PACKAGE DE FORMAÇÃO BRENDAIT 2016
Módulo 9
Cidadania Inclusiva
RELACIONAMENTO INTERPESSOAL 25 horas
FICHA TÉCNICA
TÍTULOMódulo 9: Cidadania Inclusiva – RELACIONAMENTO INTERPESSOAL PROJETO
BRENDAIT – “Building a Regional Network for the Development of Accessible and Inclusive Tourism” (2015-2017)
CONSÓRCIO CONSTITUÍDO POR: AHP – Associação da Hotelaria de Portugal ENAT – European Network for Accessible Tourism
ESHTE – Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril PERFIL – Psicologia e Trabalho, Lda.
TCP – Turismo do Centro de Portugal COM O APOIO FINANCEIRO:
do Programa COSME da União Europeia, do Turismo de Portugal IP, do Turismo do Centro de Portugal e da Associação da Hotelaria de Portugal.
MISSÃO
Conceber e aplicar uma metodologia de desenvolvimento de uma Rede de Turismo Acessível e Inclusivo numa região, que pudesse ficar disponível para poder ser replicada noutras regiões. TERRITÓRIO-TESTE
Portugal, Litoral Oeste; território constituído por 8 municípios: Alcobaça, Batalha, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche e Torres Vedras.
EQUIPA TÉCNICA
Coordenação: Acácio Duarte (PERFIL) Ana Garcia (PERFIL)
Dinis Duarte (PERFIL) Sara Duarte (PERFIL) Cláudia Nunes (TCP) Viriato Dias (TCP) Jorge Umbelino (ESHTE) Maria João Martins (AHP) DATA
ÍNDICE
1. INTRODUÇÃO/APRESENTAÇÃO ... 4 2. DESTINATÁRIOS ... 6 3. PRÉ-REQUISITOS ... 6 4. OBJETIVO ... 6 5. COMPOSIÇÃODOMÓDULO ... 7 6. DURAÇÃOESTIMADA ... 77. METODOLOGIAEESTRATÉGIASDEFORMAÇÃO ... 7
8. AVALIAÇÃO ... 8
9. CONTEÚDOS ... 8
9.1. UNIDADE TEMÁTICA:DIVERSIDADE HUMANA E PESSOAS COM “NECESSIDADES ESPECIAIS” ... 8
9.1.1. DIVERSIDADE HUMANA ... 8
9.1.2. PESSOAS COM “NECESSIDADES ESPECIAIS” ... 9
9.2. UNIDADE TEMÁTICA:TIPOLOGIA DE LIMITAÇÕES, NECESSIDADES ESPECIAIS, REQUISITOS DE ACESSIBILIDADE E COMPETÊNCIAS DE CIDADANIA INCLUSIVA ... 13
9.2.1. AS PESSOAS COM LIMITAÇÕES MOTORAS ... 13
9.2.2. AS PESSOAS COM LIMITAÇÕES VISUAIS ... 18
9.2.3. AS PESSOAS COM LIMITAÇÕES AUDITIVAS ... 24
9.2.4. AS PESSOAS COM LIMITAÇÕES INTELECTUAIS ... 28
9.2.5. AS PESSOAS SENIORES COM LIMITAÇÕES DECORRENTES DO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO ... 33
1.
INTRODUÇÃO / APRESENTAÇÃO
O presente módulo integra o PACKAGE DE FORMAÇÃO BRENDAIT 2016 concebido para desenvolver as competências pessoais e profissionais necessárias para o processo de transformação de um determinado território num destino turístico acessível e inclusivo.
A preparação de um território / região para acolher com qualidade as pessoas com necessidades especiais que o visitam, implica duas grandes frentes de trabalho complementares:
A frente de trabalho que visa capacitar as entidades prestadores de serviços turísticos (hotelaria, restauração, património natural e cultural, informação turística, animação turística, etc.) para atenderemadequadamente este tipo de visitantes e conquistarem clientes no mercado do turismo acessível e inclusivo;
A frente de trabalho que visa melhorar a qualidade inclusiva doscontextos em que decorrem as estadias de quem visita o território e que contribuem decisivamente para a sua maior ou menor satisfação e vontade de voltar:
○ Acessibilidade do espaço público e da rede de transportes; ○ Atendimento nos serviços comuns abertos ao público (comércio,
farmácias, correios, bancos, serviços de saúde, serviços de segurança, etc.);
○ Interação social com o cidadão comum no espaço público.
Os contextos em que decorrem as estadias de quem visita o território são, em grande medida, os mesmos em que decorre o dia-a-dia dos residentes. Pelo que a melhoria das competências de cidadania inclusiva visadas resulta igualmente em benefício dos próprios residentes com “necessidades especiais”.
De um modo geral, consideram-se “necessidades especiais” aquelas que decorrem de limitações motoras, visuais, auditivas e intelectuais relacionadas com as condições gerais de saúde da pessoa (deficiência, envelhecimento, acidente, doença e outras situações pontuais de diminuição da mobilidade). Consideram-se necessidades “especiais” ou “específicas” por serem
necessidades diferentes, necessidades que o cidadão comum normalmente não apresenta.
O Package de Formação “BRENDAIT” integra um conjunto de módulos concebidos como instrumentos de apoio ao desenvolvimento das diversas
vertentes / etapas do processo de transformação do território, visando os correspondentes estratos profissionais e sociais intervenientes.
COMPOSIÇÃO DO PACKAGE DE FORMAÇÃO BRENDAIT2016
VERTENTE DESCRIÇÃO MÓDULO PÚBLICO-ALVO
A
Constituição de uma Parceria Regional para desenvolvimento do projeto de
transformação de um território num destino turístico acessível e inclusivo. 1. Turismo Acessível e Inclusivo – OPORTUNIDADES E DESAFIOS (6 h)
Dirigentes de entidades que possam vir a estar interessadas em participar no projeto de
transformação do território num destino turístico acessível e inclusivo e integrar a Parceria Regional a criar para esse efeito.
B Capacitação das entidades prestadoras de serviços turísticos para atenderem “clientes com necessidades
especiais” e para virem a integrar a rede regional de turismo acessível e inclusivo. 2. Turismo Acessível e Inclusivo – CONCEITO. COMPETÊNCIAS TRANSVERSAIS (25 h) Multiprofissional (dirigentes, quadros, técnicos) e multissetorial (hotelaria, restauração,
transportes, turismo cultural, turismo ativo, informação turística, promoção, etc.). 3. Empresa turística acessível e inclusiva - AUTODIAGNÓSTICO E PLANO DE AJUSTAMENTOS (25 h) “Task-force”/ 2 ou 3 profissionais de cada empresa/ entidade que possam constituir uma referência interna para os assuntos da acessibilidade e de serviço inclusivo. 4. Empresa turística acessível e inclusiva – COMPETÊNCIAS DE SERVIÇO – ALOJAMENTO E RESTAURAÇÃO (25 h) Profissionais de cada empresa/entidade de Hotelaria e Restauração que intervêm na prestação dos serviços em contacto direto com os clientes. 5. Empresa turística acessível e inclusiva – COMPETÊNCIAS DE SERVIÇO – ANIMAÇÃO TURÍSTICA (25 h) Profissionais de cada empresa/entidade de Animação Turística que intervêm na prestação dos serviços em contacto direto com os clientes.
6. Empresa turística acessível e inclusiva – ORGANIZAÇÃO,
QUALIDADE E CERTIFICAÇÃO (25 h)
Profissionais de cada empresa / entidade com funções
relacionadas com a conceção e organização dos serviços, com a gestão de recursos humanos e com a gestão da qualidade.
7. Empresa turística acessível e inclusiva – GESTÃO, MARKETING E COMERCIALIZAÇÃO (25 h)
Dirigentes e profissionais da área comercial.
VERTENTE DESCRIÇÃO MÓDULO PÚBLICO-ALVO C Desenvolvimento de contextos locais acessíveis e inclusivos, em termos de serviços de utilização comum, e de cidadania inclusiva. 8. ATENDIMENTO INCLUSIVO EM SERVIÇOS LOCAIS (comuns a residentes, visitantes e turistas) (25 h)
Profissionais dos serviços abertos ao público, comuns a residentes, visitantes e turistas, com funções de acolhimento/atendimento dos clientes ou utentes.
