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A perda do halo? O processo de construção do ideário petista na década de 90

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS. A perda do halo? O Processo de Construção do Ideário Petista na Década de 90.. Tese apresentada por Francisco Wellington Duarte ao Programa de PósGraduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do título de Doutor em Ciências Sociais.. Orientador: João Emanuel Evangelista de Oliveira. Natal, 2008 1.

(2) .. FRANCISCO WELLINGTON DUARTE. A perda do halo? O Processo de Construção do Ideário Petista na Década de 90.. Tese apresentada por Francisco Wellington Duarte ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do título de Doutor em Ciências Sociais.. Orientador: João Emanuel Evangelista de Oliveira. Natal, 2008. 2.

(3) Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes CCHLA Duarte, Francisco Wellington. A perda do halo? O processo de construção do ideário petista na década de 90 / Francisco Wellington Duarte. - 2017. 211f.: il. Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais. Natal, RN, 2017. Orientador: Prof. Dr. João Emanuel Evangelista de Oliveira.. 1. Partido dos Trabalhadores. 2. Política. 3. Ideologia. I. Oliveira, João Emanuel Evangelista de. II. Título. RN/UF/BS-CCHLA. CDU 329.

(4) FRANCISCO WELLINGTON DUARTE. A PERDA DO HALO? O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO IDEÁRIO PETISTA NA DÉCADA DE 90. Tese apresentada por Francisco Wellington Duarte ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do título de Doutor em Ciências Sociais.. Área de concentração: Cultura e Representações Aprovada em: BANCA EXAMINADORA: ____________________________________ Profª Dr ___________________________________ Profª Dr _______________________________ Profº. Dr. _______________________________ Profª Dr _______________________________ Profª Dr. 3.

(5) DEDICATÓRIA Este trabalho homenageia todos que, em algum momento da história desse país, lutaram pelo avanço da democracia e pela defesa dos interesses da classe dos trabalhadores.. 4.

(6) AGRADECIMENTOS Agradecimentos ao meu orientador, o professor João Emanuel. Evangelista. de. Oliveira,. por. sua. paciência. e. determinação em corrigir os erros e indicar os caminhos adequados para a consecução do trabalho.. 5.

(7) RESUMO Analisa a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT), a partir da construção do seu ideário político, durante a década de 1990, culminando com seu II congresso, em 1999. A abordagem tem como eixo teórico a concepção de classe, balizadora da estratégia e da tática dos partidos de classe. Para tanto, foram analisados o conjunto de resoluções emandas dos Encontros Nacionais e dos dois Congressos, além da opinião das principais lideranças do partido. Foi apresentada uma periodização e mostradas as mudanças mais relevante para o objeto de estudo. Estabeleceu-se uma relação entre as mudanças ocorridas no modo de produção capitalista e os seus efeitos sobre a concepção de classe e da importância do trabalho, nas discussões do partido e no rebatimento destas sobre o programa do mesmo. Buscou-se compreender como o PT foi afetado pelas mudanças estruturais e pela crise do socialismo. Conclui-se que as mudanças ocorridas no ideário petista foram resultado de um conjunto de fatores que terminou por distanciar o partido do socialismo, tornando-o progressista e reformista.. Palavra-Chave : PT, classe, partido, socialismo.. 6.

(8) Abstract Examines the trajectory of the Workers' Party (PT), from the construction of its political ideology, during the 1990s, culminating with its II Congress in 1999. The approach is to design a theoretical axis of class, mapped out the strategy and tactics of the parties of class. To that end, we analyzed the number of resolutions come Encounters of the National Congress and the two, beyond the view of the main leaders of the party. Was presented a timeline and show the changes more relevant to the object of study. It was a relationship between changes in the capitalist mode of production and its effects on the design of class and the importance of work, in discussions of the party and the hittin those on the program of the same. The aim was to understand how the PT was affected by structural change and the crisis of socialism. It follows that the change in PT ideals were a result of a number of factors that ended by distancing the party of socialism and make it progressive and reformist.. Keyword: PT, class, party, socialism.. 7.

(9) SUMÁRIO 1 – Introdução............................................................................................... 9. 2 – Retomando o conceito de classe........................................................... 23 3– Da Gênese ao I Congresso : a construção da utopia............................. 63 4 – Do I ao II Congresso : expurgando os fantasmas................................. .108 5 – Considerações Finais..............................................................................154 6 – Referências Bibliográficas.......................................................................159 Anexo I – Correntes e Tendências do PT......................................................202 Anexo II – Eleições para os Diretórios Nacionas (1984-1999)......................211. 8.

(10) I – INTRODUÇÃO. Se considerarmos a hipótese de que o Partido dos Trabalhadores (PT) é uma “anomalia política” diante de um quadro dominado pelas forças tradicionais, lastreadas por uma estrutura social desigual e, por isso mesmo, propícia ao domínio das camadas burguesas, teríamos que aceitar a tese de que não existiu uma história dos movimentos populares e revolucionários neste país. Uma anomalia nasce da novidade e nesse sentido a realidade demonstra que o PT não foi uma “novidade”. Se partirmos, por outro lado, da idéia de que o PT inicia um novo período na história dos movimentos e partidos de esquerda neste país, por emergir com uma estrutura e concepção diferente das que existiam nas organizações revolucionárias de até então, o caminho torna-se alvissareiro, pois permite ter um olhar sobre este partido que, de fato, mudou a face da esquerda brasileira. Ao iniciarmos um trabalho que tem a pretensão de buscar nas raízes e nas entranhas do PT seu processo de construção ideológica, devemos ter a devida consciência de que se deverá levar em consideração todo o processo que passou ao largo dessa construção ideológica. Por conseguinte, é imperativo que o objetivo pretendido tenha a capacidade de absorver tais movimentos e interagir de forma dialética com todo esse processo. Neste sentido deve-se partir da compreensão de que há um encadeamento de vários processos e fenômenos que permeiam as sociedades brasileira e mundial, no final da década de 1980 e durante os anos 1990, e que terão um papel relevante na dinâmica da construção do ideário político do PT.. 9.

(11) É fato incontestável o refluxo dos movimentos sociais, como um todo, e do movimento operário, especificamente, na década de 1990. Na Europa Ocidental, a esquerda marxista sofreu um processo de divisão e inflexão sem precedentes e, de uma forma geral, tornou-se microscópica eleitoralmente. O Muro desabou em Berlim, mas o impacto se fez sentir até Lisboa, Atenas e Oslo. Os partidos comunistas mais antigos e mais fortes da Europa Ocidental, o Partido Comunista Francês (PCF), o Partido Comunista Italiano (PCI), além do Partido Comunista Espanhol (PCE) e do Partido. Comunista. Português. (PCP). foram. duramente. atingidos. pelo. desmoronamento do chamado “mundo soviético”, cuja base ideológica se assentava no marxismo-leninismo, que desembocou numa estrutura de poder comumente denominada de “socialismo real”. Nos países do Leste europeu, a esquerda marxista teve não só de reorganizar-se. politicamente,. mas. também. enfrentar. uma. colossal. fúria. anticomunista que em boa parte – e não deixa de surpreender – veio de dentro dos finados “partidos comunistas oficiais” 1. De um marxismo-leninismo ideologizado passou-se a um anticomunismo com o mesmo sentido, num movimento caracterizado pela absoluta falta de mediação entre um processo e outro. A esquálida esquerda marxista que sobrevive a esse cataclismo sofreu danos devastadores, tornando-se mais um elemento de resistência do que propriamente um protagonista decisivo da luta política.. 1. Talvez o caso mais emblemático seja o do albanês Sali Berisha, alto dirigente do Partido do Trabalho da Albânia ( PTA ) e durante anos médico particular e de confiança do líder Enver Hoxha, que, durante a crise que provocou o enfraquecimento do regime comunista, não só deixou o PTA como, ao assumir o poder, iniciou a maior perseguição aos comunistas de que se tem notícia nos ex-países comunistas, além de liderar um processo explícito de satanização da figura de Hoxha numa espécie de “culto à personalidade invertido”.. 10.

