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Ciênc. saúde coletiva vol.22 número6

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TEMAS LIVRES FREE THEMES

1 Departamento de Odontologia Social, Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas. Av. Limeira 901, Areião. 13414-903 Piracicaba SP Brasil. [email protected] 2 Universidade Metodista de Piracicaba. Piracicaba SP Brasil.

Relação entre classificações de risco utilizadas

para organização da demanda em saúde bucal

em município de pequeno porte de São Paulo, Brasil

Relationship between risk classifications used to organize

the demand for oral health in a small city of São Paulo, Brazil

Resumo As Equipes de Saúde Bucal podem tra-balhar tanto com informações das populações re-lacionadas ao contexto familiar como epidemioló-gicas individuais, através de classificações de risco pensando em equidade e organização do serviço. O propósito do estudo foi avaliar a associação en-tre ferramentas que classificam o risco familiar e o individual. O grupo de estudo consistiu de escola-res das faixas etárias de 5-6 anos e de 11-12 anos classificados para cárie e seus pais para doença periodontal e ambos para o risco familiar. Houve associação entre a classificação de risco para cá-rie nos escolares (n = 128) com a familiar, com Coef C = 0,338 e p = 0,01, indicando que quanto maior o risco familiar há tendência de maior risco de cárie. Da mesma forma, a associação entre a classificação de risco para doença periodontal nos pais, com a classificação de risco familiar, com Coef C = 0,5503 e p = 0,03, indicou que, quan-to maior o risco familiar há tendência de maior risco de doença periodontal. Pode-se concluir que a utilização da ferramenta de classificação de ris-co familiar está indicada, ris-como possibilidade de ser ordenadora das ações do serviço odontológico, organizando sua demanda com maior equidade, nesta porta de acesso.

Palavras-chave Risco, Equidade, Saúde da famí-lia, Saúde bucal

Abstract Oral health teams can work with both information of the people related to the family context as individual epidemiological through risk ratings, considering equity and service orga-nization. The purpose of our study was to evaluate the association between tools that classify individ-ual and family risk. The study group consisted of students from the age group of 5-6 years and 11-12 years who were classified regarding risk of caries and whether their parents had periodontal disease, in addition to the family risk. There was an association between the risk rating for decay in children (n = 128) and family risk classifica-tion with Coef C = 0.338 and p = 0.01, indicating that the higher the family’s risk, the higher the risk of caries. Similarly, the association between the risk classification for periodontal disease in par-ents and family risk classification with Coef C = 0.5503 and p = 0.03 indicated that the higher the family risk, the higher the risk of periodontal dis-ease. It can be concluded that the use of family risk rating tool is indicated as a possibility of ordering actions of the dental service, organizing their de-mand with greater equity, in this access door.

Key words Risk, Equity, Family health, Oral health

João Peres Neto1

Karine Laura Cortellazzi Mendes 1

Ronaldo Seichi Wada 2

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res N Introdução

A Estratégia Saúde da Família (ESF), adotada pelo Ministério da Saúde (MS) como meio de reorga-nização da Atenção Primária à Saúde (APS), trou-xe avanços importantes na saúde e nas condições de vida dos brasileiros, alcançando hoje, mais da metade da população1.As Equipes de Saúde Bucal

(EqSB) inseridas na ESF, através da Portaria-MS 1.444, de 28/12/2000, na expectativa de expan-são das ações em saúde bucal tem se consolidado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS)2. No

entanto, a equidade no acesso a suas ações ainda é um problema a ser enfrentado, principalmente devido à relação das doenças bucais com as con-dições socioeconômicas desfavoráveis3.

O SUS preconiza o uso da equidade como forma de dirimir as iniquidades provocadas por estas condições sociais adversas. Na prática do acesso aos serviços de saúde, o uso deste princí-pio tende a ser uma alternativa factível do ponto de vista local considerando que as desigualdades sociais refletem quase sempre no padrão de saú-de-doença da população e para isso é necessário o uso de informações sobre as condições de vida desta3 e assim priorizar os que mais necessitam.

