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CRIME E PECADO CRIMINE E PECCATO. 1 Introdução

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CRIMINE E PECCATO

Maura da Silva Leitzke1

RESUMO:

A relação entre direito e religião remonta à história da criação da humanidade. Para se entender o direito penal como sistema retributivo de condutas, há a necessidade de se buscar nas origens religiosas o conceito de transgressão e seus refl exos na evolução histórica, que permite a análise crítica da relação existente entre o crime e o pecado. Palavras chaves: Pecado; Crime; Retribuição.

SOMMARIO:

Il rapporto tra diritto e religione risale alla storia della creazione dell’umanità, per capire la legge penale, come i tubi del sistema di castigo, vi è la necessità di cercare le origini religiose del concetto di trasgressione ei suoi eff etti sulla evoluzione storica, che permette l’analisi critica del rapporto tra crimine e peccato.

Parole chiave: Pecatto; Crimine; Castigo.

1 Introdução

A humanidade frente à sua experiência jurídica tem demonstrado em sede de estruturas

normativas ou modelos jurídicos que a vida da norma não nasce e se desenvolve com base em

modelos abstratos postos por um ato de autoridade, mas como uma contínua experiência de

modelos concretos, buscando de maneira formal uma adequação diante das aparentes

necessi-dades experimentadas, o que acontece sempre após avanços e recuos.

A necessidade de um regramento surge do próprio existir do indivíduo e sua relação com

o todo, uma modelagem jurídica que a humanidade desenvolve a partir de uma tomada de

cons-ciência de seu ser social ou ser coletivo, com limites e deveres recíprocos entre os consociados,

numa espécie de associação positiva. (PAUPÉRIO,1972, p. 14).

1 Doutoranda no PPGEDU da Universidade de Passo Fundo. Mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS (2013). Especialista em Ciências Criminais pela Universidade Comunitária de Chapecó- UNOCHAPECÓ (2009). Graduação em Direito pela Universidade de Passo Fundo- UPF (2006). Professora de Direito Penal e Processo Penal, Estatuto da Criança e Adolescente, Direito de Informática na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e Faculdades João Paulo II. Acadêmica do Curso de Pedagogia e Especialização em Ensino em EAD pela Universidade Paulista, Advogada atuante desde 2006.

(2)

2 Relação entre crime, cultura e religião

A partir da ideia de social e coletivo, a humanidade experimenta também a invasão de

direitos, em que indivíduos na busca de maior espaço ultrapassam os limites que lhes são

impos-tos, chegando assim a lesão do direito alheio, bem como a supressão do indivíduo que pudesse

frear essa expansão, surgindo então a ideia de crime (HESNARD, 1971, p. 15)

A presença do crime na sociedade é histórica, remonta toda a trajetória da humanidade

e está diretamente associada à ideia de pecado, fato que ainda pode ser percebido, pois, há

presente ainda uma forte ligação entre o mundo laico e os ideais religiosos que permeiam o agir

humano.

É a ideia que se tem da pessoa humana, que norteia a organização e o planejamento do

sistema social, são estudos antropológicos bíblicos que proporcionam uma visão sobre a

identi-dade do ser humano, questionando quem é este ser, cuja existência é de tamanha importância

que infl uencia na vida de todos os demais seres.

Ao apresentar nossa “ Antropovisão” aceitamos as visões que nos apresentam as demais Antropologias. Física, Cultural ou fi losófi ca e mesmo de outras ciências como a Biologia. Admitimos que o homem seja um “ Animal racional” gozando da capacidade do conheci-mento inteligente e de decisões livres. Reconhecemos que o ser humano é um “ ser de necessidades” e capacidades correspondentes; não duvidamos de que a pessoa humana seja um “ ser histórico”, criador de cultura e admitimos todas as demais características psicológicas, ético-sociais das pessoas, com sua relatividade, limites e desejos insaciá-veis. Ressaltamos seus questionamentos sem fi m e a forma da INSTITUIÇÃO, ao formular certezas e elaborar respostas (

GHELLER, 1999. p.10).

O livro de Genesis na Bíblia Sagrada, quando da narrativa da criação humana

2

, descreve

de forma bastante minuciosa o episódio do cometimento do pecado original perpetrado por Adão

e Eva

3

, mostrando que a civilização traz em seu íntimo a idéia de crime e transgressão da norma

2E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Tigre; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates. E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar. E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele. Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea. Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam.

