Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em
Gerontologia
ESTUDO DA SEXUALIDADE DAS IDOSAS
COM A DOENÇA DE ALZHEIMER LEVE
Autora
: Silene Ribeiro Miranda Barbosa
Orientadora:
Prof. Dra. Alessandra Rocha Arrais
SILENE RIBEIRO MIRANDA BARBOSA
ESTUDO DA SEXUALIDADE DAS IDOSAS COM A DOENÇA DE ALZHEIMER LEVE
Dissertação de Pesquisa apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília, como requisito para obtenção do Título de Mestre em Gerontologia.
Orientadora: Profa. Dra. Alessandra Rocha Arrais
12,5 cm
7,5 cm 7,5cm
Ficha elaborada pela Biblioteca Pós-Graduação da UCB 05/09/2013 B238e Barbosa, Silene Ribeiro Miranda.
Estudo da sexualidade das idosas com a doença de Alzheimer leve. / Silene Ribeiro Miranda Barbosa – 2013.
108 f.; il : 30 cm
Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2013. Orientação: Profa. Dra. Alessandra Rocha Arrais
1. Gerontologia. 2. Idosos. 3. Alzheimer, Doença de. 4. Mulheres idosas. 5. Comportamento sexual. I. Arrais, Alessandra Rocha, orient. II. Título.
Dissertação de autoria de Silene Ribeiro Miranda Barbosa, intitulada “Estudo
da Sexualidade das Idosas com Doença de Alzheimer Leve”, apresentada como
requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Gerontologia, defendida e aprovada, em 04 de Julho de 2013, pela banca examinadora constituída por:
_________________________________________________ Profa. Dra. Alessandra Rocha Arrais
Orientadora
_________________________________________________ Profa Dra Altair Macedo Lahud Loureiro
Examinadora Interna
Universidade Católica de Brasília - UCB
_________________________________________________ Profa Dra Leila Bernarda Donato Gottems
Examinadora Externa
Escola Superior em Ciências da Saúde – SES-DF
_________________________________________________ Profa.Dra Karla Helena Coelho Vilaça
Examinadora Suplente
Universidade Católica de Brasília - UCB
Agradeço primeiramente a Deus, pela presença constante em minha vida, mesmo nos momentos difíceis, os quais não foram poucos, Ele se fez presente, dando coragem e sabedoria para a minha caminhada.
Aos meus pais que, mesmo distantes, sempre torceram pelo meu sucesso. Às minhas irmãs, que sempre me incentivaram, meu muito obrigada!
Ao meu marido, pela força indescritível que sempre me ofertou. Desculpe-me pelas inúmeras vezes em que precisei priorizar minha dissertação.
Aos meus filhos, Pablo e Rafael, porque, mesmo não querendo, me ausentei da vida diária com vocês. Quantas atividades e tarefas deixamos de fazer juntos! Perdão, meus filhos! Acredito ter finalizado esta etapa!
Aos meus queridos amigos, que sempre me incentivaram, por diversas vezes, fazendo questão de reforçar a minha persistência em meus objetivos.
À minha colaboradora e colega Camila Rodrigues, pela força e olhar atento nos momentos das entrevistas com as idosas e suas cuidadoras.
A toda equipe da Unidade Mista de Saúde de Taguatinga (UMST), principalmente à enfermeira Izabel, que sempre me apoiou.
À Professora Doutora Alessandra Arrais, minha orientadora, que soube me compreender diante das minhas fragilidades pessoais e familiares, dando-me forças e incentivo para continuar a lutar pelo meu sonho de obter o título do mestrado em gerontologia.
[...] se me comporto como uma criança, cerque-me de carinho.
Se estou doente e sou um peso na sua vida, não me abandone, pois um dia terás a minha idade.
Se estou com medo da morte e tento negá-la, ajude-me na preparação do adeus...
A única coisa que desejo neste meu final de jornada é um pouco de respeito e de amor [...].
BARBOSA, Silene Ribeiro Miranda. Estudo da sexualidade das idosas com Doença de Alzheimer Leve. 2013, 108 f. Dissertação (Mestrado em Gerontologia) –
Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2013.
O presente trabalho teve como objetivo compreender a sexualidade das idosas com Doença de Alzheimer Leve e suas manifestações, por meio da percepção das próprias idosas e de suas cuidadoras sobre esta temática. Para sua consecução, realizou-se uma pesquisa parametrizada pela Epistemologia Qualitativa, tendo uma amostra por conveniência formada por três idosas e suas respectivas cuidadoras, que voluntariamente participaram da pesquisa, após indicação da equipe de saúde da Unidade Mista de Saúde de Taguatinga (UMST), do Distrito Federal. A coleta de informações foi realizada entre dezembro de 2012 e abril de 2013, quando foram realizados pelo menos cinco encontros com as idosas e suas cuidadoras na UMST e em suas residências. Nesses encontros, foram realizadas duas entrevistas semi-estruturadas (uma com as idosas e outra com as cuidadoras), e aplicadas os instrumentos da Epistemologia Qualitativa que é uma ferramenta interativa utilizando as duas técnicas projetivas de recorte e colagem ou desenho e técnica da foto das idosas. Os resultados em consonância com a metodologia construtivo-interpretativa, na qual se insere nossa pesquisa, associada a interpretação dos relatos e das técnicas projetivas construíram os indicadores relevantes para compreensão da sexualidade das idosas participantes. Percebemos, consequentemente, que mesmo com a Doença de Alzheimer, a sexualidade é um tema de interesse e que está presente na vida das idosas entrevistadas. Elas revelaram que a sexualidade continua na velhice, e que a doença não as impediu de manter o desejo sexual,
apesar de reconhecerem mudanças no seu “desempenho” junto ao parceiro. A expressão da sexualidade mudou, mas a intimidade o afeto e o amor mantiveram-se presentes. Na percepção das cuidadoras, o desejo sexual e o afeto se mantêm presentes na vida das idosas, no entanto, sentem que elas demonstram receio em conversar espontaneamente sobre esse assunto com seus familiares e amigos. Mas quando são provocadas a falar sobre a temática da sexualidade, não evitam se colocar a respeito. Assim, conclui-se que a Doença de Alzheimer na fase leve não impede a vivência da sexualidade da idosa, parece apenas direcioná-la para ser vivida conforme a oportunidade, o desejo e a disponibilidade dos envolvidos, mas não impõe a abstinência sexual; o que não pode se afirmado nas demais fases da doença. Sugere-se, a inclusão da dessa temática nos serviços oferecidos aos idosos com Doença de Alzheimer leve e seus cuidadores.
This study aimed to understand the sexuality of elderly with Alzheimer's disease and Mild manifestations, through the perception of the elderly themselves and their caregivers on this topic. To achieve it, we carried out a survey parameterized by Qualitative Epistemology, and a convenience sample consisting of three elderly and their caregivers, who voluntarily participated in the study after indication of the health team of Joint Health Unit Wansbeck (UMST) , Federal District. Data collection was carried out between December 2012 and April 2013, when they were held at least five meetings with the elderly and their caregivers in UMST and in their homes. At these meetings, there were two semi-structured interviews (one with the elderly and with other caregivers), and applied the tools of Qualitative Epistemology which is an interactive tool using both projective techniques of cutting and pasting or drawing and photo technique of elderly. The results in line with the constructive-interpretative methodology, which fits our research, the interpretation of the associated reports and projective techniques built indicators relevant to understanding the sexuality of older participants. We realize, therefore, that even with Alzheimer's disease, sexuality is a topic of interest that is present in the lives of the women interviewed. They revealed that sexuality continues in old age, and the disease is not prevented them from maintaining sexual desire, despite recognizing changes in their "performance" by the partner. The expression of sexuality has changed, but the intimate affection and love remained present. Perception of caregivers, sexual desire and affection remain present in the lives of elderly, however, feel that they are uneasy spontaneously talk about this issue with your family and friends. But when they are due to speak on the topic of sexuality, do not avoid placing about. Thus, we conclude that Alzheimer's disease in mild stage does not prevent the experience of sexuality of older, direct it only seems to be experienced as an opportunity, the desire and the availability of those involved, but does not impose abstinence, which can not be stated in the remaining stages of the disease. It is suggested the inclusion of this theme in the services offered to the elderly with mild Alzheimer's disease and their caregivers.
