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Apresentação
Autor(es):
Silva, Maria de Fátima; Augusto, Maria das Graças de Moraes
Publicado por:Imprensa da Universidade de Coimbra
URL
persistente:
URI:http://hdl.handle.net/10316.2/37036
Accessed :24-Oct-2022 07:43:24
digitalis.uc.pt pombalina.uc.pt
Politeía tropical: a recepção dos clássicos,a tradição política no Brasil do século XIX e a tradução das Categorias aristotélicas por Silvestre Pinheiro Ferreira • Musas errantes: tesouros da Antiguidade Clássica no labirinto da Biblioteca Nacional Brasileira • Eudoro de Sousa e a Mitologia • Câmara Cascudo em defesa de Epicuro • Medéia carioca • Ecos de Platão em Vergílio Ferreira
• Imaginário clássico na poesia de António Arnaut • Motivos clássicos na poesia novilatina em Portugal: Manuel da Costa • Uma Ifigénia portuguesa: “Noite escura” de João Canijo • Uma leitura de Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio • A phýsis grega e o Brasil: as viagens de Von Martius • Fantasia para dois coronéis e uma piscina. Ecos clássicos num contexto do séc. XX
português • O que não cabe nas palavras - peripécia e reconhecimento em A tragédia da Rua das Flores e n’ Os Maias • Presença dos Gregos no pensamento filosófico de Miguel Baptista Pereira
clássicos em portugal e no brasil
Maria de Fátima Silva Maria das Graças de Moraes Augusto
coordenação
a recepção dos
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS SÉRIE MITO E (RE)ESCRITA
SÉRIE MITO E (RE)ESCRITA ISSN: 2182‑8814
PERIODICIDADE: Anual
Apresentação: Poetas, pintores, escultores, na Antiguidade, familiarizados com mitos antigos de deuses e de homens, que cristalizavam experiências, interrogações, respostas quanto à existência do homem no tempo e no mundo, em mitos se inspi- raram, em contínua criação-recriação, para neles verterem a sua própria experiência temporal, com todos os desassossegos e inquietações, com todo o espanto, horror ou encantamento pela excecionalidade da ação humana, que rasga ou ilumina fron- teiras de finitude. Esses percursos da criação merecem, hoje, a atenção e análise dos Estudos Literários e, como não podia deixar de ser, dos Estudos Clássicos, muito peculiarmente. Importa, pois, proceder à publicação sistemática de estudos deste cariz, que se destaquem pela qualidade científica e pela originalidade, sendo dedica- dos, sobretudo, a autores de língua portuguesa. Assim se dá corpo à linha editorial MITO E (RE)ESCRITA.
Este livro, realizado no âmbito do Convénio de Cooperação Académica entre o CECH – Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC – e o PRAGMA – Programa de Estudos de Filosofia Antiga da UFRJ -, reúne um conjunto de estudos sobre a recepção de temas e modelos greco-latinos na literatura e cultura de Portugal e Brasil.
A sua originalidade resulta da participação de diferentes culturas e das especiali- dades académicas diversas dos investigadores que nele participam, provenientes da Literatura, da Filosofia e da História Antiga. O lapso de tempo abrangido, que vai do séc. XVI ao XX, permite uma visão de conjunto da evolução operada no perfil cultural de ambos os países e na definição de um trajeto em boa parte comum.
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Apresentação
No âmbito do Convênio de Cooperação Acadêmica e Intercâmbio Técnico, Científico e Cultural assinado entre a Universidade de Coimbra e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2006, o CECH – Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC e o PRAGMA – Programa de Estudos em Filosofia Antiga da UFRJ, firmaram, em 2011, um Termo Aditivo a este Convênio de modo a dar maior implemento às pesquisas que já vinham sendo desenvol‑
vidas conjuntamente – tanto no contexto geral das relações entre Literatura e Filosofia na tradição do pensamento antigo, quanto no contexto específico, relativo aos diferentes gêneros de discurso surgidos na Antiguidade Clássica –, bem como alargar essas discussões para o quadro particularizado da herança clássica nas culturas brasileira e portuguesa ao longo das suas histórias.