3 Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse à mulher:

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Jul – Dez de 2016 • Vol. 1 • Número 1

sempre que há choque de interesses.

Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de fi gueira, e fi zeram para si aventais. E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me. E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fi zeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi. Então o SENHOR Deus disse à serpente: Porquanto fi zeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida. E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz fi lhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes. E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu. Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore. E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; e pôs ali o homem que tinha formado. E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e se tornava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom; este é o que rodeia toda a terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdélio, e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom; este é o que rodeia toda a terra de Cuxe. E o nome do terceiro rio é Tigre; este é o que vai para o lado oriental da Assíria; e o quarto rio é o Eufrates. E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar. E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele. Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea. Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; E da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam.

Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim? E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de fi gueira, e fi zeram para si aventais. E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me. E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses? Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fi zeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi. Então o SENHOR Deus disse à serpente: Porquanto fi zeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida. E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz fi lhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. E chamou Adão o nome de sua mulher vida, e coma e viva eternamente, O SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada infl amada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.

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A narração do pecado original deve ser analisada de acordo com sua simbologia, o

ten-tador não se faz presente, pois, é representado pela serpente, animal venerado como símbolo

de fertilidade e vida, mas também, como animal prudente e ardil, razão pela qual engana, seduz

e força a superar os limites da natureza criada, fazendo com que Eva caia em tentação.

A serpente em nenhum momento obriga Eva a cometer o pecado original, somente

de-monstra a possibilidade de igualdade com o criador, o acesso a um conhecimento divino, a

sa-bedoria plena, o compartilhamento do saber existente na árvore da vida, uma evidente batalha

entre o bem e o mal, em que o indivíduo representado por Eva exerce sua faculdade de escolha.

(CIMOSA, 1987.p.48-49).

O resultado e o efeito da transgressão são imediatos, ao invés de sabedoria divina Adão

e Eva descobrem-se nus em sua mais profunda miséria, não alcançam o que buscam, a

igualda-de igualda-de Deus, mas igualda-despertam seu igualda-desprezo, tendo que arcar com as consequências igualda-de seus atos.

Também, os fi lhos de Adão e Eva, transgridem a lei de Deus e tornam a pecar

4

, a morte

de Abel resultado da inveja de Caim dá início a uma expansão do mal pelo mundo, com a

primei-ra morte de um homem por seu semelhante, temos neste fato o maior e mais cruel dos pecados,

matar um igual. Esse pecado é punido severamente por Deus, castigo que se segue por várias

gerações.

A ideia de crime e pecado está entrelaçada, embora na bíblia pouco se encontre a

pala-vra crime, e quando isso acontece a mesma está ligada mais a pessoa de Jesus Cristo no novo

testamento, nas escrituras sagradas prefere-se tratar os atos contrários aos ordenamentos de

Deus como pecados, pois, tal afi rmação soa como aversão ao divino.

Na história da concepção de pecado, o povo judeu não entendia o castigo por seus atos

como resultantes da ira de Deus pela desobediência de suas normas, muito antes como uma

4E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um homem. E deu à luz mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fi zeres, não é certo que serás aceito? E se não fi zeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou. E disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele disse: Não sei; sou eu guardador do meu irmão? E disse Deus: Que fi zeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra. E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão. Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na terra. Então disse Caim ao SENHOR: É maior a minha maldade que a que possa ser perdoada. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua face me esconderei; e serei fugitivo e vagabundo na terra, e será que todo aquele que me achar, me matará. O SENHOR, porém, disse-lhe: Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado. E pôs o SENHOR um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer que o achasse. E saiu Caim de diante da face do SENHOR, e habitou na terra de Node, do lado oriental do Éden. E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e ele edifi cou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu fi lho Enoque; E a Enoque nasceu Irade, e Irade gerou a Meujael, e Meujael gerou a Metusael e Metusael gerou a Lameque. E tomou Lameque para si duas mulheres; o nome de uma era Ada, e o nome da outra, Zilá. E Ada deu à luz a Jabal; este foi o pai dos que habitam em tendas e têm gado. E o nome do seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e órgão. E Zilá também deu à luz a Tubalcaim, mestre de toda a obra de cobre e ferro; e a irmã de Tubalcaim foi Noema. E disse Lameque a suas mulheres Ada e Zilá: Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar. Porque sete vezes Caim será castigado; mas Lameque setenta vezes sete. E tornou Adão a conhecer a sua mulher; e ela deu à luz um fi lho, e chamou o seu nome Sete; porque, disse ela, Deus me deu outro fi lho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou. E a Sete também nasceu um fi lho; e chamou o seu nome Enos; então se começou a invocar o nome do SENHOR.

