Somos “passantes” do presente
Reconhecer que o velho é diferente quer dizer, em uma perspectiva simbólica, que ele é o complementar do jovem, que ele lhe é necessário para que se sinta jovem. Quando ele diz “eu existo”, “eu sou”, e não “eu fui”, o velho faz lembrar que a existência não fica congelada no tempo, que não se fica para sempre jovem, belo e dinâmico. Lembra que ele é um passante. (Puijalon, Trincaz, 2000)1
idoso, ou velho, é diferente. Sim, somos todos tão diferentes uns dos outros em todas as idades da vida! A diferença não reside somente na oposição jovem – velho, está muito além desta simples dicotomia. Somos seres únicos e múltiplos em relação aos outros, e também para nós mesmos. Como afirma a epígrafe que dá início a esta narrativa, somos todos “passantes” - caminhantes e parceiros de jornada. Nada deveria separar estes dois polos do ciclo de vida, e sim unir.
Nascemos diferentes geneticamente, nos tornamos diferentes de acordo com o lugar de nascimento – país, cidade, vila, família (ou sua falta) – com as condições socioeconômicas e históricas, da escolaridade e das oportunidades que se ofereceram (ou não). E, diante de oportunidades e desafios, quais as escolhas individuais? Foram elas possíveis? Qual a realidade se apresentou nos momentos de “virada”? O velho que sou hoje não contém o jovem de ontem? Este jovem que “existe” em contraponto ao velho, não se enxerga neste amanhã?
Independente destas aproximações, no horizonte acena, para todos ao longo da trajetória, o que denominamos imponderável.
Imponderável é aquilo que não tem peso, que não pode ser avaliado, que não sustenta argumentos, e aquilo que não pode ser calculado, nem previsto, nem controlado, mas cujo efeito pode ser determinante (Houaiss, 2001).
1 Puijalon, B.; Trincaz, J. Le droit de vieillir. Paris: Fayard, 2000 (tradução livre)
Além de todas as diferenças genéticas, do lugar e tempo de nascimento, estamos sujeitos a acontecimentos que não podemos prever – desacertos pessoais e familiares, desastres naturais, guerras, doenças...
Nascemos, vivemos e longevivemos submetidos ao destino?
Destino é um termo subjetivo, dito de senso comum, e nada tem de científico. Muitos dizem nele não acreditar. Tudo o que somos é resultado de nossas escolhas. Será? Não temos resposta a esta, e inúmeras outras questões que se colocam cotidianamente ao longo da vida. O imponderável, ou destino, aquilo que não escolhemos, espera muitos de nós nas “esquinas” da vida. Por isso as circunstâncias fazem “a gente” acontecer. Em outras palavras: somos o que temos sido e o que temos sido está cheio de erros, acertos, circunstâncias. Repetindo o mestre espanhol Juan Sáez Carreras,2 com quem tivemos oportunidade de estarmos juntos em uma relação de aprendizagem: “eu sou minhas circunstâncias”...
Estas reflexões, com as quais iniciamos o nº 25 do mês de setembro de 2012 da Revista Portal de Divulgação surgiram das leituras dos artigos que compõe esta edição, bem como de nossas experiências como pessoas, pesquisadoras, seres em relação... E experiência não se fabrica.
Reflexões que nos fazem pensar que boa parte do que somos e boa parte do que poderemos ser tem sido fabricado fora da gente... Para os sujeitos sequelados pela hanseníase, tema do primeiro artigo desta edição, não há dúvida, e quanto a nós que não fomos isolados e que não carregamos na pele a marca de uma sequela?
Quem teve hanseníase e, por isso, viveu segregado compulsoriamente da família e da sociedade, quem teve que separar dos filhos, ainda bebês, pode escolher? Como viveram estes indivíduos, como envelheceram e como vivem ainda hoje, com 80 anos e mais, apesar das sequelas, do abandono e exclusão?
