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As relações econômicas de produção e a igualdade perante a Lei

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Academic year: 2021

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igualdade perante a Lei

Gastão Rúbio de Sá Weyne Doutor em Direito - USP

Doutor e Livre-Docente em Engenharia - USP Pós-Doutorado pelo University College London.

Professor Titular de Administração da Produção da FEA-PUC. e-mail: [email protected]

Sergio Gozzi

Doutor em Administração - USP

Doutor em Engenharia de Produção - Escola Politécnica/USP Professor Titular da FEA-PUC/SP

Professor Doutor da FEA/USP e-mail: [email protected]

Rodolfo Leandro de Faria Olivo Mestrando em Administração - PUC/SP

Professor da Faculdade Comunitária de Campinas Professor da Faculdades de Valinhos

e-mail: [email protected]

Resumo

As relações de produção nasceram com o Homo

sapiens e alicerçaram a estrutura econômica da

sociedade. Com o advento do capitalismo, o proprietário do dinheiro não mais podia obrigar o trabalhador a executar tarefas como antes acontecia nos regimes escravista e feudal. Como era necessário encontrar a força de trabalho para colocar em marcha os processos produtivos, o capitalista, proprietário dos meios de produção, viu-se na contingência de admitir a formalização de um contrato, o caminho natural encontrado para a solução do problema. No âmbito dos processos produtivos, fosse na fabricação de bens físicos ou na prestação de serviços, formou-se, portanto, um forte laço de interesses, centralizados na mercadoria força de trabalho, indispensável ao capitalista, que nela reconheceu uma fonte de valor, vendida pelo trabalhador, também interessado na manutenção das relações capitalistas de produção. Desta forma, o capitalista e o trabalhador foram admitidos como iguais perante a lei no estabelecimento do contrato de trabalho, mas este nivelamento formal é muito diferente se as duas

partes são observadas sob o enfoque das relações de produção entre patrões e empregados, situação em que emergem e se intensificam as desigualdades materiais ou substanciais entre as duas classes.

Palavras-chave: Relações de produção, trabalho, igualdade.

Abstract

The production relations was born with the Homo

sapiens and lays the foundation of the society economical

structure. In the capitalism arrival, the money owner can not compel the worker to carry out some tasks how did happen in the slavish and feudal systems. Considering to be necessary the work power to start the productive processes, the capitalist, owner of the production means, was obliged to lay down a labor agreement, the natural way to solve the problem. In the scope of productive processes, in respect to finished product manufacture or in the rendered services shaped therefore a great interest tie, centralized in the work power goods, essential for

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capitalist, that recognized in it a source of revenue, sailed by worker, interested too in the maintenance of capitalist relations. Therefore the capitalist and the worker were considered equals by the law in the labor agreement, but this formal equalizing is very different if the two parts are observed under focalization on its production relations. In this situation, the material inequalities are very much increased.

Key-words: Production relations, labor, equality.

Introdução: O homem e os processos produtivos A ciência situa o aparecimento do homem na Terra há mais de 1 milhão de anos1, no período quaternário,

fato que representou uma grandiosa transformação no desenvolvimento da Natureza, principalmente quando o

Homo sapiens iniciou a fabricação de seus primitivos

instrumentos de trabalho. Pesquisas antropológicas indicam, além disso, que, no período paleolítico2, o

homem predador passou a ser um produtor de alimentos, implantando a primeira grande revolução econômica da história da humanidade. Com o seu trabalho e sua capacidade criativa, o homem deu a partida na produção, pondo em marcha os processos de transformação dos recursos oferecidos pela Natureza. Iniciava-se, assim, a luta contra a escassez de recursos, e eram dados os primeiros passos na busca da suficiência material dos seres humanos.

