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Interocepção, controle autonômico e aptidão cardiorespiratória em escolares

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE

DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO FÍSICA TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO

ÂNGELA MARÍLIA FREITAS GALVÃO

INTEROCEPÇÃO, CONTROLE AUTONÔMICO E APTIDÃO CARDIORESPIRATÓRIA EM ESCOLARES.

NATAL-RN 2018

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ÂNGELA MARÍLIA FREITAS GALVÃO

INTEROCEPÇÃO, CONTROLE AUTONÔMICO E APTIDÃO CARDIORESPIRATÓRIA EM ESCOLARES.

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para finalização da Graduação de Licenciatura em Educação Física.

Orientador: Prof. Dr. Eduardo Bodnariuc Fontes.

NATAL-RN 2018

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas – SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Centro Ciências da Saúde - CCS

Galvão, Ângela Marília Freitas.

Interocepção, controle autonômico e aptidão cardiorespiratória em escolares / Ângela Marília Freitas Galvão. - 2018.

23f.: il.

Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ciências da Saúde,

Departamento de Educação Física. Natal, RN, 2018. Orientador: Prof. Dr. Eduardo Bodnariuc Fontes.

1. Interocepção - TCC. 2. Variabilidade da frequência cardíaca - TCC. 3. Crianças - TCC. I. Fontes, Eduardo Bodnariuc. II. Título.

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AGRADECIMENTOS

A minha mãe pelo amor e paciência nos momentos difíceis e estressantes. Ao meu pai pelo incentivo e apoio nos momentos que precisei. E aos meus familiares pelas motivações.

Ao meu orientador Eduardo Bodnariuc Fontes, pelo tempo dedicado as correções e motivação, além da grande influência nessa trajetória acadêmica por ter me aceito grupo de pesquisa NEUROEX.

A todos os colegas da base de pesquisa NEUROEX que contribuíram de diversas formas para minha aprendizagem acadêmica e construção desse trabalho. E um agradecimento especial ao Daniel Aranha pelo seu tempo dedicado as contribuições, correções, dicas e incentivo.

A esta universidade, seu corpo docente e funcionários que deram oportunidade e viabilizaram meu crescimento pessoal e acadêmico. Em especial aos professores Eduardo Bodnariuc Fontes e Maria Aparecida Dias (Cida) por mostrarem a grande importância e conhecimentos que podem ser alcançados através da educação física com contribuições para a vida e desenvolvimento do ser humano.

Aos meus amigos de turmas que foram importantes nessa trajetória nos momentos acadêmicos felizes, estressantes e de descontração. Como também aos amigos fora da universidade pelo apoio nos momentos que precisei. Com contribuição maior a Thamara Cristina pela ajuda na correção do português, apoio e lanches.

E aos meus cachorros Heike e Toddy pelo carinho e companhia nas horas tardes da noite.

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RESUMO

Interocepção é a capacidade do indivíduo perceber alterações corporais importantes no desempenho do processamento de vários aspectos ligados a saúde e a vida cotidiana. Muitos trabalhos sobre o nível da capacidade de perceber os próprios sinais corporais são feitos em adultos, mas poucos em crianças. A interocepção pode ser analisada através dos índices da variabilidade da frequência cardíaca (VFC), uma medida não invasiva, que fornece a avaliação sobre o controle autonômico, que está relacionada a interocepção. O objetivo deste trabalho é comparar a VFC de crianças com diferentes níveis de acurácia interoceptiva; verificar se a VFC exerce uma função mediadora na relação entre aptidão cardiorrespiratória e acurácia interoceptiva; e testar as correlações entre VFC e interocepção. Participaram 32 crianças com idade média de 10 anos, da escola Estadual no Município de Parnamirim-RN. Foram feitos testes de sensibilidade cardíaca através da avaliação da VFC e tarefa de percepção dos batimentos cardíacos, medidas antropométricas, composição corporal e aptidão física. A VFC não diferenciou significativamente entre os grupos de alta e baixa acurácia e não apresentou ação mediadora entre aptidão física e acurácia interoceptiva. Mas, correlações negativas significativas foram encontradas entre os índices da VFC e interocepção. Concluímos existir relação importante entre o controle autonômico parassimpático e interocepção em crianças. No entanto, parece que a aptidão física não apresenta influência nessa relação. Estudos futuros precisarão se aprofundar nessa discussão de forma a entender se de fato a atividade física intimamente realizada na escola pode contribuir para o desenvolvimento saudável do controle autonômico e perceptual dos sinais corporais.[

Palavras-chave: interocepção, variabilidade da frequência cardíaca, controle autonômico, crianças.

