A
TELEOI¡GIA
REVISITADA CESAR ADESUnivssidade de
ffo
PauloA
cibemética
constituiu-seinterdisciplinar,
desde seuspnmórdios'
Durantea
segunda guerra mundial, Wiener e Bigelow estavam empenhadosna
resolução doproblema matemático de controle de
tiro
que envolvia a "previsão", pelo dispositivo disparador,da
trajetóriado
alvo, quando lhes ocorreu a analogia possfvel entre ospfocessos através
dos
quaisum
equipamentopode "seguir"
um
objeto
externoi
oup.*rrros
fisiológicos emjogo
no comportamento voluntário do homeml. Atos Corriqueiros como,por
exemplo, levantar uma lapiseira, estruturaf-se'iam' não tantoem funçlfo do
encadeamentorígido de
respostas restritas, mas apartir
da escolha de um objetivo e da correção progressiva dos movimentos até que este fosse alcançado.A
eficiência
do
comportamento dependeriade
uma
percepção,por
parte
do organismo,dos efeitos de
seusþróprios
movimentos, das mudançæna
posição relativa entre ele e o alvo (retroalimentação).lViener
e
Bigelow
supusefam que,a
exemplode
certos sefvo-mecanismos, umexcesso de retroalimentação se marcaria em seres humanoi
por
oscilações muscularesprogressivamente maiores
e
por
uma
desintegraçãodo
desempenho. kocurado,o
fîsiólogo Rosenblueth lhes descreveu uma condição de lesãono
cerebelo em que realmenteo
pacientenão
detinhacontrole
sobre atos dirigidos. Esta informaçãofoi
interpretada por Wiener como "uma dæ maissþificativæ
confirmações de nossa hipótese quantoà
naturezade
pelo menos alguma atividade voluntária... Cumprenotar que
nossoponto de vista
transcendia consideravelmenteo
corrente entreos
neurofisiólogos.O
sistema nefvosocentral
não mais aparece comoum
órgãoautesuficiente,
recebendo entradas provenientesdos
sêntidose
descarregando-asnos músculos. Pelo contrário, algumæ de suas atividades características são explicáveis apenaf¡ como processos circulares, que emergem do sistema newoso pala os músculos e voltam a entrar no sistema nervoso através dos órgãos dos sentidos... Isso nos pareceu assinalar
um
novo passo no estudo daquela parte da neurofìsiologia que se preocupanlo
só com os processos elementares dos nervos e sinapses mas como
desempenho do sistema nervoso como um todo integrado... Nôs três julgamos que este novo pontode
vista mereciaum
artigo que
escrevemose
publicamos" (Wiener 1970,p.
33).É
sobre este artigo (Rosenblueth, Wiener e Bigelow 1943)* que me proponho oferecer alguns comentários, do ponto de vista da ciência do comportamento.O
método comportamentista,tal
oomoo
conceituam Rosenblueth ef al., consisteem deixar propositadamente de lado o estudo da estrutura interna de um determinado
r
O
relato do desenvolvimento inicial da idéia cibernética encontra-se no primeiro capítulodo liwo de rJVilener (1948).
t
Nota edltorial. Este artigo encontra-se traduzido abaixo, às páginas 43-50. Cademos de História e Filosofia de Ciência 2 (1981), pp.3142.32 CesrAdes
objeto,
focalizandoas
relações regularesentre
as entrddøs,ou
seja, as variáveisindependentes
que
se constituem ern antecedentes de mudança,e
as modificaçõesdo
objeto avaliadas apartir
de indfcios externos apropriados, ou s¡/das. Trata-æ daestratégia da "caixa-preta" que se originou na engenharia elétrica
(Ashby.l956):
nãoé
difícil
assemelhá-laàs
posíções psicológicasque
rejeitam inferências acerca do"sistema neryoso conceitual"
e
restringem a pesquisa à busca de relações funcionais entre estfmulos, defìnidos como energias ffsicas, e as reqpostas externas do organismo.lmporta notar que
a
análise em termosde
caixa-preta pode levara
princípios"abstratos"
independentesdo
substrato material (hordware)do
sistema estudado. Nesse sentido,é
concebfvel que doisou
mais sistemas,muito
diferentesdo
pontode vista de
sua composição interna, possamler
um
desempenho sufìcientemente semelhante para permitir uma descrição em termos comuns2. O movimento orientado deum
inseto emdireçlo
àluz
poderia, assim, em princípio, ser incluído na mesmaclasse
de
desempenhos queo
movimentoda mão de uma
pessoaem
direção aocomutador de luz, embora esteja claro que os rnelos pelos quais cada comportamento
é levado a efeito diferem enormemente.
