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1 Comemoramos nessa semana uma vez mais o Dia da Consciência Negra. Quero com vocês voltar ao passado, pouco mais de 250 anos atrás, e olhar para um momento particular da história de um negro escravizado conhecido por Tebas, cujo nome era Joaquim Pinto de Oliveira.
Imaginem um escravo entrando no consistório da rica e prestigiosa capela da Ordem Terceira do Carmo de S. Paulo no ano de 1772 e estar ali diante dos membros da Mesa diretora, todos eles brancos, bem vestidos, gente distinguida da sociedade paulistana!
Para Tebas, somos levados logo a imaginar, devia de ser algo bastante incômodo. Mesmo assim lá estava em companhia de sua Senhora, a Dona Antonia Maria Pinta, viúva de seu Mestre e Senhor Bento de Oliveira Lima, falecido 3 anos antes, foi quem lhe ensinou o ofício de Pedreiro e de Cantaria de Pedra e dele fez uso para contratar obras que lhe rendiam lucros consideráveis. Convidado a sentar-se, Tebas escutou atentamente os Irmãos Terceiros sobre o que queriam que ele fizesse. Viu o “risco” (desenho) que lhe foi apresentado da obra. Os arcos da entrada do frontispício da capela. Percebeu no olhar e na postura corporal do Prior da Ordem uma certa ansiedade que desvaneceu assim que Tebas, após analisa-lo atentamente, virou-se para ele e disse, confiante, que poderia sim fazer. O Prior olhou para os demais e virando-se novamente para Tebas, disvirando-se: - Explique como vai executar o trabalho.
Tebas esfregava as mãos, nervoso, mas foi logo explicando que primeiro seria preciso fazer o alicerce, também com pedras, etapa prévia e indispensável da obra, antes de erguer os arcos, o trabalho propriamente de cantaria. Essa explicação era importante mas logo acrescentou que todo o material necessário, pedras, ferro, cal, areia, deveria ser fornecido pela Ordem Terceira. O Prior aquiesceu com um gesto de mão. Tebas continuou explicando que os arcos já poderia começar a fazer, para depois ajustá-los e coloca-los sobre os alicerces. Mas, para iniciar a cantaria dos arcos, seria preciso que a Ordem adiantasse uma parcela em dinheiro. O Prior então lhe perguntou: Quanto? Tebas de imediato respondeu: 50 mil réis. O Prior olhou para o Secretário da Ordem que assentiu com a cabeça.
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2 Tebas retomou as explicações e não parou mais de falar; até que o Prior
se deu por satisfeito.
Os demais Irmãos que igualmente aguardavam seu pronunciamento, manifestaram de imediato aprovação e se acomodaram em suas cadeiras, contentes por Tebas demonstrar que podia mesmo se encarregar da obra sem mais a presença do Mestre Bento.
Assim foi que Tebas, ao final dessa reunião, ajustou os termos de seu
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contrato como Oficial de Cantaria de pedra. E o assinou junto com os Irmãos Terceiros. A viúva, analfabeta, apenas fez uma cruz que era o seu sinal característico.Mas, notem bem. A despeito de toda a responsabilidade que assumia, Tebas era ainda escravo, cuja Senhora, ali presente, permanecera o tempo todo calada. O que logo nos leva a concluir que se existia mesmo uma pessoa que estava incomodada ali era a sua Senhora Antonia Maria Pinta.
Conhecer o passado de nossos ancestrais é maneira de projetar retrospectivamente a nossa vida presente. Penso que quanto mais soubermos a respeito das gerações passadas, ou mais especialmente sobre certas pessoas e grupos com os quais nos identificamos do ponto de vista étnico, racial, artístico, político ou outro qualquer, tanto mais reuniremos informações e conhecimentos que nos auxiliam a ter consciência de nós mesmos, do que somos ou desejamos ser; e a partir dessa consciência refletir acerca de como atuarmos no presente, seja como indivíduo, seja como grupo ou classe social perante a sociedade e o mundo em que vivemos.
Antes, porém, é preciso ter em conta que, assim como a realidade hoje é contraditória e complexa, e injusta sob vários aspectos, a realidade do passado também era; de maneira que é preciso pesquisar e analisar toda essa complexidão histórica e nela penetrar se quisermos alcançar um grau de conhecimento que
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possível criar as condições para superar o estado em3
3 que vive ainda parcela majoritária da sociedade brasileira, vítima da pobreza, do preconceito, do racismo e da marginalidade social.
Voltemos, portanto, uma vez mais, nossas atenções para o nosso passado escravagista. A sociedade brasileira constituiu-se e se desenvolveu moldada por interesses e valores da Civilização Ocidental, Cristã e Capitalista, que, ao se apropriar das terras do “Novo Mundo”, apropriou-se também das gentes que aqui viviam sob formas ou modos de vida distintos do europeu, e, para a sua exploração econômica, escravizou os povos indígenas bem como outros do continente africano, trazendo-os para esta porção do continente que chamamos Brasil.
