DataGramaZero - Revista de Informação - v.14 n.3 jun/13 ARTIGO 01
As Categorias de Ranganathan na organização dos conteúdos de um portal científico
Ranganathan’s Categories in the organization of a scientific portal
por Maria Luiza de Almeida Campos, Hagar Espanha Gomes, Laura de Lira e Oliveira
Resumo: OAs Teorias de Representação, no caso a Categorização baseada nos estudos de Ranganathan, demonstram sua propriedade em diversos contextos. No escopo do Tratamento e Recuperação da Informação podem auxiliar na organização e representação de conteúdos informacionais em um portal científico, conforme uma aplicação no domínio da saúde no campo dos estudos genômicos, mais especificamente na atividade de anotação genômica. A Análise de Domínio e a Etnometodologia possibilitaram a identificação dos elementos presentes naquela atividade, estruturados a partir dos princípios de Categorização. A etnometodologia permitiu um procedimento de investigação in loco e de levantamento de dados. A Análise de domínio permitiu selecionar um corpus no domínio de conhecimento abarcado pelas atividades do Laboratório. A navegação é uma atividade inerente a um portal e permite reunir informação virtual e referencial; a reunião destes dois tipos gerou, graças à categorização e à classificação, um instrumento que, além de um portal, pode, em sua implementação, ser utilizado, para gerir e controlar as ações desenvolvidas no laboratório, pois inclui elementos ligados diretamente à pesquisa, como, também à gestão não apenas de pessoas, mas de publicações e de financiamento.
Palavras-chave:Organização do conhecimento; Teorias de representação; Categorização; Análise de domínio; Etnometodologia; Anotação genômica.
Abstract: Theories of Representation, in this case Categorization based on Ranganathan's studies, prove their adequacy in several contexts. In the field of Information Treatment and Retrieval they may help in the organization and representation of contents in a scientific web portal. An application in health domain in the field of genomics studies specifically in the activity of genome
annotation is demonstrated. Analysis of Domain and Etnomethodology enabled identification of elements present in that activity and they were structured according to Ranganathan’s principles of Categorization. Etnomethodology provided a research procedure in loco and data surveying. Domain analysis permited selecting a corpus of knowledge in the domain aimed at. Web navigation is inherent in a portal and allows gathering of virtual and referential data; due to categorization and classification an instrument was developed that, berond being a portal may be used, when implemented, to manage and control activities developed in the laboratory because it includes not only elements directly related to research but also to people, reserch publications and financing.
Keywords: Knowledge organization; Theories of representation; Categorization; Domain analysis; Etnomethodology; Genome annotation.
Introdução
Este trabalho é fruto das pesquisas que vem sendo desenvolvidas no âmbito dos estudos sobre Teorias de Representação do Grupo de Pesquisa Ontotaxo (http://www.ontotaxo.uff.br/ ), onde, entre outros aspectos, estamos motivados a demonstrar as possibilidades de representação em diversos contextos a partir de Teorias de Representação, neste caso, a Categorização, baseada nos estudos de Ranganthan (Ranganathan, 1967). Neste sentido, nossa aplicação tem por campo de aplicação os Estudos Genômicos, focando a atividade de anotação genômica , no âmbito de um Portal Científico. Este artigo está organizado em seis seções, incluindo esta introdução, onde são apresentadas discussões sobre como os princípios de Categorização, no escopo da organização do conhecimento, podem auxiliar a representação dos conteúdos informacionais em um portal científico.
Organização do Conhecimento
A organização do conhecimento tem sido objeto de atenção da Biblioteconomia e Ciência da Informação desde seus primórdios. Além destas, outras áreas como a Filosofia, Ciência da Computação, Inteligência Artificial há muito, com objetivos diferenciados, discutem a organização dos saberes. No que tange a Ciência da Computação e a Inteligência Artificial, ambas se preocupam em como se pode elaborar estruturas de dados e registros organizados e possuidores de uma recuperação inteligente, onde a organização também se coloca como um ato classificatório. (Gopinath & Das, 1997)
Neste sentido, a Organização do Conhecimento pode ser definida como a condição de representação do conhecimento para propósitos específicos.
