DIALÉTICA E SUBJETIVIDADE EM PIAGET E HEGEL
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T á rik d e A th a yd e P ra ta '
RESUM O
o
a rtig o visa d eterm in a r so b q u e a sp ecto s o estru tu ra lism o d e[ean
P ia g et p o d e ser co n sid era d o co m o u m a teo ria "d ia ietica ". P a ra ta n to , a p ó s u m a su cin ta d iscu ssã o d o sig n ifica d o d a d ia lética n a o b ra d eG.
W F H eg el,a b o rd a m o s a s ca ra cterística s d o co n ceito p ia g etia n o d e estru tu ra , e a n o çã o p ia g etia n a d e d ia lética , en q u a n to u m
a sp ecto essen cia l d o p ro cesso d e eq u ilib ra çã o d a s estru tu ra s co g n itiva s. A ssim , p o d em o s co n clu ir q u e, a p esa r d e
su a s p ro fu n d a s d ifiren ça s, o s d o is a u to res en ca ra va m a ra zã o co m o ca p a z d e su p era r a s co n tra d içõ es e, p a ra a lém
d esta s, se d esen vo lver ru m o a p a ta m a res su p erio res d e co n h ecim en to .
P a la vra s-ch a ve: D ia lética ; estru tu ra lism o ; d esen vo lvim en to .
Dialectic and subjectivity in Piaget and Hegel
ABSTRACT
T h is p a p er a n a lyses th e p o ssib ility o fco n sid erin g Jea n P ia g et's stru ctu ra lism a s a d ia lectic th eo ry. T h e m ea n in g
o f d ia lectics in H eg el is in itia lly d iscu ssed . It is flL L o w ed b y a n exp o sitio n o f th e ch a ra cteristics o f P ia g ets co n cep t
o f stru ctu re, h is co n cep tu o n o f d ia lectics w h ile a n essen tia l a sp ect o f tb e co g n itive stru ctu re eq u ilib riu m . T h e
co n clu sio n s a re th a t b o th a u th o rs co n sid er rea so n ca p a b le to su rp a ss co n tra d ictio n s a n d to d evelo p h ig h er leuels o f kn o w led g e.
K ey w o rd s: d ia lectics; stru ctu ra lism ; d evelo p m en t .
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
. Graduado em Psicologia e mesrrando em Filosofia pela UFC.
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1 INTRODUÇÃO
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A fim d e evita r q u a lq u er m a l-en ten d id o ,
d eixo cla ro d e a n tem ã o q u e a cred ito n o
va lo r irred u tível e su i g en eris d a ra zã o .
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Jean Piaget (a p u d Freitag, 1991)
ão é nada surpreendente classificar JEAN PIAGET (1896-1980) como um racionalista, não no sentido de alguém que privilegia a razão pura em relação à experiência, mas sim no sentido de alguém que defende a existência de regras racionais pelas quais são inteligíveis os fenômenos que nos cercam. Numa posição intermediária entre racionalismo e empirismo clássicos, entre ênfase nas estruturas do sujeito cognoscente e ênfase nas características dos objetos, o conceito piagetiano de
a d a p ta çã o , do qual a inteligência formal seria a expressão mais evoluída, engloba dentro de si tanto aa ssim ila çã o dos dados da experiência às estruturas prévias quanto aa co m o d a çã o destas àqueles dados, constituindo-se assim, num caminho regrado, racional, pelo qual poderíamos conhecer a realidade que nos cerca.
O caso é que tais intenções de conciliação en-tre assimilação e acomodação, entre razão e experiên-cia, são um forte indício de que Piaget defendeu uma concepção d ia lética da racionalidade, isto é, uma con-cepção da razão como um poder capaz de superar as contradições e elevar-se a patamares superiores de co-nhecimento. Essa suspeita se avoluma à medida em que lemos algumas obras do autor e de diversos comentadores de seu pensamento, onde existem re-ferências explícitas ao termo "dialética". Entre estes, destacou-se em nossa pesquisa o filósofo suíço Thomas Kesselring, que aponta para importantes semelhan-ças entre o pensamento piagetiano e as idéias do mai-or expoente da tradição dialética: G.W F. HEGEL (1770-1831), salientando que:
P ia g et, in terro g a d o so b re o s p o ssíveis p a ra lelo s
en tre seu p en sa m en to e o d e H eg el, co n firm o u
q u e se ta is p a ra lelo s existia m , ela s n ã o tin h a m
sid o in ten cio n a d o s n em p erceb id o s p o r ele, ca r
b ela s, je n 'a i p a s en co re lu H eg el, o u seja , ele
a in d a n ã o h a via lid o H eg el e isso q u a tro a n o s
a n tes d e su a m o rte!
(p.
25).
JKesselring (1993) destaca três semelhanças en-tre os dois autores: o papel indispensável que am-bos atribuíram à questão do d esen vo lvim en to , a dis-tinção entre fo rm a e co n teú d o em cada etapa do processo, e a idéia de reversã o d a co n sciên cia , na qual esta última se volta para sua própria atividade. Por essa reversão, é que os conteúdos se distinguiriam das formas e a consciência se desenvolveria de uma etapa para a outra.
Porém, mesmo um rasteiro conhecimento das idéias básicas dos dois autores em foco, Piaget e Hegel, levantaria dúvidas sobre a possibilidade de se estabelecer tal relação e sobre o exato significado da dialética em suas obras. Este último, autor de uma obra extremamente complicada e de inspira-ção fortemente teológica, aparentemente, teria pou-co a ver pou-com um rigoroso cientista experimental como Piaget. A obscura exposição, dialéticamente regrada, da F en o m en o lo g ia d o esp írito , teria pouco a ver com a clara e bem articulada teoria piagetiana do desenvolvimento cognitivo.
Se é assim, sob que aspectos pode ser consi-derada "dialética" a teoria piagetiana? Quais parale-los poderiam ser traçados entre Piaget e o principal autor da tradição dialética? Infelizmente a ausência de estudos em nossa língua dificulta grandemente o esclarecimento dessas questões.