9. Cidadania inclusiva – RELACIONAMENTO INTERPESSOAL (25 h)
Cidadãos interessados em adquirir as competências pertinentes para se relacionarem adequadamente com pessoas com” necessidades especiais”. D Formação de formadores em turismo acessível e inclusivo. 10. Turismo Acessível e Inclusivo - FORMAÇÃO DE FORMADORES (25 h) Professores e Formadores do sistema de qualificação
profissional existente na região, com oferta de qualificação dirigida ao setor do turismo.
Neste contexto, a finalidade do Módulo 9: Cidadania inclusiva –
RELACIONAMENTO INTERPESSOAL é o desenvolvimento de competências pessoais adequadas à interação social no espaço público entre os cidadãos comuns e os cidadãos / turistas com “necessidades especiais”.
Da melhoria deste tipo de competências no cidadão comum resultam beneficiadas também as interações sociais e relações interpessoais com pessoas com “necessidades especiais” nos contextos de vida profissional, social e familiar do cidadão.
2.
DESTINATÁRIOS
O presente Módulo destina-se, portanto, a qualquer cidadão que esteja interessado em adquirir as competências pertinentes para interagir de forma adequada, não apenas com os turistas com quem se cruze no território, mas também com as outras pessoas com ”necessidades especiais” com quem se relacione nos contextos da sua vida profissional, social e familiar.
3.
PRÉ-REQUISITOS
Não existem pré-requisitos.
4.
OBJETIVO
No final da formação, os participantes deverão estar em condições de demonstrar que são capazes de interagir de forma adequada com pessoas
com “necessidades especiais”, seja nos espaços públicos em que se cruze com turistas em visita ao território, seja nos contextos da sua vida profissional, social e familiar, compreendendo a sua situação, tomando atitudes adequadas e ajudando-as nas suas dificuldades de mobilidade, orientação e comunicação.
5.
COMPOSIÇÃO DO MÓDULO
O módulo é composto por duas unidades temáticas:
Uma 1ª unidade, de enquadramento geral, sobre a diversidade humana, a evolução da sociedade e a emergência de grupos de pessoas com necessidades especiais, relacionadas com as suas condições gerais de saúde;
Uma 2ª unidade, focada na compreensão das diversas situações das pessoas com limitações (motoras, visuais, auditivas e intelectuais), das “necessidades especiais” que delas decorrem e dos requisitos de acessibilidade dos espaços físicos, assim como nas competências pessoais necessárias para interagir com elas de forma adequada.6.
DURAÇÃO ESTIMADA
Estima-se uma duração de referência de 25 horas, eventualmente estruturada em 6 sessões, uma destinada ao enquadramento geral da temática em causa e 5 outras com foco nas diferentes categorias de limitações / necessidades
especiais (1-motoras, 2-visuais, 3-auditivas, 4-intelectuais, 5-diversas/processo de envelhecimento-sequelas de patologias e outras situações pontuais).
As circunstâncias concretas de organização de cada ação de formação, em razão nomeadamente das disponibilidades de tempo dos participantes, poderão levar a opções diversas em termos de duração e consequente extensão e profundidade de tratamento dos conteúdos.
7.
METODOLOGIA E ESTRATÉGIAS DE FORMAÇÃO
O processo de facilitação da aquisição de conhecimentos, de ajustamento de atitudes e de aprendizagem de procedimentos de ajuda pessoal (mobilidade, orientação e comunicação), visados pelo módulo, organiza-se em torno de testemunhos presenciais de pessoas com necessidades especiais / limitações motoras, visuais, auditivas e intelectuais, relativamente às suas experiências de vida (em situação de viagem, turismo e utilização dos serviços locais) e da sua interação com os participantes.
O contributo do Formador poderá concretizar-se em diversas atividades, tais como:
Exposições introdutórias (estruturantes anteriores);
Intervenções de síntese e orientação;
Trabalhos de grupo;
Exercícios práticos de procedimentos de ajuda pessoal;
Exposições de síntese / conclusão.O Formador poderá preparar diversos meios (ppt, vídeos, produtos de apoio / ajudas técnicas, nomeadamente), construídos por referência aos principais temas indicados no ponto 9 – CONTEÚDOS.
8.
AVALIAÇÃO
A avaliação, a ajustar de acordo com o contexto em que a ação de formação seja realizada, poderá ser efetuada mediante questionários e/ou exercícios práticos de aplicação.
9.
CONTEÚDOS
9.1. UNIDADE TEMÁTICA: DIVERSIDADE HUMANA E PESSOAS COM “NECESSIDADES ESPECIAIS”
9.1.1. DIVERSIDADE HUMANA
A diversidade humana, sendo um dado óbvio da realidade, não deixa de ser também um assunto bastante complexo.
É verdade que, por um lado, nós, seres humanos, somos todos iguais: iguais em dignidade e em valor, como pessoas; iguais em direitos, como cidadãos, por exemplo.
Mas também é verdade que somos todos diferentes: características físicas, histórias de vida, interesses, necessidades, etc.
Os mercados da “oferta” de bens e de serviços tem de lidar com essa dupla complexidade: conceber e disponibilizar produtos, o mais possível “à medida” das características, condições, interesses e necessidades de cada um e o mais possível “standards”, comuns ao maior número possível de consumidores.
A diversidade humana é um enorme desafio para o “design universal” de edifícios, espaços, equipamentos, mobiliário, produtos, serviços, etc., sendo também um grande desafio para as nossas atitudes, os nossos
comportamentos do dia-a-dia.
Na verdade, o modo como lidamos com as nossas próprias “diferenças” e com as “diferenças” das outras pessoas também não é linear. Frequentemente, temos dificuldades em aceitar e conviver de forma positiva com essas “diferenças”.
Quando, em comparação com o que somos e o que temos, as “diferenças” dos outros nos parecem ser “para mais”, surgem, por vezes, sentimentos e atitudes relacionadas com inveja, tristeza, rivalidade, agressividade, por exemplo. Quando, em comparação com o que somos e o que temos, as “diferenças” dos outros nos parecem ser “para menos”, surgem, por vezes, sentimentos de pena, desvalorização, indiferença, rejeição, exclusão …
Até mesmo, no interior de cada um de nós, muitas vezes temos dificuldades para lidar de forma adequada, quer com os nossas “qualidades” (vaidade, autoelogio, presunção …), quer com os nossos “defeitos” (ansiedade, medo, rejeição, negação …).
9.1.2. PESSOAS COM “NECESSIDADES ESPECIAIS”
As “necessidades especiais” visadas neste módulo são as que se referem a condições de acessibilidade, de atendimento e de relacionamento social nos espaços públicos.
Necessidades especiais que algumas pessoas apresentam decorrentes de limitações motoras, visuais, auditivas e intelectuais, relacionadas com as suas condições gerais de saúde.
As necessidades relacionadas com a acessibilidade e o atendimento inclusivo, no contexto do turismo como nos diversos contextos sociais, têm sido
abordadas, de um modo geral, em relação muito estreita com a problemática das “pessoas com deficiência”.
Contudo, nos últimos anos têm vindo a ganhar visibilidade outros grupos de pessoas que, não se sentindo nem sendo consideradas “pessoas com
deficiência”, apresentam necessidades semelhantes, decorrentes de perdas de capacidades físicas-motoras, sensoriais, intelectuais-psicológicas. É o caso, nomeadamente, de pessoas seniores em processo de envelhecimento e de pessoas com sequelas de diversas patologias (cardíacas, respiratórias, neurológicas, oncológicas, etc.).
Consideram-se necessidades “especiais”, por serem necessidades que o cidadão comum normalmente não apresenta.
Na verdade, são “necessidades especiais” porque requerem do meio
envolvente “cuidados especiais” que frequentemente os diversos contextos de vida não estão ainda em condições de assegurar cabalmente. Cuidados especiais, nomeadamente em termos de requisitos físicos de acessibilidade e de condições de atendimento, de interação social e de relacionamento
interpessoal, no âmbito dos serviços turísticos, certamente, mas também no âmbito dos serviços locais (transportes, comércio, farmácias, bancos, serviços de segurança, atividades de lazer, etc.) e também nos âmbitos do convívio social e da vida familiar.