uma ordem que não existe em nossa mente. É este processo mental que é o verdadeiro significado de classificação.” (Sayers,1955, p7)
No espaço Sistemas de Organização do Conhecimento (SOCs), áreas de conhecimento são representadas,
através de estruturas classificatórias, que vêm através dos tempos se adequando a diversas Teorias de Representação. Estas teorias se colocam no espaço da elaboração de Modelos Conceituais independentes de conteúdos específicos de domínios. São metas representações utilizadas para a organização de conhecimento em domínios diferenciados. Teóricos como Ranganathan (1967), Bliss (1929) e o próprio Classification Reserch Group 1(Wilson, 1972) , para citar apenas alguns como exemplificação, construíram teorias com a finalidade de representação de domínios, visando a organização de documentos, mas que de alguma forma, apresentavam princípios que possibilitavam a representação independente dos próprios domínios de saber.
Ranganathan (1967) apresenta em sua Teoria da Classificação Facetada, as Categorias
Personalidade/Matéria/Energia/Espaço/Tempo (PMEST) e suas facetas, como um método de raciocínio para
explicitar diversos domínios de conhecimento através de classes e conceitos. Além disso, estabelece cânones para ordenar estas classes e conceitos para nortear o classificacionista com princípios consistentes para a elaboração de estruturas classificadas. O método de Categorização é um dos métodos de representação do conhecimento e que no âmbito deste trabalho foi utilizado para a representação do conhecimento em um Portal Científico.
Uma Teoria de Representação : Categorização
A Teoria da Classificação Facetada foi desenvolvida por Ranganathan, na década de 30, para a organização de material bibliográfico. A novidade introduzida por ele na criação de sua tabela a Colon Classification foi a ruptura com uma tradição de construção de tabelas de classificação. Até então, elas descreviam um assunto conforme dispostos nas disciplinas ou nos grandes tratados; por isso eram descritivas, conforme classificação de Ranganathan. As tabelas desenvolvidas deste modo dificultavam, ou até mesmo impediam, a
representação de temas novos. A tabela de classificação produzida segundo o Método de Faceta permite mapear uma área de assunto independentemente de como este se encontra estruturado na literatura. Qualquer assunto já estabelecido ou mesmo novo pode ser representado, pois existem regras para isto.
Ranganathan procurou organizar, sistematizar, idéias, conceitos. Para isto, tomou como base o postulado das Facetas ou Categorias Fundamentais, que ele foi buscar em Aristóteles Coisa, Propriedade, Ação incluindo, ainda, as Facetas de Espaço e Tempo. Com base na lógica, ele estabelece princípios e postulados para agrupamento dos conceitos em hierarquias as Cadeias e, no interior destas, para agrupar os conceitos de mesmo nível os Renques.
Categorizar ou facetar uma área de assunto é identificar nela os aspectos pelos quais tal assunto pode ser abordado. A adoção do princípio da categorização é fundamental, pois as categorias possibilitam uma visão da área como um todo interrelacionado, ou, dito de outro modo, como um sistema. Quando se tem a visão de uma área de assunto como um todo, sabe-se, com certeza, onde colocar qualquer conceito ou informação daquela área no sistema.
As Categorias Coisa, Propriedade, Ação, no entanto, são tão amplas que não permitem perceber com a necessária clareza uma área de assunto. Por isso Ranganathan trabalhou com um nível abaixo, que ele chamou de Faceta ou Categoria Fundamental, ou seja, com a classe mais geral dentro de uma área de assunto. O Classification Research Group (CRG) (Wilson, 1972), criado na Inglaterra com o objetivo de
aprofundar os estudos de Ranganathan, identificou Facetas, que permitem mapear uma área de assunto com maior refinamento. As Facetas fornecem um “lugar” para qualquer conceito/termo que venha a ser
identificado numa área de assunto.
O surgimento da Web como espaço do conhecimento produz novos modelos de organização e acesso à informação e a Classificação Facetada tem-se mostrado igualmente adequada a este novo ambiente (Aitchison, 1970; Broughton, 2002; Giess, 2008). A estruturação de um domínio por meio de facetas tem sido indicada como um poderoso instrumento de organização do conhecimento: “A análise por facetas tem sido considerada como uma metodologia poderosa para a criação de estruturas específicas para requisitos específicos de recuperação em uma área de contextos, com ênfase nos problemas de descrição de assuntos complexos, na recuperação e na multidimensionalidade.” (Broughton, 2002)
portais.
