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Possíveis contradições existentes nos indicadores de preferências reprodutivas: uma análise para o Brasil 1986, 1996 e 2006

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Possíveis contradições existentes nos indicadores de preferências reprodutivas: uma análise para o Brasil 1986, 1996 e 2006

RESUMO

Apesar do elevado uso na pesquisa demográfica, os indicadores de preferência reprodutivas, os quais levam a mensuração das lacunas de fecundidade, sofrem muitas críticas, uma vez que existem contradições nas respostas sobre o tamanho desejado/ideal de família e intenções futuras de fecundidade. Assim, o objetivo geral deste trabalho é mensurar e analisar as inconsistências entre o número ideal de filhos, o número atual de filhos e as intenções de fecundidade futuras no Brasil em 1986, 1996 e 2006. Foram utilizados os dados das Demographic and Health Surveys bem como Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Mulher e da Criança realizadas no Brasil. Os dois indicadores utilizados foram: mismatch1 diz respeito à situação quando o número ideal de crianças é menor que o número de crianças que se tem atualmente, mas não se quer mais filhos no futuro e mismatch2 em que número ideal de crianças é maior que o número de crianças que se tem atualmente, mas se afirma que querer outra criança no futuro. Encontrou-se que o percentual de mulheres que comentem essas contradições é bastante baixo, cerca de 8,1%, sendo que o

mismatch1 compunha a maior parte das contradições (95% dos casos). Houve um

aumento da ocorrência do mismatch1 entre as décadas analisadas para a maioria das regiões brasileiras e uma diminuição da mismatch2. Existem dois perfis distintos de mulheres que cometem cada tipo de contradição.

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Possíveis contradições existentes nos indicadores de preferências reprodutivas: uma análise para o Brasil 1986, 1996 e 2006

Angelita Alves de Carvalho

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, muitos estudos tem sido desenvolvidos a fim de mostrar a utilidade das medidas de preferências reprodutivas na previsão do comportamento de fecundidade. Apesar do elevado uso na pesquisa demográfica estes indicadores, sofrem muitas críticas. As controvérsias se referem, especialmente, à validade das perguntas e respostas sobre o tamanho desejado/ideal de família e intenções futuras de fecundidade, em que, normalmente, derivam-se a maioria dos indicadores (Caldwell, 1985; Westoff, 1990; Thomson, 1997; Morgan e King, 2001; Goldstein et al., 2003, Gauthier, 2007; Santelli et al., 2009).

De fato, estudos apontam a existência vários problemas e vieses embutidos nas respostas dadas à tais questões. Além disso, quando se compara as diferentes medidas, podem ocorrer incompatibilidades ou contradições nas informações, conhecidos como mismatch. Dois pontos principais fazem surgir as dúvidas sobre a capacidade preditiva de medidas como desejos, intenções, expectativas ou preferências. O primeiro se relaciona ao fato de que as pessoas mudam as atitudes relatadas nas entrevistas de pesquisa após a pesquisa e antes de engravidar. E assim, a preferência no momento em que a fecundidade está sendo observada seria diferente daquela declarada no momento da entrevista. Com isso, vários problemas podem surgir quando os pesquisadores tentam examinar o efeito das atitudes anteriores sobre a fecundidade subsequente usando apenas uma medida de atitudes, sem levar em conta possíveis mudanças ao longo do tempo. Um segundo ponto também bastante explorado, é o fato de saber como as medidas de atitudes prospectivas predizem a fecundidade subsequente em comparação com determinantes bem conhecidos da fecundidade, particularmente o ciclo de vida e variáveis socioeconômicas (Casterline, El-Zanaty e El-Zeini 2003; Debpuur e Bawah 2000; Bankole e Westoff 1998).

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Muitos estudos sobre a relação entre as intenções declaradas de fecundidade ou expectativas de tamanho da família e fecundidade foram realizados em países desenvolvidos e em desenvolvimento e mostram que que há considerável correspondência entre as intenções anteriores de ter filhos adicionais e a fertilidade subsequente. Ou seja, as preferências de fecundidade coletadas nas entrevistas de pesquisa não correspondem completamente aos resultados futuros de fecundidade nos níveis individual e agregado, mas fornecem informações adicionais sobre o curso futuro da fecundidade (Bongaarts, 1992; Bankole, 1995; Kodzi et al. 2010). Assim, pode-se dizer que os erros e descompassos são pequenos na maioria dos países pesquisados, fazendo com que essas limitações não inviabilizem a utilização de tais medidaso (Bongaarts, 1992; Kalamar; Hindin, 2015; Carterline e Han, 2017).

