem informações dos registros de nascimento. Na sequência, o CNJ repassou os dados dos estudantes sem paternidade reconhecida para as Corregedorias dos Tribunais de Justiça (ao todo são 27 corregedorias, uma por Estado da Federação). Observando uma lógica de capilaridade, os juízes locais receberam as informações referentes a estudantes pertencentes a sua regional, com a tarefa de convocar individualmente as mães destes estudantes para uma conversa. É reservado à mulher o direito de não querer revelar quem é o pai do filho. Em geral isto ocorre quando a mulher não deseja ter contato com o pai de seu filho por alguma razão muito forte: uma história anterior de violência, ou quando o homem está ligado a práticas ilícitas, ou ela vive com outro companheiro que de fato exerce o papel de pai social do seu filho, ou por outra razão de ordem íntima não verbalizada. Em se tratando de menor de idade, é indispensável que a mãe concorde com a investigação de paternidade. Quando o filho em questão é maior de idade, a palavra final sobre a abertura do processo é dele. O reconhecimento de paternidade em todo caso independe do estado civil dos genitores ou do grau de parentesco que porventura exista entre eles. No caso de pessoas que se declarem pobres e que, portanto, não podem arcar com as despesas de emissão de documentos, é assegurada a isenção de taxas. Vale ressaltar que apenas em 1997 a primeira via da certidão de nascimento se tornou gratuita. E no caso de pessoas comprovadamente pobres instaurou-se a possibilidade de isenção de taxas para a emissão de quaisquer certidões extraídas pelo cartório de registro civil (Lei 9.534/97). Em pesquisa de campo, no entanto, te- se notado que poucas pessoas conhecem esta lei. A maioria das pessoas se cala e procura pagar as taxas dos cartórios, que podem custar cerca de um quinto do salário mínimo.
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O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) é um órgão do Poder Judiciário criado em 2004 com o objetivo de planejar, coordenar e controlar a prestação de serviço público de acesso à justiça. Cabe a ele zelar pela transparência administrativa e processual. Sua atuação é pautada em cinco diretrizes básicas: planejar e propor políticas judiciárias; modernizar o judiciário; ampliar o acesso à justiça; e assegurar o respeito às liberdades públicas e execuções penais. Mais informações em: www.cnj.jus.br
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Público. À primeira vista esta pode parecer uma mudança sem importância, mas que pode ter impacto, pois a distribuição das representações do Ministério Público não está uniformemente distribuída no território. Por outro lado, os cartórios, embora também sejam de difícil acesso para populações isoladas, são comparativamente mais acessíveis. Existem 7.324 cartórios de registro civil espalhados pelos mais de cinco mil municípios brasileiros. Já as representações do Ministério Público têm uma difusão menor no território. Na região amazônica a representação mais próxima pode estar localizada a cerca de 600 km de distância (Agência Brasil, 2012).
O CNJ também tem trabalhado pela padronização e informatização dos registros em todo Brasil, e propôs um novo modelo de certidão de nascimento que já está em vigor. Neste novo modelo, não se informa o estado civil dos pais e nem o local onde se casaram – campo que ficava vazio no caso de inexistir uma união formalizada entre os pais. Os campos destinados ao nome da mãe e do pai foram suprimidos e substituídos pelo campo “filiação” (Provimento nº 2/2009 do CNJ). O objetivo desta mudança foi abolir a prática de inserir a denominação “pai desconhecido” no campo destinado aos dados paternos.
Paralelas a estas transformações em matéria de filiação, as leis brasileiras progressivamente reconheceram direitos às pessoas que vivem em união estável e procurou eliminar eventuais desvantagens desta modalidade de união (Lei n° 2.686/96), buscando especialmente igualar responsabilidades entre homens e mulheres e assegurar, sobretudo, os interesses dos filhos nascidos destas uniões (Koerner, 2002). Entretanto, no momento de registrar um filho ainda se verifica uma sutil distinção: embora seja prática corrente que o pai registre o filho, nada impede uma mãe de registrar uma criança em nome do marido unicamente apresentando a certidão de casamento, pois na constância do matrimônio a paternidade é presumida. De acordo com o Código Civil Brasileiro de 2002 (Art. 1.597), assume-se de antemão que a crianças foi concebida na constância do casamento quando a criança nasce no prazo de pelo menos 180 dias após o casamento, até 300 dias subsequentes à dissolução do mesmo seja por morte, separação judicial ou anulação.
Todavia, o advento e relativa democratização dos exames de DNA oferecidos gratuitamente pelo poder público e que lentamente estão se tornando mais baratos nos laboratórios particulares, impulsionou o crescimento de processos judiciais de contestação de paternidade analisados nos trabalhos de Claudia Fonseca (2004). Embora exames de DNA possam ser solicitados nas mais diversas situações para detectar a paternidade “verdadeira”, diga-se biológica, nos mais diversos tipos de relacionamentos conjugais ou afetivo-sexuais, o casamento parece dar maior credibilidade à palavra da mulher, ainda que momentaneamente, posto que o marido pode contestá-la. O ônus da prova parece operar com lógicas distintas dentro e fora das uniões formais. Enquanto nas relações sem papel (uniões consensuais, namoros e outras) costuma ser a mulher quem aciona a justiça – visando a obtenção do sobrenome paterno para seu filho e por vezes também pensão e divisão dos encargos de criação e educação – na constância do casamento é mais comum o homem procurar a justiça, desconfiado de que não é o pai biológico do filho de sua esposa ou ex-esposa. Ou seja, o casamento inverte o ônus da prova.