“Cuidados especiais” que exigem das pessoas (profissionais, cidadãos, familiares) competências específicas: conhecimentos sobre as situações de deficiência, sobre o processo de envelhecimento, sobre as sequelas de diversas patologias; atitudes de compreensão, respeito e apoio; capacidades, procedimentos técnicos de ajuda à mobilidade, à orientação, à comunicação. Acresce que, de um modo geral, a grande maioria das pessoas nunca teve oportunidade de adquirir estas competências, de aprender a assegurar esses “cuidados especiais”.
Para além dos três grupos de pessoas acima referidos, têm vindo a ser associados às questões do turismo acessível e inclusivo ainda outros grupos de pessoas com necessidades especiais relacionadas com as suas condições gerais de saúde, nomeadamente:
O grupo das pessoas com redução pontual na sua mobilidade devida a acidentes (de viação, de trabalho, de desporto, domésticos, etc.), a circunstâncias de gravidez ou de deslocação com crianças de colo ou com carrinhos de bebé, na medida em que podem beneficiar muito com os cuidados estabelecidos para as pessoas com deficiência motora;
O grupo das pessoas com características físicas excecionais, nomeadamente em termos de baixa estatura (nanismo), em termos de altura (gigantismo) ou em termos de obesidade (grandes obesos), na medida em que podem beneficiar também com uma cultura deajustamento dos diversos contextos de vida às necessidades das pessoas com limitações físicas;
O grupo das pessoas com alergias e intolerâncias alimentares e respiratórias, em razão dos cuidados especiais que requerem,Nota relativa ao grupo das “pessoas com deficiência”
Pessoas com deficiência sempre existiram nas comunidades humanas.
Contudo, a forma como foram aceites e tratadas, sofreu uma enorme evolução ao longo dos tempos:
Evolução que vem desde uma antiga imagem social da deficiência, muito negativa, para se abrir, progressivamente, nos dias de hoje, a uma cultura de inclusão.
Uma imagem social da deficiência que no passado, começou por ser tida como uma situação de desgraça, de castigo divino, de exclusão.
Nos séculos XVII, XVIII e XIX passou a ser considerada como situação clínica em que as condições individuais podem ser melhoradas com ajuda (modelo médico).
Desde meados do século XX, começou a ser compreendida, já não apenas em termos individuais, em busca do maior acesso possível a “padrões de
normalidade”, mas também em termos de interação entre as características e as capacidades individuais e as exigências que o meio ambiente lhes coloca (modelo biopsicossocial). Passa a haver lugar também à preocupação com o ajustamento das próprias condições e requisitos do meio envolvente.
Hoje em dia, no quadro de uma cultura emergente de maior consideração pela diversidade humana e de maior respeito pelos direitos das pessoas com
deficiência, esta vai sendo vista como uma questão de inclusão, ou seja, como uma questão que pode ser resolvida favoravelmente mediante um esforço conjunto e articulado das duas partes. Por um lado, esforço do meio envolvente para ajustar os seus requisitos às condições e necessidades de todos e de cada um (“design” universal); por outro lado, esforço das pessoas em causa para ajustar as suas competências individuais aos requisitos do meio em que se encontram inseridas.
Registou-se uma evolução no reconhecimento de direitos e na prestação de serviços que a sociedade tem vindo a proporcionar a estas pessoas.
Começando pelo direito a cuidados de saúde, depois também à educação, mais tarde à qualificação profissional e ao emprego, à família, à inserção social, à participação cívica, e mais recentemente, ao desporto, ao lazer e também ao turismo.
Registou-se uma evolução na visibilidade social destas pessoas e das suas necessidades específicas. Ainda num passado bastante recente, muitas destas pessoas permaneciam no seio das respetivas famílias, com uma muito escassa rede de contactos sociais, em grande parte ausentes dos contextos escolares, dos contextos de emprego, dos contextos de convívio social, de participação
cívica, de lazer, de turismo. Em grande medida, portanto, praticamente “invisíveis” para a sociedade em geral.
Esta situação, que infelizmente ainda se verifica com bastante frequência nos dias de hoje, tem vindo a evoluir progressivamente em sentido mais favorável, graças ao esforço das próprias pessoas com deficiência, das suas famílias e das suas organizações representativas, mas também pela sua maior
visibilidade na agenda política, nomeadamente na sequência de legislação que proíbe a discriminação (Lei n.º 46/2006), que impõe requisitos de
acessibilidade nos edifícios e no espaço público (Decreto-Lei 163/2006), que promove a escola inclusiva (Decreto-Lei 3/2008) e na implementação da Convenção das Nações Unidas sobre os direitos das pessoas com deficiência (2007).
Nota relativa ao grupo das “pessoas seniores em processo de envelhecimento”
A evolução económica, social, cultural, científica e demográfica que tem vindo a acontecer nas nossas sociedades faz com que tenham aumentado muito e em rápida progressão: a esperança média de vida da população; os estratos da população com idades cada vez mais avançadas; a longevidade do processo de envelhecimento (que há pouco tempo atrás durava uns poucos anos e que, agora, se estende por décadas, correspondendo já para muitos a cerca de um terço da duração global da sua vida).
Ora, o processo de envelhecimento traz consigo, lenta e inevitavelmente, uma diminuição progressiva das capacidades humanas (físicas/motoras, sensoriais/ visuais/auditivas e intelectuais/cognitivas/psicológicas), com que a pessoa ela própria tem de aprender a lidar e que geram “necessidades especiais” com que o meio envolvente tem ele também que aprender a lidar.
Nota relativa ao grupo das “pessoas com sequelas de diversas patologias”
A evolução das condições gerais de saúde da população, a incidência de diversas patologias, nomeadamente do foro respiratório, cardíaco, neurológico, oncológico, etc., que a medicina vai conseguindo controlar, mas que deixam sequelas, em termos de limitação das capacidades físicas/motoras, sensoriais e intelectuais/psicológicas, semelhantes às dos outros dois grandes grupos acima referidos.
Limitações que também elas geram “necessidades especiais” e requerem cuidados específicos no que se refere a requisitos de acessibilidade e a competências de atendimento, de interação social no espaço público e de relacionamento interpessoal no contexto familiar.
Nota relativa a outros grupos de pessoas com necessidades especiais Há certamente outros grupos de pessoas que, quando em contexto de turismo, apresentam necessidades especiais relacionadas com as suas condições gerais de saúde e que requerem cuidados específicos.
Referimos acima aqueles que têm vindo a ganhar maior visibilidade para o turismo acessível e inclusivo: as pessoas com limitações pontuais e transitórias na sua mobilidade, as pessoas com algumas características físicas excecionais e as pessoas com limitações do foro das alergias.
Dispomos ainda de um conhecimento bastante limitado acerca das
“necessidades especiais” das pessoas destes grupos, nos contextos do turismo e da vida quotidiana. Presumimos que, para as necessidades relacionadas com limitações motoras, visuais, auditivas e intelectuais, os requisitos de
acessibilidade, de interação social no espaço público e de relacionamento interpessoal, sejam semelhantes aos dos grupos anteriores.
9.2. UNIDADE TEMÁTICA: TIPOLOGIA DE LIMITAÇÕES, NECESSIDADES ESPECIAIS, REQUISITOS DE
ACESSIBILIDADE E COMPETÊNCIAS DE CIDADANIA INCLUSIVA
9.2.1. AS PESSOAS COM LIMIT AÇÕES MOTORAS NOÇÃO DE PESSOA COM LIMITAÇÕES MOTORAS 9.2.1.1.
A limitação das capacidades motoras de uma pessoa manifesta-se em diversos aspetos, tais como: na redução ou perturbação da sua mobilidade (membros inferiores), na redução ou perturbação da sua motricidade manual (membros superiores), na dificuldade ou impossibilidade de controlo de determinados movimentos, em dificuldades de equilíbrio, em diminuição do vigor/energia física.
As limitações motoras, no sentido em que são entendidas no contexto do turismo acessível e inclusivo e da promoção de uma “cidadania inclusiva”, integram basicamente as limitações que decorrem das situações de “deficiência motora”.
A deficiência motora decorre de alterações morfológicas do esqueleto e dos membros, das articulações, dos tecidos musculares ou do sistema nervoso, em consequência de dois tipos de causas:
Circunstâncias externas, tais como: acidentes (de trânsito, de trabalho, de desporto/lazer, domésticos) e outros traumatismos cranioencefálicos ou vertebrais; problemas durante o parto; violência física; desnutrição.
