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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO - UMESP ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. RENAN LESCANO ROMÃO. A IGREJA MESSIÂNICA NA PERIFERIA URBANA DE GUARULHOS, SP: um estudo sobre as práticas, identidade religiosa, marginalidade e corte em uma Nova Religião Japonesa.. SÃO BERNARDO DO CAMPO AGOSTO/2018.

(2) RENAN LESCANO ROMÃO. A IGREJA MESSIÂNICA NA PERIFERIA URBANA DE GUARULHOS, SP: um estudo sobre as práticas, identidade religiosa, marginalidade e corte em uma Nova Religião Japonesa.. Dissertação. apresentada. à. Banca. Examinadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP, como exigência parcial à obtenção do grau de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera. SÃO BERNARDO DO CAMPO AGOSTO/2018.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA. R662i. Romão, Renan Lescano A igreja messiânica na periferia urbana de Guarulhos, SP: um estudo sobre as práticas, identidade religiosa, marginalidade e corte em uma nova religião japonesa / Renan Lescano Romão -- São Bernardo do Campo, 2018. 143fl. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Metodista de São Paulo - Escola de Comunicação, Educação e Humanidades Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião São Bernardo do Campo. Bibliografia Orientação de: Dario Paulo Barrera Rivera.. 1. Identidade (Religião) 2. Religião - Aspectos sociais 3. Igreja Messiânica - Guarulhos (SP) 4. Religiões japonesas I. Título CDD 296.336.

(4) À Antônio Aparecido Romão, meu pai (in memoriam).. À Ana Cláudia Lescano Romão, com meu amor e mais sincera gratidão, que com todo seu apoio e carinho seguiu me acompanhando, “mão dentro da mão”, ao longo da elaboração deste trabalho..

(5) AGRADECIMENTOS À minha esposa Ana que sempre me apoiou dando incentivo, suporte e carinho, sem os quais certamente eu não teria chego até aqui. Aos meus familiares: ao meu pai (in memoriam) que intencional ou inconscientemente garantiu apoio aos meus estudos mesmo após seu falecimento e à minha mãe que sempre acreditou no potencial transformador da educação, inclusive como porta de acesso à sabedoria que transcende o ensino formal. Ao Profº. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera, orientador e amigo, pela acolhida, apoio, paciência e liberdade, sempre acreditando no potencial da pesquisa e encarando de modo muito positivo os desafios impostos. Minha sincera gratidão por me orientar nesta jornada no mínimo transformadora. Aos professores Dr. Frank Usarski e Dr. Nicanor Lopes pelos preciosos questionamentos na Banca de Qualificação. Ao CAPES (Conselho Acadêmico de Pesquisas no Ensino Superior) pela bolsa concedida para a realização desta pesquisa de mestrado. Aos amigos do grupo de pesquisas REPAL (Religião e Periferia na América Latina) pela partilha e sugestões. Às queridas amigas Cristina Bevilaqua e Maria Verginia Menezes que me incentivaram a prosseguir no empreendimento deste estudo. Ao professor Dr. Armando Rocha Júnior por me incentivar a seguir meus estudos na pós-graduação, indicando as melhores opções logo após minha graduação. Aos amigos da Igreja Messiânica de Guarulhos, que não poderia nomear correndo o risco de esquecer alguém, mas representados pelo Reverendo Joaquim Iyama. Bem como aos dirigentes responsáveis pelos Johrei Center São João e Johrei Center Taboão da Igreja Messiânica de Guarulhos, e aos respectivos membros destas comunidades pela receptividade e auxílio prestados. Aos vinte e cinco participantes desta pesquisa, que com gentileza, paciência e colaboração expuseram uma parte tão íntima de suas histórias de vida, que são suas trajetórias religiosas, revelando suas grandezas. Sem a sua colaboração, este trabalho não seria possível..

(6) ROMÃO, Renan Lescano. A IGREJA MESSIÂNICA NA PERIFERIA URBANA DE GARULHOS, SP: um estudo sobre as práticas, identidade religiosa, marginalidade e corte em uma Nova religião Japonesa. São Bernardo do Campo, SP, 2018, 142p. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião – Religião, Sociedade e Cultura). São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, 2018.. RESUMO O estudo das religiões em contexto de periferia urbana tem crescido tanto na área da sociologia quanto das ciências da religião graças à percepção de que este constitui um espaço privilegiado de análise das dinâmicas sociais. São poucas, porém, as incursões que tratam propriamente de religiões minoritárias, étnicas e transnacionalizadas na periferia, privilegiando-se mais a temática do crescimento dos evangélicos e dos sem religião nestas populações. O presente trabalho propõe uma análise das práticas, identidade, marginalidade e princípio de corte em duas comunidades religiosas da Igreja Messiânica Mundial do Brasil instaladas na periferia urbana da cidade de Guarulhos, SP. A Igreja Messiânica, uma das mais populares Novas Religiões Japonesas no Brasil, vem ganhando uma identidade própria brasileira e o estudo desta na periferia revela uma série de funções inovadoras que a religião passa a desempenhar dentro desta construção. O trânsito religioso, origem da maioria dos seus membros, revela quais recursos se tornaram importantes na passagem entre uma identidade religiosa anterior para a identidade “messiânica”. Notou-se assim a incidência do processo de marginalidade identitária, mas não necessariamente, do recurso de “corte” ou “cisão” como solução à um hibridismo percebido entre os participantes. Palavras-chave: identidade religiosa; marginalidade identitária; princípio de corte; novas religiões japonesas no Brasil;.

(7) ROMÃO, Renan Lescano. THE MESSIANIC CHURCH IN THE PERIPHERY OF GUARULHOS, SP: a study on practices, religious identity, marginality and cut in a Japanese New Religion. São Bernardo do Campo, SP, 2018, 142p. Dissertation (Master of Science in Religion - Religion, Society and Culture). São Bernardo do Campo, Methodist University of São Paulo, 2018.. ABSTRACT. The study of religions in the context of urban periphery has grown both in the field of sociology and in the sciences of religion thanks to the perception that it constitutes a privileged space for the analysis of social dynamics. There are, however, few inroads that deal properly with minority, ethnic and transnational religions in the periphery, focusing more on the growth theme of evangelicals and those without religion in these populations. The present work proposes an analysis of practices, identity, marginality and cut principle in two religious’ communities of the World Messianic Church of Brazil, installed in the urban periphery of the city of Guarulhos, SP. The Messianic Church, one of the most popular New Japanese Religions in Brazil, has gained its own Brazilian identity and the study of this in the periphery reveals a series of innovative functions that religion starts to play within this construction. Religious transit, the origin of most of its members, reveals which resources have became important in the transition from an earlier religious identity to "messianic" identity. The incidence of the process of identity marginality, but not necessarily, of the use of "cut" or "split" as a solution to a perceived hybridity among the participants was noted.. Keywords: religious identity; religious syncretism; identity marginality; new Japanese religions in Brazil;.

