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Análise global dos case-studies

No documento Estudos Económicos Aplicados 2003/2004 (páginas 53-64)

5. Case-studies

5.5 Análise global dos case-studies

Quadro 8

Quadro resumo das principais conclusões dos case-studies

Motivações Nº de

Observações

Seguir clientes 2

Abastecer mercado local ou do Leste 3

Baixos custos salariais 3

Proximidade aos grandes mercados do centro da Europa 3 Pequena dimensão/estagnação do mercado português 3 Perspectiva de fim dos apoios comunitários em Portugal 1

Elevada concorrência no mercado interno 4

Diversificação de risco país 3

Qualificação da mão-de-obra 3

Fraca capacidade empresarial das empresas locais no sector em questão 3

Perspectiva de adesão à União Europeia 2

Exploração de economias de gama e escala 1

Diversificação de actividades 2

Aproximação aos centros de decisão europeus 1

Flexibilidade da legislação laboral 1

Regime fiscal mais favorável 1

Perspectivas de transformação numa economia de mercado 1

Vantagens de propriedade

Conhecimento do sector em resultado de liderança de mercado 2

Domínio das tecnologias de produção 3

Conhecimento dos mercados internacionais 3

Conhecimento dos principais concorrentes internacionais 1 Conhecimento específico da gestão sobre os países a investir 1 Experiência acumulada de vários processos de internacionalização 2 Conhecimento da empresa em termos de processos de gestão industrial 1 Experiência na captação de fundos comunitários 1 Existência de contratos já estabelecidos com clientes internacionais 1

Modo de entrada

Construção de unidade industrial de raiz 6

Aquisição de empresas locais, promovendo o controlo através de uma gestão local 3 Realização de uma joint-venture com uma empresa local 3

Processo de internacionalização

Experiência anterior de internacionalização antes do primeiro investimento a Leste 4 Existência de investimentos anteriores em países de menor distância psíquica 4 Existência de relações comerciais com o país de destino do investimento anteriores ao

mesmo 2

Aproveitamento de conhecimento e capacidade de gestão adquiridos durante o primeiro

investimento a Leste em investimentos posteriores na mesma região do globo 5

Dificuldades

Língua 4

Cultura 3

Infra-estruturas de transporte e comunicação 3

Elevada concorrência de empresas estrangeiras com superiores meios técnicos e

humanos 1

Falta de apoio do Estado português à internacionalização 1

Fracas condições económicas locais 1

Falta de meios de pagamento na altura em que vigoravam os regimes socialistas 1 Falta de imagem de qualidade que o nosso país possui junto dos clientes externos 1

IDE no Leste Europeu: o caso português

Da agregação dos resultados dos case-studies podemos retirar as principais motivações das empresas estudadas para investirem no Leste Europeu as quais, seguindo a terminologia de Dunning (1993), são agrupáveis em quatro grandes classes: procura de mercados, de recursos, de eficiência e de activos estratégicos.

Como se pode observar no quadro resumo anterior a principal motivação apontada pelas empresas será a procura de mercados. Esta procura de mercados resulta: da elevada concorrência e estagnação do mercado português, apontadas como relevantes pela Mota-Engil, BCP e JM; das oportunidades que a dimensão e o fraco desenvolvimento dos mercados dos países receptores do investimento oferecem, indicadas pelas mesmas empresas e ainda pela Suberus como importantes; e da proximidade destes países aos mercados do centro da Europa, factor vital para empresas como a Colep que procuram obter dimensão internacional.

Esta conclusão, de que a principal motivação das empresas em estudo foi a procura de mercados, está de acordo com a evidência estatística relativa ao IDPE, que indiciava que a motivação principal, para o mesmo, seria a procura de mercados, uma vez que este se concentrava no sector terciário. A regressão realizada confirma também a importância da dimensão do mercado como determinante do IDE.

A segunda motivação mais referida é a procura de recursos traduzida no objectivo de recrutar mão-de-obra barata e relativamente qualificada. Este aspecto foi de fulcral importância para empresas como a empresa têxtil da zona Norte que investiu na Polónia e na Roménia para deslocalizar as fases do processo produtivo mais trabalho intensivas como forma de manter a competitividade da empresa em produtos de baixo valor acrescentado. Empresas como a Simoldes e a Colep, que serão empresas capital intensivas, apontam como relevante a boa qualificação da mão-de-obra.

