T R A B A L H O F I N A L D E G R A D U A Ç Ã O
A L E S S A N D R O L I M A
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CENTRO DE REFERÊNCIA EM CIDADANIA
L G B T I + DANDARA DOS SANTOS
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C E N T R O D E T E C N O L O G I A
D E P A R T A M E N T O D E A R Q U I T E T U R A E U R B A N I S M O
C U R S O D E A R Q U I T E T U R A E U R B A N I S M O
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará
Biblioteca Universitária
Gerada automaticamente pelo módulo Catalog, mediante os dados fornecidos pelo(a) autor(a)
L696c Lima, Alessandro Caique da Silva.
Centro de Referência em Cidadania LGBTI+ Dandara dos Santos / Alessandro Caique da Silva Lima. – 2019.
68 f. : il. color.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Centro de Tecnologia, Curso de Arquitetura e Urbanismo, Fortaleza, 2019.
Orientação: Profa. Dra. Marcia Gadelha Cavalcante.
1. Acolhimento. 2. Habitação. 3. Saúde. 4. Educação. 5. Cultura. I. Título.
A P R E S E N T A Ç Ã O
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V E R M E L H O = F O G O D A V I D A , A V I V A C I D A D E D O S E R L A R A N J A = A C U R A E O P O D E R A M A R E L O = O S O L , A L U Z E A C L A R I D A D E D A V I D A V E R D E = A N A T U R E Z A E O A M O R P E L A M E S M A A Z U L / Í N D I G O = A S A R T E S E O A M O R A R T Í S T I C O R O X O = O E S P Í R I T O , D E S E J O E F O R C A D E V O N T A D ER E F E R E N C I A L T E Ó R I C O
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À minha avó Nilceli, uma das mulheres mais fortes e guerreiras que já conheci, grande incentivadora dessa jornada de estudos em busca da minha formação profissional.
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Gratidão,
à minha mãe Olinda, mulher forte e de coração enorme, que incentivou e apoiou todas as minhas decisões, sempre me ouvindo, me aceitando e amando como sou; à minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Marcia Cavalcante, incentivadora dos grandes desafios, que se dispôs a me orientar sempre de mente e coração abertos para as minhas ideias e decisões projetuais; à minha irmã Aléxia, a mulher que é para mim um exemplo do que desejo para as futuras gerações: pessoas livres de qualquer preconceito, que não se calam diante das desigualdades e estão sempre engajadas na luta pela construção de uma sociedade melhor; ao meu anjão, Guga, que tem a cada dia provado ser minha alma semelhante e o grande amor dessa e de muitas outras existências; ao meu tio Cil Farney, pelo apoio em minha trajetória educacional e profissional, sempre aconselhando, mostrando novas possibilidades, me abrindo portas e sendo exemplo de que com estudo e muito trabalho somos capazes de ir longe; às minhas amigas Luana e Raquel, de quem tive todo o suporte psicológico e emocional durante a faculdade e que hoje levo para a vida como duas irmãs que Deus me permitiu escolher; aos amigos e familiares que fazem parte da minha trajetória de vida, contribuindo de diversas maneiras para a construção do ser humano que hoje eu sou, meu pai Sandro, meus amigos de uma vida Dávila e Janderson, à todo o Tibufus: Babinha, Mandinha, Pittinha, Menina Ingrid, Germs, Chicão, Guil, Mari Hipster, Belle, Leo, Renatinha e Nussa.
Por fim, mas não menos importante, agradeço a Deus, à minha mãe Nossa Senhora de Fátima e todos os anjos e espíritos guias que me acompanham, fortalecem e auxiliam na construção da minha melhor experiência de vida.
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“O prazer do espaço: é impossível exprimi-lo em palavras, é indizível. De maneira aproximativa, pode-se dizer que é uma forma de experiência – a ‘presença da ausência’; diferenças inebriantes entre a superfície plana e a caverna, entre a rua e a sala de estar; simetrias e assimetrias que acentuam as propriedades espaciais do meu corpo: direita e esquerda, em cima e embaixo. Levado ao extremo, o prazer do espaço inclina-se para a poética do inconsciente, para o limiar da loucura.”
BERNARD TSCHUMI
A P R E S E N T A Ç Ã O
V E R M E L H O = F O G O D A V I D A , A V I V A C I D A D E D O S E R 1 . 1 I N T R O D U Ç Ã O A O T E M A P . 0 5 1 . 2 J U S T I F I C A T I V A P . 0 6 1 . 3 O B J E T I V O S G E R A L E E S P E C Í F I C O S P . 0 7 1 . 4 M E T O D O L O G I A P . 0 8 1 . 5 E S T R U T U R A P . 0 91
“ T o d o t i p o d e a m o r m e f a z c a n t a r , p o r q u e n o a m o r n ã o c a b e m j u l g a m e n t o s , o a m o r t e m c h e i r o e p a l a d a r , o a m o r t e m g o s t o , é m e u s u s t e n t o , a m o r n ã o t e m r e l i g i ã o , n ã o t e m l a m e n t o . O a m o r é s e u , o a m o r é m e u , o a m o r é p r a d a r . A m o r é c a f é , é d o c e , é s o n h o , é c o m i d a , é v i d a , à s v e z e s m o r t e , à s v e z e s s o r t e , s e m t e m p o , s e m p a r e d e , é l i v r e e m s i m e s m o . ” D a n i e l a M e r c u r y - S e m A r g u m e n t o5
1. APRESENTAÇÃO
1.1. INTRODUÇÃO AO TEMA
O projeto aqui apresentado é resultado da disciplina de Trabalho de Conclusão 1, onde é desenvolvido um estudo preliminar do Trabalho Final de Graduação. A temática central abordada é a Arquitetura Institucional no sistema público de políticas de direitos humanos para promoção da igualdade de gênero e respeito à diversidade sexual no estado e no país, e aqui se conforma em projeto arquitetônico através da concepção do Centro de Referência em Cidadania LGBTI+ Dandara dos Santos, em Fortaleza-CE. Trata-se de um equipamento público voltado para a população LGBTI+, em especial integrantes deste grupo em situação de rua. Inspirado nas experiências estadunidenses, em especial no trabalho realizado pelo Ali Forney Center (Centro de Referência em assistência e acolhimento de jovens LGBTI+ em situação de rua com sede no Brooklin e mais 7 anexos espalhados pela cidade de New York - EUA) com o apoio da Born This Way Foundation (ONG sem fins lucrativos que atua na arrecadação de fundos para tratamento de crianças e jovens com dificuldades sociais e distúrbios mentais) e suas fundadoras Stefani e Cynthia Germanotta, e adaptado para a realidade local pelo estudo das dinâmicas de funcionamento do Centro Municipal de Referência Janaína Dutra, o programa de necessidades busca aplacar 3 eixos principais de atendimento: o Acolhimento Imediato de cidadãos LGBTI+ em situação de total desamparo, com provisões de emergência e leito temporário; o Apoio Médico/Psicológico com alguns serviços básicos de saúde, tratamento hormonal para pessoas transgêneros, controle de HIV/AIDS, acompanhamento psicoterapêutico e o Centro de Formação com salas para atividades como cursos preparatórios, dança, música e leitos de médio prazo com a intenção de promover a máxima independência e autonomia do cidadão LGBTI+.
Haja vista a carência de ações concretas e efetivas que tenham por finalidade: garantir o direito à diversidade sexual e igualdade de gênero no Brasil, combatendo os elevados índices de violência por homolesbotransfobia apresentados neste trabalho, a proposta acompanha o desejo do autor de contribuir, através dos conhecimentos adquiridos ao longo da formação em Arquitetura e Urbanismo, para o desenvolvimento de uma proposta com este caráter de assistência e garantia de direitos humanos para a comunidade LGBTI+.