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ABSTRACT

Interoception is the ability of the individual to perceive bodily changes important in the processing performance of various aspects related to health and daily life. Many works on the level of ability to perceive one's own bodily signals are made in adults, but few in children. Interoception can be analyzed through the heart rate variability indexes (HRV), a noninvasive measure that provides the assessment of autonomic control, which is related to interoception. The aim of this study is to compare the HRV of children with different levels of interoceptive accuracy; to verify if HRV exerts a mediating function in the relationship between cardiorespiratory fitness and interoceptive accuracy; and to test the correlations between HRV and interoception. Participants were 32 children with an average age of 10 years, from the State school in the Municipality of Parnamirim-RN. Cardiac sensitivity tests were performed through the evaluation of HRV and the task of heart rate perception, anthropometric measures, body composition and physical fitness. HRV did not differ significantly between the groups of high and low accuracy and did not present mediating action between physical aptitude and interoceptive accuracy. However, significant negative correlations were found between HRV indices and interoception. We conclude that there is an important relationship between autonomic parasympathetic control and interoception in children. However, it seems that physical fitness has no influence on this relationship. Future studies will need to delve into this discussion in order to understand if in fact the physical activity intimately carried out in the school can contribute to the healthy development of the autonomic and perceptual control of the corporal signals.

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INTRODUÇÃO

A interocepção é um conjunto de sinais aferentes que surgem no interior do corpo e vão para o cérebro, o qual o percebe e coordena uma ação (1,2). Trata-se da capacidade do indivíduo de receber, acessar e avaliar sinais internos (3) e possui amplos aspectos relacionados à saúde e à psicologia humana (4). A interocepção relaciona-se, por exemplo, com estímulos de dor (5), emoções negativas (6), ansiedade, transtornos de ansiedade, transtornos afetivos (7,8), controle e regulação emocional (9,10) e atividade física (11).

A interocepção em crianças é importante para saber como elas percebem seus sinais corporais e fazem os autoajustes do seu corpo respondendo a diversos aspectos relacionados à saúde e a vida cotidiana, os quais podem refletir no seu desenvolvimento no âmbito escolar, social e de atividade física (12). Crianças com melhor interocepção, por exemplo, demonstram maiores habilidades cognitivas, influenciando na aprendizagem, aprendizagem acadêmica e comportamento em sala de aula (13,14), como também pode melhorar a atenção em crianças diagnosticada com déficit de atenção/hiperatividade (TDH), um transtorno psiquiátrico comum nas escolas que afeta o desenvolvimento social e acadêmico (15,16). Além disso, foi demonstrado que crianças com maior capacidade de perceber sinais fisiológicos internos estão associados a sintomas aumentados de pânico (17) e percebem mais as respostas negativas ocasionadas pelo estresse, do que as que possuem baixa precisão da percepção corporal, não apresentam alta reatividade autonômica tão exacerbada durante o estresse (18,19). Dessa forma, a interocepção, pode ser uma medida importante para acompanhar o desenvolvimento das crianças para uma vida saudável e na aprendizagem escolar.

Um fator que exerce influência sob a interocepção é a prática de atividade física. Um estudo com crianças analisou a associação entre interocepção e desempenho físico, demonstrando que, crianças que tinham

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maior precisão da percepção corporal (maior acurácia interoceptiva) apresentavam maior nível de atividade física, sugerindo que durante a infância existe uma associação positiva entre interocepção e atividade física (20). Por outro lado, estudos apontam que adultos com alta acurária interoceptiva possuem menor tolerância ao esforço físico, e, portanto, pior desempenho pelo fato de sentirem maior magnitude das sensações fisiológicas geradas pela atividade física (6,21). Nessa perspectiva, a relação entre acurácia interoceptiva e atividade física parecem ser controvérsias quando estudadas em populações de adultos e crianças, precisando de mais estudos, pois poucos trabalhos são feitos com crianças (22). Além disso, a atividade física realizada na escola por crianças talvez possa contribuir para melhorar a interocepção delas e dessa forma favorecer o desenvolvimento saudável do controle autonômico e bons ajustes corporais, sendo ambos decisivos na saúde das crianças (20).

