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Estudos Económicos Aplicados 2003/2004

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Estudos Económicos Aplicados

2003/2004

O Investimento Directo Estrangeiro no Leste Europeu

O caso português

Área de Estudos: Investimento Directo Estrangeiro

Orientadora: Profª. Doutora Ana Teresa Cunha Pinho Tavares

João Manuel de Oliveira Paiva José Filipe Oliveira Fonseca Pedro Manuel Ribeiro Martins

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Agradecimentos

A elaboração deste trabalho dependeu da imprescindível e preciosa colaboração de diversas pessoas e entidades às quais devemos o nosso maior reconhecimento.

À Professora Doutora Ana Teresa Tavares pela sua orientação, acessibilidade e colaboração na realização de todo o trabalho. Ao Professor Doutor Francisco Castro pela sua disponibilidade na prestação de esclarecimentos e de informação. Ao Professor Doutor José Varejão pela sua disponibilidade e esclarecimentos sobre a regressão econométrica. À empresa entrevistada, e em especial ao seu responsável industrial, pelo tempo e qualidade das informações que nos concedeu. À Jerónimo Martins, e à sua colaboradora da Drª Margarida Ramalho, pela disponibilidade para responder ao inquérito. Às agências de investimento Arisinvest, Czechinvest, Paiz, Hungarian Corporation to Promote Investment and Trade Development, Bulgarian Foreign Investment Agency e ao Banco de Portugal pela disponibilização de importantes dados e informações. Agradecemos ainda a todas as outras pessoas e entidades que contribuíram para a elaboração deste trabalho. Uma menção final à FEP, aos professores e aos caros colegas terá que ser feita como reconhecimento da importância dos mesmos na nossa formação como pessoas e profissionais.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Abstract

Este trabalho procura caracterizar o investimento directo estrangeiro de Portugal no leste da Europa, enquadrando-o no panorama geral de aumento da afluência dos fluxos de investimento directo mundial para esta região do globo, resultante da reintegração económica e política na Europa dita Ocidental. Contudo, apesar do crescimento exponencial do influxo de investimento a Leste, é necessário relativizar a importância dos fluxos de investimento mundiais que são dirigidos para estes países. A realização do mesmo exercício de relativização, mas agora para o investimento oriundo de Portugal, é também imprescindível para contrariar a pseudo grande importância destes países como destino do investimento nacional. Só assim será possível desmistificar a ideia, muitas vezes enfatizada nos media, de que o baixo custo da mão-de-obra nestes países tem levado a uma fortíssima deslocalização das empresas trabalho intensivas nacionais de Portugal para o Leste da Europa. Na verdade os baixos custos do trabalho não passam de uma das motivações para o investimento português a Leste, a qual deverá ser considerada conjuntamente com as oportunidades decorrentes do grande potencial de crescimento destes mercados e com as características institucionais existentes nos países receptores do investimento para explicar correctamente os fluxos de investimento. Por outro lado é necessário traduzir de forma objectiva a dimensão deste fenómeno de deslocalização que não será assim tão importante, ainda mais quando muitas empresas investem no exterior, não como forma de deslocalizar produção, mas como forma de expansão das suas actividades.

Este trabalho pretende ser apenas uma abordagem relativamente superficial às problemáticas do investimento directo português nos países da Europa Central e Oriental, e, em especial, na Polónia, na República Checa, na Hungria, na Roménia e na Bulgária.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Índice

1. Introdução 1

2. Teorias sobre Investimento Directo Estrangeiro (IDE) 3 2.1Processo de internacionalização de empresas 3 2.2 Paradigma ecléctico de do Investimento Directo 5 2.3 Motivações para a produção no estrangeiro 7

2.4 Investment Development Path (IDP) 9

2.5 Aplicabilidade da teoria ao nosso estudo 11

3. Enquadramento do Investimento Directo de Portugal no Exterior 12 3.1 Investimento Directo de Portugal no Exterior 12

3.1.1 Evolução temporal 12

3.1.2 Análise por país de destino 12

3.1.3 Análise sectorial 13

3.2 Aplicação da teoria do IDP ao caso português 14

4. Investimento Directo Estrangeiro nos Países da Europa Central e

Oriental (PECOs) 16

4.1 Breve revisão da literatura sobre IDE nos

países do Leste Europeu 16

4.2 Motivações para investir nos PECOs: enquadramento

estatístico comparativo 18

4.3 Políticas no sentido de atracção de IDE 20 4.4 IDE nos países da Europa Central e Oriental 22

4.4.1 Evolução temporal 22

4.4.2 Análise por país investidor 23

4.4.3 Análise sectorial 26

4.4.4 Potenciais consequências do alargamento 27 4.5 Estudo econométrico das determinantes do IDE 30 4.6 Investimento Directo de Portugal nos PECOs 33

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IDE no Leste Europeu: o caso português

4.6.1 Evolução temporal 33

4.6.2 Análise por país de destino 34

4.6.3 Análise sectorial 35

5. Case-Studies de empresas portuguesas que investiram nos PECOs 37

5.1 Jerónimo Martins 37

5.2 Mota-Engil 39

5.3 Grupo BCP 40

5.4 Empresa têxtil da zona Norte 43

5.5 Análise global dos case-studies 45

6. Conclusão 49 7. Bibliografia 51 8. Anexos 56 8.2 Anexo de gráficos 56 8.3 Anexo de quadros 61 8.4 Case-Studies 62 8.4.1 Simoldes 62 8.4.2 Grupo Suberus 63 8.4.3 Colep 65

8.5 Entrevista a uma empresa têxtil da Zona Norte 67

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Índice de quadros

Quadro 1: Investimento Directo de Portugal no Exterior 12

Quadro 2: Produtividade por trabalhador 19

Quadro 3:Indicadores Macro-Económicos 20

Quadro 4: Entradas de Investimento Directo Estrangeiro 23

Quadro 5: Stock entradas de IDE nos PECOs 24

Quadro 6: Investimento Directo de Portugal no Exterior 34

Quadro 7: Entradas de IDE a nível mundial 34

Quadro 8: Resumo das principais conclusões dos case-studies 45 Anexos

Quadro 9: Entradas de IDE no Mundo, Países Desenvolvidos, PECOs 61 Quadro 10: Investimento Directo no Exterior Líquido 61

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Índice de Gráficos

Gráfico 1: Repartição geográfica do IDPE 13

Gráfico 2: Repartição sectorial do IDPE 13

Gráfico 3: Ilustração do IDP para Portugal 14

Gráfico 4: Distribuição do IDE na Polónia por origem geográfica 24 Gráfico 5: Contribuição de cada país da U.E. para o IDE recebido pela

Polónia da EU 25

Gráfico 6: Distribuição sectorial do IDE recebido pela Polónia 26

Gráfico 7: Contribuição de cada actividade para o IDE recebido pela

Polónia no sector terciário 27

Gráfico 8: Distribuição sectorial do IDE na Polónia, República Checa,

Roménia, Hungria, Bulgária, PECOs 36

Anexos

Gráfico 9: Distribuição do IDE na Polónia por origem geográfica 56 Gráfico 10: Contribuição de cada país da U.E. para o IDE recebido pela

Polónia da EU 56

Gráfico 11: Distribuição do IDE na R. Checa por origem geográfica 56 Gráfico 12: Contribuição de cada país da U.E. para o IDE recebido pela

R. Checa da U.E. 57

Gráfico 13: Distribuição do IDE na Hungria por origem geográfica 57 Gráfico 14: Contribuição de cada país da U.E. para o IDE recebido pela

Hungria da U.E. 57

Gráfico 15: Distribuição do IDE na Bulgária por origem geográfica 58 Gráfico 16: Contribuição de cada país da U.E. para o IDE recebido pela

Bulgária da U.E. 58

Gráfico 17: Distribuição do IDE na Roménia por origem geográfica 58 Gráfico 18: Contribuição de cada país da U.E. para o IDE recebido pela

Roménia da U.E. 59

Gráfico 19: Distribuição sectorial do IDE recebido pela Polónia 59 Gráfico 20: Contribuição de cada actividade para o IDE recebido pela

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Gráfico 21: Distribuição sectorial do IDE recebido pela Hungria 59 Gráfico 22: Contribuição de cada actividade para o IDE recebido pela

Hungria no sector terciário 59

Gráfico 23: Distribuição sectorial do IDE recebido pela R. Checa 60 Gráfico 24: Contribuição de cada actividade para o IDE recebido pela

R. Checa no sector terciário 60

Gráfico 25: Distribuição sectorial do IDE recebido pela Bulgária 60 Gráfico 26: Contribuição de cada actividade para o IDE recebido pela

Bulgária no sector terciário 60

Gráfico 27: Distribuição sectorial do IDE recebido pela Roménia 60 Gráfico 28: Contribuição de cada actividade para o IDE recebido pela

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IDE no Leste Europeu: o caso português

1. Introdução

As alterações políticas que ocorreram no Leste Europeu no início dos anos 90 traduziram-se na reaproximação entre a Europa Ocidental e a Europa de Leste. O fim da Guerra Fria trouxe também mudanças ao nível económico como a adopção de modelos económicos mais liberais pelas economias outrora centralizadas. Esta reorientação ideológica permitiu o desenvolvimento de relações comerciais com as economias mais desenvolvidas e, em especial, com a União Europeia (UE). Um enorme passo para a aproximação destes países ao mundo ocidental foi dado com a adesão de 10 países à UE, em Maio de 2004, o que aprofundará a integração destes países na Europa.