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Quem foi Dandara dos Santos
Mulher transexual e assumidamente travesti desde os 18 anos de idade, Dandara vivia na casa da mãe junto com os irmãos no bairro Conjunto Ceará, em Fortaleza, segundo todos que a conheciam, uma pessoa alegre, sempre prestativa e trabalhadora, sonhava com a carreira de cabeleireira, ter seu próprio salão e ajudar a mãe financeiramente, o que já fazia vendendo roupas usadas que ganhava. Em 15 de fevereiro de 2017, no bairro onde vivia, Dandara foi atacada por 8 homens (dentre eles vários menores de idade e hoje todos presos ou internados em instituições de reabilitação), espancada, apedrejada e morta a tiros, com toda a sequência de atos violentos filmada e posteriormente publicada nas redes sociais por seus assassinos.
No vídeo é possível constatar também as agressões verbais proferidas à Dandara no momento de sua tortura, caracterizando toda a ação como um crime puramente de ódio e repúdio à sua identidade de gênero e orientação sexual, o que chocou o país e o mundo com a notícia, repercutindo na imprensa internacional, provando e demonstrando a transfobia vivida diariamente por pessoas transexuais e travestis no cotidiano brasileiro. Revoltando à todos, o crime cometido à Dandara a tornou um símbolo na luta pelos direitos de igualdade para pessoas transexuais e combate à transfobia no Brasil.
O Brasil é hoje o país com o maior número de assassinatos de pessoas transexuais no planeta segundo dados da ONG Transgender Europe, o caso Dandara é um dos que repercutiu em toda mídia e as imagens da violência servem como prova de que o ódio mata LGBTI’s diariamente em nossas cidades, exigindo da sociedade e dos governantes maior efetividade no combate à este tipo de crime. Dessa luta nasceu o desejo do autor em homenagear a cidadã Fortalezense dando seu nome social ao projeto de um novo Centro de Referência em Cidadania LGBTI+ de nível estadual.
1.2. JUSTIFICATIVA
Com base nos dados levantados pelos órgãos brasileiros de direitos humanos, das ONG’s voltadas à luta pela igualdade de direitos para LGBTI’s e ao compilado de estatísticas de denúncias de violência de cunho homofóbico feitas ao “Disque 100”, é notável a realidade agressiva na qual vive hoje o cidadão LGBT no Brasil, principalmente na faixa etária entre 13 e 29 anos. Tendo passado por violência, na maioria das vezes doméstica e praticada pelos próprios pais e familiares próximos, o jovem também não encontra, em muitos casos, apoio nas instituições de ensino, sendo alvo de
“bulling” homofóbico por parte de outros alunos e até de professores.
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Diante desta realidade, é comum que o jovem abandone os estudos e, não encontrando suporte familiar nem de amigos e/ou conhecidos, acabe por fugir de casa e ir morar nas ruas ou albergues, onde estará sujeito à sofrer mais violência e à envolver-se com práticas sexuais inseguras e/ou abuso de álcool e drogas ilícitas. Mesmo com a clara evidência da necessidade de intervenção do poder público no resguardo da saúde e bem-estar de todos os cidadãos, sem distinção de gênero ou orientação sexual, observa-se a ausência de políticas efetivas para combater este tipo de discriminação, ou mesmo promover a educação de jovens e adultos sobre a importância do respeito às diferenças.
Integrando-se à uma rede de apoio ao cidadão vítima de violência por identidade de gênero ou orientação sexual a proposta de um Centro de referência em Cidadania LGBTI+ de nível estadual entra na discussão sobre as possíveis ações que tenham efetiva capacidade de mudar a realidade da violência homofóbica no país, fornecendo abrigo e acolhimento para o jovem expulso de casa e, por consequência, obrigado a deixar a escola, além de assistência psicológica, acesso à educação, cultura e a convivência saudável com outros jovens que compartilham de sua realidade, fornecendo a todos a possibilidade de construção da própria independência.
1.3. OBJETIVO GERAL E ESPECÍFICOS
O presente trabalho tem como objetivo geral o projeto de um equipamento institucional, de alcance estadual, que funcione como apoio ao Centro Municipal de Referência em Cidadania LBGT Janaína Dutra dentre outros equipamentos da rede de saúde e educação com foco na assistência de jovens e adultos da comunidade LGBTI+ em situação de rua e/ou de extrema vulnerabilidade, oferecendo espaços agregadores, pensados para desconstruir certos comportamentos sociais e incentivar seus usuários a melhorarem de vida sem negligenciar suas próprias identidades e aspirações individuais.
São estes os objetivos específicos do projeto:
- Oferecer atendimento 24 horas para cidadãos LGBTI+ em situação de rua, através de uma central de acolhimento para os jovens;
- Incorporar diversas atividades e ações para construção da independência de jovens LGBT em situação de vulnerabilidade socioeconômica;
- Fornecer atendimento médico, psicológico e assistência jurídica para jovens LGBT vítimas de assédio e violência física e moral de cunho homofóbico;
- Encaminhar os jovens que abandonaram os estudos de volta à sua formação, fornecer preparação para a universidade e capacitação para o mercado de trabalho;
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- Incentivar a formação cultural dos jovens através da leitura, música, dança, e artesanato.
- Propor a formação social dos jovens LGBTI+ através do estudo e formação, trabalho e convivência em comunidade pela utilização de espaços compartilhados.
1.4. METODOLOGIA
Após idealização do tema pelo autor a partir de um documentário realizado em uma unidade do Ali Forney Center (Centro de referência e acolhimento para jovens LGBTI’s atuante nos Estados Unidos), uma pesquisa foi realizada acerca dos equipamentos dessa natureza no Brasil e no Ceará, atestando a carência de equipamentos desta natureza no estado. Em seguida foi elaborado um plano de trabalho com cronograma de atividades detalhado como estratégia para desenvolvimento do Trabalho Final de Graduação, a busca por diversos professores do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFC auxiliou na construção de uma bibliografia consistente, onde a temática foi pesquisada e estudada mais profundamente, além de tópicos que vão desde a questão de gênero,
saúde física e mental, didática e sobre a práxis da arquitetura contemporânea.
A pesquisa foi complementada com o estudo de alguns Trabalhos de Conclusão disponíveis para consulta na Biblioteca de Arquitetura, além de visita ao Centro de Referência Municipal Janaína Dutra. Em seguida, o estudo aconteceu no âmbito das referências projetuais, com a definição e escolha de dois projetos para cada uma das três categorias: Conceito (centralidade, comunidade, proteção, contato com o exterior e assimilação da paisagem do entorno imediato), Forma/estética (volumes sobrepostos, vazio central, estrutura marcante, soluções espaciais claras, permeabilidade de fluxos) e Programa (estudo das atividades contempladas por instituições com mesma finalidade implantadas na própria cidade e fora do país).
A partir deste estudo inicial foi pesquisado um sítio para implantação de um equipamento a nível estadual de maior porte com eixos ligados à promoção da saúde, educação, cultura, lazer e acolhimento de jovens e adultos LGBTI’s em situação de vulnerabilidade social, onde se chegou à escolha de um terreno de esquina localizado no Bairro Benfica nas proximidades com o Campus da Universidade Federal do Ceará. Por fim, após a construção de um Programa de Necessidades detalhado, foi elaborado um Partido Arquitetônico, seguido por um Estudo Preliminar para o projeto, apresentados na fase de TC1. Nesta fase, o autor busca demonstrar através do desenvolvimento a nível de anteprojeto, todos os conceitos já explanados e que nortearam o início do projeto.
