12º Encontro da ABCP 19 a 23 de outubro de 2020
Evento online
Área Temática: 15. Segurança Pública e Democracia
O POLICIAMENTO DE MANIFESTAÇÕES NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA: UM NOVO POLICIAMENTO DE FRONTEIRAS?
Bruno Konder Comparato Universidade Federal de São Paulo
Resumo
Esta comunicação vai tratar de um aspecto da atividade policial que vem despertando cada vez mais interesse da parte dos estudiosos e analistas da realidade das grandes cidades latino-americanas: o policiamento de manifestações e protestos, a que os departamentos de polícia costumam se referir como “policiamento de grandes multidões”. Se num regime autoritário o único critério para a avaliação das forças de segurança pública é a sua eficácia, numa democracia, ao contrário, o principal indicador do sucesso democrático, tanto da instituição policial, quanto de todo o estado, é a sua capacidade de conciliar o respeito das liberdades e dos direitos individuais com a proteção da segurança e da ordem pública. Por esta razão é que nas modernas sociedades democráticas o policiamento das manifestações e dos protestos populares é uma das tarefas das mais delicadas.
As polícias brasileiras se limitam a realizar um “policiamento de fronteiras”: protegem as áreas nobres das cidades, onde residem e circulam os cidadãos privilegiados, do ingresso de
“cidadãos indesejáveis” que nelas não residem e não tem motivos para estar nestas áreas quando não estão a trabalho ou a serviço dos primeiros. Quando a polícia reprime de maneira enérgica uma manifestação das classes populares ela diz de maneira muito clara para os manifestantes que eles não deveriam estar ali e que se insistirem haverá enfrentamento e emprego de mais violência.
Palavras-chave: Direitos Humanos; policiamento de manifestações; democracia
Abstract
This communication will deal with an aspect of police activity that has been attracting more and more interest from scholars and analysts of the reality of big Latin American cities: the policing of demonstrations and protests, which police departments usually refer to as "policing large crowds. If in an authoritarian regime the only criterion for evaluating public security forces is their effectiveness, in a democracy, on the contrary, the main indicator of democratic success, both of the police institution and of the entire state, is their capacity to reconcile respect for freedoms and individual rights with the protection of security and public order. This is why in modern democratic societies the policing of popular demonstrations and protests is one of the most delicate tasks. The Brazilian police is limited to carrying out "border policing":
they protect the noble areas of the cities, where privileged citizens reside and circulate, from the entry of "undesirable citizens" who do not reside in them and have no reason to be in these areas when they are not at work or at the service of the former. When the police energetically repress a grassroots demonstration, they make it very clear to the demonstrators that they should not be there and that if they insist there will be more violence.
Key words: Human rights; policing demonstrations; the right to dissent; democracy
O policiamento de manifestações no Brasil e na América Latina: um novo policiamento de fronteiras?
Esta comunicação vai tratar de um aspecto da atividade policial que vem despertando cada vez mais interesse da parte dos estudiosos e analistas da realidade das grandes cidades: o policiamento de manifestações e protestos, a que os departamentos de polícia costumam se referir como “policiamento de grandes multidões” ou pela expressão reveladora
“gerenciamento de distúrbios”, um eufemismo que mal esconde o objetivo de impedir a realização de protestos.
Neste texto empregamos a expressão “policiamento de manifestações” onde os agentes governamentais preferem os termos “manutenção da lei e da ordem”. Faz-se necessário ressaltar, contudo, que para a maioria dos manifestantes trata-se pura e simplesmente de ações de “repressão”. O título do livro do militante anarquista Victor Serge, originalmente publicado em 1925, é bem significativo a este respeito: “O que todo revolucionário deve saber sobre a repressão” (Serge, 2009).
Os recentes acontecimentos no Brasil desde 2013, e em 2019 em outros países da América Latina como o Chile, a Bolívia, o Equador e a Colômbia, oferecem muitos exemplos de quão sensível pode ser esta tarefa e de que maneira ela está relacionada com a democracia e o respeito dos direitos de cidadania.
De acordo com Donatella Della Porta e Herbert Reiter (Della Porta e Reiter, 1998, 2003), se num regime autoritário o único critério para a avaliação das forças de segurança pública é a sua eficácia, numa democracia, ao contrário, o principal indicador do sucesso democrático, tanto da instituição policial, quanto de todo o Estado, é a sua capacidade de conciliar o respeito das liberdades e dos direitos individuais com a proteção da segurança e da ordem pública. Por esta razão é que nas modernas sociedades democráticas o policiamento das manifestações e dos protestos populares é uma das tarefas das mais delicadas. O que está em jogo não são apenas as liberdades individuais, mas também os direitos de participação política dos cidadãos que constituem a essência mesma do sistema democrático. A despeito da grande variedade de definições de democracia, todas elas concordam com a afirmação de que “a democracia é um sistema que permite lidar com as diferenças sem o recurso à violência”. Assim, o exercício do protesto e a manifestação do dissenso são essenciais para a vitalidade de uma sociedade democrática.
As estratégias de manutenção da ordem pública que a polícia adota influenciam a percepção que os cidadãos têm sobre a maneira pela qual o Estado respeita os seus direitos e as suas liberdades. Neste sentido, o policial que intervém para manter uma manifestação popular sob
controle é considerado não somente como um representante do poder público, mas também como um indicador da qualidade da democracia em um determinado sistema político.
O Programa do Conselho da Europa para a Polícia e os Direitos Humanos, inaugurado no ano 2000, é claro quanto a esse ponto: “Cada vez que a polícia investiga um delito, executa decisões judiciais ou entra em contato com os cidadãos a quem serve, a sua conduta simboliza a maneira pela qual os direitos humanos são respeitados e protegidos nos países em questão (...) A maneira pela qual a polícia desempenha o seu papel é um indicador infalível do nível da qualidade da sociedade democrática, bem como do seu grau de respeito pela preeminência do direito”.1
A função mais imediata da polícia é garantir o respeito das leis e a manutenção da ordem pública. Trata-se de um segmento do Estado que está autorizado a empregar a força, quando necessário. O que caracteriza uma polícia democrática, contudo, é o consentimento e a independência. Consentimento dos cidadãos em serem vigiados e protegidos pela polícia, e independência da polícia com relação ao governo. O primeiro aspecto é o que garante a legitimidade das ações policiais e explica como algumas dezenas de policiais são capazes de controlar agrupamentos de milhares de cidadãos. O consentimento faz com que a autoridade do policial seja mais eficaz do que o emprego da força. O segundo aspecto impede que a polícia seja instrumentalizada pelo governo como estratégia de luta política. A independência da polícia e a necessária prestação de contas a que ela deve ser submetida garantem que ninguém esteja acima da lei, nem os governantes, nem os policiais.