“The steady performance of FDI in Central Eastern Europe suggests that it is viewed as a stable and promising region for FDI, especially within the division of labour across the integrating European continent, as a whole.” (World Investment Report 2003, p. 60)

Todas estas alterações políticas conduziram a profundas modificações nestes países que, por sua vez, levaram a um aumento dos fluxos de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) recebidos pelos mesmos. Desde o princípio dos anos 90 o IDE nos Países da Europa Central e Oriental (PECOs) quase decuplicou, mas será necessário relativizar esta evolução face à evolução dos fluxos de IDE a nível europeu e mundial.

O Investimento Directo Português nestes países tem vindo também a aumentar, estando, contudo, concentrado num restrito número de países e representando ainda uma proporção relativamente pequena do Investimento Directo Português no Estrangeiro (IDPE) total.

Em face da importância e actualidade deste tema pareceu-nos oportuno o estudo do mesmo para uma melhor compreensão das suas vicissitudes e motivações. Foi por este motivo que escolhemos este tema para o nosso trabalho, pretendendo com ele testar a nossa hipótese de partida de que o IDPE nestes países procura aproveitar as potencialidades destes mercados em crescimento e a boa relação qualidade-preço da mão-de-obra nestes países, tendo em atenção que apesar destas virtudes o IDPE enfrenta nestes países obstáculos como a cultura e a língua que não podem ser menosprezados.

Para testarmos esta hipótese estruturamos o nosso trabalho em cinco partes.

Numa primeira parte faremos um breve resumo das teorias mais importantes aplicáveis ao IDE.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

No capítulo seguinte caracterizaremos a evolução do IDPE, neste sentido, procederemos a uma análise da sua evolução temporal, distribuição geográfica e sectorial. Aplicaremos ainda, a teoria do Investment Development Path (IDP) ao caso português.

Na terceira parte, começaremos por fazer uma breve revisão da literatura sobre o IDE nos PECOs e, seguidamente, estudaremos as possíveis motivações para investir nestes países e as políticas que os mesmos prosseguem para atrair IDE. Faremos ainda o enquadramento estatístico comparativo destas economias com a UE e Portugal. Ainda nesta parte focaremos a nossa atenção na caracterização do IDE nestas economias, tendo presentes as potenciais consequências do alargamento. Para uma melhor caracterização das determinantes e motivações do IDE nestes países procederemos à estimação de uma regressão econométrica. Por fim analisaremos o caso do IDPE nestes países, debruçando-nos sobre a sua evolução temporal e sobre as suas repartições sectorial e espacial.

Num quarto capítulo caracterizaremos alguns investimentos de empresas portuguesas em alguns destes países à luz das teorias mais relevantes. O objectivo é perceber quais as motivações, as vantagens e o tipo de processo de internacionalização dessas empresas, bem como as dificuldades enfrentadas.

Na última parte procuraremos sintetizar e questionar as conclusões obtidas ao longo do trabalho. Averiguaremos ainda, se os PECOs constituem uma ameaça ou uma oportunidade para as empresas portuguesas.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

2. Teorias sobre Investimento Directo Estrangeiro

A emergência de uma maior integração das economias no comércio mundial, associada à necessidade que as empresas sentem em investir no exterior como forma de aumentar os seus lucros e a sua dimensão, têm conduzido a uma intensificação crescente dos fluxos de investimento entre os diversos países.

Como consequência da grande importância do investimento directo internacional, várias foram as teorias desenvolvidas ao longo do século XX que procuram explicar a actividade das empresas multinacionais e o investimento directo no exterior1. Entre as várias teorias existentes serão abordadas neste capítulo as que mais relevo terão para a análise do IDE de Portugal no Leste Europeu. Assim sendo, referir-nos-emos à Teoria do Processo de Internacionalização das Empresas, à Teoria Ecléctica da Produção Internacional, à teoria do Investment Development Path (Percurso de Desenvolvimento e Investimento dos países) e faremos, ainda, uma breve referência às motivações mencionadas na literatura como sendo as mais usualmente apontadas para justificar a aposta na internacionalização por parte das empresas.

2.1 Teoria do processo de internacionalização de Uppsala

Durante os anos 70, diversos estudiosos nórdicos, criaram uma teoria de carácter comportamental focada no processo de internacionalização das empresas, e que ficou conhecida como fazendo parte da escola de Uppsala. Vários foram os autores que contribuíram para esta teoria e entre eles podemos encontrar Johanson, Valhne, Mattson, Nordstrom e Wiedersheim-Paul. A principal conclusão dos diversos estudos realizados por estes autores é a de que as empresas vão aumentando o seu nível de comprometimento e de conhecimento do país externo de forma gradual e incremental.

No modelo do processo de internacionalização (segundo Johanson e Valhne, 1990) a internacionalização é vista como um processo gradual no qual a empresa vai aumentando o seu conhecimento sobre um mercado externo e o nível de recursos que dedica ao mesmo. À medida que esta aumenta o seu nível de conhecimento sobre um determinado país ela irá fazer incrementos sucessivos de investimento. A correlação positiva entre conhecimento sobre o mercado e investimento resultará da diminuição do risco dos investimentos e da identificação de oportunidades de negócio resultantes de

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IDE no Leste Europeu: o caso português

uma melhor compreensão do ambiente em que a empresa irá investir. O carácter incremental do investimento decorrerá da natureza do conhecimento, ou seja, do facto de haver conhecimento apenas adquirível pela experiência, obtida pela firma quando opera num mercado externo, para além daquele que pode ser ensinado. Assim sendo, a empresa terá que investir de forma incremental como forma de conseguir minimizar os problemas associados ao desconhecimento de um mercado externo. As excepções identificadas por Johanson e Valhne (1990) ao carácter incremental do investimento seriam:

• grandes empresas que pela sua dimensão podem facilmente fazer grandes investimentos, uma vez que estes representam uma pequena parte dos seus activos;

• mercados homogéneos e estáveis e nos quais o conhecimento do mercado pode ser adquirido de outras formas que não através da experiência;

• existência de conhecimento de mercados similares que permita saltar fases do processo.

“O modelo do processo de internacionalização consegue explicar dois padrões na internacionalização da firma” (Johanson e Wiedersheim-Paul, 1975, citado de Johanson e Valhne, 1990: 13).

Um primeiro em que a internacionalização se dá segundo fases encadeadas e em que cada uma destas surge associada a um aumento gradual do nível de conhecimento do mercado e do valor dos investimentos feitos pela firma. A sequência de fases seria: inexistência de exportações regulares da firma para esse mercado; exportação via agentes de vendas independentes; exportação através de uma subsidiária; e, eventualmente, produção em território externo. Um segundo padrão característico da internacionalização das firmas traduz-se no investimento ser feito em mercados onde a distância psíquica é menor e em que, como tal, a incerteza percebida é minimizada. Esta distância é o resultado do grau de similitude da língua, da cultura, do sistema político, estruturas económicas, entre outros factores, sendo que o que as empresas procuram são condições em que seja fácil a empresa aceder e transmitir informações sobre e ao mercado (Valhne e Wiedersheim-Paul, 1973, citado de Johanson e Valhne, 1990). De referir, que em resultado da forte correlação entre distância cultural e geográfica, a distância psíquica surge também normalmente fortemente associada à distância geográfica (Castro, 2000).