A terceira motivação mais referida, a diversificação do risco país e do risco actividades, que seria enquadrável, segundo a terminologia de Dunning (1993), na procura de eficiência ou na procura de activos estratégicos reflecte a necessidade que empresas como o BCP e a Mota-Engil, que pretendiam reduzir a dependência face a um mercado nacional concorrencial e estagnado, ou a JM, que devido às restrições legislativas nacionais relativas à sua posição dominante optou por investir a Leste para diversificar as suas actividades para o sector do discount.

IDE no Leste Europeu: o caso português

Para além das motivações enumeradas anteriormente, as empresas em causa investiram nos PECO’s uma vez que possuíam determinadas vantagens de propriedade, de localização e de internalização das actividades internacionais. Essas vantagens são a base do paradigma ecléctico, construído por Dunning em 1977, paradigma esse que procura explicar a actividade das empresas multinacionais.

Nos nossos case-studies as empresas em questão têm como principais vantagens

de propriedade: o conhecimento dos mercados internacionais, resultante do historial de actividades exportadoras de empresas como a empresa têxtil entrevistada, a Colep ou a Suberus; a experiência acumulada de vários processos de internacionalização, em casos como a Mota-Engil, a Colep, a Suberus ou o BCP; o domínio de tecnologias de produção e a liderança no mercado interno, que permite que empresas como a Colep, o BCP ou a Simoldes aproveitem esses mesmos factores nos novos mercados geralmente pouco desenvolvidos. Outra vantagem de propriedade, que embora não seja referida frequentemente pelas empresas como sendo uma das suas vantagens de propriedade, que nos parece relevante em resultado da adesão destes países à U.E., será a experiência que as empresas portuguesas têm na captação de subsídios comunitários.

Estas vantagens de propriedade são conjugadas com vantagens de localização e de internalização. Entre as vantagens de localização que as empresas vêm nestes países podemos referir o baixo custo e a qualidade da mão-de-obra (Suberus na Bulgária e na Hungria, empresa têxtil entrevistada, na Polónia e na Roménia), a legislação fiscal e laboral favoráveis (mais uma vez para a empresa têxtil), a proximidade aos mercados do centro da Europa (empresa têxtil entrevistada, Colep), a dimensão do mercado (JM, Mota-Engil e BCP sobretudo na Polónia). Entre as vantagens de internalização estarão a redução dos custos associados à existência de intermediários (mencionado pela Suberus), o aproveitamento de economias de escala e de gama (mencionados pela JM) e o melhor conhecimento do mercado resultante de uma maior aproximação (Suberus e Mota-Engil).

Tendo por base estas vantagens específicas a cada empresa e a cada localização dos investimentos as empresas estudadas seguiram processos de internacionalização diferenciados. As empresas portuguesas partiram, maioritariamente, na fase inicial do seu processo de internacionalização para países, como Brasil (Simoldes), Espanha (Colep e BCP) ou ex-colónias (Mota-Engil), onde a distância psíquica é menor. Este

IDE no Leste Europeu: o caso português

padrão está de acordo o estabelecido pelo modelo do processo de internacionalização de Uppsala citado no capítulo referente à base teórica. A razão de ser deste padrão prende- se com a necessidade de redução do risco dos investimentos no estrangeiro sentida pelas empresas. Outro aspecto que reduz o risco é a existência de relações comerciais anteriores ao investimento. Quanto ao investimento nos países do Leste Europeu, países com os quais Portugal não tem grandes semelhanças, empresas como a Colep e a Mota- Engil que já exportavam para esses países, beneficiaram de um melhor conhecimento dos mercados que lhes permitiu reduzir o risco dos respectivos investimentos. No extremo inverso encontra-se a JM que, sem qualquer experiência de internacionalização e sem ter qualquer contacto comercial com os países em causa, optou por realizar investimentos significativos na Polónia, através da compra da cadeia Eurocash. Esta falta de conhecimento do mercado e de uma estrutura organizativa com experiência de internacionalização poderá ter estado na origem da necessidade de realização de desinvestimentos significativos. Contudo, estes investimentos poderão ter sido importantes em termos de experiência adquirida, uma vez que o investimento posterior na cadeia polaca Biedronka tem tido sucesso. Outras empresas parecem ter aproveitado as experiências adquiridas com primeiros investimentos para fazerem novos investimentos em países de Leste (têxtil entrevistada, Mota-Engil, Suberus e Simoldes). Outra das formas de minimizar o risco associado ao desconhecimento do país onde se investe é procurar um parceiro local ou comprar empresas locais com conhecimento do mercado. Apesar disto, algumas das empresas estudadas optaram por realizar investimentos de raíz sem qualquer parceiro local (Simoldes, embora esta empresa tivesse seguido clientes com os quais tinha contrato, empresa têxtil entrevistada, JM e Colep). No caso da Suberus e da Mota-Engil, apesar de realizarem investimentos de raíz, estes investimentos foram sempre realizados com parceiros locais.