(8) LISTA DE TABELAS Tabela 01: Gênero e renda familiar obtidos no JC São João- Guarulhos, SP, p. 76; Tabela 02: Gênero e renda familiar obtidos no Johrei Center Taboão- Guarulhos, SP, p.77; Tabela 03: Gênero e renda familiar obtidos na amostra total - Guarulhos, SP, p. 77; Tabela 04 - Dados sobre escolaridade obtidos nos questionários aplicados por comunidade religiosa na periferia de Guarulhos, SP, p. 81; Tabela 05 – Religião de origem dos participantes por comunidade e geral, P.96; Tabela 06 – Categorização como “semelhante” ou “diferente” na comparação entre a religião de origem dos participantes em relação à religião messiânica por comunidade e geral, P.97; Tabela 07 – Categorização dificuldade encontrada no processo de conversão dos participantes por comunidade e geral, p. 97; Tabela 08 – Motivação para à conversão: geral, JC Taboão e JC S. João, P. 102;. LISTA DE FIGURAS Figura 01. Evolução do IDHM de Guarulhos (2010), P. 33; Figura 02 - Símbolo da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, p.65;. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 01. Crescimento populacional de Guarulhos, P. 31; Gráfico 02. Urbanização de Guarulhos (2010), P. 32 Gráfico 03 - dados sobre gênero obtidos nos questionários aplicados por comunidade religiosa na periferia de Guarulhos, SP, p. 74; Gráfico 04 – Dados sobre renda familiar obtidos no Johrei Center São João e Taboão - Guarulhos, SP, p. 75; Gráfico 05 – Dados sobre gênero obtidos no JC São João e Taboão - Guarulhos, SP, p. 75; Gráfico 06 - Dados sobre idade obtidos nos questionários aplicados por comunidade religiosa na periferia de Guarulhos, SP, p. 78;.

(9) Gráfico 07 - Dados sobre número de pessoas que moram com o participante obtidos nos questionários aplicados por comunidade religiosa na periferia de Guarulhos, SP, p. 79; Gráfico 08 - Dados sobre estado civil obtidos nos questionários aplicados por comunidade religiosa na periferia de Guarulhos, SP, p. 80; Gráfico 09 - Dados sobre cor | raça obtidos nos questionários aplicados nas comunidades religiosas na periferia de Guarulhos, SP, p.80; Gráfico 10 - Dados sobre escolaridade | renda obtidos na amostra geral das comunidades religiosas na periferia de Guarulhos, SP, p. 82; Gráfico 11 - Dados sobre “contribuições da igreja ao bairro percebidas pelos membros” por comunidade religiosa na periferia de Guarulhos, SP, p. 84; Gráfico 12. – Motivação para à conversão: JC Taboão, P. 103 Gráfico 13 – Motivação para à conversão: JC S. João, P. 103; Gráfico 14 – Motivação para permanência: JC Taboão, P. 104; Gráfico 15 – Motivação para permanência: JC S. João, P. 105; Gráfico 16 – Motivação para permanência: Amostra Geral, P. 106; Gráfico 17 – Participação em atividades: Amostra geral, P. 110; Gráfico 18 – Participação em atividades: JC Taboão, P. 111; Gráfico 19 – Participação em atividades: JC S. João, P. 112;. LISTA DE MAPAS Mapa 01. - Divisão Administrativa de Guarulhos (2000), p. 30; Mapa 02 - Índice Paulista de Vulnerabilidade Social - Município de Guarulhos (2000), P. 36; Mapa 03 - Exclusão/Inclusão Social em Guarulhos (2000):.

(10) SUMÁRIO Páginas INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 012 CAPITULO 1 - RELIGIÃO NA PERIFERIA URBANA DE ..................... 020 GUARULHOS: PERSPECTIVAS TEÓRICAS 1.1 Periferia urbana: particularidades e conceitos fundamentais ...................... 021 1.1.1 A periferia como produção intencional.......................................................................... 022 1.1.2 Urbanização e conformação das periferias urbanas no Brasil .......................... 024 1.1.3 Segregação espacial, social e vulnerabilidade ......................................................... 025 1.1.4 Desenvolvimento Humano e o Índice de Exclusão Social ............................... 027 1.2. Periferia urbana de Guarulhos.................................................................................... 028. 1.2.1 Conformação da periferia de Guarulhos..................................................................... 029 1.2.2. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de ........................ 032. Guarulhos 1.2.3 O Índice de Vulnerabilidade Social de Guarulhos.................................................. 034 1.2.4 Caracterização dos bairros estudados: Taboão e São João ............................ 037 1.3 Periferia urbana e religião ................................................................................................... 040 1.3.1 Perspectivas de estudo da religião na periferia ...................................................... 041 1.3.2 Constituição religiosa das periferias urbanas no Brasil ....................................... 042 1.3.3 Religiões orientais na periferia urbana brasileira ................................................. 043 1.4 Campo religioso em Guarulhos ....................................................................................... 045 1.4.1 A constituição do campo religioso guarulhense - Censo 2010 ...................... 045 1.4.2 A presença das NRJ em Guarulhos ............................................................................. 046 CAPÍTULO II – IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL: O .................... 049 ESTABELECIMENTO NA PERIFERIA DE GUARULHOS 2.1 Caracterização das Novas Religiões .................................................... 049 Japonesas 2.1.1 Contexto da religiosidade japonesa .............................................................................. 050 2.1.2 O uso do termo “Novas Religiões Japonesas” ........................................................ 052 2.1.3 NRJ como resposta à crises e a centralidade no indivíduo ................................ 053 2.1.4 Igreja Messiânica na tipologia de Shimazono ........................................................... 055 2.2 Novas Religiões Japonesas no Brasil ......................................................................... 057 2.2.1 Imigração japonesa e religiosidade ................................................................................ 057 2.2.2 Transposição das barreiras étnicas no Brasil............................................................ 058.

(11) 2.2.3 Particularidades da membresia das religiões orientais e NRJ ........................ 060 no Brasil 2.3 Contextualização da Igreja Messiânica Mundial ................................................... 062 2.3.1 Fundação da Igreja Messiânica ....................................................................................... 062 2.3.2 O estabelecimento da IMM no Brasil ........................................................................... 063 2.3.3 Análise das principais características da IMM .......................................................... 064 2.4 A Igreja Messiânica em Guarulhos e seu estabelecimento na ..................... 068 periferia do município 2.4.1 Histórico da Igreja Messiânica em Guarulhos ........................................................... 068 2.4.2 Estabelecimento do Johrei Center Taboão na periferia de ......................... 069 Guarulhos e intencionalidade 2.4.3 Estabelecimento do Johrei Center São João na periferia de ............................. 071 Guarulhos e intencionalidade 2.5 Aspectos sociais, econômicos e culturais dos membros da ........................ 073 Igreja Messiânica na periferia de Guarulhos 2.5.1 Análise do perfil socioeconômico dos membros do JC Taboão e ................... 073 do JC São João 2.5.2 Análise das contribuições dos Johrei Centers aos bairros de ........................... 084 acordo com os membros CAPÍTULO III – A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE MESSIÂNICA ...................... 086 NA PERIFERIA DE. GUARULHOS,. A MARGINALIDADE. E. O. PRINCIPIO DE CORTE 3.1 Marginalidade ............................................................................................................................. 087 3.1.1 Marginalidade em Robert Park ......................................................................................... 087 3.1.2 Marginalidade em Bastide e o “princípio de corte” ................................................. 089 3.1.3 A possibilidade da marginalidade nas NRJ no Brasil ............................................ 091 3.2 Identidade e marginalidade ................................................................................................ 092 3.2.1 Identidade social e religiosa ............................................................................................... 092 3.2.2 Identidade religiosa e modernidade ............................................................................... 094 3.3 A construção da identidade religiosa messiânica na periferia .................... 095.