Ao acompanhar a recente evolução da legislação sobre filiação, notam-se três movimentos concomitantes. Em primeiro lugar, houve a preocupação de reconhecer e respaldar juridicamente todas as formas de família, o que obviamente inclui as famílias encabeçadas por mulheres, dentre as quais há uma considerável parcela de mulheres que assumiram sozinhas a educação e criação dos filhos. Em segundo lugar, houve um movimento pela responsabilização dos homens especialmente pelo suporte financeiro via pensão alimentícia, sendo que primeiramente a questão das visitações era uma discussão marginal que gradativamente foi ganhando relevância a ponto de ser crescente a polêmica ao redor de discursos jurídicos sobre o abando afetivo. Em terceiro lugar, é consenso entre juristas e
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autoridades que o interesse maior da criança está acima dos interesses dos pais. Faz parte deste consenso a ideia de que é do interesse da criança saber quem é seu pai biológico e manter contato com ele sempre que possível. De certa forma, as responsabilidades intergeracionais (de pais para filhos) estão acima dos eventuais conflitos de gênero envolvendo os genitores.
O Projeto Pai Presente
O Projeto Pai Presente tem amplitude nacional, mas na verdade já existiam iniciativas similares em diferentes pontos do país com distintos nomes: Paternidade Responsável, Pai Legal, É Legal ter Pai, Justiça nas Escolas, etc. Embora cada iniciativa possa guardar traços peculiares, o que há de comum em todas elas é o entendimento de que todos devem ter pai e mãe reconhecidos publicamente. Este entendimento das necessidades de referências familiares para a criança, da perspectiva de gênero pode tanto representar a retomada de uma visão conservadora de família quanto pautar-se em perspectiva totalmente progressista. Para entender melhor as razões desta afirmação, devemos nos centrar momentaneamente no discurso jurídico sobre o projeto.
Alguns juristas parecem inclinados a atribuir à ausência paterna a origem de grande parte dos problemas sociais que enfrentamos:
A busca pelo fortalecimento da paternidade, com a identificação do pai no assento de nascimento e a efetivação da participação paterna servem como antídoto contra vários males que assolam a sociedade atual. Casos de evasão escolar, atos infracionais, consumo de entorpecentes e gravidez precoce estão estritamente ligados à ausência do pai. Cabe ressaltar que a experiência na área criminal revela que a maioria dos acusados não possui pai registral, e aqueles que o possuem nunca conviveram com este. É certo que há exceções.
Ciente das mazelas existentes por trás da ausência paterna e das implicações jurídico-psicológicas deve o Defensor Público tentar, incansavelmente identificar um pai para aquela criança, seja ele biológico ou afetivo. Depois de identificado, deve ser propiciado a este pai e a este filho o convívio (Nascimento, 2010: 12-13).
O argumento na verdade não é novo é foi muito difundido nos Estados Unidos por teóricos considerados conservadores a exemplo do sociólogo David Popenoe, autor de livros como Families without fathers: fathers, marriage and children in american society, Life
without fathers e de textos polêmicos como American Family decline.
Mas como alerta Ganavas (2002), tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, a questão da paternidade, ou a ausência de um pai – seja física ou simbolicamente – foi um tema em voga tanto em governos liberais quanto conservadores, bem como entre formuladores de políticas públicas de distintas tradições. Este debate foi particularmente forte nestes países entre os anos 1980 e 1990 e em grande parte foram detonados pelas recentes conquistas femininas e declínio do homem-provedor. Isso de certa forma levou ao questionamento do lugar do homem na sociedade e os desdobramentos verificados nestes países parecem indicar que uma espécie de “reconstrução da masculinidade” e, por conseguinte da paternidade, passou pela ressignificação do casamento, do trabalho e da sexualidade masculina.
O discurso das vertentes mais progressistas enumera o reconhecimento paterno não apenas como um direito da criança, mas também como um direito da mulher. A cartilha “A Defesa e a Proteção da Mulher”, elaborada pela Comissão OAB Mulher, destaca o reconhecimento paterno como forma de o homem participar da vida do filho e ajudar financeiramente na sua criação. A socióloga Bila Sorj e a economista Lena Lavinas, que deram importantes contribuições aos estudos de gênero, em artigo de opinião publicado no
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jornal O Globo, argumentam que o não-reconhecimento paterno é uma herança patriarcal ainda por ser vencida:
Muitas mães nem chegam a procurar as instituições com vistas à investigação da paternidade, pois se sentem desencorajadas pelos custos e morosidade da Justiça. Experimentam também sentimentos de vergonha e culpa por terem tido relações sexuais fora do âmbito legitimado do casamento.
Tal situação, legal, material e psicológica, protege os desertores da paternidade e transfere para as mães toda a responsabilidade com os cuidados dos filhos. Aqui reside um bastião intocável do poder patriarcal, apesar de as últimas décadas terem promovido maior equidade entre os sexos por meio de profundas transformações no cotidiano das relações entre homens e mulheres e também na forma da lei. (...) O compromisso de derrubar o número de sub-registros para uma cifra abaixo de 5%, padrão aceito pela ONU, não pode ser enfrentado apenas com medidas administrativas. Exige mudanças legais inspiradas nos princípios de igualdade real entre crianças nascidas dentro e fora do casamento e de credibilidade da palavra da mulher. (Sorj e Lavinas, O Globo, 21/06/2009)
Alguns juristas lembram que o objetivo do projeto não é constranger ou pressionar as mulheres inquerindo quem é o pai de seu filho (embora isto também possa acontecer), mas sim aliviar a sobrecarga feminina, especialmente no que diz respeito às despesas econômicas que implica criar um filho. Em entrevista à revista Justiça e Cidadania, quando questionado sobre a importância do reconhecimento paterno, o Juiz Reinaldo Portanova, coordenador do Projeto Pai Presente em Minas Gerais declarou:
Dá a conhecer ao filho a identidade do pai. E ao pai a existência do filho. Desperta o sentimento de segurança aos menores, melhor ainda se acompanhado de afetividade recíproca. Promove a paternidade responsável, a convivência do filho com o pai e com a família paterna. Compromete o pai com as necessidades sociais do filho: alimentos, participação na vida escolar do filho, convívio. Na medida em que viver é conviver. Enfim, há ainda o direito à sucessão, que tem também sua importância (Justiça e Cidadania, set./2010: 43).