Doenças, tais como: paralisia cerebral; espinha bífida; distrofia muscular; tumores.Os principais tipos de paralisia são designados por:
Monoplegia (paralisia de um membro do corpo);
Hemiplegia (paralisia de metade do corpo);
Paraplegia (paralisia da cintura para baixo);
Tetraplegia (paralisia do pescoço para baixo).No conjunto das pessoas com limitações motoras, nomeadamente daquelas que decorrem de situações de deficiência, existe uma grande diversidade de situações individuais em termos de níveis de gravidade e de níveis de
autonomia pessoal, em razão da extensão e profundidade dos movimentos afetados e das suas implicações no desempenho das atividades do dia-a-dia.
NECESSIDADES ESPECIAIS, REQUISITOS DE 9.2.1.2.
ACESSIBILIDADE E REQUISITOS DE ATENDIMENTO E DE RELAÇÃO INTERPESSOAL
As consequências das limitações motoras concretizam-se em aspetos tais como: condicionamento da mobilidade, ou seja, deslocação em cadeira de rodas ou com uso de auxiliares de marcha (bengalas, canadianas, andarilho); dificuldades na coordenação dos movimentos; dificuldades de equilíbrio; tremuras; redução da agilidade, vitalidade e vigor; fadiga; dificuldades de expressão oral (não confundir com comprometimento das capacidades intelectuais).
As necessidades especiais que as pessoas com limitações motoras
apresentam, na sua vida quotidiana, têm a ver sobretudo com as condições de acessibilidade das infraestruturas físicas (locais, edifícios, mobiliário,
equipamentos), mas também com algumas condições materiais e
procedimentos específicos de atendimento nos serviços abertos ao público e de relacionamento interpessoal no espaço público e no meio familiar.
Nomeadamente quando se desloca em cadeira de rodas, a pessoa com limitações motoras precisa:
Que a sua mobilidade horizontal se possa fazer sem obstáculos, em piso contínuo, uniforme e não derrapante, com portas de dimensão efuncionalidade adequadas;
Que a sua mobilidade vertical seja possível mediante rampas e elevadores com as condições requeridas;
Que seja possível aceder a instalações sanitárias com as condições requeridas;
Que o acesso a materiais, utensílios e comandos esteja à altura de quem se encontra na posição de sentado;
Que existam certas condições materiais e certos procedimentosespecíficos de atendimento nos serviços abertos ao público (transportes, comércio, bancos, farmácias, serviços de saúde, serviços municipais, serviços de segurança, outros serviços públicos, etc.) que lhe permitam utilizá-los, apesar das suas limitações;
Que as informações que lhe sejam fornecidas, sobre as condições de acessibilidade dos serviços que irá ter necessidade de utilizar, sejam verdadeiras, precisas e atualizadas.ATITUDES E TÉCNICAS DE AJUDA PESSOAL 9.2.1.3.
a) Atitudes de relacionamento interpessoal
A pessoa com limitações motoras, qualquer que seja a causa das limitações, permanece sendo, para todos os efeitos, uma pessoa; uma pessoa, um familiar, um vizinho, um cliente, um utente, que merece o mesmo respeito e consideração que qualquer outro.
As suas “necessidades especiais”, neste particular, podem resumir-se do seguinte modo:
Necessidade de que a sua situação seja compreendida e aceite com naturalidade;
Necessidade de que a outra pessoa compreenda que a cadeira de rodas é um seguimento do corpo da pessoa com deficiência;
Necessidade de ser tratado e respeitado como qualquer outra pessoa;
Necessidade de ser tratado e respeitado como qualquer outro cliente ou utente;
Necessidade de que a outra pessoa adote uma atitude simpática, tranquila, disponível, mas sem se tornar intrometida;
Necessidade de ser atendido com paciência e afabilidade/calor humano, mas sem amabilidade excessiva, sem paternalismo, sem demonstrações de "pena", ou sem negligenciar a autonomia e autoconfiança que o leva a recusar ajuda de que não precise;
Necessidade de que a outra pessoa lhe preste apoio, mas sem impor a sua ajuda.b) Técnicas de manipulação da cadeira de rodas e de ajuda à pessoa Para ajudar a pessoa a sentar-se na cadeira de rodas, deve posicionar
corretamente a cadeira de rodas, certificando-se que está travada, e afastando os pedais.
Depois, deve colocar-se de frente para a pessoa e pedir-lhe que incline o tronco para a frente; segure-a pela zona da cintura, por exemplo, e ela deverá dar um impulso para trás, para que fique bem encostada.
Não se esqueça que não deve levantar a cadeira pelas partes amovíveis pois elas podem sair do lugar, não estão fixas.
Para subir degraus ou passeios, incline a cadeira para trás para levantar as rodas de elevação. Deve depois pousar levemente as rodas da frente quando estiverem já a alguma distância do lancil.
Para subir ou descer escadas, será melhor pedir ajuda ou utilize equipamentos auxiliadores.
Para subir uma escada são necessárias duas pessoas ajudantes /
acompanhantes: uma vai subindo e recuando, aproximando as rodas grandes dos degraus inclinando ligeiramente a cadeira para trás até um ponto de equilíbrio, vai subindo degrau a degrau, enquanto a outra, de frente para a pessoa a ajudar, segura a cadeira de rodas e ajuda a empurrar a mesma. Quando o último degrau for ultrapassado, deve afastar a cadeira de rodas das escadas e pousar lentamente as rodas todas no chão.
Para subir ou descer rampas com inclinação superior a 9%, a pessoa deve recorrer a ajuda, e também deve solicitar auxílio em situação de declives com inclinação transversal ao movimento, pois existe o perigo de queda.
Para descer um degrau, é mais seguro fazê-lo de marcha atrás. O
ajudante/acompanhante deve colocar-se por trás da cadeira de rodas e segurar firmemente nas pegas nas costas da cadeira, inclinando-a para trás, de modo a que o peso seja suportado pelas rodas grandes ao descer os degraus.
Aproxime as rodas do degrau e deixe cair, lentamente, a cadeira para a frente. Quando, no último degrau, as duas rodas grandes estiverem novamente no chão, deve-se deixar descair, lentamente, as duas rodas pequenas.
A pessoa em cadeira de rodas pode ir controlando manualmente os movimentos das rodas grandes.
Para descer uma escada são necessárias duas pessoas ajudantes /
acompanhantes, em que uma deve aproximar a cadeira do degrau um a um, segurando bem os punhos da cadeira e dando tempo para reencontrar o ponto de equilíbrio, enquanto a segunda pessoa desce recuando, fazendo contrapeso e segurando a cadeira nos braços para que não caia para a frente.
Para efetuar a transferência para outros assentos (a transferência é o ato de entrar ou sair da cadeira de rodas com ou sem a ajuda de terceiros).
Comece por travar a cadeira para evitar que a cadeira se mova antes que a pessoa se consiga transferir para outros assentos e retire as partes amovíveis da cadeira de rodas, se for o caso.
Certifique-se também, que foram tomadas precauções no sentido de reduzir ao máximo a distância. Se for para ajudar a pessoa a pôr-se de pé, deverá
colocar-se de frente para ela, aperte as pernas e os joelhos dela entre os seus, dobre os joelhos, mantenha as suas costas direitas; faça com que a pessoa coloque os braços à volta do seu pescoço. Agarre-a debaixo das axilas, cruze as mãos com força nas costas da mesma ou o mais baixo possível e vá-se endireitando lentamente; a pessoa está apoiada pelos joelhos, pelas costas e pelos braços.
c) Atividades e recursos
Participação de pessoas-recurso/testemunhos presenciais
É de enorme interesse a participação na sessão de formação de uma ou mais pessoas com este tipo de limitações/necessidades especiais que dê
testemunho direto, presencial, da sua experiência, das dificuldades que foi encontrando, das reações das outras pessoas, das estratégias que utiliza para ultrapassar as dificuldades.
Este tipo de participação tem revelado uma grande utilidade e eficácia:
Para a assimilação de conhecimentos sobre as limitações e necessidades especiais em causa;
Para a ultrapassagem de eventuais atitudes de receio, estranheza e inibição dos formandos relativamente à interação / relacionamento direto com a pessoa com deficiência;
Para compreensão das técnicas de ajuda que se torna necessário aprender;
Para proporcionar uma oportunidade para as próprias pessoas com deficiência darem o seu contributo para o processo de melhoria das competências de cidadania inclusiva nas comunidades em que residem.Imagens
Utilização de imagens (desenhos, fotografias, vídeos) que exemplifiquem situações e comportamentos, positivos e/ou negativos, no âmbito da cidadania inclusiva com pessoas com limitações motoras.