(12) 3.3.1 A construção da nova identidade religiosa ................................................................. 096 3.3.2 O hibridismo na nova identidade religiosa .................................................................. 100. 3.3.3 Motivação de conversão e permanência na Igreja Messiânica ........................ 101 3.4 Perfil religioso do “messiânico” na periferia de Guarulhos: ......................... 106 práticas religiosas, frequência dos membros e funções inovadoras 3.4.1 Práticas da Igreja Messiânica nos bairros do Taboão e do São ...................... 107 João 3.4.2 Frequência nas práticas dos Johrei Centers ............................................................. 109 3.4.3 As funções inovadoras dos Johrei Centers na periferia ....................................... 112 3.5 Marginalidade e corte na IMM na periferia de Guarulhos ................................ 115 3.5.1 Análise dos messiânicos da periferia de Guarulhos quanto ao ........................ 116 fator “marginalidade” 3.5.2 Análise dos “messiânicos” da periferia de Guarulhos quanto ao ..................... 119 “princípio de corte” CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................................... 124 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................... 130 ANEXO 1: Questionário socioeconômico ......................................................................... 135 ANEXO 2: Questionário religioso ........................................................................................... 139.

(13) 12. INTRODUÇÃO No Brasil o campo dos estudos das religiões orientais, em especial das Novas Religiões Japonesas, é pequeno dentro do universo de pesquisa das ciências da religião e, ao dedicar o presente trabalho a este campo, se pretende contribuir em alguma medida com esta rica área de pesquisa. Aqui se propõe o estudo de certas consequências dadas pelo processo de contato entre culturas a partir do ponto de vista oferecido pela religião. A cultura religiosa carrega muitas marcas étnicas, em medidas diferentes de religião para religião, mas que trazem consequências não apenas para a recomposição identitária da religião levada a um novo espaço que não o seu contexto cultural original, como também ao próprio contexto cultural onde é implantada. Os estudos acerca do contato entre culturas instigaram interesse de teóricos tanto no campo da sociologia quanto, igualmente, nos estudos da religião e autores como Robert Park, Everett Stonequist e Roger Bastide serão alguns dos retomados aqui para a discussão do que foi observado ao longo da pesquisa de campo. Esta busca por compreender os fenômenos envolvidos no contato cultural e consequente produção de um terceiro e novo elemento parece um desafio importante a ser explorado, ainda mais em um mundo em que os contatos se tornam cada vez mais acirrados e o acesso às diversas culturas se intensificaram, graças a facilitação de fluxos migratórios, à oferta de tecnologias de comunicação cada vez mais oportunizadas às grandes massas e aos desdobramentos de uma espécie de cultura globalizada. O Brasil ainda ficou conhecido, devido a alguns teóricos da sociologia nacional, por ser um país acolhedor e receptáculo das mais variadas culturas que para aqui imigraram, bem como de suas matrizes étnicas e religiões: uma visão tida como romântica e alvo cada vez maior de críticas. A questão da identidade, por trás do tema do contato de culturas também parece ser igualmente instigante por tratar-se de uma construção desafiadora, ao mesmo tempo individual e coletiva, subjetiva e institucional, em constante desconstrução e reconstrução, que levanta questões em variadas áreas de pesquisa como a sociologia, a psicologia e as ciências da religião. A proposta dada é a análise de duas possíveis consequências do contato entre culturas religiosas distintas, a saber, a chamada “marginalidade”, definida por Robert Park e revisitada por Roger Bastide, e o “princípio de corte” fruto da análise de Roger Bastide à problemática da religiosidade do negro.

(14) 13. ao mesmo tempo católico e candomblecista. O esforço realizado aqui é de enfatizar as características mais marcantes da cultura religiosa e identidade de origem de uma das diversas Novas Religiões Japonesas transnacionalizadas para o Brasil, a Igreja Messiânica Mundial (IMM), os consequentes contornos que tomou ao ser transplantada para o país; os estudos já realizados sobre as recomposições desta identidade religiosa e; finalmente, a análise da presença das consequências que perseguimos. O contexto em que se dá a análise é diferente daqueles encontrados na bibliografia sobre o tema, pois inova ao propor uma leitura das identidades religiosas messiânicas a partir do estudo de comunidades da igreja instaladas na periferia de Guarulhos, cidade da Região Metropolitana de São Paulo, uma das maiores da América Latina.. É importante ter em mente que a religião não se limita a fornecer dados sobre a cultura e identidade religiosa, mas também se torna um local privilegiado de estudo das questões sociais tão emergentes no Brasil, conhecido como um dos países mais desiguais entre aqueles em desenvolvimento econômico. O ponto de partida da análise é a “identidade religiosa messiânica”, como dada principalmente no trabalho de Tomita (2009) acerca da IMM. Porém, a identidade a ser confrontada não é de qualquer messiânico, mas sim daqueles em um contexto de maiores desafios sociais e econômicos, ou seja, daquele no contexto das periferias urbanas. Algumas características da modernidade religiosa parecem ser muito mais perceptíveis na dinâmica religiosa que ocorre na periferia onde, inclusive, se nota a maior dificuldade de penetração de instituições religiosas, reinando com soberania as organizações religiosas locais. A modernidade em si revela um agravante no estudo das religiões em geral, e das identidades religiosas em particular, por ser a religião uma instituição social de comportamento peculiar quanto ao trato de suas mudanças e adequações ao contexto cultural e histórico em que se localiza. A construção desta identidade religiosa, que se relaciona muito intimamente com a versatilidade da transmissão de uma memória, como afirma Halbwachs (1971), é grandemente afetada por duas das consequências da modernidade: a laicidade e a secularização. Se recorreu à chamada “Sociologia da Modernidade Religiosa”, de Danielle Hervieu-Lèger (1993), para a explicação do peso dado à centralidade do indivíduo na construção de sua identidade religiosa na modernidade..

(15) 14. Esta centralidade possibilitou analisar certas contribuições que a religião passa a desempenhar de modo inconsciente, ao menos do ponto de vista institucional, em determinados contextos, em virtude deste protagonismo do sujeito religioso que busca na religião uma série de soluções à problemas cotidianos, seculares, que antes não buscava. A periferia parece revelar estas funções inovadoras, já percebidas no trabalho de Nogueira (2016) e chamadas pelo autor de capital simbólico, em alusão à teoria de Pierre Bourdieu, de modo mais enfático que em outros contextos, e traz igualmente reflexões alternativas às problemáticas seculares que constituem questões de interesse social e de políticas públicas. Ainda as especificidades do estudo da religião na periferia urbana precisaram ser devidamente retomadas.. Para tal empreitada foi necessário o uso de múltiplas ferramentas de pesquisa que possibilitaram a análise mais ampla possível. A pesquisa bibliográfica, como ponto de partida, permitiu o levantamento do estado da arte quanto aos estudos das Novas Religiões Japonesas no Brasil; da imigração japonesa no país; das questões que envolvem a identidade e a identidade religiosa; da problemática ao redor dos estudos das religiões nas periferias urbanas; e a particularização da periferia de Guarulhos, especificamente aqui estudada, bem como proveu o suporte teórico encontrado em Roger Bastide para tratar da conflitiva do contato cultural religioso e da transição entre identidades religiosas; em Castells para tratar da problemática social da periferia urbana; em Ciampa para abordar a questão da identidade mutante e; em Hervieu-Léger para tratar da identidade religiosa na modernidade. Contíguo ao recurso bibliográfico se deu a pesquisa de campo que enriqueceu e possibilitou a problematização dos potenciais direcionamentos da pesquisa através da observação participativa em duas comunidades religiosas da Igreja Messiânica Mundial na periferia de Guarulhos, SP. Graças ao levantamento dado pela observação participativa foi possível também definir o conteúdo de questionários aplicados de modo a melhor revelar os aspectos sociais e religiosos dos sujeitos estudados fornecendo material a ser confrontado com a identidade messiânica brasileira, tomada como parâmetro. Tendo em vista que a conflitiva se dá na transição de uma identidade religiosa para outra identidade, se utilizou o termo “identidade religiosa de origem” e “identidade religiosa de destino” para designar a identidade da religião de origem do sujeito e a identidade da religião messiânica para qual se converteu..