(12) A idéia defendida pelos novos dirigentes foi a de “demonizar” o marxismo, utilizando a própria “história” como “prova” irrefutável dos crimes dos regimes comunistas e inauguraram um inédito culto invertido à personalidade, revivendo Stalin para solidificar seus discursos reacionários. Esse reacionarismo deu passagem à retomada dos discursos nacionalistas pelo renascimento do nazismo, com especial força nos países Bálticos, e pela pulverização partidária. Por outro, lado a década de 1990 representou, do ponto de vista histórico, um período de desaguadouro das transformações políticas e sociais, que ocorreram ao final da década de 1980 em todo o planeta, posto que o processo de transferência de capital para a atividade financeira assumiu proporções gigantescas, tomando a frente dos recursos destinados à esfera produtiva. A estrutura e superestrutura do sistema capitalista, que já vinham passando por grandes transformações desde a década de 1970, apresentavam a característica da não-linearidade, o que desembocava em permanentes tensionamentos sociais e com modificações no perfil do estado capitalista, exigindo uma “renovação” da relação Estado x Capital x Trabalho, como observa Fiori: É a hora da incorporação dos estados menos industrializados, de forma que, depois de duas décadas de internacionalização financeira, os estados mais frágeis e os ditos mais submissos foram se resignando a compor com esta nova realidade competindo pelos novos investimentos através de políticas cada vez mais agressivas de desregulamentação econômica e desoneração fiscal, tão mais predatória quanto mais embaixo estiverem na escala de risco de dos ‘meios emergentes’. (Fiori, 1997: 117). 11.

(13) Esse processo de reorganização das forças produtivas do capitalismo mundial se dá em meio ao virtual colapso do Estado-providência2, socialmente falido e incapaz de responder às dinâmicas geradas pela forte competição internacional. Uma crise que se inicia no centro do sistema capitalista, pondo em xeque as ações políticas dos partidos social-democratas governantes, basicamente na Europa, e que, ao longo dos anos 1980, vão um após outro sendo derrotados pelas forças conservadoras e liberais, dando lugar à hegemonia ditada pelo liberalismo reciclado, que modernizou o discurso e radicalizou as propostas de “liberdade”, iniciando um espetacular processo de “culto ao mercado” e edificando a apologia do consumismo. Esse fenômeno já era perceptível a partir da segunda metade da década de 1980, quando ocorre o “enquadramento” dos países centrais e periféricos a essa “nova ordem”, cujo epicentro é o capital financeiro, caracteriza-se pelo processo de acirramento da competição intercapitalista e uma redução da participação dos salários na renda nos países industrializados. Diante de uma URSS debilitada economicamente e enfraquecida politicamente, os EUA (re) constroem rapidamente sua hegemonia através de ações de coordenação das políticas de câmbio e comercial, através da Rodada Uruguai, colocando o Fundo Monetário Internacional e o BIRD como intermediários entre o governo norte-americano e os representantes do capital privado, culminando, em 1989, na elaboração de um documento que ficou conhecido como “consenso de Washington”, em que estão demarcados os contornos da nova divisão internacional do trabalho. 2. Estado de Bem-estar Social ou Estado-providência (em inglês: Welfare State) é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado (governo) como agente da promoção (protetor e defensor) social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em parceria com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com a nação em questão. Cabe ao Estado do bem-estar social garantir serviços públicos e proteção à população.. 12.

(14) No Brasil, a década de 1990 começa em meio a uma forte crise econômica, caracterizada por altos índices inflacionários e por uma forte retração dos investimentos governamentais, causadas pela crise da dívida externa que ocorrera na década de 1980 e pela incapacidade política do bloco no poder em formular uma política de desenvolvimento. A resposta à crise, feita pelo bloco no poder, é dada pela implementação de uma estratégia de inserção na economia internacional, onde se adota o critério da competitividade. como. balizador. das. ações. públicas,. o. que. exige. um. redimensionamento do Estado. Este passa a ser visto como um “facilitador” do processo de construção do crescimento da economia e, por conseguinte, exige um abandono do modelo de substituição de importação e adoção da perspectiva de “integração positiva” ao sistema capitalista. A perspectiva é o de adaptar o Estado às necessidades de reprodução do Capital. O impacto desse redirecionamento do projeto de nação dá-se a partir da proposta de desregulamentação do estado, que desembocará numa ação privatizante, na criação de um “ambiente favorável” para os investimentos estrangeiros via flexibilização das relações de trabalho e no combate às organizações políticas representativas do movimento dos trabalhadores. Nesse contexto, a derrota dos petroleiros na greve de 1995 pode ser comparada à derrota dos mineiros da Inglaterra no final da década de 1970, pois abriu o caminho para um forte refluxo nos movimentos sindicais e sociais, que assumiram uma postura claramente defensiva, resultando no encolhimento político de suas representações e em derrotas eleitorais significativas.. 13.

(15) A reorganização produtiva, entendida como o redimensionamento dos investimentos capitalistas, que interfere diretamente na composição orgânica do Capital, afeta diretamente a estrutura de classes, na medida que reconfigura em muitos aspectos a relação existente no interior do processo de reprodução ampliada do sistema capitalista e redefine novos espaços e novas formas de controle do capital. No Brasil, esse processo gera modificações na composição do operariado e classe trabalhadora de uma forma geral, provocando uma crise nas suas esferas de representação. Na década de 1980, o Brasil passa por um processo de redemocratização das instâncias de representação. A ditadura militar que impôs, desde 1965, o bipartidarismo e estabeleceu um regime opressivo, apresentava um esgotamento de sua capacidade de dirigir a sociedade a manu militari. Essa fragilização da direção militar e a crescente pressão dos segmentos mais organizados da sociedade propiciaram o reaparecimento dos movimentos e partidos que lutaram contra o regime militar e o surgimento de novas organizações sociais que, embora guardassem em boa medida a herança ideológica de pré-64, apresentavam-se como uma nova opção no cenário político brasileiro. Isso marcou em boa medida o processo eleitoral pós-ditadura e exigiu dos partidos de esquerda, principalmente, uma discussão das suas ações passadas e suas propostas futuras. Com isso, a cada processo eleitoral, as marcas do passado ressurgiam e acabavam por dar uma poderosa arma ideológica aos setores conservadores diante da realidade de ter no seio da esquerda um partido que, com poucos anos de organização, firmara-se como uma real possibilidade de derrotar o. 14.