Já o promotor Charles Martins (Rio Grande do Sul) argumenta que 4:
A nossa dinâmica familiar mudou. Hoje as mulheres trabalham fora, hoje as mulheres ajudam a manter as casas tanto quanto os homens. Só que nesta questão dos filhos, ‘é contigo mulher’. Este conceito de paternidade responsável vai para além daquilo que a gente sabe de prevenção à paternidade não planejada. Você quis ter este filho, você precisa ser um pai responsável e presente.
Consideramos os documentos de divulgação do projeto no Rio Grande do Sul os que deixam mais claro a percepção de gênero que norteia este tipo de iniciativa. Embora em muitos outros Estados se adote medidas parecidas, a linguagem é sempre jurídica e justificada exclusivamente com base na legislação. A equipe do projeto gaúcho afirma:
As ditas “mães solteiras”, na verdade, em geral são “mulheres guerreiras”, na medida em que criam seus filhos sem a ajuda do respectivo pai, isso quando é público e notório que elas, no momento de se saberem grávida e vendo-se abandonadas e/ou rejeitadas, poderiam ter trilhado o caminho mais fácil do aborto, lamentavelmente muito acessível em nosso pais, muito embora ilegal. Porém, conquanto seja louvável a opção que estas mães fazem pela continuidade da vida dos filhos que carregavam no ventre, bem como haja o reconhecimento do seu trabalho redobrado, é preciso chamá-las e alertá-las que não é a melhor decisão permitirem aos pais que abandonem
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Intervenção registrada no vídeo de divulgação do Projeto Pai Presente em São Sebastião do Caí (Rio Grande do Sul) onde se desenvolveu a experiência de referência para todo o Estado gaúcho. O vídeo pode ser encontrado na página da ong “Brasil sem grades: é Brasil de pais de verdade”
http://www.brasilsemgrades.org.br/ws/index.php?option=com_content&view=article&id=167:pai-presente&catid=53:acoes-propostas&Itemid=181 (último acesso em 10 de julho de 2012)
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sua prole, nem para elas, nem para seus filhos e nem mesmo para os pais. Segundo constatamos, as crianças “sem pai” em geral são frutos de uma relação em que a mulher envolve-se sem medir as consequências, sem tomar os cuidados e a avaliação necessária. Quando a mulher engravida e é rejeitada pelo homem, seu mundo modifica-se profundamente, e o que acontece é que as duas pessoas, pai e mãe, cada uma seu modo, “tomam a decisão” de que o pai vai ser afastado da vida do filho. Essa decisão, de um modo geral, acontece em um momento de vulnerabilidade para ambos, mas em especial para mulher. Em muitos casos os homens sentem-se “enganados” pelas mulheres, pois almejam tão-somente uma relação sem maiores consequências e o surgimento de um filho é muitas vezes entendido com um ato premeditado que visa comprometê-los. Diante disso, colocam-se em posição de defesa da “liberdade sexual” que querem manter, tornando-se, não raro, agressivos e muitas vezes propondo o aborto como saída para a situação indesejada. Esse comportamento masculino desencadeia na mulher raiva e frustração, por sentir-se enganada e/ou pela perda do sonho de constituir uma família para aquele filho. A raiva é tamanha que ela se afasta do homem que a rejeitou e quis “assassinar” o seu filho. Nesse contexto, na maioria das vezes com apoio da sua família, a mãe interrompe totalmente seu relacionamento com o pai, decidindo-se que os acessos do filho a este homem também serão interrompidos e bloqueados. A raiva e a falta de informação e apoio fazem esta porta se fechar. O homem–pai, portanto, não é mais incomodado e segue o seu caminho sem consequência, como quem nada tem a ver com isto. Ele sai de cena, “sem culpa”, “sem remorso”, como se aquele filho não existisse, como se nada tivesse acontecido, não raro reproduzindo esse tipo de comportamento com outras mulheres, afinal “não deu nada”. (Piovensan e Martins, s/d)
No trecho transcrito acima três traços atitudinais que caracterizavam a sociedade brasileira segundo os dados do World Values Survey aparecem com bastante força: 1) a veemente reprovação ao aborto; 2) a aceitação da maternidade solteira se justifica dadas determinadas condições, ou seja, da perspectiva do padrão moral hegemônico, a maternidade solteira seria preferível ao aborto; 3) crianças precisam de pai e de mãe.
A Psicologia e a Psicanálise são constantemente resgatadas para dar sustentação científica a este projeto e às políticas similares ao redor do mundo. Mas independente do julgamento que possamos fazer sobre o Projeto Pai Presente, se é uma política de cunho conservador por considerar que todos tem que necessariamente ter pai ou mãe, ou se é uma política de certa maneira progressista, afinal opera em favor da equidade de gênero, ao buscar aliviar a sobrecarga feminina diante dos efeitos de uma gravidez não-planejada, é simbolicamente revelador observar as imagens veiculadas no material de divulgação do Projeto Pai Presente tal como concebido pelo CNJ em 2010:
Figura 1
Imagens veiculados no material de divulgação do Projeto Pai Presente
Fonte: Cartazes, folhetos e cartilhas de divulgação do Projeto Pai Presente.
