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AS ROTAÇÕES DE SEQUEIRO E AVES ESTEPÁRIAS

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Academic year: 2021

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AS ROTAÇÕES DE SEQUEIRO E AVES ESTEPÁRIAS

1 - INTRODUÇÃO O território da ITI do Douro Internacional é composto por duas áreas distintas – uma parte planáltica, onde predominam as culturas cerealí-feras associadas à pecuária extensiva; outra parte de vales encaixados (conhecidos localmente por arribas), onde predominam as culturas me-diterrânicas, olival, vinha, amendoal e citrinos. Este binómio planalto/ arribas é de importância fundamental para a expansão das populações das diversas espécies de fauna existentes nesta região. A enorme biodi-versidade ainda existente na área geográfica da ITI Douro Internacional, reconhecida como uma das mais importantes da União Europeia, está relacionada com a ocupação humana e o uso agrícola deste território, que justificou a criação de uma área protegida com o objectivo de pre-servar os ecossistemas agro-florestais dominantes e a fauna a eles as-sociada. Dado que estes sistemas agrários tradicionais não são competitivos, sob o ponto de vista de produtividade e rentabilidade, tem-se vindo a acentuar um grande abandono das actividades agrárias, principalmente as culturas cerealíferas, com a consequente falta de disponibilidade ali- mentar para muitas espécies da fauna que são importantes para a con-servação dos ecossistemas. Torna-se por isso necessário tomar medidas que contrariem esta tendência e sejam incentivadoras para que a agri-cultura tradicional continue a desempenhar o seu papel na manutenção da paisagem rural, na melhoria do meio ambiente e a conservação da fauna e da flora da região.

2 - A ROTAÇÃO CEREAL X POUSIO

As culturas cerealíferas no Planalto Mirandês estiveram sempre asso-ciadas à produção pecuária extensiva, nomeadamente à ovinicultura e à bovinicultura extensiva. Até aos anos 80 do século passado, a rotação de sequeiro cereal x pousio (um ano de cereal e um ou dois anos de pousio), era feita segundo o alqueive tradicional de três ferros, isto é uma lavoura primaveril de charrua de aivecas, com reviramento da leiva, como operação primária, duas escarificações para a preparação da cama da semente e uma gradagem para a cobertura da semente. Esta rotação não era rentável dado que a parcela de solo, em cada dois ou três anos, apenas produzia uma vez e as produtividades, quer do centeio quer do trigo, eram muito baixas1 e nos anos de pousio só os —————— (1) (Projecto de Desenvolvimento Rural Integrado de Trás-os-Montes) As densidades de sementeira, o tipo de semente (não seleccionada) e os baixos níveis de fertilização, não permitiam que as produtivi-dades fossem elevadas – cerca de 800 Kg/ha para o centeio e 1200 Kg/ha para o trigo.

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 ovinos tiravam algum partido das ervas de má qualidade que nasciam nos restolhos. Naquela década, muitas das explorações que aderiram às propostas do PDRITM2, passaram a ter produtividades mais elevadas e em vez dos pousios passaram a produzir forragens equilibradas de gra-míneas e leguminosas, de razoável valor nutritivo para os animais. Em meados da década de 90, o preço dos cereais desceu drastica-mente, o que levou a uma enorme redução da área semeada dedicada principalmente ao trigo. Grande parte da área ocupada por este cereal em rotação com a consociação ervilhaca + aveia, passou a ser ocupa-da pela produção de aveia estreme, para corte em verde. Este facto teve consequências nefastas na diminuição das populações de muitas espécies que nidificam nas searas, dado que devido à antecipação da época de corte dos cereais, houve a destruição de muitos ninhos ainda ocupados.

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(2) Rotações de ervilhacas consociadas, mais frequentemente, com aveia, ou outros tutores, como o centeio e o triticale.

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3 - AS AVES QUE DEPENDEM DESTE HABITAT (AVES ESTEPÁRIAS)

A existência destas culturas tem grande interesse não só para as espécies animais que delas dependem directamente, porque nelas nidi-ficam e/ou se alimentam (a perdiz, a codorniz, as cotovias, o coelho e a lebre), mas também predadores, com elevado estatuto de conservação, que necessitam destes espaços abertos para caçar, inclusivamente as aves necrófagas também dependem deste habitat do qual, como referi-mos, a produção pecuária faz parte integrante.