APROXIMAÇÃO DO TEMA ... 9
INTRODUÇÃO ... 100
1 REVISÃO DE LITERATURA ... 144
1.1 ENVELHECIMENTO E GERONTOLOGIA ... 144
1.2 SEXUALIDADE DO IDOSA ... 166
1.3 DOENÇA DE ALZHEIMER ... 200
1.4 SEXUALIDADE, VELHICE E ALZHEIMER ... 255
2 OBJETIVOS ... 288
2.1 OBJETIVO GERAL ... 288
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 288
3 MÉTODO ... 29
3.1 ESCOLHA METODOLÓGICA ... 29
3. 2 LOCAL DO ESTUDO ... 300
3. 3 PARTICIPANTES DO ESTUDO ... 30
3.3.1 Critérios de inclusão ... 34
3.3.2 Critérios de exclusão ... 34
3.4. RECURSOS INSTRUMENTAIS PARA PRODUÇÃO DE INFORMAÇÕES ... 34
3.5 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE INFORMAÇÕES ... 35
3.6 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DE INFORMAÇÕES ... 37
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES: CONSTRUÇÕES A PARTIR DA VIVÊNCIA DAS PARTICIPANTES ... 40
4.1 ANÁLISE DOS RELATOS DAS IDOSAS COM ALZHEIMER LEVE ... 40
4.2. ANÁLISE DOS RELATOS DAS CUIDADORAS SOBRE AS IDOSAS COM ALZHEIMER LEVE ... 73
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 86
REFERÊNCIAS ... 88
APÊNDICE C - Roteiro de Entrevista da Idosa ... 99
APÊNDICE D - Roteiro de Entrevista da Cuidadora ... 10101
APÊNDICE E - Termo de Consentimento para uso da Fotografia ... 1022
APÊNDICE F - Foto: Sra. Amorosa ... 1033
APÊNDICE G - Recorte: Sra. Amorosa . ... 1044
APÊNDICE H - Foto: Sra. Simplicidade ... 1055
APÊNDICE I – Recorte: Sra. Simplicidade ... 1066
APÊNDICE J – Foto: Sra. Trabalhadora... 1077
APROXIMAÇÃO DO TEMA
Dentre as alterações neurológicas, as demências têm sobressaído no acometimento das idosas. Com o avançar da idade a Doença de Alzheimer (DA) tem se destacado entre os quadros demenciais nessa fase da vida. A DA é um problema de saúde pública, pela sua crescente incidência e pelo alto custo financeiro frente às necessidades de cuidado.
A associação da análise da sexualidade da idosa com a Doença de Alzheimer tornou-se necessária, pelo tabu observado quando se trata da sexualidade de idosas, principalmente, aqueles que se encontram doentes. A sexualidade humana é uma temática que muito me atrai e observo em pleno século XXI, que ainda há dificuldade na abordagem do tema, sobretudo quando relacionada as idosas.
Diante da prevalência das demências nas idosas, e da expectativa aumentada de vida dos mesmos, nasceu o desejo de estudar a tríade: idosa, Doença de Alzheimer e sexualidade. Recentemente, descobri que idosas da minha família estão com diagnóstico provável de Alzheimer. Percebi a resistência na aceitação da situação, e com o passar dos dias, a necessidade de informações aumenta a cada minuto. A impaciência no contato diário tem deixado a necessidade de um esclarecimento maior de como se processa a doença. O esclarecimento diante da atitude a serem tomada precisa ser pontuadas em todos os ângulos, pois a incógnita do desconhecido para o portador de Alzheimer poderá surpreender o cuidador.
A complexidade desta associação de núcleos de sentido descritores traz mistérios que envolvem e aumentam a curiosidade cientifica, além é claro, que o entendimento sobre a sexualidade sempre foi questionável, mas nem sempre respondido a altura de esclarecer o questionador tornando esclarecido quanto ao assunto.
INTRODUÇÃO
Há tempos éramos considerados um país jovem, e hoje somos um país de
“cabelos brancos”, trazendo como consequência a preocupação quanto ao
atendimento à população idosa. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2025, o Brasil será o sexto país com maior número de pessoas idosas do mundo.(INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2010).
A preocupação diante da posição que o país poderá ocupar em 2025, fortalece, enquanto gerontóloga, a necessidade de contribuir com estudos e conhecimentos para dar subsídios aos cuiinformações com as idosas. No entanto, a vivência familiar com idosas com a Doença de Alzheimer, e a preocupação da sexualidade exercebada tem acarretado em muitos questionamentos em relação à atitude a ser tomada.
O envelhecimento é presente no meio familiar. E, na soma deste processo, a probabilidade da Doença de Alzheimer tem sido uma suspeita até o presente momento quanto ao meu pai. O estudo desta tríade – sexualidade, idosa, e Doença de Alzheimer, partiram da necessidade e da preocupação quanto aos cuiinformações a oferecer para a idosa, além de orientação necessária aos cuidadores/cuidadoras.
Considerando que o envelhecer é um processo fisiológico e natural pelo qual todos os seres vivos vão passar (se sobreviverem!) e que pode vir a ser a fase mais longa do desenvolvimento (BRASIL, 2001), a idosa, dentro de suas particularidades biológicas, morfológicas, funcionais, culturais, intelectuais, precisa começar a viver este momento como único, como mais uma fase do seu ciclo vital, e não necessariamente a pior delas.
O amadurecimento adquirido com os passar dos anos pode trazer uma beleza diferente, cujos pontos fortes estão depositados na inteligência sobre a forma de visualizar a vida, usufruindo-a com qualidade e satisfação.
Segundo Santos (2003, p. 32), “nossa sociedade é dominada pelo mito do
belo, da juventude eterna, do narcisismo, e a velhice quando chega, é como um
assalto... o velho como o jovem, tem apego à vida, independente do tempo”. Assim,
na velhice, há alterações específicas e mais complexas que as dos demais ciclos da vida, que nem sempre são reconhecidas quando chegam.
Reconhecendo-se as inúmeras alterações, fisiológicas ou não, serão discutidas e enfocadas as alterações neurológicas que acompanham o envelhecimento, precisamente, as demências que estão entre as doenças mais encontradas nas idosas. Com destaque, a Doença de Alzheimer (DA) pode trazer uma realidade cruel tanto para a idosa quanto para seus familiares.
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva, heterogênea nos seus aspectos etiológico, clínico e neuropatológico (MACHADO, 2011). Conforme avança a classificação, a idosa deixa de ter a consciência de seus atos, tornando consequentemente inviável deixá-lo responder por si próprio.
Nesta pesquisa, vamos destacar a vivência da sexualidade em idosas na fase leve da Doença de Alzheimer. A mudança de performance da relação sexual passa a colocar o velho em proximidade com a ideia da morte; a perda da vitalidade está associada ao fim da vida útil. Por essa razão, há a necessidade de se discutir a sexualidade percebida que, muitas vezes, é interpretada de forma errônea, por preconceito, vergonha, ou até mesmo temor pelas reações dos outros. Discutir sobre sexualidade para a idosa é um desafio, pois a sensação de confiança diante do assunto é algo extremamente necessário.
Observa-se uma lacuna teórica na literatura gerontológica sobre a temática da sexualidade e doença de Alzheimer. Realizou-se uma busca no Portal Capes, no qual foi encontrado um número reduzido de artigos sobre esse tema, sendo que, ao se realizar a busca com as palavras-chave como idosa, sexualidade e Doença de Alzheimer juntas, não foi encontrado um único artigo. Esses temas são encontrados apenas isoladamente ou associados apenas a um deles (Ver Quadro 1).
Bases de
informações Idosa X Alzheimer X Sexualidade Sexualidade/Sexo na velhice Doença de Alzheimer
Scielo - 650 1798
Medline - - -
Lilacs - 31 -
Fonte: Portal Capes, 2012, disponível em: <http://www.periodicos.capes.gov.br/>.
Podemos visualizar no quadro acima, lacunas junto ao referencial teórico no que se refere à sexualidade da idosa com a Doença de Alzheimer. Portanto, justifica-se uma pesquisa que vise estudar esses temas para que novos conhecimentos sobre a idosa com a Doença de Alzheimer leve possam ser descobertos.