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Johanson e Valhne (1990) concluem que o poder explicativo do modelo de internacionalização é elevado nas fases iniciais do processo de internacionalização, enquanto que para fases posteriores do mesmo processo a teoria ecléctica, que iremos introduzir seguidamente, tem maior poder explicativo. Para empresas que iniciam os seus investimentos no exterior o desconhecimento acerca do mercado específico é particularmente relevante, pelo que as teorias de Uppsala são particularmente adequadas. Para empresas com vasta experiência de internacionalização o desconhecimento de um mercado específico é compensado pelo elevado nível de experiência obtido noutros investimentos, situação em que se deve recorrer à teoria ecléctica.

2.2 Paradigma Ecléctico da Produção Internacional

Segundo Dunning (1993) este paradigma foi a resposta por ele dada, em 1977, ao facto de as teorias existentes de explicação da produção internacional serem parciais, e como tal incompletas, e traduziu-se na tentativa de integrar o contributo de Hymer-Kindleberger (1960) e as teorias do Ciclo do Produto (Vernon, 1966) e da Internalização (Buckley e Casson, 1976) num único modelo ecléctico2.

O paradigma assenta na consideração de três tipos de vantagens designadas por OLI:

propriedade (ownership) - uma empresa, de uma dada nacionalidade, pode possuir vantagens de propriedade sobre activos tangíveis ou intangíveis (como capacidades de inovação, de marketing, de gestão, de organização da produção); Dunning (1993) distingue ainda as vantagens que as filiais de empresas já estabelecidas podem desfrutar sobre novas empresas (como acesso privilegiado a factores de produção e a mercados, sinergias, acesso a recursos e conhecimentos da empresa mãe, entre outros) e as que decorrem especificamente da natureza multinacional da empresa (como possibilidade de arbitragem internacional, maior flexibilidade, contratos de fornecimento ao nível global, entre outros);

localização (location) - as vantagens de localização são específicas de uma dada localização e favorecem todas as firmas aí instaladas; este tipo de

2

As referências aos autores principais e às datas de “surgimento” das teorias de Hymer-Kindleberger , do Ciclo do Produto e da Internalização foram retiradas de Castro 2000.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

vantagens pode advir de recursos como capital, trabalho (em termos de qualidade e de quantidade) ou de recursos naturais, ou pode ser resultado de características culturais, institucionais, económicas ou da legislação nacional;

internalização (internalisation)- as vantagens de internalização resultam da superioridade da solução internalização face à alternativa de transacção no mercado; a internalização poderá ser vantajosa em virtude da existência de custos de negociação, de risco moral e de quebra de contratos, da necessidade de garantir uma distribuição com qualidade e de controlar o fornecimento de factores de produção, da possibilidade de aproveitamento de economias entre actividades interdependentes, entre outros;

Considerando estas três variáveis OLI, Dunning construiu a hipótese principal em que se baseia o paradigma na qual defende que o nível e a estrutura das actividades de uma empresa multinacional (EMN) no estrangeiro dependem de quatro factores:

• Da extensão das vantagens sustentáveis, ao nível de um activo, que a empresa tem, face aos seus competidores, a nível internacional, nos mercados em que a empresa pretende operar.

• Sendo a condição anterior satisfeita, a empresa escolherá entre licenciar e/ou vender os seus direitos e investir no exterior. Se for esta última a sua escolha é porque a empresa vê vantagens na internalização que poderão advir de eficiência na gestão da organização ou do poder de monopólio sobre os seus activos.

• Assumindo satisfeitas ambas as condições anteriores, a localização do IDE depende da consideração e comparação das vantagens das várias localizações alternativas.

• “Dada a conGráficoção das vantagens de propriedade, localização e internalização da firma, a extensão até à qual a firma acredita que a produção no exterior é consistente com a sua estratégia global de longo prazo” (Dunning 1993: 79).

O paradigma pode, ainda, ser visto de uma forma dinâmica na qual se considera que as mudanças nos fluxos de entrada e saída de IDE de um país resultam de variações nas vantagens de propriedade das suas empresas face às empresas dos outros países, mudanças na percepção das firmas de que estes recursos são mais bem geridos

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IDE no Leste Europeu: o caso português

internalizando que recorrendo ao mercado e mudanças nas estratégias das firmas que afectem a sua reacção à configuração das vantagens OLI.

Segundo Dunning (1993), este paradigma não traz grande capacidade extra de previsão face ao conjunto integrado das teorias existentes sendo o seu maior contributo a inclusão de variáveis de internalização. Estas últimas deverão então ser consideradas, conjuntamente com as vantagens de propriedade e de localização, para melhor se reflectir e estudar a realidade económica ao nível das EMN.

2.3 As motivações para a produção no exterior

Segundo a tipologia de Dunning (1993), as empresas multinacionais quando investem no exterior fazem-no com quatro motivações principais: procura de recursos, procura de mercados, procura de eficiência e procura de activos estratégicos.

• Procura de recursos – visa o acesso a um recurso barato e abundante, físico ou humano, que não está disponível no país de origem em tão boas condições. Entre os recursos físicos encontram-se minerais, produtos agrícolas, petróleo e aptidões naturais para o turismo. Ao nível dos recursos humanos as EMN procuram mão-de-obra não qualificada e semi-qualificada para os serviços e para as manufacturas trabalho intensivas de exportação para deslocalizarem estas actividades dos países com custos salariais mais elevados. Portugal é receptor deste tipo de investimentos embora esta situação se tenda a alterar com o aumento dos custos salariais.

• Procura de mercados – esta motivação assenta na procura de mercado no país receptor, num país contíguo ou na área de comércio livre em que esse país se possa encontrar. Na maioria das vezes este mercado já era servido por importações da EMN mas devido a aumento de tarifas aduaneiras, ao levantamento de outras barreiras à importação ou a um aumento da dimensão do mercado passa a ser mais rentável para a empresa passar a produzir no país. A empresa terá como objectivo aumentar o seu mercado, protegê-lo da concorrência ou explorar novos mercados. Esta motivação poderá ser necessário seguir clientes, adaptar a produção aos gostos do novo mercado ou anular a desvantagem de desconhecimento da língua, cultura, regulamentações e práticas de negócios do país receptor. O investimento no exterior poderá trazer economias de escala, diminuição de custos de transporte ou a

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IDE no Leste Europeu: o caso português

concretização duma estratégia global de presença física nos mercados mais importantes.

• Procura de maior eficiência – esta estratégia traduz-se na procura de ganhos de eficiência com a dispersão espacial das actividades da empresa e a sua gestão por um centro de decisão global. Pretende-se diversificar o risco e aproveitar economias de escala e de gama decorrentes da aprendizagem feita na produção em diversos países e da possibilidade de arbitrar custos. A procura de eficiência traduz-se na tentativa de produzir em cada país de acordo com os recursos deste, na exploração de vantagens comparativas entre territórios adjacentes e no aproveitamento de economias de escala e de gama.

• Procura de activos estratégicos – neste caso as empresas buscam activos que permitam fortalecer a empresa e/ou enfraquecer os concorrentes. Os benefícios resultantes para a EMN poderão ser economias na produção, acesso a novos mercados, aumento do poder de mercado, diminuição dos custos das transacções e de custos administrativos e diversificação do risco. Várias são as formas que estes investimentos podem assumir: investimento para impedir que o concorrente o faça;

joint ventures com um terceiro para ganhar peso face a um rival maior; aquisição de

fornecedores; aquisição de distribuidores para melhor promover os seus produtos; aquisição de empresa de produtos complementares para melhorar a oferta aos seus clientes; compra de activos que permitam uma posição mais favorável na negociação com o governo estrangeiro.

Existem ainda outras motivações para a produção no exterior como a necessidade de escapar de legislação restritiva no país de origem, a necessidade de actividades de suporte, por exemplo à exportação e à negociação com fornecedores estrangeiros, ou o investimento sem estratégia activa.