No livro TEBAS – UM NEGRO ARQUITETO NA SÃO PAULO ESCRAVOCRATA para o qual contribui com uma antiga pesquisa sobre a capela da Ordem Terceira do Carmo de S. Paulo, abordei alguns aspectos da vida de Joaquim Pinto de Oliveira Tebas, especialmente do trabalho de construção do frontispício da capela da Ordem Terceira de Na. Sra. do Carmo, trabalho que volto a considerar com vocês porque acredito ter sido importante não somente para justificar que o que lá realizou se equivale ao trabalho de arquiteto como constituiu um acontecimento de enorme importância na vida de Tebas, momento em que descobriu que poderia dar um novo rumo à sua própria vida.
O documento que definiu sua contratação era o que se chamava na época de Papel de Obrigação, um compromisso e ao mesmo tempo um contrato.
Há nesse documento várias coisas que me chamam a atenção e podem ser comentadas. Uma delas é que em momento algum Joaquim Pinto de Oliveira é referido como negro, ou mulato. E nem mesmo a palavra escravo é mencionada. Embora a condição escrava esteja subentendida já na frase: “com
faculdade de sua Senhora”.
Há duas outras palavras que me chamam a atenção: a palavra “pessoa”, que está lá no final da declaração de Tebas, e a palavra “bens” que seria possuidor.
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4 Lá estão: obra “a qual me obrigo por minha pessoa e bens”.
Não deixa de ser curioso e de certa forma surpreendente a forma de tratamento utilizada, referindo-se ao escravo pedreiro como “pessoa”, ao contrário do que geralmente vemos na literatura histórica o escravo como alguém destituído de sua essência ou natureza humana, coisificado, reduzido a mero instrumento de produção, sem direito algum, ignorado como pessoa portadora de ideias, necessidades e sentimentos.
E mais surpreso fico ao ser referido como pessoa que possui “bens”. (Embora, de certo, esteja subentendido os bens de sua Senhora, os de Dona Antonia Maria Pinta.)
Mas cabe perguntar: Que bens teria Tebas ainda na condição de escravo? Eu adianto que não sei. Nada descobri a respeito. A não ser um indício disso, ou seja, que não morava na mesma casa de sua Senhora. Morava com sua esposa e filha numa outra casa. Se era própria dele, não sei.
Mas esse fato, morar em uma casa com sua família, em princípio nos leva a entender que Tebas era já um escravo diferenciado entre os demais escravos. E qual a razão disso?
Só é possível entender a situação diferenciada do escravo Tebas em razão do seu ofício. Em razão de sua habilidade técnica provavelmente superior até a de seu próprio Mestre e Senhor Bento de Oliveira Lima, favorecida pelo fato de não ter concorrente à sua altura na cidade de São Paulo. Ele foi o oficial de cantaria de pedra contratado por todas as mais importantes corporações religiosas da cidade, inclusive pelos poderes públicos, pela Câmara (não havia Prefeitura na época) e pelo Governo da Capitania.
Outro elemento ou aspecto do documento, e este confesso que é o que mais me surpreende, qual seja, é o próprio Joaquim declarar que o pagamento do dinheiro, tanto o necessário para início da obra, como o restante quando da sua conclusão, deveria ser feito a ele próprio, e não à sua Senhora!
Mas alguém pode questionar: entre receber e ser dono do dinheiro há uma grande distância. Sem dúvida! Nada garante que o dinheiro a ser recebido
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5 por Tebas pertenceria mesmo a ele. Mas então por que é colocada essa exigência? A resposta pode e deve ser simplesmente porque Dona Antonia Maria Pinta era analfabeta. E Tebas não.
Mas não há como negar a autonomia de Tebas. Pois é ele quem fala, quem decide a respeito da obra, quem ajusta o preço e o prazo, enfim. E faz tudo sem que sua Senhora possa dar um palpite sequer! Ela nada sabe sobre obra de cantaria de pedra. É Tebas que fala, explica, combina e ajusta tudo!
Enfim, estamos diante de uma situação complexa, difícil de decifrar, mas onde percebemos que há sim uma alteração na relação de poder própria ou característica da sociedade daquela época, escravagista.
Seja como for, vejo aqui um momento em que Tebas se encontra numa situação que é favorável a ele e que poderia lhe beneficiar. E essa situação é diferente da que se encontrava quando seu Senhor, Bento de Oliveira Lima, era vivo. Por mais que ele mesmo, Bento, já dependesse e muito do trabalho de Tebas, da sua perícia, da sua habilidade artística. Mas era ele, Bento, quem estava no comando, quem ajustava e contratava as obras e sobre tudo quem ganhava com elas. Tebas carregava as pedras e lhe dava formas artísticas.
Aliás há um poema interessante do dramaturgo Bertolt Brecht, intitulado
Perguntas de um Trabalhador que lê
, que começa assim:Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de
reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra? Pergunta o autor do poema.