A Teoria de Ranganathan é bastante minuciosa, no que respeita à organização sistemática, explorando ao máximo as possibilidades de organização hierárquica
Mas a representação de uma dada realidade requer outros relacionamentos. Dahlberg (1978) em seu estudo das relações ônticas complementa esta limitação quando apresenta as relações funcionais-sintagmáticas. Relações funcionais-sintagmáticas são relações entre objetos (ônticas, no mundo fenomenal) de diferentes categorias. Caracterizam-se pela contiguidade no tempo e no espaço ou pela conexão de causa efeito. (Dahlberg, 1978; Campos, 2004; Sales, 2006). Estas relações apresentam de forma clara certa atividade natural entre os objetos que ocorrem no mundo real (mundo empírico, e.g.: o mundo baseado na experiência dos que lidam com a pesquisa e na observação das ações destes atores) onde os objetos existem, e é a característica do objeto que estabelece o relacionamento entre tais conceitos.Assim, um termo que designa um determinado processo/ação pode ter uma relação com um agente desse processo, e.g.: um ator não humano ter uma relação funcional-sintagmática com o agente desse processo, o ator humano; um objeto com a característica de "ser uma operação" (e.g.: estar registrando uma operação) pode ter uma relação ôntica com a característica "ter qualidade" de outro objeto (e.g.: busca em bancos genômicos curados e/ou ontologias).
Verifica-se então, que a relação ôntica não tem a finalidade de estabelecer uma hierarquia entre os conceitos, mas a de determinar a natureza da relação entre esses conceitos e esta é uma importante contribuição de Dahlberg, que deve ser considerada quando da organização e representação dos objetos de uma dada realidade. As teorias e princípios descritos permitem a realização de um trabalho eficaz no âmbito da representação da informação com vistas à recuperação e a classificação está na base delas. Um estudo sistemático sobre os princípios comuns torna-se necessário porque, como método de reconhecimento de relações entre itens de informação desempenha um papel fundamental para os sistemas de comunicação, não importando inclusive se “aplicados em conexão com sistemas tradicionais ou computadorizados de
informação” (FID/CR - Comitê Técnico de Pesquisa de Classificação, 1973). A aplicação das facetas em
sítios e portais nem sempre é inteiramente adequada e, por isso, vale ressaltar que há uma limitação do uso da classificação facetada em sites quando:
- os objetos a classificar forem muito heterogêneos entre si;
- as coleções contiverem um conjunto limitado de elementos: neste caso, haveria múltiplos caminhos, porém com resultados semelhantes;
- para um conjunto de objetos existirem padrões de classificação consolidados do tipo hierárquico-enumerativo; a adoção de um esquema diferente correria o risco.de desorientar mais do que de ajudar;
- o usuário já souber o item (Known-item seeking) que procura. (Gnoli, 2006, pp88-89)
Pode-se então, adotar modelos híbridos, que contemplem as virtudes das facetas - com suas hierarquias bem determinadas - com as relações não-hierárquicas - partitivas e associativas. E é neste sentido que
pretendemos demonstrar uma experiência no campo dos estudos genômicos e na organização de conteúdos para um Portal Científico.
A Representação das atividades em um Laboratório de Biologia Molecular
Uma das áreas que mais tem pesquisado a respeito de representação de uma realidade é a de
desenvolvimento de ontologias. No entanto, outras áreas, como portais e navegação têm alguns aspectos em comum (Campos & Argolo, 2007; Carvalho, 2006; Chau, 2006; Dias, 2008) e é possível que entre estas e aquelas alguns conceitos e princípios possam ser aproveitados. A representação das atividades de anotação genômica contempla os objetos e suas relações em um contexto de realidade de um laboratório de pesquisa científica. Buscaram-se as propriedades dos objetos e sua categorização com a finalidade de navegação.O estudo para o desenvolvimento do portal que representasse as atividades de um Laboratório de Biologia Molecular requereu observação in loco - Etnometodologia. (Gil, 2007; Jules-Rosette, 1985; Latour & Woolgar, 1997; Macedo, 2006). Além disso, fez-se o estudo da documentação produzida sobre suas atividades de pesquisa, gerenciais, desenvolvimento de software e outras associadas e sua posterior organização.