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1.5. ESTRUTURA DO TRABALHO
O trabalho encontra-se dividido em um total de seis capítulos. No capítulo 1 – Introdução, temos a apresentação do projeto, os dados e motivos que justificam a escolha do tema, os objetivos gerais e específicos idealizados para o projeto, a metodologia de trabalho/pesquisa utilizada na elaboração e a estrutura do presente trabalho. O capítulo 2 – Referencial Teórico- apresentará um breve estudo acerca do panorama das pessoas em situação de rua no Brasil, a parcela desta camada da sociedade assumidamente LGBTI+, a faixa etária destas pessoas, as causas que as levaram a tal situação, as condições em que vivem, as consequências deste meio de vida excludente, algumas políticas existentes para o amparo desta população, os possíveis tratamentos que possam devolver a saúde, física e mental. -e consequente condição de mudança de vida para essas pessoas, além de algumas considerações acerca do modo de fazer da arquitetura contemporânea. O capítulo 3 – Referências Projetuais- é voltado para a apresentação de seis obras arquitetônicas cujas características principais funcionam como referência para o projeto em três aspectos: conceito, forma e programa. O capítulo 4 - Diagnóstico da Área de Intervenção- é um estudo do espaço onde se propõe a instalação do equipamento que se inicia na escala da cidade, com a observação dos bairros que delimitam o terreno, e vai até a escala do mesmo através de sua relação com o entorno construído imediato. O capítulo 5 – O Projeto- apresentará a proposta arquitetônica consolidada, como todo o programa de necessidades construído, além das pranchas com plantas, cortes e perspectivas. No capítulo 6 – Considerações Finais tem-se a conclusão deste Trabalho Final de Graduação, suas referências bibliográficas e anexos.
R E F E R E N C I A L T E Ó R I C O
L A R A N J A = A C U R A E O P O D E R 2 . 1 D A D O S P . 1 0 2 . 2 H I S T Ó R I C O D O P R E C O N C E I T O N O B R A S I L P . 1 2 2 . 3 A R Q U I T E T U R A D A M U D A N Ç A P . 1 52
“ U m n o v o t e m p o h á d e v e n c e r , p r a q u e a g e n t e p o s s a f l o r e s c e r . E , b a b y , a m a r , a m a r , s e m t e m e r . ” J o h n n y H o o k e r e L i n i k e r - F l u t u a10
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. DADOS ACERCADA SITUAÇÃO DE LGBTI’S EM SITUAÇÃO RUA E/OU DE VULNERABILIDADE SOCIOECONÔMICA
Em meio a inúmeras outras camadas da sociedade que também necessitam de equipamentos de apoio à vida com esse porte, alguns dados e características em relação à situação na qual vive a população LGBTI+ em estado de vulnerabilidade, chamaram a atenção do autor e foram decisivos na decisão de projeto.
Segundo estudos norte-americanos, 20% dos jovens com menos de 30 anos em situação de rua nos EUA são LGBTI’s, no Brasil os números não diferem muito, e nos casos em que estes cidadãos são precocemente obrigados a fugir de casa para viver nas ruas, acabam em situação de extrema vulnerabilidade, não apenas por sua condição econômico-social, mas por todos os riscos que representa ser um LGBTI nas nossas cidades, onde, por conta do preconceito e da discriminação por orientação sexual e/ou identidade de gênero, pessoas são assassinadas ou sofrem grave violência.
LGBTI’s em situação de rua estão mais propensos a sofrer discriminação por parte de outros moradores e/ou pela polícia, pois a violência advinda do preconceito de gênero e/ou orientação sexual é uma realidade constante na vida da maioria destes cidadãos. A idade da vítima é muitas vezes ignorada, sendo essas pessoas alvo de comentários preconceituosos, da imposição familiar de um modo de vida repleto de regras de conduta heteronormativa, além de violência verbal, física, emocional ainda quando crianças, e na fase da adolescência e início da fase adulta, caracterizada muitas vezes pelo momento de descoberta e aceitação da própria sexualidade, quando o jovem mais precisa dessa rede de apoio, composta pelos amigos, professores e familiares, é o momento mais delicado e quando o mesmo não encontra o amparo emocional necessário ao seu bem estar físico, mental e emocional, ou, pelo contrário, sofre algum tipo de violência, fica mais suscetível a tomada de decisões radicais como se afastar de casa e da família, isto quando o mesmo não é jogado à própria sorte por aqueles que lhe deviam suporte. Um dado importante, e que embasa estas afirmativas é que: segundo “Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil de 2013” elaborado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, a grande maioria das vítimas [de violência homofóbica] se concentra na população com faixa etária entre 15 e 30 anos, representando 54,9% do número de vítimas. Em 2012, a população entre 15 e 29 anos foi a grande maioria dos infringidos pela violência homofóbica, somando cerca de 61,16%.
Esta camada da população sofre com um histórico mais frequente de violência física e sexual na família e por conta disso, são mais suscetíveis a fugirem para longe de suas famílias ou serem expulsos de casa em idade precoce, obrigando-os muitas vezes a viver nas ruas, onde sofrem ainda
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mais violência homofóbica. Ainda segundo o Relatório de 2013, “No que tange aos dados referentes às denúncias encaminhadas para o Disque Direitos Humanos (Disque 100) durante o ano de 2013, somados, 32,1% das vítimas conheciam os suspeitos, enquanto 32,0% eram desconhecidos”, além disso, “36,1% das violações ocorreram nas casas – da vítima (25,7%), do suspeito (6,0%), de ambos ou de terceiros (4,4%). Seguido pela rua, com 26,8% das violações e outros locais com 37,5% das denúncias (delegacias de polícia, hospitais, igrejas, escola, local de trabalho e outros).” Ou seja, os jovens LGBTI’s sofrem abusos dentro de casa, na maioria das vezes por pessoas da família ou muito próximas. Esse é um fator crucial quando buscamos entender as motivações que estes jovens tem para deixarem suas residências e buscarem a vida até mesmo em outras cidades. Essa busca precoce por um meio de vida, sem uma base de formação educacional (a maioria dos jovens é posto na rua ou foge de casa antes de concluir o ensino fundamental) dificulta que os mesmos conquistem subsistência, aumentando assim o número de jovens com este perfil dormindo nas ruas ou albergues de grandes cidades brasileiras.
Como consequência, estão mais sujeitos ao abuso de álcool e substâncias ilícitas, pois obrigados a, ainda muito jovens, terem contato com o mundo adulto, os LGBTI’s que perdem sua base familiar e acabam nas ruas e albergues de grandes cidades são inseridos também no submundo do álcool e das drogas, seja pelos nichos de trabalho que os absorvem, muitos trabalhos na noite, como clubes e boates por exemplo, seja pela necessidade de lidar com os conflitos da própria sexualidade, o choque psicológico provocado pelo abandono, muitas vezes as agressões e a violência sofrida em casa e/ou na rua. “Estudos norte-americanos estimam que a população LGBT tem uma propensão maior de abuso de drogas ilícitas, com uma incidência de duas a três vezes maior se comparada à população heterossexual de mesma idade e faixa de renda.” BUX, 1996. p. 277-298; Jordan, 2000. p. 201-206.
Em decorrência da dependência, se tornam praticantes mais frequentes do survival sex, ou a
troca de favores sexuais em troca de alimentos e/ou drogas, e por consequência, possuem um número significativamente maior de parceiros sexuais e estão mais suscetíveis ao mercado da prostituição. Para Garcia (2003), essa inserção no mercado sexual se dá seja pela dificuldade em obter outro tipo de ocupação, haja vista que estamos falando de jovens, muitos ainda menores de idade que tiveram
sua trajetória escolar interrompida e marcada pela discriminação e o bulling, e que o mercado de
trabalho formal é ainda repleto de relatos de experiências heterossexistas, seja pelo fato de que esse mercado pode acabar se apresentando para esses jovens como uma oportunidade de experienciar e vivenciar a própria sexualidade sem os constrangimentos impostos por muitas das outras ocupações.