Estas motivações podem ser conjugadas e alterar-se ao longo da vida do investimento da empresa no exterior. Uma empresa pode investir no exterior com o intuito inicial de aproveitar recursos e mercados, mas pode com o decurso do tempo usar este investimento para, partindo dele, alargar os seus activos estratégicos ou mesmo aumentar a sua eficiência a nível global, aproveitando, por exemplo, o melhoramento das infra-estruturas e do nível das qualificações da mão-de-obra do país estrangeiro.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

2.4 Investment Development Path (Percurso de Investimento e Desenvolvimento)

Esta teoria macroeconómica é uma aplicação do paradigma OLI, e foi, segundo Dunning e Narula (1988) apresentada pela primeira vez por John Dunning em 1979 numa conferência sobre “Empresas Multinacionais de Países em Desenvolvimento”. A hipótese básica é a de que o stock de IDE de um país está correlacionado com o nível de desenvolvimento do mesmo (medido pelo produto per capita). É assumido que à medida que um país se desenvolve a sua configuração OLI altera-se, ou seja, as condições enfrentadas pelas empresas domésticas e pelas empresas estrangeiras alteram-se (Castro, 2000). O modelo considera ainda que o stock de IDE é influenciado pelo nível de desenvolvimento de um país e que este mesmo stock afecta o nível de desenvolvimento desse mesmo país.

Esta teoria identifica cinco fases ou estágios de desenvolvimento que os países atravessam e que podem ser classificadas de acordo com a propensão que esses países têm para ser investidores ou receptores de investimento directo (Dunning e Narula, 1998).

Numa primeira fase o país não atrai investimento, porque não possui vantagens de localização suficientes, nem investe no exterior, dado que as suas empresas não possuem as necessárias vantagens de propriedade. A excepção à inexistência de vantagens de localização poderá ser a existência de eventuais vantagens associadas à existência de recursos naturais valiosos que possam justificar o investimento de empresas estrangeiras.

No estádio seguinte, em que o país, devido às políticas governamentais, já melhorou ao nível dos recursos, capacidades e mercados, altera-se a posição do mesmo para receptor líquido de IDE. Este investimento é feito em sectores tradicionais trabalho-intensivos, na distribuição, nos transportes e comunicações, na construção e no turismo. Frequentemente este estádio surge associado à imposição de tarifas alfandegárias (Castro, 2000). O investimento no estrangeiro continua a ser muito baixo pois o tecido industrial destes países assenta nos sectores tradicionais onde as vantagens de propriedade são diminutas.

Numa terceira fase, vantagens como baixos custos do trabalho e abundância de recursos naturais deixam de ser significativas, o que induz que empresas domésticas e multinacionais optem pela produção noutros países. Ao mesmo tempo a acumulação de

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IDE no Leste Europeu: o caso português

capital humano, de capacidade de inovação e o desenvolvimento dos mercados permitem às empresas ganhar as suas próprias vantagens de propriedade pelo que estas começam a fazer investimentos no exterior. Por tudo isto, o país passa de mero receptor de IDE para receptor e investidor simultaneamente, ainda que com entradas de IDE superiores a saídas.

Numa quarta fase, em que o país já é bastante desenvolvido as vantagens OLI são tais que o stock líquido de IDE é positivo, ou seja, o stock de investimento no exterior é superior ao stock de investimento do exterior no país. Nesta altura são elevados os fluxos de IDE, quer de entrada quer de saída, crescendo os fluxos de saída a ritmos superiores aos fluxos de entrada.

“ Nesta fase, as firmas domésticas conseguem não só competir efectivamente com firmas detidas por estrangeiros em sectores domésticos nos quais o país de origem desenvolveu uma vantagem competitiva, mas também conseguem penetrar em mercados externos.” (Dunning e Narula 1998: 6)

Numa quinta e última fase, o stock de IDE líquido do país começa por cair de valores positivos, que se verificavam na fase anterior, para valores à volta de zero mantendo-se a flutuar em torno dos mesmos. Nesta fase encontram-se actualmente os países mais desenvolvidos fruto duma igualização das vantagens de localização entre países e do aumento da proporção de transacções internacionais internalizadas pelas multinacionais (Dunning e Narula, 1998).

Durante todo este processo os fluxos de investimento são, obviamente, influenciados pelas estratégias das empresas e pelas políticas governamentais em relação à matéria (criação de vantagens no país para atrair IDE e investimento das firmas domésticas, bem como apoio do governo ao investimento no exterior das firmas nacionais) (Dunning, 1993).

A importância desta teoria reside na visão dinâmica que traz para análise do IDE das nações. De facto, na medida em que estamos perante um processo contínuo, a evolução passada das variáveis OLI para um país determina a posição em termos de IDE em que esse país se encontra.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

2.5 Aplicabilidade da teoria ao nosso estudo

As teorias por nós destacadas anteriormente serão importantes para enquadrar a forma como se abordará o tema em questão. Tentaremos utilizar as diversas contribuições teóricas para testar as hipóteses referidas na introdução deste estudo.

Numa primeira abordagem macro-económica será relevante utilizar a teoria do “Investment Development Path” para caracterizar a evolução do IDE português ao longo dos últimos anos. O objectivo será constatar até que ponto a teoria prevê e explica a evolução do IDE para o caso português e as razões que explicam essa evolução.

Na fase seguinte do nosso estudo, em que faremos inquéritos a empresas que tenham investido nos países da Europa de Leste, tentaremos identificar as razões desse investimento e caracterizar o tipo de acções realizadas por essas empresas. Partiremos da “Teoria Do Processo De Internacionalização Das Empresas” como forma de compreender se as empresas portuguesas que vêm investindo no Leste Europeu o fazem de forma incremental, tal como o modelo prevê, ou se não há padrão comum que possa ser identificado. Ainda nesta fase do estudo recorreremos à “Teoria Ecléctica” para percebermos que tipo de vantagens possuíam as empresas portuguesas para se aventurarem num investimento nos PECOs. Por fim tentaremos identificar as motivações principais que levam as empresas portuguesas a investirem no Leste Europeu.

Será então esta a orientação teórica básica do nosso estudo. Tentaremos realçar no decurso do trabalho a base teórica utilizada quando considerarmos ser importante fazer referência específica à teoria.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

3. Enquadramento do Investimento Directo de Portugal no Exterior

3.1 Investimento Directo de Portugal no Exterior

O investimento de Portugal no exterior tem sofrido uma clara evolução recente, sendo relevante nesta parte do trabalho caracterizar a mesma no intuito de melhor compreender o caso especifico do investimento português nos países do Leste Europeu.

A metodologia utilizada nesta parte consistirá na recolha dos dados estatísticos existentes para servir de base a uma análise do fenómeno do IDPE.

3.1.1 Evolução temporal

O Investimento Directo de Portugal no Exterior líquido cresceu catorze vezes entre 1996 e 2001, de 604 para 8453 M €, tendo nos anos seguintes decrescido de forma muito mais acelerada chegando o IDPE líquido em 2003 a 85 M €. O investimento bruto e o desinvestimento cresceram até 2001 tendo diminuído posteriormente.

Quadro 1

Investimento Directo de Portugal no Exterior (milhares de euros) Investimento Bruto Desinvestimento Investimento líquido

1996 985323 381213 604108 1997 2333299 650377 1682923 1998 9538580 6082737 3455842 1999 10184582 7210706 2973878 2000 15603312 7449666 8153646 2001 14993839 6541055 8452786 2002 8482841 4988346 3494498 2003 3788313 3703700 84614

Fonte: Banco de Portugal

3.1.2 Análise por país de destino

O IDPE caracteriza-se pela sua concentração nos países com os quais a proximidade geográfica e/ou cultural é maior. De facto, no período de 1996 a 2003, a Espanha e o Brasil têm dominado a captação do IDPE. Estes dois países repartem entre si cerca de 61% do total de investimento português no exterior, sendo que ao longo do período o Brasil têm atraído constantemente maior volume de IDPE que a Espanha.

Importa ainda acrescentar que o restante IDPE reparte-se por um conjunto extenso de países, sendo que a importância de cada um deles para o total do IDPE é ainda bastante reduzida (o terceiro maior receptor liquido de IDPE é o Reino Unido com apenas 2,9 % do total de IDPE) .

(21)

IDE no Leste Europeu: o caso português

Gráfico 1

Repartição geográfica do IDPE (96-03)

0% 26% 1% 3% 36% 0% 2% 32%

Alemanha Espanha França Reino Unido

Brasil Suíça EUA Outros

3.1.3 Análise Sectorial

O IDPE concentrou-se esmagadoramente, entre 1996 e 2002, no sector das “Actividades imobiliárias, alugueres e serviços prestados às empresas”, com 69% do IDPE líquido total. Para além deste sector só o “Comércio por grosso e a retalho e reparação de veículos automóveis” e as “Actividades financeiras” têm mais de 10% do total acumulado para o IDPE líquido.