(16) bloco hegemônico no poder. O PT é uma espécie de “assombração ideológica” a esse bloco no poder. A década de 1990, marcada por revoluções conservadoras, renascimento do velho nacionalismo (em alguns casos xenófobos), fortalecimento dos partidos de feição religiosa e “emparedamento” dos movimentos sindicais por parte da lógica imponente do neoliberalismo, é o campo de luta entre a alternativa petista, que se consolidara como a maior expressão da esquerda brasileira (marxista ou não), e as forças liberais e conservadoras que, após a eleição de 1994, passaram a ser compostas pela social-democracia tupiniquim do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), saído do ventre peemedebista com a marca progressista e que se formatou rapidamente na expressão latino-americana de uma “terceira via”; e pelos velhos oligarcas do Partido da Frente Liberal (PFL), expressão maior do conservadorismo nacional. É contra esse novo bloco no poder que a esquerda brasileira irá se contrapor e cujo momento histórico inicial se dá nas eleições presidenciais de 1994, vencidas pelo sociólogo – até então tido como progressista – Fernando Henrique Cardoso, que formara uma coalizão com o PFL e que se propõe a iniciar uma modernização da esfera estatal brasileira a partir do seu redimensionamento e de sua mudança de perfil. Esta é a arena de luta política onde o PT atuará para se contrapor à “nova ordem” neoliberal. A trajetória do PT na sociedade brasileira, com seus sucessos e fracassos, tem provocado uma grande quantidade de análises, artigos, dissertações e teses, nos quais se acentua sua “deformação”, sua “traição”, seus “desvios”, e que 15.

(17) demonstram a força do “enigma petista”. A característica principal dessa produção intelectual é a subjetividade com que se olha para este partido político que, sem dúvida, vem marcando a política deste país nos últimos 25 anos. Hoje, seus defensores proclamam a necessidade de sua “refundação”, buscando nas suas raízes a força ideológica para se recompor e recuperar a imagem que detinha perante a sociedade, o que nos leva de volta a uma perspectiva idealista de partido, pois parte da premissa de um “tipo ideal” para o mesmo. Mas a própria investigação sobre essa trajetória é deveras complexa, pois envolve uma série de elementos e variáveis que, se não tiverem o tratamento adequado pode levar a distorções no próprio processo de análise. Como afirmava Gramsci (1991), nas análises histórico-políticas é mister buscar a justa relação entre o que é específico e o que é ocasional, a fim de evitar o “ideologismo”. Assim sendo, ao se debruçar sobre a trajetória do PT, deve-se levar em consideração a relação entre o seu desenvolvimento (ideológico, programático e estratégico) e o movimento da estrutura capitalista, cada vez mais complexa, que se reflete na superestrutura. Portanto, investigar a trajetória política do PT a partir do seu componente ideológico e programático, na década de 1990, justifica-se porque que esta organização política é majoritária em termos quantitativos e qualitativos no arco ideológico do que se denomina de esquerda neste país e, em sua curta existência, obteve o reconhecimento de sua relevância no processo político brasileiro, tornandose uma alternativa ao sistema de poder até então vigente e sendo alçado à qualidade de aglutinador ou agregador dos diversos movimentos sociais e populares que se desenvolveram no país no período pós-ditadura. 16.

(18) Dessa forma, é necessário inquirir como se deu o processo de construção do projeto político do PT, na década de 1990, a partir da construção de seu programa e do desenvolvimento da sua tática e estratégia, via programa partidário, a fim de compreender o processo de formação do seu perfil ideológico e como este rebateu na sua estratégia e tática políticas. Para tanto, um dos objetivos centrais deste trabalho é identificar, na trajetória do PT, a concepção política e ideológica acerca de temas relevantes como trabalho e classes; democracia, participação política/representação e o Estado, a fim de compreender a relação existente, no decorrer do processo, entre o matiz ideológico petista e o programa estratégico do mesmo; e investigar como o partido enfrentou as transformações oriundas da crise do sistema capitalista e da crise do socialismo real e em que medidas tais fatos influenciaram seu programa partidário. Por outro lado, o processo de construção, organização e – dentro deste – a ação política do PT provocaram uma necessária reformulação, reorganização e até uma rearticulação do discurso e da prática das organizações de esquerda, em especial as do campo marxista, impulsionando uma revisão da tática e da estratégia destas em relação à postura tradicional no que diz respeito às concepções tradicionais deste, o que fez romper com o “modelo padronizado” de propositura revolucionária e fazendo com que a esquerda inicie o debate sobre temas relevantes como organização revolucionária, classe revolucionária, democracia, representação, movimentos sociais, meio-ambiente, cultura, raça e gênero etc. Por fim, parte-se da compreensão de que ,na década de 1990, a sociedade brasileira sofreu fortes impactos decorrentes do processo de inserção da sua 17.

(19) economia na nova divisão internacional do trabalho. Isso atingiu o campo reivindicatório das demandas sociais, afetou o movimento sindical, reconfigurou o quadro político existente e exigiu por parte da esquerda um processo de rediscussão de suas premissas básicas e das suas posições políticas diante da realidade concreta da sociedade brasileira. É nesse processo que a (re)construção do PT ocorre, configurando a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre tal processo. Para (re)construir essa trajetória, no capítulo primeiro destacam-se as categorias a serem utilizadas como parâmetros analíticos no decorrer da pesquisa, a saber: trabalho, classe, Estado e democracia. Essas quatro categorias constituirão a base teórica para o entendimento acerca da evolução teórica e ideológica do PT, pois estão presentes em toda a sua trajetória política. Buscar-se-á, ainda, discutir as categorias trabalho e classe social, partindo-se da afirmação de que o trabalho é o principal elemento que nucleia a sociabilidade humana e de que as classes sociais revelam essas formas de acordo com o desenvolvimento das forças produtivas. O conceito de classe social é entendido como um processo complexo, e (re)afirma-se a luta de classe como o principal – mas não único – elemento dinamizador das relações sociais na sociedade capitalista.Essa discussão teórica serve para alicerçar a visão sobre as diversas concepções sobre classe que emergirão no PT durante a construção do “socialismo petista” e posteriormente sobre a concepção de “revolução democrática”. Em seguida, será tratada a categoria Estado partindo das principais abordagens do ponto de vista marxista e seu entendimento como um fenômeno histórico, com suas particularidades e especificidades, que faz necessitar uma 18.

(20) abordagem mais centrada nas formas modernas assumidas pelo Estado a fim de identificar sua função na sociedade capitalista contemporânea, detendo-se na problemática do tratamento a ser dado ao Estado nas atuais de condição de desenvolvimento do sistema capitalista. O propósito dessa abordagem é a de perceber como o PT articulou sua estratégia política ao processo de tomada de poder e a construção do socialismo e como essa articulação modificou-se ao longo do período analisado. Por fim, será tratada a categoria democracia com os nuances que a tornam complexa, conflitiva e com fortes traços de manipulação ideológica. Para tanto, mister discorrer sobre as dimensões da palavra em si e sua relação com postulados como liberdade, participação política e soberania, buscando identificar as similaridades e aspectos divergentes entre as duas principais concepções acerca do tema a ser tratado. O tratamento dado a essa categoria analítica é fundamental para o entendimento da permanente busca do PT em dissociar-se da esquerda comunista, de distanciar-se da social-democracia e, ao mesmo tempo, construir sua própria visão de democracia. No capítulo dois buscar-se-á (re)constituir a gênese do PT, procurando identificar nesse processo a influência das correntes ideológicas que contribuíram para a criação do partido e aquelas que foram agregadas posteriormente, nas formulações de políticas e ações estratégicas. Além disso, o abordar-se-á em que medida a crise do capital, que se desdobrou na década de 1980, marcou a tática do PT e como esses fatos contribuíram para a formação do seu núcleo ideológico central. Por outro lado, na década de 1980 o partido teve de enfrentar problemas concretos na esfera da luta política tais como o processo de redemocratização e o 19.