Por todos esses motivos à população LGBTI+ está mais exposta e vulnerável à infecção pelo HIV e consequente adoecimento por AIDS, agravado pela dificuldade de vinculação aos serviços de saúde. Ainda em Garcia (2003), fica explicitado um forte aumento da vulnerabilidade por HIV/AIDS
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neste segmento da população se o associarmos ao plano social desta vulnerabilidade, “que está relacionado a fatores como o desrespeito aos direitos humanos, incluindo o direito à escolarização e ao trabalho, o contexto político e cultural marcado pela discriminação e violência, a dificuldade de moradia adequada e de acesso a bens de consumo.” AYRES, FRANÇA, CALAZANS, & SALLETI, 1999, p. 49-720. O conjunto de fatores como a falta de informação, orientação e acompanhamento da vida sexual destes jovens, os levam muitas vezes ao não uso de preservativos, além do fator biológico de maior propensão à contaminação viral se atentarmos à categoria de HSH (homens que fazem sexo com homens) por exemplo. Após a contaminação, o quadro de soropositividade acaba por se tornar mais um fator preponderante na manutenção desses jovens na mesma condição de rua. Ainda segundo o autor, outro conjunto de fatores levam estes jovens soropositivos ao quadro de adoecimento por AIDS, é reconhecido que a contaminação por HIV, não significa que o indivíduo possui AIDS, sendo esta apenas o agravamento da condição dos soropositivos que não iniciam um tratamento de contenção e controle da carga viral no corpo. Dentre os fatores citados pelo autor, estão as dificuldades de tratamento por falta de vinculação com serviços de saúde, o despreparo dos profissionais ou mesmo das unidades de saúde para receber a população LGBTI+ com respeito à sua diversidade, existindo uma enormidade de casos de discriminação e preconceito por parte dessas pessoas e instituições durante o atendimento, como na recusa da utilização do nome social de transexuais e travestis por exemplo.
Esses fatores, dentre outras motivações pessoais, levaram o autor ao desenvolvimento do tema, no sentido de oferecer ao estado do Ceará um equipamento de atenção médica, cultural, educacional e de acolhimento completamente voltado para o público LGBTI+, onde novas práticas possam ser desenvolvidas, e aplicadas no atendimento específico a esse público tão socialmente atingido e fragilizado por sua condição, além de se tornar um marco representativo na luta por respeito às diferenças. Neste aspecto, a arquitetura surge como ferramenta transformadora do espaço e ao aplicar seus conhecimentos durante a formação, o mesmo busca oferecer para a sociedade um projeto de equipamento que traga visibilidade para a causa, através da forma arquitetônica idealizada, de seu sistema estrutural, do programa de necessidades desenvolvido, da articulação dos espaços propostos e da localização do edifício.
2.2. HISTÓRICO E REALIDADE DO PRECONCEITO NA SOCIEDADE E SEUS REFLEXOS NO COTIDIANO DO JOVEM LGBTI+ BRASILEIRO
Para entender a necessidade que a sociedade brasileira tem hoje de equipamentos como esse, voltados para o público LGBTI+, faz-se necessário expor um pouco da realidade da violência a
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psicologicamente, a esta camada da população. Na busca por uma melhor compreensão de como o preconceito se desenvolveu socialmente desde os tempos antigos até os dias atuais, algumas leituras sobre as relações do homem com o próprio corpo foram necessárias. Em primeira instância, é necessário entender que a grande maioria dos diferentes tipos de preconceito e consequente discriminação advém do machismo. A história do machismo se confunde com a história da sociedade em sua origem. Para o historiador Jucá (2017), em seu estudo “O corpo humano nas trilhas da história: Uma longa trajetória com múltiplas veredas”, presente no livro “Histórias de Corpo, Religião e Educação”, os gregos já possuíam essa desigualdade de gênero quando viam as mulheres como seres frágeis e muito opostas ao homem:
“Embora provenientes da mesma matéria, o homem e a mulher se configuravam de forma diferenciada, destacando-se o masculino como fortalecido e resistente, bem diverso do feminino, visualizado como frágil e inseguro.” JUCÁ, 2017, p.136. Ainda neste estudo, o historiador afirma que a prática homossexual já existia entre os gregos de maneira cultural, visto que sua verdadeira veneração pelo corpo masculino ia além da adoração pela imagem idealizada de perfeição do mesmo. Os homens mais velhos mantinham relações sexuais com homens mais jovens considerados frágeis, que já eram caracterizados como homossexuais.
“A medida que ia avançando na idade, o jovem grego passaria a ser amado por homens mais velhos ou mesmo por rapazes e também por mulheres e os corpos masculinos mais
frágeis eram reconhecidos como homossexuais. O
reconhecimento da penetração anal como um tipo de prazer diferente era demonstrado na própria relação heterossexual, quando a mulher se curvava para propiciar o prazer ao homem. O status social se afigurava nesse posicionamento com a mulher curvada, subordinada ante a potência masculina.” JUCÁ, 2017, p.137.
É difícil definir em qual momento da história a sexualidade humana tornou-se um Tabu tão grave visto que episódios de demonstração de afeto homossexual e atos de violência e repressão desta característica humana aconteceram em todas as épocas de que se tem registro, sendo assim uma questão que não é intrínseca à modernidade ou à contemporaneidade. Há a possibilidade dessas questões terem sido agravadas pela prática da atribuição de valor às coisas, cada dia mais constante e que passou a ser aplicada também ao corpo humano:
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“A revelação mais impactante dos dias atuais é que, apesar da persistência dos preceitos morais, presentes nas diversas modalidades de crenças e práticas cotidianas, o valor do corpo, expresso na valorização da sexualidade se tornou mais expressivo do que o reconhecimento do papel da alma.” JUCÁ, 2017, p.148
Cada dia mais cedo, o jovem LGBTI+ conquista a sensibilidade para entender os próprios sentimentos e identificar diferenças em seu gênero ou orientação sexual, de modo que o momento de aceitação e revelação para a família (na maioria das vezes em busca de apoio e compreensão), acontece muito quando estes jovens estão entre 13 e 16 anos, período de extrema fragilidade para o ser humano pois configura a etapa da vida onde os pensamentos, os sentimentos, as incertezas e os medos por exemplo estão muito agravados pelas mudanças hormonais características da adolescência. Quando na busca pela sensibilidade das pessoas que ama, os próprios pais e familiares, o jovem acaba por não ser aceito, muitas vezes agredido e expulso do seu lar por um motivo que ele mesmo não pode controlar, as consequências são devastadoras para seu futuro e a maioria deles acaba por seguir o caminho explicitado no tópico anterior, morando nas ruas, vivenciando abusos sexuais e de drogas ou mesmo entrando para este mercado, tendo sua saúde física e mental fragilizada e correndo risco de morte, o mesmo acaba por não concluir seus estudos (na maioria dos casos já existe um histórico de preconceito e discriminação sofrido na escola também), e por ir em busca, tanto da própria sobrevivência quando das experiências físicas, emocionais e sexuais de uma vida adulta. Esta iniciação que poderia ser guiada pelo amparo e a experiência dos pais e familiares acaba por ser distorcida e o jovem LGBTI+ por sofrer com a violência das ruas, muitas vezes abusar de álcool e drogas ou entrar para o mercado sexual, pondo sua própria saúde em risco.
O que se busca explicitar aqui é a importância do apoio mútuo, que, se não vem dos pais e familiares, que venha dos amigos e/ou de outras pessoas que possuem a mesma condição, ou seja, a instituição proposta idealiza suprir mesmo que parcialmente esta necessidade de reparo e minimização dos danos psicológicos causados pela separação. A ideia é que, através da compreensão e empatia advinda do convívio e compartilhamento de vivências, o jovem se sinta acolhido e incentivado a seguir um caminho de dignidade em busca de sua independência. Para Costa (2017), em seu estudo “O Corpo, o Espaço e o Outro: Psicomotricidade Relacional, Intervenção Individual, em Co-Terapia e em Grupo”, também presente no livro “Histórias de Corpo, Religião e Educação”, explicita nossa dependência de vida em grupo:
“Sozinhos não existimos, pois precisamos uns dos outros para ter um sentido de vida, o que significa encontrar
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nosso papel com os outros. Os humanos são animais que dependem uns dos outros para sobreviver, pertencem a uma espécie animal de relações gregárias, vivem em grupo com hierarquias estabelecidas.” COSTA, 2017, p.33
Dentre outras questões abordadas por ele, a importância de uma boa relação com os pais e um histórico de vida baseado no apoio familiar são o que de mais importante o autor oferece para o entendimento de como acontece o desenvolvimento interpessoal do ser humano no geral, como explicitado:
“Assim, só é possível estar em grupo de forma adequada, quando fomos objeto de uma história de vida estável e segura com os pais, numa constância afetiva. Depois de uma relação sólida e constante com os pais, a criança pode partir para a aventura e descoberta dos outros, dos espaços e das coisas – materiais, pois transportam na cabeça imagens interiorizadas – estão os pais para os protegerem.” COSTA, 2017, p.33
Como na prática pensar que este amparo e aceitação acontece em todos os casos é utópico e entendendo que amparar cem por cento da população, em toda a sua diferença e complexidade, é dever do Estado, a implementação de políticas de combate à prática da homolesbotransfobia e execução de ações que amparem essas pessoas precisam ser cobradas pela sociedade para que o financiamento de estruturas de apoio social ideais como o Centro Dandara dos Santos aconteça e a sociedade como um todo possa se tornar menos desigual.