Frente a tudo isso, o presente artigo tem como objetivo esclarecer em que sentido alguém poderia classificar a teoria piagetiana como "dialética" e sin-tetiza alguns resultados obtidos ao longo de dois anos de pesquisa junto ao PIBIC- CNPq2 . Em primeiro lugar, discutiremos o significado desse termo na fi-losofia de Hegel, o que ajudará a demarcar as especificidades de cada autor em suas concepções de dialética. Numa segunda parte, abordaremos as características do conceito piagetiano de estrutura, o qual, enquanto conceito de um sistem a tra n sfo
r-IDeclaração feita em carta de Piaget a Kesselring. datada de 1311211976. .' ... . . !A roveirarnos a oportunidade para apresentar os nossos agradecimentos aos professores Manfredo Araújo de Oliveira. orienrador da pesquisa: Jesus Garcia P pascuaI,que m UI[O aJll ou com nossa.. d I irura de Piager José Maria Arruda de Sousa que nos auxiliou na difícilleiruraerrura ce riazer, '. , da_.F en o m en o lo g ia d o esp m toe ao Prof. Thomas Kesselring pela leitura de nosso relatório final de pesquisa e pelas observações que contribuíram para a conclusao deste artigo.
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rn a cio n a l,
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já sugere uma afinidade com a proces-sualidade inerente a uma teoria dialética. Numater-ceira parte, discutiremos o caráter explicitamente dialético da teoria piagetiana da equilibração, uma vez que, segundo aquela teoria, a progressiva equilibração das estruturas cognitivas ocorre através da superação dos desequilíbrios e construção de no-vas estruturas num patamar supenor.
HGFEDCBA
2 H EG EL EA
DIALÉTICA: A FILOSOFIA
COM O CIÊNCIA DO ABSOLUTO
Muito antes de escrever seu polêmico S a b ed o -ria e ilu sõ es d a fiL o so fia , Piaget (1973) já afirmava que, se as ciências se ocupam das questões particula-res, enquanto a Filosofia tende ao conhecimento total, este último não é acessível por um caminho universalmente aceitável, pois "é atualmente, e pode ser para sempre, caso de síntese provisória e de sín-tese em parte subjetiva, porque dominada, de fato, pelos julgamentos de valor não universalizáveis, mas especiais a certas coletividades ou mesmo a certos indivíduos" (p. 99). Estaria, portanto, vedada à Fi-losofia a possibilidade de alcançar verdades objetivamente controláveis e de se impor como su-perior às ciências.
Mas é naquela grande obra sobre a filosofia contemporânea, que ele investiga detalhadamente essa problemática, de um ideal de conhecimento su p ra -cien tífico . Se os filósofos dos séculos passados, segun-do Piaget (1983), apesar de suas explícitas pretensões metafísicas, davam primordial atenção aos saberes particulares, a filosofia contemporânea teria como um de seus mais graves problemas o que nosso autor de-signa por "ingerência pouco válida do juízo filosófico no terreno da pesquisa científica" (p.80).
Afirmando que "a filosofia é a ciência dos fun-damentos de todas as ciências e das leis gerais do conhecimento"(op. cit., p. 81) ou que "Há ... um absoluto, condição de todo relativismo, mesmo metódico; é desse absoluto que a filosofia se ocupa" (ibid., p. 82), os filósofos dos últimos dois séculos tentaram justificar a suposta superioridade da filo-sofia em relação às ciências, que para Piaget é
insus-tentável, pois sendo a
ilo
ofia é formada por mui-tos sistemas contraditórios, fica claro que a pura re-flexão, centrada sobre o eu ou sobre o grupo social, não substitui a análise objetiva.Diante das idéias piagetianas acerca da filo-sofia, fica claro o largo fosso que, nesse ponto, se-para Piaget de Hegel, pois este encarna exemplar-mente o ideal de um conhecimento supra-científico, é o modelo do filósofo que vê na filoso-fia um campo privilegiado, não um saber entre os outros, mas o saber fundamental. Tendo em mente que Hegel é amplamente considerado como o fun-dador da filosofia contemporânea' , e que compre-endia a filosofia como a Ciência fundamental, nos ocorre até afirmar que ele foi o fundador daquele ideal tão repudiado por Piaget.
Segundo Hegel (1997), se a modernidade empreendeu um imenso esforço para superar a idéia de um fundamento divino para o mundo, de uma razão subjacente a todas as coisas, e dirigir seu olhar para o que é terreno, cabe resgatar aque-le ideal de racionalidade perdido, que caracteri-zou a antigüidade e o medievo, pois a perda da metafísica, para ele, constitui-se numa verdadeira desgraça, que exige ...
... o esfo rço ten so e im p a cien te, d e u m zelo q u a
se em ch a m a s, p a ra retira r o s h o m en s n o a fu n
-d a m en to n o sen sível, ... , e d irig ir seu o lh a r p a ra
a s estreL a s;co m o se o s h o m en s, d e to d o esq u
eci-d o s eci-d o eci-d ivin o , estivessem a p o n to eci-d e co n ten ta
r-se co m p ó e á g u a , co m o o s verm es (p . 2 5 ).
A em preitada hegeliana pode ser entendida como um movimento profundamente conservador, no sentido de que procurava resgatar um conjunto de concepções típicas do mundo antigo, que a modernidade veementemente rejeitou. Ao afirmar que "A filosofia... tem, sem dúvida, os seus objetos em comum com a religião. Ambas têm averd a d epor objeto e, certamente, no mais elevado sentido - enquanto D eu sesó D eu sé a verdade" (Hegel, s/d, p. 69), o autor expõe seu compromisso com toda uma mentalidade que o nosso tempo vem paulatinamente abandonando. No que diz respeito à filosofia, essa mentalidade a encara, praticamente como uma outra forma de abordar D eu s,
.\ "Hegel, ... ,éonosso Plarão: aquele que delimita ideológica ou cientificamente, positiva ou negativamente as possibilidades teóricas da teoria", F. Chârelet, eirado por H ard t (1996)
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isto é, como uma forma de consideração do absoluto, do necessário, do imutável. Assim, a filosofia surge como suprema expressão do saber humano, superior a todas as outras possíveis formas deste saber.
De sua parte, Piaget jamais rejeitou a filosofia enquanto tal, uma vez que, inevitavelmente, "o ho-mem vive, toma partido, crê em uma multiplicidade de valores, hierarquiza-os e dá assim um sentido à sua existência por opções que ultrapassam sem cessar as fronteiras do seu conhecimento efetivo" (op.cit., p. 206). Portanto, por mais que o conhecimento pro-priamente dito seja algo empiricamente controlá-vel, "a interpretação ... das ciências permanecerá ... , necessariamente solidária a um sistema filosófico de conjunto" (Piaget, 1973 p. 103), uma vez que, para qualquer homem, é necessária a "síntese entre o que acredita e o que sabe" (Piaget, 1983, p. 206).