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extensão consequente do próprio pecado, o que restou claro na refl exão feita por Bruce Vawter

em “Missing the Mark

5

”. Da mesma forma, creditavam a recompensa como fruto resultante de

seu agir reto, pensamento compartilhado por Tomás de Aquino, que afi rmava que Deus não se

incomodava com a conduta humana, sua preocupação tinha início quando o homem praticasse

atos que causem mal a si próprios (

KEENAN, 2001. p.11).

Pecar é cometer uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é traição ao

amor verdadeiro que deve existir entre criatura, criador e o semelhante, por causa de um apego

perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. Pecado é

defi nido como um ato ou um desejo contrário a lei eterna (WILHELM, 1969. p. 71).

De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, os pecados podem ser classifi cados

segundo seu objeto, como em todo ato humano, ou segundo as virtudes a que se opõem, por

excesso ou por defeito, ou segundo os mandamentos que eles contrariam, mas o mais

importan-te é a identifi cação da origem do pecado, que é o coração do homem, no exercício de seu livre

arbítrio.

No coração reside também a caridade, princípio das obras boas e puras, que o pecado

fere. “Com efeito, é do coração que procedem más inclinações, assassínios, adultérios,

prosti-tuições, roubos, falsos testemunhos e difamações. São estas as coisas que tomam o homem

impuro” (Mt 15,19-20).

O pecado cria um circulo vicioso, uma propensão ao próprio pecado; gera o vício pela

realização de atos repetidos. Desse agir, resultam inclinações que obscurecem a consciência e

corrompem a avaliação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e a

reforçar-se, mas não consegue destruir o senso moral até a raiz, pois, mesmo pecando o

indiví-duo tem a possibilidade de arcar com sua responsabilidade e por um fi m a esse círculo vicioso.

A entrega dos Dez Mandamentos é um dos mais signifi cativos acontecimentos do Antigo

Testamento, narrada no livro do Êxodo, capítulos 19, 20 e 24. Do cume do monte Sinai, Deus

proclamou sua vontade por intermédio da lei na forma de Dez Mandamentos, os quais foram

expostos ao povo através de Moises.

O povo israelita prometeu observá-los, dando-se, assim, a aliança entre Deus e os

he-breus, que insistia na promessa que o Senhor dará a seu ao povo sua misericórdia e proteção

e eles, por sua vez, prometeram viver honradamente da mesma forma Deus transmite a Moisés

outras leis eclesiásticas e civis que deveriam ser respeitadas por seu povo

6

.

Portanto, os dez mandamentos, assim como as leis que foram passadas a Moises,

des-tinavam-se a reger não somente a vida religiosa, mas, também, a vida útil da sociedade, visto

que possuem em sua essência a maior base da moralidade, detém princípios considerados

fun-damentais, que regem a sobrevivência da vida em sociedade. Como ressalta Dandolo e Oliveira,

esses ordenamentos aparecem como “constituição” ou “carta Magna” na humanidade. Tamanha

5 Tradução: Errar o alvo.

6 MILEANT, Alexander. Os dez mandamentos de Deus. Fundamentos morais da vida. (tradução Olga Dandolo/Matushka Oliveira) 2002. Disponível em: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/commandments_p.htm. Acesso em: 31 maio de 2016.

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é sua importância, que sua inscrição fora feita em pedra, como sinal de continuidade

7

.

Os Dez Mandamentos, assim como o ordenamento penal, são expressados de maneira

bastante resumida e se limitam em exigências mínimas, assim como as leis que norteiam nosso

sistema jurídico atual, têm a fi nalidade de conceder à humanidade liberdade máxima na

organi-zação de seus afazeres cotidianos, determinando claramente apenas aqueles limites que não

podem ser ultrapassados, sem abalar os princípios da vida comunitária

8

.

É a tradução da Lei de Deus, que, confi ada à Igreja por meio de Moisés, é revelada aos

seus seguidores como marco de vida e de verdade, esses tendo, portanto, o direito de escolha,

pois, receberam a instrução sobre os preceitos divinos que levam a boas ações. Todavia, é

de-ver do homem reto observar as constituições e os decretos emanados da autoridade legítima da

Igreja. Ainda que sejam disciplinares, orientam o agir do indivíduo.