2.3. ARQUITETURA COMO FERRAMENTA NA MUDANÇA DE PARADIGMAS: O TRAÇO POLÍTICO
Partindo dessa premissa de um lugar ideal para o desenvolvimento de jovens fragilizados pelo preconceito, a discriminação e a violência muitas vezes no seio familiar, é preciso destacar a capacidade que o projeto arquitetônico tem de oferecer espaços agregadores, pensados para desfazer certos comportamentos sociais e incentivando as pessoas que ali convivem a melhorarem de vida, sem a necessidade de negligenciar suas próprias identidades e aspirações individuais. Sobre a necessidade de diversidade que os espaços possuem, Karsten Harries, em seu estudo “A função ética da arquitetura”, explicita:
“[...]do mesmo modo podemos falar sobre o pavor do espaço, pois, tal como a homogeneidade do tempo infinito, a do espaço infinito torna a vida contingente e sem significado.
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Temos necessidade da heterogeneidade e de limites, de períodos e de regiões, de acontecimentos sagrados e de lugares centrais que reúnam o múltiplo e diverso em um todo significativo.” HARRIES, 2008, p.425
Ainda sobre o papel da arquitetura no processo de formação social do homem, a autora lembra:
“A arquitetura teve, desde os seus primórdios, uma função ética de ajudar a exprimir e inclusive instituir o ethos humano [...]” HARRIES, 2008, p.426
É nesses pressupostos que se baseia a idealização de um equipamento desse porte e com essa função, um esforço por prover socialmente um lugar de igualdade, servindo não só a uma camada específica da população, mas de certa forma direcionada a ela por sua maior necessidade e fragilidade. O projeto em si, pretende exprimir em sua forma e composição a diversidade de seres humanos ali presentes, respeitando as características do sítio de implantação em alguns aspectos e em outros subvertendo-o, tudo com a intenção de prover a visibilidade pela qual os LGBTI’s lutam e vão às ruas. No texto “Por novos horizontes na arquitetura”, Tadao Ando traz à tona questões como os aspectos inerentes ao arquiteto no momento de sua pesquisa e projetação:
“A criação arquitetônica supõe a contemplação das origens e da essência dos requisitos funcionais de um projeto e a subsequente determinação dos seus problemas essenciais. Somente dessa maneira o arquiteto pode manifestar na arquitetura o caráter de suas origens.” ANDO, 2008, p.494 Baseado nisso, é possível afirmar que o projeto do Centro Dandara dos Santos é também o momento de estudo e desenvolvimento do que o autor [como futuro arquiteto] acredita, e diante da complexidade das questões por ele tratadas, o programa e suas relações funcionais buscam meditar sobre esses problemas, de modo que a arquitetura seja também um reflexo de suas soluções. Como definido por Bernard Tschumi em “O Prazer da Arquitetura”:
“O prazer do espaço: é impossível exprimi-lo em palavras, é indizível. De maneira aproximativa, pode-se dizer que é uma forma de experiência – a ‘presença da ausência’; diferenças inebriantes entre a superfície plana e a caverna, entre a rua e a sala de estar; simetrias e assimetrias que acentuam as propriedades espaciais do meu corpo: direita e esquerda, em cima e embaixo. Levado ao extremo, o prazer do espaço
inclina-17
se para a poética do inconsciente, para o limiar da loucura.” TSCHUMI, 2008, p.576
Em resumo, é possível afirmar que, no projeto fruto deste trabalho de conclusão - entre o que possibilita o sítio de implantação, do que necessita o programa e as pessoas que vão usufruir do
espaço construído e as próprias vontades e aspirações do autor no que diz respeito à práxis
arquitetônica - existe a busca pelo prazer do espaço, expresso na forma e função do edifício proposto. O exercício da arquitetura perpassa a utilização do traço e do desenho racionalizado pela figura do arquiteto como ferramenta de transformação das dinâmicas da vida, seja no interior dos espaços, seja na cidade como um todo. Partindo do pressuposto de que o projeto arquitetônico possui essa capacidade transformadora, faz-se necessário o alinhamento do desenho, com as propostas que o mesmo objetiva alcançar, de modo que as decisões projetuais configurem, por conta própria, uma organização espacial e de fluxos que levem o edifício ou a cidade a, naturalmente, promover a mudança no comportamento de seus usuários.
Situações práticas que podem ser citadas, aparecem de maneira bastante sutil nas dinâmicas da cidade de Fortaleza, seja por exemplo, através do aspecto formal de uma edificação, que exprime um ideal, posicionamento político-social ou até mesmo a função do edifício, seja na maneira como o projeto leva o usuário a percorrer certo caminho, contemplar ou perceber certos detalhes da obra, sem necessariamente indicá-lo. Decisões projetuais como uma pavimentação específica que leva o usuário a observar onde pisa e assim manter a cabeça abaixada diante de um memorial, como sinal de respeito à personalidade para a qual foi erigida tal obra, ou uma arquitetura de traços austeros, cores escuras, formando caminhos estreitos e tortuosos onde o expectador ao atravessar se sente tão reprimido quanto as vítimas de uma guerra, são exemplos simples.
R E F E R Ê N C I A S P R O J E T U A I S
A M A R E L O = O S O L , A L U Z E A C L A R I D A D E D A V I D A 3 . 1 C O N C E I T O P . 1 8 3 . 2 P R O G R A M A P . 2 6 3 . 3 F O R M A P . 3 63
“ S e i q u e n ã o é f á c i l a s s i m , m a s v o u a p r e n d e r n o f i m . M i n h a s m ã o s s e u n e m p a r a q u e t i r e m d o m e u p e i t o o q u e h á d e r u i m . S e r e c e b o d o r , t e d e v o l v o a m o r . E q u a n t o m a i s d o r r e c e b o , m a i s p e r c e b o q u e s o u , i n d e s t r u t í v e l . ” P a b l l o V i t t a r - I n d e s t r u t í v e l18
3. REFERÊNCIAS PROJETUAIS
3.1. REFERÊNCIAS DE CONCEITO/ESSÊNCIA
Neste tópico, são apresentados os projetos com conceito/essência próximo ao que o CRC LGBTI+ Dandara dos Santos propõe, ou seja, edifícios que inspiraram o projeto quanto ao resultado que sua funcionalidade, organização espacial, fluxos etc. O primeiro, um Centro Comunitário, busca receber os integrantes de uma comunidade em torno da educação e da vivência em grupo. O segundo, um Centro de Aprendizagem Budista, tem o mesmo objetivo, porém tem por base conceitos de desenvolvimento espiritual de modo que os espaços buscam enriquecer a experiência de revitalização e crescimento individual pela meditação e convivência em comunidade.