Para Hegel, porém, situar a filosofia no âm-bito da atividade do sujeito cognoscente é um erro, fruto do caráter abstrato e dicotômico do pensamen-to moderno. Segundo ele "a separação da realidade em relação à idéia é particularmente querida ao en-tendimento
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[V ersta n d , termo usado aqui em senti-do pejorativo], que tem os sonhos das suas abstrações por algo de verdadeiro e está inchado de seu d everser" (op. cit., p.75).
É
famosa a frase do prefácio àF en o m en o lo g ia d o esp írito :"O verdadeiro é o todo ... " (Hegel, 1997, p.31), que explícita que ra zã o , para o filósofo, é um poder unificador, capaz de superar as contradições, enquanto o pensamento moderno permanece no simples en ten d im en to , preso às opo-sições rígidas.
A esse modo de pensar que acaba separando rigidamente o conhecer e a verdade, que abdica do absoluto como se fosse inalcançável, o filósofo cha-ma de o tem o r d e erra r (ibid., p. 64), temor que ele desqualifica enquanto tentativa séria de alcançar o verdadeiro, pois todo esse escrúpulo em determinar previamente as possibilidades do conhecimento re-sulta numa renúncia de conhecer a racionalidade pró-pria ao real, renúncia inaceitável pois "só o absoluto é verdadeiro, ou só o verdadeiro é absoluto" (ibid., p. 64). Ao estabelecer a subjetividade como tema prin-cipal de sua filosofia, a modernidade, a partir de au-tores como Descartes, Kant e Fichte, estaria come-tendo o erro de tomar o finito pelo infinito.
Na contramão da racionalidade moderna, que se entende como separada dos objetos que conhece,
como su b jetivid a d e, Hegel defende a idéia de um
sa b er a b so lu to . A partir daí, ele jamais rejeita alguma coisa como totalmente destituída de valor, pois sua pretensão é a de transitar no elemento mais univer-sal, tornando-o capaz de capturar os momentos de verdade de todas as posições parciais.
Assim, a filosofia não estaria desconectada do ideal de conhecimento produzido pela modernidade, a ciência empírica: "A relação entre a ciência especulativa [sinônimo de Filosofia para Hegell e as outras ciências é, pois, apenas esta: a primeira não deixa de lado o conteúdo empírico das últimas, mas reconhece-o ... , e aplica-o ao seu próprio conteúdo" (Hegel, s/d, p.78).
Mesmo assim, com a presença necessária de mediações com o empírico, a filosofia, na compre-ensão do autor, deve conservar um aspecto de imediatez, de autonomia, em relação a ele, conquis-tada, justamente, pela m ed ia çã o , que é uma atitude negativa característica do pensamento, o qual não se acomoda à realidade im ed ia ta e explicira suas con-tradições.
Assim, o pensamento seria o terreno próprio da filosofia. Mas a filosofia, enquanto consideração pensante da realidade, constitui-se num modo es-pecífico de pensamento, não o pensamento mistu-rado com sentimentos, intuições e representações, mas sim p u ro (ibid., p. 72), algo da ordem daquilo que Hegel denominava co n ceito . A dificuldade de separar o pensamento desses outros modos da cons-ciência, é o que o autor denomina a in c e m -p reen sib ilid a d e da filosofia, que suscita desprezo em
relação a ela por parte daqueles que não tem o hábi-to "de se ater a puros pensamentos e de neles se mover" (ibid., p. 71)
Puro pensamento não significa, aqui, um pen-samento separado da realidade, pois a filosofia não pode ficar a mercê da subjetividade dos pensamentos abstratos. O co n ceito de que tratamos não é essa abstração vazia, mas sim "o esp írito vivo d o rea l'(ib id .,
p. 182), já que a filosofia não pode ficar fragmentada e presa a princípios particulares, pois estes "são unica-mente ra m o sde um só e mesmo todo" (ibid., p. 82).
Tal referência à totalidade, deixa clara a pre-tensão hegeliana de estabelecer a filosofia como S is-tem a d a C iên cia (S ysis-tem d er W issen sch a ft). Se ela não pode ficar presa ao particular, deve "conter em si todos os princípios particulares" (ibid., p. 83), de
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maneira que o aparente caos que encontramos na realidade que nos cerca possa ser ordenado
logicamente, entendido como
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efetiva çã o de princí-pios racionais superiores ao mundo dos fatos.Assim, fica caracterizada a filosofia como Ciência, isto é, saber rigoroso, dotado de necessidade lógica, cuja esfera de ternatizaçâo é o absoluto, esfera a partir da qual pode ser realizada a consideração de todas as esferas específicas do real.
Entretanto, é importante ressaltar que, na ten-tativa de resgatar o cerne da noção tradicional de fi-losofia, idéias acerca de verdades absolutas subjacentes a todas as coisas, Hegel não se limita a um simples retorno àco n tem p la çã o (ao th eo rein ) da antiga filoso-fia grega, pois na mesma medida em que recusa a subjetividade como um caminho exclusivo, nosso autor a reconhece como um momento necessário, de forma que não seria possível pensar num acesso ime-diato, intuitivo, à verdade. Se a verdade está no todo, na razão enquanto poder unificador, e não no enten-dimento dilacerado, ele não seria atingível imediata-mente, pois, completando a citação já feita, " ... o todo é somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento" (Hegel, 1997, p. 31). Portan-to, é necessário reservar o lugar da m ed ia çã o , pois o caminho até o todo, até a verdade, deve ser passível de exposição.
A mediação para Hegel, é aquilo que permite que pcssamos alcançar a verdadeira efetividade. Uma filosofia que se arroga imediatamente a posse do saber absoluto, "como num tiro de pistola" (ibid., p. 35), permanece, segundo o filósofo, na simples universalidade abstrata, inefetiva.
Se é assim, a consciência comum, não-filosófica, fica perfeitamente habilitada a questionar tal saber, pois o que é alcançado com tal rapidez pode ser facilmente refutado. Desse modo, a filosofia, no entender de Hegel, fica obrigada a expor cuidadosamente o caminho até o saber absoluto, ela deve ser capaz de trazer a consciência comum para o caminho da Ciência, mostrar-lhe como ela, na verdade, consiste num momento, o momento mais primário, do longo caminho em direção ao saber efetivo da verdade. Ao exigir que o indivíduo a acompanhe até as alturas do saber absoluto, a filosofia deve lhe fornecer os meios de atingi-lu, para assim reconciliar a aparente oposição entre ela própria e a consciência comum.