As imagens buscam retratar estritamente a relação pai-filho sem a mediação da mãe ou qualquer alusão à família nuclear ou ao casamento. Nota-se neste material apenas a silhueta de um homem e uma criança contra a luz, e outras vezes as mãos de uma criança e de um adulto. Ressalta-se, portanto, a ausência da mãe na primeira imagem e a ausência de aliança
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na mão do adulto na segunda imagem. Aliás, não se mostra a mão esquerda que eventualmente poderia portar uma aliança de casamento, mas sim a mão direita. Do ponto de vista simbólico, estes detalhes não são triviais e evidenciam certo cuidado dos gestores do projeto em não reforçar um ou outro tipo de família, enfatizando unicamente os laços entre pai e filho.
Apenas para ilustrar o quanto a escolha das imagens veiculadas no material oficial de divulgação do Projeto Pai Presente foi cuidadosa, podemos contrastá-las com a imagem postada nas redes sociais por uma comunidade portuguesa dedicada a temas e atividades de jovens:
Figura 2
Imagem divulgada em redes sociais
A mensagem é bastante clara com a criança ainda no ventre materno, trazendo a mulher em primeiro plano e a mão esquerda do pai, também estrategicamente em primeiro plano, portando uma aliança de casamento.
Pode-se dizer que quantitativamente os resultados do projeto Pai Presente, ainda são relativamente modestos. Desde que foi lançado em agosto de 2010, até março de 2012 foram computados cerca de 10 mil reconhecimentos de paternidade segundo informações do próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ), considerando as informações encaminhadas pelos Tribunais de Justiça de quinze Estados da Federação: Acre, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Piauí, Paraíba, Paraná, Roraima, Rio Grande do Sul e São Paulo (Agência CNJ de Notícias, 19/03/2012).
Os fatores que dificultam a identificação dos pais são múltiplos, desde razões pessoais que fazem não ser da vontade da mãe este reconhecimento; passando pela baixa mobilização de autoridades locais. Ainda que o projeto seja federal, e vise especialmente a identificação da paternidade dos menores de idade, o CNJ se limitou a enviar aos juízes CDs onde estão relacionados o nome da criança/adolescente, da mãe e o endereço de contato para a avaliação da situação caso a caso. Quando o projeto foi lançado em 2010, todas estas informações foram obtidas a partir do censo escolar de 2009. O processo de abordar as mães e checar o interesse de identificar o pai da criança é feito por autoridades locais que podem eleger o projeto como prioridade nº 1, ou considerá-la de difícil execução considerando seu quadro de funcionários, as demandas das tarefas cotidianas e a logística que o processo de reconhecimento de paternidade envolve. Somado a tudo isso, há também as situações em que as mães de fato não sabem o paradeiro do pai da criança, considerando também a grande mobilidade geográfica de certos grupos sociais, por vezes pais e filhos já não residem no
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mesmo município ou Estado, sendo necessária a atuação coordenada entre autoridades de mais de um Estado para a localização do pai e realização de exame de DNA, caso ele tenha dúvidas sobre a paternidade.
Relatos: as partes envolvidas nos processos de reconhecimento de paternidade
Processos de reconhecimento de paternidade fazem parte da rotina das Varas de Família de todo o país, e de tempos em tempos irrompem na mídia nacional com ares novelescos quando o suposto pai é uma figura pública: político; grande empresário ou jogador de futebol. Lula, Fernando Henrique Cardoso, Tim Maia, Pelé, Roberto Carlos, etc. A lista de casos que se tornaram públicas é realmente extensa. No entanto, principalmente nestes casos em que o reconhecimento de paternidade envolve pessoas de posses, raramente a opinião pública escapa do argumento fácil da censura moral à mãe – por “querer dar-se bem na vida” – ou ao pai “por ser um irresponsável”. Pouco se explora os meandros de violências simbólicas, psicológicas e físicas que por vezes permeiam estes casos. Como exemplo de uma situação extrema que teve como um de seus ingredientes um processo de reconhecimento de paternidade, pode-se mencionar o desaparecimento e provável assassinato de Eliza Samudio em 2010, ainda não totalmente esclarecido. Segundo investigações, a motivação para o crime foi em grande medida o processo de reconhecimento de paternidade que a jovem movia na justiça contra um jogador de futebol. Eliza chegou a ser obrigada a se submeter a uma tentativa de aborto que não deu certo, o bebê nasceu e a contenda evoluiu para o desfecho conhecido: o assassinato da jovem, a prisão do rapaz e seus comparsas, um exame de DNA comprovando a paternidade do goleiro, uma criança órfã de mãe com o pai preso sendo criada pela avó materna. Este caso chama a atenção pelo desfecho violento e inesperado, mas também alerta para a complexidade que um caso de reconhecimento de paternidade pode atingir.
Obviamente este tipo de situação não é prerrogativa dos ricos e famosos, é um fenômeno que permeia todas as camadas sociais e por vezes atinge de maneira particular os homens das camadas baixas que acreditam que por não ter dinheiro não têm nada a oferecer ao filho.
Neste tópico damos voz às pessoas envolvidas em processos de reconhecimento de paternidade. Há diversos blogs de acesso público onde as pessoas buscam orientação jurídica e relatam espontaneamente suas histórias. Consideramos dois destes blogs como particularmente interessantes por conta dos proprietários responderam as dúvidas das pessoas e também porque elas fazem por vezes relatos bastante detalhados dos casos, são eles: o Blog do Adrio Gelatti (Rio Grande do Sul)5 e o Diário de um Juiz (do Amazonas)6
Um dado interessante é que os relatos são provenientes de diferentes partes do país, algo que o espaço virtual permite, e não raro são as mulheres próximas ao homem que está sendo apontado como pai que procuram esclarecimento jurídico. São irmãs, mães, netas, mas, sobretudo, esposas e atuais companheiras que procuram saber as implicações decorrentes do parceiro ser declarado pai de uma criança. As questões familiares parecem seguir sendo um campo prioritariamente feminino.