(16) 15. Dois foram os questionários desenvolvidos: o social com vistas a apresentar o perfil dos religiosos, visando, inclusive, verificar se correspondiam à dos moradores dos bairros de periferia estudados, e o religioso, com o intuito de investigar a identidade religiosa dos membros e aspectos do processo de trânsito religioso vivido por estes em sua conversão à Igreja Messiânica. Foram aplicados vinte e cinco questionários no total, distribuídos da seguinte maneira: quinze questionários no grupo “Johrei Center Taboão”, composto por uma média de cento e cinquenta membros no total; e dez questionários no segundo grupo “Johrei Center São João”, composto por cerca de cem membros. Os questionários são, portanto, uma amostragem de cerca de 10% dos membros que compõe estas comunidades religiosas. A aplicação dos mesmos se deu ao longo de um período de uma semana em cada comunidade, distribuída em variados períodos do dia, visando a maior representatividade possível por idade e gênero, almejando uma amostra que fosse suficientemente representativa do universo dos grupos. Respeitando os objetivos do trabalho e o limite da proposta, algum material, dentre os dados tratados, teve de ser deixado para análises futuras que podem contribuir de maneira diversa à deste trabalho. Como dito, os motivadores da pesquisa giram em torno do questionamento acerca dos contatos culturais tomando como fonte primária o indivíduo religioso em seu processo de trânsito ou conversão, propriamente ditos, e de possíveis conflitivas e soluções daí advindas, especialmente nos casos de religiões modernas, ou novas religiões, e de origem étnica colocadas em novos contextos culturais. O problema da religião em periferia no Brasil vem sendo tratado extensivamente mais do ponto de vista das religiões hegemônicas, como acerca dos católicos e dos crescentes grupos de protestantes, deixando negligenciado, em certa medida, a presença de minorias nestes espaços. Não foram encontradas nas bibliografias pesquisadas referências acerca das dinâmicas vividas pelas Novas Religiões Japonesas (NRJ) em bairros de periferia urbana no Brasil, e poucas referências acerca de quaisquer outras religiões minoritárias, especialmente as étnicas, que pouco se fazem presentes na periferia. Mesmo religiões historicamente bastante exploradas pelos estudos sociais no Brasil, como as de matriz africana (umbanda e candomblé, por exemplo), parecerem carecer de estudos neste contexto de periferia (RIVERA, 2016)..

(17) 16. As questões que envolvem o encontro cultural e suas consequências, de religiões étnicas transnacionalizadas, incluindo das NRJ no Brasil, foram discutidas (MORI, 1988; PEREIRA, 2001; TOMITA, 2009;), bem como o processo de construção e reconstrução identitária nos novos movimentos religiosos (HERVIEU-LÉGER, 2001). Porém, aqui se discute os aspectos marginais deste encontro e os limites de aproveitamento institucional de mecanismos, como o sincretismo reflexivo (CLARKE, 2008, apud TOMITA, 2009, p.110) de modo a manter reconhecível ou preservar minimamente a identidade original daquela religião. O dilema da modernidade que, ao trazer ênfase na centralidade da determinação do sujeito religioso e, em certa medida, na flexibilidade da sua construção religiosa – como, por exemplo, no mecanismo de sincretismo reflexivo de Clarke (2008, apud TOMITA, 2009, p.110) – põe em risco a preservação dos fundamentos identitários de um determinado grupo religioso, todavia, verifica-se um ajuste que doma a velocidade com que estas mudanças ocorrem. Não há novidade no controle de tais mutações, por parte das instituições religiosas, para adequações às necessidades dos grupos religiosos, assunto central em Halbwachs (1971). A trazida de uma religião de origem marcadamente étnica e, por conseguinte, necessitada de construir uma identidade local para sobreviver, parece incorrer no dilema de mudar para sobreviver ao mesmo tempo que precisa preservar sua estrutura fundamental, que a diferencia das demais propostas religiosas. Diante desta problemática este trabalho se propõe, em seu objetivo geral, analisar a presença dos mecanismos de “marginalização” e de “corte” nas comunidades da Igreja Messiânica Mundial no Brasil, localizadas na periferia urbana da cidade de Guarulhos, São Paulo, visando determinar as lógicas de encaixe ou de analogia por trás de um movimento religioso moderno, uma Nova Religião Japonesa, na estruturação de sua identidade religiosa nacional como projeto institucional e na estruturação das identidades locais e de sujeitos religiosos oriundos do trânsito religioso. Como objetivos específicos foram estabelecidas as tarefas de: determinar as peculiaridades de estudo da religião no contexto de periferia urbana, esclarecendo de que se trata o espaço da periferia e contextualizando a periferia urbana especificamente estudada: da cidade de Guarulhos, SP; descrever, através da revisão histórica e da análise das práticas religiosas, as principais características da religião.

(18) 17. messiânica no Brasil, a contextualizando na religiosidade japonesa e, mais especificamente, das Novas Religiões Japonesas, em busca de determinar sua lógica predominante subjacente e identidade religiosa brasileira, bem como funções que passa desempenhar dentro desta identidade à despeito da intencionalidade institucional; finalmente, se buscou determinar a dinâmica dada pelo trânsito religioso destes sujeitos, através da análise de seus discursos que revelam as relações com suas “religiões de origem” e “religião de destino” e como encaram o trato com ambas propostas doutrinais em um nível institucional e subjetivo. Foram. necessárias algumas contextualizações importantes que esclarecem. a. construção desta identidade religiosa e a função da religião no contexto estudado. A primeira destas contextualizações diz respeito à periferia urbana e ao estudo da religião neste espaço particular, especialmente as especificidades a serem consideradas das Novas Religiões Japonesas em contexto de periferia urbana, como aqui realizado. A segunda trata da conjuntura que subjaz ao aparecimento das Novas religiões Japonesas no quadro geral das religiões japonesas e o processo de transnacionalização da religião messiânica, que influenciou e influencia na construção de sua nova identidade religiosa no Brasil. E, finalmente, o terceiro é propriamente dito acerca dos processos envolvidos na construção da identidade religiosa, das forças que concorrem no processo de trânsito religioso entre religiões de matrizes diferentes, como no caso dos sujeitos brasileiros, predominantemente oriundos de religiões de matriz cristã (católicos, evangélicos e kardecistas) e de matriz afro-brasileira (umbanda), na conversão à uma religião de matriz diversa, como a nipônica, em contexto de periferia. Para tal foi necessário abordar não apenas os conceitos de “marginalidade” e o “princípio de corte” aqui empregados como também observar e analisar as práticas e motivações dos membros das comunidades estudadas. O presente trabalho pôde trazer à tona a discussão da presença de religiões minoritárias e étnicas na periferia, discutindo não apenas as funções inovadores que as religiões assumem neste contexto urbano como também a construção da identidade religiosa no processo de trânsito religioso. Foram assim retomados conceitos importantes como “marginalidade” e o “princípio de corte” que, ao serem aplicados a uma Nova Religião Japonesa em contexto de periferia urbana, pretendeu não apenas revisitá-los de maneira inédita na bibliografia consultada, mas igualmente ampliá-los em seu processo de generalização como teoria. Discutir a construção e.