Nos primórdios de sua existência e na luta pela própria sobrevivência, o homem constatou, por outro lado, ser necessário e de grande importância para a melhoria das condições de sua vida na Terra, o desenvolvimento do relacionamento com seus semelhantes, visando objetivos diversos como os de defesa ou de cooperação. Este intercâmbio possibilitou a concretização da divisão social do trabalho, bem como a permuta de alimentos e de outros bens. O homem foi, portanto, compelido, por circunstâncias vinculadas à sua própria natureza, a trocar os frutos da sua atividade produtiva. Assim, o fenômeno biológico, relativo a diferentes necessidades fundamentais dos seres humanos, foi complementado pela integração do homem com os processos produtivos. As relações de produção nasceram, portanto, com o Homo sapiens e alicerçaram a estrutura econômica da sociedade.

Ao longo dos tempos, com a transformação da capacidade operacional dos instrumentos de trabalho, além da utilização de máquinas mais sofisticadas e do aperfeiçoamento das técnicas de produção, as relações existentes no sistema produtivo experimentaram uma contínua evolução. Os reflexos dessas mudanças configuraram a construção, sobre a estrutura econômica da sociedade, de outras estruturas como a política, a social, a cultural e a jurídica, consolidadas em variadas épocas históricas3.

Produção no sistemas escravista

É sabido que as sociedades econômicas da antiguidade apoiavam-se na base agrícola, pastoril e artesanal, desenvolvidas em cidades que eram centros parasitas de consumo e não centros de produção. A escravidão era admitida como uma forma de trabalho comum e de significativa importância econômica, principalmente com o incremento das forças produtivas, associadas ao desenvolvimento da divisão social do trabalho e da troca. Na Grécia e na Roma antiga, o escravo executava todo o trabalho manual, incluindo-se grande parte do trabalho burocrático, clerical e artístico dessas sociedades, recebendo em troca o abrigo, a alimentação e o vestuário, suficientes para sobreviver. Por outro lado, os senhores de escravos apropriavam-se e desfrutavam de todo o excedente da produção.

O escravo, nas diferentes etapas históricas da evolução dos processos produtivos, ocupava o nível mais baixo da cadeia hierárquica da estrutura social, sendo inferiorizado, segregado e humilhado como membro da sociedade, e não era admitido como pessoa de direito. No regime escravista, a sociedade dividia-se em duas classes, os escravistas e os escravos. Além disso, o amplo emprego da mão-de-obra escrava eximia os escravistas de todo o trabalho físico, assentando-se as bases para a oposição e a cisão entre o trabalho físico e o intelectual. Os homens do Mundo Antigo não tinham capacidade de pensar numa sociedade sem escravos. No entanto, praticamente todas as sociedades contemporâneas possuem um ponto em comum a respeito da escravidão: todas a condenam. Isso se deve, principalmente, ao fato de que houve uma mudança na concepção antropológica, isto é, não se admite mais a defesa da tese de que existem classes diferenciadas dentro do gênero humano, o que justificaria a existência de senhores e de escravos4. Aristóteles5 condenou a

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escravidão, mas admitiu-a quando já implantada, afirmando que “é naturalmente escravo quem é capaz de ser de outro”. Daqui se deduz claramente, conforme o grande filósofo, qual é a natureza e a faculdade do escravo: aquele que por natureza não pertence a si mesmo, mas a outro. Em certo nível, a escravidão contribuiu para o desenvolvimento das forças produtivas, mas, depois, começou a entravá-las. Seu desaparecimento nas nações do Ocidente é conseqüência do desenvolvimento econômico6.

A decadência do regime escravista, no qual a classe hegemônica já era proprietária dos meios de produção, incluindo-se nestes meios os próprios escravos, deveu-se a diferentes fatores, principalmente em vista de que os escravos tinham pouco ou nenhum interesse pelos resultados de seu trabalho, não ocorrendo, em conseqüência, um progresso técnico sensível nas atividades produtivas envolvidas. Os fundamentos do sistema feudal, que buscava a auto-suficiência, foram se desenvolvendo ainda no seio da sociedade escravista.

Produção no sistema feudal

Na Idade Média, a vida econômica emergiu da desorganização que se seguiu ao declínio da lei e da ordem romanas, caracterizando-se por uma única forma de organização, a feudal ou dominial, organização na qual os senhores locais eram o centro do poder político, militar, econômico, social e ideológico (Igreja), aos quais estavam ligados os camponeses, como servos, cabendo a este últimos, entre outras obrigações, trabalhar, em geral, durante três dias (corvéia), e entregar a metade da produção ao suserano (talha).