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É
exatamente neste ponto que podemos vislumbrar a importância da dialética para Hegel: ela consiste, justamente, no m éto d o através do qual a exposição do absoluto, ao longo do jogo de teses, antíteses e sínteses, seria possível. O saber absoluto concreto, para Hegel, é aquele que abrange a completude (V o llstd n d ig keit) das figu-ras da consciência na busca da verdade, e que, portanto, para ser exposto em sua necessidade(N o tw en d ig keit), deve ser desenvolvido através da refutação radical dos momentos preparatóri-os em relação àquele saber: não uma refutação absoluta, o que equivaleria a uma postura cépti-ca, mas sim a uma "negação d eterm in a d a " (ibid., p. 67), pois a idéia hegeliana de su p ra ssu n çã o
(A u fh eb u n g ) é a de uma superação conservante, "ao mesmo tempo um n eg a r e um co n serva r"
(ibid., p. 84).
Portanto, a refutação radical a qual nos referi-mos é uma refutação a partir de dentro, a partir da raiz, que mostra a contradição interna a cada mo-mento da consciência, fazendo com que ele se supe-re, pois "a consciência é ... ir além do limitado, ... é o ir além de si mesma" (ibid., p. 68).
Ao longo desse caminho de auto-superação, a consciência deve se afastar das oposições rígidas, inclusive entre verdadeiro e falso. a medida em que cada uma das etapas do desenvolvimento do saber é simultaneamente negada e conservada, cada uma delas tem, mesmo em sua falsidade, o seu mo-mento de verdade. O problema é que o senso-co-mum, e mesmo muitas posturas filosóficas, desco-nhecem essa maleabilidade. Referindo-se à consciência não-filosófica, Hegel (1997) escreveu:
C o m a m esm a rig id ez co m q u e a o p in iã o co
-m u -m se p ren d e à o p o siçã o en tre o verd a d eiro e o
fo lso , co stu m a ta m b ém co b ra r, a n te u m sistem a
filo só fico d a d o , u m a a titu d e d e a p ro va çã o o u d e
rejeiçã o... N ã o co n ceb e a d iversid a d e d o s
siste-m a s filo só fico s co siste-m o d esen vo lvisiste-m en to p ro g
ressivo d a verd a d e, m a s só vê n a d iversid a d e a co n
-tra d içã o
(p.
2 2 ).Para o filósofo, a atitude filosófica não pode se prender a tal unilateralidade, pois o negativo não é algo de que se deva fugir, e tal fuga só pode levar à ineferividade, à insípida busca por resultados ime-diatos, à qual faltam "a dor, a paciência e o
lho do negativo" (ibid., p. 30). De sua parte, Hegel considera o negativo como o motor da dialética, e como aquilo que dá vida ao espírito:
O
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esp írito só a lca n ça su a verd a d eà
m ed id a q u e en co n tra a si m esm o n o d ila cera m en to a b so lu to .E le n ã o é essa p o tên cia co m o o p o sitivo q u e se
a fo sta d o n eg a tivo ... A o co n trá rio , o esp írito só é
essa p o tên cia en q u a n to en ca ra d ireta m en te o
n eg a tivo e se d em o ra ju n to d ele (ib id ., p . 3 8 ).
Sem esse momento do entendimento, que re-aliza o trabalho do dividir e nos traz determinações fixas, a efetividade procurada não seria alcançável, pois, ainda que seja inefetivo o entendimento, sem ele permaneceríamos na inefetividade ainda mais profunda que é a universalidade abstrata.
Podemos vislumbrar aqui a imensa importân-cia, para Hegel, da obra de L KANT (1724-1804), suprema expressão filosófica da modernidade, na medida em que ela expressa o momento fundamen-tal da particularização, sem o qual não seria possível a suprassunção do universal e do particular dentro do universal concreto:
é u m m o m en to essen cia l essesep a ra d o , q u e é ta m
-b ém in efetivo ; u m a vez q u e o co n creto , só p o
r-q u e se d ivid e e sefo z in efetivo , é r-q u e se m o ve. A
a tivid a d e d o d ivid ir é a fo rça e o tra b a lh o d o
en ten d im en to , a fo rça m a io r e m a is m a ra vilh o
-sa ... A b eleza sem -fo rça d etesta o en ten d im en to
p o rq u e lh e co b ra o q u e n ã o tem co n d içõ es d e
cu m p rir (ib id ., p .3 8 ).
O filósofo realmente insiste neste ponto: o negativo não é algo externo ao verdadeiro e, por-tanto, não pode ser deixado de lado como um dejeto, pois "a verdade não é uma moeda cunhada, pronta para ser entregue e embolsada sem mais ... O mal e o falso, na certa, não são malignos tanto como o demônio, pois deles se fazem sujeitos particulares ... " (ibid., p. 41).
Como já colocamos anteriormente, trata-se de uma negação a partir de dentro de cada momento da consciência, negação que o impulsiona em direção à suprassunção por um momento superior. Desse modo, a exposição do absoluto ocorre de modo necessário pois, assim, existe um encadeamento lógico na suces-são dos diversos momentos até que se chegue ao mo-mento final, que abarca todos os outros, "o reino total da verdade do espírito" (ibid., p.72), uma cornpletude
alcançada necessariamente pois "o verdadeiro é o vir-a-ser de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como sua meta, ... e que só é efetivo mediante sua atu-alização e seu fim" (ibid., p. 30). Alcançado, esse pon-to de vista, absolupon-to, não haveria dificuldade para com-preender todo o real como efetivação da razão.