Apesar da já referida diminuição da área cerealífera, subsiste ain-da, com alguma expressão nesta área planáltica, o cultivo extensivo de cereais de sequeiro com variedades regionais. Existem também outras culturas como a vinha, os lameiros, as hortas e também matos, incultos e alguma floresta autóctone que constituem um mosaico de habitats (dominado pela cerealicultura) bastante favorável à biodiversidade, no-meadamente às aves. Na área da ITI-DI, estão assinaladas 18 ordens, 47 famílias e cerca de 150 espécies de aves. As denominadas aves “estepárias” são aquelas que dependem em termos ecológicos de zonas abertas, desprovidas de vegetação arbustiva ou herbácea. Assim, estão bem adaptadas a “cami-nhar”, obter alimento e refúgio na vegetação herbácea e, nalguns casos, a nidificar no solo. Podem considerar-se 3 tipos de aves estepárias que ocorrem nesta região:

- aves residentes, que usam as culturas cerealíferas como

ha-bitat de nidificação.

(ex.: Perdiz vermelha, Sisão, Alcaravão, Tartaranhão-caçador, Ca-lhandra-real, Laverca, Cotovia-de-crista, Calhandrinha);

- aves que usam as folhas de cereal apenas como habitat de

alimentação.

(ex.: Estorninho, Rola, Cegonha-branca, Milhafre.-real, Peneireiro-comum, Coruja-das-torres)

- aves migratórias, que usam esta zona como habitat de

in-vernada.

(ex.: Abibe, Galinhola, Esmerilhão, Tartaranhão-azulado, Chasco-cinzento, Coruja-do-nabal).

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4 – DESCRIÇÃO DE ALGUMAS DAS ESPÉCIES EMBLEMÁTICAS DA ÁREA DE ITI

O Planalto Mirandês é último reduto de aves estepárias de todo o Norte de Portugal. Pela sua raridade e características muito próprias me-recem destaque 6 espécies3: O Sisão (Tetrax tetrax) Nome regional: Espernil Identificação Faz lembrar um galináceo em termos de forma do corpo , sendo notoriamente maior que uma perdiz. O macho em plumagem nupcial identifica-se facilmente pelo seu pescoço preto com riscas brancas. A fêmea é castanha com a parte inferior das asas muito clara. Em voo, a si- lhueta é algo pesada e a coloração branca, nomeadamente a mancha bran-ca nas asas, permitem a identifilhueta é algo pesada e a coloração branca, nomeadamente a mancha bran-cação da espécie. Ao voar, o atrito das asas com o ar emitem um ligeiro silvo contínuo audível a alguma distância. Situação A população nacional está concentrada quase exclusivamente no Alen-tejo, sendo que o Planalto Mirandês abrange o núcleo mais setentrional. A população nessa área distribui-se pelas áreas cerealíferas de maior di-mensão. Como é nidificante nesta região, não costuma ser observado durante o Inverno.

Ameaças

Abandono agrícola, florestações excessivas, caça furtiva.

Estatuto segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

Vulnerável O Alcaravão (Burhinus oedicnemus) Nomes regionais: Piroliz Identificação É uma ave limícola “pernalta”, altu-ra não supera os 60 cm. A plumagem Foto: Mariano R odriguez Foto: Mariano R odriguez

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é acastanhada, frisada, que faz com que facilmente se confunda com a paisagem envolvente. É migratória e com actividade crepuscular, sendo comum emitir um chamamento agudo e continuado. Situação Contrariamente à maioria das limícolas, esta ave tem de hábitos ter-restres, só raramente aparece perto de água. A espécie está presente no sul Portugal durante todo o ano. No Planalto Mirandês nidifica em baixa densidade e, sobretudo, em zonas cerealíferas extensas.

Ameaças

Alteração dos sistemas agrários tradicionais, abandono agrícola, flo-restações.

Estatuto segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

Vulnerável.