Outro ponto importante a ser ressaltado é que sujeitos que apresentam maior interocepção possuem menor variabilidade da frequência cardíaca (VFC) (23). A VFC é determinada através de cálculos temporais e de frequência dos intervalos RR (o intervalo RR compreende o tempo entre duas sístoles, medido em ms) (24). A VFC é influenciada pelo sistema nervoso autônomo (SNA), o qual possui nervos que saem do tronco cerebral para o coração e podem alternar rapidamente entre os sistemas simpático e parassimpático (25). O aumento da atividade simpática faz com que os intervalos RR se tornem mais curtos, enquanto o aumento da atividade parassimpática faz com que os intervalos RR fiquem mais longos, e possam variar mais (26,27). Assim, uma alta VFC traduz um organismo saudável e uma boa adaptação à estímulos externos e internos, menor interocepção (28) e menor risco de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares (29). Por outro lado, uma VFC baixa é um marcador de um sistema desequilibrado, maior interocepção e maiores riscos de mortalidade (30,31). Dessa forma, a interocepção e a VFC estão interligadas e demonstram que a alta VFC está associada a baixa interocepção, bem como uma menor percepção das alterações corporais (28).

Numa perspectiva integrativa, faz sentido observar a VFC como um possível mediador da relação entre atividade física e acurácia interoceptiva.

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Sabe-se que a prática de atividade física pode levar à uma maior VFC cronicamente (32). Conforme mencionado anteriormente, o aumento da VFC é associado à uma interocepção, pois com a diminuição da carga adrenérgica a percepção das sensações corporais ficam menores . Assim, uma maior aptidão física pode provocar influências favoráveis sobre a VFC, modulando de maneira flexível às respostas por mudanças provocadas através do exercício, levando à uma menor interocepção (33,34).

Portanto, o objetivo deste trabalho é comparar a VFC de crianças com diferentes níveis de acurácia interoceptiva, bem como verificar se a VFC exerce uma função mediadora na relação entre aptidão cardiorrespiratória e acurácia interoceptiva. E, por fim, testar correlações entre VFC e interocepção.

MÉTODOS Amostra

A amostra compreendeu 32 crianças com idade média de 10,60 ± 1,09 anos. Quanto ao estágio maturacional somático, todas as crianças apresentavam-se antes do pico de velocidade de crescimento (-2,74 DP = 1,96). Foram selecionadas crianças de uma escola estadual da periferia do município de Parnamirim-RN. As crianças não possuíam qualquer contraindicação à prática de exercício físico e possuíam a devida autorização dos pais/responsáveis e da escola para participação no estudo. O termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e o termo de assentimento livre e esclarecido (TALE) foram assinados pelos pais/responsáveis e pelas crianças participantes, respectivamente. O presente trabalho foi devidamente aceito pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Desenho Experimental

O presente estudo foi realizado em duas sessões experimentais, sendo a primeira, com duração de aproximadamente 4 horas, realizada na escola das crianças. Nessa primeira visita, foi realizada uma palestra sobre comportamento saudável e os benefícios da atividade física e boa alimentação. Logo após, o projeto foi apresentado e aqueles que tiveram interesse em

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participar foram chamados para uma anamnese, aferição da pressão arterial, preenchimento e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) e PAR-Q. Posteriormente, ainda na escola, foi aferida a pressão arterial das crianças e depois o teste de aptidão física. Por fim, foi ofertado um buffet com diferentes alimentos, os quais geraram discussões sobre os benefícios e malefícios de cada um.

Na segunda sessão, as crianças visitaram nosso laboratório na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), dando continuidade as avaliações. Primeiramente, os voluntários passaram pela Densitometria Óssea de Dupla Emissão de Raios-X (DXA) para avaliação da composição corporal. Em seguida, foi mensurada a variabilidade da frequência cardíaca (VFC), seguida do teste de acurácia interoceptiva de cada criança.

Aptidão Física

As crianças realizaram o teste de esforço progressivo proposto por Leger (1984) chamado multistage20-mshuttle-run. O teste vem sendo utilizado na literatura científica para mensurar o nível de aptidão física em crianças (35,36). Nesse teste, os avaliados deveriam deslocar-se de um cone a outro compreendendo uma distância de 20m e retornar ao primeiro cone. O ritmo de deslocamento deveria ocorrer em concordância com sinais sonoros emitidos por um áudio gravado especificamente para a execução do teste. A velocidade inicial do teste foi de 8,0 km/h, com um aumento progressivo de 0,5 km/h por minuto. A medida que a velocidade do teste aumentou, o intervalo entre os sinais sonoros diminuiu. O teste foi encerrado quando o avaliado interrompeu seu deslocamento por exaustão voluntária ou quando não estava a pelo menos 2 m do cone por duas vezes, não necessariamente consecutivas, no momento do sinal sonoro. As estimativas do VO2max foram realizadas a

partir da seguinte equação:(37): VO2max = 31,035 + (velocidade * 3,238) - idade * 3,248) + velocidade * idade * 0,1536).