Quando uma manifestação foge ao controle da polícia e desafia a ordem pública, estes dois aspectos se rompem, pois a população deixa de consentir às ordens da polícia que não considera mais como legítima, ao mesmo tempo em que identifica as forças policiais como defensoras dos interesses do governo que está sendo contestado pelos manifestantes. Perde- se assim o consentimento e a independência. Trata-se de algo grave porque uma manifestação de alcance limitado, direcionada para um aspecto específico do governo, corre o risco de se transformar num plebiscito contra o governo como um todo. A maneira pela qual é conduzida a intervenção policial tem um forte impacto nas percepções dos manifestantes a respeito da reação do governo aos seus protestos.
O despertar da reflexão sociológica sobre o policiamento de manifestações está relacionado com as revoltas urbanas que surgiram em várias grandes cidades do mundo a partir do ano de 1968. Os protestos contra a Guerra do Vietnã e o Movimento pelos Direitos Civis, que
1 2 « Chaque fois que la police enquête sur un délit, exécute des décisions judiciaires ou entre en contact avec les citoyens – qu’elle sert –, sa conduite symbolise la façon dont les droits de l’homme sont respectés et protégés dans le pays en question. La manière dont la police s’acquitte de ses tâches est un indicateur infaillible du niveau et de la qualité de la société démocratique, ainsi que de son degré de respect pour la prééminence du droit. » O texto do documento pode ser consultado na íntegra no endereço www.coe.int/T/F/Droits_de_l’Homme/Police .
arregimentaram jovens e militantes contra a segregação dos negros nos Estados Unidos, repercutiram na revolta estudantil de maio de 1968 em Paris, e em vários outros movimentos de desafio aos poderes constituídos mundo afora. À época, vários analistas definiram aqueles acontecimentos como o resultado de um conflito de gerações, que opunha uma geração de jovens que haviam crescido na afluência das décadas de 1950 e 1960 na Europa e nos EUA.
Sem maiores preocupações com o emprego e a garantia da sobrevivência material, passaram a se ocupar de novas questões como a defesa dos direitos humanos, o meio ambiente, a causa feminista, constituindo o que se convencionou chamar de “novos movimentos sociais”.
O fato que aqui nos interessa é que as polícias e os responsáveis pela manutenção da ordem se depararam com multidões de jovens que contestavam os governos constituídos com palavras de ordem e um discurso que evidenciava que não se tratava apenas de trabalhadores em conflito com os seus empregadores. O que estava em jogo não era apenas uma contestação do sistema capitalista e interesses econômicos de algumas categorias de trabalhadores, mas um desafio à própria existência do regime democrático. Não se tratava mais de lançar mão das estratégias já suficientemente postas à prova para lidar com movimentos grevistas, mas de testar a própria essência do regime democrático, baseado no princípio do dissenso e na possibilidade de expressar publicamente a discordância.
Pode-se considerar que a polícia representa a imagem mais imediata do Estado aos olhos dos manifestantes e influencia diretamente o seu comportamento. É sabido que ações repressivas resultam em uma radicalização nas formas de protesto. Por outro lado, o policiamento das manifestações está na origem do desenvolvimento e da institucionalização das polícias. Estudos recentes mostram que a gradual afirmação da polícia como principal agência especializada no policiamento de protestos está na origem da modernização e da profissionalização das forças policiais na Europa nos últimos dois séculos (Aubouin et alii, 2005; Morgan, 1987). Com efeito, se a capacidade de realizar investigações não é uma exclusividade da atividade policial, o policiamento de protestos o é. A existência de um corpo de policiais treinados e uniformizados se revelou uma alternativa necessária aos exércitos que eram até então convocados sempre que fosse necessário conter grandes aglomerações de manifestantes. Trata-se igualmente de um fato significativo que movimentos de reforma das organizações policiais, com o objetivo de torná-las mais profissionais e eficazes, sejam com frequência uma resposta a revoltas e desordens urbanas. O relatório The Politics of Protest, foi encomendado em agosto de 1968 a Jerome H. Skolnick pela National Commission on the Causes and Prevention of Violence de maneira a fornecer subsídios para uma reformulação do modelo de policiamento nos Estados Unidos. De maneira semelhante, o Scarman Report foi encomendado ao Lorde Scarman pelo governo do Reino Unido em seguida aos distúrbios de Brixton, ocorridos durante o final de semana de 10 a 12 de abril de 1981, quando um grupo de jovens daquele bairro do subúrbio de Londres desafiou as forças policiais com pedras,
tijolos, barras de ferro e bombas caseiras, resultando em 279 policiais feridos (Skolnick, 1969;
Scarman, 1982).