Ficha Técnica:
Projeto: Centro Comunitário Pani Escritório: SchilderSholte Architects Arquitetos: Gerrit Schilder e Hill Scholte Localização: Rajarhat, Bangladesh Ano do Projeto: 2014
Área: 910,00m²
Engenharia Estrutural: PT-structural (Rotterdam, Holanda) Construção: MEI (Rajarhat, Bangladesh)
Orçamento: € 44.000
Segundo a descrição dada pelos arquitetos responsáveis, o projeto foi uma iniciativa da fundação alemã Pani, que contratou o escritório, e é fruto de motivações ideológicas e compartilhamento de conhecimento, o edifício serve como um centro comunitário para a comunidade, de crianças - à terceira idade. Segundo eles, durante o processo de projeto o foco voltou-se
principalmente aos materiais disponíveis e nas condições climáticas, de modo que o bambu, tijolos
Imagem 2: Perspectiva digital do projeto do Centro Comunitário Pani Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
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moldados à mão, madeira de mangueiras, aço reutilizado, argamassa local e painéis ondulados reciclados são os principais materiais utilizados. Os arquitetos quiseram ainda encorajar os moradores da comunidade a tomarem conhecimento dos princípios básicos sobre conceitos de sustentabilidade e edifícios duráveis.
Neste projeto, a planta de 22 x 32m é orientada leste-oeste, proporções que permitem a proteção da luz direta nas salas de aula sem comprometer uma boa iluminação natural das mesmas, e consiste em dois volumes sob uma grande cobertura de bambu. A altura desta cobertura, que é superior à altura dos volumes construídos diminui significativamente a temperatura interna do edifício e permite a captação de águas pluviais através do jardim interno, além disso, um resfriamento adicional é conseguido através da ventilação cruzada, vegetação abundante no entorno e um pequeno lago. A composição através de volumes abrigados sob uma cobertura em U criam espaços intermediários que são abertos para uso público. No térreo há uma pequena praça coberta com banheiros públicos próximos e no primeiro pavimento, acima das oficinas, existe uma área de livre acesso para reuniões públicas. Esta parte do edifício está ligada por uma passarela proveniente das salas de aula.
Figura 1: Planta Térreo
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
Figura 2: Planta Primeiro Pavimento
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Dentre as decisões projetuais aplicadas, os detalhes são importantes, sendo assim, os arquitetos foram além, e propuseram que as paredes internas fossem pintadas em azul claro, tonalidade que evita moscas e alguns elementos das janelas da sala de aula pintados de amarelo, em uma tonalidade específica para repelir insetos.
Figura 3: Planta Coberta
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
Figura 4: Corte Esquemático Longitudinal
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
Figura 5: Corte Esquemático Transversal
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
Imagem 3: Jardim central
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
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A grandiosidade deste projeto, aplicada em pequenas proporções, o tornou referência conceitual para o projeto do CRC LGBTI+ Dandara dos Santos por conta de suas características de organização espacial, onde tudo funciona de maneira conectada, seja através do espaço interno comum ou das ligações por passarelas, culminando para um edifício voltado para a vida em comunidade, característica principal a ser aplicada.
Imagem 4: Passarelas entre salas de aula
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
Imagem 5: Salas de aula com paredes azuis Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766431/centro-comunitario-pani-schilderscholte-architects
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Ficha Técnica:
Projeto: Jetavana – Centro de Aprendizagem Budista Escritório: Sameep Padora & Associates
Arquitetos: Aparna Dhareshwar, Kriti Veerappan, Karan Bhat Localização: Sakharwadi, Maharashtra, India
Ano do Projeto: 2015 Área: 1500m²
Engenharia Estrutural: Rajiv Shah
Construção: Soudagar Kulal, Atul Kulkarni
Segundo a descrição oferecida pelos arquitetos, Samir Somaiya, proprietário da fábrica de açúcar vizinha de Maharashtra, ofereceu o terreno para o que seria um centro de aprendizagem budista, e era de importância semiótica que o mesmo estivesse coberto por árvores, como um campo idílico. O instituto foi programado como um centro de desenvolvimento espiritual e de habilidades para a comunidade budista nativa de Dalit Baudh Ambedkar. O destino de Jetavana é proporcionar uma âncora espiritual para a prática do pensamento budista através da meditação e da ioga, ao mesmo tempo que comporta a formação e o desenvolvimento de habilidades para os membros da comunidade.
Imagem 6: Sala de orações do Centro de Aprendizagem Budista Jetavana Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
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Através do processo projetual surgiram dois pátios como laços destes edifícios sob uma identidade comum. Ao inverter o perfil do telhado com uma drenagem central e alçando o perímetro dos espaços interiores, estes se conectam visualmente com a folhagem exterior. Os espaços interiores, portanto, também são uma função da configuração exterior, com uma leveza que contrasta com os
programas do projeto. Separando a cobertura das paredes seproporciona ventilação cruzada.
Figura 6: Implantação
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
Figura 7: Planta Baixa
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
Figura 8: Corte Esquemático Longitudinal
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
Figura 9: Corte Esquemático Transversal
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A paleta de materiais utilizados pelos arquitetos utiliza muros de carga de pedra basalto empilhada, madeira reutilizada de velhos navios de transporte que atuam como estrutura da cobertura e a estrutura inferior foi feita de rolos de barro, que proporcionam grande isolamento, por fim o telhado que tem um acabamento com telhas de argila e restos de edifícios demolidos. O processo de construção também estabeleceu um foco de busca por novas técnicas de construção, baseadas na materialidade local apropriada para seu contexto.
Figura 10: Esquema de concepção da coberta
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
Imagem 7: Circulações e coberta
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
Imagem 8: Sala de orações e coberta
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
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No momento do estudo e da busca por referências, o Centro Budista Jetavana se apresentou
como um ótimo exemplo de espaço comunitário compartilhado, onde o convívio prioriza a paz ea
harmonia entre as pessoas, além de fornecer uma boa organização espacial para influenciar a reflexão e a cura através da espiritualidade, seja pela comunicação com a natureza, seja por seus pátios internos, ou soluções projetuais que mantém a comunicação visual sempre presente no dia a dia de quem usufrui dos espaços.
Figura 11: Esquema de reaproveitamento de materiais
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
Imagem 9: Pátio central
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
Imagem 10: Pátio central durante reunião
Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/791927/jetavana-sameep-padora-and-associates
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3.2. REFERÊNCIAS DE PROGRAMA
Neste tópico são apresentadas duas instituições essenciais no processo de idealização e construção do programa de necessidades do projeto do o CCFC LGBTI+ Dandara dos Santos, o primeiro foi inspirador e a partir dele surgiu a ideia de trabalhar o tema, o Ali Forney Center fica nos EUA, possui 8 sedes espalhadas por NY e um extenso quadro de serviços voltados para o público LGBT, em especial os que se encontram em situação de rua. O segundo, o Centro de Referência LGBT Janaína Dutra, fica em Fortaleza e atende este público da capital oferecendo serviços a nível municipal.
Ficha Técnica:
Equipamento: The Ali Forney Center Localização: Várias filiais em NY, EUA Ano de Fundação: 2002
Com a missão de proporcionar aos jovens LGBTI+ moradia e um serviço contínuo de apoio para ajudá-los a prosperar e prepará-los para uma vida independente, a Fundação Ali Forney Center atua desde 2002, ano em que foi fundada por Carl Siciliano, e tem sido aclamada nos Estados Unidos por sua abordagem completa em cuidados para esses jovens sem-teto. Seu fundador foi nomeado pelo ex-presidente Barack Obama como Campeão de Mudança da Casa Branca, pelo amplo
reconhecimento que os programas da AFC receberam por sua qualidade e inovação.
Desde o lançamento da AFC com apenas seis leitos em um porão de igreja, a organização cresceu e se tornou a maior agência dedicada aos jovens LGBTI sem-teto no país, ajudando cerca de
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1.400 jovens por ano através de um Centro de Acolhimento 24 horas que fornece mais de 70.000 refeições anualmente, serviços médicos e de saúde mental através de uma clínica no local e um programa de alojamento disperso.