Nos respectivos processos de internacionalização as empresas portuguesas enfrentaram um conjunto diversificado de dificuldades, de entre as quais as mais mencionadas, pelas empresas estudadas, no decurso dos seus investimentos a leste, foram a língua, a cultura e a falta de infra-estruturas de transporte e comunicação.

Contrariamente aos resultados obtidos na regressão efectuada anteriormente, a instabilidade política não parece ser um factor determinante do IDE dado que apenas a JM citou esta dificuldade.

IDE no Leste Europeu: o caso português

6. Conclusão

Portugal foi desde os anos 60 um país aberto ao IDE, tendo os fluxos de entrada de investimento aumentado grandemente com as expectativas de adesão à CEE. Nos últimos anos tem-se assistido à inversão da situação de receptores de investimento para investidores líquidos. Estes investimentos têm sido dirigidos maioritariamente para países como o Brasil ou a Espanha, mas um fenómeno recente de investimento a Leste tem emergido.

Este fenómeno não é exclusivo da economia portuguesa, na verdade, estes países tem aumentado a sua importância enquanto destino de IDE a nível da UE e a nível mundial. No entanto, apesar do crescimento significativo recente nos países em causa, este investimento representa ainda um valor quase insignificante quando comparado com o IDE recebido pelos 15 países da UE.

O aumento do IDE dirigido para o Leste da Europa surgiu como consequência natural da reintegração destes países na Europa, da sua aproximação à filosofia das economias de mercado, das perspectivas de adesão e da posterior integração aprofundada com a adesão à UE de parte destes países.

Também para as empresas portuguesas esta integração foi importante uma vez que acarretou estabilidade política e económica e criou expectativas de rápido crescimento destes mercados. A conjugação destes aspectos com o baixo custo e boa qualificação da mão-de-obra parecem ser factores determinantes na opção das empresas portuguesas de se internacionalizarem para estes países. De acordo com a regressão efectuada as motivações das empresas portuguesas serão similares às motivações da generalidade das empresas mundiais para investir nestes países, ainda que não se tenha concluído pela relevância dos baixos custos salariais nas decisões de investimento das empresas mundiais nestes países.

Neste contexto, o IDPE no Leste Europeu destina-se, sobretudo, ao sector dos serviços e à construção o que indicia que a motivação da grande maioria do IDPE é o aproveitamento do potencial destes mercados. A procura de novos mercados é a forma encontrada pelas empresas portuguesas para superar a limitação dum mercado interno pequeno e saturado. Tendo presente que a principal motivação do IDPE a Leste é a procura do mercado e que a deslocalização de actividades como forma de aproveitar os baixos salários é necessária dado que é a única forma de as empresas produzirem

IDE no Leste Europeu: o caso português

determinados produtos mão-de-obra intensivos para os quais a produção em Portugal já não possui competitividade preço, é imprescindível desmistificar a ideia de que as empresas portuguesas estão a despedir em Portugal para criar empregos a Leste.

Assim sendo, será correcto afirmar que os investimentos nos PECOs são uma oportunidade de crescimento e até mesmo uma necessidade de sobrevivência para as empresas portuguesas, o que só poderá ser visto como benéfico para a economia nacional.

Relativamente à deslocalização de alguns investimentos de Portugal para estes países por parte das empresas multinacionais, os vários estudos são contraditórios não permitindo afirmar se Portugal será relevantemente prejudicado, ainda assim, importa questionar se esses investimentos pela sua qualidade são ou não importantes para a estrutura produtiva portuguesa. Será que Portugal pretende competir com esses países na captação de IDE assente no baixo custo da mão de obra?

Estudos futuros deveriam analisar com especial destaque as consequências do aumento acelerado dos custos salariais e da concorrência nestas economias sobre as motivações para investir nestes países.

IDE no Leste Europeu: o caso português

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8. Anexos

No documento Estudos Económicos Aplicados 2003/2004 (páginas 53-64)

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