A partir desta perspectiva, e possível entender por que a reflexão sociológica sobre o policiamento de protestos se consolidou ao longo das décadas de 1970 e 1980. Em consequência da onda de protestos que culminou no final da década de 1960, a estratégia de controle da ordem pública passou por transformações profundas. Ao mesmo tempo que o conceito ainda bastante vago à época do direito de manifestar o próprio dissenso passou a se tornar mais inclusivo, as estratégias de contenção dos protestos se distanciaram do modelo coercitivo que havia predominado até então. Ao longo dos anos 1970 e 1980, pode-se identificar uma tendência de tolerância crescente com relação às ações de protesto que resultam em algum tipo de violação das leis, mesmo que de forma limitada como a ocupação de prédios públicos ou o bloqueio de estradas e vias públicas. A este movimento corresponde uma modificação sensível, em várias democracias ocidentais, no que diz respeito às estratégias de controle da ordem pública pela polícia:
- uma redução do emprego da força, na medida em que evita-se cada vez mais o recurso a ações coercitivas, ao que corresponde uma maior tolerância com relação a ações de protesto antes consideradas como intoleráveis;
- uma ênfase maior no diálogo, que permite negociar as condições de manutenção ou subversão da ordem no espaço público;
- o investimento de recursos consideráveis na coleta de informações, hoje bastante facilitada pelas novas tecnologias que incluem a vigilância por câmeras e reconhecimento facial dos cidadãos.2
Esta abordagem sobre a maneira de realizar o policiamento de manifestações e de lidar com o controle de multidões se tornou o padrão desejável nas democracias consolidadas do hemisfério norte, onde prevalecia o respeito aos direitos civis e de cidadania, até o final do século XX. Nota-se, contudo, uma inflexão após o ataque às torres gêmeas, em setembro de 2001, e a subsequente “guerra ao terror”, protagonizada pelos EUA e que teve repercussões nas forças policiais ao redor do mundo e resultou numa reformulação dos protocolos de policiamento e atuação das polícias nas interações com os cidadãos. Se o modelo vigente nas duas últimas décadas do século vinte favoreciam o consenso em detrimento da coerção, a partir de 2001 a relação se inverteu e cada vez mais a coerção e a repressão dos movimentos contestatórios prevalece sobre o consenso e o respeito do direito dos manifestantes ao dissenso. Alguns autores como Alex Vitale (Vitale, 2017) denunciam como
2 Barry Friedman argumenta que este aspecto do policiamento, que frequentemente passa desapercebido, pois o que torna o policiamento uma função tão especial do governo não é apenas a sua capacidade de empregar a força, mas a sua “autorização para nos vigiar sem a nossa permissão” representa um aspecto crucial para o futuro das democracias contemporâneas. (Friedman, 2017: 5)
parte do problema a “mentalidade guerreira” dos policiais que com cada vez maior frequência se consideram como soldados numa batalha contra a população e não como guardiões da ordem pública.
As reflexões contemporâneas sobre o policiamento de protestos
Nas três últimas décadas do século vinte, o estilo de controle e policiamento das manifestações nos países de democracia mais avançada mudou significativamente. Naqueles países, as forças policiais desenvolveram novas estratégias de manutenção da ordem pública, baseadas na busca do diálogo com os organizadores das manifestações e num esforço de informação com auxílio de modernas tecnologias audiovisuais que permitem identificar quem, porventura, viola a lei sem precisar intervir diretamente. O preparo dos policiais que são destacados para acompanhar protestos e manifestações é fundamental, pois estes devem ser treinados para controlar as suas emoções e saber resistir a provocações.3
Até os anos 1960, a polícia usava o modelo da força escalonada para reprimir protestos. Este modelo se caracteriza por táticas de policiamento “linha dura”, intolerantes e até ilegais. A partir do final dos anos 1970, sob uma pressão significativa para modificar o modelo agressivo que estão na origem de várias revoltas urbanas, a polícia passou a se direcionar para um modelo mais suave e tolerante de administração negociada dos conflitos.
Quando se guia pelo modelo da força escalonada, a polícia demonstra ter pouca tolerância com distúrbios e frequentemente aplica a lei de maneira muito rigorosa, atropelando os manifestantes. Os policiais se consideram como defensores da ordem, aos quais é confiada a manutenção da lei e a proteção da propriedade privada contra a ação de vândalos e baderneiros. Eles se mantêm à distância dos manifestantes cujas ações consideram como ilegítimas, e que consideram como indivíduos desviantes. Não há negociação antes, durante, ou depois do protesto, e o contato com os manifestantes se limita à revista e à prisão. A principal tática utilizada para controlar a manifestação é o emprego da força, o que inclui espancamentos, o uso de cachorros, cavalos, e prisões em larga escala e de maneira indiscriminada. O objetivo é eliminar o dissenso por todos os meios possíveis. O resultado é que os manifestantes têm o seu direito de liberdade de expressão desrespeitado e são sujeitos a ferimentos sérios e traumas psicológicos. (Fernandez, 2009; Davenport, Johnston, Mueller, 2005)
A partir da década de 1980, as polícias europeias e norte-americana se voltaram aos poucos para o modelo de administração negociada. O ponto central desta abordagem é o respeito ao direito de contestação e à liberdade de expressão. De acordo com este modelo, a polícia oferece concessões aos líderes do protesto em troca do compromisso de autopoliciarem os
3 Retomamos nesta seção discussões já feitas em outras ocasiões (Comparato, 2016, 2019)
manifestantes e respeitarem o trajeto e os horários previamente acordados. O processo de negociação entre a polícia e os manifestantes se inicia com a requisição pelos organizadores da manifestação de uma autorização legal para ocupar alguma área pública. Após este primeiro contato, a polícia mantém contato permanente com as lideranças de maneira a reunir o máximo de informações possíveis sobre a manifestação, o que posteriormente ajuda a garantir a ordem durante a realização da manifestação. (Waddington, 1994; Fernandez, 2009) A solicitação de uma autorização é um detalhe decisivo para o modelo de administração negociada, pois dá origem a um processo burocrático que obriga os manifestantes a aceitar o diálogo. A concessão da autorização requer uma longa lista de informações, que incluem o nome da liderança ou da organização em nome do qual será dada a autorização oficial; a data, hora, localização e percurso exato da manifestação; uma lista dos oradores e das atividades previstas; a quantidade de público esperada; que tipo de material, faixas, cartazes serão utilizados; o número de policiais necessários para acompanhar os manifestantes; e a possibilidade de surgimento de manifestantes de grupos rivais que podem querer sabotar o protesto. Em suma, como afirma Luis Fernandez, “o processo de autorização força os manifestantes a negociarem a sua presença na rua” (Fernandez, 2009: 14).