(19) 18. reconstrução constante da identidade social na modernidade a partir da perspectiva da identidade religiosa, tema de tamanha importância para sociologia e para a psicologia social, possibilita uma discussão igualmente importante por oferecer referenciais de uma “identidade de origem” e “identidade de destino” em um contexto particular de resistência à mudança, como dado no campo religioso, em detrimento de outros campos sociais e este estudo pôde realizar também esta discussão. Outra importante questão levantada aqui é a possibilidade, notada especialmente nas religiões modernas ou novos movimentos religiosos, de uma espécie de “mudança de lógica” graças a sua “reflexibilidade”. Se antes a religião, resistente à mudança como afirma Halbwachs (1971), assumia uma lógica à qual se mantinha fiel, hoje surge a possibilidade de adotar lógicas distintas à medida que se faz necessário lançar mão deste ou daquele recurso à sobrevivência. De modo geral, a organização do texto ocorreu em três capítulos que respondem a objetivos específicos. O primeiro destes foi dedicado a definir a periferia urbana como objeto de estudo social e as particularidades de estudo da religião neste contexto. Tratou-se ainda de particularizar a periferia estudada, ou seja, a do município de Guarulhos, observando os instrumentos mais plurais possíveis para esta análise. Foi então abordada a questão da religiosidade no município de Guarulhos e a presença das Novas Religiões Japonesas na mesma. O segundo capítulo foi dedicado a apresentar as características mais fundamentais à religiosidade japonesa, bem como retomar o nascimento neste contexto das Novas Religiões Japonesas, dentre as quais a Igreja Messiânica Mundial aqui estudada. Foi então abordada a gênese histórica sintetizada desde a fundação da Igreja no Japão, suas principais características àquela época, sua trazida ao Brasil, a relação com o município de Guarulhos, bem como das comunidades estudadas: o Johrei Center Taboão e o Johrei Center São João. Então foi apresentada a caracterização social dos membros que compõe cada comunidade em busca de semelhanças e diferenças. No terceiro capítulo, foi abordada a questão da identidade religiosa, da marginalidade e do princípio de corte. Inicialmente, foram definidos os termos “marginalidade” dentro da sociologia proposta por Robert Park e seus discípulos, bem como sua adoção por Roger Bastide para discutir a temática da identidade religiosa especificamente. Foi definido então o conceito de “princípio de corte”, cunhado por Bastide (2001) e sua suspeita de ocorrência entre as NRJ no Brasil, de acordo com Tomita (2004). A.

(20) 19. identidade social e a religiosa, como uma das identidades sociais, foram igualmente abordadas e se versou a relação entre identidade religiosa e modernidade, igualmente a definição da identidade religiosa messiânica no Brasil. Foi apresentado, neste ponto, a construção particular da identidade religiosa messiânica na periferia de Guarulhos para fornecer confrontação àquela definida por Tomita (2009), que serviu de referência. Visando apresentar as características desta identidade religiosa na periferia foram apresentados dados, fruto dos questionários, acerca do trânsito religioso, aspectos da conversão à IMM, motivações de conversão e permanência na nova religião, práticas, frequência, e funções inovadoras desempenhadas pela religião no contexto de periferia que permitiram delinear suas identidades e analisar o fator “marginalidade” e o “princípio de corte” discutidos a partir das lógicas de encaixe e de analogia..

(21) 20. CAPÍTULO I. -. RELIGIÃO NA. PERIFERIA URBANA DE GUARULHOS:. PERSPECTIVAS TEÓRICAS Para compreender as relações estabelecidas, complexas e variadas, entre as comunidades religiosas e a periferia, como proposto neste trabalho, mostra-se necessário a retomada de conceitos fundamentais que visam clarear os fenômenos sociais que ocorrem na periferia e ali se particularizam, e que não podem ser deixados de lado ao estudar a religião ali contextualizada. A periferia é um fenômeno urbano relativamente recente, e o surgimento de cada periferia deve ser especificado, tendo em vista que muitos fatores concorrem na sua configuração. Se de um lado as periferias em geral se aproximam, graças as suas carências em comum, por outro elas são únicas nestas mesmas carências e em sua produção de soluções e alternativas. Neste sentido será abordado o processo de estabelecimento da periferia do município de Guarulhos e, especificamente, as dinâmicas sociais presentes nos bairros estudados, onde as comunidades religiosas escolhidas estão instaladas. Para tal, precisa-se retomar a conjuntura de formação das periferias urbanas no Brasil que envolvem os processos de industrialização, migração, e urbanização heterogênea. Do ponto de vista histórico, a urbanização do município de Guarulhos possui direta ligação com o crescimento do município de São Paulo e tratar da urbanização de um é esbarrar no processo histórico e social de urbanização do outro. Serão discutidas questões inerentes ao estudo das dinâmicas sociais urbanas, como o conceito de intencionalidade por trás da conformação do espaço urbano, que relaciona a segregação espacial à social. Além disso, revisa conceitos como vulnerabilidade social, levando em consideração a complexidade de fatores que sustém as carências das regiões de periferia e trazendo à tona, por exemplo, as demandas prioritárias de intervenção por parte do Estado. É a partir destes referenciais que serão caracterizados tanto o município de Guarulhos, quanto os bairros de sua periferia aqui estudados. Será tratado, na sequência, o outro aspecto fundamental da presente pesquisa, que é o campo religioso urbano, chegando especificamente ao âmbito de Guarulhos e sua periferia, retomando conceitos igualmente fundamentais inerentes ao estudo da religião em periferia urbana. Finalmente, serão tratadas, de maneira sucinta, as Novas Religiões Japonesas (NRJ) que se fazem presentes no município, visando introduzir.

(22) 21. aquela tratada em maior profundidade no próximo capítulo por constituir as comunidades aqui pesquisadas. 1.1. Periferia urbana: particularidades e conceitos fundamentais Tendo em vista que o contexto de estudo das comunidades religiosas das NRJ aqui proposto ocorre na periferia urbana, é de fundamental importância compreender este fenômeno urbano chamado de “periferia”. Os estudos sobre a periferia cresceram e diversos instrumentos foram disponibilizados para melhor compreensão das dinâmicas próprias que ali ocorrem. Quando se trata da periferia parece bastante inadequado evocar o conceito limitado e genérico da imagem do pobre. As contribuições dadas desde o urbanismo até a sociologia urbana não permitem mais este tipo de simplificação, já que o avanço nestes campos de estudo revela dinâmicas próprias deste contexto, que não podem ser ignoradas por aqueles que se debruçam sobre qualquer outra temática que intersecciona a periferia, como neste caso da religião (RIVERA, 2016). É no sentido de entender as dinâmicas que ocorrem, e concorrem, neste contexto urbano onde se inserem as comunidades religiosas estudadas, que se propõe a revisão de contribuições teóricas fundamentais no estudo recente da periferia. Neste tópico, serão tratados conceitos que ajudam a observar a pobreza na sua complexidade, que leva em consideração o aspecto multifatorial das condições na periferia, e que rompe com a naturalização destas forças, ótica essa utilizada na construção de soluções em termos de políticas públicas às problemáticas ali encontradas. Busca-se caracterizar a periferia como uma instância urbana diferenciada, de modo a auxiliar na particularização das comunidades religiosas estudadas, que se aproximam ou se afastam destas dinâmicas, tensões e desafios. Tendo ainda em vista que cada periferia se configura de modo histórico e socialmente próprios, tendo produções igualmente próprias, será contextualizada a formação específica da periferia do município de Guarulhos. Lançando mão dos conceitos que serão apresentados de vulnerabilidade social, desenvolvimento humano e do índice de exclusão social, se objetiva diferenciar os bairros estudados, em relação ao observado no resto do município, e criar uma comparação entre a população destes bairros e a das comunidades religiosas abordadas..

