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ESTUDOS NA CARTA DE PAULO AOS ROMANOS

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Academic year: 2021

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ESTUDOS NA CARTA DE PAULO AOS ROMANOS

Apresentação

A carta de Paulo aos Romanos é uma das mais ricas em termos da exposição do conteúdo da pregação e doutrina paulinas, principalmente no que se refere à salvação. A razão disso reside no fato de que Paulo pretendia iniciar uma nova etapa em seu ministério de “pregador aos gentios” e seu objetivo era levar o evangelho a Espanha (Rm 15.23,24). Como pretendia contar com o apoio dos irmãos em Roma nessa jornada, ele lhes escreve narrando-lhes seu intento. Uma vez que não era conhecido pessoalmente por toda aquela comunidade mas apenas por alguns irmãos, ele resolve nessa carta, dentre outras coisas, expor o conteúdo de sua pregação e ensino com vistas a dar àqueles irmãos mais segurança em apoiá-lo. É em razão disto que há tanto conteúdo doutrinário nessa epístola.

A igreja em Roma

Ao contrário do que se possa pensar, a igreja dos romanos não foi fundada por Paulo. Na verdade ninguém sabe exatamente quem foi o precursor do

evangelho entre os romanos. Alguns historiadores acreditam que foi um dos

inúmeros convertidos que testemunharam o derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes em Jerusalém (Atos 2, note especialmente a menção a romanos no versículo 10), mas, é claro, isso é apenas uma suposição. Certo é que a igreja em Roma iniciou-se entre judeus convertidos e, depois, foram-lhe agregados também cristãos gentios. O fato é que no ano 57 da era cristã – data da composição desta epístola – já havia uma igreja cristã bem estabelecida naquela cidade, como o demonstra essa carta de Paulo.

Àquela igreja pertenciam algumas pessoas mencionadas em outras partes do NT, como Áquila e Priscila (Rm 16.3 – veja At 18.2 e I Co16.19), e outros numerosos irmãos aos quais Paulo menciona explicitamente (Rm 16.5-16)demonstrando algum grau de conhecimento pessoal deles. Era com base nas referências pessoais dadas por aqueles irmãos à liderança da igreja e no conteúdo doutrinário apresentado nesta epístola que Paulo pretendia alcançar o apoio daquela comunidade a seu empreendimento missionário na Espanha (Rm 15.23,24).

Esboço temático da carta aos Romanos

Embora às vezes esse texto bíblico seja chamado de “livro” ele é, na

verdade, uma carta, e assim essa Epístola aos Romanos

1

segue a estrutura comum das cartas daquela época: a menção do remetente e do(s) destinatário(s), o desenvolvimento do assunto da carta, e uma breve palavra de saudação final.

Sendo, porém, um texto com conteúdo tão vasto, esta carta pode ser dividida tematicamente em várias partes. Conhecer essas partes é bastante útil, pois fornece uma visão geral do raciocínio apresentado por Paulo na elaboração dessa carta e, assim, entendermos melhor cada uma de suas partes uma vez que saberemos a quais pontos elas correspondem dentro de sua linha de raciocínio.

1

A palavra “epístola” é de origem grega e tem o mesmo significado que a palavra “carta” na língua portuguesa.

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Assim está disposta tematicamente a Carta de Paulo aos Romanos

2

:

Apresentação

Prólogo (1.1-15)

a. Saudação (1.1-7) b. Introdução (1.8-15)

I – O Evangelho segundo Paulo (1.16-11.36)

1. O tema do Evangelho: a Justiça de Deus revelada (1.16,17)

2. Pecado e retribuição: diagnostico da necessidade universal (1.18- 3.20)

a. O mundo pagão (1.18-32) b. O moralista (2.1-16)

c. Toda a humanidade achada culpada (3.9-20)