O VO2max é predito em ml/kg/min, velocidade refere-se à máxima

velocidade obtida pelo sujeito no teste, que é equivalente à velocidade alcançada no último estágio completo realizado e é expressa em km/h, e a idade deverá ser expressa em anos completos.

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Variabilidade da Frequência Cardíaca

Para as mensurações da VFC, o voluntário foi instruído permanecer na posição de decúbito dorsal sem ficar sonolento. A gravação dos intervalos R-R foi feita durante cinco minutos através de um cardiofrequencímetro (RS800CX training computer, Polar®, Finland) e foi apenas iniciada quando a frequência respiratória estabilizasse a 20 respirações por minuto. O software Kubius HRV (University of Eastern Finland) foi usado em uma plataforma Matlab para calcular os índices no domínio do tempo (RR, SDNN, RMSSD, NN50 e PNN50) e da frequência (HF, LF e LF/HF).

Acurácia interoceptiva

Para determinar a acurácia interoceptiva foi realizado o teste de contagem dos batimentos cardíacos (38). No primeiro momento, foi explicado as crianças sobre os procedimentos do teste e realizado um teste de familiarização. O teste consistiu da contagem silenciosa sem manuseio tátil dos próprios batimentos cardíacos percebido durante três períodos de tempo 25s, 35s e 45s (39–41) que são combinados de forma aleatória, intercalados por um período 30s. Posteriormente, o número de batimentos estimado pela criança foi comparado com o número de batimentos real registrado no cardiofrequencímetro (RS800CX training computer, Polar®). Os valores foram inseridos na fórmula

, para obtenção do nível de acurácia interoceptiva cardíaca. Foram realizados dois protocolos de contagem e considerado a média dos dois valores de acurácia cardíaca.

Densitometria Óssea por Dupla Emissão de Raios-X (DXA)

Para a avaliação da composição corporal, foi utilizado um equipamento modelo iDXA (GE Healthcare Lunar, Madison, WI, EUA) com detectores do tipo fanbeam (feixe em leque). Foram realizadas medidas do corpo total com as crianças posicionadas em decúbito dorsal e um tempo de escaneamento de aproximadamente de sete minutos.

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O equipamento faz a avaliação da composição corporal de forma total e segmentada por membros (cabeça, tronco, braços e pernas) e dividida pelos lados do corpo (direito e esquerdo), no qual serão determinados a massa gorda (MG), o conteúdo mineral ósseo (CMO) e o tecido mole magro (TMM). Os dados foram analisados utilizando o software enCoretm2011, versão 13.60 (GE Healthcare Lunar, Madison, WI, EUA). Todas as medidas e a calibração do aparelho foram realizadas de acordo com os procedimentos recomendados pelo fabricante.

Análise Estatística

Inicialmente, o teste de Shapiro-Wilk foi conduzido para verificar a normalidade dos dados. Foram criados dois grupos baseados na mediana da acurácia interoceptiva (38.67%): Alta acurácia (>38.67%) e o Baixa acurácia (≤38.675). Foi realizada uma análise de mediação através do plugin PROCESS 3.0 (Modelo 4), usando os valores estimados de VO2max como mediador (M)

da relação entre acurácia interoceptiva (X) e VFC (Y), sendo o modelo ajustado pela massa magra. Os índices da VFC testados como possíveis mediadores serão o RMSSD, o SDNN, o NN50 e a média de 5min dos Intervalos RR. O efeito indireto foi testado usando a estimação bootstrap de 1000 amostras (42). O efeito mediador ocorre quando a relação entre X e Y deixa de ser significativa (mediação total) ou fica menos significativa (mediação parcial) quando M é considerado no modelo. Por fim, foram realizadas correlações parciais corrigidas por massa magra entre acurácia interoceptiva e os índices da VFC. Além disso, foram feitos Testes-T Independentes para verificar possíveis diferenças entre as variáveis SBP, DBP, VO2max e IMC. Além disso,

testes de U de Mann Whitney foram conduzidos para verificar diferenças entre acurácia interoceptiva, idade, massa gorda e massa magra. Após isso, uma análise de covariância (ANCOVA) univariada foi aplicada, usando a massa magra como covariável, para comparar os índices da VFC entre os grupos alta e baixa acurácia. A significância estatística foi considerada quando p<0.05. Todas as análises estatísticas foram conduzidas utilizando o software SPSS v.23.0 (Inc., Chicago, USA).