(23) 22. 1.1.1 A periferia como produção intencional Explicar ou tentar definir a periferia exige uma perspectiva multifatorial tendo em vista a complexidade envolvida neste aspecto da “produção social do espaço”, no contexto de urbanização moderna. Um dos mais importantes fatores envolvidos na gênese da periferia é o processo de urbanização das cidades, já que a maneira como se deu o processo de urbanização na modernidade acabou por ser responsável pela configuração de certas desigualdades espaciais. Observa-se, desta maneira, o privilegio de estruturas urbanas dispostas no entorno do progresso industrial, atrelado à produção de riqueza econômica e técnico-científica, estabelecendo desigualdades sociais facilmente identificáveis nos grandes centros urbanos do mundo, com algumas diferenças e intensidades de acordo com o país e a região a que se referem.. O uso do conceito de periferia remonta à busca de explicar certas dinâmicas eminentes à espacialidade geográfica do ambiente urbano, mas, ao longo dos estudos acerca da periferia urbana, o termo foi tomando rumos muito diversos que revelam o quão complexo é o fenômeno e, de certa forma, alargou a dicotomia centro-periférica para outros campos, como o das dinâmicas sociais. É neste campo que a periferia aparece muito frequentemente relacionada à carência que vai, em um largo espectro, desde a instalação de serviços e comércios até a ausência de equipamentos públicos e infraestrutura urbana que, por não terem sido implantados de modo homogêneo, são responsáveis por aprofundar a relação. Quando se fala da carência social é perceptível uma distribuição racional da mesma, que ocorreu antes em bolsões, claramente definidos no espaço geográfico, e hoje em mosaicos interpenetrados que revelam uma perspectiva de que o espaço não é naturalmente organizado, ou seja, o espaço urbano não é um fenômeno que se dá de maneira espontânea ou mesmo aleatória sendo, pelo contrário, arquitetado para tal configuração a fim de atender a interesses. Esta perspectiva não pode ser perdida ao longo da análise de qualquer fenômeno que ocorra neste campo já que a organização do espaço, a partir de decisões gradativas e socialmente direcionadas, definem o mesmo como social e racionalmente “produzido”, e esta observação pode ser relacionada a diversos outros desdobramentos sociais (CASTELLSS, 1983). Assim, o processo de industrialização na modernidade, que desencadeia uma consequente urbanização frequentemente desorganizada e desigual, são fatores de forte peso na formação das periferias urbanas de modo geral. Quando trazido ao.

(24) 23. contexto da América Latina, observa-se que essa é uma constante nos países mais urbanizados e em suas respectivas periferias, fato que remete a pensar em uma conexão entre os adjetivos que recebe este continente de “região mais urbanizada do mundo” e “região mais desigual do mundo”. Mais atualmente, como já citado, ainda quanto à espacialidade, deve-se levar em consideração que o concorrido compartilhamento do espaço urbano levou “o centro à periferia”, ou seja, com o inevitável crescimento das regiões centrais e alta concorrência imobiliária, a distância com a periferia foi sendo diminuída a ponto do centro se mesclar a ela em um verdadeiro mosaico. Os muros sempre existentes por trás da lógica dos grandes condomínios fechados e conjuntos residenciais de luxo se tornaram testemunhas ainda mais evidentes da segregação, intensificada por disporem de alta tecnologia em segurança e se instalarem em bairros periféricos. Tornam, assim, ainda mais gritante a percepção da desigualdade: formam-se verdadeiros “enclaves fortificados” como recurso só acessível àqueles que podem pagar por uma segurança não garantida pelo sistema público aos que estão do lado de fora (CALDEIRA,2000). Esta segregação espacial, tão evidente na periferia, parece ser um extrato espacial e com direta conexão com fatores da segregação social, da desigualdade e da vulnerabilidade social. Pensar a periferia apenas a partir da perspectiva do que lhe falta, porém, é não apenas limitado, mas igualmente limitante, tendo em vista que existe abundante produção na periferia. Ao olhar desatento, a periferia pode parecer apenas um local de carências e violência, mas, para além disso, ela é um local onde as pessoas moram, constroem suas histórias de vida, trabalham e se divertem, desenvolvem visões de mundo, exercem sua cidadania, se empoderam, e expressam estas visões diversas através dos muitos elementos culturais com significados próprios (RIVERA, 2012). A carência em serviços, inclusive dos fundamentais que deveriam ser providos pelo Estado, produz um fenômeno curioso de ajustamento na periferia que passa a produzir alternativas no sentido de compensar esta mesma ausência de intervenção do aparelho público, através de redes sociais e do associativismo tão presentes nestes espaços (NORONHA,2016). Visando localizar as origens históricas desta distribuição intencional dos recursos urbanos, retomaremos brevemente o processo histórico de industrialização e consequente urbanização nos grandes centros.

(25) 24. brasileiros, com especial atenção ao processo ocorrido em São Paulo e sua consequente relação com o mesmo no município de Guarulhos. 1.1.2 Urbanização e conformação das periferias urbanas no Brasil É sob a perspectiva da “produção social das formas espaciais”, encontrado em Castells (1983), que será possível discutir o aspecto social implicado na urbanização e no surgimento da periferia urbana. Isso se dá porque é na intencionalidade de produção do espaço urbano que podemos melhor compreender a segregação social e a vulnerabilidade em que são empurrados os grupos da periferia social em uma espécie de subcidadania. Nos países industrializados da América Latina, incluindo o Brasil, foi nas décadas do século XX que se desenrolou o processo de urbanização privilegiada, acelerada, pouco homogênea, desorganizada, e profundamente excludente (SANTOS, 2008). Esta industrialização, que passa a ocupar o espaço geográfico, se baseou em privilegiar regiões estratégicas de produção e escoação de produtos, visando a otimização do fluxo do capital, fato que impulsionou diversas “ondas migratórias” daqueles em busca por melhores condições de trabalho e de vida. O melhor aparelhamento de serviços públicos ficou reservado a regiões industrializadas, um privilégio de maior e melhor atendimento pelos “sistemas urbanos” de algumas regiões em detrimento de outras, o que acabou por impulsionar a especulação imobiliária e que reforçou o ciclo de desigualdade. Ao tocarmos na temática da industrialização, especificamente a de Guarulhos, não podemos deixar de falar do contexto da Região Metropolitana de São Paulo em que está inserida. São Paulo, uma região pouco industrializada e urbanizada até meados do século XIX, se tornou a maior metrópole brasileira graças a valorização, nacional e internacional, do mercado do café que foi bem desenvolvido nesta região graças a disponibilidade de terras e a mão de obra barata – inicialmente, de escravos negros, e depois de imigrantes europeus e asiáticos (CARONE,1972). Aliás, foi ao redor desta mesma indústria cafeeira que se desenvolveram as demais pequenas indústrias, comércios, serviços, linhas de estrada de ferro, atendimento elétrico, rodovias e portos na região. A lógica de se alimentar desta mão de obra barata seria propagada na indústria, mais tarde incluindo os migrantes do país que buscavam condições mais dignas na cidade. De tal modo, a economia brasileira ficou intimamente atrelada à industrialização de São Paulo, na primeira metade do século.