(21) re-arranjo das forças políticas que constituíam o bloco no poder; a participação no processo eleitoral nas três esferas da federação, cuja base jurídica fora construída pelo regime que terminava, e tendo que enfrentar a diversidade política existente no país; e a primeira eleição presidencial desde 1960. Ao lado desse processo, o partido teve que lidar com a grave crise econômica que abalou as estruturas do capitalismo nacional, atingiu o Estado e fez com que este visse sua capacidade de investimentos reduzida, com fortes impactos na prestação dos serviços públicos, a queda dos rendimentos do trabalho e o crescimento do desemprego. Nesses termos, o capítulo buscará identificar como todo esse conjunto de processos marcou a construção do perfil ideológico do PT via programa político. Mostrar-se-á o grande debate interno do partido, a constituição das correntes e como estas interferiram em suas formulações políticas, especificamente no que refere à difícil relação do PT com o conceito de democracia, às questões relativas à tomada ou não do poder e sua relação com o Estado capitalista; e, por fim, a própria formulação do “socialismo petista”. Por fim, ainda no segundo capítulo, será abordado o processo de consolidação do núcleo ideológico do PT, ocorrido na década de 1990, partindo da derrocada do socialismo real; da vitória das forças conservadoras nas eleições presidenciais de 1989; da realização do I Congresso do PT; e da ascensão hegemônica do bloco PSDB/PFL que culminou com a inserção da economia brasileira ao mercado mundial sob a forma de “acoplamento financeiro dependente”.. 20.

(22) O capítulo três tratará desses quatro eixos analíticos com o aprofundamento do debate interno acerca do “socialismo petista” e suas relações com a democracia, o Estado e os movimentos sociais; do processo de depuração das correntes mais ortodoxas e da consolidação de um centro dirigente capaz de manter a unidade partidária; do posicionamento do partido acerca do Plano Real e das transformações oriundas da inserção da economia brasileira ao mercado mundial; da problemática da governabilidade e da necessidade das alianças eleitorais e programáticas. E culminará com a análise do II Congresso do PT, em 1999, com o intuito de verificar o processo de consolidação teórica e ideológica do partido e como essa evolução se relacionou com os quatro eixos analíticos. Para o desenvolvimento adequado de um trabalho de natureza complexa por suas próprias características e opções analíticas, decidiu-se por adotar como método de abordagem o materialismo dialético, na medida que tal procedimento evita que se caia na fenomenologia, fazendo dispersar na subjetividade e no idealismo do mundo das aparências as respostas a serem perseguidas. Com isso, busca-se introduzir a análise dentro de uma totalidade concreta onde os fatos e fenômenos se revelam como tais e, ao adquirir a concretude dada pela unidade dos contrários, passa a revelar o que de fato se encontra escondido sobre a superfície das imagens e dos discursos. A concretização desse método se deu através da compilação de dados secundários que trouxessem informações relevantes acerca do tema proposto. Foi necessário delimitar o rol de documentos pesquisados de acordo com a sua importância para a construção do perfil ideológico do PT e com isso textos, artigos e livros tiveram como foco o conjunto de documentos produzidos a partir dos 21.

(23) Encontros e Congressos do partido. Entretanto não se descuidou em considerar o papel que determinadas correntes tiveram nesse processo, especialmente as que controlavam a máquina do partido e as que tinham um peso relevante na luta política interna. Finalmente, o recorte temporal para o estudo do tema proposto é o da década de 1990, mas a baliza histórica, devido às interligações presentes no objeto de estudo, inicia-se desde a fundação do PT e abrange três sub-recortes: (a). O primeiro está localizado entre a origem do PT e o V Encontro. Nacional, pois nesse período se pretende verificar a construção ideológica do partido e sua discussão acerca do seu conteúdo classista; (b). O segundo recorte se dá entre o V Encontro Nacional, no. qual o. partido iniciará um processo de organização interna, via regulamentação das tendências, até o I Congresso, do qual sairá consolidado o “socialismo petista”. Nesse período o partido se defrontará com as conseqüências políticas do fim do “socialismo real” e enfrentará o processo de inserção da economia brasileira no cenário mundial; (c). O terceiro recorte tem como foco a década de 1990 e as fraturas. ocorridas na corrente majoritária e o pilar central será o II Congresso Nacional do partido, realizado em 1999, em que o partido rediscutirá sua concepção ideológica e fará acoplar ao “socialismo petista” a expressão “revolução democrática”, que trará novo significado à ação tática e estratégica do partido.. 22.

(24) 2 – RETOMANDO O CONCEITO DE CLASSE 2.1 – Trabalho: uma categoria em disputa? (Re)colocar o conceito de casses sociais na análise do capitalismo contemporâneo a partir de uma perspectiva marxista é, sem dúvida, uma tarefa que exige, antes de tudo, a compreensão do papel que as mesmas têm no processo das relações sociais de produção e buscar entender o impacto que o desenvolvimento das forças produtivas teve sobre o conjunto da sociedade, o que significa dizer na sua estrutura e superestrutura . Dessa forma a categoria trabalho necessita ser “recuperada” como elemento central para a crítica da sociedade capitalista atual e mesmo para uma visão sobre as sociedades pós-revolucionárias, levando-se em consideração que, diante da complexificação do processo de relações sociais a partir da Revolução Tecnológica (inclusive a Revolução Informacional) tal categoria parece ter perdido o sentido de ser o centro nevrálgico do sistema. E isso se reflete nas análises e proposições políticas da esquerda socialista. A análise se baseia em três níveis de argumentações: a primeira delas é a noção de que a categoria trabalho é a base das relações sociais e que, por conseguinte, a sociabilidade se constrói a partir dessa premissa básica. A partir dessa pressuposição, toma-se a concepção de classe social como tendo inevitável conteúdo histórico e, ao mesmo tempo, sua dinamicidade em termos de análise conjuntural. A segunda se refere ao Estado, como elemento histórico em que o desenvolvimento das forças produtivas interage com as forças sociais em 23.