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Há indícios de que a recusa masculina em reconhecer um filho tem a ver com o lugar que a relação entre ele e a mãe da criança ocupa ou ocupou em sua vida. Quando de fato o homem viveu mesmo que por um curto período com uma mulher, ele se sente mais impelido a assumir o filho. Por outro lado, se foi uma relação motivada estritamente por favores sexuais,
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Blog do Adrio Gelatti, disponível em: http://adriogelattiblog.com/2010/08/11/responsabilidade-social-projeto-pai-presente/
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uma relação eventual, sem envolvimento afetivo da parte dele, a resistência ao reconhecimento da paternidade é muito maior:
(...) eu estou sendo intitulado pai de uma criança, com uma moça que eu transei só duas vezes. Isso faz 6 meses e ela me falou depois de 5 meses de gravidez que esse filho era meu, como eu posso acreditar numa pessoa que veio até a minha casa transou comigo sem preservativos, mesmo eu tendo certeza que não ejaculei dentro dela e ela tendo afirmado o mesmo no dia que ela me contou sobre a gravidez. (...) Me parece fraude, pois ela queria namorar comigo em dois encontros, tudo muito tendencioso. Eu sou obrigado a fazer o teste DNA usando esses meus argumentos? Sendo que o único argumento dela é de que ela transou só comigo nesse tempo? Tem como acreditar numa pessoa que eu mal conheço? (T.A.)
Sou pai, mas por motivos que não sei explicar, na época do registro de nascimento de meus filhos (gêmeos hoje com 13 anos), não coloquei meu nome na certidão. Vivi com eles e a mãe durante 12 anos hoje estamos separados, mas pago pensão e os acompanho o máximo possível, antes da separação fomos ao cartório para colocar meu nome na certidão e não pude fazê-lo por causa dos custos. Como posso diminuir esses custos? (G.A.C.)
Tenho dúvidas a respeito do DNA. Tive um relacionamento que durou 4 meses, o mesmo terminou em setembro (...)há um mês descobri que estou grávida de 6 meses. Ao procurar o pai da criança ele se recusou a assumi-la, e contestou a paternidade. Portanto, como não trabalho e dependo exclusivamente de minha mãe, gostaria de saber como faço e onde recorro para mover algo contra ele, já que existem despesas daqui em diante com a criança. (S.S.)
Diante de uma gravidez inesperada e na eminência de se tornarem pais, a proposta de fazer um aborto muitas vezes parte dos próprios homens:
Estou grávida de 4 meses e meio. Já pedi ao pai para fazer o DNA, mas ele recusou fazer preferindo optar pelo aborto. Eu recusei e não conversamos sobre o assunto e não tenho contato com ele! O que devo fazer? Meu filho deve nascer em março, já posso entrar na justiça com pedido de DNA? Porque creio que deve demorar! E os gastos que eu estou tento durante a gestação, o pai deve me devolver parte do que estou gastando? Com os gastos da maternidade? Porque são muitos, tem alguma lei que faça ele me devolver gastos que eu tive na gestação? (G.R.)
Tive um relacionamento com um homem casado, em partes, pois ele dizia ser separado que não dormia mais com a esposa. Então dei continuidade ao relacionamento que durou 5 anos. Meus familiares e alguns amigos em comuns sabiam desde o início. Ano passado engravidei, erro de anticoncepcional, pois estava em tratamento contra um câncer de mama. Ao saber da gravidez, ele sugeriu o aborto, o que recusei. A família dele preferiu apoiá-lo contra mim. A rejeição do bebê foi 100%. Hoje ela está com 9 meses. Ele não registrou, pois ela nasceu prematura e fora da nossa cidade e para regressar tive que fazer um registro provisório. Ao voltar ele manteve a recusa, pois me dizia que não queria mais filhos. (M.A.)
Thurler (2009) foi pioneira no estudo sobre o não-reconhecimento ou deserção paterna no Brasil, realizando levantamentos diretamente nos cartórios de diferentes pontos do país e principalmente no Distrito Federal. Sua pesquisa aponta que entre os inúmeros fatores que contribuem para a realização de registros de nascimentos tardios está em alguns casos a negociação do reconhecimento da paternidade. De acordo com estimativas da autora, entre um quarto e um quinto das crianças nascidas fora do casamento ficam sem a filiação paterna no registro civil. Normalmente os demógrafos justificam o sub-registro de nascimento baseado na dificuldade de acesso da população aos cartórios ou baixa conscientização sobre a necessidade de documentos que assegurem a cidadania plena. Contudo, de fato a contestação da paternidade e o tempo de negociação que pode demandar o reconhecimento da paternidade estão entre as razões do sub-registro de nascimento e do registro tardio:
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(...) estou com um problema minha sogra quer me obrigar a fazer o teste de DNA. Só que o meu marido nem registrou a criança ainda, meu filho já tem 10 meses. Oque eu faço? Ela pode me obrigar? . E o meu marido ele já nem registrou a criança. O que eu posso fazer? (A.L.S.)
Meu marido tinha uma amante, onde se encontravam uma vez na semana. Ela tem perto de uns 40 anos, acho incrível que tenha ficado grávida tão fácil (segundo ela tomava pílula anticoncepcional) considerando que nesta idade a porcentagem cai drasticamente... Enfim, o fato que a criança nasceu. E apesar dele não querer nada mais com ela, insiste em ter o registro sem o exame de paternidade. A criança está sem registro, por capricho da mãe, por não querer se expor através de uma ação judicial e muito menos querer apresentar a certidão de nascimento sem o sobrenome e a filiação paterna [grifo nosso] (não que a criança não tenha esse direito, mas o fator é o orgulho ferido, da vergonha por ter que assumir que era amante e não uma “namorada”, ao invés de pensar no filho sem a paternidade na certidão, pois por ser advogada será uma vergonha ter que admitir sua falta de caráter). O fato que ela agora resolveu fazer o tal exame (...) (A.D.)