Apesar de encontrarmos grande número de artigos sobre a Doença de Alzheimer encontrados por meio do Scielo estes apresentam um foco único: a doença de Alzheimer em si, que é discutida muitas das vezes com a questão dos sinais e sintomas, além das descobertas frente aos novos exames, e o quanto tem se buscado para uma possível cura, que até o momento não existe. É um tema de atualidade onde é inserido o que há de mais novo no ponto de vista biomédico, desconsiderando a falta de visão humanizada frente as informações para as idosas nesta condição.
A sexualidade e o sexo na velhice tem um número de 650 artigos também na Scielo. Deixando claramente, que os núcleos de sentido descritores não foram encontrados. Muitas vezes, a sexualidade e sexo parecem que não são vivências do envelhecimento, na percepção dos olhares alheios. O afeto é uma necessidade humana, e, portanto, acompanhando a definição da sexualidade.
A sexualidade pode ser assim entendida:
Entendidas como o compartilhamento de afeto com pessoas em um círculo de amizade e intimidade. Embora a sexualidade possa fazer parte desse contexto de intimidade, o conceito de amor não se reduz ao de sexo. O comportamento sexual é multideterminado e pode ser enfocado na ótica das necessidades fisiológicas
(MASLOW, 1953 apud SAMPAIO, 2009, p.8)
A idosa, sendo uma temática muito discutida pelo avanço da população nessa idade, resultou na necessidade de obter áreas como a gerontologia e geriatra como uma necessidade social para ofertar informações as idosas. O número avançado de idosas com pretensão a aumentar a cada dia que se passa, pois pelo estudo de transição demográfica, seremos o sexto país em classificação mundial no número de idosas.
No entanto, estes três núcleos de sentido demonstram necessidade de discussão, pois há necessidade de buscar orientação quanto as atitudes nestes casos. Assim, espera-se que este trabalho possa contribuir para melhorias no cuidado com a idosa com Alzheimer leve, colaborando para uma sistematização de assistência principalmente para a gerontologia, e que poderá repercutir para as demais áreas da saúde.
Diante deste contexto, o objetivo geral do trabalho é compreender a sexualidade da idosa com Doença de Alzheimer leve e suas manifestações. Os objetivos específicos são: compreender como é a sexualidade vivenciada por essas idosas; apontar as queixas e dificuldades mais relevantes da sexualidade desse paciente e, finalmente, descrever como a família vê a sexualidade nas idosas com a Doença de Alzheimer leve.
Para tanto, a dissertação está organizada em seções, além dessa introdução, a saber:
Seção I; trata-se da revisão de literatura realizada para subsidiar e contextualizar temas relevantes associados à velhice, doença de Alzheimer e sexualidade.
Seção II: apresenta os objetivos geral e específicos que nortearam a pesquisa.
Seção III: descreve o método trabalhado, delineando o estudo realizado, assim como os instrumentos, os procedimentos de coleta de informações, o perfil dos participantes e a forma como os informações foram analisados.
Seção IV: contém os resultados e discussões da pesquisa, sendo dividida em duas partes. A primeira se refere aos informações colhidos das idosas, por meio das técnicas utilizadas com eles: entrevista, técnica de recorte e colagem e desenhos e/ou colagem. A segunda se refere aos informações colhidos das cuidadoras por meio das entrevistas.
1 REVISÃO DE LITERATURA
1.1 ENVELHECIMENTO E GERONTOLOGIA
O envelhecimento da população mundial é uma constatação atual que ocasionará grandes mudanças na sociedade (DIAS; SILVA; VITORINO, 2009). Segundo Chaimowicz e Camargos (2011), o expressivo contingente populacional - dezenas de milhões de brasileiros - pertencente às cortes de elevada fecundidade e baixa mortalidade nascidas nas décadas de 1940 a 1960 começaram a alcançar os 65 anos em 2005, marcando o início da fase rápida do envelhecimento populacional. Essa nova realidade, que o país mal começa a perceber, irá se impor de maneira avassaladora com a chegada das idosas octogenários, que já começam a fazer parte da nossa pirâmide etária. O Brasil, então, já está se deparando com desafios ainda não solucionados pelos países desenvolvidos como as “epidemias”
de demência, fratura proximal do fêmur e sequelas de acidente vascular cerebral (CHAIMOWICZ; CAMARGOS, 2011).
Ademais, afirmam Dias, Silva e Vitorino (2009), com a mudança do quadro epidemiológico populacional, os objetivos no atendimento de saúde deixam de ser apenas prolongar a vida, mas mantê-la e reabilitá-la com qualidade.
Segundo ainda Chaimowicz e Camargos (2011), pode-se considerar a velhice como a fase de todo continuum que é a vida, começando esta com a concepção e terminando com a morte.
Para Silva (2009), o envelhecimento não começa subitamente aos 60 anos, mas consiste no acúmulo e interações de processos sociais, médicos e de comportamento durante toda a vida. Já para Tótora (2008), o incômodo da velhice parece não ser apanágio dos velhos, mas sim, um fantasma que acompanha todas as idades. Queremos viver mais, mas não envelhecer. Trata-se de um paradoxo que se deseja expurgar.
Para esse autor, a velhice é assim percebida:
Assim, o processo de envelhecimento é único para cada pessoa, sendo resultado da interação dos fatores genéticos e ambientais (SILVA, 2009). Cabe ressaltar que a idade cronológica (medida em anos), a biológica (capacidade funcional) e a psicológica (subjetiva) raramente coincidem.
É necessário lembrar que diariamente estamos envelhecendo, o que não nos é permitido perceber (ou não queremos aceitar) são as respostas do envelhecimento, que costumam transparecer de forma acumulativa a partir do 60 anos.
Para Chaimowicz e Camargos (2011), é conhecido o fato de que o ritmo de declínio das funções orgânicas varia de um órgão a outro, mesmo entre idosas que têm a mesma idade. No entanto, faz-se necessário, segundo esses autores, a distinção entre senescência ou senectude, que resulta do somatório de alterações orgânicas, funcionais e psicológicas próprias do envelhecimento normal, e senilidade, que é caracterizada por modificações determinadas por afecções que frequentemente acometem a pessoa idosa, sendo, por vezes, extremamente difícil.
Para Tótora (2008), na sociedade atual, ser velho é carregar todo o peso de valores negativos. Envelhecer é uma perda, privação. Mas, na nossa perspectiva, o envelhecer é algo surpreendente! Afinal, alcançamos mais um ciclo da vida! Só envelhece quem não morre!
Percebe-se que a visão do velho em relação a ele próprio repercute em como a sociedade deverá enxergá-lo. A aceitação diante dessa fase facilita a obtenção de motivação que o estimula a viver cada vez mais, diferentemente de quando sua autoestima está rebaixada.
Diante desse contexto, nasceu a gerontologia, com o objetivo de estudar o velho e o processo de envelhecimento. O termo gerontologia foi usado pela primeira vez por Elie Metchnikoff (1908) que compôs com base no grego, em que geron
Hoje, a gerontologia busca formar profissionais que tenham capacidade e sensibilidade para direcionar cuiinformações com esta população diferenciada, pelo contexto do seu crescimento e da sua repercussão diante da necessidade de se obter políticas públicas mais concisas, diante da realidade cada vez mais presente.
A visão de velho precisa se diferenciar da de idosa, pois, conforme Alkema e Alley (2006), citado por Guariento et al.:
A gerontologia contemporânea deve concentrar-se em três temas centrais: a velhice, como fase da vida, o envelhecimento interpretado no contexto do desenvolvimento ou da passagem do tempo, e o idoso, como indivíduo socialmente categorizado como velho. (GUARIENTO et al., 2011, p. 120).
O que pode se confirmar pela colocação de Papaléo (1999), na qual o envelhecimento (processo), a velhice (fase da vida) e o velho ou idosa (resultado final) constituem um conjunto cujos componentes estão intimamente relacionados.
A jovem acima de 60 anos que, no entanto, enxerga a vida como se tivesse seus 20 anos, é totalmente diferente do jovem que tem seus 20 anos e sente e vive a vida como se tivesse seus 60 anos. A velhice está relacionada à forma de ver e perceber a vida, independentemente da forma que se vive. Por isso, afirma Baldessin (1996 apud PAPALÉO, 2011), alguns parecem velhos aos 45 anos de idade e outros jovens aos 70.
Nesse processo de envelhecer, interessa, particularmente, nesta pesquisa, a sexualidade presente e vivenciada pelos s, especificamente naqueles que tem a Doença de Alzheimer na fase leve, cuja temática será abordada nos próximos tópicos.