(26) 25. XX, gerando uma concentração econômica na região e consequente aprofundamento das desigualdades sociais (NORONHA, 2016). Quanto à urbanização, percebe-se que, quando a indústria estimula o fluxo de migração da mão-de-obra, acaba por forçar as massas de trabalhadores daí advindos a buscar alternativas para ocupação destas cidades que não comportam eficientemente o crescimento populacional. No caso de São Paulo, vemos o surgimento dos cortiços que nasceram como alternativas à incompatibilidade de salários baixos e altos preços de aluguéis da época. Como solução a este impasse, as famílias se associaram de modo a dividir o valor de aluguel de um mesmo imóvel, chegando a condições precárias de habitação e saneamento nestes locais. Neste caso, o fato de estarem geograficamente em regiões tidas como centrais e, portanto, com maior acesso aos diversos serviços públicos, não era suficiente para evitar que estivessem excluídos socialmente apesar de incluídos geograficamente (KOWARIC, 2009). 1.1.3 Segregação espacial, social e vulnerabilidade Neste ponto podemos retomar o útil conceito de segregação e a conexão entre a segregação espacial e a social. Como segregação entende-se o isolamento ou afastamento de um grupo social de outros, aqui relacionado diretamente à produção desigual do espaço urbano. A segregação espacial se desdobra em outras e influencia o acesso de algumas pessoas a oportunidades de trabalho, redes de oportunidade, educação e mesmo dos serviços públicos em consequência dos locais em que moram. A propósito, o isolamento é um fator decisivo no aumento da vulnerabilidade social a que estão submetidos estes grupos (KOWARICK, 1993). O preconceito expresso contra os moradores de favelas, por exemplo, é outra dimensão desta segregação espacial expressa através da social. É comum no discurso destes moradores a utilização de saídas que tentem driblar o preconceito, como o uso de endereços de amigos e parentes que moram fora da favela para apresentarem como seus em currículos e ante entrevistas de emprego, visando aumentar a chance de contratação. Como afirmado, a segregação espacial, muito presente em grandes cidades, está intimamente ligada à segregação social e à vulnerabilidade, e isso se dá, em partes, por reproduzir certos padrões que perpetuam a desigualdade social e impedem os.

(27) 26. sujeitos de se inserirem em oportunidades diversas. Uma característica importante da pobreza urbana, em oposição à pobreza rural, é a segregação espacial como fator relevante de geração da pobreza. O distanciamento de determinados grupos sociais amplia consideravelmente esta situação de pobreza ao restringir os contatos sociais, diminuir as estruturas de oportunidade, dificultar a mobilidade social e reduzir o sentimento de pertencimento dos indivíduos a coletividades, para além da evidente redução de acesso a bens e a serviços, já tão pouco universalizados no contexto urbano brasileiro (MARQUES, 2012). O nível de bem-estar das famílias está intimamente ligado ao acesso à infraestrutura, segurança, espaços públicos, entre outros fatores, que estes moradores podem ter, de modo que a exposição a ambientes segregados catalisa os comportamentos e processos de socialização responsáveis por influenciar suas metas e expectativas que, por sua vez, alteram suas trajetórias individuais. A segregação aprofunda a vulnerabilidade à pobreza e constitui prioridade de intervenção do Estado, através de políticas públicas que almejam sua redução aos níveis mínimos possíveis. Ao tratar da segregação, social e espacial, esbarra-se no conceito de vulnerabilidade social que é igualmente importante de ser retomado. Este conceito diz respeito à capacidade do indivíduo, família ou grupo social de controlar as forças que afetam seu bem-estar para melhor aproveitamento de oportunidades propiciadas pela sociedade e mesmo pelo mercado (KATZMAN,1999). O conceito de vulnerabilidade social, portanto, amplia o sentido de “pobreza”, que não passa a não mais se limitar à renda do indivíduo, mas inclui fatores que a influenciam na promoção, por exemplo, de acesso às chances de mobilidade social como: a composição familiar, o acesso a sistemas de ensino de qualidade, a acesso a trabalho digno e remuneração adequados. Desta maneira, o índice de vulnerabilidade social, instrumento de mensuração da vulnerabilidade utilizado amplamente na implementação de políticas públicas e diagnósticos, propõe uma classificação da população em seis grupos diferentes de vulnerabilidade, em um espectro que vai desde situações onde identifica-se que “não há vulnerabilidade social” até o outro extremo de “muito alta vulnerabilidade social”, derivados da combinação entre as dimensões socioeconômica e demográfica e definidos a partir de oito variáveis, de modo a priorizar intervenções..

(28) 27. O conceito de vulnerabilidade social facilita a explicação da dicotomia posta pela externa. heterogeneidade. dos. problemas. de. cada. periferia. e. a. interna. homogeneidade da conjuntura social das populações de periferia, tendo em vista que leva em consideração o somatório de precariedades, permitindo o trabalho de detecção de prioridades e atendimento com medidas necessárias, por parte do Estado, visando amenizar o impacto representado por esta vulnerabilidade. 1.1.4 Desenvolvimento Humano e o Índice de Exclusão Social Outro instrumento que ajuda a entender as dinâmicas da periferia é o chamado desenvolvimento humano. Como “desenvolvimento humano”, tornado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), entende-se o conceito desenvolvido pela ONU que diz respeito tanto à possibilidade dos cidadãos que compõe uma sociedade em melhor desenvolverem seus potenciais (com o menor grau possível de privação e sofrimento), quanto à possibilidade da própria sociedade poder usufruir coletivamente (do grau mais alto possível) da capacidade humana. O índice daí advindo se concentra na análise de fatores como a longevidade, renda e alfabetização.. Já o Índice de Exclusão Social (IES) é outro indicador, criado em 2002, a partir dos dados do censo 2000 do Brasil, que visa aferir o bem-estar nas economias mais defasadas e, graças ao seu caráter mais amplo, oferece uma visão igualmente mais profunda devido ao número de variáveis que abrange como: pobreza, concentração de jovens, alfabetização, escolaridade, emprego formal, violência e desigualdade social (POCHMANN e AMORIM, 2003). Assim, o IES sintetiza a situação de cada município no Brasil quanto aos indicadores que fazem parte do processo dicotômico de inclusão/exclusão sociais. Entre os processos temos: a porcentagem de chefes de família pobres presentes no município (aqui pobre significa uma família que vive com menos de meio salário mínimo per capita); o número de anos de estudo destes mesmos chefes de família; ainda é considerada na população ativa a taxa de empregabilidade formal; a taxa de alfabetização das crianças acima de 05 anos de idade e; visando avaliar a sujeição à violência, leva-se em consideração a taxa de homicídio a cada 100.000 habitantes. Este índice se baseia nos indicadores de vulnerabilidade como a “autonomia” e o “desenvolvimento humano”, numa escala de oito níveis que vão de -1 a 1, sendo três os temas que envolvem estes indicadores: padrão de vida digno, conhecimento e risco juvenil..