identificação dos elementos e sua organização. A identificação dos elementos consistiu na análise de domínio sob o paradigma sócio-epistemológico desenvolvido por Hjørland e Albrechtsen (1995) e na Etnometodologia. Estes dois percursos indicaram o que devia ser analisado e o como devia ser esta análise para a captura do conhecimento ali desenvolvido. Na organização dos elementos identificados foi utilizado o método facetado de Ranganathan que apresenta, dentre outros, o princípio da hospitalidade, que permite a inclusão de novas facetas sem que haja alteração da macro-estrutura do modelo, o que é vantajoso para uma atividade científica que produz, constantemente, novos recursos de informação. Além disto, o emprego da fórmula PMEST contribuiu no sentido de dar uma ordem linear nas Categorias Fundamentais e seu uso
evidenciou um novo aspecto de sua aplicação no sentido da ordenação dos objetos presentes na atividade genômica em um modelo de navegação, diferentemente do que havia sido idealizado por ele que tinha outro objetivo, a saber, a ordenação dos livros com ênfase nos assuntos.
O método de faceta foi utilizado para classificar os elementos de informação representativos para a atividade de pesquisa, no caso, a atividade de anotação genômica, do Laboratório. Na coleta de dados foram
considerados a princípio como importantes em nível mais geral, os seguintes elementos: organismos, ontologias, etapas na atividade de anotação genômica, sistemas de anotação genômica, projetos, programas, bancos genômicos, bancos de publicações e instituições. Com a aplicação dos cânones e princípios do método facetado, as facetas foram estabelecidas com suas classes e subclasses no interior de cada uma delas, resultando nas facetas principais.
Durante a pesquisa verificou-se que as facetas identificadas pertencem a duas Categorias, a saber:
Personalidade [P] (Organismo, Recursos de anotação genômica, Equipe de anotação genômica, Projetos) e Espaço [S] (Instituições)3. Ao adotar o método de faceta, o que se verificou no levantamento dos dados (os elementos que integrariam o modelo) foi a necessidade de incluir não apenas os princípios de classificação (hierarquização), mas de associação entre eles. Embora os Princípios da Seqüência Útil sejam bastante detalhados no método facetado poucos foram utilizados, tendo em vista o número restrito de elementos dentro das facetas. Destacaram-se o Princípio da Sequência Canônica e o Princípio do Posterior-no-Tempo (no caso das etapas da anotação e da vigência dos projetos). A determinação das facetas e seu
estabelecimento no modelo é um processo imbricado. Mas, como o método propõe um modelo policotômico em que a representação apresenta tantas subdivisões quantas forem necessárias, ele se manifesta através de várias categorias e classes que se apresentam como pontos de acesso. Desta forma, o modelo rompe com os princípios dicotômicos clássicos de classificação de objetos em dado contexto, seja este disciplinar ou interdisciplinar.
As facetas seguem, em seu interior, princípios hierárquicos, mas o modelo de representação dos objetos na atividade de anotação genômica evidenciou um grau maior das relações associativas, no caso as funcionais-sintagmáticas. A estrutura hierárquica foi bem presente na faceta “Organismos” porque tem um potencial de desenvolvimento (inclusão de renques e cadeias) ao incorporar outros organismos de interesse para o
Laboratório e que não foram incluídos nesta pesquisa. Nas demais facetas isto se restringiu a poucos níveis, provavelmente por se tratar de objetos individuais. Em relação à documentação produzida releva a
construção de pipelines, uma ferramenta computacional que mostra o fluxo das ações de pesquisa de anotação genômica; no entanto, aspectos exteriores à informática, que fazem parte da atividade de anotação genômica, estavam ausentes, como, por exemplo, a ação do capital intelectual (os pesquisadores), sem a qual a produção de conhecimento não seria possível. Assim, a análise detalhada das atividades, dos documentos e demais meios de trabalho utilizados no Laboratório forneceram elementos para a representação e posterior categorização.
A Representação das Atividades de Anotação Genômica através de uma Teoria de Representação: a Categorização
Ao categorizar as atividades de anotação genômica verificou-se que a área do conhecimento a ser
categorizada era uma atividade: a atividade era o todo. Daí a Categoria Energia estar ausente: o que se tem, relativa a ela são as Etapas da atividade, que são relações partitivas. Em síntese, três elementos foram identificados: entidades, ações e locais. De fato, ‘ações’ constituem o elemento maior, o todo – anotação genômica – ao qual as entidades estariam associadas. No modelo temos as etapas desta atividade. Cabia, então, sistematizar o conjunto de entidades – as Facetas -, momento em que se utilizou o Método de Faceta.