A conclusão a retirar é que o investimento de Portugal no exterior está muito concentrado num reduzido número de sectores, que serão aqueles em que o nosso país consegue apresentar know-how ao nível das empresas internacionais.

Gráfico2

IDPE por sector entre 96-02

69% 12% 10% 3% 2% 1% 2% 1% Actividades imobiliarias, alugueres e serviços prestados às empresas Comércio por grosso e a retalho. Reparação de veiculos autom. Actividades financeiras Indústrias transformadoras Produção e distribuição de electricidade,gás e água Sector não ident. e particulares Construção

Assim sendo, em breves palavras, podemos dizer que o IDPE tem crescido de forma acelerada nos últimos anos, verificando-se uma clara concentração geográfica do

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IDE no Leste Europeu: o caso português

investimento no sector dos serviços. Importa destacar que os países do Leste são ainda um destino pouco importante do IDPE.

3.2 Aplicação da teoria do IDP ao caso português

A teoria do IDP (Dunning, 1979) relaciona o nível de desenvolvimento de um país com os fluxos de IDE que entram e saem desse mesmo país. O que o IDP postula é que à medida que um país se desenvolve e as vantagens de localização, propriedade e internalização, das suas empresas e do próprio país, se vão alterando, há uma alteração progressiva dos fluxos líquidos de investimento directo. Neste contexto, a teoria estabelece uma relação entre o stock de investimento líquido externo per capita (entradas menos saídas líquidas acumuladas de IDE) e o PIB per capita. Atentemos, para uma melhor compreensão da teoria, no gráfico exemplificativo seguinte3:

Gráfico3

Como se pode verificar são assumidas diversas fases pelas quais os diversos países tenderão a passar no seu ciclo de desenvolvimento e investimento. Também para Portugal se pode estabelecer um certo nível de concordância entre o que é previsto na teoria e a interacção efectiva entre desenvolvimento e fluxos de investimento.

Numa primeira fase anterior aos anos 60 teríamos um país fechado ao investimento directo (do exterior e no exterior) em virtude de opções políticas, da falta de capacidade das empresas nacionais para investir no exterior e da falta de atractividade do país para o investimento de outros países. A partir dos anos 60 Portugal terá entrado numa segunda fase em resultado de uma maior abertura do regime político ao investimento do exterior. Isto mesmo se consubstanciou na adesão à EFTA em 1960 e ao GATT em 1961. Até esta fase Portugal não apresentava níveis elevados

3

Gráfico desenhado pelos autores que pretende exemplificar o IDP português. Consideramos que a fase 4 começa com um stock de IDE líquido negativo, tal como em Dúran e Úbeda (2002)

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IDE no Leste Europeu: o caso português

de investimento no exterior sendo que apenas se podiam identificar investimentos esporádicos dos grandes grupos económicos nacionais nas antigas colónias, sobretudo em indústrias ligeiras e relacionadas com o tratamento primário de matérias primas das colónias, e nos países com forte presença de emigrantes portugueses, especialmente no sector bancário (Simões, 1985). Por volta do início dos anos 80 as perspectivas de entrada na CEE, confirmadas em 1986, conjuntamente com uma maior estabilidade política, económica e social permitiram um aumento significativo das entradas de IDE (Castro, 2004). Contudo a crise económica do início dos anos 90, a queda do muro de Berlim e a subsequente concorrência do Leste Europeu, e a diminuição das privatizações traduziram-se numa quebra das entradas de investimento directo (Castro, 2004). Apenas na ultima década e meia assistimos ao surgimento de um movimento importante ao nível do IDPE (Castro, 2004). A quebra do IDE líquido recebido conjugada com um claro aumento do IDPE líquido, traduz-se, em termos do modelo do IDP, no que se poderia chamar de quarta fase, a qual terá tido início em meados dos anos 90 (Castro, 2004), e durante a qual um país altera a sua situação de receptor líquido de IDE para investidor líquido. No entanto, o que o modelo prevê será a alteração das vantagens OLI do país e a manutenção de elevados níveis de IDE recebido que acabarão por ser superiorizados por uma clara subida do IDE feito pelo país em questão. Como tal, apesar de Portugal apresentar uma passagem de receptor para investidor líquido, esta transição fica em muito a dever-se a uma queda dos fluxos de IDE recebidos em resultado da queda da competitividade do nosso país como localização a considerar pelas empresas estrangeiras para se investir (Castro, 2004), o que não estará totalmente de acordo com o que a teoria prevê.

A situação ao nível do IDPE será mais positiva na medida em que se tem assistido a uma tendência recente de internacionalização das empresas portuguesas. Para além desta tendência verifica-se uma diversificação dos destinos do investimento português que, embora ainda muito concentrado na Espanha e no Brasil, por razões de proximidade geográfica e linguística, tem vindo a direccionar-se para outros países entre os quais diversos países do Leste Europeu. Esta viragem para leste poderá indicar que as empresas começam a ter vantagens que lhes permitem ultrapassar maiores distâncias culturais e geográficas quando da realização de investimentos no exterior.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

4. Investimento Directo Estrangeiro nos Países da Europa Central e

Oriental

Iremos agora estudar o IDE nos PECOs, começando por fazer uma breve revisão acerca da literatura existente sobre o tema e ver se as motivações para o investimento apontadas pelos diversos autores se verificam nestes países. Analisaremos ainda as políticas seguidas por estes países no sentido de atraírem investimento e faremos uma análise estatística.

4.1 Breve revisão da literatura sobre IDE nos países do Leste Europeu

Segundo Altomonte e Guagliano (2001), os PECOs só recentemente se tornaram um dos destinos do IDE, tendo a última década sido caracterizada por um forte aumento do volume dos fluxos recebidos por estes países, muito por causa do processo de transição de economias socialistas para economias de mercado. Da mesma opinião partilham Carstensen e Toubal (2003), referindo que um dos factores que estimulou estes fluxos de investimento foi certamente uma procura de mercado. Tal hipótese ganha força se tivermos em consideração que os investimentos têm origem em países como a Alemanha, a Holanda ou a Áustria, alguns dos países da UE mais próximos dos PECOs. Um outro factor importante para este aumento dos influxos de investimento para estes países é o baixo custo da sua mão-de-obra (Barry, 2001) que não está correlacionado, segundo Ekholm e Markusen (2002), com baixas produtividades (ajustando as duas variáveis conclui-se que os salários reais destes países são mais baixos que a média comunitária).

O processo de privatização de que estão a ser alvo as empresas destes países tem sido um dos principais destinos para o IDE por eles recebido, estando os investidores a comprar as empresas estatais para se sediarem nestes mercados. Além disto, também o intensificar de relações com a UE e a correspondente celebração de acordos comerciais tem contribuído para que os PECOs sejam cada vez mais países receptores de investimento (Altomonte e Guagliano, 2001).

Ekholm e Markusen (2002) referem ainda que o aumento do IDE nos PECOs se fica também a dever à estabilidade que estes países estão a ganhar, à abundância de mão-de-obra e à existência de infra-estruturas cada vez mais robustas, cumprindo estes países todos os requisitos procurados pelo IDE e tornando-se assim numa localização bastante apetecível como destino do investimento. Também Picciotto (2003) refere que a estabilidade política, a existência de um melhor sistema legal e a diminuição dos

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IDE no Leste Europeu: o caso português

níveis de corrupção do país são factores importantes aos olhos dos investidores e que poderão determinar a continuação de níveis de IDE elevados nestes países.

Todos estes factores, associados às políticas de incentivo ao investimento promovidas por estes países e o nível de risco que cada país apresenta são, para Carstensen e Toubal (2003), as determinantes que podem influenciar os fluxos de IDE para um país, tendo estas variáveis sido usadas no seu modelo econométrico como variáveis explicativas dos fluxos de IDE recebidos por cada país. Este estudo econométrico vem confirmar a grande importância que a procura de novos mercados tem nas decisões de investimento, seguida da existência de vantagens comparativas como por exemplo os baixos custos da mão-de-obra. O estudo demonstrou ainda que se existir risco país, caracterizado por uma incerteza legal, política ou económica, este é um factor que retrai os níveis de investimento. Barry (2001) salienta ainda que estes países, fruto do IDE recebido, sofreram um importante processo de desenvolvimento, o que lhes foi retirando gradualmente a vantagem custo, embora os influxos de IDE não tenham diminuído. Tal paradoxo pode ser explicado por uma alteração do objectivo do IDE para “market seeking” e “strategic asset seeking”, substituindo o até então habitual “efficiency seeking”, visto que os PECOs apresentam-se actualmente como um grande mercado e que tem ainda um forte potencial de crescimento.