1.2 SEXUALIDADE DA IDOSA
Os estereótipos de que as pessoas idosas não são atraentes fisicamente, não possuem interesse por sexo ou não são capazes de sentir algum estímulo sexual, ainda são amplamente difundidos na nossa sociedade atual, segundo Almeida (2007 apud ALMEIDA; LOURENÇO, 2008). Essa percepção exige de nós, integrantes desta sociedade, uma análise de como percebemos a sexualidade nos outros, e como esperamos vivenciar a nossa, quando e se chegarmos a velhice.
Para Santos (2011), as expressões de interesse e práticas sexuais na velhice tornaram-se elementos determinantes para a saúde física e emocional daqueles que estão em processo de envelhecimento.
A mesma autora já afirmava em outra publicação (2003) que a forma como cada pessoa envelhece é determinada por suas condições subjetivas, incluindo-se aí a forma como foi vivida sua história pessoal, inclusive a sexual, em todos os períodos da existência, e também está atrelada às condições socioculturais. Acredita-se que o envelhecimento de boa qualidade pode ser a consequência de uma vida adulta bem vivida, e esta questão engloba todas as necessidades do ser humano, que, neste caso, está direcioda para a sexualidade.
Segundo Nogueira (2003 apud ALMEIDA; LOURENÇO, 2008), é preciso também que se vejam com naturalidade as modificações ocorridas no organismo e não se cobre um alto desempenho sexual, afinal, uma relação sexual é um momento de prazer e relaxamento, não de desafio ou uma disputa a ser ganha.
Mas é preciso ter em mente que, na velhice, é importante manter-se ativo sexualmente, pois fazer sexo ajuda a manter os órgãos sexuais saudáveis. (ALMEIDA; LOURENÇO, 2008).
A velha idosa não deixa de amar, mas reinventa formas amorosas. A relevância do estudo do amor e da sexualidade da velhice está nessa perspectiva
(SANTOS, 2011). Para Mucida (2006), “o desejo não tem idade de nossos vasos sanguíneos ou nossos órgãos” e a velhice implica saber vestir esse desejo. A
aceitação diante das alterações fisiológicas fortalece o desejo de ser feliz com suas
próprias condições, resultando na aceitação do seu próprio ser “velho”. Para Freud
(1914 apud SANTOS, 2003), a limitação física fará o confronto, passando a ser empobrecido ou desvalorizado no contato afetivo.
A aparência física é algo mais perceptível e valorizada para os jovens. Para a idosa, aquela beleza, que era atrativo para uma vida sexual ativa, hoje está por trás daquele carinho bem oferecido e bem recebido. Não há uma preocupação associada com o físico, o desejo é maior por um(a) companheiro(a), o que não necessita de um corpo jovial.
associam às patologias crônicas o fato de não se permitirem um sexo bom e satisfatório, deixando-os desacreditados na vida e no amor.
Nesse contexto, Ballone (2007 apud ALMEIDA; PATRIOTA, 2009) pondera que estudos médicos demonstram que a maior parte das pessoas de idade avançada é capaz de ter relações sexuais e sentir prazer nas mesmas atividades que se entregam às pessoas mais jovens.
Segundo Santos (2011), a questão sexual é toda conduta que, partindo de uma região erógena do corpo (boca, ânus, olhos, voz, pele) e apoiando-se em uma fantasia, proporciona algum tipo de prazer.
Freud já definia a sexualidade como essencialmente polimorfa, aberrante:
[...] certas relações intermediárias com o objeto sexual (a caminho do coito), tais como apalpá-lo e contemplá-lo, são reconhecidas como alvos sexuais preliminares. Essas atividades, de um lado, trazem prazer entre si mesmas, e de outro, intensifica, a excitação que deve perdurar até que alcance o alvo sexual definitivo [...]. (FREUD, 1905 apud SANTOS, 2003, p. 27).
Frente à sexualidade, Santos (2003) conclui que todos os indivíduos estão em plano de igualdade, na medida em que essas experiências se iniciam na infância e seguem seu percurso até a vida adulta e velhice. Para Berês e Balbo (2001), “se a sexualidade é colocada com função de reduzir o movimento sensual, ou seja, a
libido, ela só chega a uma redução das tensões, um alívio imediato”.
Para Santos (2011), o amor pode ser compreendido em suas manifestações erógenas, podendo ser ligado à sexualidade ou ao afeto. Sonhar com o amor não tem limite de idade. A autora enfatiza, ainda, que a diminuição dos hormônios modifica o mecanismo e a frequência da ereção, assim como altera a lubrificação vaginal, dificultando a realização do coito. Mas, isso não impede que a idosa continue sonhando e desejando e até tendo relações sexuais.
Portanto, o que interfere na vida da idosa está para além das limitações orgânicas, que são decorrentes do processo natural da evolução do ser humano. O que mantém vivo o homem é a afeição, a ternura, o sonho, a presença de alguém que o escute, com quem compartilhe a vida. (SANTOS, 2011).
a colocar a idosa em proximidade com a ideia da morte, pois a perda da vitalidade está associada ao fim da vida útil, o que até então vinha sendo negado.
Segundo ainda a autora, nessa idade, o caminho que as idosas prosseguem juntos, ainda que não coincida com que já viveram, poderá ser tanto ou mais prazeroso do que em suas fases anteriores. Não obstante, é preciso deixar claro que a sexualidade do indivíduo não só se mantém, mas vai se transformando ao longo da vida, e que cada idade favorece formas diferentes de satisfação.
Assim, o sexo e o amor na velhice mudam o caráter explosivo e exuberante da juventude, tomando a forma da ternura, do carinho, do toque sutil, da valorização da sensibilidade dos pequenos gestos, respeitando as diferenças de suas manifestações no homem e na mulher (SANTOS, 2011). A autora completa que é de extrema importância poder pensar que, a partir da descoberta do sexo e do amor, o velho reconquista o lugar vital de homem e mulher e não mais o de um velho que tem como futuro apenas o fim da vida.
Segundo Pascual (2002), sexualidade é um conceito tão amplo que pode chegar a abranger todos os componentes e aspectos da pessoa, e não apenas a função genital e reprodutora. Complementa ainda que a velhice não é apenas um fenômeno fisiológico, mas social e cultural, e devemos esquecer a ideia de que a vida sexual das pessoas idosas é só uma nostalgia do passado que pretende manter-se, graças a elementos supletivos.
A nostalgia da sexualidade acaba ressaltando a vontade da idosa no desejo de expor suas ideias, ao mesmo tempo em que conhece a forma que a cultura o vê e, em consequência desta visão, o proibia de falar ou mesmo questionar alguma informação sexual.
Nesse contexto, a idosa tem uma cautela maior diante desta situação. A sexualidade feminina tem respostas que muitas vezes podem impedir um bom desempenho sexual com o parceiro. Para Sitta et al. (2011), o envelhecimento do sistema ginecológico leva a alterações funcionais que, a despeito de a mulher não manter hábitos de vida saudáveis, pode contribuir para o aparecimento de doenças.
testosterona, a parede dos vasos do pênis e os espaços do tecido erétil sofrem endurecimento, tornando-os mais rígidos e menos elásticos.
As alterações atróficas ocorrem em todos os tecidos que apresentam receptores estrogênicos (SITTA et al., 2011). Há também diminuição da lubrificação, o que determina ressecamento, dispareunia e sangramento durante o ato sexual (sinusiorragia), em intensidade variável.
Segundo Pascual (2002), a sexualidade para a idosa tem algumas vantagens. Destaca o autor, considerando a questão sexual, que para a mulher o coito não é a única fonte de prazer sexual, e que a satisfação por meio de todo o corpo pode ser através do afeto e ternura. Quanto aos homens, eles têm mais tempo de chegar ao orgasmo com uma urgência menor. Muitas vezes, as contínuas queixas sobre o físico que está envelhecendo escondem as dúvidas sobre a sua identidade sexual pela má educação recebida e pela falta de apoio sociocultural.
A sexualidade senil não está separada da vida e de suas variáveis, nem da sua imaginação ou do intelecto, nem dos anseios ou anelos (PASCUAL, 2002). No entanto, nos alerta Santos (2003) que o preconceito que habita o jovem contra a sexualidade do velho também está no velho com relação à sua própria sexualidade.