(25) movimento, e articula-se no aparelho estatal de acordo com o processo de luta de classes em vigor. A terceira se remete à categoria democracia como elemento constitutivo desse processo e tomando o sentido que é determinado pelas dinâmicas das formas sociais que se constroem e se reconstroem no processo de luta política e de transformações na base material. Mas para “recuperar” esse debate é necessário reconhecer as vicissitudes do próprio marxismo, decorrentes das perdas de referências políticas, positivas ou negativas, que ocorreram no final do século XX. Inicialmente, embora se possa considerar que a crise do marxismo deveu-se, em boa medida, ao espetacular desmoronamento do “mundo soviético”, é necessário lembrar que o debate acerca do conceito de classe e de suas variantes, assim como as repercussões sobre o conjunto da obra de Marx e, por conseguinte, na concepção sobre estratégia e tática do conjunto das organizações que se reivindicavam marxistas3, se dá a partir da década de 1960, com desdobramentos na década de 1970. Há, portanto, a necessidade de se observar que há muitas variáveis a serem consideradas nessa crise. De natureza interna, derivada dos debates sobre o próprio marxismo e as de natureza externa, oriundas das transformações decorrentes do progresso tecnológico na sociedade contemporânea. A crise do conceito de classe não é uma “novidade” e sim a revelação das dificuldades em absorver as mudanças ocorridas na base material do sistema capitalista.. 3. Nessa categoria a opção foi incluir os marxistas propriamente ditos; os marxistas-leninistas e suas ramificações maoísta e hoxhista; trotskystas; guevaristas; castristas;luxemburguistas “radicais” ou “comunistas de esquerda” e até organizações ditas marxistas, mas que agregavam contribuições de pensadores socialistas (estes podiam ser encontrados nas alas esquerdas dos partidos socialistas europeus e até na ala esquerda do trabalhismo britânico).. 24.

(26) Thërborn (1989) revela que a complexidade crescente do sistema capitalista, com seus reflexos na estrutura e superestrutura, provocou, desde a década de 1960, vários estudos sobre a noção e o conceito de classe, luta de classe, consciência de classe e até sobre a percepção da definição de Revolução. É nesse ambiente que tais conceitos tomaram rumos múltiplos e que se afastam ou se aproximam de uma perspectiva revolucionária, conforme a posição política dos interlocutores, gerando conflitos teóricos sobre os temas descritos. Para o autor, nos países capitalistas centrais, a (re)organização das relações capitalistas de produção, principalmente no segundo pós-guerra, rompe com as barreiras entre o urbano e o rural, fazendo desaparecer – de forma até certo ponto abrupta – as velhas comunidades de classe ou até experiências comunitárias de classe. O camponês, lançado no “mundo urbano”, onde a própria relação espaçotempo difere da vivenciada no campo, é posto diante de uma complexa estrutura societária, na qual o Estado se revela como um elemento onipresente no seu cotidiano. As relações sociais de produção forjadas nesse processo impõem sua própria “reconstrução” como indivíduo para se aceitar como mercadoria-trabalho. O homem, nesse caso, se constitui como indivíduo na coletividade, mas, ao se submeter à lógica do sistema, torna-se prisioneiro de sua própria condição de reprodução e é literalmente absorvido pela mercadoria que retira sua humanidade e o transforma num objeto que, na sociedade contemporânea, aparenta ser uma mercadoria especial e única.. 25.

(27) Thërborn afirma que tanto a crise de 1956 na Hungria como o “Maio francês” (1968) trouxeram o debate da concepção de classe à tona, com as mais diversas conotações e, embora o aspecto ideológico tenha tido um peso relevante, os estudos, ensaios e artigos revelaram a busca em “recuperar”, “renovar”, “ultrapassar” e, alguns casos rejeitar a análise marxista de classe. Essa “explosão criativa” não atinge apenas o marxismo ocidental, mas encontra ecos no Leste europeu, conforme atesta Arnason (1989), embora de maneira diferenciada e limitada, e que o brejnevismo fará encerrar4 no final da década de 1960. Por outro lado, esse debate não chega à América Latina. E, se chega, é de forma muito esparsa e limitada, posto que esta se encontra imersa num retrocesso político, com as ditaduras militares presentes em quase todo o continente. Esse estado de coisas imporá a lógica da defesa e sobrevivência, quer para as organizações marxistas (revolucionárias ou não), quer para as organizações de caráter democrático e/ou progressista, ou seja, o debate se concentra nos países capitalistas mais avançados e, por um breve período de tempo, no Leste Europeu. Retomando Thërborn, este revela que até a década de 1960 a análise de classe fora pouco aprofundada e basicamente permanecera ligada aos escritos. 4. Alias ARNASON já colocava essa perspectiva a partir da “adaptação” do materialismo dialético feita a partir. da chegada ao poder de Kruschev, e que desembocou numa série das análises das sociedades pós-revolucionárias na década de 60 dentro dos países comunistas. O debate foi travado pelo brejnevismo no final da década de 60 e fossilizou-se no discurso oficial, sem espaço para discussão. O conceito de classe desaparece para dar lugar ao “povo”, mitificando a matriz marxista da Revolução Russa.. 26.

(28) fragmentados de Marx e às resoluções políticas emanadas da III Internacional, embora as discussões em torno da luta de classes tivessem recebido uma elaboração mais aprofundada de Lênin, Gramsci e outros líderes marxistas revolucionários. Porém a concepção de classe, fundamental para o entendimento da dinamicidade da sociedade capitalista contemporânea e da própria ação dos agentes políticos estava, até certo ponto, estacionada. Para esse autor, os anos de 1964 e 1968 devem ser vistos como um momento de certa “ruptura epistemológica” entre um marxismo com raízes na filosofia e na economia política e um marxismo cuja base se remete à sociologia, o que trouxe, de pronto, mudanças qualitativas nas análises de classe5. Essa “nova abordagem sociológica” do marxismo, datada do final da década de 1960, trouxe duas perspectivas: a teoria e o estudo da “estratificação”, calcado na concepção. da. dinâmica. social. e. que. teve. nos. funcionalistas. sua. raiz. epistemológica6.. 5. Para o autor essas análises nasceram a partir de a uma série de artigos publicados em janeiro de 1964,. na revista inglesa New Left Review, por Perry Anderson e Torn Nairn, que versava basicamente sobre a análise histórico-política da sociedade e o movimento operário na Inglaterra, o início dessa “ruptura” pois “(...) substituíam a filosofia ou a economia política pela sociologia, como principal sistema de pensamento intelectual com que o marxismo devia defrontar-se.” (Thërborn, 1989:392). Um segundo momento teria sido em Paris, durante as agitações estudantis de maio, com a publicação de Poder Político e Classes Sociais de Nicos Poulantzas, fortemente influenciado por Althusser e que conduzia o marxismo ao diálogo com a ciência política não-marxista. 6. Thërborn cita Talcott Parsons, Kingsley Davis, Cecil North, Paul Hatt, Seymour Lipset e R. Bendix.. 27.