A fundação AFC busca envolver a juventude estadunidense com serviços de qualidade em um ambiente LGBTI+ positivo. Dada a enorme discriminação e o assédio sofrido por esses jovens adultos, os mesmos precisam de amplo apoio e incentivo para desenvolver orgulho e segurança em suas identidades LGBTI+. A busca é por um atendimento com uma abordagem baseada no respeito e na sensibilidade, objetivando desenvolver a confiança dessas pessoas e elas permitam o auxílio da instituição para pôr suas vidas nos trilhos, essa é a principal premissa aplicada ao projeto do Centro de Referência Dandara dos Santos, trazer futuro para a vida desses jovens atendidos para que os mesmos
conquistem suaindependência e não precisem nunca voltar para as ruas.
A seguir, uma breve apresentação dos eixos de atendimento e programas oferecidos pelo Ali Forney Center em todas as suas unidades hoje espalhadas por Nova York:
Drop-in (visita sem aviso prévio)
Convenientemente localizado próximo ao transporte público do Harlem, o Centro Drop-In é onde qualquer jovem lésbica, gay, bissexual ou transgênero pode acessar alimentos, cuidados médicos, serviços de saúde mental e muito mais.
Com tão poucas camas disponíveis para jovens sem-teto, o Centro Drop-In é um marco para jovens LGBTI+ desabrigados, permitindo que eles escapem das ruas em busca de um ambiente seguro e acolhedor. No Centro Drop-In, esses jovens podem criar comunidades com outros como eles e acessar cuidados básicos, bem como educação, treinamento profissional e encaminhamento para outros serviços.
O Drop-In Center é também o local de entrada central da AFC. Todos os jovens participam de uma avaliação completa de suas necessidades agudas de saúde física e mental, este exame completo inclui informações sobre seu histórico de cuidados, exposição a abusos, situação atual e passada, uso de álcool e substâncias, bem-estar emocional, sentimentos sobre sua identidade LGBT, avaliação de risco de HIV, segurança alimentar, exposição a traumas e necessidades de saúde mental.
Em janeiro de 2015, o Drop-In Center tornou-se o primeiro programa de drop-in 24 horas dos EUA para jovens LGBTI+ desabrigados. Fim de semana e horário noturno são quando os jovens sem-teto LGBTI são mais vulneráveis e quando os serviços não estão disponíveis para eles, sendo este o lugar onde os mesmos podem ir em busca de refeições, banho, roupas limpas, apoio ao HIV, serviços de saúde mental e gerenciamento de casos a qualquer hora do dia ou da noite.
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Serviços de atendimento inicial: - Check up médico;
- Avaliação Psiquiátrica;
- Aconselhamento e testagem de HIV;
- Inscrição no Medicaid (Programa de assistência à saúde criado pela gestão Obama nos EUA); - Refeições quentes;
- Chuveiros quentes; - Roupa limpa;
- Acesso 24 horas aos serviços. Serviços de Atendimento Continuado: - Terapia de Grupo;
- Aconselhamento de Saúde Mental; - Grupos de suporte;
- Workshops;
- Cuidados médicos continuados; - Gestão de caso;
- Atividades recreativas que fornecem estrutura e foco; - Prevenção e Aconselhamento de Adesão ao Tratamento; - Grupos de Saúde Mental e Aconselhamento de Apoio.
Outreach (programas de extensão)
O Programa de Alcance do AFC oferece serviços de apoio e programas educacionais para jovens LGBTI desabrigados e sem instrução, de rua e em risco de vida, com idades entre 16 e 24 anos. O Programa de Extensão oferece atividades em cinco distritos nas ruas e em organizações de suporte das comunidades, e os programas dão a esses jovens uma experiência de trabalho valiosa, enquanto eles se envolvem mais facilmente com jovens desabrigados de rua e os informam sobre os serviços da AFC. São estes os programas de extensão oferecidos:
Outreach Móvel / Street-Based Outreach (Atendimento diretamente nas ruas)
O programa AFC Street-Based Outreach envolve jovens em situação de rua e através do programa Mobile Outreach opera em uma van, oferecendo serviços e fornecendo suprimentos para jovens LGBTI sem-teto à noite e nos finais de semana em cinco distritos. Com este programa, são oferecidos:
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- Informações sobre prevenção de HIV/DST focadas na redução de danos;
- Encaminhamentos para centros de acolhimento, abrigos ou serviços de saúde e de saúde mental de emergência;
- Avaliações de admissão preliminares para os serviços de alojamento e gestão de casos do Ali Forney Center;
Além dos serviços, o programa de alcance móvel oferece suprimentos básicos para manter os jovens, incluindo: suprimentos para sexo seguro, suprimentos de higiene, roupa íntima, meias, comida e água.
Extensão Baseada na Comunidade
O programa de Alcance Baseado na Comunidade capacita escolas, centros comunitários, organizações religiosas e outras entidades que trabalham com jovens LGBTI+ para garantir que estejam prestando atendimento sensível a esses jovens e para aumentar a competência cultural entre esses provedores. Este programa colabora com outras organizações sobre melhores práticas e serviços para essa população e participa de várias coalizões que abordam as necessidades de jovens sem-teto, fugitivos e de rua, representando as lutas únicas dos jovens LGBTI.
Educação por Pares Externos
O Estágio de Educação por Pares Externos oferece uma oportunidade para os clientes da AFC apoiarem seus colegas enquanto criam seu próprio histórico de trabalho. Como esses jovens já foram desabrigados, eles podem desenvolver rapidamente a confiança e um relacionamento com outros jovens LGBTI+ sem-teto. Os Educadores de Pares informam aos jovens sem-abrigo sobre práticas sexuais mais seguras e os orientam sobre como reduzir a transmissão do HIV/DST dentre outros fatores de risco. Antes de iniciar o estágio, os Educadores de Pares participam de um treinamento intensivo de uma semana para garantir que estejam bem equipados para lidar com qualquer situação que possa surgir durante as abordagens. Após a conclusão do estágio, os Educadores de Pares recebem uma bolsa.
Habitação de Emergência
Para muitos jovens LGBT sem-teto, o Programa de Habitação de Emergência é a primeira cama desde que saíram de casa. Ao contrário de outros abrigos de crise, este é composto por hospedagens em apartamentos acolhedores no Queens e Brooklyn, com refeições caseiras todas as noites.
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O AFC possui hoje quatro locais de habitação de emergência com um total de 52 leitos. Através de apoio e afirmação consistente e paciente, o programa estabiliza os jovens e trabalha com eles para obter moradia fixa. Dependendo do local, o programa dura de 1 a 6 meses, com a esperança de que os residentes de habitação de emergência se formem no programa de transição independente.
Com tantos jovens LGBTI precisando de abrigo a cada noite, a moradia de emergência frequentemente tem uma lista de espera de 200 jovens. Como resultado, infelizmente, os jovens raramente recebem um alojamento no dia em que procuram o centro. Para os jovens de 16 a 20 anos, o tempo de espera é de aproximadamente 2 semanas, para os jovens de 21 a 24 anos, a espera pode durar até 6 meses.
Moradia Transitória
O AFC tem 54 camas transitórias em apartamentos compartilhados por Manhattan e Brooklyn. Os jovens podem residir em nos Programas de Habitação Temporária com mais independência por até dois anos, enquanto mantêm um emprego, continuam seus estudos e se preparam para viver sozinhos.
Para se prepararem para mudança de casa, todos os moradores da Transitional Housing criam um plano detalhado de dois anos para mapear seu caminho para a independência. Os residentes também trabalham com gerentes de casos que os ajudam a definir metas educacionais e vocacionais de longo prazo, como equivalência do ensino médio, matrícula em faculdades e treinamento adicional para o mercado de trabalho. Atualmente, 77% dos moradores transitórios estão na escola e 99% estão empregados.
O programa incute a responsabilidade dos residentes em prepará-los para a independência. Os jovens são obrigados a abrir uma conta poupança e trabalhar com seu gerente de caso para determinar quanto dinheiro eles devem economizar a cada mês. Além disso, todos os jovens participam de oficinas mensais sobre Independência da Aprendizagem para o Empoderamento (LIFE) sobre vários tópicos para ajudá-los a se tornarem adultos de sucesso.