Exercícios
Simulação de situações em que o formando se coloque no “lugar do outro” (p. ex. movimentar-se em cadeira de rodas, com utilização de canadianas ou andarilhos, etc.).
Exercícios práticos de técnicas de manipulação da cadeira de rodas e de ajuda à pessoa.
9.2.2. AS PESSOAS COM LIMIT AÇÕES VISUAIS NOÇÃO DE PESSOA COM LIMITAÇÕES VISUAIS 9.2.2.1.
As limitações visuais, no sentido em que são entendidas no contexto do turismo acessível e inclusivo e da promoção de uma “cidadania inclusiva”, correspondem basicamente às comummente consideradas no conceito de deficiência visual.
A deficiência visual pode resultar de diversas situações, tais como:
Doenças infeciosas, por exemplo: tracoma ou sífilis;
Doenças sistémicas, por exemplo: diabetes, nefrite, deficiências nutricionais;
Traumas oculares, por exemplo: pancadas na área ocular, ação de ácidos, acidentes;
Doenças congénitas, por exemplo: catarata, glaucoma, miopia maligna. No conceito de deficiência visual, consideram-se duas situações:
A cegueira, que corresponde a ausência total da visão;
A baixa-visão (antes designada por ambliopia), que corresponde a uma redução da capacidade visual que não se consegue melhorar através de correção ótica.Limitações visuais mais ligeiras do que as consideradas no conceito de deficiência não são especificamente contempladas no âmbito do turismo acessível e inclusivo e da promoção de “cidadania inclusiva” por, em princípio, não requererem cuidados especiais relativamente àqueles que são
proporcionados às pessoas, clientes ou utentes comuns.
Não obstante, as condições especiais dos serviços que visam responder às necessidades específicas das pessoas, clientes ou utentes com limitações visuais mais graves, acabam por favorecer também as pessoas com limitações visuais mais ligeiras.
NECESSIDADES ESPECIAIS, REQUISITOS DE 9.2.2.2.
ACESSIBILIDADE E REQUISITOS DE ATENDIMENTO E DE RELAÇÃO INTERPESSOAL
As limitações visuais manifestam-se sobretudo em dificuldades na mobilidade e orientação, na comunicação e acesso à informação e na manipulação de
objetos e equipamentos.
Para poder ultrapassar ou lidar com as dificuldades decorrentes da sua
deficiência, a pessoa com limitações visuais, desenvolve várias estratégias, tais como:
Melhorar o desempenho dos seus outros sentidos (tato, audição, olfato, gosto, capacidade propriocetiva1), para poder interpretar melhor o mundo que a rodeia e a sua interação com ele.
Recorrer a ajudas materiais / produtos de apoio, tais como, a tradicional “bengala”, mas também a produtos eletrónicos e aplicações digitais que as novas tecnologias vão proporcionando;Exemplos:
Leitor de ecrã - software que permite aos cegos aceder por voz a toda a informação existente no computador ou na internet e usar os programas disponíveis, ou seja captar a informação de um computador e enviá-la em tempo real para um sintetizador de fala ou um terminal de Braille;
Ampliador de ecrã - programa de computador que amplia uma parte do ecrã;
Linha Braille - permite aceder à informação do computador ou da internet, mas em formato Braille, ou seja, é um dispositivo
composto por uma fila de células Braille eletrónicas que podem reproduzir o texto que se encontra no ecrã do computador; Impressora Braille - permite imprimir texto em papel no formato
Braille, a partir do computador; Recorrer à ajuda de um cão-guia;
Recorrer à ajuda de pessoas amigas-guias-acompanhantes e/ou aceitar/utilizar a ajuda de cidadãos comuns que vai encontrando nas suas deslocações;
Aprender a ler com os dedos, utilizando uma escrita especial - a escrita Braille.
Em contexto de utilização de serviços turísticos, de atendimento em serviços abertos ao público, de interação social no espaço público e de relacionamento interpessoal no meio familiar, as pessoas com limitações visuais precisam:
1
Capacidade propriocetiva, também designada por cinestesia, é a capacidade para reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos, a posição de cada parte do corpo em relação às demais, que lhe permite, por exemplo, sem utilizar a visão, identificar uma curva, um desnível ou a quantidade de passos que deve dar num percurso efetuado antes.
Que a sua mobilidade se possa fazer sem obstáculos e sem risco de acidentes (piso contínuo, uniforme, não derrapante; escadas e rampas com corrimão; portas fáceis de abrir; sinalética adequada; pontos de orientação; boas condições de iluminação);
De ter acesso à informação em condições adequadas (sites acessíveis, escrita ampliada, Braille, suporte digital, suporte áudio, audiodescrição);
Que existam certas condições materiais e certos procedimentosespecíficos de atendimento nos serviços abertos ao público (transportes, comércio, bancos, farmácias, serviços de saúde, serviços municipais, serviços de segurança, outros serviços públicos, etc.) que lhe permitam utilizá-los, apesar das suas limitações;
Que as informações que lhe sejam fornecidas, sobre as condições de acessibilidade dos serviços que irá ter necessidade de utilizar, sejam verdadeiras, precisas e atualizadas.ATITUDES E TÉCNICAS DE AJUDA PESSOAL 9.2.2.3.
a) Atitudes de relacionamento interpessoal
A pessoa com limitações visuais permanece sendo, para todos os efeitos, uma pessoa; uma pessoa, um cliente, um utente que merece o mesmo respeito e consideração que qualquer outro.
As suas “necessidades especiais”, neste aspeto, podem resumir-se do seguinte modo:
Necessidade de que a sua situação seja compreendida e aceite com naturalidade;
Necessidade de não ser discriminado em razão das suas limitações;
Necessidade de ser tratado e respeitado como qualquer outra pessoa, cliente ou utente;
Necessidade de que a outra pessoa adote uma atitude simpática, tranquila, disponível, mas sem se tornar intrometido;
Necessidade de que a outra pessoa lhe preste apoio, mas sem impor a sua ajuda.b) Procedimentos de apoio / ajuda pessoal Para guiar uma pessoa cega deve:
Flexionar o braço e deixar que a pessoa cega o segure na altura do cotovelo ou no ombro (assim ela acompanhará todos os seus movimentos);
Respeitar o ritmo da passada da pessoa cega;
Efetuar uma breve paragem antes das escadas e indicar se vão subir ou descer;
Avisar com antecedência a existência de obstáculos, tais como buracos, degraus, piso escorregadio.Quando quiser guiar uma pessoa com deficiência visual até a uma cadeira, coloque a mão dessa pessoa nas costas da cadeira, de modo que ela perceba onde e como a cadeira se encontra exatamente e qual a sua posição e informe se a cadeira tem braços ou não.
Para explicar direções e endereços, deve fornecer indicações precisas, deve usar referências de distância em medidas, de preferência em metros; use termos como "à direita" e "à esquerda".
Para comunicar com uma pessoa cega, chame a pessoa pelo nome, para que saiba que lhe está a dirigir a palavra, ou, se não souber o seu nome, toque-lhe no braço, identifique-se quando chega e ao ir embora mencione que vai sair. Pergunte, delicada e calmamente, se pode ajudar; utilize um tom de voz normal (não é necessário aumentar o tom porque a cegueira não implica perda de audição).
Fale diretamente para a pessoa com deficiência visual e não com o seu acompanhante (a perda de visão não implica perda de inteligência ou de capacidade de comunicar).
Se a pessoa se fizer acompanhar de um cão guia, aceite-o com naturalidade; não brinque com o cão, não lhe ofereça comida e não intervenha na sua tarefa de guia; não acaricie o cão-guia, (trata-se de um “profissional” em atividade, não o distraia).
c) Atividades e recursos
Participação de pessoas-recurso/testemunhos presenciais
É de enorme interesse a participação na sessão de formação de uma ou mais pessoas com este tipo de limitações/necessidades especiais que dê
testemunho direto, presencial, da sua experiência, das dificuldades que foi encontrando, das reações das outras pessoas, das estratégias que utiliza para ultrapassar as dificuldades.