3. O meio de alcançar a justiça: satisfeita a necessidade universal (3.21-5.21)

a. A provisão de Deus (3.21-31)

b. Um precedente do Valho Testamento (4.1-25)

c. As bênçãos que acompanham a justificação: paz, alegria e esperança (5.1-11)

d. A velha e a nova solidariedade (5.12-21) 4. O meio para a santidade (6.1-8.39)

a. Livres do pecado (6.1-23) b. Livres da lei (7.1-25) c. Livres da morte (8.1-39)

5. A incredulidade humana e a graça divina (9.1-11.36) a. O problema da incredulidade de Israel (9.1-5) b. A escolha soberana de Deus (9.6-29)

c. A responsabilidade do homem (9.30-10.21) d. O propósito de Deus para Israel (11.1-29)

e. O propósito de Deus para a humanidade (11.30-36)

II – O modo cristão de viver 1. Sacrifício vivo (12.1,2)

2. A vida comum dos cristãos (12.3-8) 3. A lei de Cristo (12.9-21)

4. O cristão e o Estado (13.1-7) 5. Amor e dever (13.8-10)

6. A vida cristã em dias de crise (13.11-14) 7. A liberdade cristã e o amor cristão (14.1-15.6)

a. Liberdade cristã (14.1-12) b. Amor cristão (14.12-23) c. O exemplo de Cristo (15.1-6)

2

Extraído de “Romanos – Introdução e Comentário”, de FF Bruce, Edições Vida Nova, citado aqui

resumidamente – texto no qual expressamente se baseiam esses estudos.

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8. Cristo e os gentios (15.7-13)

Epílogo (15.14-16.27)

a. Narrativa pessoal (15.14-33)

b. Saudações a vários amigos (16.1-16) c. Exortação final (16.17-20)

d. Saudações enviadas pelos companheiros de Paulo (16.21-24) e. Doxologia (16.25-27)

Outros esboços podem ser encontrados em outros comentários e Bíblias de estudo, mas as variações temáticas serão bem pequenas. Este esboço, porém, achei bastante prático para nosso estudo.

I – O prólogo da Carta aos Romanos

1. O autor, o evangelho e a igreja (1.1-7)

Nosso primeiro foco de estudo será o prólogo da Carta aos Romanos, constituído da saudação e da introdução desta epístola. Desde o começo essa carta apresenta aspectos importantes que merecem nossa atenção. O primeiro deles refere-se ao autor.

O autor (v.1)

Quando proponho enfocar o autor desta epístola não quero tratar de questões relativas à autoria histórica ou a dados biográficos. O mais interessante é destacar o modo como Paulo se apresenta àquela igreja, pois revela muito do que ele pensava acerca de si mesmo. Observar sua auto-designação é interessante porque podemos entrar um pouquinho na autoconsciência do apóstolo e sermos guiados a refletir acerca de quais percepções temos de nós mesmos. Além disso, observar como Paulo se apresenta revela o modo pelo qual ele gostaria de ser conhecido.

Vejamos alguns aspectos dessa apresentação pessoal:

Paulo, um escravo de Cristo

Primeiramente, Paulo (pronúncia grega de “Saulo”) apresenta-se como um servo de Jesus Cristo (literalmente, “escravo”). Ao apresentar-se desse modo ele, judeu que era, identifica-se com a porção judaica da igreja em Roma. Na cultura judaica, um dos modos mais honráveis de designar-se uma pessoa era chamá-la de

“’ebhed” (servo) de Yehowah, reconhecendo-a como tal. Fariseus buscavam sempre essa designação aos olhos do povo: serem percebidos como “distintos” por sua singular prática religiosa. Mas não nos enganemos aqui, porque Paulo não emprega esse “título” como qualquer expressão de arrogância, mas, pelo contrário, emprega-o para indicar sua factual insignificância tanto diante daqueles irmãos como diante do seu Senhor .

a. A insignificância diante dos irmãos: Paulo, embora não fosse

conhecido pessoalmente por muitos irmãos daquela igreja, certamente já

era conhecido por seu trabalho no evangelho. Seguramente sua fama o

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antecedia. No entanto, aqui ele não faz questão de ser percebido como grande missionário, plantador de igrejas, ... mas simplesmente recebido como um servo; servo dentre tantos outros que também o eram.