Conclui-se neste tópico que, no envelhecimento, a sexualidade varia tanto quanto os demais aspectos da vida da idosa, mas isso não implica necessariamente decadência da resposta sexual, já que depende fundamentalmente da atitude que cada pessoa adota. (PASCUAL, 2002).
As alterações na velhice não são poucas, e não necessariamente estão correlacionadas em um mesmo momento e/ou intensidade a todos as idosas. Cada idosa tem a sua particularidade de envelhecer.
Consequentemente, o processo natural do envelhecimento engloba um declínio gradual das funções cognitivas, dependentes de processos neurológicos que se alteram com a idade (SAGIORATO, 2009). Direcionando para este estudo, será discutida a Doença de Alzheimer (DA).
1.3 DOENÇA DE ALZHEIMER .
demência pré-senil de evolução rápida, com presença abundante de placas senis e de emaranhados neurofibrilares. (MACHADO, 2011).
Segundo Machado (2011), na década de 1970, foi confirmado que as formas pré-senil e senil de demência apresentavam o mesmo substrato neuropatológico. Desde então, a distinção entre as formas pré-senil e senil tornou-se espúria, e ambas foram incluídas no conceito de DA.
Esse autor afirma, ainda, que diante desta concepção mais abrangente, a DA passou a ser considerada como doença neurodegenerativa progressiva, heterogênea nos seus aspectos etiológico, clínico e neuropatológico.
Segundo Sagiorato (2009), a DA ocorre por uma degeneração progressiva de estruturas cerebrais nas regiões do hipocampo, lobos frontal, parietal e temporal, caracterizada principalmente pela atrofia cortical do cérebro. Pode afetar também o tronco cerebral e os núcleos subcorticais do prosencéfalo basal, tendo como consequência a lesão que vai levar à morte neuronal, incapacitando os caminhos neuronais essenciais para o aprendizado e recuperação da memória.
Segundo Machado (2011), a incidência e a prevalência das demências aumentam exponencialmente com a idade, dobrando, aproximadamente, a cada cinco anos, a partir dos 60 anos de idade. Tem-se observado um aumento expressivo da prevalência das demências nas diversas faixas etárias. Isso resulta essencialmente de dois fatores: aumento da expectativa de vida da população e maior sobrevida dos indivíduos acometidos pela demência, consequência da melhoria de cuiinformações ofertados.
O aumento da expectativa de vida da população ocasionou maior prevalência e incidência de doenças neurodegenerativas, em especial, da Doença de Alzheimer, que é o tipo de demência mais frequente (CERA et al., 2010).
Para Sagiorato (2009), vários são os fatores que podem estar relacionados à maior incidência da doença:
Idade: quanto maior a longevidade, maior a porcentagem de idosas com demência.
Sexo: ocorrência duas vezes maior no sexo feminino.
Herança genética: acredita-se que seja uma doença geneticamente determinada, mas não necessariamente hereditária.
História pregressa de traumatismo craniano: idosas com traumatismo craniano mais sério poderão desenvolver futuramente a demência.
Grau de escolaridade: observa-se um crescimento das demências nos países com baixa escolaridade.
Teoria das toxinas: a contaminação por substâncias tóxicas, como o alumínio, estaria relacionada à sua incidência.
Depressão: os resultados vão de encontro à literatura que sugere que os indivíduos com quadros depressivos apresentam, frequentemente, um déficit nas suas memórias positivas e evidenciam mais suposições negativas acerca de si mesmos e dos outros, comparativamente com sujeitos sem qualquer quadro depressivo e/ou congruência com o seu estado de ânimo segundo Nandrino et al. (2002 apud MALTA, AFONSO, 2013).
A forma mais apropriada para a detecção de casos com DA é por meio da avaliação com testes cognitivos (MACHADO, 2011), considerando-se que a queixa de memória isolada pode significar um estágio precoce da doença que pode durar de 4 a 6 anos.
Diante da cognição que é afetada pela idosa com Alzheimer, há algumas escalas para sua avaliação sugeridas por Cera et al. (2010), a saber:
CDR: Clinical Dementia Rating
MEEM: Miniexame do Estado Mental
Índice de Lawton: avalia atividades instrumentais da vida diária (AIVD). A escala de avaliação clínica da demência (Clinical Dementia Rating – CDR) foi desenvolvida em 1979 no projeto “Memory and Aging” da Universidade
Washingtom, EUA, para graduar demência especialmente na doença de Alzheimer (MAIA et al., 2006). Essa escala recebeu uma aceitabilidade considerada do universo da saúde multiprofissional.
É importante salientar que o diagnóstico definitivo da doença de Alzheimer, atualmente, só pode ser feito por exame histopatológico do tecido cerebral. Portanto, trabalha-se em geral com diagnóstico de probabilidade (MANFRIM; SCHMIDT, 2011).
incluem as desordens amnésicas, o retardamento mental, as desordens fictícias, o estado confusional agudo (delirium), as desordens psiquiátricas funcionais (depressão maior, esquizofrenia), o comprometimento cognitivo leve, o declínio cognitivo associado ao envelhecimento. (MACHADO, 2011).
Ainda, traz o mesmo autor, que no comprometimento cognitivo leve (CCL), que é o foco do da presente pesquisa, os déficits cognitivos de uma ou mais áreas cognitivas são mínimos, não progressivos e, principalmente, não ocasionam incapacidades funcionais significativas como as demências.
Sendo a DA uma doença crônica, consequentemente gera gasto altíssimo. O Governo Federal tem custeado os medicamentos de alto custo para tratá-la. Sabemos que não há cura para o Alzheimer, mas há um tratamento que visa minimizar os sintomas da doença e retardar o seu agravamento.
A Portaria SAS/MS nº 491, de 23/09/2010, inclui os seguintes critérios para que as idosas com Alzheimer possam adquirir a medicação prescrita de forma gratuita (BRASIL, 2010):
diagnóstico de DA provável, segundo os critérios do National Institute of Neurologic and Communicative Disorders and Stroke and the Alzheimer Disease and Related Disorders Association (NINCDS-ADRDA) Criteria for Alzheimer Disease – NINCDS-ADRDA20;
MEEM com escore entre 12 e 24 para idosas com mais de 4 anos de escolaridade ou entre 8 e 21 para idosas com até 4 anos de escolaridade; Escala CDR 1 ou 2 (demência leve ou moderada);
TC ou RM do encéfalo e exames laboratoriais que afastem outras doenças frequentes nas idosas que possam provocar disfunção cognitiva: hemograma (anemia, sangramento por plaquetopenia), avaliação bioquímica (dosagem alterada de sódio, potássio, glicose, ureia ou creatinina), avaliação de disfunção tiroidiana (dosagem de TSH), sorologia para lues (VDRL) e nível sérico de vitamina B12.
quadros de DA, temos ainda as falhas no diagnóstico e na detecção precoce da doença, o que ocorre na maioria dos casos. Por vezes, idosas e seus familiares atribuem os sintomas iniciais da demência ao processo de envelhecimento, mas é fato que DA e envelhecimento não são sinônimos! Alterações cognitivas leves como lentidão do processo das informações, lapsos de memória, lentificação do pensamento podem ser encontradas no envelhecimento normal, não são, no entanto, progressivas nem incapacitantes, como na DA.
A identificação de fatores de riscos, eventualmente, de fatores protetores relacionados com a DA, é de fundamental importância (MACHADO, 2011). Além disso, o reconhecimento desses fatores poderá fornecer importantes pistas para o entendimento da fisiopatogenia da doença. Até o momento, os fatores de risco não modificáveis estabelecidos para a DA são: idade, gênero feminino (após 80 anos de idade), síndrome de Down, história familiar positiva e gene de suscetibilidade (genótipo Apoe4).
Os déficits de memória de evocação nas fases iniciais dizem respeito principalmente à dificuldade para recordar datas, compromissos, nomes familiares e fatos recentes, e podem vir acompanhadas de incapacidade de reconhecer o estado da doença ou de falta de consciência do déficit cognitivo (anosognosia) (MACHADO, 2011). Há desorientação progressiva quanto ao tempo e ao espaço. Os problemas espaciais e de percepção podem manifestar-se por dificuldade de reconhecer faces e de se deslocar em trajetos familiares.