Este universo, desconhecido por muitos, nos é apresentado de forma contundente, e trazendo a voz esquecida destes indivíduos, no artigo O
envelhecer institucionalizado de sujeitos sequelados pela Hanseníase da Unidade Especial Abrigo João Paulo II. Localizado há cerca de 12 km da
cidade de Belém do Pará este abrigo, denominado originalmente colônia de Manituba, foi implantado no final da década de 30, e tinha como objetivo atender pessoas com hanseníase em regime de isolamento.
A doença, que se manifesta desde a antiguidade bíblica, é assim anunciada:
O Senhor falou a Moisés e a Aarão dizendo: Caso se forme na pele de alguém um tumor, um dartro ou uma mancha lustrosa, e
2 Para saber deste autor mais leiam Educación y aprendizaje en las personas mayores. Madrid, Dykinson, 2003.
isto se torne uma doença do tipo lepra, a pessoa é levada ao sacerdote Aarão ou a um dos sacerdotes, filhos seus; o sacerdote procede ao exame do mal da pele: se na parte doente o pelo se tiver tornado branco e isto parecer formar uma depressão na pele, é uma doença do tipo lepra; após o exame, o sacerdote declara a pessoa impura. (LEVÍTICO 13: 1-3)
O leproso assim doente deve andar com vestes rasgadas, os cabelos soltos e o bigode coberto e deve gritar: “Impuro! Impuro!”; ele é impuro enquanto for impuro o mal que o atingiu; ele morará sozinho e estabelecerá sua morada fora do acampamento. (LEVÍTICO 13: 45 – 46)
E esta foi a realidade vivida por estes “impuros”, atingidos por uma doença à época sem cura, problema agravado pela política higienista vigente e pelo isolamento. Na leitura do artigo e nos depoimentos constatamos que não houve a possibilidade de escolhas. E hoje estes indivíduos são duplamente estigmatizados - porque velhos e portadores das sequelas incapacitantes da hanseníase.
Atualmente é recorrente o tema envelhecimento saudável. Acreditamos que essa longa vida, já realidade entre nós, possa ser de melhor qualidade. Para aqueles que não viveram a experiência traumática da exclusão, conforme relata o artigo inicial, resta a possibilidade de um envelhecimento equilibrado. E aqui usamos o termo equilíbrio por considerar o conceito de saúde, conforme nos dizem, muito restritivo. Nesta perspectiva saúde é um equilíbrio instável, ao longo da vida.
Podemos viver bem, mesmo com alguns males crônicos, próprios da idade? A resposta é SIM! Resposta que se concretiza nos inúmeros exemplos que observamos cotidianamente, e cujo exemplo abordaremos adiante.
Mas nos é imposto um “modelo” tão perfeito e rígido que muitos de nós, idosos, nos sentimos culpados por não nos sentirmos com a vitalidade que se apregoa como possível!
Sofremos um misto de culpa e vergonha. O passar do tempo, mesmo seguindo todos os cuidados preconizados, ainda privilégio de poucos, vai deixando suas marcas externas e internas. O cabelo que embranquece (terror das mulheres e um “charme” para os homens) os sinais no rosto (ruga é palavrão), todos “um pouquinho” acima do peso... Uma leve hipertensão, a taxa de açúcar um pouco alta, uma dorzinha muito incômoda no joelho, a visão não tão nítida como “até outro dia”...
Os sentimentos de medo-vergonha-culpa que carregam hoje muitos idosos estão ligados aos modelos impostos. Estão ligados a uma “experiência” fabricada fora de nós. Modelos que podem levar a uma auto crítica exagerada, gerando ou auto exclusão, ou a submissão, seja à vontade e “cuidados” da família, e/ ou a outras circunstâncias. Quando existe algum problema de saúde
que traga consigo este trio de sentimentos, parece não haver mais possibilidades de escolha. Resta o isolamento?