Até recentemente, a maioria das análises sobre o policiamento de manifestações consideravam que apenas o lado dos manifestantes está sujeito a instabilidades e reações irracionais típicas das multidões tal qual descritas em 1895 por Gustave Le Bon4. O outro lado, o dos representantes da ordem e das forças policiais era considerado como previsível e racional. Em manuais destinados ao treinamento de policiais que vão atuar no policiamento de distúrbios e manifestações publicados recentemente, contudo, enfatiza-se o fato de que as forças policiais devem atuar de maneira conjunta e coesa, como pode ser comprovado no trecho a seguir, extraído de um “Guia para operações anti-distúrbios”:
“Os policiais são treinados para trabalhar de forma individual, e para lidar com indivíduos. Eles pensam mais em termos do indivíduo do que do grupo. Ao lidar com o controle de multidões, os policiais devem atuar como membros de um time. Lidar com um grupo deste tipo como indivíduos não é viável, por isso é preciso lidar com o conjunto de manifestantes como integrantes de um grupo: o grupo controlador. O grupo controlador deve ser bem organizado, e deve agir com precisão sincronizada se pretender ser eficiente. Esta mudança de atitude ou abordagem é às vezes de aceitação difícil por parte dos policiais individuais. Os policiais precisam de um
4 Veja-se por exemplo o seguinte trecho de A psicologia das multidões: “em determinadas circunstâncias, uma aglomeração de indivíduos possui características novas muito diferentes daquelas de cada indivíduo que a compõe. A personalidade consciente se esvanece, os sentimentos e as ideias de todas as unidades são orientados em uma mesma direção. Forma-se uma alma coletiva, transitória sem dúvida, mas que apresenta características muito precisas” (Le Bon, 1963: 9).
treinamento especializado para se tornarem proficientes enquanto time, ainda mais se forem destacados para fazer o controle de multidões.” (Hunsicker, 2011: 78)
Dentre as recomendações que manuais deste tipo fazem, um lugar de destaque é reservado à preparação física e ao treinamento psicológico dos policiais. Uma vez que as operações de controle de distúrbios civis e manifestações expõem os policiais a estresses tanto físicos quanto mentais, estes devem estar cientes da influência dos fatores psicológicos sobre o seu próprio comportamento.
Quem já presenciou uma manifestação sabe que os policiais envolvidos com operações de policiamento em eventos deste tipo vão inevitavelmente se deparar com o barulho e a confusão criada sempre que há um grande número de pessoas:
“Os manifestantes provavelmente vão gritar, insultar os policiais, e se referir a eles com termos de baixo calão. Os policiais precisam aprender a ignorar estas provocações, e não devem permitir que os seus sentimentos pessoais interfiram com a missão que devem desempenhar. É possível que os policiais sejam alvejados por objetos lançados em sua direção, mas eles devem aprender a evita-los com movimentos de esquiva. Sob nenhuma hipótese, devem jogar os objetos de volta. Os policiais devem dominar as suas emoções, e obedecer às ordens de maneira disciplinada e conservar uma atitude profissional” (Hunsicker, 2011: 73).
Geralmente, uma multidão é perfeitamente ciente das leis necessárias à circulação e convivência pacífica nos grandes centros urbanos, e na maioria das vezes respeita os princípios da lei e da ordem. Pode acontecer, contudo, que a excitação se torne tão intensa que a lei é simplesmente ignorada. Cabe aos policiais lembrar aos manifestantes que a lei existe respeitando-as, e não cometendo mais atos ilegais.
O ponto de inflexão no policiamento de protestos
Este modelo de policiamento de protestos, que resultou numa acomodação progressiva entre os manifestantes e as forças policiais, de maneira que fazia sentido considerar a possibilidade das forças policiais “garantirem o direito de protesto e manifestação do dissenso”, passou por uma inflexão profunda após o a campanha de protestos antiglobalização iniciada pelo protesto de Seattle, em 1999. Com efeito, a natureza dos movimentos antiglobalização e das campanhas transnacionais de contestação tiveram como consequência uma difusão transnacional de mão dupla, de um lado das práticas de protesto e de outro lado das táticas policiais para responder a elas. (Della Porta e Tarrow, 2011) Eventos de protesto como os de Seattle, em novembro de 1999, Gênova, em julho de 2001, e Evian, em maio-junho de 20035
5 Estes eventos correspondem a três eventos chave que marcam o surgimento de uma nova forma de lidar com grandes protestos. O primeiro corresponde à terceira reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), realizada em novembro de 1999 em Seattle, na qual um sit-in gigantesco de 10 mil manifestantes
marcam um ponto de ruptura em relação ao período anterior, uma vez que, do lado dos manifestantes a contestação das reuniões de cúpula passou a conjugar diversas formas de protesto, incluindo variadas formas de ação direta, enquanto que do lado das forças policiais verificou-se o desenvolvimento de estratégias específicas para a contenção de protestos transnacionais com base no isolamento dos locais de reunião e formas agressivas de coerção dos direitos dos manifestantes.
Para os estudiosos dos movimentos sociais a “batalha de Seattle” constituiu um marco para os protestos antiglobalização pois, pela primeira vez, uma ação coordenada e organizada transnacionalmente de manifestantes e movimentos sociais descontentes com os efeitos da globalização permitiu que sua voz fosse ouvida e levada à sério. Foi também o retorno à visibilidade das ações políticas nas ruas dos EUA após “um quarto de século de relativa paz entre manifestantes, seus alvos e o Estado” (Della Porta, Peterson, Reiter, 2006: 1). Ao mesmo tempo, Seattle se transformou num símbolo para ativistas do mundo todo, ao abriu perspectivas otimistas de ações bem-sucedidas e efetivas de contestação da globalização.