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A tabela 1 apresenta os dados de caracterização da amostra de ambos os grupos. Houve diferença na acurácia interoceptiva (Alta acurácia: 75.20 (55.10 – 82.09)% vs baixa acurácia: 20.15 (14.84 – 33.01)%; U=25; p<0.01) e na massa magra, onde o grupo alta acurácia teve maiores valores que o grupo baixa acurácia (22.98 (20.64 – 24.44) vs 26.53 (24.58 – 31.92); U=57; p=0.007).

Tabela 1. Caracterização da amostra dividida por grupos.

Variáveis Alta acurácia (n=15) Baixa acurácia (n=17) p

Meninos (%) 53.33 35.29 - Idade (anos) 10 (9.50 – 10.83) 11.30 (10.54 – 11.42) 0.09 IMC (kg/m²) 17.97±2.41 18.01±3.10 0.96 VO2 max (ml/kg/min) 43.28±3.09 44.38±3.61 0.36 PAS (mm Hg) 106.02±8.24 107.79±11.76 0.64 PAD (mmHg) 66.42±7.77 64.43±6.29 0.44 Massa gorda (%) 29.48 (26.22 – 34.14) 24.94 (24.67 – 30.98) 0.35 Massa magra (%) 22.98 (20.64 – 24.44) 26.53 (24.58 – 31.92) 0.007* Legenda: IMC = índice de massa corporal; VO2 max = consumo máximo de oxigênio;

PAS = Pressão arterial sistólica; PAD = Pressão arterial diastólica.*Diferença entre grupos

Variabilidade da frequência cardíaca (VFC)

A análise de covariância univariada revelou que não houveram diferenças significativas entre os grupos para os índices RMSSD (F(1,29)=1.23, p=0.27, ηp²=0.041), média dos intervalos RR (F(1,29)=0.84, p=0.36, ηp²=0.028), SDNN (F(1,29)=0.96, p=0.33, ηp²=0.032) e NN50 (F(1,29)=0.71, p=0.40, ηp²=0.024).

Análise de mediação

A análise de mediação, usando a massa magra como covariável, mostrou que os índices da VFC não são mediadores da relação entre VO2max

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e acurácia interoceptiva. No modelo usando, o RMSSD como mediador, foi visto que não h relação entre VO2max e o RMSSD (β=-0.92, SE=0.97, p=0.35), bem como não foi encontrada relação entre VO2max e acurácia interoceptiva (β=-0.99, SE=1.34, p=0.46), portanto, contrariando os dois dos pré-requisitos da mediação. Usando o NN50 como mediador, não foi encontrada associação entre VO2max e NN50 (β=-0.93, SE=2.70, p=0.73) e nem entre VO2max e interocepção (β=-0.99, SE=-1.34, p=0.46). Em relação ao SDNN como mediador, também não foi encontrada relação entre VO2max e o ndice (β=-0.71, SE=1.41, p=0.62) e nem entre VO2max e acurácia interoceptiva (β=-0.99, SE=-1.34, p=0.46). Por fim, usando a média dos intervalos RR, a análise mostrou que não houve relação entre o VO2max e os intervalos RR (β=-6.08, SE= 4.95, p=0.22) e nem entre VO2max e interocepção (β=-0.99, SE=-1.34, p=0.46).

Correlações

Conforme ilustrado na figura 1, foram achadas correlações, controladas por massa magra, entre acurácia interoceptiva e o índice da VFC, RMSSD (r = -0.37, p=0.049) e entre acurácia interoceptiva e NN50 (r = -0.37, p=0.036).

DISCUSSÃO

Figura 1 Correlações entre os índices da VFC e acurácia interoceptiva. A: correlação entre RMSSD e acurácia interoceptiva; B: correlação entre NN50 e acurácia interoceptiva.

