Sangue de amor correspondido x Sangre de amor correspondido:
as mudanças de efeito de sentido nas expressões de pessoa entre
o romance original em português e sua tradução ao espanhol
Andreia dos Santos MenezesFaculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo (USP) [email protected]
Abstract. We will show by the comparative analysis of stretches of the book Sangue de amor correspondido, by the Argentine writer Manuel Puig, and its Spanish
translation, Sangre de amor correspondido, done by the own author, that there are changes of meaning effects in the expression of the person which had been caused by the form of the Portuguese language and the Spanish language but there are others that oppose some of the trends of the Spanish language.
Key-words. Translation; contrastive analysis; Portuguese; Spanish.
Resumo. Buscaremos mostrar por meio da análise comparativa de trechos do livro Sangue de amor correspondido, do escritor argentino Manuel Puig, e sua tradução
ao espanhol, Sangre de amor correspondido, feita pelo próprio autor, que houve mudanças de efeitos de sentido no tocante à expressão das pessoas que foram acarretadas pela própria forma do português e do espanhol e que, no entanto, houve outras que vão contra algumas das tendências da língua espanhola.
Palavras-chave. Tradução; análise contrastiva; português; espanhol.
1. Apresentação
O presente trabalho tem como objetivo fazer uma análise comparativa da expressão das pessoas em português e espanhol tendo como material de análise os romances Sangue
de amor correspondido (doravante Sangue), do escritor argentino Manuel Puig, e sua
tradução ao espanhol, Sangre de amor correspondido (doravante Sangre), feita pelo próprio autor.
Sangue foi escrito em 1982 quando Puig vivia na cidade do Rio de Janeiro. Em
ocasião de uma reforma em sua casa, o escritor conheceu um pedreiro e, durante as conversas que mantiveram, fascinou-lhe a forma como o brasileiro falava. Puig gravou as histórias que o homem lhe contava e a partir desses relatos escreveu Sangue originariamente em português e depois ele mesmo o traduziu ao espanhol. O romance é o relato das memórias do personagem Josemar, um pedreiro semi-analfabeto que migra do interior do Rio de Janeiro para a capital. O texto está apoiado na oralidade proveniente da
2. Retextualização, efeitos de sentido e as obras em questão
Marcuschi em seu livro Da fala para a escrita: atividades de retextualização (2001), trabalha com o conceito de “retextualização”. Segundo o pesquisador, a retextualização consiste na passagem ou transformação de um texto de uma modalidade para outra, como, por exemplo, do texto falado para o escrito, ou de uma língua para a outra, como ocorre com a tradução.
Se aplicarmos o conceito de retextualização, concluiremos que as obras que nos servirão aqui de material de análise sofreram vários processos de retextualização. O primeiro, quando Puig passou o texto falado gravado para o escrito. O segundo, ao transformar esse material em “el habla cotidiana de determinado medio, de determinado ambiente, a lo que verosimilmente se acepta como tal” (Goloboff, 1997: 72). O terceiro, ao convertê-lo numa obra literária. Por fim, teve que novamente passar pelos segundo e terceiro processos ao traduzi-lo à sua língua materna.
Durante cada processo de retextualização, o texto sofre mudanças. Acreditando que “A seleção de um conjunto de recursos expressivos ao invés de outros tem sempre a ver com os efeitos que o locutor quer dar” (Possenti, 1993) e que não “existem duas maneiras de dizer a mesma coisa” (Possenti, 1993: 118), tais mudanças acarretam outras no efeito de sentido causado. Dessa maneira, partimos da hipótese de que, ao modificar-se a forma, modifica-se também o conteúdo: a forma está intimamente relacionada ao efeito de sentido que se deseja causar. Se pensarmos assim dentro de uma mesma língua, ao levarmos essa idéia para o campo da tradução, criamos um grande conflito, já que comumente se imagina que a tradução busca transmitir um mesmo conteúdo por meio das formas de outra língua. Porém, seguindo essa linha de raciocínio, tal intento torna-se impossível.