Durante o feudalismo, forma típica de organização que se desenvolveu principalmente na Europa Ocidental, predominava uma modalidade de agricultura rudimentar, que utilizava tecnologia primitiva, com produção voltada para a subsistência. Nesta organização, embora a liberdade pessoal de um servo fosse maior que a de um escravo, aquele se relacionava com o senhor feudal através de um alto grau de subordinação, cumprindo tarefas muitas vezes obrigatórias e extremamente pesadas, das quais raramente se livrava, recebendo em troca a posse da terra e alguma forma de proteção, em geral, contra bandidos ou outros senhores, assim como segurança econômica em situações de desastres.

Desta forma, o servo estava longe de ser considerado livre. Note-se, além disso, que, na realidade,

os servos e os escravos nada tinham em comum. Enquanto o escravo era uma propriedade como qualquer outra, passível de ser comprada e vendida à sua revelia, o servo, ao contrário, não podia, em princípio, ser separado de sua família ou da terra que lavrava. Isto indicava que, na hipótese de ser transferida a posse do feudo para outro nobre, o servo simplesmente “adquiria” outro senhor.

As relações medievais baseavam-se nos costumes e tradições, em lugar de leis. A organização da época fundamentava-se em um sistema hierárquico, com obrigações e serviços prestados por parte do servo em troca da proteção dada pelo senhor feudal. O distanciamento entre os níveis hierárquicos dos vassalos e suseranos dificultava e até impossibilitava um relacionamento social que conduzisse à aproximação, em direitos, do servo ao senhor, não se cogitando, portanto, àquela época, da aplicação de princípios igualitários.

Com o passar do tempo, o feudalismo experimentou períodos de instabilidade, causados, principalmente, pela competição, entre os senhores, por terras e vassalos, resultando em maior dependência entre dominadores e dominados, insegurança de vidas e bens, sem qualquer reflexo na melhoria dos processos de produção. Outra causa de instabilidade do sistema feudal era o crescimento populacional, causando a expulsão de alguns vassalos que, em geral, iam constituir uma população errante, que vivia de esmolas e, freqüentemente, seus membros ingressavam no banditismo.

O desmoronamento da ordem feudal, principalmente na Europa Ocidental, segundo Marx7, não

foi caracterizada pela supressão de classes, mas sim pela substituição de um novo jugo em lugar do antigo, e pelo estabelecimento de condições que reduziam à luta os dois campos opostos que, pouco a pouco, com a Revolução Industrial8, absorveram toda a sociedade: a

burguesia capitalista e o proletariado.

Em síntese, a queda do feudalismo deu origem a uma nova classe, a dos burgueses, que não possuíam os títulos honoríficos dos nobres, mas tinham o conhecimento e a capacidade de produzir e vender os frutos do trabalho dos operários, ou seja, tinham poder econômico. Com a destruição dos privilégios nobiliárquicos, o trabalho livre passou a ser o principal fator de produção no sistema capitalista. O capitalismo, um sistema de economia de troca, alicerçada na procura

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de lucro e no mecanismo de mercado, caracterizou-se, ao mesmo tempo, pela expansão dos quadros da economia em escala transnacional e pelo caráter cada vez mais complexo de suas formas de atividades, evoluindo graças ao aparecimento de meios tecnológicos mais aperfeiçoados e a adoção de um regime de liberdade econômica. A sociedade burguesa moderna, que se originou nas ruínas da sociedade feudal, não eliminou os antagonismos de classe. Praticamente, criou novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta, em substituição às anteriores. Ressalte-se que, no sistema capitalista, as relações de troca entre o capitalista e o trabalhador, na opinião de Bentham9

são movidas por interesse próprio. A única força que liga as partes, segundo ele, é o interesse pessoal de cada um na troca, ou seja, cada pessoa serve à outra apenas para servir a si próprio.