Essa validade dos indicadores de preferências reprodutiva pouco tem sido estudada nos países em desenvolvimento. Os poucos trabalhos que estudam outras regiões para além dos países desenvolvidos, na maioria das vezes, se concentram nas contradições existentes entre as preferências e o uso de contraceptivos nos países africanos (Bankole, 1995; Kodzi et al. 2010, Kisambira, 2014). Nenhum estudo foi encontrado analisando essas inconsistências nestes indicadores no Brasil. Sendo, então relevante, mensurar e investigar as limitações desses indicadores e suas contradições também nesse contexto.

Assim, o objetivo geral deste trabalho é mensurar e analisar o mismatch entre o número ideal de filhos, o número atual de filhos e as intenções futuras de fecundidade no Brasil. Especificamente busca-se verificar se houve uma mudança na ocorrência de cada tipo de mismatch (contradição) ao longo das décadas de 1986, 1996 e 2006 bem como no perfil das mulheres que cometem esse tipo de contradição.

METODOLOGIA

Foram utilizados os dados das DHS (Demographic and Health Surveys) bem como da PNDS (Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Mulher e da Criança) realizadas no Brasil nos anos de 1986, 1996 e 2006. Estas pesquisas possuem nível de representação nacional e dispõem de informações acerca da temática preferências

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de fecundidade. Utilizou-se as informações relativas às mulheres de 15 à 49 anos1. Como para o ano de 1986 as perguntas sobre preferência por filhos no futuro foram realizadas somente para as mulheres casadas/unidas, para fins de comparação entre as décadas analisadas, optou-se por calcular os indicadores somente para as mulheres casadas/unidas.

A mensuração dos mismach (contradições) entre o número de filhos desejados, o número atual de filhos e intenções futuras de fecundiade se deu partir da comparação do número de filhos desejados e do número de filhos nascidos vivos com a pergunta sobre as intenções futuras por filhos, em que é possível encontram os dois tipos de contradições possíveis nas preferências reprodutivas segundo o estudo de Kalamar e Hindin (2015):

Contradição 1: uma mulher que diz que seu número ideal de crianças é menor que o número de crianças que tem atualmente, mas afirma não querer mais filhos. Ou seja, esperaria que essa mulher dissesse que gostaria de ter mais filhos.

Contradição 2: uma mulher que diz que seu número ideal de crianças é maior que o número de crianças que tem atualmente, mas afirma querer outra criança. Ou seja, se esperaria que essa mulher não quisesse ter outra criança.

Essas duas contradições podem ser visualizadas na Figura 1. Do lado esquerdo, o número ideal de crianças da entrevistada é maior que o número real de crianças. Essas mulheres podem responder que querem (outra) criança, de acordo com a noção que um indivíduo terá filhos até que atinja seu número ideal indicado de crianças, ou podem indicar que não querem (outro) filho. É esta categoria de respostas que são classificadas como Mismatch 1 para essa análise. No lado direito da figura, a entrevistada tem mais filhos que seu número ideal declarado de crianças. Algumas dessas afirmam que não querem mais filhos, consistentes com a noção que não haveria mais filhos que pensam serem ideais para ter, enquanto outras afirmam que querem (outro) filho. É esta categoria de resposta contraditória que são classificadas como mismatch2.

1 Para os dados de 1986, os dados se referem à mulheres de 15 à 44 anos, uma vez que este foi o público alvo da

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Estes dois indicadores foram analisados a partir de algumas características individuais e demográficas das mulheres, tais como idade, escolaridade, número de filhos, uso de contracepção, região geográfica e situação de residência. A fim de verificar a associação conjunta existente entre estas variávies e a ocorrênia ou não dos erros e tipos de erros, elaborou-se três modelos de regressão logística multinomial, um para cada década analisada, em que a variável dependente foi: 1) não cometer contradições (categoria de referência); 2) cometer mismatch1; 3) cometer

mismatch2. Assim, estas mesmas variáveis foram sociodemográficas foram utilizadas

como variáveis explicativas nos modelos de regressão para cada uma das décadas analisadas.

Por fim, para cada uma das pesquisadas foram considerados os procedimentos recomendados para a incorporação dos pesos amostrais os quais possuem un conjunto de variáveis diferentes em cada década. Toda a análise foi realizada no programa SPSS por meio da função Complex Sample.