Chega um dia que precisamos aceitar estas “fragilidades” e, apesar delas, continuar a viver, ser, experienciar a vida, potencializar os desejos. Devemos nos cuidar, mas também nos adaptarmos a estas mudanças. Quais são, então, as escolhas dos mais velhos, em especial aqueles que sofrem de algum distúrbio que os impede de uma vida social mais inclusiva?
No artigo Entendendo a incontinência, em todas as fases da vida. A palavra
dos especialistas, a autora aborda um tema delicado, e também pouco
abordado – a incontinência urinária e fecal – e que não atinge só as pessoas idosas. No entanto, estas sentem, além de outras formas de exclusão, a vergonha do quadro que “provoca alterações emocionais e físicas, tornando-se estressante e fragilizando o dia a dia dos pacientes, além de gerar alta
morbidade, e afetar o nível psicológico, ocupacional, doméstico, físico e sexual [que] afetando diretamente a qualidade de vida [...] isolam e acabam por deprimir as pessoas. Alternativas existem, são possíveis e estão acessíveis a todos que desejam uma vida plena”.
A autora afirma ainda que “por se tratar de um tema delicado e pouco
explorado, realizamos uma pesquisa na mídia buscando, através do olhar de especialistas da área da saúde, entender a dinâmica das patologias, suas respectivas causas e sintomas, além de um diagnóstico preciso com tratamentos adequados, prevendo, inclusive alternativas para os casos mais graves”.
Uma pesquisa sobre este assunto, delicado e calado, transformado em artigo, tornou-se uma verdadeira “aula” que aborda com seriedade e delicadeza, mas sem constrangimento, as causas e as possibilidades de tratamento deste problema que afeta a tantas pessoas. Aqui, apesar da vergonha e constrangimentos, podemos escolher um tratamento, podemos avançar.
É um avanço também os conhecimentos e ações na área da odontogeriatria, assunto que trazemos sempre à pauta, por sua relevância, mas ainda com pouca divulgação entre leigos e também um tabu entre profissionais. No artigo
Atendimento odontológico ao paciente com demência (Alzheimer) na fase leve: orientações clínicas, o assunto é abordado de modo claro, indicando a
necessidade de um tratamento preventivo para os pacientes com Alzheimer que, gradativamente, perdem a possibilidade do cuidado totalmente independente. Interessante ressaltar que os alertas para a necessidade de prevenção odontológica ainda são realizados de forma incerta e pouco eficaz, mas as consequências, em idosos e jovens, sempre são muito prejudiciais, pois podem levar a problemas de saúde no organismo como um todo.
Nesta nossa, cada vez mais longa, caminhada, entre desafios, imponderáveis, circunstâncias e escolhas, um tipo de prevenção vem ocupando cada vez mais espaço: uma renda suplementar para viver melhor após a aposentadoria.
Como manter o mesmo padrão, ou similar? Existe uma alternativa? Podemos também pensar em prevenção?
“Quais as ações necessárias para manter esse padrão de vida, sem prejudicar o sistema previdenciário?”. Esta é a questão central que encontramos no artigo
Longevidade: A influência dos idosos na economia brasileira. A aposentadoria aparece em um momento no qual mais se precisa de renda. Novos custos são acrescentados no processo de envelhecimento. Como devemos nos planejar? Se, como afirma a epígrafe desta narrativa, o jovem precisa do velho para reforçar seu papel, o exemplo do velho poderia, ao contrário, servir para que este jovem pensasse no seu futuro? A autora do artigo preconiza uma “educação financeira” que, evidentemente, tem início quando se é mais jovem e parte ativa do mercado de trabalho. Propõe então:
Se o indivíduo é conscientizado das necessidades de um idoso, ele é capaz de planejar seu próprio futuro, sabendo que a longevidade é um fato. Assim, ele pode durante sua juventude agir de forma positiva, para que seu sofrimento e dependência seja o menor possível, com uma alimentação balanceada, reservas financeiras, educação financeira e, principalmente, não gastando além do que ganha. Deve priorizar compras a vista, através de economias, deixando assim de pagar juros abusivos, e aplicar o dinheiro, que seria pago a juros, em um plano de previdência complementar, oferecido, com muita facilidade em diversas condições, em todos os bancos e algumas agências financeiras e cooperativas de crédito.