Produção no sistema capitalista e criação do instituto perante a Lei

Com o desmoronamento da organização dominial e a implantação do sistema capitalista, os privilégios nobiliárquicos dos senhores feudais foram substituídos pelos privilégios econômicos da nova classe, a dos burgueses. Estes, proprietários do capital e dos meios de produção, necessitaram encontrar mão-de-obra disponível para usar o seu poder econômico e colocar em marcha os processos produtivos que caracterizavam suas atividades manufatureiras. Considerando-se as mudanças estruturais da sociedade e a ampliação das liberdades individuais advindas do capitalismo, o proprietário dos meios de produção já não mais podia obrigar o trabalhador a desempenhar tarefas, na forma como antes ocorria na organização dominial ou feudal. Tornava-se mister para o capitalista, portanto, encontrar a mão-de-obra necessária para operacionalizar as atividades produtivas de uma forma diferente, em que houvesse concordância por parte do trabalhador.

Para tornar viável o acordo de vontades, objetivando a contratação da mão-de-obra pelo capitalista, fez-se mister que algumas modificações nas relações entre ambos fossem concretizadas, tendentes a uma maior aproximação entre os planos em que se situavam as duas partes que, teoricamente, deveriam estabelecer uma relação de trabalho no mesmo nível de igualdade aos olhos da Lei. Assim, tornou-se necessário,

como a única opção para o capitalista, o estabelecimento de um contrato de trabalho, possibilitando a inserção de normas que acolhiam alguns princípios igualitários nos ordenamentos jurídicos da época, instituindo-se e ampliando-se, gradualmente, o princípio da igualdade perante a lei.

A aplicação progressiva da igualdade perante a lei, além de tornar possível a efetivação dos contratos de trabalho, era uma forma de dissimular as marcantes desigualdades materiais existentes entre o detentor do poder econômico e o trabalhador. As desigualdades materiais entre estas duas classes, de um lado, e a existência da igualdade perante a lei para a formalização dos contratos de trabalho, de outro, passaram a ser condições de sobrevivência do próprio sistema capitalista. Enfatize-se que o contrato de trabalho era um acordo de vontades que limitava os eventuais excessos por parte dos proprietários dos meios de produção e, além disso, as pressões sociais emanadas das classes trabalhadoras foram se fazendo sentir, de forma cronologicamente progressiva, resultando em maior reciprocidade nas relações de trabalho entre os operários e os capitalistas.

As idéias de igualdade vinham sendo defendidas desde o Mundo Antigo e, com o advento do capitalismo, diversos fatos contribuíram, àquela época, para a aplicação de princípios igualitários. Estes acontecimentos influenciaram, de forma integrada, para tornar concreta esta aplicação. O primeiro destes fatos, caracterizado como uma causa econômica, foi a necessidade dos proprietários dos meios de produção, representantes do poder econômico, de estabelecer um contrato para disciplinar as relações de trabalho, o que abriu horizontes de possibilidades para a redução das desigualdades formais e para a inserção de princípios igualitários nos ordenamentos jurídicos dos povos ocidentais. Uma segunda contribuição, oriunda de antagonismos sociais entre as classes hegemônicas e subalternas, ou seja, através das lutas de classes, foi constituída pelo espírito batalhador dos trabalhadores e dos intelectuais, adeptos das idéias de igualdade, defendidas desde o Mundo Antigo pelos filósofos, visando a efetiva aplicação de princípios igualitários. Acresça-se, além disso, como um terceiro fator, de natureza ideológico-religiosa, de significativa importância para a concretização dos princípios de igualdade, a contribuição do Cristianismo, que defendeu a igualdade entre todos os homens. Por outro lado, nunca é demais reiterar, como um quarto

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fator, de caráter político-ideológico, a marcante contribuição à difusão e aplicação de princípios igualitários, das idéias de liberdade, igualdade e fraternidade, defendidas pela Revolução Francesa. Finalmente, como uma quinta modalidade de contribuição, de natureza institucional, a defesa dos princípios de igualdade e de liberdade, inseridos nas Declarações de Direitos do Homem e nos textos constitucionais de diferentes países democráticos, cuja importância foi de fundamental relevância para a difusão daqueles princípios através das suas áreas geográficas de influência. Desta forma, todos esses fatores contribuíram para que o momento histórico que surgiu com o advento do capitalismo, fosse extremamente favorável à criação e à inserção de princípios igualitários nos textos legais, inclusão antes não cogitada.