É
interessante notar que, nesta sua exposi-ção do caminho ao saber absoluto, Hegel dá um lugar de destaque ao processo de formação cultu-ral da humanidade, ao vir-a-ser do esp írito d o m u n -d o . Esse é um aspecto muito importante, pois dei-xa claro que a subjetividade concebida pela modernidade seria algo dado a p rio ri, estaticamen-te, deixando de lado sua mediação histórica, es-quecendo que o movimento dos espíritos particu-lares é preparado pelo movimento do próprio espírito mundial (ibid, p. 36), que o espírito subjetivo está inserido na realidade mais ampla do espírito objetivo, da realidade social.Porém, Hegel não se limita a ressaltar a di-mensão histórica da razão, pois o próprio espírito mundial, de acordo com a necessidade do seu pro-cesso de auto-constituição, se moveria em direção ao espírito absoluto, que já não separa o saber e a verdade, aparência e essência, espírito no qual o con-ceito corresponde ao objeto e o objeto ao conceito. Somente à luz desse saber, somente sobre a solidez desse solo, absoluto, é que se torna plenamente in-teligível a mais famosa proposição hegeliana:
O
q u e é ra cio n a l é rea l e o q u e é rea l é ra cio n a l. .. só a id éia , e n a d a m a is, é rea l, e en tã o o q u e setra ta é d e reco n h ecer n a a p a rên cia d o tem p o ra l e
d o tra n sitó rio , a su b stâ n cia q u e é im a n en te e o
etern o q u e é p resen te (H eg el, 1 9 9 0 , p .
13
el4 ).A obra F en o m en o lo g ia d o esp írito ,de Hegel, seria a exposição das mediações preparatórias a essa dimen-são, em que a racionalidade aparece não mais como faculdade do sujeito humano, mas sim como caracte-rística do próprio real, de maneira a apresentar "a re-conciliação da razão auto-consciente com a razão q u e sim p lesm en te é,com a realidade" (Hegel, s/d, p.74).
Nesse contexto, fica fácil perceber porque, na filosofia hegeliana, o destaque dado à historicidade da razão não se entende como um relativismo: a pró-pria história é um modo de eferivação da razão. A ternatização das mediações históricas equivale, assim, a demonstrar a racionalidade imanente ao processo.
45
Dialética, na concepção de Hegel, pode ser entendida como uma preparação do ambiente em que deve transitar o pensamento filosófico, um ambiente em que está superada a oposição entre o saber e a verdade, a separação entre o ser e o pensar, e no qual pode existir verdadeiramente aquilo que o filósofo denominava "Fundamentação da Ciência", "Lógica" ou "Filosofia Especulariva."
3
HGFEDCBA
O C O N C EITO
PIA G ETIA N O
D E
ESTR U TU R A
Ao discorrer sobre o desenvolvimento psi-cológico, Piaget coloca que há uma identidade im-pressIOnante, se compararmos seus comportamen-tos, entre as reações da criança e do adulto, ao mesmo tempo em que existem diferenças marcantes, que nos impedem de pensar numa cor-respondência completa.
Como explicar esse aparente paradoxo? Piaget (1971) responde afirmando que "do ponto de vista funcional, isto é, considerando as motiva-ções gerais da conduta e do pensamento, existem funções constantes e comuns a todas as idades" (p.12). Desse modo, as ações e operações, em to-dos os níveis de desenvolvimento psíquico, supõem interesses que as desencadeiam. Estes últimos, en-tretanto, variam muito, em termos de sua mani-festação efetiva, de acordo com o estágio em que ocorrem. Assim, estão colocados os elementos que nos permitem falar de uma distinção
importantís-sima na teoria de Piaget: a distinção entre
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fu n çã o e estru tu ra .Se podemos afirmar que, em todos os ní-veis do desenvolvimento, quaisquer ações (pre-sentes desde os níveis sensório-motores) e pensa-mentos (surgidos somente com o desenvolvimento de estruturas operatórias), são movidos por ne-cessidades (sejam fisiológicas, afetivas ou intelec-tuais), não podemos esquecer que estas são satis-feitas de maneiras muito diferentes ao longo do desenvolvimento, pois as estruturas que o sujeito constrói para dar conta delas estão em constante transformação.
É
aqui que se vislumbra a princi-pal razão para fazermos a distinção entre funções e estruturas: estas são va riá veis enquanto aquelas são in va ria n tes.46
No processo de descentração da inteligência, as estruturas de um determinado nível, quando já não dão conta do que é dado na experiência, tem de ser reconstruídas num nível superior, pois se as fun-ções permanecem invariantes, tais estruturas tem de se reorganizar continuamente para avançar na bus-ca da objetividade do conhecimento.
Piaget não pensa numa sucessão casuística
entre as diferentes estruturas: segundo ele, ainda que seja caracterizado por estruturas originais, cada ní-vel da psicogênese conserva o essencial dos níveis anteriores, pois as funções gerais se mantém e as antigas estruturas sobrevivem como subesrruturas nos novos estágios.
Ao precisar a forma geral das funções, Piaget coloca que toda necessidade tende aa ssim ila r coisas externas às estruturas construídas pelo sujeito, ao mesmo tempo em que tende a a co m o d a r essas últi-mas, no interesse da melhor incorporação. Essas duas funções fazem parte de uma função mais ampla, que é a a d a p ta çã o , na qual elas entrariam num equilí-brio crescente ao longo do desenvolvimento.
É
jus-tamente nessa equilibração progressiva, de acordo com a teoria piagetiana, que está a razão para um aprimoramento da adaptação do sujeito à realidade que o cerca, desde as formas mais primitivas (como, por exemplo, a adaptação sensório-motora, excessi-vamente acomodada ao concreto) até formas mais evoluídas (como o operatório formal, onde há um equilíbrio inédito entre assimilação e acomodação, que é a base para o posterior surgimento do pensa-mento científico).Assimilação e acomodação, unidas pela adap-tação, somadas àquilo que Piaget chamava de o rg a -n iza çã o (organização das estruturas biológicas e cognitivas), representam os chamados in va ria n tes
fu n cio n a is da teoria piagetiana.
O
caso é que se temos estruturas variáveis e funções invariantes, e se estas últimas se relacionam entre si como num processo de eq u ilib ra çã o pro-gressiva (Piaget usa também o termo m a jo ra n te) te-mos também estruturas que se sucedem no sentido de um equilíbrio cada vez maior e que, portanto,não podem ser pensadas fora de uma gênese.
É
interessante ressaltar que se a palavra "es-trutura" é utilizada, na maioria das vezes, no senti-do de algo mais ou menos estático, acabasenti-do,sarnente, não é este o caso do mencionado conceito na teoria de Piaget, pois, na verdade, este conceito constitui um elemento imprescindível para que se possa pensar o fenômeno do desenvolvimenro.
Em toda a sua discussão sobre o estruturalis-mo (Piaget, 1974), o autor se refere ao anragonis-mo entre duas posições principais: uma que defen-de um estruturalismo sem gênese (como Husserl ou
o empirismo lógico, na filosofia, a
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G esta lt-th eo rie,na psicologia, entre inúmeros outros) e outra que fala na construtividade fundamenral das estruturas (como é o caso do próprio Piaget).