Pensando dessa forma, destruímos o maior dos clichês quando se fala de português e espanhol: o de que são línguas tão parecidas, que não é necessário estudá-las, isso é, usando a forma de uma, ou alterando o “sotaque”, poder-se-ia facilmente fazer com que o ouvinte nativo da outra língua alcançasse o conteúdo que se desejasse transmitir. Vemos que isso não é possível, como afirma González (2001: 242):
(...) ¿será verdad que la comunicación, pese a las posibles “imperfecciones” en la expresión, es tan frecuentemente exitosa? El no cumplir determinadas “reglas” o convenciones vigentes en una lengua no conduce inevitablemente a formas agramaticales o inaceptables, sino más bien a valores y efectos de sentido no previstos identificables por el locutor, que pueden desembocar en problemas aún más serios que los provocados por la simple “incorrección”; o, como recuerda Fanjul (1999, p.139), pueden producir un sentido incompleto o un sinsentido para los oídos de un hablante nativo. (grifo nosso)
Assim sendo, nosso objetivo aqui será o de mostrar alguns exemplos do que consideramos como mudanças de efeito de sentido ocasionadas pelas escolhas com relação à forma feitas por Puig no tocante à expressão das pessoas contidas no primeiro capítulo de
3. Sangue de amor correspondido x Sangre de amor correspondido
Quando lemos as primeiras frases do livro Sangue e as comparamos à sua tradução, já nos salta aos olhos o contraste existente entre o português e o espanhol:
(1) - Qual foi a última vez que você me viu?
Ele viu ela pela primeira vez há dez anos atrás, oito anos atrás. (p. 9) (grifo nosso) - ¿Cúal fue la última vez que me viste?
Él la vio por primera vez hace diez, ocho años. (p. 9) (grifo nosso)
Em ambas as línguas, Puig procurou aproximar-se das construções típicas da oralidade do português brasileiro (doravante PB) e do espanhol (doravante E). A construção da pessoa no original em português no trecho citado deixa absolutamente evidente ao leitor, já na segunda linha, que a obra que ele pretende ler se baseará na oralidade brasileira. Isso se deve ao uso do pronome sujeito “ela” como objeto direto, o que é considerado erro pela gramática normativa, embora seja extremamente difundido e aceito na língua falada, não só no registro coloquial popular, mas cada vez mais no culto, sendo o uso dos pronomes átonos considerado, inclusive, como marca de pedantismo (González, 1994: 255). Já em espanhol, o uso do pronome complemento de objeto direto “la” não se caracteriza como típico da fala, culta ou popular, ou da escrita: está presente em ambos os registros. Isso é, acreditamos que os efeitos de sentido causados já no primeiro contato dos leitores nas duas diferentes línguas são distintos.
Analisemos estes outros pares de exemplos, atentando em especial às palavras destacadas:
(2) E ali ficaram conversando, brigando, discutindo, ele querendo sair fora, e aquele problema todo, a mãe, a avó em cima e tal, “Não abandone minha filha!” aquele negócio todo. E ele geralmente sempre fugindo. (p. 11)
Y ahí se quedaron conversando, peleando, discutiendo, él se le quería escapar, y todo el mundo se le vino encima, la madre, y se le vino encima la abuela, “¡No abandone a mi hija!”, toda esa historia. Y él siempre escurriéndosele. (p. 11) (grifos nossos)
ou:
(3) “Olha, você se lembra daquela noitada? Eu espero naquele banco e tal, nessa praça”, assinado Maria da Glória. Lembrar ele se lembra, mas não dá, ele não ø devolve o bilhete nem nada, certo? (p. 14)
“¡Hola! ¿cómo estás? Yo siempre acordándome de aquella noche. Te espero en el banco aquel, el de esta misma plaza”, firmado María da Gloria. Sí, claro que él se acuerda, pero no se puede, ni le devuelve el papelito ni nada ¿está claro? (p. 14-15) (grifos nossos)
Observamos nos exemplos dados o que González classifica como as “diferentes assimetrias” existentes entre o PB e o E (1998: 247):
De forma sintética, se puede decir, siempre a partir de los varios estudios consultados, que mientras el PB es una lengua de sujeto pronominal predominantemente pleno y que privilegia las categorías vacías o las formas tónicas para la expresión de los complementos, el E es claramente una lengua de sujetos pronominales predominantemente nulos y de complementos clíticos abundantes, a veces duplicando (o quizás duplicados por) una forma tónica.