Escolhas possíveis?
Para que tenhamos uma vida longa, equilibrada, saudável e inclusiva devemos nos preparar, fazer escolhas, sermos criativos. Educar é educar-se. A criatividade é motor de superação de muitas adversidades, e também de saídas para situações difíceis, sejam elas de relacionamentos, de saúde, e financeiras. Construindo Projetos de Vida com Criatividade relata os desafios e resultados de um projeto que, utilizando a Arteterapia, teve como premissa “um trabalho com a Comunidade e não para a Comunidade, portanto, sem cunho paternalista”.
“Comunidade como um corpo social - membros habitando uma região determinada, com um mesmo governo, numa formação social complexa, com necessidades e interesses diversificados - com pessoas que se motivem, se reúnam e se organizem, podendo agir em grupos, e se responsabilizem no enfrentamento de algumas das necessidades locais”.
Então, entre iguais, podemos unir forças utilizando a criatividade para superação de problemas comuns e criar “oportunidade de convívio” oferecendo condições o surgimento de novas lideranças e protagonismos.
A leitura de “Seu” Hugo - um Inesperado morador de rua, à frente do meu
prédio, nos revela mais um exemplo no qual o imponderável – aquilo sobre o
qual não temos controle – prevalece, como no caso da doença mental.
Havia possibilidade de viver em abrigo? Ou a liberdade da rua era mais atraente? Seu Hugo tinha capacidade de fazer escolhas?
Trouxemos aqui exemplos da complexidade de viver e longeviver. Como vimos, a longevidade não está só atrelada a uma saúde “perfeita”, aos cuidados, ao planejamento. Não existem respostas diante do infinito desta estrada que temos à nossa frente - nela existem desvios, encruzilhadas, trechos sem saída. Muitas circunstâncias...
Nas duas entrevistas que encerram esta edição da Revista Portal de
Divulgação, e que denominamos Com mais de 70: legados de ideias e ideais,
trazemos exemplos de experiências de vidas longas e produtivas – Dra. Cecília
Maria Vieira Helm, antropóloga e Dr. Matheus Papaléo Netto, médico. Para nossos entrevistados as escolhas foram possíveis, o trabalho foi o de construção de conhecimentos que, aplicados, trazem novas perspectivas à vida de tantos.
“Ouvir” a voz dos idosos, ou seja, os sujeitos das experiências, seja para conhecer uma realidade "escondida" e desconhecida por nós, no caso da hanseníase, ou na perspectiva histórica e antropológica, como os depoimentos dos velhos índios que conseguiram importante vitória jurídica graças às memórias do território de origem, é entender que a experiência é aquilo que nos passa porque é isso que nos forma e, consequentemente, ao nos formar, nos transforma.
As experiências dos sequelados de hanseníase, quanto da antropóloga Cecília Helm e do médico Papaléo Netto estão nos servindo. São, na realidade, as bases para um conhecimento relacional que esperamos possam ajudar a construir uma cultura do “nós” em nosso longeviver. Outros caminhos, outras vidas tão significativas como as primeiras e que nos indicam o arco das trajetórias e escolhas possíveis, mesmo sabendo que o imponderável nos espreita. Cada uma delas suscita reflexão: Quem sou? O que desejo? O que posso ser?
Como na epígrafe, devemos manter o “eu sou”, acrescentando “minhas circunstâncias” como possibilidade de um longeviver esperançoso, digno e cidadão, indicando que “a existência não fica congelada no tempo” e que somos “passantes” do presente.
Beltrina Côrte Vera Brandão Editoras