(29) Os problemas de classe e de consciência de classe eram remetidos às questões da estratificação social, que se tornava um fator “necessário, positivo e integrador” e cujos pressupostos traziam a questão da hierarquização da função social e das ocupações, e que era fruto da sensação de “pertencimento” à sociedade, significando que a luta de classes desaparecia da análise da sociedade, que se dava pela integração do indivíduo à sociedade, como manifestação do consenso social. Essa abordagem era influenciada pelo crescimento da economia norteamericana e seus reflexos expressos no crescimento das camadas sociais médias (classe média), o que passou a denominar-se “modo de vida americano” numa sociedade supostamente aberta à ascensão e à mobilidade sociais. Ocorre que essa abordagem foi duramente criticada por diversas correntes (marxistas e simpáticas ao marxismo) que viam nessa perspectiva uma tentativa de justificar a forma de dominação capitalista, suavizando seus impactos sobre o conjunto da sociedade. Além disso, a crise da década de 1960 fez com que esta abordagem fosse ultrapassada pelos acontecimentos, o que não a fez desaparecer da cena acadêmica e, em muitos aspectos, ressurgiria na década de 1990 com outra roupagem e terá forte influência entre os que passam a defender uma nova leitura de Marx, ou até mesmo “ultrapassar” o autor alemão buscando novas universalidades para explicar as mudanças sociais7.. 7. Na primeira linha estão autores como István Meszaros, Jacob Gorender, Ellen Wood e outros que mantém uma perspectiva de recuperação de Marx, mas com uma leitura a partir das condições concretas da sociedade contemporânea; na segunda linha tem-se. 28.

(30) Na realidade o conceito de classe enfrentava sérios desafios já na década de 1960, conforme atesta o autor: Nos anos 60, o significado e o valor do conceito de classe mostravam-se ambíguos e controvertidos no mundo do capitalismo avançado contemporâneo. O “boom” pós-bélico dessa parte do mundo tinha rompido ou enfraquecido, em ampla medida, as velhas comunidades de classe ou as experiências comunitárias de classe. A emigração para novos aglomerados urbanos e suburbanos destituídos de história despovoara os núcleos camponeses e os bairros operários. A memória e o medo do desemprego dissipavamse numa expansão sem precedentes. Nas empresas, de dimensões cada vez maiores, a cadeia hierárquica estendia-se e complicava-se enormemente, ao mesmo tempo em que cresciam os aparelhos de Estado tanto em termos de função quanto de dimensão. Graças a uma parte dos frutos da expansão, nas novas formas e fragmentadas zonas residências se afirmavam modelos de consumo de massa e de relações sociais aparentemente fora do alcance da ação do capital. Nos Estados Unidos, a cristalização de classe, ainda que distorcida, produzida pelo “New Deal”, fora corroída ou liquidada; na vida política da Europa Ocidental, esta foi a época de Bad Godesberg, a renúncia programática da social-democracia à política de classe marxista, a última ocasião da esquerda francesa antes da ascensão do gaullismo, o fim da aliança socialistacomunista na Itália. (Thërborn,1989:409). Esta longa, porém necessária, citação tem o propósito de colocar de forma bem clara as dificuldades que desde então sofre a concepção marxista de análise da sociedade e muito especialmente nas sociedades capitalistas modernas. Thërborn ressalta essa dificuldade na medida em que as análises marxistas surgidas a partir daí voltaram-se para a estrutura de classe em si e não para os seus determinantes, ou seja, o estudo da problemática de classes passa a focar as conseqüências do processo e não a origem dele e, por conseguinte, a luta de classe passa a um segundo plano, embora se ressalte a importância da obra de Marx esta importância se dá mais pelo seu caráter explicativo, do que pelo seu caráter contestador da ordem vigente, separando a dimensão científica da sua dimensão ideológica. 29.

(31) Por conseguinte, a problemática das análises de classe tomou corpo na medida que a organização da produção e o reflexo desta na esfera das relações sociais são mais aprofundadas e complexas nos países capitalistas mais avançados, com transformações no perfil do operariado, com o crescimento – absoluto e relativo – dos assalariados; com a presença do Estado na economia, regulando-a ou fazendo o papel de empresário; com as profundas transformações no campo com a introdução de tecnologias que possibilitaram um altíssimo crescimento da produtividade que, entretanto só se viabiliza na grande empresa capitalista. E mais: todo esse conjunto de coisas se refletiu diretamente no campo das relações familiares, na cultura, na arte e na percepção das pessoas acerca do mundo que as envolve. O marxismo respondeu de forma muito lenta ou não respondeu a esse novo conjunto de problemas que emergiram junto com o desenvolvimento das forças produtivas impulsionadas pelo forte incremento tecnológico. A heterogeneidade das respostas, ocorridas na década de 70, já vislumbrava um marxismo em crise e com poucas saídas e, por conseguinte, as soluções propostas desembocaram, na década de 1980, nas mais variadas concepções de classe, o que tornou o problema ainda mais complexo e que afinal provocaram rupturas com o a teoria marxista e com o campo político que o sustentava. Verificado que o debate acerca das classes sociais já se iniciara na década de 1960, é necessário retomar a discussão acerca da categoria trabalho e a sua “viabilidade epistemológica”, numa sociedade caracterizada pelo poder da imagem, pela superficialidade das relações humanas, pela existência fragmentada e por um 30.

(32) sistema cada vez mais complexo em que se sobressai a rápida velocidade dos avanços tecnológicos, que se expressam na esfera da informação e da comunicação com grande intensidade. A perda de referência dessa categoria torna a análise de classe suscetível de absorver contribuições que acabam por propor uma nova leitura de seu papel na formação da sociedade e do indivíduo. Ademais, um olhar sobre a sociedade moderna leva a enxergar que o elemento que conecta os indivíduos é a mercadoria, já que ela, no seu processo de circulação, passa a incorporar elementos que acabam construindo uma teia de sociabilidade, o que a faz adquirir um caráter de “existência concreta e perene”, diante de um mundo imagético. Ocorre que essa percepção se dá no mundo da pseudoconcreticidade onde estão “as representações comuns que são projeções dos fenômenos externos na consciência dos homens, produto da práxis fetichizada” (Kosik, 1995:15). O trabalho, no seu sentido abstrato e genérico, expressa uma relação entre o homem e a natureza e isso se dá historicamente, em qualquer modo de produção e em qualquer estágio de desenvolvimento das forças produtivas. O trabalho é a categoria fundante da sociabilidade humana, responsável pela transformação do “ser biológico” em “ser social”, porque pressupõe uma construção consciente do objeto que o indivíduo cria (prévia ideação), cujo objetivo é responder a um conjunto de necessidades e que transforma a possibilidade em realidade, mudando-a e iniciando um novo ciclo de criação. @ A articulação entre homem e natureza é, dessa forma, feita pelo trabalho e isso lhe dá um conteúdo processual, ou seja, o desenvolvimento da história é o 31.

(33) desenvolvimento do ser social, o que Lessa (1994) chama de “processo de humanização dos homens”, no qual se revela o controle da natureza pelo homem e a participação cada vez menor daquela na reprodução desta, o que inevitavelmente leva a uma ponte com a sociedade contemporânea e a percepção de que o devir humano pouco ou nada tem a ver com a natureza. Porém, as próprias necessidades imanentes só são atendidas a partir da transformação gestada pelo trabalho, que mantém, embora em menor proporção, seu vínculo com a natureza. O “ser social” (Lessa,1995:141) ou, dito de outra forma, o ato laborativo, está presente na práxis social e conseqüentemente intervêm em todas as esferas da reprodução humana o que inclui a arte, a cultura, a religião, o lazer, etc. A perda da referência do trabalho, como elemento basilar da sociabilidade humana, pode fazer com que outros elementos possam emergir como articuladores dessa sociabilidade, e isto leva a novas concepções teóricas sobre a sociedade que podem basear-se em outras esferas que nada tem a ver como o trabalho. Coube a André Görz (1982) dar base teórica à defesa do fim da centralidade do trabalho. Para esse autor, a Revolução das Forças Produtivas provoca uma queda contundente do capital fixo em relação ao capital total aplicado, e um volume crescente de mercadorias produzidas, decorrentes do desenvolvimento espetacular do progresso técnico. Por conseguinte, a tecnologia torna-se uma variável determinante no processo de valorização das mercadorias. O tempo de trabalho, segundo Görz, deixa de ser uma medida relevante, pois a tecnologia impõe a redução do tempo de trabalho a tal escala que este deixa de 32.

