17 | 2007
Envelhecimento activo. Um novo paradigma
Envelhecimento activo : complementariedades e
contradições
Ana Paula Gil
Edição electrónica
URL: http://journals.openedition.org/sociologico/1609 DOI: 10.4000/sociologico.1609
ISSN: 2182-7427 Editora
CICS.NOVA - Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa Edição impressa
Data de publição: 1 Janeiro 2007 Paginação: 25-36
ISSN: 0872-8380
Refêrencia eletrónica
Ana Paula Gil, « Envelhecimento activo : complementariedades e contradições », Forum Sociológico [Online], 17 | 2007, posto online no dia 01 janeiro 2007, consultado o 19 abril 2019. URL : http:// journals.openedition.org/sociologico/1609 ; DOI : 10.4000/sociologico.1609
ENVELHECI MENTO ACTI VO: COMPLEMENTARI DADES
E CONTRADI ÇÕES
Ana Paula Gil
Socióloga, I nvest igadora no I NSA ( paugil2@gm ail.com )
Resumo
O envelhecim ent o act ivo t em sido abor dado a par t ir de duas per spect ivas bem dist int as. Um a per spect iva que faz da par t icipação económ ica das pessoas m ais velhas a pedra angular para a pr ópr ia sust ent abilidade fi nanceira do Sist em a de Segurança Social e para o cum pr im ent o da Est rat égia Eur opeia para o Em pr ego ( EEE) e um a out ra per spect iva que faz da “ act ividade” no envelhecim ent o o elem ent o est r ut urant e para a r upt ura face ao envelhecim ent o- incapacidade. Am bas as per spect ivas incor r em em cont radições e am bas exigem polít icas sociais coer ent es e sust ent adas. O envelhecim ent o act ivo, do pont o de vist a da saúde, r equer m edidas inovadoras que pr om ovam a par t icipação e a opt im ização de est ilos de vida m ais act ivos e saudáveis que cont r ibuam para a qualidade de vida das pessoas que envelhecem . O envelhecim ent o act ivo, com o inst r um ent o de com bat e às saídas pr ecoces do m er cado de t rabalho, não pode ser dissociável de um conj unt o de m edidas que pr om ovam a conciliação ent r e vida fam iliar e pr ofi ssional.
Pa la v r a s- ch a v e : envelhecim ent o act ivo; incapacidade; saída pr ecoce do m er cado de t rabalho;
conciliação ent r e vida fam iliar e pr ofi ssional; polít icas sociais.
Abstract
Act ive aging has been appr oached by t w o com plet ely differ ent per spect ives: t he fi r st one has it s focus on t he econom ic par t icipat ion of t he elder ly, as t he angular st one for t he Social Secur it y Syst em sust ainabilit y and for t he accom plishm ent of t he European Em ploym ent St rat egy ( EES) . The second one focuses on “ act ivit y” as t he key- elem ent t o per for m a r upt ur e w it h t he associat ion of ageing and incapacit y. Bot h per spect ives pr esent cont radict ions and bot h dem and for coher ent and sust ainable social policies. From a healt h perspect ive, act ive aging requires innovat ive int ervent ions t hat pr om ot e par t icipat ion and an opt im izat ion of life st yles so t hat people have bet t er qualit y of life as t hey age. Act ive aging seen as a t ool t o pr event an ear ly leave of t he labour m ar ket should be associat ed w it h m easur es t hat pr om ot e t he conciliat ion bet w een fam ily and pr ofessional life.
Ke y w or ds: act ive aging; incapacit y; labour m ar ket ear ly leave; fam ily and pr ofessional life
con-ciliat ion; social policy.
O envelhecim ent o act ivo: act ividade ver sus incapacidade
Com o int uit o de valor izar a últ im a et apa da vida, a Or ganização Mundial de Saúde defi niu, na I I Assem bleia Mundial sobr e o envelhecim ent o em 2002, o conceit o de envelhecim ent o act ivo com o “ o processo de opt im ização das oport unidades para a saúde, par t icipação e segurança, para m elhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem ” ( WHO, 2002: 12) .