Ainda que nos exemplos dados haja aparecido somente uma omissão de objeto indireto (ex. 3), vemos no exemplo (1) o uso de pronome tônico como objeto direto, e em nenhum momento foram utilizados pronomes átonos. Isso é, em português foram feitas escolhas no sentido da intransitividade para que não fosse necessário o uso de complementos direto ou indireto. Já na língua espanhola, o objeto nulo é praticamente inexistente. Como afirma Fanjul (1999; 139), “Los ´errores´ gramaticales del hispanohablante pasan más bien por el exceso de pronombres átonos”. O texto de Puig em espanhol reflete essa tendência do E por meio do uso excessivo de pronomes átonos, sejam complementos, sejam reflexivos ou ainda dativos éticos.
Analisando essas “diferentes assimetrias” do ponto de vista do efeito de sentido produzido, notamos que o enunciador no texto em espanhol, por meio dos pronomes átonos, se insere no enunciado, o que acontece muito mais do que em português.
Quando observamos que boa parte dos pronomes que apareceram nos exemplos dados são dativos éticos, vale a pena determo-nos nestes outros dados (González, 1994: 154-155):
Em pesquisa recente sobre a presença optativa desses pronomes [dativos éticos] no espanhol falado em Buenos Aires, Albano de Vázquez et alli (1990) (...) constataram um alto índice de presença desses pronomes. A sua presença – já que é opcional – parece indicar uma ênfase, isto é, chama-se a atenção sobre o falante, sobre o ouvinte ou sobre o agente da ação referida pelo verbo. (...) Segundo as autoras, esse pode ser considerado um traço característico da língua oral coloquial dessa região e aparece sempre que os temas de conversa tenham grande carga emotiva nas quais aflore a subjetividade. (grifos nossos)
Vemos que novamente Puig se aproxima da oralidade do E coloquial, em especial ao de seu país, de acordo com a citação acima, ao usar os dativos éticos. Vemos, também, que esse recurso, como já havíamos mencionado, enfatiza a presença, no nosso caso, do enunciador, e que é um traço que reflete a subjetividade do discurso argentino.
Porém, observemos estes outros trechos:
(4) Na época ela queria que ele fizesse a faculdade de engenharia, mas ele não tinha condições, certo? Os pais dele na época não tinham dinheiro. Então aí ele disse pra ela que não dava, ele ia ter que procurar uma nova vida e tal, o trabalho dele na época era... ele trabalhava com projetos elétricos, dá pra entender? (p. 12-13) (grifo nosso)
En aquella época ella quería que él se hiciese... ingeniero, en aquella época, pero él no tenía medios ¿se entiende? Los padres de él no tenían dinero en esa época. Entonces él le dijo que no podía, él se tenía que abrir un camino en la vida, en esa época lo que él hacía era... proyectos eléctricos ¿está claro? (p. 13) (grifo nosso) Nos exemplos acima, constatamos que no original em português aparece a tendência ao sujeito pronominal pleno e ao uso de formas tônicas. Como vimos com González, este fenômeno recorrente do PB contrasta com a propensão ao sujeito pronominal nulo do E. Todavia, no exemplo em espanhol acima, esse uso não ocorre. Casos como esse aparecem em vários outros momentos do capítulo analisado.
Fica novamente a pergunta: qual o objetivo do autor em ir contra essa tendência do espanhol que compõem a chamada diferente assimetria?
4. Conclusão
Consideramos de início que ambas obras se apoiaram na oralidade do PB e do E e vimos pelos exemplos dados que o autor realmente seguiu por esse caminho. Buscamos mostrar que houve mudanças no efeito de sentido entre o original e sua tradução e que muitas dessas mudanças foram acarretadas pela própria forma de cada uma das duas línguas.