As EqSB possuem um instrumento básico de reconhecimento da realidade do território, o cadastro das famílias de cada unidade. Nele es-tão contidas informações fundamentais sobre as condições de vida de cada família e sua inserção social – Ficha A do Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). Baseados neste instru-mento, Coelho e Savassi elaboraram uma clas-sificação de risco familiar, com a finalidade de estabelecer prioridades e ser uma ferramenta de avaliação e acompanhamento da realidade social e econômica no contexto de vida de cada famí-lia4. Esta ferramenta, aplicada às famílias

adscri-tas a uma equipe de saúde, pretende determinar seu risco social e de saúde, refletindo o potencial de adoecimento de cada núcleo familiar. Trata-se, de uma ferramenta objetiva de análise do ris-co familiar, através da utilização das chamadas “Sentinelas de Risco” que são as informações presentes na Ficha A e selecionadas por sua rele-vância epidemiológica, sanitária e pelo potencial de impacto na dinâmica familiar. As famílias são classificadas de risco menor a máximo, a partir da soma dos escores que cada sentinela recebe: R1- Risco menor (escore 5 ou 6); R2- Risco mé-dio (escore 7 ou 8) e R3- Risco Máximo (escore maior que 9)5.

Mesmo o Ministério da Saúde assumindo o compromisso de reestruturação do Sistema de

Informação da Atenção Básica (SIAB), objeti-vando a melhora na qualidade da informação em Saúde, através do novo Sistema de Informação em Saúde da Atenção Básica (SISAB), mais espe-cificamente do e SUS AB com seu caráter infor-matizado6, onde paulatinamente a Ficha A está

sendo abandonada, não prejudicará a proposta de classificação de risco familiar pensada por Coelho e Savassi, uma vez que as informações coletadas estão contempladas na nova proposta do eSUS AB.

Para que se contemple o princípio da equi-dade, garantindo atenção prioritária onde e para quem ela se verifique necessária, aos dados da condição familiar devem ser somadas informa-ções epidemiológicas da população adstrita à área de abrangência da unidade, levando-se em consideração a classificação de risco às doenças bucais7. Esta classificação de risco é um

proce-dimento que vem sendo muito utilizado para a organização da demanda, por ser um processo dinâmico de identificação dos pacientes que ne-cessitam de tratamento imediato, de acordo com o potencial de risco, agravos à saúde ou grau de sofrimento8,9.

Sabidamente, a população adulta está exposta a maior risco de desenvolver doença periodontal, enquanto as crianças apresentam maior para a cárie dentária e para se estabelecer o risco indi-vidual para fins de planejamento das ações, po-de-se considerar o agravo mais significativo para o grupo populacional a ser examinado e classifi-cado6. Para tanto, a Secretaria de Estado da

Saú-de Saú-de São Paulo – SES/SP propõe a classificação de risco individual, considerando a atividade da doença para determinar a prioridade no atendi-mento, para a cárie e a doença periodontal10,

uti-lizando-se de duas ferramentas que classificam os indivíduos em três categorias, para as morbi-dades citadas que são: Baixo risco- sem sinais de atividade de doença e sem história pregressa de doença; Risco moderado- sem sinais de atividade de doença, mas com história pregressa de doença e Alto risco- com presença de atividade de do-ença, com ou sem história pregressa de doença7.

Estudos relacionando o contexto socioeco-nômico familiar e as morbidades bucais (cárie e doença periodontal) mostram que famílias em risco têm duas vezes mais chances de apresentar a doença cárie11 e que a gengivite e a periodontite

apresentam maiores prevalências nas populações com piores indicadores socioeconômicos, como renda e escolaridade12.

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desordenada, que continua suprimindo a orga-nizada dentro das Unidades de Saúde da Família (USF). Mostrando-se evidente a necessidade de ferramentas que possibilitem priorizar as ações dentro do processo de trabalho das equipes mul-tiprofissionais inseridas nas USF4.

Assim, esta pesquisa busca avaliar a relação entre as ferramentas que fazem as classificações de riscos familiar e individual para a cárie den-tária e a doença periodontal, nas famílias do mu-nicípio de Ubirajara, SP, visando à melhoria da assistência.

Metodologia

Delineamento, local e período do estudo

Trata-se de um estudo transversal explora-tório, de abordagem quantitativa, realizado no período de junho de 2014 a maio de 2015 no município de Ubirajara/SP, com uma população estimada de 4.662 habitantes, fazendo parte dos 68,98% dos municípios do país com população de até 20.000 habitantes13 e há 21 anos com

flu-oretação das águas de abastecimento. Conta com 100% de cobertura populacional pela Estratégia Saúde da Família (ESF), tendo a assistência de três Equipes de Saúde Bucal e uma relação de 1.554 habitantes para cada Cirurgião-Dentista do município.