Olhar para o envelhecim ent o de um a for m a posit iva e com o um a opor t unidade t em subj acent e
um a visão que pr et ende r eabilit ar a r epr esent ação negat iva do que é ser velho nas sociedades cont em -por âneas, -por vezes r et rat ados com o um “ far do”, “ um peso” num a sociedade onde o econom icam ent e produt ivo e o ser j ovem é sobrevalorizado em det ri-m ent o do que é, socialri-m ent e, iri-m produt ivo. Tornar- se fi sicam ent e debilit ado, incapacit ado e m ent alm ent e dependent e face a out r em , são caract er íst icas por vezes generalizadas, a qualquer indivíduo que faça part e dest e grupo social com m ais de 65 anos ( Tho-m as, 1996; Ennuyer, 2002) , apesar da r ealidade dem onst rar que a velhice pode ser um a et apa da vida, rica em experiências sociais e econom icam ent e
út eis, font e de bem - est ar, qualidade de vida e de boa saúde.
As alt erações das est rut uras dem ográfi cas t êm sido acom panhadas com acr éscim os, em anos de vida, possibilit ados pela dim inuição da m or t alidade sobret udo da m ort alidade infant il, e, por consequên-cia, do aum ent o da esperança de vida, decor r ent e da m elhor ia das condições de vida e da qualidade dos ser viços de saúde.
Em 2004, a esper ança de v ida à nascença ( e0) para os hom ens, em Por t ugal, era de 74,9
anos, valor ligeiram ent e abaixo da m édia da União Eur opeia ( EU25) , 75,1 anos, const it uindo Por t ugal o país da Eur opa com a m ais baixa esperança de vida m asculina à nascença1. A esperança de vida
para as m ulher es por t uguesas sit uava- se em 81,4 anos, valor relat ivam ent e superior à m édia europeia, 81,2 anos para U.E.25 ( Eur ost at , 2006) .
Signifi cat ivos são t am bém os ganhos da
espe-r ança de vida aos 65 anos ent espe-r e 1970 e 2004, pois
est im a- se que os hom ens que at inj am os 65 anos vivam em m édia m ais 16 anos e as m ulheres m ais 19 anos. Apesar das diferenças ent re hom ens e m ulhe-r es, em t eulhe-r m os de espeulhe-rança de vida, pela m aioulhe-r sobr em or t alidade m asculina, r egist am - se, nest e m esm o per íodo, “ ganhos t raduzidos em 1,65 anos de vida para as m ulher es e 1,63 para os hom ens. Enquant o que os hom ens que chegam aos 80 anos, podem viver m ais um ano do que dez anos ant es, as m ulher es conseguiram um ganho m ais m odest o ( 0,7 anos) ” ( Car r ilho e Pat r ício, 2005: 128) .
Ainda que a esperança de vida dos hom ens sej a infer ior em t odos os gr upos et ár ios, quando com parada à das m ulheres, a percent agem de anos que os hom ens podem viver sem incapacidade, é super ior à das m ulher es. Par t indo do gr upo et ár io de 85 e m ais anos ver ifi ca- se que a esperança de vida fem inina é de 4,56 anos, dos quais só 0,44 poder ão ser vividos sem qualquer t ipo de incapa-cidade ( 9,7% da esperança de vida dest e gr upo et ário) , o que signifi ca que as m ulheres vivem m ais t em po, m as com m ais incapacidade. A esperança de vida m asculina é m enor, cor r espondendo a 3,87 anos no gr upo et ár io dos 85+ anos, m as, em con-t rapar con-t ida, poder ão viver 0,52 anos sem nenhum a incapacidade ( 13,4% da sua esperança de vida) , independent em ent e da nat ur eza da incapacidade ( I NE, 2000: 11) .