A Perdiz vermelha

(Alectoris rufa) Nome regional: Perdiz

Identificação

Com a sua forma arredonda e asas curtas, a perdiz é praticamente inconfun-dível. A plumagem é composta por tons de cinzento, preto, branco e ruivo. Os ju-venis, ou perdigotos são acastanhados. Situação

É comum nas paisagens rurais de todo o país, evitando as zonas densamente urbanizadas. É uma espécie sedentária que está muito as-sociada ao mosaico de biótopos agro-florestais. No Planalto Mirandês a espécie possui densidades elevadas em termos da região norte do país, sendo uma espécie bastante pretendida em termos de caça menor. Ameaças Abandono e alteração das práticas agrícolas tradicionais, declínio da cerealicultura, pressão venatória, Agro químicos.

Estatuto segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

Não ameaçado.

Foto:

António

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 O Tartaranhão-caçador (Circus pygargus) Nomes regionais: Gavião, Gabilan Identificação É uma ave de rapina de tama-nho médio.Os machos são de cor cinzenta clara, com a ponta das asas pretas; a fêmea é

acasta-nhada, com uropigio branco. Filete as asas para cima em forma de “V”, com um voo ondulante e em geral voa a baixa altitude.

Situação

Segundo o último Atlas das Aves Nidificantes, distribui-se pelo Alente-jo (principal área da espécie) e interior do país até à zona do Barroso. É uma ave migratória que nidifica no solo, sendo por isso muito dependen-te de cultivo cerealífero, seja como habitat de alimentação, seja como habitat de nidificação. No Planalto Mirandês é comum durante a Prima-vera, nomeadamente nas freguesias com maiores áreas de cereal. Ameaças Abandono agrícola, alteração das práticas agrícolas tradicionais, ceifa precoce.

Estatuto segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

Em Perigo. O Milhafr-real (Milvus milvus) Nomes regionais: Gavião, Gabilan, Rabo-de-peixe, Rabo-de-bacalhau Identificação

É uma ave de rapina de tama-nhão médio/grande (até 1,60 m de envergadura), de cor castanha, com manchas brancas nas asas. A cauda é bifurcada o que o tornam inconfundível. Foto: António Monteiro Foto: F aísca

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Situação

Como nidificante, o milhafre-real encontra-se em declínio acentuado e tornou-se bastante raro em Portugal, com um efectivo inferior a 50 casais. Distribui-se quase exclusivamente pelo interior norte. O Planalto Mirandês concentra a principal população nacional nidificante e uma das mais numerosas durante o Inverno. Está muito associada ao mosaico de estepe e cerealíferas com zonas arborizadas adultas (lameiros, pinhais, carvalhais) Ameaças Caça furtiva, envenenamento, restrições sanitárias.

Estatuto segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

Criticamente Ameaçado/Vulnerável. A Laverca (Alauda arvensis) Nomes regionais: Cuquilhada, cotovia Identificação É uma ave de padrão castanho risca-do e de tamanho um pouco maior que um pardal. Sem sinais particulares na

plumagem, tem uma poupa cortada em cima da cabeça, que por vezes não é identificável. É uma ave pouco conspícua, de difícil observação de-vido ao seu mimetismo, quer seja nos terrenos lavrados, quer seja em terrenos em pousio. Tem um canto característico repetitivo e intermitente que emite em geral em voo.

Situação

Segundo o mais recente Atlas Nacional de Aves Nidificantes, ocorre de forma algo localizada, nas zonas de altitude da metade norte do país. No Inverno pode ser vista, por vezes em bandos muito numerosos, nas terras baixas do sul do país, especialmente em terrenos cultivados ou restolhos. No Planalto Mirandês ocorre todo o ano, e tem uma área de distribuição como nidificante bastante menor do que a área que ocupa a população invernante. Ameaças Abandono das práticas de produção cerealífera tradicional, declínio da pastorícia tradicional. Foto: Mariano R odriguez

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Estatuto segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

Não ameaçado.