Cada residente é emparelhado com um Coach da LIFE, um profissional que orienta o jovem durante a moradia de transição. Sem nenhuma família em quem confiar, os Coaches da LIFE frequentemente funcionam como uma família substituta para esses jovens, oferecendo uma sólida base de apoio para os participantes do programa e para os graduados.
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Programas e Recursos para Pessoas Transgênero Programa de Terapia Hormonal
Através de uma parceria contínua com o Institute for Family Health, o Ali Forney Center oferece tratamento hormonal para pessoas transexuais e de gênero não-conforme, por meio de uma clínica médica implantada no local. Em conjunto com o programa de moradia especial para transgêneros, este é um recurso vital para os clientes que estão buscando a terapia de reposição hormonal. Muitos destes jovens estão obtendo hormônios através de métodos inseguros nas ruas ou estão em longas listas de espera para começar a receber os hormônios em outras clínicas. O Instituto
Imagem 11: Unidade de moradia
Fonte: https://www.aliforneycenter.org/programs/transitional-living/ Imagem 12: Unidade de moradia Fonte: https://www.aliforneycenter.org/programs/transitional-living/
Imagem 13: Unidade de moradia
Fonte: https://www.aliforneycenter.org/programs/transitional-living/ Imagem 22: Unidade de moradia Fonte: https://www.aliforneycenter.org/programs/emergency/
Imagem 23: Unidade de moradia
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trabalha com o AFC para garantir que os mesmos obtenham hormônios da maneira mais segura e menos dispendiosa.
Programa de Habitação Especial para Transgêneros
No outono de 2015, foi iniciado o primeiro programa de moradia transgênero do AFC. Este programa de alojamento com 18 leitos está localizado em um bairro seguro do Brooklyn, e oferece acomodação estabilizante para homens e mulheres trans com idade entre 16 e 20 anos, por até 18 meses. Este programa aborda as necessidades concretas e emocionais específicas de pessoas trans em um ambiente seguro e afirmativo, ajudando-os a se conectar com os recursos necessários para se tornarem adultos seguros e independentes.
Lista de Desejos do Transgênero
Itens que podem ser considerados fúteis ou desnecessários por pessoas cisgêneras podem ser essenciais para transmitir a autopercepção das pessoas ou para ajudar jovens trans a terem seu gênero corretamente reconhecido durante a escola, o trabalho, as entrevistas de emprego, ou apenas enquanto estiver no mundo. Pensando nisso, o AFC criou uma lista amiga em sites de compras parceiros, onde qualquer um pode fazer uma doação comprando um item básico de vestimenta ou utensilio de beleza para os jovens trans que habitam o Centro.
Educação e Trabalho
O Programa de Aprendizagem, Emprego, Avanço e Colocação (LEAP), uma parceria entre o Centro Ali Forney e o Centro de Programas para Juventude LGBT dos EUA, é um curso de preparação vocacional e educacional multidisciplinar de seis meses para pessoas LGBTI+ sem abrigo e em risco, jovens com idades entre 18 e 24 anos. A LEAP ajuda essas pessoas a desenvolver habilidades e transformá-las em adultos independentes.
Segundo dados do AFC, quase 9 de 10 jovens nunca completaram, envelheceram e ficaram fora de faixa ou não foram matriculados na escola por períodos superiores a 30 dias. Através do LEAP, são oferecidos cursos preparatórios regulares para que os jovens possam passar no exame de Equivalência no Ensino Médio (HSE), equivalente ao ENEM brasileiro.
Para participar de treinamento e colocação profissional, os jovens são avaliados e matriculados em um curso preparatório para fazer o exame National Workiness Readiness Credential (NWRC), uma espécie de credencial de padrão máximo para empregabilidade em empregos de nível básico. Enquanto se preparam para o NWRC, os jovens também aprendem habilidades para a vida, como preparação de currículos, orçamento e gerenciamento de tempo. Os jovens passam então para estágios remunerados em algum dos parceiros corporativos ou sem fins lucrativos, desenvolvendo seu histórico de empregos e garantindo experiência. Através de incentivos em dinheiro, apoio contínuo e
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orientação, os jovens recebem as ferramentas fundamentais necessárias para o emprego e o sucesso futuro na vida.
Serviços de Saúde
O instituto para a saúde da família, através de um contrato com um programa governamental de cuidados aos sem-teto, fornece serviços primários e psiquiátricos no local. Dentre as atividades oferecidas estão serviços abrangentes de saúde, como:
- HIV diário e teste de Hepatite C durante os 7 dias da semana; - Prevenção, e tratamento para HIV / AIDS;
- Teste e tratamento para DST's
- Recursos para PEP (Profilaxia Pós-Exposição) e PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) - Terapia de Reposição Hormonal (TRH)
- Controle de natalidade e contracepção - Inscrição em seguros de vida
- Requisitos de Habitação de Emergência e Transição: Exames físicos, avaliações psicológicas e vacinações;
- Referências médicas especiais. Quem foi Ali Forney?
O homônimo da organização, Ali Forney, era um adolescente de gênero não-conforme que fugiu de sua casa aos 13 anos. Ele entrou no sistema de assistência social, e nesse período foi realocado para várias casas onde foi agredido e abusado. Ali acabou ficando sem ter onde viver aos 15 anos e passou a fazer trabalhos de rua e inevitavelmente por se envolver com drogas. Em seguida, se dedicou a ajudar outros jovens, oferecendo a assistência que podia e educando qualquer pessoa próxima sobre prevenção do HIV e sexo seguro, e defendeu publicamente a segurança de jovens LGBT sem-teto, defendendo agressivamente que o Departamento de Polícia de Nova York investigasse o assassinato de vários jovens homossexuais amigos de Ali.
Aos 17 anos, Ali conheceu Cal Siciliano, futuro fundador do Ali Forney Center, quando o mesmo trabalhava como diretor, e se tornaram amigos próximos. Em dezembro de 1997, aos 22 anos, Ali foi cruelmente assassinado nas ruas do bairro Harlem, baleado na cabeça e deixado para morrer. O crime nunca foi levado à justiça.
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Ficha Técnica:
Equipamento: Centro de referência LGBT Janaína Dutra Responsabilidade: Prefeitura Municipal de Fortaleza Localização: Rua Pedro I nº 436, Centro de Fortaleza - CE Ano de Criação: 2012
Institucionalizado háseis anos pela Lei 133/2012, o Centro de Referência LGBT Janaína Dutra,
se configura como um serviço de proteção e defesa da população de lésbicas, gay, bissexuais, travestis e transexuais que se encontram em situação de violência e/ou violação, omissão de direitos motivados pela questão da orientação sexual e/ou identidade de gênero. Hoje implantado em um edifício antigo de propriedade da Prefeitura de Fortaleza, o órgão possui a responsabilidade pelo planejamento, articulação e execução de ações com o objetivo de promover, defender e difundir os direitos desta camada da população, mesmo assim, o Centro ainda não é muito conhecido pela grande maioria dos LGBT’s da capital.
Vinculado à Coordenadoria da Diversidade Sexual da Secretaria de Direitos Humanos – SDH da Prefeitura Municipal de Fortaleza, o equipamento possui eixos de atendimento ao público LGBT vítima de discriminação, violência e/ou omissão e lesão de direitos advindos da homolesbotransfobia, que vão desde acompanhamento jurídico, até atendimento psicológico e de serviço social. Além disso, o Centro Janaína Dutra também elabora e desenvolve pesquisas para o mapeamento e sistematização de dados sobre as desigualdades motivadas por intolerância à orientação sexual e identidade de gênero, buscando fortalecer o movimento LGBT na cidade.
Imagem 16: Fachada edifício onde se instala o Centro Janaína Dutra Fonte: www.google.com.br/maps