Na verdade, o censo demográfico de 2010, possibilitará investigar adequadamente estas pistas, pois foi indagado se as crianças de até dez anos contavam com registro de nascimento. Esta informação, quando combinada com a identificação da mãe no domicílio possibilitará cruzar a informação sobre o estado civil e conjugal da mãe e a existência ou não de registro de nascimento. Por enquanto, como o número de ordem da mãe no domicílio ainda não foi divulgado, foi possível fazer este exercício apenas para as mulheres que são chefas de domicílio. Segundo os dados do censo 2010, a maior parte das crianças sem registro civil de nascimento está concentrada na faixa etária de 0-2 anos (55,2%). As crianças sem registro de nascimento representam 4,2% do total de crianças residentes com mães solteiras chefas de domicílio, ao passo que representam apenas 1,6% quando residentes com o pai casado e chefe de domicílio. Quando os dados que permitem a identificação da mãe no domicílio forem divulgados, poderemos avaliar a situação de todas as crianças segundo o estado civil e conjugal da mãe, e não apenas daquelas que são filhas do(a) responsável pelo domicílio, como fizemos agora. Mas tudo indica que o tipo de vínculo existente entre os pais é um dos fatores que influencia no tempo transcorrido entre o nascimento e a emissão do registro civil, provavelmente devido ao tempo de negociação entre as partes quando há dúvidas ou contestação acerca da paternidade.
Alguns motivos masculinos para a recusa da paternidade são frequentes. Além do pouco tempo de relacionamento e aparente baixo envolvimento afetivo com a mãe da criança, outros motivos recorrentes parecem ser: a ideia de que um filho atrapalha projetos educacionais e profissionais futuros; a autopercepção de que não possuem condições financeiras e que não se enquadram no papel de provedor; o fato da gravidez resultar de relações extraconjugais.
Os motivos pelos quais as mulheres preferem não declarar o nome do pai de seu filho decorrem principalmente da constatação de que eles possuem desvios de caráter e que podem representar uma má influência sobre o filho. Muitas delas preferem omitir conscientemente a filiação paterna no registro de nascimento dos filhos, quando estes homens são usuários de drogas, têm um histórico de problemas com a justiça ou são violentos:
Fui no fórum para marcar o dia do DNA. Eles falaram que enviam em casa, mas meu ex-marido “virou” usuário de crack, teria como eu estar cancelando o DNA? Ou tenho que ir até o final? (A.G.)
Tenho um filho de dois anos, quando fiz o registro sem o nome do pai fui chamada a comparecer no fórum de minha cidade e explicar o porquê não o citei. Dei minha declaração que não tinha o interesse de dizer quem era o pai pelo motivo de temer pelo bem-estar dele, por o pai ser um alcóolatra e muito agressivo, que na minha gestação quase perdi meu filho, e com isso ele teve sequelas que requerem cuidados especiais. Sei também que a família dele nunca se interessou pelo meu filho. Isso foi em outubro de 2009, será que serei chamada novamente. (L.U.C.)
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Tive um relacionamento com uma pessoa durante 3 meses e estou grávida de 5 meses... Nesse período todo o pai nunca se ofereceu para ajudar com nada dizendo que para ele esse assunto é arquivo morto (?)... O senhor acha que devo entrar com a ação agora ou espera a criança nascer? Achei esse comentário dele bem estranho. Sinceramente me deixou com medo de que ele faça algo contra mim e o bebê... (A.)
O pai do meu sobrinho é um bandido… ele sumiu, não quis assumir a paternidade… Ele tentou matar a minha irmã várias vezes, é usuário de drogas, assaltante… Agora chegou uma carta desse projeto intimando ela a comparecer para esclarecer essa situação do menor, nós não vamos ir. Acho até que ele já esta preso, não iremos submeter a mente do pequeno a visitas no presídio. (E.K., tio da criança)
Em outros casos, a mãe se nega a indicar o pai da criança porque ela própria tem dúvidas sobre quem é o pai. Admitir perante a família, os ex-parceiros e as autoridades que não tem certeza de quem é o pai gera constrangimento e vergonha. Outras vezes, anos depois elas resolvem tirar a dúvida diante da pressão dos filhos, porque de fato precisam de auxílio financeiro, ou porque o último parceiro na época assumiu a paternidade a contragosto, pressionado pelas famílias, mas sempre carregou a dúvida.
Há também casos em que os homens, ou familiares deles, se queixam de terem sido excluídos da vida das crianças por decisão unilateral das mulheres e/ou das famílias delas. O discurso destes homens traz à tona o direito à paternidade, quando ao longo de todo este debate a ênfase maior parece ser sobre os deveres da paternidade:
Esse programa é beneficiário somente as mulheres? Gostaria de saber, o que posso fazer pra reconhecer a paternidade de meu filho, e anular o registro de nascimento dele, pois ele foi registrado, sem meu consentimento, e por minhas costas. Foi a maneira que os avós maternos acharam para poder colocar o nome de sua preferência em meu filho, sem que eu pudesse interferir, e meu filho acabou sendo registrado sem família paterna, pois eu e meus pais, fomos excluído literalmente da certidão e da vida de meu primeiro filho e primeiro neto de meus pais e fomos proibidos de vê-lo e participar da vida dele. Atenciosamente um pai aflito. (P.S.)