Este tipo de participação tem revelado uma grande utilidade e eficácia:
Para a assimilação de conhecimentos sobre as limitações e necessidades especiais em causa;
Para a ultrapassagem de eventuais atitudes de receio, estranheza e inibição dos formandos relativamente à interação / relacionamento direto com a pessoa com deficiência visual;
Para compreensão das técnicas de ajuda que se torna necessário aprender;
Para proporcionar uma oportunidade para as próprias pessoas com deficiência darem o seu contributo para o processo de melhoria das competências de cidadania inclusiva nas comunidades em que residem.Imagens
Utilização de imagens (desenhos, fotografias, vídeos) que exemplifiquem situações e comportamentos, positivos e/ou negativos, no âmbito da cidadania inclusiva com pessoas com limitações visuais.
Exercícios
Simulação de situações em que o formando se coloque no “lugar do outro” (p. ex. deslocar-se de olhos vendados, utilização da bengala, etc..).
Exercícios práticos de técnicas de comunicação, guia e orientação de pessoas com deficiência visual.
9.2.3. AS PESSOAS COM LIMIT AÇÕES AUDITIVAS NOÇÃO DE PESSOA COM LIMITAÇÕES AUDITIVAS 9.2.3.1.
As limitações auditivas, no sentido em que são entendidas no contexto do turismo acessível e inclusivo e da promoção de uma cidadania inclusiva, correspondem basicamente às comummente consideradas no conceito de deficiência auditiva.
A deficiência auditiva consiste na perda parcial ou total da capacidade de ouvir. A surdez é uma condição que se manifesta com diferentes graus, desde perdas auditivas mais leves até a surdez profunda.
Deficiência auditiva Profunda (perda auditiva superior a 90 dB) A pessoa não possui informações auditivas, o que a impede de
identificar a voz humana. Não adquire linguagem nem fala para poder comunicar, devido à ausência de modelo.
Deficiência auditiva Severa (com perda de 70 a 90 dB)
A pessoa só percebe vozes muito fortes e alguns ruídos do ambiente familiar. A compreensão verbal depende do apoio visual e da
observação do contexto em que se desenvolve a comunicação. Deficiência auditiva Média ou Moderada (com perda de 40 a 70 dB)
Para a pessoa compreender a fala é necessário uma voz forte,
principalmente em ambientes ruidosos. Apresenta atraso de linguagem e alterações articulatórias. As dificuldades na compreensão da fala são mais notórias quando as frases são complexas; dificuldades na
compreensão de terminações verbais e na concordância de género e de número dos nomes e adjetivos. Geralmente precisa de apoio visual para o entendimento da mensagem.
Deficiência auditiva Leve (com perda de 20 a 40 dB)
A pessoa é considerada desatenta e distraída. Por não perceber todos os sons da palavra, olha sempre para o rosto de quem está a falar. Costuma pedir para repetir as informações e consegue adquirir linguagem, naturalmente.
A surdez pode ser congénita, provocada por hereditariedade, doença durante a gravidez ou traumatismo no parto, conduzindo à impossibilidade ou a grandes dificuldades no desenvolvimento da fala, ou adquirida, provocada por fatores, como otite ou ruído muito alto, por exemplo, em qualquer idade, podendo conduzir a maiores ou menores dificuldades de comunicação.
O próprio processo de envelhecimento também conduz com frequência a diminuições mais ou menos graves da capacidade auditiva.
A capacidade auditiva é, para o ser humano, uma capacidade muito
importante, interferindo em muitos aspetos da vida. Interfere nomeadamente:
Com a segurança do indivíduo - desde muito cedo as funções auditivas são um sistema de aviso que nos informam dos estímulos do meio envolvente;
Com o desenvolvimento da linguagem - ouvindo falar aprendemos a falar, aprendemos a língua materna, apendemos línguas estrangeiras;
Na integração social – a comunicação oral é um meio de grande relevância na nossa integração social num mundo de ouvintes. Donde, o recurso a formas alternativas de comunicação:
O recurso ao gesto e a emergência de uma língua própria dacomunidade surda (LGP – Língua Gestual Portuguesa) e de uma função de “intérprete / tradutor” desta língua;
O recurso à escrita, quando a pessoa surda teve oportunidade de adquirir um domínio, maior ou menor, da língua do seu grupo cultural/país e da sua escrita;
O recurso ao sistema de SMS proporcionado pelos novos meios tecnológicos de comunicação;
O recurso à imagem, ao desenho, ao vídeo.NECESSIDADES ESPECIAIS, REQUISITOS DE 9.2.3.2.
ACESSIBILIDADE E REQUISITOS DE ATENDIMENTO E DE RELAÇÃO INTERPESSOAL
Em contexto de utilização de serviços turísticos, de atendimento em serviços abertos ao público, de interação social no espaço público e de relacionamento interpessoal no meio familiar, as pessoas com limitações auditivas não
apresentam necessidades especiais em matéria de condições de acessibilidade das infraestruturas.
O foco das suas necessidades especiais têm a ver com a comunicação
interpessoal, com o acesso a informações comummente veiculadas em suporte vocal, sonoro, áudio, e com o acesso a informações em suporte escrito,
utilizando linguagem complexa (dado o escasso domínio que frequentemente têm da língua do seu próprio país e de línguas estrangeiras).
Donde que, o esforço de atendimento nos serviços abertos ao público, na interação social e no relacionamento interpessoal em contexto familiar passa pela utilização de processos alternativos de comunicação:
Posturas adequadas na comunicação oral / fala, acompanhada de um maior recurso a expressão facial e gestual;
Recurso a informação escrita em linguagem simples e com mais recurso a desenhos e imagens;
Utilização de alguns elementos da Língua Gestual que tenham aprendido;
Ter como recorrer a interpretação de Língua Gestual, presencial e/ou a distância, quando necessário.ATITUDES E TÉCNICAS DE AJUDA PESSOAL 9.2.3.3.
a) Atitudes de relacionamento interpessoal
A pessoa com limitações auditivas permanece sendo, para todos os efeitos, uma pessoa; uma pessoa, um cliente, um utente que merece o mesmo respeito e consideração que qualquer outro.
As suas “necessidades especiais”, neste aspeto, podem resumir-se do seguinte modo:
Necessidade de que a sua situação seja compreendida e aceite com naturalidade;
Necessidade de não ser discriminado em razão das suas limitações;
Necessidade de ser tratado e respeitado como qualquer outra pessoa;
Necessidade de que a outra pessoa adote uma atitude simpática, tranquila, disponível e paciente;
Necessidade de que não a isolem das conversas em grupo. b) Procedimentos de apoio / ajuda pessoalPara comunicar com a pessoa surda, usando a fala:
Fale quando a pessoa surda estiver a olhar para si, estabeleça contacto visual com ela (a pessoa surda interpreta as suas expressões faciais e muitos surdos fazem leitura labial);
Evidencie a boca, fale pausadamente, não use termos complicados ou demasiado técnicos;
Evite esconder o rosto e os lábios enquanto fala, com as mãos, cabelos e objetos;
Não se esqueça da iluminação na face (facilita a boa visibilidade para a leitura labial);
Não se perturbe com os sons emitidos pela pessoa surda.Para comunicar com a pessoa surda, utilize meios alternativos de comunicação que a possam ajudar a compreender a mensagem (gestos e expressividade corporal, bloco de notas, imagens, desenhos, computador, telemóvel); use frases curtas e simples; repita sempre que necessário; chame a atenção com um toque no ombro ou no braço. Se tiver conhecimentos, mesmo que apenas básicos, use Língua Gestual.
A pessoa surda pode também utilizar um “cão de assistência”; se tal acontecer aceite com naturalidade a situação e respeite as funções de apoio que o cão desempenha (nomeadamente, no que refere à identificação e indicação de fontes sonoras, como equipamentos, campainhas e alarmes de incêndio).
c) Atividades e recursos
Participação de pessoas-recurso/testemunhos presenciais
É de enorme interesse a participação na sessão de formação de uma ou mais pessoas com este tipo de limitações/necessidades especiais que dê
testemunho direto, presencial, da sua experiência, das dificuldades que foi encontrando, das reações das outras pessoas, das estratégias que utiliza para ultrapassar as dificuldades.