Indo
mais além, poder-se-ia aplicar a mesma linguagem descritiva a um organismo vivoe
aum
artefato qualquer construfdo pelo homem ou a qualquer fenômeno queæ
queira.A
questão é, evidentemente,a
de sedefinir
os critérios pelos quais dois ou mais sistemas serão julgados análogos ou não e é emtorno
desta questão que giramuita
da polêmica gerada pela cibernética e, especifìcamente, pelas abordagens que visam estudar processos comportamentais usandouma
técnicade
simulação por programas de computador (Dreyfus 1972).A
classifìcação comportamentalproposta
por
Rosenbluethet al.
nd,epende,portanto,
de uma tomada de posição sobreæ o
comportamento podeou
deve serreduzido
a
seu substrato fisiológico.A
postulaçãode
processosde
realimentaçãonegativa
é
viávelao
nível
comportamental, sem intençã'oimplícita de
remeter a processos neurais subjacentes. embora esta ligaçãocom
a
base fìsiológica possa eventualmente ser procurada e fundamentada. Concebe*e a possibilidade de a análiæ ser efetuadaem
níveis maisou
menos abrangentes, sem que haja contradiçã'o ounecessidade
de
descer s€mPrea
níveis mais particulares.A
abertura da caixa-preta(como,
por
exemplo, quando se analisamos
mecanismos cerebrais envolvidos no comportamento de beber) leva a outras caixas-pretaf .2 Mc Farland
(lg7l),
tomandocomo exemplo as semelhanças entre leis damecânica e leis da
eletricidade, fomece uma demonsttaçilo interessante da possibilidade de defìnição de variáveis
e parâmetros generalizados.
3
A
Teleologìø Revisitada 33A
taxonomia que os autores sugerem nâ'o é, a propriamente falar, uma classificaçlÍodo
comportamento, mas uma classificaçãode
determinantesou
processos capazesde
afetar
o
comportamento. Classificaro
comportairento
é
agrupar movimentosde maior
ou
menor extensãoou
complexidade,ou
outras manifestações extemasdo
organismo,em
categorias usandocomo critério a
fonnø
destes movimentosou
manifestações,à
maneira etológica.Asim,
justifìcar-se-iadistinguir
o
sorriso de uma criança pequena de seu bocejo apartir
do movimento específico dos lábiosem cada caso, da posição das pálpebras etc.
Concebe-se que um ato propositado e
outro
aleatório o¡¡ não propositado possamter
característicæformais
semelhantesou
idênticas(o
sorriso
"reflexo" de
um bebê aproxima-se,do
ponto de vista dos movimentos envolvidos, do sorriso "social"dirigido
a um
adulto).
Devemportanto
ser distinguidosa partir de uma
análise que transcendaa
mera descrição de gestos e posturas(o
mero etograma)e
que sebæeie
na
constataçãoou
inferência
de
processos determinantes,ou
seja, naconsideração
da
interação específicaentre
o
organismoe
seumeio.
lsso significa levar necessariamente em conta o contexto em que cada ato ocorre.O
aspecto crucial da taxonomia de Roænbluethá
al. é, certamente, a introdução de uma modalidade de comportamentos (eudiria:
processos) propositados, ou æja, dirigidos paraum
alvo. Esta modalidade parece reintroduzir na psicologia pæudo-explicaçõesde
há muito
exorcisadas, explicaçõesem que
o futuro
(alvo
a
ær alcançado)parece retroagir influenciando
as
reações prcsentes,ao
arrepio
do pensamento causalcorriqueiro que
caminhado
antecedente parao
conseqüente.Perigoso também
é
o
posslvel retrocesso às noções de uma psicologia mais antiga,baæada
na
introspecç[oou
na
linguagemdo
senso comum,em
que uma ação é explicadaou
justificada
por
referência aos objetivos (conscientes)que ela
visa.Se, ao leigo, uma frase como "estou andando rapidamente porque tenho uma hora marcada" soa explicativa, ela recebe a censura do comportamentista puro na medida
em
que sugere queum
propósito (entidade mental) possa atuar sobre a velocidade presente do comportamento de andar.A
proposta cibernética inicial causou algum escândalo embora, como irei mostrar,a
idéia de propósito tomada dentro dos cânones comportamentistasjá
contass€ comdefensores.