Em uma análise mais estrita dos dez mandamentos, mesmo tendo a sociedade passado

por uma evolução histórica, percebe-se que do quarto mandamento em diante, estão embutidas

normas jurídicas atuais, principalmente as constantes no Código Penal Brasileiro que possui 361

artigos, dentre os quais, poderão ser extraídos os respectivos tipos penais que ainda

permane-cem desde os tempos das escrituras sagradas

9

.

Não há possibilidade de vivência em comunidade se não houver uma confi ança

recípro-ca, se não se manifestar a verdade uns aos outros. A virtude da verdade devolve ao outro o que

lhe é devido, sem que hajam subterfúgios. A verdade observa o meio termo entre aquilo que deve

ser expresso e o segredo que deve ser guardado; implica a honestidade e a discrição. A verdade

é caminho para a justiça, pois, em sua essência o homem deve a seu semelhante a

manifesta-ção da verdade (WILHELM, 1969. p. 71.

A ideia de pecado permeia e ronda a humanidade, basta analisar-se as campanhas

pu-blicitárias

10

que vinculam a ideia de prazer ao pecado, o que leva o interlocutor a imaginar que

prazer e pecado estão diretamente ligados e, na maioria das vezes, se traduz em algo proibido,

pois, representa uma sensação que por muito foi duramente combatida por uma moral forjada

como regra de vida com seus prazeres e proibições, aceitando as regras que nos foram

passa-das sem muita explicação por nossos pais, bem como pela sociedade na qual o indivíduo está

inserido.

Quando Santo Tomás tece refl exões sobre como se dá a ofensa que o pecado infl ige a

Deus, ele o faz a partir de uma perspectiva profundamente humanista, tratando do pecado como

ofensa a própria essência humana e não uma lesão à divindade (AZPITARTE 2005. p.37). O

7 MILEANT Alexander. Os dez mandamentos de Deus. Fundamentos morais da vida. (tradução Olga Dandolo/Matushka Oliveira) 2002. Dis-ponível em: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/commandments_p.htm. Acesso em: 31 maio 2016.

8 http://www.vatican.va/archive/cathechism/: Acesso em 10 jun. 2012.

9 Código Penal Brasileiro.

10 “Quem refl ete sobre o pecado não fi ca indiferente! Prova disso é a utilização do tema do pecado como argumento publicitário: Fumar este cigarro é quase um pecado; Tal café tem gosto de pecado etc., Porque então, o pecado pode servir de suporte para a publicidade? Porque ele nos remete a fatos muito arcaicos de nossa infância, e também a fatos essenciais de nossa vida adulta. É isso que os publicitários compreenderam ao evocar o pecado para vender seus produtos. O pecado não é muitas vezes sentido como a atualização, atém de uma proibição transgredida, de uma promessa de satisfação: “ Você poderá ter mais satisfação”?.(THÉVENOT, Xavier. Pecado – O que é? Como se faz?)

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pecado, portanto, é ação direta contra a própria natureza humana, tendo em vista que todo e

qualquer ato atentatório ao bem da humanidade seja ele individual ou coletivo, estaria afetando o

bem-estar do indivíduo que é o centro da humanidade. A natureza mais profunda do pecado está

no fato de esse impedir de forma efetiva o regular processo de humanização

11

.

Assistimos enfi m, uma considerável evolução no plano da própria noção de pecado,

ten-do grande impacto com a concepção marxista, ainda que tal concepção seja bastante criticada

pelos pensadores contemporâneos. O pensamento marxista marcou de maneira efetiva a

con-cepção do pensamento francês e isso causou um refl exo na concon-cepção do conceito de pecado,

pois, afasta a ideia de que a moral que está diretamente relacionada à ideia de pecado não é

algo inatingível ou divino, é antes um conjunto dos preceitos, aos quais o homem deve

submeter-se, sendo produto ideológico de uma infraestrutura econômica presente em uma determinada

época na história.

Mais ainda, segundo a corrente marxista, a concepção de pecado teria a fi nalidade de

impedir a refl exão sobre as estruturas econômicas alienantes, pois, esse tema manteria o

indi-viduo voltado somente para o próprio ser, sem o questionamento da sociedade como um todo,

tenderia, a encarar as situações em seu lado intimista.