FIGURA 1 – Contradições entre o número de filhos desejado e tidos e as preferências futuras de fecundidade

Fonte: Traduzido de Kalamar e Hindin (2015)

RESULTADOS

A partir do GRAF.1 nota-se que o percentual de mulheres que comentem algum tipo resposta contraditória a respeito das preferências reprodutivas nas pesquisas do tipo DHS no Brasil foi relativamente pequeno e estável nas décadas analisadas, pois era de 7,6% em 1986, diminuiu para 7,3% em 1996 e alcançou 8,1% em 2006. Esses percentuais estão abaixo da média encontrada para mulheres no estudo de Kalamar e Hindin (2015) e, de certa forma, mostram a validade dos indicadores de preferência

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reprodutiva na predição nos níveis de fecundidade futura no país. Percebe-se claramente um aumento para o país da ocorrência do mismatch1 (6,2% em 1986 para quase 8% em 2006) e uma diminuição do mismatch2 (quase 1% em 1986 para menos de 0,5% em 2006). Essa mudança nas tendência entre os dois tipos de erros cometidos, contribuiu para que houvesse uma certa estabibilidade na ocorrência destas contradições entre as décadas analisadas. Nota-se uma grande diferença nos percentuais de ocorrência de cada tipo de contradição. No geral, o percentual de mulheres que comentem mismatch 1 é sempre superior ao daquelas que comentem o mismatch2, pois enquanto que para o Brasil como um todo o primeiro fica em tormo 8% das mulheres em 2006 o segundo ocorre entre menos de 1% delas na mesma data. Dados semelhantes também foram encontrados para os países analisados por Kalamar e Hindin (2015), em que a média de ocorrência foi de 11,7% e 2,9%, respectivamente.

Com relação às diferenças regionais (GRAF.1)fica evidente que estes tipos de contradições nas respostas das mulheres varia bastante entre as regiões mas, de forma geral, o comportamento observado para as décadas se assemelha com aquele observado para o Brasil. Destaca-se um especial aumento do mismatch1 para a região Sul, o qual passou a compor quase 12% das mulheres e uma diminuição grande da ocorrência do mismatch2 no Nordeste e Sul, o qual passou de 1,5% para menos de 0,5%. Enquanto que o mismatch1 ocorre de forma mais intesa entre as mulheres das regiões Sul e Sudeste, o mismatch2 é mais comum na região Nordeste, seguida também do Sul. Possivelmente isso esteja relacionado à ocorrência das discrepância de fecundidade em cada região, sendo o Sul e Sudeste mais comum a fecundidade discrepante negativa, ou seja a que indiretamente levaria ao mismatch1. E o Nordeste região com maior ocorrência da discrepância negativa, situação geradora do mismatch2 (Carvalho et al. 2016).

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GRÁFICO 1 – Percentual de ocorrência de contradições segundo o tipo de erro, ano e região geográfica, Brasil 1986, 1996 e 2006

Fonte: DHS 1986, 1996 e PNDS 2006

Quanto às características demográficas das mulheres e a ocorrência dos

mismatch, nota-se que quanto à idade (GRÁF.2), as distribuições dos erros são

bastante distintas. O mismatch1 tem uma distribuição mais homogêna com a idade, já o mismatch2 apresenta uma grande concentração no grupo etário de 25-29 anos. Quando se observa as diferenças no tempo, nota-se que tem ocorrido uma mudança no comportamento dos erros cometidos pelas mulheres, especialmente no mismatch1, o qual passa a ter uma tendência de aumento da ocorrência com a idade da mulher em 2006, passando de 6% entre as mulheres de 15-19 anos para mais de 21% entre aquelas de 40 anos e mais. Esse comportamento pode estar relacionada ao fato de que, ao envelhecer, as mulheres continuem mantendo o número ideal de filhos muito mais baseado nas normas sociais do que na sua própria esperiência, a qual ao ser confrontada com invializadores (idade avançada, falta de parceiro, experiências de nascimentos e questões econômicas) acaba levando-as à não intenções por filhos no futuro. Ou seja, do número ideal estar acima do que elas tem estas mulheres sabem que a implementação não se realizará.