População

Os sujeitos deste estudo foram os escolares das faixas etárias de 5-6 anos, 11-12 anos de ida-de e seus pais/responsáveis; todos cobertos pelas Unidades de Saúde da Família local. Optou-se por um censo com os escolares pelo fato do mesmo ser recomendado por questões práticas e estatísticas, quando a população de referência é inferior ou igual a 250 indivíduos14, enquanto os

pais/responsáveis foram selecionados através de uma amostragem casual simples pela identifica-ção numérica das famílias, contemplando todas as dez micro-áreas da ESF local após os exames dos escolares participantes, uma vez que já se co-nhecia a identificação numérica das famílias por estes e também pelo fato dos exames nos pais/ responsáveis serem nas residências, o que de-mandaria muito tempo para que todas as famí-lias identificadas dos escolares fossem examina-das, daí o número de pais/responsáveis ser obtido por amostragem e não acompanhar o censo dos escolares.

Foram incluídos todos os escolares que es-tavam matriculados nas duas únicas escolas do município, sendo 140 de 5-6 anos e 98 de 11-12 anos, totalizando 238 escolares, de ambos os se-xos. Como critério de exclusão adotou-se a au-sência em mais de três oportunidades de exame, famílias não cadastradas na ESF e não autoriza-ção através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Ferramentas de Pesquisa

Foram utilizadas duas ferramentas para clas-sificações de risco individuais propostas pela Se-cretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES/ SP), para cárie e doença periodontal, apresenta-das nos Quadros 1 e 2, e outra para classificação do risco familiar, proposta por Coelho & Savassi5,

apresentada no Quadro 3. As classificações de ris-co para cárie e doença periodontal foram dividi-das em três categorias: baixo, médio e alto risco, consideradas variáveis dependentes de acordo com a atividade e história da doença e pontuada a pior situação encontrada.

A classificação de risco familiar foi dividida em quatro categorias, sem risco (escore menor que 5), baixo (escore 5 ou 6), médio (escore 7 ou 8) e alto (escore maior que 9), de acordo com a soma dos escores, sendo que a pontuação de cada condição ou “sentinela” é atribuída à quantidade de indivíduos que a apresentam dentro da famí-lia, ou seja, se forem dois hipertensos, pontua-se com dois (2), se forem dois em condição de dro-gadição, pontua-se com quatro (4); consideradas variáveis dependentes.

Coleta de dados

O pesquisador responsável foi o único a cole-tar os dados, após um período de 8 horas de dis-cussão e treinamento teórico dos critérios ado-tados, com examinador padrão. Os exames dos escolares aconteceram em ambiente escolar, sob luz natural, sentados e com uso de espátula de madeira; foram classificados segundo risco para cárie dentária, enquanto os pais foram examina-dos em seus domicílios, sob luz natural, sentaexamina-dos e com uso de espátula de madeira e classificados segundo risco para doença periodontal; ambos seguindo as recomendações da SES/SP para as classificações adotadas15. Uma taxa de 10% de

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res N

(SIAB), através do uso de arquivos para a classi-ficação do risco familiar, realizados também pelo pesquisador responsável pelo estudo. Foram três oportunidades para realização dos exames e, para tanto, fez-se uma reunião previamente com os pais e/ou responsáveis para exposição do proje-to de pesquisa e apresentação do TCLE de modo que fossem autorizados e se minimizasse as per-das e não respostas, enquanto viés de seleção.

Análise dos dados

Foram criadas tabelas de contingência 3x4

com as frequências e os percentuais de indivídu-os segundo o risco de cárie e doença periodontal de acordo com o risco familiar, com ponto de corte de significância definido em 5% para as associações significativas. Os dados foram anali-sados segundo o Coeficiente de Contingência C (Coef C), indicado para analisar magnitude de associações de variáveis mensuradas ao nível or-dinal, dispostas em tabelas de contingências k x r. Foi utilizado o software Biostat 5.3.