O desacordo das condutas com a vontade de Deus e a intenção de conversão, deixaria o

indivíduo voltado a sua realidade subjetiva favorecendo a resignação a exploração (THÉVENOT,

2004. p. 17). Na visão moral e social, o simples fato de um indivíduo praticar seus atos de acordo

com os atos praticados por um grupo considerado socialmente organizado não signifi ca, por si

só, que seja moralmente bom (OVERBERG, 1999. p. 11-17).

Nasce disso a necessidade de o homem criar mecanismos de controle social, tendo

dado origem ao conceito de crime, dentro do ordenamento jurídico, visto que para o indivíduo é

mais lesivo praticar um crime na visão jurídica do que um pecado, pois aquele tem sanções reais

e não somente efeitos morais.

Poderia se dizer que a diferenciação entre o bom e o mau comportamento, está

direta-mente ligado às concepções construídas por um determinado grupo, seja ele étnico, religioso,

ou organizacional, cada grupo constrói a concepção do comportamento aceitável de acordo com

sua experiência, não havendo a necessidade de que este comportamento seja universalmente

aceito. Birck, citado por Gheller, dá o exemplo dos códigos de moral muito comuns em presídio,

em quadrilhas de trafi cantes de drogas, se olharmos sob o ponto de vista da sociedade como um

todo, poderíamos dizer que esses códigos de conduta estão errados, equivocados que neles não

há a expressão do bom, todavia, se olharmos do ponto de vista do grupo envolvido temos aqui

uma regra que dará continuidade organizada ao grupo, portanto, para ELES, boa (GHELLER,

1999. p. 173-174).

11 O que é terrível num acidente não é que o carro tenha que ir para a sucata, mas a vida que se perdeu entre os escombros. Pecar não é sim-plesmente, infringir uma lei, não cumprir uma obrigação ou não corresponder a uma determinada exigência. AZPITARTE, Eduardo López. Culpa e pecado. p.38.

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3 Considerações Finais

Dessa forma, tem-se que não é função do direito penal, agir como garantidor da

mo-ralidade não universal imposta por uma sociedade que possui valores diversos de acordo com

concepções formadas por cada indivíduo de acordo com suas bagagens pessoais, não se pode

construir uma barreira protetiva por meio do direito penal destinada à proteção particular de uma

moral velada, pois, a sociedade e seus valores estão em plena evolução social e a mudança é

continua, não tendo, o direito, penal condições exercer uma real e efetiva proteção (D’AVILA,

2011, p.35).

Moral e norma possuem estreita ligação, tendo em vista que as duas determinam um

comportamento a ser seguido, no intuito da harmonização entre o agir do indivíduo e a

convivên-cia soconvivên-cial, mas dependem do livre arbítrio desse, que as aceita ou rejeita conscientemente. As

duas possuem um caráter imperativo, tendo em vista que o valor moral intrínseco em uma norma

somente alcança seu valor se o indivíduo livremente a aceita e a segue, da mesma forma, o agir

moral extrai do próprio livre agir o cumprimento da lei.

O objeto da ação garante a ,moralidade. A intenção do sujeito é um elemento essencial para dar o qualifi cativo moral de um ato humano. A intenção é a fi nalidade do ato. É a fi na-lidade que dá valor ao ato humano; ao sujeito da ação. Mas, a intenção não se confunde com o objeto escolhido; (...) As circunstancias da ação são um elemento secundário, mas são indicadores do grau de responsabilidade moral. Circunstâncias podem aumentar ou diminuir a bondade ou a maldade moral dos atos12.

O direito penal não deve ser visto como mandamento do Estado que a cada situação de

confl ito mesmo que excepcional e isolada tenha que dar a solução imediata e individualizada,

antes deve o direito penal agir como criador de fórmulas ordenadoras que agem na sociedade

civil, o ordenamento nasceu na medida, em que os fatos iam ditando as premissas da norma e a

necessidade ia exigindo soluções normativas, adequadas à universalidade.

Referências

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Janeiro, 1971.

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D’AVILA, Fabio Roberto (Org.) Direito penal e política criminal no terceiro milênio: perspectivas e

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Jul – Dez de 2016 • Vol. 1 • Número 1

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PAUPÉRIO, A. Machado. Introdução à Ciência do Direito. Ed. Forense, RJ. 2ª. ed., 1972.

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Recebido: 05 de janeiro de 2016 Aprovado: 31 de outubro de 2016

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