0% 2% 4% 6% 8% 10% 12%

Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste Mismatch 1 1986 1996 2006 0,0% 0,5% 1,0% 1,5% 2,0%

Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste Mismatch 2 1986 1996 2006

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GRÁFICO 2 – Distribuição percentual de segundo grupos de idade das mulheres, Brasil 1986, 1996 e 2006

Fonte: DHS 1986, 1996 e PNDS 2006

Já o comportamento do mismatch2 por idade não altera muito entre as décadas analisadas, somente torna-se ainda mais concentrado entre as mulheres de 25-29 anos (GRAF.2). E nesse caso, justamente por serem mulheres jovens e ainda terem um espaço de tempo relativamente grande para pensar a fecundidade, elas mesmo já tendo atualmente mais filhos elevada do que idealmente desejam, ainda respondem que podem querer ter filhos no futuro. Justamente por faltar muito anos de exposição, a certezas podem ser menores.

Sobre as diferenças na ocorrência dos erros e a parturição da mulher, pode-se observer no GRÁF. 3 que o mismatch1 ocorre mais intensamente entre mulheres co um menor número de filhos, em especial aquelas que tem apenas um filho ou ainda não tem filhos. O mismatch2 possui uma distriubuição mais desconcentrada e não parece alterar muito em virtude da parturição da mulher. É importante destacar que para a ocorrência deste erro (número ideal menor que o número de filhos vivos) é implícito que a mulher possua filhos, por isso não se tem dados para a parturição zero.Com relação à análise no tempo, nota-se que o comportamento se difere a partir da experiência reprodutiva da mulher. A incidência do mismatch1 se tornou maior para as mulheres sem filhos e com apenas 1, as quais passaram a concentrar mais de 80% deste tipo de contração. E passou a ser menor para aquelas com dois filhos e mais. Também o mismatch2 aumentou para as mulheres com filhos de ordem de até 3, em

0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 Grupos de idade da mulher

Mismatch 1 1986 1996 2006 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 15-19 20-24 25-29 30-34 35-39 40-44 45-49 Grupos de idade da mulher

Mismatch 2

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especial para aquelas que tinham apenas um 1 (passou de 12% para mais de 30%). Este três grupos passaram a englobar em 2006 mais de 80% das mulheres que comentem o erro tipo 2.

GRÁFICO 3 – Distribuição percentual de mismatch segundo grupos de idade das mulheres, Brasil 1986, 1996 e 2006

Fonte: DHS 1986, 1996 e PNDS 2006

Muitas vezes o cometimento destes erros estão relacionados ao não entenimento das perguntas feitas no questionário e, portanto, a escolaridade da mulher poderia influenciar na adequação da resposta e consequentemente na ocorrência das contradições analisadas. Na TAB.1 é interessante observar que realmente a escolaridade da mulher parecia influenciar a ocorrência dos erros nas respostas em 1986, uma vez que a maioria dos erros eram cometidos pelas mulheres de menor escoalridade. Contudo, em 1996 e 2006, possivelmente pela mudança da escolaridade das mulheres como um todo, os erros passaram a ser principalmente cometidos pelas mulheres com enino fundamental e médio. Interessante notar ainda que 16,7% do mismatch1 eram cometidos pelas mulheres de superior em 2006. Possivelmente porque é nesse grupo que se encontra os mais altos percentuais de mulheres com discrepância negativa (tem menos filhos do que gostariam)(Carvalho, et al 2016).É importante justamente pensar os invializadores da implementação dessas preferências, que por um lado, poderia ser simplesmente um erro de declaração, mas por outro, poderia indicar uma aceitação do fato que não irão realizar suas preferências reprodutivas.

0% 10% 20% 30% 40% 50% 0 1 2 3 4 5 6 7 +

Número de filhos vivos

Mismatch 1 1986 1996 0% 10% 20% 30% 40% 50% 0 1 2 3 4 5 6 7 +

Número de filhos vivos

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TABELA 1 – Distribuição percentual de mismatch segundo escolaridade das mulheres, Brasil 1986, 1996 e 2006

Fonte: DHS 1986, 1996 e PNDS 2006

Abaixo tem-se os modelos de regressão para cada uma das décadas analisadas. Nota-se que todas as variáveis foram significativas ao nível de significância de 5% em todos os anos, exceto situação de domicílio para os anos de 1996 e 2006. De modo geral, para todos os anos analisados, pode-se dizer que mulheres que não fazem uso de contracepção apresentam maiores chances de cometerem ambos os tipos de mismatch; ao envelhecer maiores a chances da mulher cometer o mismatch1 e menor e a possibilidade do erro tipo2; quanto maior a parturição menor a chance da mulher cometer o mismacht1 e maior de ocorrência do mismacht2.