Para a polícia, a batalha de Seattle também passou a ser considerada como um marco importante. Segundo o testemunho do chefe assistente executivo do Metropolitan Police Department de Washington, DC, à época responsável pela gestão de vários protestos realizados na sua jurisdição após o protesto de Seattle, “os protestos contra a OMC marcaram o início de um novo tipo de protestos, com os quais, após várias décadas aperfeiçoando suas habilidades ao estilo da administração negociada de policiamento de protestos, eles tinham pouca experiência” (Noakes e Gillham, 2007). Neste sentido, de acordo com o mesmo policial, Seattle se tornou um símbolo do “pior cenário possível, o tipo de situação para a qual eles precisavam de se reciclar e reequipar de forma a evitar que ocorresse novamente na sua cidade, durante o seu turno” (Noakes e Gillham, 2007). Ou, como formulado por um policial
resultou no bloqueio do local das reuniões e impediu a maioria dos 3 mil delegados de 135 países de participarem da cerimônia inaugural. Na “batalha de Seattle”, como ficaram conhecidos os três dias de
enfrentamento entre as forças policiais e os manifestantes, foi decretado o toque de recolher e 600 manifestantes foram presos, o que resultou na demissão do chefe da polícia de Seattle na semana seguinte. O segundo evento corresponde à reunião do G-8, que reuniu os oito países mais industrializados do mundo em Gênova, no mês de julho de 2001. Uma reunião adversária, preparada durante mais de um ano, reunia cerca de 800 organizações e movimentos sociais no Fórum Social de Gênova. Após tratativas sem sucesso de chegar a um acordo com os organizadores do protesto contra a reunião do G-8, as autoridades italianas optaram por isolar o local da reunião do G-8 com pela construção de barreiras físicas ao redor da chamada “zona vermelha”. O aeroporto, as estações de trem e a rodoviária foram fechados, as fronteiras vigiadas e os militantes suspeitos impedidos de entrar no território italiano. Apesar da maioria dos manifestantes terem agido de forma pacífica, confrontos entre a polícia e alguns manifestantes mais aguerridos resultou na morte de um jovem ativista italiano além de mil
manifestantes feridos. Num julgamento posterior a alta cúpula da polícia foi responsabilizada pela perda de controle da situação. O terceiro evento corresponde a outra reunião do G-8, dessa vez em Evian, à beira do lago de Genebra, de 28 de maio a 3 de junho de 2003. Novos enfrentamentos violentos entre a polícia e os
manifestantes resultaram em ações desastradas da parte das forças da ordem como por exemplo quando a polícia cortou a corda de um manifestante britânico que havia se pendurado numa ponte e que despencou num rio e tendo várias fraturas. Num julgamento posterior, a polícia foi absolvida com o argumento de que suas ações se basearam em “uma série de desentendimentos desastrosos”.
de Filadélfia: “para a polícia os protestos contra a OMC constituem de certa forma um paralelo com Pearl Harbor” (Noakes e Gillham, 2007). Os protestos de Seattle evidenciaram para as forças policiais estadunidenses a necessidade de uma reciclagem e milhões de dólares foram investidos na compra de novos equipamentos para enfrentar os manifestantes e vários policiais foram enviados para seminários organizados pela Associação Nacional de Chefes de Polícia e o Departamento de Justiça dos EUA com o objetivo de auxiliar as agências de segurança pública com “as habilidades, conhecimentos, estratégias e táticas necessárias para controlar um novo tipo de manifestantes” (Noakes e Gillham, 2007).
Os ataques terroristas do 11 de setembro de 2001 aprofundaram a ruptura entre o modelo de administração negociada dos protestos por parte da polícia e o novo modelo que foi gestado depois de Seattle. As severas restrições aos direitos civis e políticos que se seguiram àquele evento se traduzem em um conjunto de novas leis e regulamentos que restringem consideravelmente o direito de protesto. O novo modelo do policiamento de protestos é a dissuasão e a coerção. Não se trata mais de reprimir atos ilegais ou que degeneram em violência, e muito menos de negociar com os organizadores do protesto as regras a serem seguidas pelos manifestantes, mas de dissuadir os organizadores de realizar o protesto, dificultar ou impedir a chegada dos manifestantes ao ato, e quando estes insistem e conseguem ultrapassar as barreiras policiais de reprimir e dispersar a manifestação.
Esta nova estratégia de dissuasão se revela, por exemplo, na aprovação de leis bastante duras. Na Espanha, por exemplo, a “Lei de segurança dos cidadãos”6, popularmente conhecida como “Lei da mordaça”, estabelece multas que vão de 600 euros para quem desrespeitar qualquer funcionário público que esteja vestindo um uniforme, a até 30 mil euros para quem fotografar ou filmar policiais sem autorização. Nos três primeiros anos de funcionamento da lei, 48 mil cidadãos foram multados por “falta de respeito e/ou consideração”
aos policiais, o que representa uma média de 48 multas diárias. É com base nessa lei que várias manifestações pacíficas diante do Congresso Nacional da Espanha são proibidas.
Como a interpretação do que vem a ser falta de respeito cabe aos policiais, atitudes como dirigir-se a um policial em catalão ou fotografar um carro da polícia mal estacionado foram sancionadas por multas.7 No Reino Unido, agentes policiais são acusados de forjar relacionamentos amorosos e sexuais para infiltrar agentes em movimentos sociais e comunidades que desejam investigar (Wood, 2016).
No Brasil não é diferente e, de acordo com um levantamento da Artigo 19, desde 2013 setenta propostas legislativas estão em tramitação, apenas no Congresso Nacional, para regulamentar o direito de protesto que se distribuem em projetos de lei que regulamentam o
6 Ley Orgánica 4/2015, de 30 de marzo, de protección de la seguridad ciudadana.
7https://expresso.pt/internacional/2018-06-29-Lei-da-Mordaca.-Policia-multa-48-espanhois-por-dia-e-dirigir-se-a-um-agente-em-catalao-e- falta-de-respeito
direito de protesto, projetos de lei que alteram crimes existentes, e projetos de lei que criam novos crimes. Ressalta-se também a articulação no poder legislativo entre os níveis federal, estadual e municipal. A partir de 2013, foram aprovadas leis estaduais a fim de regulamentar o direito de protesto em São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas, Minas Gerais. O objeto principal destas leis foi a Proibição do uso de máscaras em protestos, e a criação de Requisitos para o Aviso Prévio previsto no art. 5º, XVI da Constituição Federal. No âmbito municipal também têm sido projetos de lei, como o PL 368/2014 de São Paulo, que tratava da Responsabilidade de Movimentos Sociais e Lideranças por danos causados em reuniões públicas, dentre outros pontos. Em Porto Alegre, recentemente foi aprovada a Lei Complementar 832/2018, que trata do combate ao Vandalismo e, dentre outras coisas, endurece as regras sobre Bloqueio de Vias e Aviso Prévio. Faz-se necessário ressaltar a articulação entre os poderes executivo, legislativo e judiciário no sentido de restringir o direito de protesto.8
A tática da criminalização dos protestos e da intimidação dos manifestantes é ainda reforçada por investimentos em novos armamentos e táticas para a repressão das manifestações. Em dezembro de 2013 a Polícia Militar de São Paulo anunciou a intenção de adquirir 14 veículos blindados antimanifestantes equipados com jatos de água com capacidade para derrubar uma pessoa que está a mais de 30 metros de distância, além de detectores de substâncias químicas contaminantes e de elementos radioativos.9 Em março de 2014, a Polícia Militar de São Paulo passou a utilizar o traje apelidado de “robocop” para fazer o policiamento de manifestações. Trata-se de um equipamento que semelhante a uma armadura10, feito de material resistente a agressões, incluindo capacete com viseira de acrílico, botas antiderrapantes, protetor facial e cobertura de couro no peito.11 Faz-se necessário ressaltar que esta tendência vai na contramão do que recomenda a experiência das forças policiais mais bem-sucedidas em lidar com manifestações. Na Inglaterra, por exemplo, uma vez que a manifestação se inicia, a polícia privilegia a tática da vigilância à da repressão. Por este motivo é que os policiais vestem os uniformes usuais da polícia, e não armaduras para enfrentar guerras urbanas. Caso estas possam se tornar necessárias, são cuidadosamente mantidas escondidas dos manifestantes até o último momento12 (Della Porta e Reiter, 1998: 122).