Ele se refere, ainda, a uma terceira posição: a da sucessão contingente das estruturas (como em Foucault, com sua "arqueologia do saber", ou da bi-ologia larnarckista). Na história da psicologia, se-gundo Piaget (1971), num espírito semelhanre ao do lamarckismo biológico, surgiu inicialmente um geneticismo sem estruturas, de pura pias ti cidade destas, após o que se assistiu uma reviravolta na direção de um estruturalismo sem gênese. Piaget se coloca numa posição inrermediária entre este últi-mo e a sucessão contingente: a de um estruturalis-mo genético. Porém, ele enfatiza que:
... , n ã o fo i p o r a m o r àsim etria , co m o em d
isser-ta çã o d e fiL o so fia seg u n d o a s b o a s tra d içõ es, q u e
ch eg u ei a esta co n clu sã o , m a s sim , esta m e fo i
im p o sta
pelo
co n ju n to d o s fo to s q u e reco L h i d u-ra n te q u a se 4 0 a n o s, estu d a n d o a p sico L o g ia d a
cria n ça (ib id ., p .1 3 6 ).
Com bases na sua pesquisa efetiva, portanto, é que ele chegou à conclusão de que "toda estrutura tem um gênese" (ibid., p. 139), e é importante ter em mente que, contra as outras duas posturas já mencionadas, Piaget defende a construrividade das estruturas e um fio condutor, na direção da equilibração, que regula essa construção.
Essa discussão, especialmenre contra o
pré-formismo (racionalista ou ernpirista) está insisten-temente explicitada na exposição de Piaget (1974) sobre as características básicas do conceito de estru-tura. Piaget escreve, então, sobre três aspectos: 1) o de to ta lid a d e, ou seja, seu caráter sistemático; 2) o das tra n sfo rm a çõ es, regidas pelas suas leis de sistema e que a enriquecem; e 3) aa u to -reg u la çâ o , que são as leis já mencionadas. Como será possível perceber ao longo da explicação seguinte, esses três aspectos
são indissociáveis um do outro, compondo esse con-ceito fundamenral para a compreensão da teoria pIagetlana.
o que diz respeito ao aspecto de to ta lid a d e
das estruturas, o autor coloca que estas, apesar de formadas por elementos, não se limitam às associa-ções cumulativas entre estes elementos, mas são regidas por leis que caracterizam o sistema enquan-to tal, conferindo ao todo propriedades distintas daquelas que possuem os elementos isolados.
Se os adeptos da emergência contingenre com-preenderiam a formação dessas totalidades como simples soma de elemenros prévios, e os do pré-formismo pensam a totalidade como anterior aos elementos e gerada por evidência imediata, Piaget, fala de estruturas operatórias, e tem uma posição relacional: o que conta não são os elementos ou o todo enquanto tais, mas as relações entre os elemen-tos, ou seja, os processos de composição, sendo o todo resultado dessas relações, cujas leis são as do SIstema.
Nesse contexto é que surge a questão consi-derada por Piaget como central em todo estrutura-lismo: as estruturas comportam um processo de for-mação ou conhecem apenas uma pré-formação mais ou menos eterna? A posição de Piaget frente a esse problema se esclarece quando se considera a segun-da característica das estruturas: a de serem não uma forma estática, mas sim um sistem a d e tra n sfo rm a -çõ es.Ao falar de estruturas, ele não pretende chegar a um formalismo a-histórico, mas a uma estrutura que se constrói.
Sendo o característico das totalidades estruturadas depender de suas leis de composição, elas são, portanto, naturalmente estruturantes e uma atividade estruturante não pode ser outra coisa que não um sistema de transformações: "Todas as estru-turas conhecidas, ... , são sistemas de transforma-ções; ... e se não comportassem tais transformações, confundir-se-iam com formas estáticas quaisquer e perderiam todo o interesse explicativo" (ibid., p.13).
Assim, seria preciso distinguir numa estrutu-ra os seus elementos, submetidos às transformações, e às leis próprias a cada estrutura, que regem estas últimas. Facilmente essas leis podem ser concebidas como imutáveis, levando a estruturalismos imper-meáveis às concepções de gênese, com a pretensão de colocar as estruturas sobre fundamentos
atem porais. Para Piaget, entretanto, que explica a estabilidade das estruturas por um processo de equilibração, o retorno ao inatismo não é uma solu-ção óbvia, pois levanta problemas tão complexos quanto os de uma concepção psicogenética.
Se as transformações de que fala Piaget seriam
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tra n sfo rm a çõ es ra cio n a is, na medida em que permanecem solidárias a um invarianre, no fundo, o que ele quer expressar é que a transformação, a mudança, não é algo propriamente irracional, que não só a identidade caracteriza a razão, pois "na realidade, transformação e identidade são sempre indissociáveis e é a possibilidade de compô-Ias entre si que constitui a obra própria da razão" (Piaget,
1973,
p.
43).Essa combinação indissociável entre transfor-mação e conservação é um instrumento incompa-rável da co n stru tivid a d e que Piaget tanto defende, pois ao mesmo tempo em que as transformações podem ser dosadas pela diferenciação de um grupo em seus sub-grupos e pelas possíveis passagens de um destes a outros, ocorre um afastamento em rela-ção a uma conceprela-ção identitária e pré-formisra da racional idade.
Quanto à terceira característica, são as leis próprias às estruturas que constituem aquilo que se denomina seu aspecto de a u to -reg u ia çâ o , conferin-do-lhe sua conservação e um relativo fechamento, que impede que suas transformações conduzam para fora de suas fronteiras.
Tal fechamento não impede que uma estru-rura torne-se uma sub-estrurura de outra mais am-pla ao longo do desenvolvimento, apenas garante que suas leis sejam ainda assim conservadas. Por-tanto, metaforicamente falando, não se trata de uma anexação, mas sim de uma confederação, e isso re-força a importância da auro-regulação, ao mesmo tempo que reforça as esperanças suscitadas pela no-ção de estrutura, pois: "quando se consegue reduzir um certo campo de conhecimentos a uma estrutura auto-reguladora, tem-se a impressão de se entrar na posse do motor íntimo do sisrerna'{ibid., p. 15).