"Em
1943",
escrevemMiller,
Galanter e Pribram (1960), "Rosenblueth, Wienere
Bigelow
chocarammuitos
psicólogosao
empenhar sua reputação de cientistasmuito
rigorosos (tough-minded)na
afìrmaçãode
que
máquinas com retroalimentação negativa eram mecanismos teleológicos" (p. 42).O ataque a partir de um suposto mentalismo não atinge, à primeira vista, a proposta cibemética, uàra vez que ela parte de um paralelismo estreito com a máquina e que seu
uso
de
propósito
e
teologiaé
estendido (apesardo
escândalo)a
entidades desprovidas de mente. (Há, contudo, fìlósofos que colocam a pertrúadora possibilidadede que
seum robô
pudesse simular exatamentetodo
o
comportamento humano, poder-se-ia pensarque
tivesse consciênciae
sentimentos.O
feitiço
vira-se, então,34 CevrAdes
A
proposta cibernética escapa, acredita-se, da difìculdade epistemológica de uma causação às avessas, na medida em que considera queo
elemento atuante não sejao
alvo em si (eventofuturo
de aparecimento apenas provável) mas uma espécíe da representaçõo, dentro do organismo, deste alvo, coexistente no tempo com o próprio comportamentoou
até anterior
a
ele. Esta representaçÍfo permiteao
organismo, como discriminação mínima, distinguir eventos que entram na classe dos eventos/alvodos que não
pertencemà
mesma, havendo,no
segundo caso, continuação docomportamento corretivo.
O
propósito está,por
assim dizer, embutido na própria estruturado
organismoe
podeær
entendido como fazendo parte dos elementosa
serem levados em conta nu¡na análiæ puramente causala. É nesse sentido que pode ser interpretada a seguinte colocação de Taylor (1970):Uma explicaçäo é teloológica se os eventos a sêrem explicados slo levados em conta da seguinte manelra: se A é o alvo "em funçlo de que" se diz que os eventos ocorrem,
B o evento a ser explicado e E o estado de coisas vigentes antes de B, entalo B é
explicado pelo fato de ser E tal que requeria B para que A fose alcançado. Em outras palavras, uma explicação teleológica
é
definida, enquanto tal, pela forma do antecedente, uma forma em que a ocorr€ncia do evento a ser explicado êlevadaa depender de a situação ser tal que este evento levaria ao alvo em questâo. É evidente que um antecedente deste tipo tanto está abetto à observação como aberto a uma obsewaçâo ex anfe (permitindo portanto a predição) (pp.55 -56).
Para Rosenblueth ¿f ¿1. uma explicação teleológica não colide com pressupostos
deterministas mæ seria distinta de uma abordagem em termos de causação. Segundo eles,
a
causalidade implicariauma
"relação funcionalunidirecional,
relativamente irreversfvel" que contrastaria coma
teleologia 'þreocupada como
comportamentoe
não com relações funcionais". Os autores não explicitam contudo suficientementeas bases que tornariam sua dicotomia causa/teleologia convincente.
Pode-se conceber
que
os processos envolvidosnum
comportamento teleológico envolvammais
do
que uma
relação simplese
linear entre
entradase
saídas, exemplificada pelas concepções tradicionaisdo
arco reflexo
ou
pelo
paradigmaestfmulo-resposta em psicolqgia, e que impliquem a existência de uma circularidade
de
ação, "causas"e
"efeitos"
englobados num relacionamentomútuo e
dinâmico. Caberia,contudo, antes
de
decidir-sepor
uma
conclusãode
incompatibilidade, demonstrarque
a
noção
de
causaimplica
necessariamente unidirecionalidadee irreversibilidade.
Os comportamentos sem e com retroalimentação correspondem respectivamente
às formas de controle que
se convencionou chamarde controle por
alça aberta 4A
característica de antecedência é mais facilmente spontada numa máquina em quo a faixa"desejada" de desempenho
é
fxada de antemão pelo operador humano,A
"ent¡ada derefe¡ência" ov vt-point precede o funcionamento da máquina e o acompanha (Mc Farland
l97l;
Powen 1978).A
Teleologia Raûsttada 35(open loop) e alça fechada (closed loop). Os dois casos são incluídos por Rosenblueth et al. na categoria dos comportamentos propositados.
A
reaçãode
caçado
louva-a-deus representa uma interessante combinação deambas as romas
de
controles.