O Abibe

(Vanellus vanellus) Nome regional: Ave-fria

Identificação

Esta é uma das espécies de mais fácil identificação da nossa avifauna, sobretudo quando em plumagem de adulto. Com um tamanho semelhante à perdiz, tem o corpo escuro e em voo asas arredondadas com branco bem visível por baixo. Emite vocalizações extremamente características, parecidos a lamentos. Situação Abundante durante o Inverno na metade sul do país e nos campos abertos do interior centro e norte. Ocorre sobretudo junto a zonas hú- midas, prados húmidos, e pousios. No Planalto Mirandês ocorre nas fre-guesias com cultivo cerealífero mais representativo. Ameaças Abandono das práticas de produção cerealífera tradicional, declínio da pastorícia tradicional.

Estatuto segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

Não ameaçado.

Foto:

Mariano

R

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5 - A ALTERNÂNCIA SAZONAL DA PAISAGEM CEREALIFERA E A FAUNA

Na primavera é tempo de ver crescer as searas, extensas e verdes, enquanto no céu trinam uma grande variedade de pássaros, entre os quais o Cochicho (Calhandra-real) e a Cuquilhada (Cotovia). Sendo um período marcado pela ausência do homem, as folhas de cereal são es-paços usualmente utilizados por algumas aves para procriarem e alguns mamíferos silvestres para se alimentarem (como a lebre, o coelho e até o javali), e outros para caçarem (como a Raposa e o próprio Lobo). No Verão no cenário predomina o amarelo dos campos. E assiste-se às ceifas, enquanto o Sisão, o Alcaravão, a Perdiz-vermelha passeiam as suas proles pelos restolhos. É a época das grandes “bandadas” de rolas e pombos no seu vai e vem entre os restolhos e os freixos dos lameiros. Chegado o Outono, meio escarlate meio pardo, lavram-se os adis e semeiam-se os terrenos barrentos. As perdizes “rotejam” pelos cabeços abaixo, perseguidas pelos caçadores. Um raríssimo e tímido corço pode assomar por entre as carvalheiras, quase despidas de folhas, procurando alguma erva nas folhas por lavar. O Inverno traz o cinzento das geadas, e consigo as aves frias (abibe) e os estorninhos malhados. Os milhafres são também uma presença co-mum nos campos de cereais, onde passam rebanhos e que, por vezes, deixam para trás uma ovelha morta que servirá de repasto aos enormes grifos, vindos das arribas, aos corvos, às gralhas e às pegas rabudas.

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BIBLIOGRAFIA AMARO, Domingos A. F., 1982, Breve Caracterização Agrícola do Pla-nalto Mirandês, Direcção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes, Mirandela. AMARO, Domingos A. F., 1994, A extensão rural e as transformações na agricultura do planalto mirandês na década de 80 - o caso de Sa-nhoane, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real. D.R.A.T.M., 1983, Projecto de Desenvolvimento Rural Integrado de Trás-os-Montes, (Propostas de reconversão no P.D.R.I.T.M., - Zona de Tratamento Homogéneo do Planalto Mirandês), Mirandela.

ERENA (vários autores), 1995, Conservação da Natureza e Desenvol-vimento Rural no Planalto Mirandês e nas Arribas do Douro. Câmara Municipal de Miranda do Douro.

ICNB, 2006, Livro vermelho dos vertebrados de Portugal, Assírio & Alvim, Lisboa. JUNTA DE CASTILLA Y LEÓN, (vários autores), 2000, Arribes del Due-ro: el hogar del águila perdicera y de la cigueña negra, Zamora. MOREIRA, Nuno, 1984, Caracterização dos Sistemas de Agricultura do Nordeste, Instituto Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real.

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UNIÃO EUROPEIA

Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural

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INTERVENÇÃO TERRITOROIAL INTEGRADA

DO DOURO INTERNACIONAL

ESTRUTURA LOCAL DE APOIO

Novembro de 2009

AS ROTAÇÕES DE SEQUEIRO

E AVES ESTEPÁRIAS

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FICHA TÉCNICA

Título: AS ROTAÇÕES DE SEQUEIRO E AVES ESTEPÁRIAS Autor: Domingos Amaro

Colaboradores: António Espina Monteiro e Carlos Santos

Fotografia: Mariano Rodriguez, António Monteiro, Faísca Domingos Amaro Edição: Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte

Tiragem: 1000 expl. Depósito Legal: ??????/??

Referências

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