É
importante observar, que o caráter auto-regulativo das estruturas não é exclusivo do pensa-mento lógico-matemático, pois existem estruturas de naturezas muito diferentes (lingüísticas, socioló-gicas, psicolósocioló-gicas, erc.), nem é algo só alcançado no nível operatório.48
É
verdade que a operações são regulações mais perfeitas, uma vez que não se limitam a corri-gir os erros a p o sterio ri, mas realizam uma pré-correção através dos meios internos de controle, de modo que a regulação que elas operam não se baseia somente na reversibilidade (por inversão e reciprocidade), mas também sobre um jogo de antecipações e retroações. Porém, podemos falar de outros dois processos fundamentais de auto-regulação, além das operações: os ritm o s, mecanis-mos encontrados no domínio do biológico (e no nível sensório-motor da inteligência), e asreg u la çõ es, de natureza pré-operatória.
O autor coloca que cada um é livre, para ver na seqüência ritmos-regulações-operações as etapas de construção das estruturas, ou colocar os meca-nismos operatórios na base, deles extraindo todo o resto, de uma maneira quase platônica. Uma vez que a estrutura consiste numa totalidade fechada e autônoma, Piaget compreende os motivos do per-pétuo renascimento de tendências platônicas, pois a idéia da pré-formação parece sua razão de ser e exerce sua sedução. Entretanto, as estruturas são tam-bém, como já colocamos, sistemas de transforma-ções que se engendram uns aos outros, de forma genealógica, de maneira que o conceito de transfor-mação sugere o de fortransfor-mação e o de auto-regulação sugere o de auto-construção.
"É
fácil construir tais essências do terreno fi-losófico, onde a invenção é livre de todo constran-gimento, mas é difícil encontrá-Ias no terreno da realidade verificável" (ibid., p. 47), é o que Piaget poderia responder aos defensores de um estrutura-lismo sem gênese.4
HGFEDCBA
DI
ALÉTICA E EQUILIBRAÇÃO
Como já aludimos, Piaget (1971) explicava o desenvolvimento das estruturas cognitivas como um processo de equilibração majorante. Segundo a teoria da equilibração, o desenvolvimento psíquico é com-parável ao orgânico (no sentido de que ambos tendem para um equilíbrio crescente) sem que, porém, seja possível reduzir aquele a este. A forma final do equilí-brio orgânico é mais estática que a do equilíbrio cognitivo, além de mais instável (pois a decadência se segue imediatamente). Já o equilíbrio da inteligência
não é seguido por um imediato declínio, além de que é dinâmico, na medida em que a equilibração é diretamente proporcional à maleabilidade das estrutu-ras que vão sendo construídas.
Para Piaget (1976), a equilibração não é pro-veniente da experiência dos objetos ou de uma su-posta programação inata no sujeito, mas sim de "construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas" (p. 7), o que viabiliza um enri-quecimento crescente de nossos conhecimentos.
Essa teoria propõe um processo "que conduz de certos estados de equilíbrio aproximado a ou-tros, qualitativamente diferentes, passando por
múl-ti pios deseq uilíbrios e reeq uilibrações" (ibid., p. 11), e é exatamente aqui que se encaixa a concepção piagetiana de dialética, na medida em que ele a de-finiu como "construção de novas interdependências que constituem o aspecto inferencial de equi-libração" (Piaget, 1996, p. 14).
Para nosso autor, ao se defrontar com contra-dições, que sejam insuperáveis para determinada es-trutura cognitiva, o sujeito deve construir nova es-trutura para dar conta do problema (dar conta do que ele chama na citação acima de "desequilíbrios"), mas a partir da anterior, que é conservada como subsistema da nova. Desse modo, podemos perce-ber o caráter conscientemente "dialético" do estru-turalismo de Piaget, na medida em que, como a gran-de tradição dialética do pensamento ocidental, ele nos fala de um pensar que deve superar as contradi-ções, recuperando seus momentos de verdade.
O autor chama a atenção para o fato de que a construção de novidades, nesse aspecto inferencial da equilibração, não ocorre por uma simples implicação entre enunciados, um processo meramente discursivo, mas" ... supõe um processo transformacional que só pode ser sustentado por construções operatórias ou pré- operatórias" (ibid., p. 201), daí porque, para ele, a dialética procede por implicações entre operações/ ações (pois estas já constituem transformações) en-quanto dotadas de significações.
a introdução de seu estudo sobre a dialética, o autor expõe como seus objetivos, por um lado, mostrar a presença desta em todos os níveis do pen-samento e da ação, e por outro, desmistificar a idéia de que toda forma de pensamento é desde o início e permanece sempre dialética. A distinção entre equilibração, o processo de formação das estruturas
cognltlvas, e equilíbrio, estado de estabilidade das estruturas já construídas, torna-se, assim, fundamen-tal. A
dialérica
estaria inclusa na primeira, enquanto que o que se pode tirar das estruturas já construídas resume-se a deduções.Para Piaget, a propriedade mais geral das si-tuações dialéticas é a construção de interde-pendências
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a in d a n ã o esta b elecid a s entre duas estru-turas A e B, antes concebidas como opostas ou simplesmente como estranhas uma a outra, e cuja reunião as integra como subsistemas de uma nova totalidade T, cujas características de conjunto não estavam nem em A nem em B antes dessa integração. Poderíamos, portanto, falar de "superações" geradas pelas novas interdependências, que criam uma nova totalidade, pela qual as totalidades precedentes são englobadas.Tais construções de interdependências, segun-do Piaget, poderiam ser representadas como circularidades ou espirais, diferentes de círculos vi-ciosos pelo fato de que "a dinâmica dessas interações
comporta necessariamente um aspecto de sucessão tal que todo progresso no sentido da construção
.
. .proatlva provoca remanepmentos retroativos que enriquecem as formas anteriores do sistema em ques-tão" (ibid., p. 200).
Essas circularidades encontrariam seu âmbito mais fundamental nas relações entre sujeito e objeto, o que evidencia o caráter altamente complexo des-sas relações. Uma vez que todo conhecimento do objeto resulta de operações do sujeito, operações que evidenciam as propriedades estáveis ou variantes do primeiro, a relação entre eles "comporta duas cons-truções de direções normalmente contrárias, mas que se trata de coordenar" (ibid., p. 205).