Caso a criança tenha sido registrada por uma outra pessoa sem ser o pai verdadeiro como fica a minha situação? Posso pleitear a paternidade da menina que hoje está com 15 anos ou perdi este direito? A mãe da menina nunca permitiu uma aproximação. O que devo fazer? (E.O.)
(...) estou com um problema, pois quero fazer um exame de DNA gratuito para saber se a criança é minha filha. Eu fiquei junto com uma mulher 3 meses, no final dos 3 meses, ela disse que estava grávida e que eu seria o suposto pai. Aí ela sumiu e só me ligava dizendo que eu sou o pai. Isso ocorreu durante a gravidez dela, aí eu disse a ela: se eu sou o pai, me dá a guarda da criança e ela disse que não, que preferia dar a guarda para outra pessoa quando ela ganhou a criança. Ela deu a guarda para um casal que não pode ter filhos. Eles moram no mesmo bairro que eu. Quero saber se pode me ajuda nessa situação, porque estou desesperado e sofrendo com isso e não sei o que faço. Não quero arrumar discussões com os pais adotivos. (E.M.S.)
Meu irmão se envolveu com uma mulher casada, e ela engravidou dele, e não quer deixá-lo assumir a filha e nem ajudá-la financeiramente. Ela registrou a filha no nome do marido, não quer deixá-lo vê-la ou conviver com ela, como posso proceder? A menina já tem 6 meses. E a minha mãe (no caso a avó da criança), ela pode impedi-la de ver a neta? (V.)
As reclamações de alguns homens evidenciam a necessidade de por em curso políticas de educação sexual que os capacitem a controlar a própria fecundidade, sem meramente delegar esta tarefa às mulheres, como parece ter sido o entendimento masculino sobre a questão até o momento. É inadmissível a contestação da paternidade com base no número de relações sexuais mantidas com a mãe da criança, ou o argumento de que foram enganados, como se não fosse de sua alçada planejar o nascimento de um filho ou zelar para que uma gravidez não lhes tomasse de assalto.
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Por fim, não se pode deixar de notar que a paternidade se tornou ameaçadora para certos homens, considerando, sobretudo, a obrigatoriedade do pagamento de pensão para os filhos menores de idade ou que deem prosseguimento aos estudando, mesmo após atingirem a maioridade. As dificuldades financeiras e a necessidade de responder pelo sustento dos filhos tidos com diferentes mulheres, muitas vezes sem desenvolver relações afetivas com estes filhos, representam uma grande frustração para os homens:
Foi atribuída a mim a paternidade de um rapaz que hoje está com 18 anos. A mãe me procurou há aproximadamente 4 anos e pediu apenas que eu conversasse com o menino, pois ele queria me conhecer. Disse que não queria dinheiro, que sabia das minhas condições e queria apenas que eu conversasse com o menino mesmo. O menino foi criado pela mãe e o padrasto, que sempre o tratou como seu próprio filho. Eu e a mãe do menino nunca fomos namorados, éramos conhecidos e ficamos juntos apenas 3 vezes, após o que não tivemos mais contato um com o outro, tendo ela se juntando pouco tempo depois com o padrasto do menino. Apesar de não estar certo da paternidade, aceitei receber o menino em minha casa para conversarmos (...) Tenho 39 anos de idade, estou cursando uma universidade federal e recebi até mês passado uma bolsa de apenas 300 reais devido ao estágio que faço em um laboratório. O prazo da bolsa terminou, embora eu continue no estágio, e não sei se conseguirei uma bolsa ano que vem. Dos 300 reais que recebia, pagava 165 reais de pensão para uma filha. Antes de entrar no estágio fazia trabalhos como gesseiro nas folgas da faculdade para ter como pagar essa pensão, mas sempre passei aperto, chegando a atrasar a pensão algumas vezes, tendo a mãe da menina me levado na justiça por esse motivo. Hoje moro com minha mãe que é idosa e recebe um salário mínimo, sou filho único, não conheço meu pai [grifo nosso], pois apesar de ele sempre ter tido boa condição financeira nunca me reconheceu e nunca ajudou minha mãe, passamos aperto aqui para que eu possa cumprir com a obrigação de pagar a pensão da minha filha, (...) Gostaria de saber o que fazer nesta situação, pois confesso que estou sem rumo e caso tenha que pagar mais uma pensão, ainda que o menino já tenha 18 anos, não terei a menor condição de arcar com mais essa despesa. Nunca tive nenhum bem na vida, a não ser a casa que construí junto com minha ex-mulher e da qual abri mão, estou separado ha 14 anos e nesse tempo todo, minha vida tem sido um verdadeiro inferno, vejo minha mãe idosa e não posso ajudá-la, não posso nem mesmo ir ao dentista e muitas vezes não me sobra dinheiro nem mesmo para ir cortar o cabelo, pois todo o dinheiro que ganho precisa ser reservado para pagar a pensão da minha filha que hoje nem liga pra mim, ou do contrário posso ser preso como se fosse um criminoso qualquer. Preciso de orientação, acredito que além de jurídica, psicológica também. (M.P.)
O relato acima sintetiza muitos dos sentimentos masculinos e nele aparecem retratados dois outros elementos recorrentes nestas histórias: 1) a reprodução intergeracional da ausência e não-reconhecimento paterno, sendo que estes mesmos pais ausentes têm em suas mães a grande referência em suas vidas; e 2) a tendência do marido ou companheiro da mãe cumprir o papel de pai social. Reportagens jornalísticas, declarações de profissionais da justiça e os trabalhos de campo de Claudia Fonseca (2004) têm sinalizado que na prática os companheiros das mães optam por adotar o filho delas ou mesmo registrá-los como próprios (adoção à brasileira), a fim de demonstrar seu apreço pela criança, o compromisso com a companheira e evitar que a criança seja identificada como filha de pai desconhecido.