Para Souza et al. (2008), as alterações do envelhecimento do sistema nervoso mais importantes acontecem na parte central deste sistema. Algumas regiões perdem mais neurônios do que outras. A que mais perde é o córtex do hipocampo, o qual é responsável pela memória para fatos recentes. As perdas dos neurônios têm como consequência a redução na capacidade geral do sistema nervoso, alterando assim a marcha, o equilíbrio e as funções cognitivas. O
envelhecimento associado às alterações e suas “consequências” resultam, muitas
vezes, em condições incômodas para a idosa.
A Portaria nº 703, de 12 de abril de 2002, institui no âmbito do Sistema Único de Saúde, o Programa de Assistência aos com DA. Os Centros de Referência em Assistência à Saúde do Idoso (CRASI) foram designados como responsáveis pelo diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos idosos, bem como orientação à família e cuidadores. A Portaria governamental nº 255, de 16 de abril de 2002, inclui os IChE (donepezila, rivastigmina e galantamina) na tabela de procedimentos do Sistema de Informações Ambulatoriais do Sistema Único do SUS (SAI/SUS) indicados para a cobertura assistencial dos idosos com demência por DA (MACHADO, 2011).
Na seção a seguir, será feita uma associação dos núcleos de sentido discutidos até então, para que se possa subsidiar as entrevistas realizadas com as idosas e suas cuidadoras.
1.4 SEXUALIDADE, VELHICE E ALZHEIMER
Nos últimos tempos, as evidências têm se acumulado, dando conta de que a DA acomete mais as mulheres que os homens e que os hormônios, em particular os estrogênios, parecem estar implicados no risco para o seu desenvolvimento e também no curso da doença (FERNANDES et al., 2004).
A sexualidade é a maneira como uma pessoa expressa seu sexo. É como a mulher vivencia e expressa o “ser mulher” e o homem o “ser homem”. Se expressa através de gestos, da postura, da fala, do andar, da voz, das roupas, dos enfeites, dos perfumes, enfim, de cada detalhe do individuo. (RIBEIRO, 2002 apud ALMEIDA; PATRIOTA, 2009, p. 7).
A sexualidade é a propriedade inerente a cada indivíduo, manifestada de maneira própria a cada um e que envolve um conjunto de detalhes, onde o cérebro é o órgão mais importante e o sexo é apenas um componente. (FORTUNA, 2011).
inconscientemente, atitudes inadequadas relacionadas às pessoas e ao ambiente em que se encontra.
Para Oliveira, Oliveira e Iguma (2007), a atividade sexual torna-se necessária, pois pode ser transformada pelo indivíduo em uma estratégia para escapar da morte
a qual está destinado. A desvinculação do “mundo que está por acabar” resulta nas
realizações das atividades fisiológicas necessárias, ocorrendo o desmembramento
em busca de uma “vida mais feliz”. E como sendo a sexualidade uma destas
necessidades, a idosa com Alzheimer também apresentará essa necessidade, mesmo que muitas vezes ela seja negada pela família, cuidadores e até profissionais de saúde, ou em alguns momentos ele mesmo desconhece o que ele deseja.
A necessidade sexual se tornou relevante para muitos autores. Para Bulcão et al. (2004), tanto a geriatria como a sexologia continuam a proclamar que o sexo é um componente necessário para o sucesso do envelhecimento. Além disso, esse mesmo autor enfatiza que há uma forte evidência nos estudos epidemiológicos de que os estrógenos e os andrógenos teriam um papel protetor contra a neurodegeneração.
Como as demais necessidades humanas básicas, no envelhecimento, haverá uma alteração, seja em alguns momentos para mais ou para menos. E isso não é diferente para a idosa com Alzheimer, apesar de que alguns sintomas vão piorando com o avançar do grau da doença, como a memória, a atividade sexual, ou o seu desejo sexual podem ficar preservados ou até aguçados.
Um estudo de Pereira (2011) em pequena escala revelou que as mulheres que já tinham doença de Alzheimer e que tomaram estrógeno melhoravam muito a memória e a atenção, e pioravam logo que o hormônio era suspenso. Os investigadores estão presentemente a conduzir um estudo em profundidade e em larga escala para apurar os efeitos do estrógeno na doença de Alzheimer. (PEREIRA, 2011).
Em idosa com DA, podem aparecer comportamentos sexuais inadequados devido à perda de inibições e rebaixamento da autocensura, em função das perdas cognitivas ou pela falta de oportunidade para se expressar sexualmente, confundindo uma pessoa com outra ou ainda a necessidade de ser acariciado, de se sentir seguro e mais próximo do outro. (LEITÃO; GUIMARÃES, 2006).
2 OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Compreender a sexualidade da idosa com Doença de Alzheimer leve e suas manifestações.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Descrever como se manifesta e como se vivencia a sexualidade nas idosas com Doença de Alzheimer leve, na sua própria perspectiva.
Conhecer como a sexualidade da idosa com Doença de Alzheimer é percebida por seus familiares/cuidadores.
3 MÉTODO
3.1 ESCOLHA METODOLÓGICA
A presente pesquisa se caracteriza por ser um estudo qualitativo, parametrizado pela Epistemologia Qualitativa desenvolvida por González Rey (2005). Tal autor valoriza a subjetividade humana, e expõe um método que
considera o pesquisador como o principal instrumento da pesquisa. A “bagagem”
que faz parte do pensar deste cientista, durante todo o processo de construção do conhecimento, é considerada, valorizada e questionada. Durante o desenvolvimento da pesquisa o pesquisador deve estar aberto a tudo que pode ter relação com o fenômeno estudado, transformando seus pensamentos em idéias críticas e criativas.
Na epistemologia qualitativa, a construção do conhecimento é um processo que acontece durante todo o desenvolvimento do estudo. A coleta de informações, característica das pesquisas positivistas, é substituída pela construção contínua e a valorização de todos os momentos que se referem à pesquisa. Não existe o objetivo
de “enquadrar” ou “classificar” o sujeito estudado, mas sim enfatizar o sentido
subjetivo de sua experiência, por meio da construção e da interpretação do pesquisador. Desta forma, a pesquisa qualitativa não se destina a provar ou verificar nenhuma hipótese.
A construção do conhecimento é um processo que acontece durante todo o desenvolvimento do estudo, e não apenas no momento de aplicação de instrumentos e busca de informações ou resultados. A definição dos instrumentos de pesquisa responde à necessidade gerada no decorrer do processo (GONZÁLES REY, 2005). Vistos dessa maneira, os instrumentos utilizados para a produção de informações fazem parte da estratégia interativa planejada para o desenvolvimento da pesquisa. Por isso, devem facilitar ao máximo a expressão subjetiva do sujeito.
em acoplarmos a utilização de recursos projetivos ao nosso delineamento de pesquisa.
Com relação ao papel da teoria na epistemologia qualitativa, esta é valorizada no sentido de orientar o olhar do pesquisador. Não deve ser utilizada como uma
“camisa de forças”, que não permita o crescimento proveniente da pesquisa. Já os instrumentos, de acordo com González Rey (2005), são utilizados com objetivo de facilitar a expressão dos participantes da pesquisa. A utilização de instrumentos abertos deve facilitar o desenvolvimento da epistemologia da construção, devido à sua capacidade de induzir informações acerca do fenômeno, como é o caso da sexualidade da idosa com Alzheimer.
3. 2 LOCAL DO ESTUDO
O estudo foi realizado nas residências das idosas, localizadas nas cidades de Luziânia/GO, Ceilândia e Samambaia/DF, ou na própria Unidade de Saúde Mista de Taguatinga (USMT), também conhecida como Policlínica, localizada em Taguatinga Sul/DF.
3. 3 PARTICIPANTES DO ESTUDO
Os participantes da pesquisa compuseram uma amostra por conveniência, formada pelas idosas diagnosticados com a Doença de Alzheimer na fase leve,encaminhados pela equipe de saúde Unidade de Saúde Mista de Taguatinga (USMT).
As participantes residiam em locais geográficos extremos da USMT, e consequentemente com o endereço da pesquisadora. Pensando e articulando formas de estar próximas sempre que necessário e oportuno, é que se encerrou a pesquisa com as idosas moradoras de Luziânia (GO), Ceilândia e Samambaia ( DF).
outras duas possuíam o ensino fundamental incompleto. A renda das idosas variava entre um a dois salários mínimos.