(34) ser a baliza para o processo de formação do preço. Todo esse processo provocou mudanças sócio-culturais com o trabalho perdendo sua importância relativa frente às relações sociais, enquanto que o indivíduo passa a ter como seu objetivo maior “livrar-se” do trabalho, ou melhor, aumentar seu tempo ocioso. Sem o trabalho como referência, a sociedade passa a mover-se pelo impulso dado pela revolução autônoma das forças produtivas e não mais pela luta entre as classes sociais, pois a tecnologia permite revolucionar a divisão do trabalho, tornando o trabalhador absolutamente destituído de apego ao local de trabalho, perdendo a noção de espaço de coletividade e, por conseguinte, torna-se destituído do senso de “pertencimento” à sua classe. A tese de Görz, que teve forte audiência em boa parte da esquerda brasileira, conduz o movimento dos trabalhadores a uma posição “adaptativa” às condições tecnológicas o que requer uma luta pelos ganhos advindos do progresso tecnológico, afastando a perspectiva de ruptura até por que com a redução do tempo de trabalho necessário criar-se-ia um “tempo livre” para que o trabalhador desse vazão ao seu processo individual de criação, inserindo-o definitivamente na lógica da dinâmica da nova sociedade. Por outro lado Kurz, em “O Colapso da Modernização” (1992) vai mais além, pois não identifica uma crise da sociedade do trabalho mas uma crise do “paradigma da sociedade industrial”, dando um aspecto totalizante à problemática. De acordo com Kurz a crise se dá no sistema mundial produtor de mercadorias e, portanto do trabalho abstrato, ou seja, é a própria concepção de trabalho que está em discussão. 33.

(35) Partindo da idéia de Görz acerca da força impulsora e transformadora do progresso tecnológico, chega-se à concepção de que esta força assume o papel de “força produtiva direta” que, ao se ampliar devido ao seu próprio progresso, torna a divisão do trabalho insuficiente para explicar a reprodução do sistema e como o preço do trabalho vai barateando, sua importância com relação ao incremento tecnológico perde uma importância relativa diante do novo investimento produtivo. Na visão de Kurz, a expressão “moderna” do capital (a tecnologia) torna “desimportante” o uso da força de trabalho e, como conseqüência, a concepção de exploração, construída na sociedade industrial do século XIX e grande parte do século XX, cai por terra, o que faz relegar a luta de classe ao museu do pensamento sociológico e – de forma direta – considera superado o marxismo. Para contornar a crise, sempre na visão de Kurz, é mister que a humanidade mude sua própria racionalidade e coloque a “política tradicional” num plano secundário e lançando no cenário da luta política os “novos movimentos sociais”, que podem construir vínculos corporativos baseados nas conquistas dos avanços tecnológicos e daí retirando as possibilidades de negociar compensações futuras. O marxismo, nessa visão, perde sua capacidade explicativa acerca do processo de reprodução do sistema e o proletariado perde sua força política ao perder sua ideologia. Para Braga: Kurz transforma o fetiche em forma social totalizante contra a qual não é possível resistir. A lógica da história reduz-se ao movimento irracional do capital, fundado na concorrência, em sua corrida cega e desenfreada pelo lucro. A naturalização (...) da divisão capitalista do trabalho, decorre do entendimento de que a luta de classes somente torna-se inteligível quando situada no bojo do sistema de trocas, isto é, enquanto luta distributiva. (Braga, 1997:108-9) 34.

(36) Para Kurz, superada a “saída socialista”, resta como solução para a humanidade uma mudança de racionalidades que remetem à política no seu “sentido tradicional”. Segundo o autor, o trabalho, na sociedade contemporânea, enfrenta uma mudança sócio-cultural perdendo sua importância relativa frente às relações sociais, e o objetivo do indivíduo passa a ser a “libertação” do trabalho. Sem o trabalho como referência, a sociedade passa a mover-se pela “revolução autônoma das forças produtivas” e não mais pela luta de classes, pois a tecnologia permite revolucionar a divisão do trabalho sem produzir rupturas sistêmicas e produz um trabalho sem apego ao local de trabalho, o que destrói o senso de “pertencimento” a uma classe. O desaguadouro político é a desmobilização do movimento dos trabalhadores e uma postura “adaptativa” dos sindicatos que passam a lutar por ganhos oriundos do progresso técnico, ou seja, uma postura passiva. A visão de Kurz, assim como a de Görz, parte de uma visão funcional da categoria trabalho, o que torna “prisioneira” do desenvolvimento das forças produtivas do capital, expondo seu forte viés economicista, chegando ao “fatalismo tecnológico” (Braga, 1997:95). Essa concepção de trabalho deturpa a verdadeira essência da mesma, posto que o elemento fundador da aceitação dela como eixo explicativo da sociabilidade humana é a sua processualidade histórica e a sua capacidade de ser o elemento que está presente em todas as esferas do agir e pensar do homem. A categoria trabalho, por conseguinte, deve ser vista como elemento essencial da sociabilidade humana. Considerando o trabalho como o trabalho em 35.

(37) geral, produtor de valores de uso, pode-se dizer que sua gênese é a gênese do ser humano, sendo uma condição de sua existência, posto que representa, independente do modo de produção, uma mediação permanente entre o homem e a natureza, quaisquer que seja o grau dessa mediação. Além disso, como núcleo central do processo de formação do ser social, o trabalho é o alicerce do desenvolvimento das demais funções e comportamento considerados “humanos”, pois ele só se concebe a partir de existência de relações sociais e, por conseguinte, o próprio desenvolvimento da intelectualidade. Nakatani expõe a questão: O processo de trabalho, no sentido que utilizamos, constitui-se na contínua interação entre o homem e a natureza. Através deste processo, ele atende suas necessidades vitais e apropria-se da natureza, transformando-a e humanizando-a. Transforma a natureza segundo as finalidades que põe concreta e objetivamente e a humaniza, internalizando-a em sua consciência em uma forma específica de apropriar-se. A formação da consciência humana e a humanização da natureza consistem no processo de libertação do homem das determinações e causalidades impostas pela natureza. O ser, enquanto natural, sofre a cadeia de causalidades próprias da sua condição. O ser social cria conscientemente sua própria cadeia de causalidades e a impõe à natureza segundo a sua finalidade. Neste processo, o ser que se torna social, inverte a relação sujeito/objeto. Enquanto ser natural, faz parte da natureza e é comandado pelas leis próprias da natureza. Enquanto ser social destaca-se da natureza, transforma-se e a modifica segundo suas intenções. Ao constituir-se como ser social constitui, também, um conjunto de relações com outros homens. O homem não surge como indivíduo isolado, mas em sociedade e a relação, agora, é entre o ser social como sujeito e a natureza como seu objeto. Assim como o ser humano cria-se como resultado do seu trabalho, ele liberta-se da natureza através deste mesmo trabalho. (Nakatani, 2001: 06). É a “libertação” do homem da natureza que constitui o processo de humanização, tornando-o sujeito e fazendo com que ele (o homem) torne-se o protagonista dessa relação interativa com a natureza e o meio em que vive e se reproduz. 36.