Faceta: Organismos
Faceta: Meios utilizados na anotação
a) Sistemas de anotação genômica
Contemplam os sistemas desenvolvidos internamente no Laboratório (inclusive pipelines) e externamente e que auxiliam os pesquisadores na tarefa da anotação genômica, reduzindo a intervenção manual dos usuários. Eles visam a automação dos complexos procedimentos, agilizando a atividade humana.
b) Programas
Os programas estão organizados segundo as etapas de procedimento de anotação genômica, que constituem a característica de divisão. Utiliza como princípio classificatório o Princípio da Sequência Canônica, isto é, há uma ordem tradicional adotada no processo da anotação nas etapas que se seguem no tempo, mas não necessariamente em ordem linear 4:
Avaliação de qualidade Limpeza de vetores
Montagem ou agrupamento de sequências Predição in silico de genes
Análise de similaridade Busca de homologias distantes Alinhamento de sequências Análises filogenéticas
Busca de genes ortólogos/parálogos Vias metabólicas
Códons usuais (Códon Usage) Conteúdo G+C
Em algumas etapas é necessário recorrer a bancos de informação com a finalidade de se pesquisar bancos genômicos, bancos de publicações e ontologias que estivessem relacionados com um determinado organismo de modo a corroborar nos estudos e pesquisas daquele organismo específico. Assim, a relação entre os procedimentos automáticos e humanos fica, então, evidente no modelo.
A decisão quanto ao software mais adequado em cada etapa da anotação é uma atividade humana, identificando-se, então a categoria seguinte: Equipe de anotação.
Faceta: Equipe de Anotação
A faceta Equipe de Anotação Genômica corresponde a agentes do processo, novo ciclo de Personalidade (round).Na atividade de anotação genômica temos pessoas com funções diferenciadas. A equipe é complexa, composta de pesquisadores e não pesquisadores (alunos de graduação e pós-graduação) pertencentes a diversas instituições ou ao próprio Laboratório e é importante para o administrador (gestor de pesquisa) acompanhar o processo da pesquisa e a mobilidade da equipe para não haver perda dos dados e propiciar desenvolvimento e/ou implementação da pesquisa em si.
Uma pessoa pode atuar em várias atividades, desempenhar mais de uma função. Um curador, por exemplo, pode exercer um papel administrativo (gestor de pesquisa) do projeto em que está envolvido. O modelo de representação expressa os diversos pontos em que as pessoas se apresentam na diversidade de seus papéis na atividade de anotação genômica (e cujas funções não são mutuamente exclusivas), evidencia a forma
distributiva do modelo e está de acordo com a 4ª Lei de Ranganathan no que diz respeito a poupar o tempo do leitor.
Anotação Genômica foi pelas funções e atividades: segundo a função na atividade de anotação genômica e segundo a função na atividade administrativa. E dentro de cada uma foi aplicado o Princípio da Ordem Alfabética. A relação hierárquica nesta faceta corresponde às funções dos pesquisadores na equipe de anotação genômica e as relações funcionais-sintagmáticas são aquelas entre os pesquisadores, os organismos estudados, os projetos e as instituições.
Temos então: a) Segundo a função na atividade de anotação genômica - anotador
- curador
O anotador atua em quase todas as etapas do processo; executa programas; anota resultados e o curador atua no processo de decisão nas diversas etapas da anotação.
b) Segundo a função na atividade administrativa - coordenador de pesquisa
- gestor de pesquisa
O coordenador de pesquisa coordena e orienta a pesquisa relacionada com a sua instituição e o gestor de pesquisa é quem tem permissão para criar bibliotecas genômicas no sistema de anotação genômica; faz uma conta "projeto" que indica o responsável; informa o vetor de clonagem utilizado, as seqüências dos
iniciadores utilizados nas reações de seqüenciamento, o código da biblioteca genômica bem como nome e descendência da mesma.
Os dados não são mutuamente exclusivos. Assim, um arquivo terá todas as informações necessárias à identificação de cada pesquisador e, conforme a organização dos metadados haverá link para acessar outra função. Esta medida é transparente para o usuário5.
Observa-se aqui também relações funcionais sintagmáticas com as facetas: Organismo, PROJETO e INSTITUIÇÃO uma vez que um anotador pesquisa determinado organismo e está inserido em determinado
projeto de uma instituição que tem parceria com o Laboratório.