Estado capitalista, relações de produção e igualdade perante a Lei

No âmbito dos processos produtivos, seja na fabricação de bens físicos ou na prestação de serviços, apesar dos antagonismos que podem existir entre as classes dominantes e subalternas, forma-se um forte laço de interesses, centralizados na mercadoria força de trabalho, indispensável ao capitalista, que nela reconhece uma fonte de valor, e vendida pelo trabalhador, também interessado na manutenção das relações capitalistas, e que, além disso, luta para otimizar as condições sob as quais irá se reproduzir a sua força de trabalho.

O Estado capitalista, no conceito de Poulantzas10,

caracteriza-se por aplicar às relações sociais um conjunto de normas que, formalmente, igualizam os homens inseridos em diferentes atividades, como os proprietários dos meios de produção, os produtores diretos e os não proprietários, no processo social de produção. Com este procedimento, o Estado capitalista converte todos os homens, independentemente de sua situação econômica, em sujeitos individuais de direitos.

Ao impor esse conjunto de normas igualizadoras a todos os homens, qualquer que seja a sua condição sócio-econômica, o Estado capitalista cria a forma ideológica da cidadania. A criação da cidadania significa que todos os homens passam a se sentir em situação igual diante do Estado (é o sentimento de igualdade de uns e de outros enquanto relacionados a ele), e a se considerarem envolvidos numa relação impessoal com o Estado. O efeito político principal da imposição dessas

normas igualizadoras e da criação da forma-cidadania é a individualização dos membros das classes sociais antagônicas e, nessa medida, a própria atomização dessas classes sociais adversas. É a filosofia do “dividir para vencer”, utilizada pelas classes dominantes.

Em decorrência do modo como é estruturado o sistema capitalista, a sociedade é modulada e hierarquizada com base na posse dos meios de produção e de circulação dos bens e nas relações de mercado, ou seja, os indivíduos são definidos socialmente pela sua posição no sistema produtivo. Uma análise da estrutura da sociedade capitalista mostra que a distinção entre os homens passa a ser proveniente da desigualdade econômica, ocorrendo, portanto, uma hierarquia de

status, uma ordenação segundo a qual as oportunidades

de vida e o prestígio pessoal se acham desigualmente distribuídos entre os membros da sociedade. Neste panorama de desigualdades materiais, os critérios básicos para o enquadramento de um membro da comunidade numa classe social passa a depender dos tipos e das quantidades de bens ou de serviços que o indivíduo pode adquirir ou oferecer no mercado. Desta forma, com a implantação do capitalismo, passou-se de uma sociedade de ordens para uma sociedade de classes, onde o dinheiro é a fonte dos privilégios.

Considerando-se que a estrutura capitalista busca fundamentar a sua dominação através da atuação da classe hegemônica, o controle do direito é uma das necessidades para a consecução destes objetivos. Desta forma, há uma exigência implícita das classes dominantes de que as normas jurídicas devam ser criadas para facilitar ou, pelo menos, para não dificultar - ou dissimular - estes objetivos de dominação. Daí a importância de que as leis devem se subordinar aos objetivos da sociedade ou seja, que os textos legais primem pela sua legitimidade. Uma posição realista é de que as leis devem ser antecedidas pelo costume e que a lei só é eficaz quando ratifica os costumes. Para Gramsci11, “existe algo

de verdade na opinião segundo a qual o costume deve anteceder o direito. De fato, nas revoluções contra os Estados absolutos já existia como costume e como aspiração uma grande parte de tudo o que posteriormente se tornou obrigatório.