(38) Lessa (1996), contrapondo-se aos defensores do fim da centralidade da categoria trabalho, defende que este possui dinamicidade ao assumir configurações distintas, o que lhe dá um inquestionável conteúdo histórico, sendo portadora de “todo o desenvolvimento passado”, a partir da premissa que quando o homem, através do trabalho, transforma a natureza, acaba por transformar a si mesmo, ou seja, a cadeia de processos que se verifica a partir da ideação e objetivação do trabalho é uma marca concreta na sociedade. Para o autor: Este complexo objetivação-exteriorização é o solo genético do ser social enquanto uma esfera ontológica distinta da natureza. A distinção fundamental entre a sociedade e a natureza, já dizia Vico, está em que o mundo dos homens é um construto humano, enquanto a natureza não o é. Os objetos construídos pelo trabalho apenas poderiam surgir enquanto objetivações de finalidades ideais; eles incorporam determinações que emergem do fato de terem um pôr teleológico na sua gênese. (Lessa,1996:05). Prossegue Lessa:. [...] podemos compreender porque o trabalho é o momento predominante do complexo formado pela sociabilidade, pela linguagem e pelo próprio trabalho. É ele o solo genético do novo que é incessantemente produzido na reprodução social; novo este que é o fundamento ontológico último da tendência histórica de desenvolvimento do gênero humano a patamares sempre superiores de sociabilidade. (Lessa, 1996:10). Mesmo quando o debate envolve as diferenciações, muitas delas artificiais, entre trabalho produtivo e improdutivo, a perspectiva da centralidade daquele não se perde. Marx (1980) concebe o “trabalho produtivo” como sendo aquele que produz mais-valia e ressalta que este é o ponto de vista do capital e, como tal, deve ser interpretado, embora o processo de valorização do capital não se restrinja somente ao processo de produção de mercadorias. 37.

(39) O importante é dissociar o real significado de trabalho produtivo, quando este se refere à produção objetiva de mercadorias e o trabalho produtivo que remete à forma social que se põe no sistema capitalista de produção. O trabalho produtivo é, pois, uma das modalidades do trabalho abstrato, este sim o elemento central para a explicação das relações sociais existentes na sociedade. As particularidades que envolvem os variados tipos de trabalho estão indissoluvelmente ligadas à totalidade do modo de produção capitalista, ou seja, se subordina à lógica do seu processo de reprodução, cujo pilar central é a produção de mais-valia. O conceito de trabalho produtivo é vinculado à produção direta de mais-valia, aparentando ser uma postura “ortodoxa” quando comparada às diversas concepções desse conceito no pensamento sociológico moderno. Entretanto sua postura é exatamente no sentido de evitar uma “ampliação” desse conceito até os limites do que vem a ser produtivo e, nesse contexto, o próprio capitalista pode ser enquadrado como “produtivo”, na medida em que ele vem a ser concebido como um elemento necessário ao processo de produção de mercadorias, visto ser ele quem adianta o capital que mobilizará a força de trabalho. Para Lessa (2005) a expansão desmesurada do conceito de trabalho produtivo faz dissolver o proletariado entre os assalariados, fazendo emergir uma “hipótese” de que o trabalho intelectual torne-se um “produtor efetivo” do conteúdo material da riqueza social, o que leva inexoravelmente à percepção de que o proletariado, enquanto tal, perca o potencial elemento de ruptura com o sistema capitalista, o que significa o fim de sua centralidade no processo de construção da revolução emancipadora.. 38.

(40) E a centralidade do trabalho é, também, aparentemente dissolvida na própria hierarquização do processo de gestão capitalista que tende a “construir” o indivíduo empreendedor, um trabalhador que tem possibilidade de dirigir seu negócio, se estiver qualificado, ou seja, se for “adaptável” às novas condições de reprodução do capital ou um colaborador, submetido ao processo de intensificação da extração da mais-valia, quer em termos relativos (próprio do capitalismo contemporâneo) ou absolutos (intensificação do trabalho). O trabalhador assume para si a tarefa de auto-exploração, liberando o Capital de exercer um controle direto sobre ele. A nova forma de organização do capital cria uma nova Divisão Internacional do. Trabalho. (DIT);. uma. dinâmica. vertiginosa. das. transações. bancárias. internacionais e das bolsas de valores; a explosão midiática e informacional: o processo acelerado de automação; a aristocratização das lideranças sindicais e sua inevitável burocratização e um certo deslocamento da economia das novas formas de sociabilização, ou seja, não se pode pensar a classe e sua formação apenas do ponto de vista das relações de produção. É com base nesta realidade que as teorias sobre o fim da centralidade do trabalho proliferam e grande parte delas tem um conteúdo adaptativo ou de negação de qualquer perspectiva de ruptura. Partido da premissa da viabilidade epistemológica da categoria trabalho e aceitando o conceito de classe como uma relação social, é possível analisar o impacto que as mudanças ocorridas no capitalismo contemporâneo, provocaram nas organizações políticas e nos movimentos sociais oriundos do proletariado urbano e rural, mas também é possível identificar como esse processo se desenvolveu e como contribuiu para o aprofundamento da deformação da experiência do socialismo na URSS. 39.

(41) Dessa forma não se pode colocar apenas nas modificações sociais e produtivas, ocorridas no sistema capitalistas, o peso da explicação do processo de desorganização. e. recuo. que. ocorreu. no. movimento. dos. trabalhadores,. especialmente no último quartel do século passado. Alias Arnason (1989) já colocava essa perspectiva a partir da “adaptação” do materialismo dialético, feita a partir da chegada ao poder de Kruschev, e que desembocou numa série de análises das sociedades pós-revolucionárias na década de 60 dentro dos países comunistas. O debate foi travado pelo brejnevismo no final da década de 60 e fossilizou-se no discurso oficial soviético. Braga (1997) afirma que a tese do “desaparecimento” do trabalhador como força central do processo de reprodução ampliada e, por conseguinte, o fim do seu significado de sujeito histórico antagônico aos proprietários dos meios de produção, tem colhido simpatia entre os diversos segmentos da esquerda, que passaram a considerar as mudanças oriundas dos avanços tecnológicos como elementos constitutivos de uma nova “racionalidade econômica” e, por conseguinte, a novos contornos nas relações sociais e políticas que teriam um caráter mais evolutivo do que revolucionário, a partir de uma melhor distribuição da riqueza, a organização dos movimentos sociais e das camadas populares através de uma maior participação política. Tudo isso dentro dos marcos institucionais do sistema capitalista. Torna-se evidente que toda a construção de arcabouço teórico de negação à centralidade do trabalho é um dos reflexos do processo de financeirização do capital, que lançou o modo de produção capitalista num novo patamar no que se refere às relações sociais.. 40.

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