Faceta: Projetos de Pesquisa
Na faceta Projetos estão inseridos os projetos de pesquisa desenvolvidos no Laboratório e também por meio de parcerias entre os diversos laboratórios de outras instituições.
Os objetos desta faceta estão distribuídos a partir da vigência de cada projeto (relação hierárquica) e seguem o Princípio do Posterior - no – Tempo (que é um dos princípios do Cânone da Seqüência Útil).Desta forma temos: Projetos em andamento e Projetos concluídos e dentro de cada projeto estão indicadas a situação e a natureza do projeto (dados que seguem a orientação do Curriculum Lattes). No caso desta faceta , os projetos têm uma relação funcional-sintagmática com as facetas: Equipe de Anotação, Organismo, e Instituição. Anotadores de diferentes instituições pesquisam organismos diferenciados e eventualmente utilizam recursos computacionais de outras instituições em alguma etapa de anotação genômica.
Faceta: Instituições
uma alternativa que implica em economia de tempo para o usuário e que segue a Quarta Lei da Biblioteconomia desenvolvida por Ranganathan: “Poupe o tempo do leitor”).
As relações funcionais-sintagmáticas neste caso são: Organismos, Recursos de Anotação Genômica (in silico), Equipe de Anotação Genômica e Projeto. Os organismos pesquisados são de responsabilidade de diferentes laboratórios. As instituições são locais onde pessoas e recursos computacionais, humanos e não humanos geram conhecimento e trabalham com a informação. Projetos são desenvolvidos, publicados seus resultados ou aguardam definição de sua aplicação6. Como se pode observar, temos relações entre diferentes facetas e entre elementos destas facetas, como por exemplo, as pessoas e os recursos associados (relação fenomenal entre categorias diferentes, relações funcionais-sintagmáticas), os bancos de publicações associados a organismos e etapas de anotação. Estas relações são válidas para o Laboratório uma vez que a escolha e organização das facetas surgiram da realidade ali presente no período de observação e nos documentos gerados pela equipe de pesquisadores.
Os membros da equipe estão associados a Projetos de pesquisa, a Instituições financiadoras e a Instituições em que se desenvolvem as pesquisas, ficando evidente as demais categorias de entidades. Identificadas as Categorias, seria possível estabelecer uma sequência, na tela do computador, configurando os principais pontos de acesso ao conteúdo do portal. O modelo resultante procura evidenciar os objetos – atores humanos e não humanos por meio das Categorias Fundamentais e não trabalhou o conceito em si, com sua definição, mas com a representação dos objetos. Verifica-se então, o que Ranganathan já havia descrito em sua teoria na qual relata que nem todas as categorias estão presentes em um modelo de representação e, desse modo, esta pesquisa resultou na seguinte fórmula do PMEST: [P]:[2P]:[3P]:[4P].[S], ou seja, Personalidades que ocorrem
em vários ciclos (Organismos, Software, Equipes de anotação, Projetos) e Espaço (Instituições onde atuam os pesquisadores).
A seguir, o Modelo de representação das atividades do laboratório7.
Figura 1 : Mapeamento das atividades de anotação genômica de um Laboratório.
Figura 3: Mapeamento de recursos de anotação genômica
Figura 5 : Mapeamento dos projetos
Considerações Finais
O resultado do estudo mostrou que um portal cientifico pode ser mais do que um meio de representação das atividades de pesquisa de um laboratório, pode ser, ainda, um instrumento de gestão de tais atividades. Isso mostra o potencial da tecnologia da informação associada ao método de organização por excelência no âmbito da Ciência da Informação. Tal organização, como é sabido, é nitidamente uma questão de
classificação. Seus princípios, por sua vez, são elementos fundamentais para uma Arquitetura da Informação. Todos estes aspectos, de natureza tão variada, deixam evidente a potencialidade dos saberes da Ciência da Informação quando se pensa na disponibilização de serviços de informação na Web. Alguns aspectos merecem reflexão como: a relevância das relações ônticas; a tecnologia que permite integração de
informação de diferentes naturezas; e, ainda, a fusão de funções em um portal científico, a saber, a gestão e a organização de conhecimento, possibilitada pela tecnologia de informação. A seguir apontamos alguns aspectos que envolveram este trabalho.