Buch et al. (2002) puseram a hipótese de que estaria a haver uma deslocalização do investimento do Sul europeu para o Leste europeu. Para testar tal possibilidade realizaram um estudo no qual concluíram que a procura de novos mercados influencia mais os fluxos de IDE para um país do que os seus baixos custos salariais mas não encontram evidências convincentes de que exista um redireccionamento do investimento do Sul para o Leste Europeu. O que se conclui é que os PECOs são países que estão em ascensão, daí o aumento dos níveis de IDE, enquanto que os países do Sul europeu estão já a atingir os seus níveis de IDE de equilíbrio, tendendo a diminuir os fluxos de investimento. Também Altomonte e Guagliano (2001) concluem que o IDE nos PECOs surge como consequência da procura de mercados e de eficiência por parte de empresas multinacionais, tendo estes países um maior potencial para satisfazer estas necessidades por parte das empresas do que a generalidade dos países mediterrâneos.

Mas todas estas condições favoráveis que estes países apresentam relativamente ao IDE, é preciso não esquecer, tal como refere Bellak (2004) que para que os países

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IDE no Leste Europeu: o caso português

vejam os seus influxos de IDE a aumentar terão também que lutar por eles, com políticas de promoção do IDE. Estas políticas, além de aumentarem o fluxo agregado de IDE, podem também determinar a distribuição espacial do IDE, caso os países entendam atribuir incentivos mais fortes para promover o desenvolvimento de algumas regiões mais desfavorecidas.

4.2 Motivações para investir nos PECOs: Enquadramento estatístico comparativo

A análise irá incidir sobre os Países da Europa Central e Oriental (PECOs) com os quais Portugal estabelece relações em termos de IDE mais significativas. Assim sendo, os PECOs considerados na análise comparativa serão a Polónia, a República Checa, a Hungria, a Roménia e a Bulgária. Utilizaremos como metodologia a recolha dos dados estatísticos publicados e a sua posterior análise.

Com o intuito de atender à situação actual de integração na UE, os indicadores em causa serão, sempre que possível, comparados com a média dos países da União Económica e Monetária (UEM).

Os PECOs seleccionados têm um nível de produtividade, medido pelo PNBpc (à

PPC) no ano 2000, inferior ao nível da economia portuguesa e bastante a baixo do nível da UEM. De facto, países como a Bulgária e a Roménia têm uma produtividade média de cerca de 25% da média da UEM. A Polónia, a Hungria e a República Checa têm níveis de produtividade superiores mas ainda distantes do nível da economia portuguesa ( 72% da média da UEM). A comparação deste indicador com a Formação Bruta de Capital (medida em % do PIB) para as diversas economias sugere a importância que a atracção de IDE tem para estes países no sentido destes aumentarem as suas dotações de capital e as suas produtividades.

A importância do IDE no impulsionar do crescimento destas economias é ainda maior na medida em que estamos perante economias com uma população escolarizada. Nas economias em causa a escolaridade média é superior à média da UEM.

O facto de estarmos perante países que têm vindo a ser receptores líquidos de IDE, que possuem uma mão de obra relativamente qualificada e que ainda apresenta valores baixos de produtividade justifica que previsões do Eurostat estimem um acréscimo da produtividade por trabalhador nestes países em comparação com a média da UE-15.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Quadro 2

1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004

UE (15 países) 100.0(e)100.0(e)100.0 100.0 100.0 100.0 100.0 100.0 100.0 100.0 100.0(f) 100.0(f)

Zona Euro 103.5(e)103.4(e)103.4 103.3 102.9 103.0 102.8 102.3 101.4 101.0 100.8(f) 100.6(f)

Zona Euro (12 países) 102.9(e)102.7(e)102.6 102.6 102.3 102.2 102.1 101.7 101.4 101.0 100.8(f) 100.6(f) Portugal 56.5 (e) 56.0(e) 57.6 61.6 62.2 62.9 64.5(f) 64.6(f) 64.7(f) 65.0(f) 63.9(f) 62.9(f)

Países Candidatos : : : : : : : 49.8 50.9(f) 52.2(f) 53.6(f) 54.5(f) Bulgária : : : 26.9 26.1 26.8 27.8 29.8 31.0 31.1(f) 32.3(f) 33.4(f) Rep. Checa : : : : : : : 52.7 53.1 53.7(f) 54.7(f) 55.4(f) Húngria : : 53.7 53.7 55.2 56.2 56.3 57.6 60.9 62.6(f) 64.2(f) 65.3(f) Polónia : : : 42.3 40.0 42.5 45.8 47.6 47.9 48.8 50.3(f) 51.2(f) Roménia : : : : : : 27.2 26.6 28.5 32.9(f) 34.4(f) 35.5(f) (e) (f) (:) Não Disponivel Fonte : Eurostat

Produtividade por trabalhador

PIB (ppc) por trabalhador em relação à EU-15 (EU-15=100)

Valor estimado Valor previsto

Um outro aspecto relevante para caracterizar estes países é a relação entre custo e produtividade da mão de obra. Ao nível do custo podemos começar por referir que o salário médio na indústria manufactureira na Bulgária e Roménia é de cerca de 20% do salário médio na indústria manufactureira em Portugal. Para os outros três países em análise, este indicador apresenta valores mais altos, sendo de 27% na Polónia e aproximadamente 60% na Hungria e República Checa. Estes valores baixos para os custos salariais possibilitam que na Polónia, Hungria e Roménia haja uma maior produtividade por trabalhador por unidade de custo maior que em Portugal, apesar de a produtividade que estes países apresentam ao nível da indústria manufactureira ser bastante reduzida.

Importa acrescentar que o salário médio nestes países tem crescido significativamente. De facto na Hungria e na Polónia este cresceu cerca de 50% no período 98-02, apesar de taxas de desemprego relativamente elevadas. Este crescimento dos salários tem várias implicações em termos de atracção de IDE:

• à medida que os salários aumentam, estes países deixam de ser tão atractivos para o IDE que visa a fragmentação internacional da produção por factores custo;

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IDE no Leste Europeu: o caso português

• o aumento do salário médio acarreta um aumento do poder de compra da mão de obra, o que torna o IDE baseado na “busca” de mercados mais provável.

Com a entrada na UE, os países terão acesso não só ao mercado local de cada país, que em alguns casos é um mercado relativamente extenso, mas também a uma área (PECOs) onde o comércio não era livre favorecendo a perspectiva de posicionar uma empresa num país abastecendo livremente toda essa região. De facto, a dimensão da população em países como a Polónia (39M) e a Roménia(22M), associada a um crescimento acelerado da produção nestes países (acima do ritmo de crescimento de Portugal no período 1993 a 2001) tornam estes países em mercados apetecíveis para as empresas investidoras.

Quadro 3

Portugal Polónia Rep. Checa Hungria Roménia Bulgária UEM PNB(ppc) pc $ (2000) em % da EU * 0,71992 0,3814 0,5838983 0,5081 0,26949 0,2356 1

População (milhões, 2000) * 10 39 10 10 22 8 304

Taxa de Desemprego (1998-2000) * 3,8 16,7 8,8 6,5 10,8 16,3 9,8

Salário médio na indústria manufactureira

$/ano (95-99),(Portugal = 100) * 100 0,2748 0,6116723 0,6021 0,1908 0,189 N/D

Escolaridade média (2000) * 5,9 9,8 N/D 9,1 N/D N/D 8,4

Formação Bruta de Capital (% PIB) * 28 27 30 31 19 17 22

(Valor acrescentado/Salário médio) por

trabalhador * 2,76944 4,4557 1,3352556 2,9076 2,92605 N/D N/D Taxa de Crescimento do PIB (98-02) % ** N/D 47,606 32,320442 50,476 7,38255 25,962 N/D Taxa de Crescimento do PIB ( 93-01)%

*** 27,292 104,96 65,16313 34,54 42,073 25,1 N/D

* Fonte: World Development Indicators 2002 ** Fonte: Central Europe Database

***World Developement Indicators 2003

Indicadores Macro-económicos

Se considerarmos, para além destas perspectivas de aumento dos mercados internos, que estamos perante economias nas quais a produtividade por unidade de custo da mão de obra é elevada, facilmente percebemos porque estas economias são destinos atractivos para investimentos externos.