Este tipo de participação tem revelado uma grande utilidade e eficácia:
Para a assimilação de conhecimentos sobre as limitações e necessidades especiais em causa;
Para a ultrapassagem de eventuais atitudes de receio, estranheza e inibição dos formandos relativamente à interação / relacionamento direto com a pessoa com deficiência auditiva;
Para compreensão das técnicas de ajuda que se torna necessário aprender;
Para proporcionar uma oportunidade para as próprias pessoas com deficiência darem o seu contributo para o processo de melhoria das competências de cidadania inclusiva nas comunidades em que residem. ImagensUtilização de imagens (desenhos, fotografias, vídeos) que exemplifiquem situações e comportamentos, positivos e/ou negativos, no âmbito da cidadania inclusiva com pessoas com limitações auditivas.
Exercícios
Simulação de situações em que o formando se coloque no “lugar do outro” (p. ex. procurar comunicar com outras pessoas com tampões nos ouvidos). Exercícios práticos de técnicas de comunicação alternativa com pessoas surdas.
9.2.4. AS PESSOAS COM LIMIT AÇÕES INTELECTUAIS NOÇÃO DE PESSOA COM LIMITAÇÕES INTELECTU AIS 9.2.4.1.
As pessoas com limitações intelectuais, no sentido em que são entendidas no contexto do turismo acessível e inclusivo e da promoção de cidadania inclusiva, correspondem basicamente às comummente consideradas no conceito de deficiência intelectual.
A deficiência intelectual não é considerada uma doença, mas é uma condição que aparece frequentemente ligada a doenças genéticas, metabólicas ou
infeciosas, a problemas durante a gravidez ou no parto e a problemas de saúde ou perturbações no processo de desenvolvimento biopsicossocial na infância. A situação de uma pessoa com deficiência intelectual caracteriza-se por dois aspetos principais:
Limitações no seu funcionamento cognitivo, que se organiza num patamar bastante abaixo da média, em termos de diversos tipos de capacidades, tais como: raciocínio, pensamento abstrato, memória, atenção, compreensão de situações complexas, aprendizagem, planeamento, resolução de problemas, etc..
Limitações no seu comportamento adaptativo às condições defuncionamento da sociedade em que vive, que se organiza também num patamar bastante abaixo da média, nomeadamente:
○ Na capacidade de cuidar de si própria em termos de autonomia/independência pessoal;
○ Na capacidade de adquirir e dominar os instrumentos culturais
básicos da sociedade, como sejam a leitura, escrita e cálculo, acesso a informação e comunicação;
○ Na capacidade de compreender e assumir responsabilidades sociais complexas;
○ Na capacidade de organizar e gerir com autonomia e sucesso as diversas vertentes da sua vida pessoal, familiar, profissional, social, lazer/tempos livres, participação cívica, política, religiosa, etc.. Dentro do conjunto das pessoas com deficiência intelectual, a diversidade de níveis de deficiência é muito grande e são comummente classificados em quatro graus: deficiência ligeira, moderada, severa e profunda.
NECESSIDADES ESPECIAIS, REQUISITOS DE 9.2.4.2.
ACESSIBILIDADE E REQUISITOS DE ATENDIMENTO E DE RELAÇÃO INTERPESSOAL
Em contexto de utilização de serviços turísticos, de atendimento em serviços abertos ao público, de interação social no espaço público e de relacionamento interpessoal no meio familiar, podemos considerar o conjunto das pessoas / clientes / utentes / turistas com limitações intelectuais, composto por 2 subconjuntos principais:
Subconjunto APessoas, clientes, utentes, turistas cujas limitações decorrem de deficiência intelectual ligeira ou moderada e que apresentam níveis importantes de autonomia.
Apresentam níveis de autonomia, em termos de mobilidade, agilidade, visão e audição, em termos de domínio das atividades da vida quotidiana e em termos de interação / comunicação pessoal, que fazem com que estas pessoas, muitas vezes, não pareçam apresentar necessidades especiais significativamente diferenciadas das pessoas comuns.
De facto, em matéria de requisitos de acessibilidade das infraestruturas, não apresentam relevantes necessidades especiais.
Contudo, em termos de atendimento e de interação social, uma observação mais fina indica claramente a necessidade de alguns cuidados especiais, em razão do impacto que as suas limitações intelectuais têm sobre aspetos tais como:
○ A compreensão da informação sobre os serviços, disponibilizada em suporte escrito, áudio ou visual, utilizando normalmente uma
linguagem relativamente complexa;
○ A compreensão de explicações, instruções, recomendações, formuladas em linguagem comum, utilizando com frequência conceitos abstratos e vocabulário bastante elaborado;
○ A comunicação interpessoal, com dificuldades na expressão e na compreensão da linguagem, mas também na compreensão de situações de interação social mais complexas;
○ A utilização da leitura, da escrita e do cálculo, de que detêm um domínio muito limitado ou mesmo nulo;
○ A interpretação de símbolos/sinalética com desenhos de difícil descodificação;
○ A capacidade de orientação no espaço (percursos, direções, distâncias) e no tempo (antes, depois, quanto tempo, etc.);
○ A capacidade de lidar adequadamente com situações novas, não previstas, de resolver problemas que surjam;
○ A tomada de decisões (o que podem ou não podem comer ou beber, que serviços podem ou não podem utilizar, que atividades podem ou não podem fazer, o que podem ou não podem comprar, …).
Subconjunto B:Pessoas, clientes, utentes, turistas cujas limitações decorrem de deficiência intelectual severa ou profunda e que apresentam níveis elevados de dependência.
Nestas situações é frequente estarem associadas à deficiência intelectual outras deficiências de natureza física (a nível motor, sensorial, equilíbrio, fala/comunicação, etc.), correspondendo, nestes casos, a situações comummente referidas como multideficiência.
Este subconjunto de pessoas, clientes, utentes, turistas corresponde a uma percentagem muito diminuta do conjunto das pessoas com deficiência intelectual.
São pessoas que se deslocam com acompanhamento da família ou de técnicos especializados, que requerem dos serviços cuidados específicos, mediados pelos seus acompanhantes.
ATITUDES E TÉCNICAS DE AJUDA PESSOAL 9.2.4.3.
a) Atitudes de relacionamento interpessoal
A pessoa com limitações intelectuais permanece sendo, para todos os efeitos, uma pessoa; uma pessoa, um cliente, um utente, que merece o mesmo
respeito e consideração que qualquer outro. Na interação pessoal com ela:
Aja naturalmente ao comunicar com ela ○ Trate-a com respeito e consideração;○ Se for uma pessoa adulta, trate-a como tal, e não como se fosse uma criança;
○ Não a ignore, não a desvalorize;
○ Cumprimente-a e despeça-se dela normalmente, como faria com qualquer outra pessoa;
○ Dê-lhe atenção, converse com ela.
Não a "superproteja"○ Deixe que ela faça ou tente fazer sozinha tudo o que puder; ○ Ajude apenas quando for realmente necessário;
○ Não subestime as suas capacidades.
Não a "desproteja"○ Não lhe sirva o que não deva; ○ Não goze com ela;
○ Não a deixe utilizar o que não pode;
○ Não lhe venda o que ela não deva consumir; ○ Não a engane nos pagamentos;
○ Não lhe proponha atividades que sabe que não estão ao seu alcance.
No caso de se tratar de uma pessoa com deficiência intelectual severa ou profunda não finja que ela não existe, não presuma que ela não compreende ou que não sente nada; interaja com ela; tenha em atenção que a oportunidade de um pouco de participação, um pouco de sucesso nas atividades que lhe sejam proporcionadas, podem ter um enorme efeito, podem provocar uma enorme alegria nessa pessoa e na sua família.
b) Procedimentos de apoio / ajuda pessoal
O objetivo é assegurar, por parte dos profissionais que atendem nos serviços e das outras pessoas que com ela interagem no espaço público e no contexto familiar, os cuidados especiais correspondentes aos aspetos em que podem ter interferência as limitações intelectuais da pessoa em causa, tais como:
Comunicação interpessoal ○ Uso de linguagem simples
Apoio no acesso à informaçãoExplicações claras e precisas, sobre: ○ Os serviços e bens disponíveis
○ As condições e as regras de utilização dos bens e serviços ○ Como operar os equipamentos
○ As pessoas a contactar em caso de necessidade
Disponibilização de informação○ Em suporte escrito, visual ou áudio ○ Em linguagem simples
○ Com recurso a imagens
Apoio na descodificação da sinalética ○ Das instalações○ Na localização dos serviços ○ Na aprendizagem dos percursos
Supervisão de eventuais comportamentos desajustados Exemplos:○ Saída das instalações não autorizada
○ Manifestações excessivas na comunicação com outras pessoas, clientes ou utentes
○ Comportamentos ruidosos
Previsão das necessidades especiais de apoio em caso de emergência
Preservação do contacto com o acompanhante ou pessoa de referência do cliente ou do utente9.2.5. AS PESSOAS SENIORES COM LIMITAÇÕES DECORRENTES DO PROCESSO DE
ENVELHECIMENTO
NOÇÃO DE PESSOA SÉNIOR COM LIMITAÇÕES 9.2.5.1.