8 https://artigo19.org/blog/2019/04/09/5-anos-de-junho-de-2013-restricoes-ao-direito-protesto/
9 http://folha.com/no1382401
10 Certamente não por acaso, o brasão do 2º Batalhão de Polícia de Choque, que é responsável pelo policiamento de manifestações em São Paulo ostenta um elmo medieval.
11 http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/02/1411475-policia-militar-vai-usar-tropa-do-braco-em- protestos-em-sp.shtml
12 Aliás, é interessante lembrar aqui que, quando Sir Robert Peel criou a Polícia Metropolitana de Londres, foram tomados todos os cuidados para que os policiais não se parecessem com soldados: ganharam chapéus altos, uniformes azuis, casacos curtos com um mínimo de insígnias que contrastavam com os uniformes coloridos e chamativos da infantaria britânica; o armamento dos recém empossados policiais se resumia a um cassetete de madeira e facas que eram permitidas em emergências e no patrulhamento de locais perigosos; somente os inspetores ou seus superiores podiam utilizar revólveres de bolso. (Emsley, 1991: 25)
Em fevereiro de 2014, os governos do Rio de Janeiro e de São Paulo anunciaram a formação de esquadrões policiais especializados no combate aos manifestantes radicais inspirados em grupos similares na Alemanha e nos Estados Unidos, treinados por cinco meses e que empregam 15 diferentes tipos de armas, cinco das quais não letais destinadas ao “controle de distúrbios urbanos”.13
Um artigo publicado na página do coletivo dos Advogados Ativistas, formado na cidade de São Paulo, em junho de 2013, na esteira dos protestos de rua e com a missão de lutar pelo direito de expressão, reunião e dignidade da pessoa humana, afirma que “a situação dos policiais civis e militares é dramática. Pesquisa realizada pela FGV revela que 64% dos policiais assumem não ter treinamento adequado para lidar com os protestos. Ou seja, mais da metade dos policiais que estão nas ruas não sabem o porquê de estarem lá – para reprimir, controlar, acompanhar, bater, enfim, qual ação eles devem tomar diante de uma manifestação.
A falta de preparo e a estrutura militar é criticada inclusive internamente. Recentemente, um policial militar publicou um livro chamado “Militarismo: um sistema arcaico de segurança pública”. Resultado: foi expulso da corporação e será processado por “criticar publicamente assunto atinente à disciplina militar.””14
Esta evolução é o resultado de um processo iniciado em junho de 2013, quando as polícias brasileiras se viram obrigadas a lidar com protestos generalizados que não aconteciam desde a ditadura militar, o que significa que não havia mais policiais na ativa com memória e experiência sobre os métodos para lidar com grandes grupos de manifestantes. De acordo com um depoimento de um funcionário altamente graduado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, à época num posto elevado na hierarquia do comando do policiamento de grandes eventos na cidade do Rio de Janeiro15, “quando se generalizaram as manifestações de rua em junho de 2013, a polícia foi pega inteiramente de surpresa.” De acordo com a explicação fornecida, a polícia militar, que tinha sido criada na década de 1960, durante a ditadura militar recém instalada para reprimir protestos e manifestações contrárias ao regime foi redirecionada nas últimas décadas para o combate ao tráfico e crime organizado (o que no Rio de Janeiro significava aprender a subir os morros e penetrar em comunidades dominadas por facções criminosas como o Comando Vermelho) não sabia mais como atuar durante as manifestações. Após algumas hesitações, montaram um esquema inicial de acordo com eram destacados grupos de vinte policiais militares, sendo “dois reservados”, o que no jargão policial significa que estavam à paisana. À pergunta de quanto eram os grupos destacados e como o comando fazia para decidir quantos policiais enviar para os diversos tipos de eventos
13 http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nova-policia-contra-disturbios-violentos-exige-pessoal-de- elite,1130157,0.htm#bb-md-noticia-tabs-1
14 http://advogadosativistas.com/a-hierarquia-do-despreparo-64-dos-policiais-a-reconhecem/
15 Depoimento dado ao autor em outubro de 2015. A identidade do policial militar entrevistado foi preservada.
de protesto, o entrevistado explicou que a PM-RJ classificava os eventos em três categorias,
“verde”, “amarelo” e “vermelho”. Na categoria “verde” eram classificados os eventos mais tranquilos. Nas palavras do policial, “os eventos classificados como verdes são os menos graves, há criminalidade, as pessoas estão na rua prejudicando a vida dos outros”. Faz-se necessário destacar aqui o ponto de vista da polícia do Rio de Janeiro de que manifestações de protesto contra o governo constituíam sempre crimes, à época. Na categoria “amarelo”
eram classificados os protestos com grande afluência de manifestantes e algum grau de enfrentamento com as autoridades, enquanto a categoria “vermelho” era reservada aos protestos com enfrentamentos sérios e emprego de violência com consequências para a destruição de patrimônio público e privado. Ao ser indagado sobre como a polícia faz para poder prever onde e quando vão ser realizadas as manifestações, o entrevistado mostrou o telefone celular dele com um grupo de WhatsApp no qual eram compartilhadas várias notícias sobre eventos futuros obtidas a partir do monitoramento das redes sociais e dos telefones de militantes que eram regularmente acompanhados pelos serviços de inteligência da polícia.