Perfil das crianças e jovens sem o reconhecimento paterno no Brasil
A única fonte de dados demográficos que permite uma estimativa do número de filhos sem o reconhecimento paterno é o censo escolar, levantamento realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), ligado ao Ministério da Educação. Desde 2007 passou-se a coletar o nome do pai ao lado do nome da mãe. O censo escolar tem cobertura nacional e capta informações de todas as pessoas que frequentam estabelecimentos educacionais públicos e privados (creches e escolas) de todas as idades e níveis de aprendizagem. O censo escolar 2010 contabilizou cerca de 53 milhões de estudantes de todas as idades. Aqui nos ativemos aos menores de idade (0-17 anos), que correspondem a
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cerca de 42 milhões de crianças e adolescentes. Destes 12,4% são crianças que ainda não atingiram a idade de escolarização obrigatória (6 anos), estão inseridas no sistema escolar na modalidade creche.
As informações sobre cada estudante são prestadas pelo próprio estabelecimento educacional que as fornece consultando os arquivos da própria escola. A informação sobre filiação deve ser extraída diretamente da cópia do registro de nascimento que de praxe as escolas solicitam no momento da matrícula. De acordo com o censo escolar 2010 – 9,5% das crianças e adolescentes não contam com o nome do pai em seus registros.
A Tabela 1 apresenta alguns dados sociodemográficos básicos contrastando as crianças com filiação paterna e materna com aqueles que contam exclusivamente com a filiação materna identificada.
Tabela 1
Brasil, 2010: Distribuição percentual das crianças e adolescentes (0-17 anos) segundo reconhecimento paterno e características sociodemográficas selecionadas.
Sem nome do pai Com nome do pai Total
Total absoluto 4 milhões 38 milhões 42 milhões
Distribuição relativa 9,5 90,5 100 Grande Região Norte 15,7 9,0 9,6 Nordeste 35,1 29,8 30,3 Sudeste 32,7 40,5 39,8 Sul 9,9 13,7 13,4 Centro-Oeste 6,5 7,0 6,9 Total 100 100 100 Sexo Masculino 50,8 50,9 50,9 Feminino 49,2 49,1 49,1 Total 100 100 100 Cor Branca 18,5 28,5 27,6 Preta 3,6 2,8 2,9 Parda 33,0 28,1 28,6 Amarela 0,4 0,5 0,5 Indígena 0,4 0,4 0,4 Não declarada 44,1 39,7 40,1 Total 100 100 100
Escola que frequenta
Pública 91,5 83,9 84,6 Privada 8,5 16,1 15,4 Total 100 100 100 Atraso escolar Sim 30,5 19,6 20,6 Não 69,5 80,4 79,4 Total 100 100 100
Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Censo Escolar 2010.
Baseado nos dados acima nota-se que entre as crianças e adolescentes no Norte e Nordeste matriculadas em escolas públicas é mais comum encontrar casos de paternidade
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legalmente desconhecida. Embora a opção “cor não declarada” não seja utilizada com parcimônia concentrando um percentual muito elevado de estudantes, para aqueles para os quais se dispõe desta informação entre a população negra (junção de pretos e pardos) parece ser mais recorrente o não reconhecimento paterno.
Quanto ao sexo, o não-reconhecimento paterno afeta indistintamente meninos e meninas. Mas é no que tange ao atraso escolar que estes dados mais nos chamam a atenção. De fato entre crianças e adolescentes sem o reconhecimento paterno o atraso escolar é mais frequente. Embora não tenhamos elementos mais substantivos sobre o real ambiente familiar em que estes estudantes estão inseridos, este dado é sugestivo, mesmo sabendo que o não reconhecimento paterno deve estar associado a outras variáveis sociais desvantajosas, de maneira que não se pode tomar isoladamente à ausência da paternidade conhecida como fator determinante do atraso escolar. Até porque o atraso escolar de estudantes que contam com filiação materna e paterna também não é desprezível. De todas as formas, existe um diferencial entre a categoria ter o nome do pai e não tê-lo quando se considera o atraso escolar.
Tabela 2
Razão de probabilidade (odds ratios) de ter apenas a filiação materna Odds ratios
Grande Região (Sul)
Norte 2,070*** Nordeste 1,452*** Sudeste 1,115*** Centro-Oeste 1,198*** Rede de Ensino (Privada)
Rede Pública 1,890*** Cor (branca) Não-branca 1,458*** Sem declaração 1,454*** Sexo (Feminino) Masculino 0,992 Idade 1,009***
Notas: Razões de probabilidade derivadas dos coeficientes de regressão logística. Categorias omitidas entre parênteses. ***p< .001
Conforme se pode observar na Tabela 2, as crianças e adolescentes da região Norte do Brasil tem o dobro de chances de não contar com o nome do pai no registro de nascimento quando comparadas aos seus pares residentes na região sul do país. Os estudantes de escolas públicas têm uma chance 89% maior de não ter o sobrenome paterno. Os diferenciais também se manifestam quando se considera a cor das crianças, as crianças não-brancas apresentam 45,8% a mais de chance de contarem unicamente com o nome da mãe quando comparadas às crianças brancas. O sexo não se mostrou uma variável significativa, de modo que o não-reconhecimento paterno afeta indistintamente meninos e meninas.
Os dados do censo escolar revelam ainda que as crianças sem o nome do pai têm 79,9% a mais de chance de se encontrarem em atraso escolar. Obviamente não podemos estabelecer uma relação causal e outros elementos da trajetória de vida e condição social desses estudantes colaboram para o atraso escolar. Contudo, de fato se percebe uma associação entre o não reconhecimento paterno e o atraso escolar.