4.3 Políticas no sentido de atracção de IDE

Para além das características endógenas dos países seleccionados e que servem de motivação ao IDE, estes países prosseguem também um conjunto de políticas com vista a atraírem um volume ainda maior de investimento. Estas políticas vão desde a redução

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IDE no Leste Europeu: o caso português

de taxas aos subsídios na compra de infra-estruturas, passando por benefícios fiscais ou mesmo por subsídios à criação de empregos.

Uma das principais políticas seguidas pelos países prende-se com a redução de taxas para empresas investidoras, sendo esta uma medida adoptada em todos os PECOs que analisamos. Na Bulgária as taxas de imposto sobre os rendimentos de empresas são actualmente de 19,5%, mas baixarão no próximo ano para os 15%. No entanto, no caso de investimentos em regiões com elevadas taxas de desemprego este país, com vista a fomentar a criação de empregos, isenta mesmo as empresas do pagamento de qualquer taxa. Na Roménia existe uma redução de 50% na taxa sobre terrenos e edifícios para empresas ligadas ao turismo e cuja actividade dure menos que 5 meses por ano fiscal e uma redução ou isenção de pagamentos de taxas por um determinado período de tempo (varia consoante os investimentos) para empresas de outros sectores de actividade. Na República Checa as reduções na taxa de imposto sobre rendimentos, prolongam-se durante dez anos, sendo esta redução total no caso de empresas que se instalem na Hungria e parcial no caso de empresas já instaladas e que resolvam expandir-se.. Também na Roménia e na Polónia a redução das taxas locais como forma de atrair investimento é uma prática corrente.

Mas estes países não se ficam por meras reduções nas taxas de imposto como forma de atraírem investimento estrangeiro. Utilizam também outros benefícios fiscais como por exemplo na Bulgária onde as taxas de amortização são aumentadas, passando a ser de 30% para equipamento e maquinaria e de 50% para hardware e software, como forma de as empresas recuperarem o mais depressa possível os montantes investidos. Além disto há ainda que considerar os acordos internacionais que todos estes países têm com vista à eliminação da dupla tributação internacional de rendimentos, para que as empresas investidoras não tenham que pagar nos seus países de origem montantes avultados em impostos e que possam desencorajar a sua internacionalização.

Para atraírem investimento estrangeiro estes países não se limitam a conceder incentivos fiscais. É prática comum nestes países os subsídios ao melhoramento de infra-estruturas e compra de equipamentos, sem esquecer os subsídios na aquisição de terrenos. Neste último caso o que se passa muitas das vezes é que o Estado vende os seus próprios terrenos com condições bastante favoráveis, vendendo os terrenos abaixo do seu valor para que o baixo custo de aquisição de terrenos por parte das empresas seja

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IDE no Leste Europeu: o caso português

também um factor positivo quando se equaciona a realização de um investimento nestes países. Há ainda a referir um outro aspecto que os PECOs têm tomado em consideração no sentido de atraírem investimento estrangeiro e que se prende com questões burocráticas, havendo a preocupação por parte destes países em reduzir o tempo necessário para autorizações e legalizações, com vista a tratarem o melhor possível os investidores estrangeiros.

Outro dos objectivos dos PECOs prende-se com a criação de empregos, para reduzir as taxas de desemprego que são bastante elevadas em algumas regiões. Para tal, utilizam bastantes políticas de promoção de emprego, incentivos estes que tomam geralmente a forma de subsídios estatais. Na República Checa os subsídios vão desde os 80000 CZK até aos 200000 CZK por trabalhador empregado, dependendo do nível de desemprego das regiões. Já na Polónia estes subsídios são de 4000€ por cada emprego criado, havendo também subsídios suplementares se a empresa empregar desempregados ou portadores de algum tipo de deficiência.

Além do desejo de atracção de fluxos de investimento e de diminuição dos níveis de desemprego, outra das preocupações destes países tem a ver com a formação profissional das suas populações e com o progresso tecnológico conseguido. Para tal, países como a Hungria, a República Checa e a Polónia subsidiam as despesas de investigação e desenvolvimento e contribuem nos custos das empresas com a formação dos seus trabalhadores. Estes contributos são, a título de exemplo, de 25 a 35% dos custos por trabalhador no caso da República Checa e de um valor fixo que pode ir até 1150€ por trabalhador no caso da Polónia.

Através destas políticas estes países procuram alargar o leque de motivações para investir nos PECO, que como vimos atrás era já bastante alargado, dadas as características endógenas por eles apresentadas.

4.4 IDE nos Países da Europa Central e Oriental (PECOs)

4.4.1 Evolução temporal

As entradas de IDE nos PECOs têm crescido de forma exponencial na última década. No entanto, este facto só foi possível devido ao reduzido valor do IDE nos inícios dos anos 80.

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IDE no Leste Europeu: o caso português

A aproximação destas economias aos regimes políticos da Europa Ocidental, a maior estabilidade política e económica (Picciotto, 2003), o elevado número de privatizações (Altomonte, 2001) e a perspectiva de adesão à UE (Buch, 2002) criaram as condições para um crescimento acelerado do IDE nestes países. De facto as entradas de IDE no conjunto destes países no início da década de 90 era de apenas 640 (M $) sendo que no final de 2002 as entradas de IDE atingiram os 28700 (M$)1.

No entanto apesar do crescimento significativo recente nos países em causa, este investimento representa ainda um valor quase insignificante quando comparado com o IDE recebido pelos 15 países da U.E.. Em 2002, o IDE recebido pelos 10 países do alargamento correspondia apenas a cerca de 6% do IDE captado pelos 15 países da U.E..

Importa ainda acrescentar que o IDE recebido pelos países do alargamento e pelos 5 países em estudo sofreu, inclusivé, um decréscimo no período de 1998 a 2003 quando relativizado pelo IDE captado pelos 15 países da U.E.

Quadro 4

Entradas de Investimento Directo Estrangeiro (milhões de dólares)

1998 1999 2000 2001 2002

Valor % UE Valor % UE Valor % UE Valor % UE Valor % UE Mundo 686028 274,48 1079083 226,92 1392957 203,68 823825 211,55 651188 173,94 U.E. 249934 100,00 475542 100,00 683893 100,00 389432 100,00 374380 100,00 Portugal 3144 1,26 1234 0,26 6787 0,99 5892 1,51 4276 1,14 10 países do alargamento 15403 6,16 18692 3,93 20617 3,01 17972 4,61 21526 5,75 5 países em estudo 14670 5,87 17417 3,66 17998 2,63 15762 4,05 15877 4,24 República Checa 3700 1,48 6310 1,33 4984 0,73 5639 1,45 9319 2,49 Hungria 2037 0,82 1977 0,42 1646 0,24 2440 0,63 854 0,23 Polónia 6365 2,55 7270 1,53 9341 1,37 5713 1,47 4119 1,10 Roménia 2031 0,81 1041 0,22 1025 0,15 1157 0,30 1106 0,30 Bulgária 537 0,21 819 0,17 1002 0,15 813 0,21 479 0,13 Fonte:World Investment Report 2003

4.4.2 Análise por país investidor

Os PECOs são na sua generalidade receptores líquidos de IDE sendo que este concentra-se sobretudo num conjunto restrito de países constituído pela Polónia, Rep. Checa e Hungria. De facto, a capacidade de atracção de IDE, por parte destas

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IDE no Leste Europeu: o caso português

economias, parece depender do processo de transição (nomeadamente o estabelecimento de quadros legais adequados), da localização geográfica e da actuação do governo.

Quadro 5

Stock entradas de IDE (em milhões de dólares), 2001

PECOs Percentagem do stock entradas IDE nos PECOs

Bulgária 3,17% Rep. Checa 22,00% Estónia 2,59% Hungria 19,37% Letónia 1,82% Lituânia 2,19% Polónia 34,88% Roménia 6,28% Eslováquia 5,02% Eslovénia 2,67%

Este IDE provém na sua esmagadora maioria dos países da União Europeia (Barry, F., 2002). Em países como a Polónia, Hungria, Rep. Checa, Roménia4 e Bulgária, a percentagem do IDE originário em países da UE encontra-se entre os 55% e os 88%. Este facto é surpreendente na medida em que com a perspectiva de adesão dos PECOs à UE, estes poderiam funcionar como plataforma de acesso aos mercados da UE. O gráfico seguinte, referente à Polónia, é exemplificativo do fenómeno em questão5.