Na faseinicial, o
mantídeo reage ao inseto girando a cabeça até encarálo de frente. Esta faseé
iniciada pela detecção visual do insetoe
o
estímulo efetivoé
o
ánguloe
entrea
posição destee o
centro da cabeça. À medidaque
o
louva-a.deus movea
cabeça, elemodifica
o
e. concomitantemente,o
próprio
estímulo atravésdo
qualé
suscitado seu comportamento de orientaçÍo.A
conseqüênciado
compÒrtamentoinfluencia este
e
este,
circularmente, aconseqüência.
O
modeloem
termosde
alça fechada pressupõe quea
informação relevante (ânguloa)
atue como retroalimentação constante e que o comportamento provocadose interrompa
quandoé
anuladaa
discrepánciaentre
esta infornraçÍfoe a variável de referência (o alvo, tal como codifìcado pelo organismo).
Atingida a orientação adequada,
é
disparadaa
reação de captura:o
louva-a-deuslança abertas as patas
do
primeiro par em direçãoao
insetoe
o
apanhapor
flexãodas mesmas. Dada a rapidez
do
arremesso(de
l0
a 30
milisegundos) nãohâ
raz.ãopara acreditar que ele seja guiado
por
alguma de suas conseqüências estimulatórias.É
uma reação tudo-ou-nada, em alça aberta, que depende apenas cla informação queprecedeu sua exibição. Se
(o
que é pouco provável)o
inseto tivesseo
tempo de semover após
o
início do
arremesso,o
louva-a-deus não poderiacorrigir a
trajetóriade suas patas captoras.
Uma tática experimental freqüentemente usada na análise de um sistema consiste
em "abrir
a
alça",isto
é, em suprirnir uma posswel retroalinientação.No
caso dolouva-a-deus, poder-se-ia apagar
a
luz
logo
apósa
apresentaçãode uma
mosca. Se, no escuro, se completasse a rotação da cabeça, de acordo com um ângulo próximode
c,
haveria razõespara
privilegiar,na
descriçâ'oda
primeira faseda
caça, ummodelo em alça aberta.
Parece haver contradição, no
texto
de Rosenblueth et al. quando, a¡xfs a seguinteafirmação:
"Pode-seconsiderar
que
todo
cotnportamentopropositado
requer retroalimentaçãonegativa",
incluem-se comportamentos sÊm retroalimentaçâ'o na classe dos dotados de propósito.Poder-se-ia questionar
a
colocaçãode
iomportamentos sem retroalimentação, como,por
exemplo,o
movimento rápido pelo qual retiro rninha ruão, quando tocaum
objetomuito
quente, na categoria dos cornportamentos propositados. Parece-meque
neleso
aspecto cle desenculeamento surgecomo
preeminente, sendo maissimples usar
a
linguagem tradicional que associa a condição ambiental antecedenteà
resposta. Poder-se-ia dizer queo
"propósito"
deretirar
minha mãoé
evitar umaqueimadura. Este uso da palavra propósito não acrescenta nada à explicação do fato
e
remete,na
melhor das hipóteses,a
ulna consideraçãodo
comportamento dentros O
exemplo de comportamento prcdatório do louva-a-deus é tirado, ern tesumo, da expoúção que Mc Farland
(f971)
di
do
t¡al¡alho de Mittelstaedt(f95?)
com Parastagmatoptera unipunctata.36
CesrAdesda
perspectiva de adaptação biológica.A
função biológicado ato
deretirar
a mão seria a de evitar uma lesão e aumentar a probabilidade de sobrevivência do organismoe,
atravésdele, de
determinado material gendtico. Cumpreno
entanto distinguir entre uma teleologia associada ao pensÍrmento evolucionário (Simpson, 1963) e uma teleologia que entracomo
elementode
uma explicação causaldo
comportamento presente.Dizer que
o
bote do
louva-a-deusé
propositadoé o
mesmo que atribuir propósito a uma bala de revólver.Aos
olhos
de
Wiener(1970),
as idéias desenvolvidasna
épocado
artigo
de Rosenbluethet
al.
poswlamum
alto valor de
originalidade("...
nossoponto
devista
transcendia consideravelmenteo
corrente entre os
neurofisiólogos..."). Semnegar
o
impacto
que as idéias cibernéticas tiveram sobreo
pensamento biológicoe
psicológico, convérn redescobrílas como parte deum
processo de "ensaio-e-erro"histórico,
o
mesmotema
sendo retomado repetidamente sob formas diferentes, àsvezes ganhando destaque, às vezes sendo relegado ao segundo plano.