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Os principais achados foram que a VFC não apresentou diferenças significativas entre os grupos de alta e baixa acurácia. Os índices da VFC não apresentaram ação mediadora entre a aptidão física e acurácia interoceptiva. Por outro lado, ocorreu correlação significativa entre os índices de controle autonômico oriundos da VFC com a interocepção.

A interocepção é a capacidade perceptiva das informações corporais e vicerais (4) que podem ser quantificadas pela atividade cardíaca, uma vez que, utiliza-se índices da VFC como excitação do SNA, possibilitando obter uma avaliação quantificada da autopercepção da atividade cardíaca e interocepção dos indivíduos (43,44). Assim, a percepção dos batimentos é um bom índice da interocepção (45). Indivíduos com maior percepção corporal possuem maior reatividade autonômica e menor VFC quando comparados aos de menor percepção corporal (46).

Apesar dessa associação entre interocepção e VFC, no nosso estudo não encontramos diferenças significativas da VFC entre os grupos de crianças com alta e baixa acurácia interoceptiva. Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Pollatos & Kocha (2014) analisando 1350 crianças de 6 à 11 anos de idade demonstrou não haver associação entre interocepção e VFC, como também em estudos com adolescentes e universitários que não encontraram associação da VFC com alta e baixa acurácia interoceptiva (47– 49). Corroborando com nossos resultados para uma população de crianças e adolescentes. Dessa forma, parece que a VFC e acurácia interoceptiva das crianças apresentam associações diferentes dos adultos.

Pesquisas mostram uma maturação progressiva do SNA na infância (50). Desde o nascimento até os 15 anos de idade o controle autônomo cardíaco normalmente está em desenvolvimento, levando à alterações na VFC com um aumento significativo e progressivo da atividade parassimpática em relação a atividade simpática, que é mais reduzida, (51,52). Assim, é preciso considerar a influência da idade sobre a VFC e acurária interoceptiva no desenvolvimento infantil (22). Além disso, evidências sugerem maiores chances nas diferenças da VFC em determinados períodos de desenvolvimento críticos da infância para um aumento do SNA e nas habilitades de autorregulação (53). Portanto, fatores como a interocepção

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relacionada a responsividade do SNA das crianças , as características inerentes da idade (maturação do controle autonômico), e a homogeneidade da nossa amostra, podem ter influenciado para resultados não significativos da VFC entre os grupos de alta e baixa acurácia interoceptiva.

A atividade física favorece alta VFC mediada pelo aumento da atividade vagal, enquanto que a redução da atividade vagal está associada aos indivíduos que praticam menos atividade física (54–56). Associações também são encontradas entre VFC e interocepção, pois as respostas do organismo sobre suas percepções corporais podem acontecer através da regulação do SNA sobre o coração, que tem como medida dessa regulação a VFC, como exemplo, as respostas da tolerância no esforço físico durante o exercício. Assim, podem ocorrer associações da VFC entre a aptidão física e a interocepção (21,57). Diante disto, em nosso trabalho testamos a VFC como mediadora entre aptidão física e acurácia interoceptiva das crianças, não encontrando resultados significativos. Resultados contrários do nosso, mostraram associação entre VFC e aptidão física em crianças. No estudo de Michels et al.,(2013) com 460 crianças de 5 à 10 anos demonstrou que a atividade física e aptidão física possui uma associação positiva da VFC pelo aumento da atividade parassimpática e Winsley et al., (2000) mostrou correlação positiva da predominância da atividade parassimpática e aptidão física em crianças mediada pelo aumento da VFC, em virtude do exercício. Outro estudo com 305 crianças de 6 à 11 anos mostrou os efeitos positivos do treinamento aeróbico no sistema cardíaco autonômico em crianças com baixa VFC (59). Assim, a incompatibilidade desses resultados com os do presente estudo podem ser explicados pela divergência dos procedimentos de aquisição da interocepção. Futuros estudos devem ser desenvolvidos para entender melhor essas relações ou as limitações das técnicas de medição.

Na literatura tem sugerido impactos da respiração sobre a VFC no estado de repouso devido aos efeitos no controle cardíaco vagal e por isso alguns índices da VFC podem ser estimados com menos vieses e variabilidade (60,61). Os índices RMDSS e pNN50 são considerados reflexo da atividade parassimpática, e, principalmente dos componentes respiratórios da VFC (62– 64). Assim, mudanças na frequência respiratória influência a frequência cardíaca e a VFC que podem surtir efeitos sobre a ativação ou bloqueio da via

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parassimpática (60). Dessa forma, no nosso estudo podem ter ocorrido efeitos do padrão da respiração em repouso sobre o tônus vagal das crianças, resultando inconsistências no efeito da mediação da VFC entre a aptidão física e acurácia interoceptiva.