IDE na Polónia por origem geográfica, 98-00

88% 2% 7% 1%

0% 1% 1%

União Europeia Outros paises ocidentais América do Norte Outros paises desenvolvidos Paises em vias de desenvolvimento Europa Central e de Leste Paises não especificados

Gráfico 4

4

medido pelo número de participações de empresas estrangeiras na Roménia

5

Em anexo são apresentados os gráficos referentes à Rep. Checa, Hungria, Bulgária e Roménia (Gráficos 3 ,5, 7, 9)

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IDE no Leste Europeu: o caso português

A distribuição do IDE oriundo da UE captado por estes países é mais equitativa. No entanto no que se refere à Polónia, Rep. Checa, Hungria e Roménia o IDE captado da Holanda, Alemanha e França corresponde a cerca de 60% das entradas de IDE da UE nesses países. O IDE da Bulgária é sobretudo originário da Áustria e Grécia.

Mais uma vez recorremos ao gráfico da situação polaca para exemplificar a importância que cada país europeu tem no IDE europeu total nos cinco países em estudo6.

Gráfico 5

Contribuição para IDE europeu na Polónia, 98-00

Austria Belgica e Luxemburgo Dinamarca

Finlândia França Alemanha

Grécia Irlanda Itália

Holanda Portugal Espanha

Suécia Reino Unido

A importância da UE, e de alguns dos seus países em particular, no IDE captado pelos PECOs pode ser justificada pelo facto de o IDE ser em parte determinado pela proximidade geográfica e cultural. Isto mesmo está previsto na “Teoria do processo de Internacionalização das Empresas” que postula que a as empresas, pelo menos numa fase inicial da sua expansão externa, tendem a investir em locais com uma distância psíquica reduzida. Neste caso esta distância trata-se sobretudo de distância física, ou seja, os que mais investem são países relativamente próximos dos PECOs cujo caso mais evidente é a Alemanha que faz fronteira com alguns desses países. Mais claro isto se torna ao observarmos que as zonas fronteiriças são conjuntamente com as áreas metropolitanas as que recebem mais IDE e que este provém sobretudo do país vizinho. (Pavlínek P., 2004)

6

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IDE no Leste Europeu: o caso português

4.4.3 Análise Sectorial

O IDE captado pela Polónia, Rep. Checa, Roménia7, Hungria e Bulgária apresenta, claramente, uma tendência de concentração nas actividades do sector terciário. Nestes países, entre 56% e 77% do total de IDE atraído foi feito em actividades ligadas ao sector terciário. Mais uma vez usamos a Polónia como exemplo8.

Gráfico 6 I D E n a P o l ó n i a , p o r s e c t o r ( 9 6 - 0 0 ) 0 % 2 4 % 5 6 % 2 0 % S e c t o r P r im á r io S e c t o r S e c u n d á r io S e c t o r T e r c iá r io N ã o e s p e c if ic a d o

O facto do sector terciário ser responsável pela maior parte do PIB a nível mundial e do IDE nestes países ter por objectivo a procura de mercado, mais do que uma tentativa para deslocalizar partes do processo produtivo trabalho intensivas (Barry F.,2002), justifica a importância do sector terciário na captação do IDE.

Relativamente às actividades do sector terciário em que se concentra o IDE, existe uma relativa homogeneidade entre os países, sendo que as actividades predominantes são os serviços financeiros, o comércio e reparações e os serviços às empresas.

A situação referente à Polónia é exemplificada no gráfico seguinte9.

7

medido pelo número de participações de empresas estrangeiras na Roménia

8

Em anexo são apresentados os gráficos referentes á Rep. Checa, Hungria, Bulgária e Roménia (Gráficos 13, 15, 17, 19).

9

Em anexo são apresentados os gráficos referentes á Rep. Checa, Hungria, Bulgária e Roménia (Gráficos 14, 16, 18, 20).

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IDE no Leste Europeu: o caso português

Gráfico 7 ID E n a P o ló n ia n o s e c to r te rc iá rio (9 6 -0 -0 ) E le c t ric id a d e , g á s e á g u a C o n s t ru c ã o C o m é rc io e re p a ra ç õ e s A lo ja m e n t o e r e s t a u ra ç ã o T ra n s p o rt e s T e le c o m u n ic a ç õ e s A c t iv id a d e s F in a n c e ira s A d m . P ú b lic a S e rv iç o s á s e m p re s a s O u t ro s s e rv iç o s

4.4.4 Potenciais consequências do alargamento da União Europeia

Em Maio de 2004 a União Europeia passou a contar com 25 membros, estando agendada a entrada da Roménia e Bulgária. Este alargamento diferiu de todos os outros por ser o maior jamais realizado e por ter como novos membros economias em transição com grande dispersão de níveis de rendimento (Brenton, 2002, p.1, citado por Bellak, 2004). Dadas as características deste alargamento, procurou-se seguir um processo de pré-adesão que facilitasse a entrada dos novos membros, sobretudo por causa das mudanças institucionais e legislativas de fundo que os novos membros terão de adoptar.

De facto, ao entrarem para a Comunidade, os novos membros terão que adoptar todo um conjunto de regulamentações respeitantes ao comércio no interior da União e a outros aspectos sociais e económicos da sociedade europeia, também conhecido como

acquis communautaire. De acordo com Picciotto (2003), a adopção desta

regulamentação irá permitir uma maior estabilidade política, a existência de regulação que proteja os investidores estrangeiros, a existência de direitos de propriedade transparentes, leis de falência e a possibilidade de repatriar lucros e dividendos. Estes factores, aliados ao facto de os investidores poderem recorrer a tribunais comunitários para resolverem os seus problemas legais, tornam estes países mais seguros aos olhos dos investidores estrangeiros, uma vez que diminui o risco de crédito e aumenta a transparência no interior destes países (Barry et al., 2004).

Por outro lado há que ter em conta os fundos comunitários que estes países passarão a receber e que poderão contribuir decisivamente para a criação de

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IDE no Leste Europeu: o caso português

estruturas de apoio ao IDE e para a melhoria do ambiente económico. Estas injecções de capital ao contribuírem para o desenvolvimento destes países são também um importante factor de atracção do IDE, uma vez que um aumento do investimento leva a um aumento do nível de rendimento da população consumidora, estando-se por este meio a aumentar mercados, que se tornam numa outra motivação para investir.

Assim, é de esperar que a entrada destes países para a União Europeia aumente o seu poder de atracção de IDE, não só pela melhoria das condições macro-económicas, como também pela pertença a um Mercado Único, podendo os investidores entrar no Mercado da União a partir destes países. A inexistência de barreiras alfandegárias nas relações com os países da UE aliada à sua atractiva relação qualidade-custo da mão-de-obra torna estes países numa localização competitiva para as empresas que queiram concorrer no Mercado Comunitário. Além da eliminação de tarifas, serão também eliminados procedimentos antidumping e outras barreiras ao comércio entre a UE e os PECO, o que irá ter efeitos positivos nos fluxos comerciais entre estes países (Aarle et al., 2000). De acordo com Brenton (2002) e Hall (2003), citados por Bellak (2004), este alargamento vai induzir fortes mudanças estruturais que irão afectar a posição competitiva de países e regiões.

Mas as vantagens que os PECOs conseguirão com o Alargamento poderão traduzir-se em perdas por parte dos membros incumbentes, apesar de não estarmos perante um jogo de soma nula em que os ganhos de uns são as perdas de outros. Segundo Ekholm et al. (2002) existe a possibilidade de, com o Alargamento, haver uma deslocalização de empresas do Sul da Europa, que até agora era uma localização competitiva para as empresas, para estes países do Leste que passam agora a deter essa vantagem. Esta deslocalização pode mesmo levar a que alguns sectores de actividade se concentrem nestes países, o que levaria a maiores níveis de trocas intra-União. Tal possibilidade resultaria, segundo estudo econométrico realizado por Aarle et al. (2000), numa exportação de empregos para os PECOs provocada pelo IDE da UE nestes países, dado o facto de alguma da produção se deslocalizar para estes países em busca de uma localização mais competitiva. A acontecer esta deslocalização poderia pensar-se que tal facto implicaria que os benefícios do IDE recairiam todos nos países receptores deste tipo de investimento, contrastando com a perda por parte dos países investidores. Mas admitir isto como verdade seria esquecer que o IDE é uma importante possibilidade de

Referências

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