Quadro 1. Classificação de risco individual para cárie dentária, proposta pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Classificação Grupo Situação Individual

Baixo Risco A Ausência de lesão de cárie, sem placa, sem gengivite e/ou mancha branca ativa Médio Risco B História de dente restaurado, sem placa, sem gengivite e/ou mancha branca ativa

C Uma ou mais cavidades em situação de cárie crônica, mas sem placa, sem gengivite e/ou mancha branca ativa

Alto Risco D Ausência de lesão de cárie e/ou dente restaurado, mas com presença de placa, gengivite e/ou mancha branca ativa

E Uma ou mais cavidades em situação de lesão de cárie aguda F Presença de dor e/ou abscesso

Fonte: Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo/ SP, 2012.

Quadro 2. Classificação de risco individual para doença periodontal, proposta pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Classificação Grupo Situação Individual

Baixo Risco 0 Elemento com periodonto sadio X Ausência de elemento no sextante Médio Risco 1 Elemento com gengivite

2 Elemento com cálculo supra gengival B Sequela de doença periodontal anterior Alto Risco 6 Elemento com calculo subgengival

8 Elemento com mobilidade irreversível e perda de função Fonte: Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo/ SP, 2012.

Quadro 3. Classificação de risco familiar, proposta por Coelho e Savassi5.

Dados da Ficha A (SIAB) Escore

Acamado 3

Deficiência Física 3 Deficiência Mental 3 Baixas Condições de

saneamento

3

Desnutrição grave 3

Drogadição 2

Desemprego 2

Analfabetismo 1

Menores de 6 meses 1

Maior de 70 anos 1

Hipertensão arterial 1 Diabetes Mellitus 1 Relação morador/ cômodo

Maior que 1 3

Igual a 1 2

Menor que 1 1

Baixo risco Escore 5 ou 6 Médio risco Escore 7 ou 8 Alto risco Escore maior que 9

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Aspectos Éticos

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Odontologia de Pi-racicaba – UNICAMP.

Resultados

Fizeram parte do estudo 128 escolares, dos 238 inicialmente identificados para a realização do censo, por não apresentarem o TCLE autoriza-dos, ausência em mais de três oportunidades de exame e famílias não cadastradas na ESF local; sendo 81 da faixa etária de 5-6 anos e 47 da de 11-12 anos. Dos 128 escolares examinados foram compostas 124 famílias, pois em quatro delas ha-via dois irmãos; destas, 30 famílias (24,2%) com-puseram a amostra dos pais/responsáveis com 32 sujeitos, pois apenas em duas delas tanto o pai como a mãe estavam presentes e consentiram em participar da pesquisa. Houve uma concordância intraexaminador de 92,86% dos exames dos com os escolares e 87,5% dos exames realiza-dos com os pais/responsáveis.

A Tabela 1 mostra a distribuição dos 128 es-colares que foram classificados para cárie dentá-ria de acordo com a classificação familiar:

Segundo esta distribuição, o percentual de in-divíduos segundo o risco de cárie de acordo com o risco familiar, mostra uma associação entre o risco familiar e o de cárie (Coef C = 0,338 e p = 0,0113). Quando se aumenta o risco familiar, a distribuição dos sujeitos na classificação de cá-rie acompanha esse crescimento; mostrando que quanto maior o risco familiar há a tendência de maior risco de cárie dentária.

A Tabela 2 mostra a distribuição dos 32 su-jeitos (pais/responsáveis) que foram classificados para doença periodontal de acordo com a classi-ficação familiar.

Por esta distribuição, o percentual de indi-víduos segundo o risco periodontal de acordo com o risco familiar mostra uma associação en-tre o risco familiar e risco periodontal (Coef C = 0,5503 e p = 0,0307). Quando se aumenta o risco familiar, a distribuição dos sujeitos na classifica-ção de risco periodontal acompanha esse cresci-mento, mostrando uma tendência de associação entre as duas variáveis.

Discussão

As diretrizes da política nacional de saúde bucal (PNSB) orientam para que as ações e os serviços

Tabela 1. Frequência e percentual dos escolares, segundo risco de cárie em relação ao risco familiar. Ubirajara/ SP, 2015.

Risco Familiar

Risco Cárie

Baixo Risco Médio Risco Alto Risco Total

n % n % n % n %

Sem Risco 43 61,43 18 25,71 9 12,86 70 100

Baixo Risco 15 55,56 6 22,22 6 22,22 27 100

Médio Risco 9 42,86 2 9,52 10 47,62 21 100

Alto Risco 2 20,00 4 40,00 4 40,00 10 100

Tabela 2. Frequência e percentual dos pais/ responsáveis, segundo risco periodontal em relação ao risco familiar. Ubirajara/ SP, 2015.