Duas conclusões poder ão ser r et iradas: em pr im eir o lugar, a incapacidade at inge sobr et udo as idades m ais avançadas2 e a m aior pr evalência da
incapacidade severa ocor r e nos gr upos et ár ios com m ais de 75 anos, em segundo lugar, at inge, em m aior per cent agem , o gr upo das m ulher es.
Os cenár ios dem ogr áfi cos m ais r ecent es pr o-j ect am a esperança de vida à nascença, pr óxim a dos 85 anos para as m ulheres e 79 para os hom ens, at é 2050 ( Magalhães, 2002) ; o que signifi car á um
aum ent o da pr opor ção dos m ais velhos, par t icu-lar m ent e acent ua do no gr upo et ár io dos 80 e m ais anos de idade. Est a evolução, que const it ui, em si, um enorm e ganho em saúde, conduziu ao aum ent o de pessoas idosas na nossa sociedade. Act ualm ent e a população com m ais de 65 anos r onda os 16,5% e as pr oj ecções dem ogr áfi cas indicam que 2050 a população at inj a os 32% ( Magalhães, 2002) . Est e
fact o leva- nos a int er r ogar qual a evolução fut ur a da saúde e da incapacidade no pr ocesso de enve-lhecim ent o?
Em t or n o d est e d eb at e ex ist em alg u m as per spect ivas m ais pessim ist as que apont am para que ex ist a no fut ur o um aum ent o das doenças cr ónicas. Kram er ( 1980) fala m esm o em pandem ia
dos problem as m ent ais, doenças crónicas e incapa-cit ant es, em que o aum ent o da esperança de vida
é geradora de um a m aior duração da per t ur bação da capacidade f u n cion al. Segu n do est a t eor ia, para além do aum ent o das doenças degenerat ivas associadas ao envelhecim ent o, a consequência da quebra da m or t alidade ser á o pr olongam ent o no t em po das doenças cr ónicas e da m anifest ação da incapacidade funcional.
Para out r os aut or es, m ais opt im ist as com o Mant on, a esperança de v ida sem incapacidade acom panha a evolução da esperança de vida t ot al. O “ equilíbr io dinâm ico” ent r e a duração da vida ( com pr essão da m or t alidade) e a qualidade dos anos vividos ( com pr essão da m or bilidade) far- se- á paralelam ent e. Segundo est a t eor ia, a pr evalência das doenças cr ónicas aum ent ar á com a r edução da m or t alidade; m as os est ados cr ónicos ser ão m enos sever os, m enos incapacit ant es ( Mor biche, 1997: 99) .
E um a t er ceira per spect iva, pr opost a por Fr ies ( 1998) , defende a “ com pr essão da m or bilidade” e o r et ar dam ent o da incapacidade para as idades m ais avançadas. A adopção de est ilos de vida m ais saudáveis e o avanço da m edicina pr ovocam não só um a r edução da t axa de m or t alidade, com o per-m it eper-m que as doenças cr ónicas e as incapacidades funcionais sofram um “ pr ocesso de com pr essão” ; ist o é, que se m anifest em durant e per íodos cada vez m ais cur t os no fi nal da vida.
Em bora est as per spect ivas par t am de cená-r ios hipot ét icos, o est udo longit udinal de Pecená-r es e Bar ber ger - Gat eau ( 2001) v eio dem onst rar que, no decur so de 10 anos, exist iu um a im por t ant e pr ogr essão da aut onom ia ent r e duas gerações de indivíduos ent re os 75 e os 84 anos, verifi cando- se, em sim ult âneo, um a baixa da incapacidade e um au m en t o d a esp er an ça d e v id a, cor r ob or an d o assim a hipót ese de Fr ies ( 1980) . Est e est udo veio ainda r evelar que, apesar dos ganhos em saúde, as desigualdades sociais, segundo o sexo e o nível de escolar ização, são var iáveis que int er vém no apar ecim ent o da incapacidade.