Foi com o nascimento e o desenvolvimento das desigualdades que o caráter obrigatório do direito veio a aumentar, da mesma forma que veio a aumentar a zona de intervenção estatal e da obrigação jurídica. Mas, nesta segunda fase, mesmo afirmando que o conformismo

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deve ser livre e espontâneo, trata-se de coisa bastante diversa: trata-se de reprimir e sufocar o direito nascente, e não de estabelecer conformidade”. Relacionando a sociedade com o direito, Marx12 argumentou que “a

sociedade não se alicerça no direito. Isso é uma ficção legal. Pelo contrário, é o direito que tem a sua base na sociedade. O direito deve exprimir os interesses e as necessidades da sociedade, que são resultado dos métodos materiais de produção”.

O princípio da igualdade perante a lei contém uma diretriz essencial dirigida ao próprio legislador, ou seja, não é dirigida somente aos órgãos de aplicação, mas também aos de criação. Ao legislador, portanto, é reconhecida a primazia na elaboração dos textos legais e, este, juntamente com todos os participantes do processo de elaboração das leis, devem gozar das mesmas condições de igualdade de oportunidades e de liberdade para a criação das normas jurídicas, decorrendo disto uma presunção de racionalidade na concretização destes princípios.

Em síntese, o que dimensiona os níveis de desigualdade entre os homens e operacionaliza a sua aplicação na vida social são as relações de produção. O capitalista e o trabalhador são, formalmente, iguais perante a lei, estão submetidos aos mesmos preceitos legais. O voto de ambos, por exemplo, tem o mesmo valor, se cometerem um delito serão julgados pelas mesmas leis e nenhum deles deve se discriminado em virtude de raça, cor da pele e credos religiosos ou políticos. No entanto, nas relações de produção, um é patrão e o outro, empregado, havendo, entre os dois, profundas desigualdades materiais. Se o patrão quiser se candidatar a um cargo eletivo, terá, em princípio, maiores possibilidades para se eleger do que o empregado. Além do mais, é uma abstração afirmar que o patrão e o empregado são iguais em relação à educação, à saúde, ao acesso à justiça, por exemplo, embora os textos legais assim o rezem. De uma forma genérica, a igualdade perante a lei, portanto, apresenta um lado perverso e encobre as desigualdades materiais existentes entre as classes hegemônicas e as classes subalternas.

Considerações Finais

Uma análise crítica e realista do conteúdo apresentado e discutido neste trabalho permite que sejam extraídas algumas conclusões básicas. Inicialmente, não

se pode negar a existência de alguma contribuição positiva resultante da aplicação, ao longo dos tempos, de princípios igualitários no universo social, ou seja, esta aplicação não foi meramente abstrata, pois, ao contrário, ocorreram situações históricas como, por exemplo, a retirada do servo da gleba, abolição da escravatura, o fim do apartheid e a extinção de privilégios de casta e de nobreza, situações que resultaram em medidas que, concretamente, criaram condições de possibilidade para a redução de desigualdades materiais entre as classes dominantes e desfavorecidas.

Por outro lado, pode-se afirmar que, com o advento do sistema capitalista, nasceu e se desenvolveu o princípio da igualdade perante a lei, criado como um único caminho que o proprietário dos meios de produção encontrou para conseguir a mão-de-obra necessária para operacionalizar os processos produtivos que controlava. Assim, os capitalistas e os trabalhadores foram considerados iguais aos olhos da lei e esta relação de igualdade, meramente formal, foi concretizada através de um contrato de trabalho.

Quando se analisam essas relações formalmente igualitárias de troca, não se pode esquecer que o trabalhador assalariado de um lado e, do outro, o capitalista, são duas partes intervenientes completamente distintas e não houve, ao longo dos tempos, para a concretização dessa relação formalmente igualitária, qualquer ato de grandeza ou de benemerência por parte do proprietário dos meios de produção. Este recorreu à formalização de um contrato como única opção para obter, do trabalhador, a concordância para uso de sua força de trabalho. Desta forma, o capitalista e o trabalhador foram admitidos como iguais perante a lei no estabelecimento do contrato de trabalho, mas este nivelamento formal é muito diferente se as duas partes são observadas sob o enfoque de suas relação de produção, situação em que emergem e se intensificam as desigualdades materiais ou substanciais entre o patrão e o empregado. Isto indica que a igualdade perante a lei atua como uma dissimulação que encobre essas desigualdades substantivas.

