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“Millenium Actress” Reflexões sobre o envelhecimento, o sentido dado à vida e a intergeracionalidade

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Academic year: 2021

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“Millenium Actress”

Reflexões sobre o envelhecimento, o

sentido dado à vida e a

intergeracionalidade

Carolina de Moura Grando Ruth Gelehrter da Costa Lopes

Millenium Actress (2001), ou Sennen Joyu em seu idioma original, é escrito e dirigido por Satoshi Kon (1963-2010), magnífico diretor de animações, tendo entre suas obras o fantasioso e imaginativo Paprika (2006), sendo conhecido por sua habilidade em mesclar fantasia, lembranças e realidade.

A história se desenvolve através da entrevista de um repórter, Genya Tachibana, com uma atriz famosa em sua juventude, Chiyoko Fujiwara, cuja carreira teve o ápice nos anos 50.

Enquanto a atriz discorre sobre suas memórias, estas se mesclam aos filmes nos quais atuou, causando certa confusão

entre sua vida e profissão, enquanto repórter e câmera penetram nas lembranças da velha senhora, tomando papéis e atuando sobre este passado, revelando muito sobre suas próprias vivências.

Chiyoko agora é uma mulher idosa, de aproximadamente 70 anos, vivendo em uma casa isolada após abandonar sua carreira.

Sua vida é uma busca incessável por um homem que encontrara durante sua época de colégio, um pintor revolucionário comunista, de quem ela não lembra o rosto e nem possui o nome, mas apenas uma pequena chave misteriosa.

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A busca pelo enigmático rapaz se confunde com suas personagens, marcadas também pelo desejo de um

amante inacessível, enquanto a admiração de Genya por Chiyoko é projetada nos amores platônicos dos coadjuvantes prontos a dar à vida pela protagonista.

O câmera, um jovem desconectado e indiferente, tanto a Chiyoko como pessoa quanto aos filmes que não

fazem parte de sua história, fica perdido em meio a cenas velozes, apaixonadas e sentimentais, crítico e confuso, sem o desejo de compreender ou entrar em contato com as gerações que se desdobram perante seu olhar. Genya, já em sua meia-idade, admira a atriz, pois esta faz parte de sua história, tanto através dos filmes quanto em sua vida pessoal, visto que o repórter foi antes um dos membros do estúdio no qual a Chiyoko trabalhou, salvando sua vida durante um acidente no setting de filmagem, momento no qual a atriz perde a tão valiosa chave e decide abandonar a carreira. É interessante observar um de seus diálogos com o câmera, logo no início do filme.

“Kyoji: Essa velha maluca, se esconde igual um hermitão!”

Genya: Não diga isso de novo, ou juro que te mato.

Kyoji: Mas não importa o quanto ela já foi famosa. Ela já deve ter mais de 70 anos! Quero dizer, ela é velha! Não vamos esperar muito, certo? A gente nem sabe como deve estar a aparência dela!

Genya: Ela jamais envelhecerá!”

A posição do câmera Kyoji Ida representa o desinteresse da juventude pelos idosos. Não importa o que eles fizeram, não importa o passado, eles não estão “acontecendo” agora, logo, não tem valor. Não se deve esperar muito de uma atriz idosa, afinal, ela já não é jovem ou bela.

Genya, porém, valoriza as experiências de Chiyoko e pronuncia que ela jamais envelhecerá. Não o faz como uma forma de negar a realidade, mas como uma maneira de ressaltar que a importância da atriz, para ele, não muda com o fato

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qual o apaixonamento do repórter se revela intacto, ainda que a atriz agora possua cabelos grisalhos e um rosto com algumas rugas.

Chiyoko aproveita a reportagem para revisitar sua história, ressinificando a paixão que guia boa parte de sua vida, percebendo a fragilidade de seu amor e, pouco antes de sua morte, concluindo que estava apaixonada não por um homem, mas pela busca de um homem. A atriz coloca em questão toda a sua vida: os caminhos percorridos, vivências e possibilidades ignoradas.

A revelação do amor e do sacrifício realizado por Genya faz perceber o quanto este homem impossível, significado quase único da existência de Chiyoko, paixão incapaz de ser concretizada, elaborada ou questionada, a impediu de um contato real com as pessoas ao seu redor, e é justamente o contato real com o repórter que a possibilita rever, elaborar e compreender suas experiências.

“Chiyoko: É como se, falando com você, aquela garotinha em mim tivesse voltado à vida.”

Genya também tem a possibilidade de ressignificar suas experiências através da entrevista com a atriz, expondo seu amor secreto por ela e entrando em contato com sua pessoa ao invés de sua imagem, obtendo também o reconhecimento por seu ato de coragem ao salvá-la no passado e salvando-a novamente, de certa forma, através de seus diálogos e interações.