Relacionamento entre os objetos
As relações identificadas na atividade de anotação genômica são de duas naturezas: relações abstratas (conceituais, lógicas) e concretas (ônticas) entre os objetos em sua contigüidade espacial e temporal. As relações lógicas, do tipo é_um, produzem uma hierarquia. No entanto, no Laboratório, não passaram de um nível, por exemplo, o Organismo X é_ um Organismo, o Curador é_um Pesquisador, o que não é de
surpreender porque a relação se dá entre objetos concretos. As relações ônticas estão presentes nas relações partitivas (etapas da atividade de anotação) e funcionais-sintagmáticas (genericamente indicadas como ‘associativas’), que, em geral, se deram entre objetos externos e não apenas (bancos de dados científicos, bancos de publicações) e informações referenciais (por exemplo, informação sobre pesquisadores). Este tipo de relacionamento é um diferencial no portal: é através de relações não-lógicas entre objetos de diferentes naturezas com aquela pertencente a uma dada Categoria que o usuário encontra, através da navegação, tais objetos (que possuem características comuns mas não-essenciais).
Assim, entende-se que os elementos que pertencem a uma categoria guardam com ela uma relação de identidade (lógica) mas, ao mesmo tempo, apontam para objetos de outra categoria que com eles guardam uma relação ôntica. Por exemplo, ao acessar a Categoria Organismos ali estão incluídos os tipos de
Informação virtual e informação referencial
A tecnologia da informação torna possível reunir, em um portal, informação virtual e referencial, cuja representação se dá de modo transparente para o usuário. Assim, a consulta a um banco de dados ou a um software em uma dada etapa da anotação permite acesso ao próprio dado. Do mesmo modo, é possível ter acesso aos documentos de pesquisa, bem como aos projetos. Mas, no caso do pesquisador, por exemplo, o que se tem são dados sobre ele: dados pessoais, dados sobre sua responsabilidade no(s) projeto(s) e assim por diante. No que se refere às possibilidades de acesso e navegação não cabe aqui aprofundar a discussão sobre metadados, de fundamental relevância para o funcionamento flexível e amigável do portal.
Notas:
[1] É necessário esclarecer que aqui não estamos esquecendo autores como: Dewey, Brown, Cutter, que elaboraram estruturas classificatórias para guarda de documentos, mas que citamos aqueles autores que apresentam uma discussão mais consubstanciada por aspectos teóricos e metodológicos voltados para a representação de domínios e não somente para a organização física de documentos.
[2] http://www.webdesignpractices.com/navigation/facets.html
[3] Instituições – espaços contribuintes de pesquisa que interagem em parceria com o Laboratório e Agências de Fomento que auxiliam no financiamento dos projetos aí realizados
[4] Por exemplo, a etapa de predição in silico de genes pode ocorrer em paralelo com a etapa de
similaridade. Contudo, a etapa de alinhamento de sequências e a etapa de análises filogenéticas necessitam dos resultados da análise de similaridade.
[5] As relações, no momento da implementação do modelo, são consideradas como metadados dos objetos. Neste caso específico - Equipe de Anotação Genômica [3P] -, os metadados mínimos podem ser: projeto em que o pesquisador está inserido, endereço de um recurso (URL ou outro no caso de recursos internos), breve descrição de sua função. E aqui estão os nomes das pessoas cujo arquivo fornecerá os links para as demais categorias associadas.
[6] As relações, no momento da implementação do modelo, são consideradas como metadados dos objetos. Neste caso específico - Instituição, os metadados mínimos podem ser: Além do nome da instituição de de pesquisa ou de fomento, deve ter o nome do pesquisador responsável (link para gestor de pesquisa), nome dos pesquisadores envolvidos (link para pesquisador envolvido), nome do projeto e organismo vinculado.
[7] Evidentemente, o design da página pode estabelecer graus de acesso a cada categoria de sorte a produzir páginas mais ‘limpas’.
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Sobre o autor / About the Author:
[1] Maria Luiza de Almeida Campos, [2] Hagar Espanha Gomes, [3] Laura de Lira e Oliveira. Email de referência: [email protected]
[1]Doutora em Ciência da Informação UFRJ/IBICT. Professora Associada do Departamento de Ciência da
Informação da Universidade Federal Fluminense. [2] Livre Docente,Universidade Federal Fluminense, UFF.