Bem, agora o nosso Tebas, não a antiga cidade egípcia, mas o nosso Joaquim Pinto de Oliveira, vê abrir-se diante de seus olhos uma situação que poderá lhe favorecer.
Pois a situação em que naquele momento se encontrava era muito diferente da anterior – e é ela que vai lhe propiciar tomar consciência de que, circunstancialmente, inverteu-se a relação de domínio. Passara ele Tebas a ter uma posição não mais subalterna como tinha quando Bento era vivo. Agora era a Dona Antonia Maria quem passara a dele depender, embora Tebas continuasse a ser a fonte de seus ganhos. E o que lhe permitia alçar a essa
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6 condição? O conhecimento, a experiência e os produtos de seu ofício. E logo Tebas teria consciência de uma outra coisa que não está neste documento mas que sabemos por um outro e que refere a obras deixadas inconclusas por Bento de Oliveira Lima. A fachada e a torre da Matriz.
Bem, a própria Antonia Maria sabe que sua vida está a depender de Tebas, pois agora só ele, Tebas, poderia cuidar de terminar a obra da Matriz. Por outro lado, precisava que Tebas fosse contratado para obras novas, para ter rendimentos para a sobrevivência sua e de sua família (possuía três filhos ainda crianças), como essa que Tebas acabara de ajustar com a Ordem Terceira do Carmo para fazer os três arcos do frontispício da capela. Era essa a situação de sua Senhora. Tebas se apercebe disso claramente.
Tebas dessa maneira passa a usufruir de uma autonomia em relação a sua Senhora que seria inimaginável com o seu Senhor Bento de Oliveira Lima. E isso não diz respeito apenas à sua condição escrava; mas também relativamente à subordinação ao seu antigo Mestre. Há, pois, uma quebra nas relações próprias das Corporações de Ofício. Tebas não tem mais Mestre a obedecer. Nesse particular, isto é, no âmbito da profissão, do ofício, embora ainda sendo um Oficial de Cantaria de Pedra, passou a ter uma autonomia que beirava a independência, pois não tinha a quem se subordinar, a Mestre Canteiro nenhum. E, por decorrência, tal condição afetava a relação com sua Senhora, isto é, a natureza das relações escravagistas. Isso era inquestionável; Dona Antonia Maria Pinta era quem ficava à sua completa mercê. A sobrevivência da Senhora passou a depender do Escravo.
Enfim, com a morte de Bento tudo mudou; agora era Tebas quem, com base em sua experiência e conhecimento do ofício, definia e ditava as coisas relativas a tudo que dissesse respeito a obras de cantaria, desde as tratativas de contratação até prazos de entrega e pagamento. Alcançara enfim enorme autonomia mesmo ainda sendo escravo.
Mas a relação de quebra da submissão é aparente. Porque, entretanto, é legal. E é essa a razão porque a partir daí, Tebas irá procurar atuar em favor de si mesmo, fazendo uso de sua capacidade de trabalho junto àqueles que têm
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7 interesse em contratá-lo. E vimos que (parodiando um pouco o nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade) no meio desse caminho, Bento de Oliveira Lima tinha deixado uma pedra, ou melhor, várias pedras a serem ainda entalhadas para o frontispício da Matriz. E foi esse o caminho que o conduziu a conquistar sua liberdade.
Agiu com consciência e inteligência. E digo mais: fez uso do que chamamos de POLÍTICA. Tratou interesses alheios, atendendo-os por meio do seu trabalho, porém soube NEGOCIAR, tanto com os Irmãos Terceiros do Carmo, como logo depois irá negociar com o poderoso Cônego Matheus Lourenço de Carvalho. Pessoas e instituições poderosas que tinham maior interesse em ver Tebas livre e disponível para realizar obras de seus interesses. Aos quais devemos somar os governos da Capitania e da Câmara de São Paulo, bem como todas as demais corporações religiosas a quem prestava seus serviços. Assim, quando Antonia Maria, endividada, teve que dispor de seus bens, viu-se obrigada também a dispor de seu mais valioso bem: Tebas. Que foi comprado pelo Cônego que, na condição de seu Senhor, também negociou com Tebas. A conclusão do frontispício pela sua liberdade.1
Isso ocorreu por volta de 1775. Tinha vivido metade de sua vida. Veio a falecer em 1811, vitimado por uma gangrena, e enterrado na igreja de São Gonçalo, como nos informa Abilio Ferreira no seu artigo TEBAS E O TEMPO, à página 39 do Livro TEBAS UM NEGRO ARQUITETO NA SÃO PAULO ESCRAVOCRATA (abordagens), que organizou e publicou com o apoio do Instituto para o Desenho Avançado, IDEA, e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, em 2018, para o qual tivemos a satisfação de contribuir.
Obrigado pela atenção.
Carlos Gutierrez Cerqueira
1 A negociação na verdade é um pouco mais complexa, mas pode ser vista no meu texto Tebas