Ida, o câmera, apesar de ser um personagem pouco explorado durante a animação, finalmente entra em contato com a realidade de uma outra geração, aprendendo e interagindo com as experiências da atriz, podendo perceber a pessoa que antes ficava oculta atrás da velhice, chamando-a, finalmente, pelo nome e interessando-se por sua história.

Para ver o trailer do filme, clique aqui

Millenium Actress é um filme que possui grande potencial de debate, fazendo pensar sobre os significados que damos a nossas vidas, a potencialidade inscrita no ato de revisitar memórias, bem como as dificuldades e

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possibilidades de diálogo entre gerações, representadas por Chiyoko, Genya e Ida.

Entrevista

Helena1, empresária, 49 anos.

O que você achou do filme?

Muito bom. Não esperava que fosse assim. Você começa sem saber o que acontece, sabe? O que é real.... e, não sei, faz a gente pensar. É um tanto triste.

No que o filme te fez pensar?

Ah, nessa coisa de o que você está fazendo com sua vida. Fiquei pensando em como vai ser lembrar meu passado quando estiver velhinha... Pensei nas coisas que a gente se arrepende. Sabe aquela música? Devia ter amado mais, ter chorado mais2... sabe? Não lembro de quem é. É bem isso. Ela (Chiyoko) passou a vida inteira sem viver de fato. Ela não entrava em contato com os outros. Ela não amou de verdade. Ficou correndo atrás de um sonho. É terrível! É então ela morre... não sei. Fico pensando se ela se arrependeu. Fico pensando nas coisas que posso me arrepender depois. Me deu vontade... bem, de mudar algumas coisas na minha vida.

E o que o filme te trouxe sobre a velhice?

Muita coisa! Ah, é um tempo de rever toda sua vida, não é? E, nossa, como os jovens desrespeitam a história dos outros... Aquele mocinho (Ida) tratava ela como nada. Precisam aprender a respeitar. Ela tem uma história. O outro (Genya) sabia disso e a respeitava. Acho que a velhice é um período em que você avalia sua vida, mas você ainda pode viver, pode mudar. Ela (Chiyoko) percebeu o que fez com a vida dela. Acho que dá uma nostalgia. Mas é aquela história da música... Quando eu ficar velha eu não quero rever meu passado e pensar nas coisas que eu deveria ter feito. Não quero me arrepender. Preciso mudar. Sempre é tempo pra mudar as coisas. Eu tenho tempo e vou passar a pensar mais no que estou fazendo com a minha vida. Mas é horrível. Tanto a atriz quando o homem que estava entrevistando ela... Eles não viveram! Eles não viveram! Eles ficaram presos a relações platônicas! Ele atrás dela, ela atrás de um homem que mal conhecia. É tão triste... Se ela tivesse olhado pro lado, talvez eles ficassem juntos e tivesse um final feliz (risada), mas não teve. Aí fico querendo cantar aquela música do “devia ter...”

É do Capital Inicial?

Acho que é! Ah, sabe o que mais? Eu fico preocupada com as doenças. Eu não sei, vendo o filme, talvez ela tivesse uma doença degenerativa, porque as memórias dela estavam tão misturadas, realidade, atuação! Eu morro de medo disso. Nossa, tenho medo que isso aconteça com meu marido, também. Ou comigo. Acho que é a pior coisa que pode acontecer. E você dá trabalho para os outros...

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Tem mais alguma coisa que você gostaria de falar?

Não, acho que não. Acho que o filme me deixou triste, pensando... Pensando em como vai ser quando eu for velha! Se vou ser respeitada, se vou me arrepender... Não sei. Acho que é isso. Eu gostei muito. É lindo, mas muito triste.

Ficha Técnica

Título: Sennen joyu/ Millenium Actress (EUA)/ Atriz Milenar (BR) País de Origem: Japão

Lançado em: 2001 Duração: 87 minutos Direção: Satoshi Kon

Roteiro: Satoshi Kon, Sadayuki Murai

Elenco original: Miyoko Shoji, Mami Koyama, Fumiko Orikasa, Shozo Izuka Gênero: Animação, Drama, Romance, Fantasia, Comédia

Idioma original: Japonês

Referências

INTERNET MOVIE DATABASE. Sennen Joyu. Disponível em

http://www.imdb.com/title/tt0291350/. Acesso em 30/10/2010.

KON, S. Millenium Actress. Produção de: MAKI, Taro. Direção de KON, Satoshi. Japão. The Klockworx Co. 2001. 87 min. Cor.

Referências

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