Temos, por um lado, areconstituiçâo das pro-priedades sucessivamente encontradas no objeto, que são reunidas em um todo, e, por outro, a elaboração das formas lógico-matemáticas de operações necessá-rias às assimilações realizadas naquela reconstituiçâo. Finalmente, temos a síntese dessas duas etapas, sínte-se de formas e conteúdos que constituem m o d elo s,os quais " ... determinam, ao mesmo tempo, o progres-so no conhecimento aproximativo do objeto e os afas-tamentos deste, devido aos novos problemas levanta-dos por eles" (ibid., p. 205).
É
interessante notar, nessa sua concepção das relações entre sujeito e objeto, a clara convergência de Piaget com uma orientação49
hegemônica na ciência contemporânea: o
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fo lib ilism o ,segundo o qual nenhuma teoria científica está fun-damentada absolutamente, e tudo de que dispomos são modelos explicativos eventualmente falíveis. Dis-correndo sobre a dialérica da relação sujeito-objeto, o autor afirma:
a ca d a p ro g resso q u e a p ro xim a o su jeito d o co
-n h ecim e-n to d o o b jeto , este ú ltim o recu a d e u m a
d istâ n cia q u e, a o m esm o tem p o em q u e d im in u i
d e va lo r a b so lu to , n u n ca se a n u la e red u z o s m o
d elo s su cessivo s d o su jeito a cla sse d a s a p ro xim a
-çõ es q u e n ã o p o d em , a p esa r d a s su a s m elh o ra s,
a tin g ir esselim ite co n stitu íd o p elo o b jeto em su a s
p ro p ried a d es a in d a d esco n h ecid a s (ib id ., p .2 0 4 ).
Com bastante clareza, Piaget (1983) coloca que a criação de interdependências leva a uma
rela ttu iza çã o dos conhecimentos, fazendo com que um caráter isolado seja posto em relação com ou-tros. Portanto, não seria possível falar de um conhe-cimento absoluto: "A grande lição contida no estu-do da gênese ou das gêneses é, ... , mostrar que não existem jamais conhecimentos absolutos" (p. 4).
Quanto ao papel da negação na dialética, Piaget (1996) coloca que a equilibração de todo sis-tema cognitivo exige a coordenação entre afirma-ção e negações, entre operação direta e operações inversas, sendo os desequilíbrios iniciais devidos a preponderância da primeira sobre as últimas, quan-do, na verdade, afirmações e negações devem ter um papel ao menos igual. A negação é resultado de uma construção e não como pré-formada em todas as ações e pensamentos: "a construção de cada concei-to implica a de seu contrário, ou pelo menos sua possibilidade ... cada operação implica seu inverso, mas não 'é' seu inverso" (p. 207).
5
HGFEDCBA
C
ONCLUSÃO
o
p rin cíp io m o to r d o co n ceito ... é o q u e ch a m o d ia lética . N ã o se tra ta d e u m a d ia lética ... n eg a-tiva co m o q u a se sem p re se en co n tra , a té em
P Ia tã o . .. T a l d ia lética n ã o é, p o rta n to , a a çã o
extrín seca d e u m in telecto su b jetivo , m a s sim a
a lm a p ró p ria d e u m co n teú d o d e p en sa m en to d e
o n d e o rg a n ica m en te crescem o s ra m o s e o s fru
-to s. H eg el (1 9 9 0 , p .5 0 e 5 1 )
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Se na teoria piageriana do desenvolvimento psíquico, conforme as explicações precedentes, as estruturas cognitivas são formadas por um processo de eq u ilib ra çã o p ro g ressiva , processo esse que ocorre enfrentando os desequilíbrios e coordenando operações diretas e inversas, podemos afirmar que estamos tratando de uma concepção dialética do psiquisrno, o que coincide com a elaboração do próprio autor acerca da teoria. Se partirmos do sentido hegeliano do termo, por outro lado, a "dialérica piagetiana" seria considerada insuficiente, pois se apresenta como uma simples teoria da constituição da subjetividade cognoscente, ainda contraposta à objetividade, permanecendo num campo que Hegel rejeitaria como mera abstração: o campo da separação entre o saber e a verdade. Entretanto, se Piaget fosse convidado a emitir um parecer sobre a dialética de Hegel, provavelmente afirmaria que ela é movida por pretensões desmedidas, pelo infundado ideal de um
co n h ecim en to filo só fico , supra-científico, metafísico. Nesse aspecto, os dois autores são separados por um largo abismo: um privilegia o método empírico, o outro a especulação filosófica, para um a dialética é parte essencial do processo de formação da subjetividade, para o outro ela é uma teoria de explicação do universal, do empírico e do meta-empírico, do a b so lu to .
Evidentemente, no que diz respeito a seu campo de aplicação, estarnos lidando com duas concepções de dialética bem diferentes. Porém, subjacente às diferenças, encontramos um conjunto de convergências entre elas. Tanto em uma como em outra, a razão não é algo estático, pré-formado, mas é algo que é fruto de um p ro cesso ,de um desenvolvimento progressivo. Para ambas, esse progresso é movido pelas co n tra d içõ es, que geram desequilíbrios que a razão é forçada a enfrentar.
É
nesse enfrentamento que a razão produz conhecimentos superiores, co n serva n d op a rcia lm en te o que já existia nos níveis precedentes.Interessante ainda é observar que, além do que acabamos de aludir em referência à dialética, Piaget e Hegel apresentam também fortes semelhanças quanto ao enfoque que davam à noção de racional idade. Para ambos, existiriam leis racionais, não aleatórias, regendo o desenvolvimento, leis que, de uma maneira peculiar ao pensamento de cada autor, uniriam o mundo da natureza ao mundo do
espírito". Tanto um como o outro partem de uma relação originária do sujeito com o mundo, a qual seria inicialmente muito simples (o sensório-motor
em Piaget, a
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certeza sen sível, em Hegel) e cresceria em complexidade e validade ao longo dodesenvol-vimento racionalmente regrado.
Para aqueles que, porventura, ainda se preo-cupem em defender a
dialética
(o que não é o caso do autor do presente artigo), após este século em que ela foi tão criticada, a temática discutida neste anigo se mostra bastante interessante, pois como escreveu Goldmann (1984): "nada confirma melhor o valor de uma concepção do que o encontro de pensadores que vem de pontos diferentes e que ig-noram, cada um deles, os passos e os trabalhos dos outros" (p. 44)5HGFEDCBA
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• Essa passagem foi baseada nas observações do Prof. Thomas Kesselring ao relatório final de nossa pesquisa. \ O autor se refere aqui à comparação da obra de Piaget com a de outro grande expoente da dialética: Karl Marx.
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