Risco Familiar

Risco Periodontal

Baixo Risco Médio Risco Alto Risco Total

n % n % n % n %

Sem Risco 12 66,67 5 27,78 1 5,56 18 100

Baixo Risco 2 33,33 3 50,00 1 16,67 6 100

Médio Risco 1 14,29 2 28,57 4 57,14 7 100

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res N odontológicos resultem de um adequado

conhe-cimento da realidade de saúde de cada localidade para, valendo-se disso, construir uma prática efe-tivamente resolutiva16. Conhecer a realidade de

saúde de áreas sob responsabilidade de equipes da ESF, significa saber as condições individuais mais importantes em termos de severidade e prevalên-cia das principais doenças e o contexto familiar em que estão inseridos. Neste estudo optou-se por classificações de risco para conhecer tal rea-lidade de saúde. As classificações utilizadas sina-lizaram para uma associação entre risco familiar e riscos individuais, ou seja, quando se aumenta a vulnerabilidade social das famílias, maior será a possibilidade de se encontrar os maiores riscos individuais para cárie e doença periodontal. Isso significa dizer que os indivíduos mais necessita-dos de atenção em saúde poderão ser encontra-dos através de uma busca ativa das famílias.

O fato dos resultados do estudo apontarem para uma tendência, de que quanto maior o risco familiar, maior o risco individual de cárie e do-ença periodontal, a identificação do risco familiar poderá preceder a identificação do risco individu-al e as famílias de maior risco poderão ser as pri-meiras a participar do cadastramento das condi-ções de saúde bucal, para a identificação do risco individual7. Uma ação proativa por parte da EqSB

nesta perspectiva, utilizando-se da ferramenta de classificação de risco familiar, como ordenadora das ações, permitiria uma abertura em termos de maior acessibilidade com equidade e organização, pois poderiam ser criados espaços nas agendas para as famílias de maior risco e, consequente-mente, seus membros mais necessitados teriam a oportunidade de acesso ao serviço. Tal proposição parece ser mais factível na prática diária do serviço odontológico, em termos de realização e adesão, do que se propor, por exemplo, uma triagem geral de todos os indivíduos, para que sejam classifi-cados individualmente e se organize a demanda, como demonstrou um estudo de Cheachire et al.17

em que apenas 7,8% dos indivíduos participaram de uma triagem, com essa finalidade.

Esta sequência de ação proposta, do campo familiar para o individual, vai ao encontro das diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal, pois se enquadra nas ações que devem ser desen-volvidas pela ESF, ao se realizar o cadastramento domiciliar, desenvolvendo atividades de acordo com o planejamento e a programação realiza-da com base no diagnóstico situacional e tendo como foco a família18.

Nesta sequência, a partir do campo familiar, quando se considera os determinantes sociais

da saúde e a integralidade das ações, um dos fa-tores a considerar é o risco familiar. Para tanto utilizou-se uma escala de classificação de risco proposta por Coelho e Savassi, baseada na ficha A do Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB), para se estabelecer prioridades nas ações às famílias, despontando, então, como uma ferra-menta que permite conhecer a realidade social e econômica destas4, como também organizadora

de demanda, uma vez que tal classificação apre-sentou relação com as classificações individuais, justificando a proposição.

Alguns estudos já foram realizados com a utilização das mesmas classificações de risco pro-posta pelo presente estudo, e apontaram para uma relação do risco familiar alto indicar maior chance de desenvolvimento da cárie dentária, como também indicaram que a maior parte dos indivíduos em alto risco de cárie pertencem a famílias de alto risco11,19, corroborando com a

proposta apresentada, em se ordenar a demanda pelo risco familiar, mostrando a associação entre riscos individuais e familiar, o que deve ser leva-do em consideração.

Em estudo realizado para avaliar a associa-ção de risco familiar com risco de cárie e doença periodontal na cidade de Santo André/SP, seus autores concluíram que os instrumentos e os critérios de risco utilizados devem ser reestrutu-rados e reavaliados em outras populações para que possam contribuir de forma mais efetiva para o planejamento das equipes de saúde bucal na ESF17. Tal estudo adotou as mesmas

classifi-cações de risco individuais para cárie e doença periodontal, propostas pela SES/SP, entretanto utilizou-se de outra elaborada pelos funcionários da Secretaria de Saúde local, diferentemente da utilizada aqui, que se valeu de uma ferramenta utilizada e analisada em estudos anteriores11,19,

que é a Escala de Coelho & Savassi, podendo ser indicativo de que os dados obtidos sejam mais confiáveis. Além disso, trabalhou-se com popu-lações diferentes para os riscos individuais (cárie e doença periodontal), enquanto no estudo rea-lizado em Santo André/SP, foram aplicadas clas-sificações para adultos, diferentemente do que se adotou neste estudo.