Havìa,
em'torno
de
1940, uma
lérie
de
condições propícias(entre
as quais, notadamente,o
deænvolvimentona
tecnologiade
computaçãoe
os processcs da engenharia no setor de máquinas com dispositivos auto-çorretores) para o surgimentodo
insight cibernético.o
artigo de
Rosenbluethet
ø1. não chegaa
sero
primeiro a apontar a possibilidade de ulna interpretação do funcionamento do sisterna neryosoem termos de
retroalimentação.Ashby
a
ele se
adiantaracom urn artigo
sobre"Adaptatividade e
equilíbrio"
publicado em 1940.Existem rafzes mais distantes entre as quais vale a pena
resaltar
a homeo$aæ,tal
como
formuladapor
cannon,
e
a teoria
tolmaniana sobreo
comportamento propositado."Num
sistema aberto,como
nossos corpos se apresentam, material complexoe
instávei, sujeito continuamentea
condições perturbadoras", escreve Cannon em 1926(citado
erncannon
1946),"a
constância é, emsi
própria, evidência de que mecanisrnosestÍo
em
açÍo,
ou
prontos
para
agft,
a
fim
de
manter
esta constância"(p.
2aO.
Ao
processo de manutenção de constância6, que se nota nocaso da temperatura do corpo, do nível de água, da taxa de sal, açúçar, no sangue etc., cannon dá
o
nome de homeostase.o
estudo de diversas funções do corpo o levama uma
concepção geral bastantepróxima
do
que seria, mais tarde,o
pensam€nto cibernético. Reconheciaa
necessidadede
"indicadores sensitivos automáticos ou sentinelas cuja função é mobilizar processos corretivos logo no início de um distúrbio"(cannon
1946,p.
236)e
chegava a usarum termo
de engenharia, termostato, para 6A
idéia de uma manutençiÍo dinâmica da constância do meio intemo já tinha sido, há muito, ressaltada por Oaude Berna¡d. Betalanffy (L973), que também se ar¡ola como descobridor
independente de algumas das idéias propugnadas pela cibernética cita outros precu¡sores: "Modelos menos conhecidos mas detalhados de feedback de fenômenos fìsiológicos tinham sido elaborados pelo fisiologista alemão Richa¡d lVagner (1954) na décarla de 1920, pelo
detentor do prêmio Nobel
o
suíçow.
R. Hess(rg4l,
1942) e no Reafferenzprinzþ deA
Teleologia Revìsitada 37designar
um
possívelcentro
cerebral encarregadodo
controle
da
temperatura do corpoT.Rosenblueth
fora
colega de Cannone
é plausfvel que as idéias desteo
tivessem influenciado.É
curiosa,portanto, a
omissão,no
artigode
1943, de uma analogiaentre
homeostasee
o
comportamento teleológico. Esta omissão talvezæ
deva à aparente distânciaentre uma
regulação que operadentro do
organismo, visandoa
manutenção de certos valores crfticos em variáveis intemas,e
uma regulação dasatividades
do
organismo em relação a objetosou
eventos de seu ambiente externo.A
fronteira entre ambas as classes nãoé
contudo rígida:o
comportamento externo"voluntário" pode servir de
fator
de
preservaçãode
um
estado estável interno. Todas as vezesem que bebo
ou
coloco
uma malha, estoucontribuindo
para ahomeostase de meu próprio organismo.
De
outro lado,
o
próprio
ca¡âter"abstrato" dos princípios de controle,
suaaplicabilidade generalizada, justificariam que se tomasse a regulação do meio intemo
e a
da
ação dirigidascomo
casosdentro de uma
classede
fenômenos similares.A
noção de propósito se encontra no cerne do pensamento de Tolman. Ela surge inicialmenteem dois
artigosde
1925(Tolman
1925a, 1925b)e é
retomada, com modificações,em
seulivro principal (Tolman
l%2)8.
Por propósito, Tolman não quer entender uma entidade mental-
cuja inserção na descrição do cornportamento nada acrescentaria-
masuma
ca¡acterística inerente øopróprio
comportamento.O
propósito se nota na tendência deo
comportamento serdirigido
para,ou
longede,
certos alvose,
especialmente,no
seu caúúet de "persistir-até-que" Qtersistenceuntil
character):o
gato,nos
experimentosde Thorndike,
se agitae
rcmexe atë conseguirsair
de
sua
gaiola;um homem dirige seu
carrcaté
chegarem
casa.Este "persistir-até-que" é um dado da percepção direta, que nos põe em contacto
com
a
açãpdo
sujeitoe com a parte do meio em
relação à qualfoi
executada.7 Importa notar, contudo, que o mecanismo do termostato não se encaix¿ a rigor no modelo de retroalimentação negativa (em alça fechada) sendo geralmente construído de tipo liga/desliga: quando
o
valor da variável controlada (temperatura) sobe acima de um limiar (varirivel dereferência), desliga-se o mecanismo responsável por sua produção (resistência). Caindo o valor abaixo do limia¡, o mecanismo é novamente posto em funcionamento.