TABELA 2 – Razão de Chance e P-valor dos modelos de regressão logística multinomial para explicar a ocorrência e tipos de erros cometidos pelas mulheres casadas/unidas de 15-49 anos, Brasil 1986, 1996 e 2006

Fonte: DHS 1986, 1996 e PNDS 2006

Escolaridade 1986 1996 2006

Mismatch1 Mismatch2 Mismatch1 Mismatch2 Mismatch1 Mismatch2

< primário 8,6 23,9 4,8 5,4 3,1 4,9

Primário 71,7 76,1 31,2 54,6 41,9 64,7

Secundário 14,0 0,0 55,3 40,0 38,3 27,3

Superior e mais 5,6 0,0 8,7 0,0 16,7 3,1

Mismatch 1 Mismatch 2 Mismatch 1 Mismatch 2 Mismatch 1 Mismatch 2

Urbano Rural 1,090 2,391 ,975 ,337 ,882 ,457 Sudeste Norte ,748 ,339 ,615 ,620 ,394 ,765 Nordeste 1,112 ,779 ,821 ,864 ,600 1,886 Sul 1,330 1,071 1,322 ,928 1,515 2,130 Centro-Oeste 1,164 ,170 1,067 ,946 ,707 1,299 sim não 2,553 1,308 3,834 2,930 1,243 2,139 idade contínua 1,020 ,951 0,005 1,014 ,904 0,000 1,009 ,879 0,000 anos de estudo contínua ,990 ,847 0,003 1,021 ,887 0,023 1,037 ,860 0

filhos vivos contínua ,808 1,091 0 ,764 1,287 0 ,280 2,108 0,001

1996 (n=7483)

1986 (n=3458) 2006 (n=7622)

Odds Ratio

p-valor Odds Ratio p-valor Odds Ratio p-valor

Variáveis explicativas ,016 Região Geográfica Referência ,044 uso de contracepção Referência ,000 Situação de domicílio Referência Referência ,311 Referência ,000 Referência ,172 Referência ,222 Referência ,028 Referência ,000

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Algumas variáveis tiveram um comportamento diferente entre as décadas, tais como região e anos de estudo (TAB.2). Em 1986, as mulheres residentes nas regiões Nordeste, Sul e Centro-Oeste tinham mais chances de cometerem o mismatcht1 do que as mulheres do Sudeste. Já no mismacht2 as mulheres residents no Norte e Nordeste tinham menos chances de cometer esse erro do que aquelas do Sudeste. Já em 1996, somente as mulheres do Sul e Sudeste tinham mais chance de cometer o erro tipo1 do que as Sudeste. Já o erro tipo2, em todas as regiões as chances de ocorrência eram menores do que no Sudeste. Em 2006, os dados mudam bastante, e para o mismacht1 somente as mulheres residentes no Sul tinham mais chance de cometem do que o Sudeste e quanto ao mismacht2 em todas as regiões, exceto o Norte, as mulheres minham mais chance de ocorrência do que o Sudeste.

Já a variável anos de estudo, em 1986, o aumento da escolaridade diminuia a chance de ocorrência de ambos os erros, especialmente o erro tipo2. Já em 1996 e 2006, o aumento da escolaridade aumentava o erro tipo1 e continuava diminuido o erro tipo2.

DISCUSSÕES FINAIS

Sabe-se que a análise das preferências reprodutivas deve ser bastante cuidadosa, uma vez que existem diversas ambivalências deste a idealização de um número de filhos desejados, a intenção de realmente tornar esse número real e a implementação deste comportameto. Portanto, nesse processo de tomada de decisão por filhos por filhos podem ocorrer diversas informações desencontradas, tais como ter menos filhos do que o desejado e afirmar que não quer ter filhos mais filhos(mismatch1)e, ao contrário, já se ter mais filhos do que o número desejado e ainda afirmar que gostaria de ter mais filhos no futuro (mismatch 1). Assim, mensurar esse tipo de incompatibilidade é importante para se avaliar os indicadores gerados a partir destas informações.