Em resumo, a estratégia principal das polícias brasileiras é dissuadir os manifestantes de irem às ruas, e quando já estão nas ruas, fazer com que saiam delas o mais rapidamente possível.
Na prática essa estratégia resulta na mobilização de um aparato de segurança reforçado e numa atitude hostil da polícia com relação aos manifestantes. Recentemente, por exemplo, foram realizadas grandes manifestações em três finais de semana seguidos, em junho, mesmo com às restrições às atividades públicas que resultam em grandes aglomerações por causa da pandemia de Covid-19. No domingo 7 de junho de 2020, foram realizados vários atos de movimentos pró-democracia, antifascistas e antirracistas simultâneos em várias capitais estaduais, dentre as quais São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre. Em São Paulo, houve duas manifestações simultâneas e de grupos contrários: uma contrária ao governo Bolsonaro e em memória de vítimas da violência do Estado e do racismo, no Largo da Batata, em Pinheiros, e outra a favor do governo Bolsonaro, na Avenida Paulista.
De acordo com informações da própria Polícia Militar de SP, no domingo 7 de junho de 2020 foram destacados mais de 4 mil policiais lotados em batalhões territoriais e especializados, como o BAEP, Trânsito e Choque, para atuarem diretamente na rua nas regiões dos atos, além de outras unidades da PM que permaneciam de prontidão para serem acionados caso houvesse necessidade.16 Note-se que na ausência de grupo de policiais com treinamento específico para lidar com manifestações, são mobilizados os batalhões os mais variados. A observação participante em grandes manifestações comprova essa informação e é possível distinguir vários uniformes distintos utilizados pelas forças policiais responsáveis por acompanhar os atos. No dia 7 de junho de 2020, foram também utilizados três helicópteros,
16 https://jovempan.com.br/noticias/brasil/sp-monta-esquema-especial-para-atos-de-domingo.html
seis drones, 150 viaturas, quatro veículos guardiões e um veículo lançador de água. Todas as ações foram monitoradas por meio de câmeras do sistema Olho de Águia, com câmeras fixas, móveis, motolink e bodycams. A Polícia Civil também reforçou sua atuação e teve um sistema especial de plantão para dar celeridade ao registro de ocorrências, caso fosse necessário, nos 4º, 5º, 14º e 78º DPs.17
De acordo com informações de uma reportagem publicada no site Ponte Jornalismo, um panfleto do Movimento Passe Livre com esclarecimentos sobre como se portar diante de uma situação de revista, foi utilizada como elemento justificativo para a detenção de quatro manifestantes, pois, segundo declaração do delegado de plantão à imprensa, constitui um
“material de provocação às forças policiais que não é propícia e adequada para a sociedade”.18 No texto do panfleto, lia-se justamente que “A Polícia tem adotado a prática abusiva de revistar para “averiguação”. Apesar dessa prática ser prevista em lei, ela não pode ser violenta nem física, nem verbalmente.” Numa entrevista concedida à CNN ao final do dia 7 do dia, o tenente-coronel Emerson Massera, porta-voz da PM, anunciou a estimativa da polícia de que 3 mil pessoas estiveram no Largo da Batata e 100 pessoas na Av. Paulista.19 Um balanço divulgado pela Secretaria de Segurança Pública de SP informa que 32 manifestantes conduzidos para distritos policiais, todos do lado dos manifestantes pró- democracia e antifascistas.20 Esses números evidenciam a desproporcionalidade entre a força policial mobilizada pela polícia, com efetivos superiores ao de manifestantes nas ruas, e as estratégias de monitoramento, dissuasão e repressão empregadas para dificultar, impedir e desmobilizar a manifestação.
Os abusos não se limitam ao momento da manifestação. Segundo alguns integrantes do Movimento Passe Livre (MPL), policiais teriam ido à casa de integrantes do movimento e de outros manifestantes, sem ordem judicial, para intimidá-los e também a suas famílias. Além disso, a apreensão de livros, panfletos e bandeiras como provas da suposta prática de delitos é incompatível com um estado democrático de direito e remonta aos tempos da ditadura militar. (Artigo 19, 2015: 43 e 53)
Significado do novo paradigma de policiamento de protestos no Brasil
Nesta comunicação queremos chamar a atenção para o alcance desse novo paradigma de repressão dos protestos nos países da América Latina, onde como regra geral, as polícias já
17 https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-06/manifestacoes-amanha-em-sp-terao-esquema-reforcado- de-seguranca
18 https://ponte.org/protesto-antirracista-e-contra-bolsonaro-em-sp-termina-com-bombas-e-pelo-menos-29- detidos/
19 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/06/07/manifestacao-acontece-agora-em-brasilia
20 https://ponte.org/protesto-antirracista-e-contra-bolsonaro-em-sp-termina-com-bombas-e-pelo-menos-29- detidos/
agiam dessa maneira contra as populações menos privilegiadas, consideradas como criminosos em potencial e por isso sempre suspeitas. Nas manifestações e eventos públicos nos quais essas populações mais pobres protestam diretamente contra os governos a repressão se substitui à garantia do direito de protesto e de livre manifestação. A legitimação de métodos mais enérgicos e de uma abordagem mais dura dos manifestantes que veio junto com a “guerra ao terror” se realiza na prática com uma panóplia de equipamentos para os agentes policiais que se parecem cada vez mais como soldados de um exército de combate.
Da indumentária, parecida com a de filmes de ficção científica a tal ponto que foi apelidada de “robocop” pela população, aos caminhões para lançamento de jatos de água, fuzis para lançamento de bombas de gás lacrimogêneo ou balas de borracha, a inovação nos equipamentos à disposição dos agentes incumbidos da repressão aos manifestantes é crescente.