I
Tol^*
reconhece pontos de contacto entre seu pensamento e o do psicólogo Mc Dougall, que defendia, dentro de um contexto vitalista, a idéia de "propósito"' Muito relevante, do ponto de vista do interesse histórico pelo desenvolvimento da definição de propósito, úo os critérios (extemos) que Mc Dougall (1923) ofeiece para distinguir o comportamento de um organismo de uma mer¡ ação mecânica. Em alguns destes critérios, comoa
"variação de direção demovimentos persistentes", o "término dos movimentos do animal tão logo tenham produzido
um determinado tipo de mudança efn sua situação" e "a preparação para uma nova situaçÍio para o surgimento da qual contribui a a;ção", nota-se uma concepção da interação organisno-ambiente que prenuncia a posiçífo de Tolman.
Tolman, contudo, se acredita principalmente devedor em relaçlto às idéias
do
frlosófoR. B.
Pe¡ry,o
primeiro a mostra¡"a
possibilidade de uma definiçâo puramente objetiva38
CevrAdesTraduz-se nas frases através das quais corriqueiramente é descrito
o
comPortamento: "Ele abriu aporta",
"Ela lançou a bola" etc'A
intuiçlfo
de quea
ação procede da escolha de um objetivo é semelhante à que pareceter
ocorrido a Rosenblueth et al. como mostram os trechos seguintes: "Assim, quandoum rato
está correndo numlabirinto
(um exemplo tipicamente tolmaniano)e está exibindo ensaio-e-erro, estes ensaios-e-errose... não são totalmente identificáveis
em termos
deuma
contração muscular especffica .r4, seguidapof
uma
contraçãomuscular específica
B
etc. Apenas podem ser descritos como tespostas que persistematé que
um
bbjeto alvo',
alimento, seja alcançado"(Tolman
1925a); "Assim, sedecidimos tomar
um
copo cotn água e levá-lo à boca, não comandamos a contraçÍfode
determinados ¡núsculos,em certo
graue
numa certa seqüência; simplesmente colocamos o propósito e a reaçâ'o segue automaticalnente" (Rosemblueth et al. 1943), Tolmantem
anftida
consciência de quea
relação entre o comportarnento e seu objeto é dinâmica, capaz de sobrepujar, até um certolimite,
perturbações acidentais, de levar à escolha de um mesmo estado final a partir de caminhos diferentes. "Quando, exatamente,é
queuma
afirmação sobre a qualidadede
'ir
para'ou
'afastar-s€ de' se torna necessária? Nós a achamos necessária sempre que, por modifìcação das viíriascircunstâncias, descobrimos que
o
mesmo alvo ainda se encontra presente e aindaide¡rtifìca a resposta ern questão. Assim, quando efetuamos mudanças na posiçlfo ou na
natufeza
dos objetos intervenientese o
comportamento se reajustade
maneira anovamente alcançar o fnesmo objeto/alvo, estamos diante de um caso de propósito". (Tolman
lg2Ía,em
Tolman 1951, p. 35)A
possibilidadede
o
estadofinal
ser atingidoa partir de
diferentes condições iniciaise
de maneiras diferentes,t
equifinalidade, como a chamou von Bertalanffy,repreænta
uma
caracterlsticacorriqueira
do
comPortamento.Um
mlnimo
de obsewação mostra que émuito
pouco provávela
repetição exata de,por
exemplo,o
comportamento de apanharum objeto
de sobre uma superflcie.O
gesto, em sua minúcia, dependerá de se estou acimaou
abaixo, à esquerdaou à
direita do copo,do
quanto estouà
esquerdaou à
di¡eita, de se eu estico o braço ou se o mantenho parcialmente flexionado etc. Se meu braço direito estiver impedido, uso diretamenteo
esquerdo. Mesmo sem mudar de posição, em relação ao objeto, constato que meu gesto se repete sem se identificar completamentede uma repetição para outra. Teoriaselementaristas
da
aprendizagemtêm
dificuldadeem dar conta
desta convergênciade
atosmúltiplos: não
parecemter
sido
adquiridos,um por um,
Pelo organismo.A
concepção tolmanianade propósito
sofre modificaçõesentre
!925
e
1932' Inicialmente tomado como expressão de uma associação dinâmica entre comportamentoe
alvo,
independentementeda
existêniade efeitos
facilitadores provenientes da9 P¿ra Tolman, os ensaios.e-erros não são puramente aleatórios em sua origem. Constituem-se
em indicações de propósito. "As tentativas do gato exibem muito objetivamente o propósito de alcançar a saída da caixa; as andanças do rato a de chegar à caixa de comida" (Tolman, 1926 en Tolman 1951, p. 50)