Quanto às cuidadoras, a idade variou entre 48 e 76 anos (média 57,3 anos), sendo uma filha adotiva, outra irmã e a terceira filha biológica das idosas. Uma delas é casada, a outra viúva e a última é solteira. Todas residem com as idosas de quem cuidam. Duas delas possuem ensino fundamental e a outra possui o ensino superior incompleto em pedagogia.
Todas as participantes receberam nomes fictícios para garantir-lhes o sigilo das informações, mas para as idosas foi-lhes dado um nome segundo as características marcantes. Os casos de cada uma delas e de suas respectivas cuidadoras serão apresentados a seguir:
A Sra. Simplicidade recebeu este nome por ser esse adjetivo um traço marcante de sua pessoa. Senhora simples, humilde e ágil dentro das suas possibilidades, demonstrou o quanto valoriza a família. Tem 77 anos, casada, possui ensino básico incompleto. Há três anos convive com o marido, acamado após Acidente Vascular Encefálico (AVE). É natural de Minas Gerais, mas reside em Luziânia há muito tempo. Vieram em busca de melhorias de vida. Recebe uma aposentadoria no valor de um salário mínimo. O casal tem quatro filhos: uma mora em São Paulo, outras duas moram em Luziânia, sendo uma a cuidadora (filha adotiva) e o único filho mora em Taguatinga. Sua aposentadoria é única para os gastos domésticos e para fazer os gostos dos netos e seus respectivos amigos, quando passam o domingo para tomar uma cerveja. Em função do excesso de gastos, tornou-se necessária a contribuição da cuidadora com trabalhos quinzenais como diarista. Nos dias em que a cuidadora precisa trabalhar, a idosa fica só e sob a
vigilância do “primo” que tem um bar próximo da sua casa. Costumeiramente,
nesses dias, a idosa fica agitada. Os demais filhos não a visitam com frequência, e, principalmente, o único filho, que ela deixa bem claro sua “preferência”, não lhe dá
atenção suficiente e parece não compreender a doença e suas limitações. Há quase quatro anos trata-se da probabilidade diagnóstica de Alzheimer junto à Unidade de Saúde Mista de Taguatinga (USMT). A idosa desconhece a suspeita da DA, mas a família tem conhecimento de todo o tratamento realizado na UMST.
mantém um bom relacionamento com a família anterior. Hoje, tem seu segundo marido, mas não teve mais filhos. Moram na mesma residência que a idosa. Tem em seu marido a fortaleza para continuar os cuiinformações com os pais, pois ele também auxilia com os afazeres domésticos e até mesmo nos cuiinformações com as idosas. Demonstra muito zelo ao cuidar da idosa e do idoso, que é acamado. Conta também com a ajuda dos vizinhos que auxiliam no dia a dia com a idosa. Quando há necessidade financeira, conta com o apoio da igreja. E seus amigos costumam indicá-la para as diárias quinzenais para auxiliar no orçamento mensal.
A Sra. Trabalhadora carrega consigo as lembranças dos dias trabalhados com os pais na lavoura. A vida, mesmo aparentemente difícil, traz lembranças que ela faz questão de recordar sem mágoas. O momento família estava ali representado, quando todos estavam na lida do dia a dia. Tem 73 anos, é solteira e analfabeta. É natural da Paraíba. Hoje reside na Ceilândia Sul. Em 1966, ainda adolescente, chegou a Brasília com seus pais e seus irmãos. A idosa auxiliava muito os pais na infância na lavoura. Sua primeira residência foi no Guará. Seus irmãos logo se casaram e ela ficou com seus pais. O pai logo faleceu. Em 2000, juntamente com a mãe, foi morar com a irmã. Nesse mesmo ano, sua mãe faleceu. Há três anos recebeu o diagnóstico da doença de Alzheimer. Tanto sua cuidadora quanto a própria idosa não falam claramente sobre a doença, mas demonstram saber do que se trata. Elas demonstram preferir achar que a perda da memória é apenas consequência do processo normal de envelhecimento. A relação da idosa com sua irmã é boa. Suas sobrinhas, em número de cinco, colaboram no seu cuidado. Uma sobrinha é muito especial para esta idosa, a quem chama de princesa. As demais sobrinhas apenas convivem, sem maior intimidade.
Dona Maria (cuidadora da Sra. Trabalhadora) é sua irmã, com quem ela reside. É uma dona do lar, de 76 anos. Possui o ensino fundamental. É viúva e tem cinco filhas. Ajudou a cuidar da mãe que morou com ela por um tempo e depois veio a falecer. Hoje, conta com as filhas, principalmente, Cláudia (a princesa), que é a pessoa que a idosa mais gosta. Diariamente, a princesa vem até a sua casa para ajudar em alguns afazeres domésticos, incluindo algo para que possam alimentar-se direito, pois, além da idosa, a cuidadora tem um filho especial. Mesmo com duas
condições “especiais” para cuidar, não abre mão da idosa.
característica melhor. Declara diariamente a vontade de estar com o marido no cemitério, pois acredita que é uma forma de estar próxima dele. Tem 78 anos, viúva, dona de casa, possui o ensino básico incompleto. É natural de Catolé da Rocha, na Paraíba. Chegaram a Brasília em 1977. Moraram em várias cidades do Distrito Federal. Desde 2007, reside em Samambaia com a filha de 48 anos, que também é a sua cuidadora. O marido faleceu e deixou duas aposentadorias para ela, que é administrada pela cuidadora. O casal de idosos teve duas filhas (Lúcia e Maria). Lúcia se manteve solteira por opção, inclusive deixou o voto de noviça na época em que a idosa começava a intensificar as queixas e sintomas da doença de Alzheimer. Maria é avó do neto mais velho, Gabriel. Este neto praticamente foi criado pela idosa. Hoje, sua mãe não permite esta convivência tão próxima, a não ser em visitas esporádicas que trazem muito sofrimento para a idosa. Sabe-se, ainda, que a mãe da idosa também teve Alzheimer. A confusão mental tem intensificado nos últimos dias. Há três anos trata a doença de Alzheimer, estando a família ciente de toda a doença. Esta cuidadora fala claramente da doença sem receios, e ainda elogia os cursos que recebe para os cuidadores de Alzheimer, que lhes dão amparo, pois sem eles não teria condição de cuidar da idosa.
Quanto à Sra. Amorosa, sua cuidadora é a sua filha Lúcia, de 48 anos e solteira. Possui curso superior incompleto (Pedagogia). Administra a questão orçamentária (aposentadoria do pai). Chegou a pedir que a irmã ajudasse com os cuiinformações com a mãe, mas não foi entendida corretamente, pois a irmã retirou o que a mãe mais apreciava, que é o neto mais velho. Por inúmeras vezes, a irmã foi chamada pela assistente social para dividir com a cuidadora os cuiinformações da mãe, mas a resposta não foi positiva.
A probabilidade diagnóstica da Doença do Alzheimer (DA) é aceitável apenas pela família da Sra. Amorosa. A cuidadora comenta abertamente a questão da doença e enfatiza a necessidade de participar ativamente dos cursos para cuidadores de idosas com Alzheimer. Talvez pelo conhecimento adquirido nos cursos, consiga conversar tranquilamente sobre a doença e obter conhecimento sobre os percursos temerosos que ainda está por vir.
As famílias, muitas vezes representadas pelas cuidadoras, alegaram que se tratava apenas de esquecimento. No entanto, vale a ressalva que essas idosas foram indicadas para o estudo pela possibilidade do diagnóstico de Alzheimer leve feita pela equipe multiprofissional da Unidade Mista de Saúde de Taguatinga (USMT).
3.3.1 Critérios de inclusão
Idosas com probabilidade diagnóstica de Doença de Alzheimer leve prescrita pelo profissional responsável da USMT. As idosas deveriam apresentar cognitivo suficientemente preservado para poder responder à entrevista e interagir com a pesquisadora. Deveriam residir com a família (cônjuge, filhos e/ou cuidador informal).
3.3.2 Critérios de exclusão
Idosas que apresentaram probabilidade diagnóstica de Doença de Alzheimer em fase moderada (intermediária) ou grave (avançada), ou que não tinham sintomas da DA; idosas que residiram sós ou em Instituições de Longa Permanência (ILPs); idosas que não apresentavam cognitivo preservado, que impediam a sua interação com os pesquisadores.