Em outras palavras, uma análise realista e crítico-reflexiva concretizada a partir das relações de produção, permite caracterizar o caráter perverso da igualdade perante a lei que cria uma impressão de justiça social, mas que, na realidade, contribui para ocultar a efetiva desigualdade material entre os níveis sócio-econômicos das classes hegemônicas e subalternas. Em resumo, neste

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prisma de observação, a igualdade perante a lei tem, dentre outras, uma função ideológica de mascarar as desigualdades substantivas existentes nas relações de produção em particular, e na vida social em geral, constituindo-se em instrumento para a reprodução e para a perpetuação do sistema social injusto de exploração das classes desfavorecidas.

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Notas

1 Pesquisas recentes de TEICH, Daniel Hessel &

MADOV, Natasha. Revista Veja, de 17 de julho de 2002, pág. 74, indicam que o homem apareceu na Terra hás cerca de 7 milhões de anos.

2 O período paleolítico estendeu-se de 5000.000 a 10.000

anos a . C.

3 MARX, Karl. Economia, Política e Filosofia. Tradução

de Sylvia Patrícia. Rio de Janeiro: Melso, 1963 (p.83): “No convívio social, os homens se acham ligados por certas relações indispensáveis, independentes de sua vontade, por relações de produção, que correspondem a um grau determinado da evolução de suas forças produtivas

materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, o fundamento real sobre o qual se levanta a superestrutura jurídica e política”.

4 BRUGNERA, Nedilso Lauro. A Escravidão em Aristóteles. Porto Alegre: Grifos, 1998 (p. 28).

5 ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Tecnoprint,

1972 (p. 254).

6 PLEKHÂNOV, G.V. Os Princípios Fundamentais do Marxismo. São Paulo: Hucitec, 1989 (p. 46).

7 MARX, Karl. O Capital (livro 1, volume 3). São Paulo:

DIFEL, 1982 (pág. 830). Marx afirmou que “a estrutura econômica da sociedade capitalista nasceu da estrutura econômica da sociedade feudal. A decomposição desta liberou elementos para formação daquela. O produtor direto, o trabalhador, só pôde dispor de sua pessoa depois que deixou de estar vinculado à gleba e de ser escravo ou servo de outra pessoa. Para vender livremente sua força de trabalho, levando sua mercadoria a qualquer mercado, tinha ainda de livrar-se do domínio das corporações, dos regulamentos a que elas subordinavam os aprendizes e oficiais e das precauções com que entravavam o trabalho. Desse modo, um dos aspectos desse movimento histórico é a libertação da servidão e da coerção corporativa; e esse aspecto é o único que existe para nossos historiadores burgueses”.

8 A revolução industrial desenvolveu-se do final do século

XVIII (1780) até o final do século XIX (‘1880). Caracterizou-se por algumas novidades na produção industrial, como a metalurgia do coque, a utilização da máquina a vapor na mineração e na laminação, a invenção das máquinas para os setores de fiação e tecelagem, algumas já a vapor, o emprego de novos métodos e materiais na cerâmica, na engenharia civil e nos transportes, sobretudo canais e ferrovias. E, na segunda metade do século XIX e primeira do século XX, após a primeira guerra mundial, surgiu um novo período denominado “nova revolução industrial” ou “segunda revolução industrial”.

9 BENTHAM, Jeremy. Oeuvres de Jeremie Bentham. Tome 1. Bruxelles: Societé Belge de Librairie, 1840 (p.18).

10 POULANTZAS, Nicos. Sobre el Estado Capitalista.

Barcelona: Editorial Laia, 1977, págs. 22-23.

11 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere, volume 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002 (p.249). 12 MARX, Karl. Citado por ZAMORA, Juan Clemente. O Processo Histórico. Lisboa: Renascença, 1972 (p. 71),

quando Marx fez sua própria defesa, por ter sido acusado, em Colônia-Alemanha, por incitar o povo à revolução, tendo sido absolvido.

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