Os resultados apontaram que, no Brasil, os erros comentidos pelas mulheres estão abaixo da media encontrada por outros países em desenvolvimento e africanos. Para 2006 apenas 8,1% das mulheres cometeram algum desses dois tipos de erros., o que indica uma certa estabilidade e, consequentemente, maior validade dos indicadores de preferência reprodutiva na predição nos níveis de fecundidade futura no país.

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Quanto aos tipos de erros cometidos, verificou-se é mais comum as mulheres terem menos filhos do que o desejado e relatarem ter não querer mais filhos do que mulheres que já tem o número de filhos desejados declarem que ainda gostariam de ter mais filhos. E o crescimento destes erros entre as décadas foi justamente nesta direção, ou seja, aumentou-se a ocorrência do mismatch1 e diminui-se do mismatch2 (quase 1% em 1986 para menos de 0,5% em 2006). Possivelmente, esta tendência tem influencias da redução dos níveis de fecundidade e na manutenção do número ideal de filhos, o que tem aumentado a discrepância de fecundidade, a qual predominância passou de positiva para de negativa entre as décadas analisadas.

Estes resultados parecem seguir aqueles encontrados por Miller et al. (2016) em que, mais do que o desejo para ter filhos, a motivação para evitar a gravidez parece tem um efeito mais importante para a determinação do comportamento de fecundidade. Nesse caso, parece que mulheres que já tem o número de filhos desejados estariam mais certas de que não querem ter mais filhos no futuro e por isso o mismatch2 seria menor. Por outro lado, por mais que as mulheres que ainda não tinham alcançado o número de filhos ideal passem implicitamente a ideia que deveriam desejar filhos no futuro, essa motivação não parece ser forte o suficiente para que elas se vejam tendo estes filhos, o que gera um alto mismatch1. Apesar dessa aparente maior importância do desejo de evitar filhos na previsão do comportamento de fecundidade, os mesmos autores mostram que somente a combinação dos desejos (para ter e evitar filhos) geraria uma previsão mais realista da fecundidade.

Parece que outras variáveis individuais, como idade, parturição, escolaridade e uso de método contraceptivo e de contexto (região e situação de domicílio) também podem influenciar na ocorrência destas contradições. Sendo importante ressaltar que mulheres mais escolarizadas, de menor parturição, que faziam uso de algum método contraceptivo e mais jovens eram as que mais cometiam o erro tipo1. E por outro lado, aquelas de baixa escolaridade, mais velhas, com maior número de filhos nascidos vivos cometiam o erro tipo2. Indicando que parece haver dois perfis bastante diferenciados das mulheres que comentem essas contradições.

Por fim, acredita-se ser importante perceber esses dados não como simplesmente um erro de informação. Muitas dessa inconsistência, por não se tratar de pesquisas longitudinais, podem estar relacionadas ao que Trinitapoli e Yeatman (2017) chamam

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de um processo de flexibilização dos ideais de fecundidade, os quais para os autores são prevalentes, padronizados e sequenciais ao logo do ciclo de vida da mulher. Também podem estes dados estar indicando a existência de dificultadores ao longo das trajetórias reprodutivas das mulheres que as impedem de implementar suas preferências inicialmente pensadas., especialmente a contradição 1, a qual compõe a maior parte das inconsistências detectadas e levaria a conclusão de que as mulheres estariam tendo um número menor de filhos ao final do período reprodutivo do que realmente eles dizem desejar. Faz-se, portanto, necessário descobrir até que ponto estas inconsistências se devem a uma flexibilização/atualização do número ideal de filhos e/ou são efeito invializadadores que impedem que esse número de se torne real.

Contudo, a falta de dados longitudinais e consequente acompanhamento das histórias reprodutivas, nupciais e familiares das mulheres impede a captação e percepção desses mediadores e sua atuação ao longo do ciclo de vida da mulher. Por isso, então, torna-se imprescindível que se acrescente novas perguntas nas pesquisas sobre o tema que possam levantar informações acerca de como as mulheres idealizam o número de filhos que gostariam de ter e quão próximo elas veem esse número como real. Além de se investigar quão flexíveis e adaptáveis esses ideais se tornam ao longo da vida e quais os motivos destes ideais não serem efetivados. Tudo isso, contribuiria para se clarificar a validade e as inconsistência nas respostas sobre as preferências reprodutivas e a previsão do comportamento de fecundidade. E também poderia ajudar na formulação de políticas públicas que atuem de forma a antecipada, oferecendo um contexto institucional em que as mulheres possam tornar real o número de filhos desejados.

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Referências

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