No entanto, vimos, também, que Puig fez escolhas na sua tradução que vão contra algumas das tendências da língua espanhola. Acreditamos que, tanto no original quanto na tradução, Puig criou “su propio lenguaje” como afirma Goloboff.
Como vimos na parte 2 desse trabalho, “Retextualização e efeitos de sentido”, a elaboração de Sangue foi em si mesma um grande processo de tradução, em especial quando pensamos que o romance foi escrito numa língua estrangeira à do autor. Ao traduzi-la para o espanhol, acreditamos que o escritor sentiu a liberdade de escrever na sua língua materna o seu próprio texto e permitiu-se “infringir” certas “regras” em prol de dar à sua obra a musicalidade do PB. Nesse sentido, observemos o que diz Siganevich (1987: 239):
[Puig] Deja Nueva York, la lengua inglesa, extrañado ya de la propia y llega a Brasil en 1982. Descubre un olor Brasil, un paisaje Brasil y el sonido de otra
lengua, una cierta música. Dice Puig: “Se me cruza un personaje con una historia
extraordinaria y un lenguaje especial, y yo tengo, de algún modo que analizar ese lenguaje”. Lo desvela saber cómo ese hombre, casi analfabeto, logra ese colorido con su habla, esa musicalidad. Lo invita entonces a hacer grabaciones de conversaciones que son volcadas en un dialecto del Estado de Río. Puig insiste mucho en su necesidad de poder tomar la música y el color, los valores pictorios
del lenguaje popular. (grifos nossos)
Como afirma Goloboff, “En Puig hay traducción, pero con un procedimiento muy particular: es como si, a la inversa del proceso normal, él hiciera ir la lengua de llegada a la de partida” (Goloboff, 1997: 73).
Nesse trabalho, tomamos apenas alguns poucos exemplos contidos somente no primeiro capítulo de ambos livros. Contudo, pudemos concluir que são inerentes à tradução mudanças no efeito de sentido, algumas impostas pelas próprias línguas e outras elaboradas pelo tradutor. Como, no nosso caso, o tradutor era ele mesmo o autor do original, ele permitiu-se mudanças mais radicais que provavelmente não seriam consentidas a outro tradutor.
5. Referência
FANJUL, Adrián Pablo. “Espacio de la persona en la versión portugués-español: un problema de identidad discursiva”. Em: Estudos Acadêmicos Unibero, Ano V, n. 10, julho - dezembro de 1999. São Paulo, pp.135-154, 1999.
GOLOBOFF, Mario. “Puig: el camino de la oralidad”. Em: Encuentro Internacional
Manuel Puig, 13-14-15 de agosto de 1997. La Plata, pp. 71-76, 1997.
GONZÁLEZ, Neide T. M. “La expresión de la persona en la producción de español lengua extranjera de estudiantes brasileños: perpectivas de análisis”. Em: Trouche, A. e Reis, L. (org.): Hispanismo 2000. Brasília: Consejería de Educación y Ciencia de la Embajada de España en Brasil, pp. 239-255, 2001.
_____ . “Pero, ¿qué gramática es esa? Los sujetos pronominales y los clíticos en la interlengua de brasileños adultos aprendices de E/LE”. Em: RILCE, n. 14.2 Universidad de Pamplona, pp. 243-263, 1998.
_____. “Cadê o pronome? O gato comeu” Os pronomes pessoais na aquisição/aprendizagem do espanhol por brasileiros adultos. 1994. Tese (Doutorado em Lingüística). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Ed. Cortez, 2001.
POSSENTI, Sírio. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1993. PUIG, Manuel. Sangre de amor correspondido. Barcelona: Ed. Seix Barral, 1998.
_____ . Sangue de amor correspondido. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1982. SIGANEVICH, Paula. “Brasileridad, traducción y género en la escritura de Manuel Puig”.
Em: Encuentro Internacional Manuel Puig, La Plata, Beatriz Viterbo Editora, 13-14-15 de agosto de 1997, pp. 237-242, 1997.