DECORRENTES DO PROCE SSO DE ENVELHECIMENTO
A enorme e progressiva melhoria das condições de vida e o concomitante aumento da esperança de vida nas nossas sociedades tem vindo a fazer com que tenha aumentado muito a quantidade e a percentagem de pessoas
seniores na população e tenha aumentado muito também a duração, a quantidade de anos vividos nesse patamar.
Acresce que, apesar dos avanços da ciência, o processo de envelhecimento vai conduzindo, lenta mas inevitavelmente, à diminuição progressiva das capacidades das pessoas.
As limitações induzidas pelo envelhecimento atingem as diversas áreas de funcionalidade e de atividade das pessoas, perturbando / diminuindo não apenas as suas capacidades físicas (mobilidade, força, resistência, equilíbrio, …), mas também as suas capacidades sensoriais (visão, audição, …) e as suas capacidades intelectuais/cognitivas (compreensão, memória, atenção, raciocínio, orientação no espaço, orientação no tempo,…).
Estas limitações têm semelhanças com as limitações motoras, visuais, auditivas e intelectuais tratadas nos pontos anteriores, mas não são sentidas nem consideradas como “deficiências”. Sendo, quase sempre, cumulativas, não são consideradas “multideficiência”.
próprios, a forma como podem ser compensadas, as consequências que provocam na autoimagem, no projeto de vida, nas atividades da vida
quotidiana, o modo como a elas reage o meio envolvente (família, comunidade, prestadores de serviços, etc.), fazem com que sejam, bastante diferenciadas daquelas relacionadas com as situações de deficiência.
Contudo, sendo o envelhecimento da população um fenómeno historicamente bastante recente, o cabedal de conhecimento técnico-científico já disponível, sobre aspetos como aqueles acima referidos, é ainda escasso.
NECESSIDADES ESPECIAIS E REQUISITOS DE 9.2.5.2.
ACESSIBILIDADE E REQUISITOS DE ATENDIMENTO E DE RELAÇÃO INTERPESSOAL
Para o setor do Turismo, a faixa da população designada por “sénior” tem uma importância estratégica claramente reconhecida, não só por razões
quantitativas (percentagem cada vez maior da população) mas também por razões qualitativas (nomeadamente pela sua disponibilidade para viajar ao longo de todo o ano).
Ao Turismo interessa atrasar o mais possível o momento em que uma pessoa sénior na qual o processo de envelhecimento vai deixando já as suas marcas, decida deixar de viajar, por não estar seguro que as condições com que funcionam os serviços turísticos o possam acolher e responder
adequadamente às “necessidades especiais” que foi adquirindo.
Para os contextos de “cidadania inclusiva”, os seniores em que o processo de envelhecimento vai limitando as suas capacidades (físicas, sensoriais,
intelectuais, psicológicas), constituem uma realidade para a qual, de um modo geral, estamos todos muito pouco preparados (familiares, cidadãos que com eles se cruzam no espaço público, pessoas que atendem nos serviços abertos ao público).
Se e enquanto não houver mais informação técnica e científica que ajude a caracterizar melhor as limitações motoras, sensoriais e intelectuais que decorrem do processo de envelhecimento, as formas e os tempos em que aparecem, como se acumulam e potenciam umas às outras, como são aceites e geridas, como a elas reage o meio envolvente, e a compreender melhor as “necessidades especiais” que delas derivam nos diversos contextos de vida (familiar, social, espaço público, serviços comuns, serviços turísticos), poder-se-á utilizar como referência útil, em matéria de requisitos de acessibilidade e de requisitos de atendimento e de relações interpessoais, o conhecimento já disponível relativamente às limitações relacionadas com as situações de deficiência.
ATITUDES E TÉCNICAS DE AJUDA 9.2.5.3.
a) Atitudes de relacionamento interpessoal
A pessoa, cliente, utente, sénior valoriza atitudes que mostrem conhecimento, respeito e consideração pela sua pessoa e pela sua condição, tais como:
Atenção às suas necessidades especiais, mas também respeito pela sua autonomia e valor pessoal;
Atenção à sua provável menor facilidade de utilização dos meios tecnológicos de uso corrente para as novas gerações;
Atenção ao sentimento de maior fragilidade e insegurança que a idade vai trazendo e ao valor que a pessoa sénior atribui a um serviçosimpático, carinhoso e acolhedor;
Atenção à maior importância que as rotinas vão assumindo e a maiores dificuldades em aceitar, gerir e adaptar-se a alterações não previstas ou de última hora;
Atenção a que as suas disponibilidades de energia vão diminuindo e a que a programação do ritmo das atividades e a previsão de momentos e condições de descanso deverão ser tidas em conta.b) Procedimentos de apoio / ajuda pessoal
As necessidades de apoio/ajuda variam muito de pessoa para pessoa e, na mesma pessoa, podem variar de situação para situação e de idade para idade. De um modo geral as suas limitações expressam-se numa, ou em mais do que uma, das áreas motora, visual, auditiva e intelectual, pelo que os
procedimentos de apoio são semelhantes aos descritos, nos pontos anteriores, para as correspondentes tipologias de limitações.
OUTROS GRUPOS DE PES SOAS COM NECESSIDADE S 9.2.5.4.
ESPECIAIS RELACIONAD AS COM AS SUAS CONDIÇÕES GERAIS DE SAÚDE
Nos pontos anteriores, abordámos os dois grandes grupos-alvo do turismo acessível e inclusivo e da promoção de cidadania inclusiva no território:
As pessoas com deficiência (grupo-alvo que está na origem das preocupações do turismo acessível e da promoção da inclusão e que corresponde hoje em dia a uma percentagem da população superior a 10% ).
As pessoas idosas / seniores em processo de envelhecimento (segundo grande grupo que veio mais do que duplicar a dimensão do universo das pessoas / clientes / utentes / turistas “com necessidades especiais”). De facto, as estatísticas demográficas apontam para uma percentagem da população com mais de 65 anos, presentemente já superior a 20% e em aumento progressivo. As estimativas apontam para que cerca de metade deste grupo apresente já “necessidades especiais” decorrentes do processo de envelhecimento, ou seja, este segundo grupo acrescenta mais 10% da população como alvo do turismo acessível e inclusivo e da promoção de cidadania inclusiva.Neste ponto, vamos abordar ainda mais três grupos que começam a ser considerados como integrando também o universo-alvo do turismo acessível e inclusivo.
A oferta turística ganha em poder ser divulgada e promovida como “friendly”, para estes grupos. A qualidade da cidadania nas comunidades ganha também com a atenção dada às questões de acessibilidade, de atendimento e de interação social no espaço público que podem beneficiar a qualidade de vida destas pessoas.
a) Pessoas grávidas em fim de gestação, pais com crianças de colo e com carrinhos de bebé
Este grupo tem sido trazido para o âmbito do turismo acessível, em razão do quanto pode beneficiar do ajustamento das condições de acessibilidade da oferta turística às necessidades das pessoas com mobilidade reduzida. Obviamente que também as pessoas residentes no território beneficiam das condições de acessibilidade dos espaços públicos, dos serviços abertos ao público e das próprias habitações.
b) Pessoas com características físicas excecionais (estatura e/ou peso)
Características físicas tais como: baixa estatura – nanismo; alta estatura – gigantismo; grande obesidade.
Trata-se de um grupo de situações, de menor frequência, mas que podem beneficiar também da cultura de ajustamento dos requisitos da oferta turística às características “físicas” dos clientes (altura da sinalética/informação, dos comandos, dos objetos; banquinho de apoio; assentos largos; pontos de descanso; etc.).