A
Teleología Revisitada 39experiência passada
(um
protozoário poderiaexibir
respostas propositadas mesmoque
incapaz de,na
situação, modifìcar progressivamente seu desempenho, mesmoque se
mantenhaa
estereotipia),o
propósito
acabatendo como
característica definidoraa "docilidade", ou
seja, a capacidade de modificação pela aprendizagem.A
meu
ver,
a
questão da modificabilidadedo
comportamento independe, emprincípio,
do
problemade definir
suas característicæ teleológicas.A
relação de "persistir até que" ou de "seguir" que liga o comportamento a determinadas instânciasdo
meio, pode ser
especificadadentro de um plano
sincrÔnico, comoforma
de equilibração.A
mudança de alvos, a transformação das estratégias de rastreamentoou
regulação,ao longo do tempo
e
do treino,
constituem problemas de evidente relevância, porém independentes.Nada impede, dentro
desta perspectiva,que
pfoglamas comportamentais de controle sejam"instintivos",
isto é, relativamente isentos de influências da experiência passada. Opta-se,aqui,
pela primeira versão tolmaniana de propósito,por
ser mais abrangente.Preocupado em apartar-se do mentalismo, Tolman parte de uma definição descritiva
do
propósito. Na versãode
1932,o
termo adquire status,até certo ponto ambíguo,de
ser ao
mesmotempo
um
asPecto percebidono
comportamentoe
um
fator determinantedo
mesmo. Passa-se do plano descritivo para o explicativo.A
distinção nãoé trivial:
poderia eventualmente consenso quanto ao fato de observação de quecertos compoftamentos mantêm uma relação com objetos
ou
eventosdo
meio que sugere"procufa"
oU "direCiOnamento", $em que houvesse acOrdo quanto ao tipO de explicação parao fato.
Em outras palavras, a noção de propósitos poderia vingarno nível da descrição, sem ser válida enquanto hipótese causal.
Tolman
(1925a,
1925b, 1932) não se refefe explicitamentea um
processo de obtençãodo
alvo que se
assemelheao
funcionamenlocontínuo de
mecanismoscom
retroalimentação negativa. Os ajustamentosdo
organismoà
situação-problema constituem, não uma modulação contínua de variáveis de saída, maso
aparecimento de respostas discretase
heterogêneas expressando hipótesesou
cognições a respeitoda situaçÍfo, selecionadas de acordo com o
princípio
de encurtaro
trajeto e a demoraaté
o
alvo.
O
aspecto seletivoda
conseqüênciado
comportamentotoma
umaimportância básica no sistema teórico skinneriano.
A
hipótese cibemética,tal
como expostano
artigo de Rosenbluethet al. (1943),não
cai num contexto histórico
despreparado.Como
foi
visto,
a
concepção deprocessos capazes
de
manter uma
variáveldentro
de
uma faixa
de
referênciapré-determinada, corrigindo desvios, está implícita na noção de homeostase e a visão
do ato
proþositado como"dirigido à
obtençeo deum
alvo, isto é, a uma condiçãofinal
em queo
objeto em comportamento alcança uma correlação definida, no espaçoe
no
tempo,em
relaçãoao outro objeto ou evento"
encontra-se em Tolman e éprovavelmente sugerida por outros autores que o antecederam.
A
que entãoatribuir o
impacto da proposta cibernética? Parece-me que deconeda
associaçãooriginal que
estabelece entreo
homem(ou os
animqis em gera[) e4O
Ces¡Ades
atndquinaro. Esta assicçÍo não é apenas
fruto
de argumentaçã'o:é estabelecida atravésda
construçfo
de
máquinas concretas que, devidoa
seu funcionamento bastante complexoe
flexível,
são capazesde
simular aspectosdo
comportamento dirigido.A
simulaçãopor
um
artefatox
do
funcionamento deum
organismo vivoy
nllo
éuma prova de que
y
deva ser explicado e¡n termos da estrutura e da dinâmica dex,
mas,pelo
menos, estabelecea
possibilidadede tal
explicação e impressiona quem teme a especulação enquanto especulação.A
natureza inferidado
propósito tolmaniano, sua frouxa ligação como
domínio empfrico,o tomaram
alvo de crfticas.os
animais de Tolman, dizia Guthrie, vivem imersosno
pensamento;isto
é,
faltaria uma
explicação adequadade como
æuspropósitos
e
suas
cogniçõesse
traduzem
em
atos.