Nesse sentido, o Termo Aditivo prevê encontros regulares de pesquisa, sob o formato de pequenos colóquios, tendo sido o I Colóquio realizado na UFRJ, em Setembro de 2012, com o tema: Politeía e utopia no pensamento antigo, de que foram já publicados os resultados no vol. 16/17 da revista Kléos.
O II Colóquio realizou‑se na UC, entre os dias 29 e 31 de Maio de 2013, subordinado ao tema da Recepção dos Clássicos em Portugal e no Brasil; com uma participação significativa de investigadores de ambas as partes, este encontro centrou‑se em volta de uma temática promissora, que constitui parte das prioridades definidas por esta parceria.
O volume que agora se publica, dedicado a estudos de recepção, reto‑
ma e amplia as reflexões então apresentadas e discutidas, contando com a colaboração de um grupo variado de acadêmicos portugueses e brasileiros, essencialmente provenientes das áreas de Língua e Literatura, Filosofia e História Antigas. Talvez a sua maior originalidade esteja justamente nesta parceria, entre diferentes culturas e especialidades acadêmicas, que pode trazer um contributo decisivo a uma área ainda em desenvolvimento, a da recepção dos clássicos em ambos os países e a definição de duas culturas paralelas. O lapso de tempo abrangido, aquele que vai do séc. XVI ao XX, proporciona também uma visão do conjunto e das mudanças operadas no estabelecimento do perfil cultural de Portugal e Brasil, desde os tempos do Renascimento até à contemporaneidade, com tudo o que esse trajeto impli‑
ca de partilha de uma experiência histórica em boa parte comum.
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Maria de Fátima Silva, Maria das Graças de Moraes Augusto
O contexto privilegiado neste volume para a recepção dos motivos clás‑
sicos é o que aborda os discursos nos quais a herança clássica se faz presente sob diversas formas, a literatura – o conto, o romance, a poesia, o teatro –, a filosofia, a historiografia, a antropologia, as artes visuais e as ciências naturais. A tradição clássica que espelham é, por um lado, aquela que os influencia nos seus temas, como também a que lhes dita códigos estéticos, morais, políticos, filosóficos e culturais. Possibilita, assim, diferentes contri‑
butos que valorizam tanto o efeito de inovação e liberdade que assiste a cada reescrita, quanto a construção de novas convenções formais.
De entre o mundo literário português, vários nomes, a partir da época do Renascimento, são contemplados pela importância que têm como inter‑
mediários na adopção do pensamento clássico. Do Renascimento português, Manuel da Costa representa, nos temas e modelos poéticos, a extensão à poesia portuguesa da época dos padrões que circulavam, com enorme pu‑
jança, por todo o mundo culto da Europa. Avançando para o séc. XIX, Os Maias de Eça de Queirós, um romance que disciplinou o estudo da Literatura Portuguesa para muitas gerações, revela aqui o seu potencial clássico, uma faceta que, nos múltiplos estudos que lhe têm sido dedicados, não tem me‑
recido particular atenção; e, no entanto, alguns dos cânones trágicos, com uma afinidade particular com o tema de Édipo, estão implicados nos temas relevantes deste romance. Entre os contemporâneos, destacam‑se os nomes de dois reconhecidos e premiados romancistas, Vergílio Ferreira e Mário de Carvalho, que, cada um num diálogo diferente com o mundo da Antiguidade clássica, tiveram a mestria de articular o pensamento, o estilo, as alusões a essas fontes com a sensibilidade do mundo cultural português, seu e nosso contemporâneo, e com a sua própria experiência de vida. Na poesia, António Arnaut, jurista e político bem conhecido da actualidade portuguesa, regres‑
sa, ainda que discretamente, aos mitos gregos, com preferência pelos que se caracterizam por uma marca iniciática, como os de Dioniso, Elêusis e Orfeu.