b. A humildade diante do Senhor: referindo-se a si como servo, Paulo conscientemente também transfere toda a atenção e possível glória por parte das pessoas àquele que realmente é digno disto: seu Senhor, Jesus Cristo. Ele, Paulo, era um servo, mas Jesus é o Senhor, e o servo não pode ser mais honrado, mais percebido, que o senhor. A figura proeminente a ser notada não é o servo que escreve a carta, mas Jesus que o salvou e agora é seu Senhor, a quem Paulo serve e em nome de quem age. Ao apresentar-se como servo o apóstolo deixa bastante clara sua condição de pertinência e dependência de Jesus – assim como ocorria com os escravos humanos em relação a seus senhores. Como servo, Paulo agora vive inteiramente para cumprir satisfatoriamente a vontade de seu Senhor e não a sua própria. Uma clássica expressão dessa autopercepção está registrada em Gálatas 2.20: “...

logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”. Sua satisfação agora era viver para Deus, viver na dependência de Deus.

O designado para uma missão

Além de apresentar-se como servo, Paulo também reconhece sua convocação para uma missão especial, ele tem clara percepção do serviço a prestar a seu Senhor: “chamado para ser apóstolo, separado para o

evangelho de Deus”.

Segundo alguns tradutores, a melhor expressão para esta porção do versículo seria: “chamado [de] apóstolo designado para o evangelho de Deus”. Neste versículo Paulo deixa claro que percebe nitidamente seu chamado específico e especial para ser um divulgador do evangelho. É interessante saber que a palavra “separado” utilizada aqui por Paulo tem a mesma base da palavra “fariseu” (separado), indicando uma separação com um propósito(o termo aqui pronuncia-se aforisménos).

Paulo, em sua vida anterior à conversão, era uma pessoa

profundamente religiosa seguindo a linha farisaica do judaísmo (Filipenses 3.5), tão zeloso do cumprimento da lei a ponto de perseguir os cristãos, aos quais considerava hereges e deturpadores da Lei de Deus. Naquela época Paulo, como praticante do farisaísmo, “separava-se a si mesmo”, confiava na santidade que o homem poderia produzir e torná-lo aceitável na presença de Deus. Agora, convertido, entende que a aceitação diante de Deus é dádiva d’Ele e não um produto da ação humana, assim como entende e atende ao chamado de Deus. Ele, então deleita-se não na “separação”

humana, carnal, mas naquela designada e estabelecida graciosamente por

Deus. Nisto está a glória do servo.

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Veja a confirmação dessa percepção também no versículo 5, no qual Paulo faz uso de um recurso de discurso em que uma pessoa referia-se a si mesma mas utilizando expressões no plural.

O evangelho (v.2,3)

Após vermos como Paulo via a si, vamos ver como ele via o evangelho. É claro que aqui no início de sua carta ele não vai fazer uma exposição mais detalhada acerca desse assunto – isto ele fará mais adiante em sua exposição -, mas já podemos perceber algumas afirmações importantes que destacaremos agora. Para ele, o evangelho constituía-se da proclamação da notícia de que Deus cumpriu uma ação especial na pessoa de seu Filho; essa era a essência da

mensagem.

Uma mensagem

Hoje, quando ouvimos a expressão “evangelho” intuitivamente vem a nossa mente conceitos como religiosidade, conjunto de pressupostos teológicos, ou coisa semelhante. Embora em algumas partes do Novo Testamente a palavra evangelho possa até surgir com esse significado, a palavra “evangelho” significa, literalmente,

“boa notícia” ou “bom anúncio”, e é nesse o conceito que Paulo emprega essa palavra. A expressão “evangelho” aqui refere-se ao anúncio de uma mensagem que procede da parte de Deus para os homens: o “evangelho de Deus”, a boa notícia de algo que procedeu de Deus para os homens.