As consequências da combinação desses dois aspectos, a desconfiança crescente dos policiais com relação à população e aos manifestantes e os novos equipamentos repressivos à disposição dos policiais resultam numa escalada do uso excessivo da força e cujos resultados são terríveis. Nos recentes protestos de rua realizados em vários países da América Latina em outubro e novembro de 2019 no Chile, na Bolívia, no Equador e na Colômbia, já se contabilizam dezenas de mortos e milhares de manifestantes feridos. No Chile, segundo os dados de um informe do Instituto Nacional de Derechos Humanos de Chile (INDH), pelo menos 352 manifestantes tiveram feridas oculares e 21 perderam a visão em decorrência de disparos de armas de fogo ou de balas de borracha durante os 50 dias que já duram os protestos neste país (“Sube a 352 el número de manifestantes com heridas oculares em Chile”, Página 12, 7 de diciembre de 2019). De acordo com a Organização dos Estados Americanos (OEA) os protestos no Chile já apresentam um pesado saldo de 26 mortos, mais de 12 mil feridos e 26.600 cidadãos detidos. Os números do INDH são mais amenos, mas não menos assustadores, pois este organismo contabiliza 3.449 indivíduos feridos desde o início dos protestos, a 18 de outubro de 2019, sendo que 1.982 por disparo de munição, balas de borracha ou outros projéteis não identificados. O Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile apresentou 685 acusações criminais contra policiais, sendo que 6 por homicídio, 11 por homicídio frustrado,
108 por violência sexual e 544 por tortura ou tratamentos cruéis.
Para entender o significado real desse quadro, recorremos ao quadro analítico de Donatella Della Porta e Herbert Reiter para o policiamento de protestos, construído a partir das experiências europeia e americana (Della Porta e Reiter, 1998), de acordo com o qual a estratégia utilizada pela polícia para lidar com os manifestantes varia em função de cinco aspectos: as configurações do poder político, as características organizacionais da polícia, a opinião pública, a cultura policial, a interação entre os policiais e os manifestantes. Cada um
deles, por sua vez, sendo interpretado pelo conhecimento policial, definido como “a percepção da polícia sobre a realidade, que configura o policiamento concreto dos protestos na rua.”
(Della Porta e Reiter, 1998: 22) As configurações do poder político estão relacionadas a variáveis institucionais como o arcabouço legal que incluem direitos e garantias constitucionais (direito de ir e vir, liberdade de expressão, liberdade de associação), e as normas que regulamentam, permitem ou limitem o exercício desses direitos. Dentre as características organizacionais da polícia alguns elementos importantes são o grau de centralização das decisões e a discricionariedade garantida ao policial na rua, a subordinação aos governos estaduais (que é um fator fundamental ao se analisar protestos políticos que questionem as ações dos governos estaduais); o grau de accountability aceito ou tolerado pela polícia que se reflete na transparência das ações policiais (existência ou não de uma ouvidoria da polícia autônoma e independente, identificação dos policiais nas manifestações, divulgação das ações da polícia para acompanhar as manifestações e garantir o direito de protesto); e a militarização que se por um lado explica a presença de policiais armados em manifestações, por outro lado pode significar uma maior aderência aos treinamentos específicos para lidar com multidões e fazer o policiamento de manifestações.
Após constatar que os policiais interpretam o mundo e agem com base nas suas interpretações, os autores sugerem que cada um desses fatores é adaptado para o
“conhecimento policial”, definido como a percepção que a polícia tem da realidade exterior, o que incide sobre a prática do policiamento de protestos. Num primeiro momento, esses autores utilizaram este esquema analítico para explicar as diferenças no que diz respeito às estratégias de policiamento de protestos na Europa e nos EUA. Eles mostraram que as diferenças nos estilos de protesto, envolvendo uma amenização do policiamento de protestos nas décadas de 1980 e 1990, resultaram das interações entre a polícia, as autoridades públicas e os manifestantes. Em 2006, eles reelaboraram este esquema analítico para explicar a militarização do policiamento de protestos nas reuniões de cúpula das instituições financeiras internacionais. (Wood, 2016)
Ao lidar com o policiamento de protestos, muitas vezes não levamos em conta que a polícia não é homogênea e é constituída de uma multiplicidade de atores, cada um com seus próprios entendimentos, normas e propósitos, que interagem entre eles e com atores externos sejam parte do estado ou da sociedade civil. O resultado dessas interações resulta na arena do policiamento como um conjunto de estratégias que variam no tempo e no espaço. O que permanece constante é a característica intrínseca da polícia, que é revelada pelos seus confrontos recorrentes com manifestantes (Della Porta e Atak, 2015). Como afirma Jessen,
“os policiais parecem agir em primeiro lugar com base na sua apreciação pessoal da população, e em segundo lugar com base nas regras e regulamentos” (Jessen, 1995).
Em síntese, de acordo com o modelo explicativo de Donatella dela Porta e Herbert Reiter,
“para a polícia, a história das suas relações com grupos específicos de manifestantes constitui um elemento importante nas suas decisões a respeito das táticas a serem aplicadas” (Della Porta e Reiter, 1998: 22). O interesse dos autores na época era ressaltar a importância e o impacto do ciclo virtuoso de diminuição da violência nos protestos. Aplicado à realidade brasileira, contudo, pode ajudar a entender por que a polícia age de modos distintos ao fazer o policiamento de protestos de grupos distintos. Os manifestantes a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, assim como os que hoje em dia vão às ruas apoiar o presidente Jair Bolsonaro, são tratados com respeito pela polícia que reconhece seu pertencimento à categoria dos cidadãos abastados. Já os manifestantes contra o impeachment, contra Bolsonaro, e que denunciam atos violentos e abusos da polícia são identificados pelos policiais às “classes perigosas” e às populações que eles estão acostumados a classificar na categoria de “potenciais criminosos” ou, no mínimo, “suspeitos”.
Cada vez mais as polícias brasileiras e, até onde pudemos perceber, as polícias latino- americanas também, se limitam a realizar um “policiamento de fronteiras”: protegem as áreas nobres das cidades, onde residem e circulam os cidadãos privilegiados, do ingresso de
“cidadãos indesejáveis” que nelas não residem e não tem motivos para estar nestas áreas quando não estão a trabalho ou a serviço dos primeiros. Quando a polícia reprime de maneira enérgica uma manifestação das classes populares ela diz de maneira muito clara para os manifestantes que eles não deveriam estar ali e que se insistirem haverá enfrentamento e emprego de mais violência. Para os manifestantes só resta retornar para os seus bairros afastados, de onde nunca deveriam ter saído.
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