Outro fator a ser considerado é a influência da idade na VFC (65). O controle cardíaco autonômico de adultos e crianças funcionam de forma diferente, pois existe a predominância do tônus parassimpático do SNA das crianças (50,51). Elas ainda apresentam percepções corporais mais fortes aos diferentes estímulos estressores (66). Por outro lado, depois do período da infância e adolescência, com o avanço da idade ocorre um declínio na VFC e na acurácia interoceptiva devido aos efeitos do envelhecimento, pois reduz a sensibilidade do sistema nervoso central devido as modificações de algumas estruturas cerebrais que são responsáveis pela diminuição da consciência interoceptiva (67,68). Esses achados corroboram com os resultados encontrados por Georgiou et al., 2005 que crianças com maior nível de acurácia apresentavam maior VFC. Já com adultos a alta acurácia interoceptiva está associada a menor VFC (21). Portanto, poderíamos sugerir que crianças pré-púberes possuem alta VFC independente da aptidão física, e isso acontece devido a maturação do controle autonômico. Com isso, a VFC parece não ser uma variável que funciona tão fortemente como mediadora entre a aptidão física e acurácia interoceptiva na população das crianças. Porém, existem muitos estudos sobre o controle autonômico do coração em adultos, mas poucos trabalhos são realizados em crianças (51). E apesar de existir trabalhos sobre atividade física e VFC em crianças e adolescentes, não há fortes evidência sobre o assunto (69). Uma meta-analise mostrou limitações dentro de muitos estudos sobre a VFC e treinamento de pré-púberes saudáveis, como também a falta de conhecimento dos mecanismos exatos das alterações da VFC após o treinamento físico em crianças, sugerindo ainda que a ausência do efeito do treinamento sobre a VFC em crianças saudáveis pode ser devido às características fisiológicas inerentes nessa população, mostrando portando que a associação entre a atividade autonômica através da VFC com a aptidão física permanece desconhecida (70). Precisando, portanto de mais estudos sobre a influência da VFC entre aptidão e interocepção em crianças saudáveis.

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Medidas do domínio do tempo da VFC, o RMSSD e pNN50, são ambos associados a atividade parassimpática do SNA (57), mostrando haver correlações desses índices com o tônus vagal. Em nosso estudo, encontramos correlações negativas significativas entre os índices RMSSD e pNN50 da VFC com a interocepção das crianças, mostrando que crianças menos interoceptiva possuem maior atividade parassimpática. Corroborando com outros autores que associaram a interocepção com a VFC. Herberte et al. (2007) analisando 34 jovens demonstrou que aqueles que tinham maior interocepção e apresentavam menor VFC selecionando menos esforço físico por sentirem mais a carga física. Em outro estudo com 60 jovens universitário mostrou evidência na relação entre maior interocepção a estímulos dolorosos que estavam relacionados a diminuição da atividade parassimpática e aumento mais pronunciado da mudança equilíbrio simpático-vagal quando comparado ao grupo de menor interocepção (23). Estudos com adultos demonstram que maior interocepção está associado a maior responsividade do sistema autônomo em situações que exigiam maior reatividade autonômica. Em outro trabalho com 46 jovens saudáveis de 9 a 16 anos mostrou um aumento da VFC e diminuição da interocepção relacionadas a regulação emocional (71). Dessa forma, existe uma relação inversa entre a regulação da VFC e interocepção de acordo com a reatividade do sistema autônomo das crianças.

LIMITAÇÕES

Nossa amostra é pequena em relação a outros estudos que obtiveram resultados significativos. Sendo interessante uma amostra maior para esclarecer sobre a relação da VFC entre acurária interoceptiva e aptidão física em crianças saudáveis.

CONCLUSÕES

Os resultados apontam existir relação entre o controle autonômico parassimpático e interocepção em crianças. No entanto, parece que a aptidão física não apresenta influência nessa relação. Futuros estudos precisam aprofundar essa discussão de forma a entender se de fato a atividade física intimamente realizada na escola pode contribuir para o desenvolvimento saudável do controle autonômico e perceptual dos sinais corporais.

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REFERÊNCIAS

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