Um propósito antigo

Essa mensagem, conforme diz Paulo, não se trata de uma novidade nos propósitos divinos, muito pelo contrário, é um propósito antigo comunicado por Deus aos profetas e por meio deles e, para que não houvesse dúvida da fidelidade de seu cumprimento, a fez registrar solenemente em sua palavra escrita: as

Sagradas (ou santas) Escrituras (neste caso, o Antigo Testamento), que, por serem santas eram fiéis, e registraram a verdade.

Uma ação

Quando olhamos para esse texto fica evidente que a boa nova diz respeito a algo que Deus fez; é o cumprimento de algo que, prometido, aconteceu. Quando se fala de evangelho, então, fala-se da boa notícia do que Deus fez.

Uma pessoa

Ainda, tudo o que Deus prometeu fazer cumpriu plenamente em uma Pessoa: seu Filho. Assim, o evangelho é, em última análise, o próprio Jesus. Ele é a boa notícia, a boa providência da parte de Deus aos homens, pois nele Deus cumpriu sua promessa. Não há evangelho fora do Filho; sem ele há somente

religiosidade vazia; portanto, conhecer verdadeiramente o evangelho, a boa nova de Deus, só é possível conhecendo-se o Filho.

Mas quem é esse Filho? Paulo, então, passa a dizer que o Filho prometido

manifestou-se concretamente na história humana. Ele, segundo sua manifestação

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física descendeu de Davi, logo, pertencia à linhagem real judaica. Mas aquele que foi conhecido em corpo humano como filho de Davi não era um simples ser

humano, era o verdadeiro Filho de Deus, cuja evidência da divindade manifestou- se inequivocamente por meio da sua ressurreição dentre os mortos. A evidência histórica da divindade de Jesus não reside, segundo Paulo e também Pedro, nem nos milagres que ele realizou, sem nas palavras que proferiu, nem mesmo na sua morte por crucificação (pois muitos outros foram crucificados naquela época), mas na sua ressurreição – veja Atos 2.22-36 e 17.30,31, por exemplo. O tema da

ressurreição fazia parte do conteúdo da proclamação das boas novas, pois a ressurreição de Cristo era de conhecimento público, estando vivas naquela época, inclusive, muitas das testemunhas oculares do Cristo ressuscitado.

Aquele que em sua encarnação foi conhecido como Jesus, Deus mostrou como o Cristo e Senhor, o Prometido, por meio da ressurreição dos mortos.

A igreja

Seguindo o modelo de carta daquela época, Paulo menciona os

endereçados, ou seja, quais são as pessoas as quais a carta se dirige: a igreja em Roma (v.7).

Aqui, tal como acontece com relação ao autor, mais importante do que saber a quem Paulo escreveu – afinal isso está evidente – é ver como ele enxergava a comunidade cristã, ou seja, que concepção ele possuía acerca da igreja.

Há três cousas que Paulo deixa transparecer aqui:

Um povo de propriedade de Jesus

No versículo 6 diz que aqueles irmãos, tal como ele, foram chamados para pertencerem a Jesus; literalmente, “chamados de Jesus Cristo”, onde a idéia de pertinência está implícita. Assim, não há comunidade cristã se não houver uma pertinência real e conscientemente percebida, aceita e intencionalmente dirigida à Cristo Jesus, o Senhor.

Alvo do amor

Ele diz, ainda, que aqueles irmãos foram alvos do amor de Deus. A glória de ser “igreja” resulta de haver Deus resolvido amá-los e, uma vez que os amou, os salvou e, salvando-os, resgatou-os para serem seus. A igreja é alvo especial do amor de Deus.

Novo modelo de vida

Uma vez tornados propriedades de Cristo, como resultado do amor de Deus, aqueles irmãos foram chamados para serem santos.

Essa expressão pode tanto referir-se um chamado à vida santificada, como

também ao privilégio de pertencer exclusivamente a Deus (santos, nesse sentido,

indicaria a separação para ser de Deus implicando numa santidade motivada pela

eleição divina).

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Quer tenha sido originariamente usada num sentido ou noutro, o fato é que a

santidade é conseqüência natural, e esperada, do relacionamento com Deus. A

igreja deve, por sua natureza, ser santa.

Referências

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