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ção das doenças bucais e a busca de equidade na atenção em saúde7. Pereira et al.20 afirmam que a

classificação de risco para cárie, proposta pela Se-cretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES/ SP), que foi utilizada neste estudo, é baseada em evidências científicas e também em várias experi-ências municipais realizadas no estado, e que cer-tamente não é a única forma de classificar os indi-víduos, mas que se coloca como uma ferramenta bastante utilizada, pela facilidade e praticidade de uso20. Outra classificação de risco para cárie,

proposta pela Secretaria de Saúde do Distrito Fe-deral, mostrou-se muito diferente na determina-ção da prioridade do atendimento odontológico curativo da cárie, quando comparada com a do estado de São Paulo, no entanto orienta que esta priorização deve ser de forma conjunta com uma classificação de risco familiar10, como adotado no

presente estudo. Não se buscou analisar as limi-tações que tais classificações possam apresentar, como vários estudos vêm demonstrando, de que o limiar de diagnóstico a partir de lesão cavitada não informa ao epidemiologista e aos gestores de saúde sobre que lesões/indivíduos necessitam de tratamento preventivo e não invasivo, deparan-do-se ainda com uma visão antiga da doença sen-do tratada em serviços públicos apenas através de sua sequela, a cavidade21; mas sim utilizá-las

con-forme preconizadas pela praticidade que muitas vezes o serviço exige.

No Brasil, a maioria dos estudos epidemioló-gicos em saúde bucal concentra-se na população infantil, particularmente nos escolares, abordan-do principalmente a cárie dentária, existinabordan-do uma carência em estudos de saúde periodontal, o que pode dificultar o planejamento mais ade-quado dos serviços de saúde11. Por este motivo

optou-se por classificar os pais/responsáveis para doença periodontal por ser a população mais acometida pela doença. Estudos internacionais têm demonstrado que gengivite e periodontite apresentam maiores prevalências em populações

com piores indicadores socioeconômicos22,23, o

que pode corroborar com o achado deste estudo, que propõe adotar a classificação familiar como ordenadora das ações, uma vez que famílias de maior risco tendem a ter maiores problemas in-dividuais de ordem periodontal.

Barros et al.24 identificaram que a ESF

mos-trou maior cobertura entre a população com pior condição social, entretanto ainda era inade-quada, visto que uma pequena proporção, justa-mente a composta pelos mais carentes, não tinha acesso aos serviços, e atuar de forma ativa nessas famílias, através da classificação e posteriormente oferecê-las a oportunidade de atendimento, pode ser uma alternativa palpável para a alcançar.

Uma possível limitação deste estudo deve-se ao fato da amostra dos pais/responsáveis ter sido pequena (32 sujeitos). Outra limitação se deve ao fato da proposta inicial de classificação de risco familiar adotada, valer-se da Ficha-A do SIAB uma vez que a mesma está em processo de subs-tituição, o que, entretanto, não a inviabiliza, pois todas as informações ou chamadas “sentinelas”, fazem parte da nova metodologia de informação em implantação por parte do MS, o eSUS AB.

Conclusão

Pode-se concluir com este estudo, que a utilização da ferramenta de classificação de risco familiar está indicada, como possibilidade de ser ordena-dora das ações do serviço odontológico, por par-te das EqSB, dada a associação evidenciada entre as classificações estudadas, apontando para uma tendência de que quanto maior o risco familiar, maiores os riscos individuais para cárie e doença periodontal; uma vez que se tem a possibilidade de classificar as famílias do território pelo qual são responsáveis, de uma maneira prática e pla-nejarem as ações, organizando sua demanda na priorização das ações, com maior equidade.

Colaboradores

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Artigo apresentado em 01/10/2015 Aprovado em 10/05/2016

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Tabela 2. Frequência e percentual dos pais/ responsáveis, segundo risco periodontal em relação ao risco familiar

Referências

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