A
máquina+omputador, seryo-mecanismo-
transforma efetivamente suas entradasde
acordo
com
umprogr¡rma cujos passos são especifìcáveis.
Além
disso, a cibernética veio oferecer ao psicólogo e ao biólogo um instrume¡lto matemático bastante rigoroso,apto
para aplicaçãoem
sistemas de composição ou hardware amplamente diferentes.É
verdade que poucas são as áreas de estudo do comportamento em que este instrumento rigoroso possa ser severamente empregado.No
mais das vezes, idéias comoa
de retroalimentaçã'o negativa são usadas de forma qualitativa, para explicar esquematicamente a interação geral das variáveis que afetamcerto fenômeno.
Não houve, em psicologia, mudança
ou
estabelecimento de paradigma, induzidos pelo pensamento cibernético.A
palavra propósito quase não aparece em publicaçõesda
âteae é muito
raro encontrá-la em revistas de referências como o Psychological Abstract.A
contribuição
de
modelos
inspiradosna
teoria
do
controle
faz-se sentir principalmente em campos específìcos como os de motivação, aquisição de habilidade e na drea de estudo dos processos cognitivos, onde é freqüentemente usada a estratégia da simulação.Powers
(1978), um
dos que mais insistentemente defendem uma perspectiva de aniálisedo
comportamento baseadano princípio
ds
controle de entrada, reconheceque a revolução cibernética, que estava aparentemente em vias de processar-se quando da publicaçâ'o do
livro
de wiener, cibernëtícø, ou controle e comunicaçõo noAnimtl
e
na Mdquirw,em
1948, ainda está para ser deflagrada. "Alguma coisa, escreve ele, "aconteceu aofmpeto
original da cibemética, como umrio
que entra no deserto, sócinde em uma centena de canais em meandros e é sorvido pera areia"
(pp. aaTaa$.
ro
lvi"r,e, (196S) é radical na aflrmaçãoda correspondência ent¡e animal e máquina: "A minha teæ é a de que o funcionamento físico do indivíduo vivo e o de algumas das máquinas de
comunicaçÍio mais recentes são exatamente paralelos no esforço análogo de domina¡ a entropia at¡avés da retroalimentaçÍio. Ambos têm receptores sensó¡ios como
um
estágio de seufuncionamento... Tanto
no
animal quanto na máquina,o
desempenho se faz efetivo no mundo exterior. Em ambos a ação realizoda no mundo exterior e não apenas a a$o intentadaA
Teleologia Revísítada4l
O valor da mensagem da qual o artigo de Rosenbluelh et al.foi
um dos primeiros portadores não deve ser procuradono
eventual oferecimento de um modelo seguropara
todo
e qualquer fenômeno comportamental.A
classe de eventos que o psicólogoconsidera atualmente
como
constituindo
seu território
empírico
é
bastante heterogêneae
internamente divergentespara dificultar
o
advento
de
qualquerteoria
"simplese
soberana", seja ela cibernéticaou
nã'o.Além
disso, a margem de aplicabilidade dos conceitos cibernéticos restringe-sea
um certotipo
de fenômeno psicológico. Subjacenteao
desânimode
Powers(1978)
talvez esteja uma ambiçãoteôrica excessiva.
A
importância da
mensagem consiste justamenteno fato de
inserir-se numapreocupação
mais
amplae
mais
antiga. Chama novamentea
atençãopara
uma modalidadede
interaçãoentre
o
arnbientee o
organismo (talvez a mais relevante, do ponto de vista do ser humano) em que o primeiro não atua apenas como disparadore
o
segundocomo
reagente, masem
que se destaca a funçã'o seletiva, reguladora e formadora de previsões do organismo.Ainda
permanece em abertoa
questão de saber se, para dar conta dos aspectosde
expectativae
intenção que,
na
expressãode
Tolman, estão
imanentes no comportamento, será necessário desenvolver uma linguagem explicativa radicalmentenova
ou
seum
simples desdobramentoda
perspectiva tradicional será suficiente.REFERÊNCIAS
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