Mas outras formas de expressão artística estão igualmente representadas nesta colectânea, caso daquela que se identifica como inovadora e particu‑
larmente atraente à sensibilidade dos nossos tempos: o cinema. Cumprindo uma transposição necessária, quando está em causa uma maior distância entre a natureza dos modelos e a sua repercussão sob esta outra forma, o entusiasmo da produção cinematográfica pelos mitos antigos combina‑se naturalmente com as exigências de uma outra realidade social e uma dife‑
rente sensibilidade crítica.
O estudo minucioso da tradução das Categorias de Aristóteles por Silvestre Pinheiro Ferreira marca um aspecto da maior relevância no cruza‑
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mento das duas culturas em análise, a portuguesa e a brasileira. A tradução e divulgação do texto aristotélico no novo continente vem responder às necessidades de um momento fundacional na história do Brasil: aquele em que foi preciso ponderar as modificações políticas, sociais e culturais que mobilizaram o país ao longo do século XIX, em particular a formação de uma “identidade nacional” manifesta sob diferentes contextos estruturais, entre os quais se impõe a questão constitucional. Ainda no âmbito da fi‑
losofia e da mitologia antigas e da sua presença na formação intelectual brasileira, reencontraremos a figura luso‑brasileira de Eudoro de Sousa e os seus títulos remissivos para a mitologia e para o pensamento pré‑socrático.
Do lado brasileiro, são ainda expressivos os estudos dedicados à pre‑
sença do pensamento antigo no contexto intelectual e cultural: a versão de Câmara Cascudo, etnógrafo, antropólogo, folclorista, vulto destacado no estudo da cultura brasileira e das suas raízes clássicas, aqui retomado em um dos 34 diálogos que compõem a obra Prelúdio e Fuga do Real: o seu encontro com Epicuro, em Nova York, onde se discute a hipótese do “prazer sem sentidos”; bem como a versão do botânico bávaro, Carl Friedrich von Martius, da natureza e da Flora Brasiliensis, vista, lida e analisada à luz da tradição clássica, no Brasil do século XIX.
Particular é o caso de Gota d’Água, a célebre reescrita musicada de Medeia por Chico Buarque e Paulo Pontes. O sentido de intervenção deste texto sobre a realidade brasileira contemporânea tornou‑o uma das criações mais bem sucedidas da versão euripidiana do mito.
Também no caso brasileiro, outras marcas da realidade cultural, além da literatura, da filosofia e das ciências naturais, merecem reflexão. Assim, as práticas de catalogação dos textos impressos artesanalmente em grego e em outras línguas consideradas “exóticas”, do acervo da Biblioteca Nacional brasileira, ajudam a descobrir um espólio cujo potencial está ainda, pelo menos em parte, inédito.
Na sua variedade, este volume oferece, sobre um território geografica‑
mente bem definido – Portugal e Brasil –, uma amostragem da vitalidade dos paradigmas clássicos, um tema sempre em aberto mas cuja implantação é já de uma enorme importância como base de fusão cultural.
Maria de Fátima Silva Universidade de Coimbra Maria das Graças de Moraes Augusto Universidade Federal do Rio de Janeiro
Maria de Fátima Sousa e Silva é Professora Catedrática do Instituto de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra. Desenvolveu, como tese de doutoramento, um estudo sobre a Comédia Grega Antiga (Crítica do teatro na Comédia Grega Antiga), e, desde então, tem prosseguido com investigação nessa área. Publicou já traduções comentadas de nove comédias de Aristófanes, além de um volume com a tradução das peças e dos fragmentos mais significativos de Menandro.
Maria das Graças de Moraes Augusto é Professora Titular no Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A sua investigação sobre História da Filosofia Antiga abrange temas como Platão e a herança platónica, filosofia e conhecimento no pensamento antigo, filosofia e literatura na tradição antiga e recepção dos clás- sicos gregos no Brasil.
9789892610429
OBRA PUBLICADA COM A COORDENAÇÃO CIENTÍFICA
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