3.4. RECURSOS INSTRUMENTAIS PARA PRODUÇÃO DE INFORMAÇÕES
sente quanto ao sexo e a sexualidade. E, por fim, foi discutida no núcleo de sentido cinco a vivência do Alzheimer e a relação com a sexualidade.
O segundo roteiro (Apêndice D) foi direcionado para a cuidadora, a fim de entender a compreensão que a mesma tinha da idosa quanto à doença e sua sexualidade, e foi composto pelos mesmos núcleos de sentido do primeiro roteiro, mas direcionado à percepção dos cuidadores sobre as idosas de quem cuidam.
Técnicas projetivas: Durante os encontros com as idosas e suas cuidadoras foram utilizadas técnicas projetivas para facilitar a expressão das participantes e contribuir com a construção de indicadores, a saber:
Técnicas de recorte e colagem ou desenho: utilizando revistas e jornais, cada idosa recortou gravuras e palavras que representassem a idéia de sexualidade, afetividade e amor para si. Era dado um comando que focava em uma época do passado, uma lembrança ou algo que a fizesse recordar de determinado momento junto ao parceiro que, preferencialmente, estivesse interligado à sexualidade vivida. A idosa deveria desenhar ou procurar figuras em revistas, recortá-las e colá-las, de modo a representar a sua vivência da sua sexualidade. Depois, elas colaram as figuras em uma folha de cartolina e responderam ao inquérito sobre as imagens selecionadas, conforme orienta Afonso (2003).
Técnica da foto: por meio da exploração de uma foto do acervo pessoal da idosa, como foco na vida conjugal e/ou afetiva. Fotos familiares relacionadas às lembranças da idosa junto com o parceiro foram solicitadas. Procedeu-se a um inquérito sobre a(s) foto(s), focando na história conjugal/sexual da idosa (AFONSO, 2003).
Na discussão dessas técnicas os trabalhos, as participantes foram estimuladas a falarem sobre as mudanças percebidas em suas vidas, tecendo uma comparação entre o antes e o depois da velhice e da doença ( AFONSO, 2003).
Por fim, utilizou-se um diário de campo. Ao final de cada encontro, foram registrados em um caderno as falas e acontecimentos das sessões.
3.5 PROCEDIMENTOS DE COLETA DE INFORMAÇÕES
05171312.5.0000.0029. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
O primeiro contato foi realizado na Unidade de Saúde Mista de Taguatinga. Essa Unidade conta com uma equipe multidisciplinar, a qual acolhe as idosas para uma primeira consulta. Identificado, pelo profissional, que a idosa se encontra com provável diagnóstico da Doença de Alzheimer leve, o mesmo foi encaminhado para que a pesquisadora realizasse o primeiro contato com a idosa e com a sua família e/ou cuidador, por meio telefônico ou pessoalmente.
O encontro iniciou com apresentação da temática a ser estuda, acompanhada das fotos da família, do casal e dos tempos de namoro, casamento e dos locais românticos (parques), solicitadas no contato telefônico, que possivelmente trariam lembranças de sua vida, permitindo a identificação da memória e sua condição (remota ou recente).
Os demais contatos foram realizados na residência da idosa, com autorização prévia agendada conforme conveniência dos participantes.
Durante a entrevista, o tema da sexualidade foi proposto e o sujeito foi ouvido segundo a sua percepção. Não houve resposta direcionada, mas uma reflexão junto ao entendimento do entrevistado.
É válido ressaltar que no primeiro momento a cuidadora ficou próxima da nossa discussão, como uma forma de criar confiança no contexto novo entre pesquisadora e tema pesquisado. Com o avançar das entrevistas e a confiança adquirida permitiu ficar mais próxima da idosa, avançando a intimidade tanto para a pesquisadora como para a própria idosa.
Em um segundo, encontro foi realizada a técnica de recorte e colagem com imagens ou desenhos, a fim de facilitar a adesão da idosa no diálogo temático, e facilitar os conteúdos relacionados à sexualidade. Após a confecção do cartaz com as imagens ou os desenhos, procedia-se a um inquérito sobre o mesmo.
Depois, procedia-se a entrevista com as cuidadoras para se ter acesso à percepção da família (cônjuge, filhos e/ou cuidador informal) sobre à vivência da sexualidade desta idosa com a Doença de Alzheimer na fase leve.
da acadêmica Camila Rodrigues da Silva, do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Por fim, realizou-se uma visita domiciliar a todas as participantes, para conceder uma devolutiva do estudo e orientações sobre a sexualidade e DA.
3.6 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DE INFORMAÇÕES
Em consonância com a metodologia construtivo-interpretativa, na qual se insere nossa pesquisa, a interpretação dos relatos, das técnicas projetivas foi realizada visando a construção de indicadores relevantes para compreensão da sexualidade das idosas participantes. Para tanto, entrevistas foram transcritas na íntegra. Depois de uma leitura flutuante para levantamento de trechos relevantes dos relatos que sugeriam a presença de indicadores, agregou-se análise das técnicas projetivas e dos seus inquéritos, bem como de momentos informais da pesquisa. Assim, somente na fase de análise das informações é que foi possível
“montar o quebra-cabeça” de cada caso, de forma mais sistematizada em núcleos de sentido, para indicadores elaborados. Trabalhou-se com todas as formas de expressão das idosas e cuidadoras, com metáforas, expressões de diferentes tipos, e representações.
Os indicadores são elementos relacionados aquilo que mobiliza o sujeito acerca do tema estudado, sendo expressos sempre por via indireta e implícita. Assim, a interpretação é sempre realizada em relação ao objeto de estudo, e o indicador só tem sentido quando se refere ao processo de pesquisa, ainda que sua relevância não esteja clara num primeiro momento interpretativo. Tais indicadores nascem do diálogo interpretativo, parecendo inicialmente uma especulação feita por parte do pesquisador. Contudo, para que não assuma este papel, o indicador deve ser reafirmado durante os vários momentos da pesquisa, considerando todas as informações, incluindo as provenientes dos momentos informais (GONZÁLEZ- REY, 2005)
que explica o que não é possível observar explicitamente, permitindo posteriormente uma descrição.
De acordo com González Rey (2002), os vários indicadores juntos formam os núcleos de sentido das experiências do sujeito. Ou seja, o desenvolvimento de indicadores conduz necessariamente ao desenvolvimento de conceitos e categorias novas de sentido. Os núcleos de sentido referem-se a estas categorias ou hipóteses construídas com base nos indicadores, os quais estão articulados com os pontos que mobilizam o sujeito, e não com aquilo que é mais freqüente ou semelhante, como numa categoria de análise de conteúdo. Da mesma forma, essas categorias não são estabelecidas de forma rígida ou a priori de alguma teoria. Por sua vez, os núcleos levaram-nos à construção de uma contribuição teórica sobre o problema estudado (GONZÁLEZ REY, 2005). São esses núcleos de sentido que permitem conceituar novas áreas acerca da realidade estudada.
A criatividade e independência do pesquisador para “soltar” seu pensamento
são uma condição essencial da construção teórica. Estimulam-se os diálogos entre os sujeitos e entre sujeitos e pesquisador, os quais se envolvem emocionalmente, desenvolvem vínculo e compromisso com o estudo, resultando numa produção de informações significativas para a pesquisa. Portanto, o momento empírico não representa apenas a coleta de informações, significa um momento de produção da informação, onde as idéias, os conceitos do pesquisador, assim como o momento histórico-social-cultural no qual este processo está ocorrendo são momentos permanentes do processo de produção da informação. Por isto, é importante esclarecer que nem o indicador, nem o núcleos de sentido tem um caráter absoluto, finalizado, estático. São apenas peças interpretativas que se integram a um sistema
de interpretação e formam um “quebra-cabeças” que está em constante processo e
construção (GONZÁLEZ REY, 2005).
Ainda que tenhamos consciência da maleabilidade deste processo construtivo-interpretativo, temos que reconhecer como o próprio Ganzález Rey (2005) afirma, que a construção do conhecimento, a partir do levantamento de indicadores e elaboração de núcleos de sentido é o momento mais difícil desta proposta epsitemológica/metodológica. Em suas palavras, afirma:
investigación cualitativa, cuando llega el momento de construcción de la información tratan el material empírico como si este fuera portador de una verdad única a la cual debe llegar el análisis, e intentan buscar en los datos esa verdad, con lo cual inconscientemente comienzan a seguir un camino totalmente descriptivo (GONZÁLEZ REY, 2005, p.1).