(29) 28. O IES reforça a conexão entre segregação espacial e a segregação social, e mais, denuncia a intencionalidade por trás desses processos, ao revelar a existência de alguns “acampamentos” de inclusão social em meio a uma verdadeira “selva” de exclusão. A chamada “velha” exclusão, associada a fatores sociais e históricos, aparece especialmente determinada em áreas do país como Norte e Nordeste, atingindo especialmente a histórica população de mulheres, negros, migrantes, analfabetos e famílias numerosas. A chamada “nova” exclusão, relacionada à dificuldade de inserção no mercado de trabalho ou desemprego, violência urbana e vulnerabilidade juvenil, que atingem mais jovens com alta escolaridade, adultos com mais de 40 anos e homens não negros, são mais recorrentes nas regiões Centro Sul do Brasil (POCHMANN e AMORIM, 2003). Como afirmam os autores do Atlas da exclusão social, ao denunciar a intencionalidade por trás do processo de exclusão que persiste no país: “(...) é importante lembrar que alguns grandes nomes que refletiram sobre esse país, (...) mostraram que as mudanças não ocorrem porque há resistências. Assim sendo, alterar a configuração geoeconômica do Brasil não é simples e tão-somente estimular a produção, incentivando o espalhamento da lógica industrial no nordeste e norte brasileiros. Vai além, significa enfrentar e eliminar velhas práticas políticas e implementar ações sociais que resgatem a cidadania da população excluída, dandolhe as condições para sua emancipação econômica.” (POCHMANN e AMORIM, 2003, p. 75).. Por objetivar o uso desta perspectiva multifatorial na particularização da periferia estudada, serão utilizados dados destes índices para a análise mais pormenorizada do município de Guarulhos e, especialmente, dos bairros onde estão alocadas as comunidades religiosas para que o comparativo entre os dados dos moradores e os revelados pelos questionários socioeconômicos ajudem na análise de aproximação ou distanciamento entre os membros destas igrejas e da população do entorno. Neste ponto, pode se notar o fenômeno da “periferia na periferia”, pois tanto o afastamento do grupo da realidade de seu entorno quanto a existência de uma diferença entre os grupos religiosos, dados os bairros distintos da periferia que se instalam, revelam a diferença daquilo que massivamente é chamado de periferia. 1.2. Periferia urbana de Guarulhos. Visando particularizar a periferia de Guarulhos serão tratados os aspectos históricos e de urbanização que configuraram sua periferia. Fundado como povoamento em.

(30) 29. 1560, pelo jesuíta Manoel de Paiva, sob o nome de Nossa Senhora da Conceição, a atual cidade de Guarulhos se relacionava em origem a outros cinco povoamentos que tinham como objetivo defender o povoado de São Paulo de Piratininga contra os ataques dos índios Tamoios, sendo que, por muitos séculos, Guarulhos permaneceu pertencendo à São Paulo. Nesta época, a exploração de alguns minérios foi uma das primeiras atividades ali desenvolvidas. Sua proximidade limítrofe com São Paulo seria determinantemente influenciadora das configurações e dinâmicas da cidade até o presente momento. A real emancipação de São Paulo só foi concretizada em 1880, recebendo a cidade o nome de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos, em referência aos primeiros habitantes da região: os índios “Guaru”, como apelidados por Manuel de Paiva os índios Maromomi, do tronco macro-jê, que habitavam esta região. Apenas na primeira década do século XX, graças a promulgação da Lei nº1.021 de 06 de novembro de 1906, é que a cidade assumiria o nome atual: “Guarulhos”. Da chegada da ferrovia e da energia elétrica, passando pelas licenças de implantação das indústrias, o município foi se conformando e passou a abrigar a Base Aérea de São Paulo (BASP), em 1945, no atual bairro de Cumbica, e o Aeroporto Internacional, em 1985, que definiria muitas das dinâmicas ainda sentidas na urbanização da cidade. Como muitos outros municípios pertencentes às regiões metropolitanas no Brasil, surgiram aqui, com o crescimento econômico e populacional, as regiões de periferia que serão tratadas nesta seção. 1.2.1 Conformação da periferia de Guarulhos O município de Guarulhos destaca-se como a segunda mais populosa cidade do Estado de São Paulo, a maior cidade não capital do Brasil, figurando ainda entre os índices mais elevados do PIB do estado e do país, segundo o IBGE. Este município se configurou como importante centro econômico e industrial e sua proximidade com a capital paulista levou a acolher o seu transbordamento populacional, fato que propiciou uma rápida expansão de sua periferia urbana (de modo não homogêneo, inicialmente) como saída para a lotação dos trabalhadores – fenômeno comum a outras cidades, especialmente de Regiões Metropolitanas, no processo de industrialização dos municípios no Brasil (GAMA,2009)..

(31) 30. Mapa 01. - Divisão Administrativa de Guarulhos (2000):. Fonte: Geoprocessamento - UNG. Disponível em: http://www.guarulhos.org/bairros.php. Durante a década de 1940 chegaram no município as primeiras indústrias dos setores metalúrgico, elétrico, plástico, alimentício e de peças para automóveis levando à aprovação de planos de arruamentos e loteamentos que dessem alguma infraestrutura para tal crescimento por parte da Câmara Municipal. Como visto, a intenção não era exatamente proporcionar melhores condições aos moradores, até esta intervenção ser notada como atrativo ao capital industrial. Neste contexto de desenvolvimento industrial e urbano se iniciou a construção de grandes rodovias, dentre as quais as Rodovias Dutra e Fernão Dias, que atendiam a região guarulhense, e as leis de incentivo fiscal foram renovadas em 1948. Durante o Estado Novo, dentre as alternativas para contornar o desestímulo do mercado imobiliário, em grande medida decorrente da Lei do Inquilinato, surgiram os loteamentos periféricos como alternativa para a falta de moradia, tendência urbana igualmente percebida em Guarulhos. O loteamento periférico, como porta de acesso a casa própria dos trabalhadores mais pobres, migrantes em maioria, se tornou parte do ideal operário à época (CAMPOS FILHO,1989)..

(32) 31. Os loteamentos, porém, eram muitas vezes isolados e precários, uma solução bastante improvisada que beneficiava muito mais os ricos donos dos lotes. Onde antes, em Guarulhos, predominavam chácaras, olarias e portos de extração de areia, passaram a figurar moradores desprovidos de qualquer infraestrutura como ruas pavimentadas, esgoto, água e transporte público. É neste contexto de marginalidade, quanto à atenção dos aparelhos públicos, que se dá ao lado e como produto da industrialização, que surgem os contornos da periferia deste município. Gráfico 01. Crescimento populacional de Guarulhos:. Fonte: Prefeitura Municipal de Guarulhos, 2011.. Nas décadas de 1950 e 1960, os vetores de crescimento populacional seguem na direção onde a terra era mais barata, nas franjas de proteção ambiental, como nas regiões dos atuais bairros do Cabuçú e Morro Grande e nas regiões de menor infraestrutura na porção hoje correspondente aos bairros do Cumbica, Presidente Dutra, Bonsucesso e Pimentas. O município se tornou definitivamente uma opção para localização industrial, com consequente chegada de grande contingente de mão-de-obra que passou a ocupar estes loteamentos, especialmente das atuais regiões dos bairros do Cumbica, Lavras, Bonsucesso e Taboão. Ocorreu, assim, um crescimento demográfico vertiginoso e desordenado entre a década de 1950 até a década de 1990 (GUARULHOS, 2011)..

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