Se de um pont o de vist a m ais opt im ist a as gerações m ais velhas ir ão usufr uir de um a m elhor qualidade de vida, por disporem de m elhores recursos educacionais, cult urais, económ icos que lhes per-m it ir ão fazer face aos novos desafi os sociais, para os m ais pessim ist as, o envelhecim ent o dem ográfi co gerar á consequências inevit áveis nos sist em as de pr ot ecção social e de saúde, bem com o ir á exigir um m aior encar go para as fam ílias.
Muit o em bora alguns dest es est udos ( Barberger-- Gat eau e Per es, 2001) t enham per m it ido chegar a alguns r esult ados “ m ais opt im ist as” r elat ivam ent e à evolução da saúde das populações, não signifi ca que as idades m ais avançadas fi quem im unes à incapacidade, o que não deixará de se colocar com o um problem a para as próxim as gerações e const it uir assim , um novo r isco social.
O envelhecim ent o act ivo com o inst r um ent o de par t icipação económ ica
Para além do envelhecim ent o act ivo ser per s-pect ivado do pont o de vist a da saúde, est e conceit o foi apropriado, no âm bit o da Est rat égia Europeia para o Em prego ( EEE) , com o um inst rum ent o de part icipação económ ica. O envelhecim ent o act ivo é defi nido com o “ o conj unt o de orient ações e acções de nat ureza po-lít ica que visam assegurar um a m aior par t icipação económ ica dos grupos et ários m ais velhos ainda em idade act iva” ( Pest ana, 2003: 13) .
No âm b it o d a Est r at ég ia Eu r op eia p ar a o Em pr ego, a pr om oção do envelhecim ent o act ivo con st it u i u m a lin h a or ien t ad or a d a Polít ica d e Em pr ego dos Est ados- Mem br os, na qual foram defi nidas duas m et as a alcançar at é 2010. São elas: “ aum ent ar em cer ca de 5 anos a idade m édia efect iva da saída do m er cado de t rabalho na União Europeia e elevar para 50% a t axa m édia de em prego de hom ens e m ulher es ent r e os 55 e os 64 anos”. Est as m et as inser em - se, quer na necessidade de r eduzir os efeit os económ icos e sociais das act uais t endências dem ográfi cas nos sist em as de segurança social e nos m er cados de t rabalho nacionais, quer no que se r efer e ao desequilíbr io ent r e act ivos e inact ivos, pelo envelhecim ent o da população act iva ( Pest ana, 2003) .
Um a d as est r at ég ias r ecom en d ad as p elo Conselho Eur opeu, no âm bit o da EEE, a Por t ugal é a de “ desenv olv er u m a est r at égia global de envelhecim ent o act ivo que elim ine os incent ivos à r efor m a ant ecipada, r efor ce o acesso à for m ação e garant a condições de t rabalho adequadas” ( MTSS, 2005: 17) .
Por t ugal dest aca- se na r ealidade eur opeia por apr esent ar um a das m ais elevadas t axas de par t i-cipação económ ica dos gr upos et ár ios m ais velhos da população em idade act iva, acim a da m édia Europeia ( 41% , em 2004) . Se t iverm os em cont a as
est at íst icas nacionais r efer ent es aos t rabalhador es m ais velhos, a t axa de em pr ego dos t rabalhador es com 55 anos ou m ais anos era, em 2004, 50,3% ( 51,6% , em 2003) , sit uando- se ligeiram ent e acim a da m et a eur opeia assum ida para 2010 ( 50% ) ” ( MTSS, 2005: 32) .
A est rat égia global do envelhecim ent o act ivo, para além de com bat er o abandono pr ecoce do m er cado de t rabalho, t em t am bém cont em plada nas suas r ecom endações a cr iação de m edidas de com bat e à difer enciação salar ial ent r e hom ens e m ulher es, at ravés t am bém do acesso a est r ut uras de acolhim ent o a cr ianças e out r os dependent es ( defi cient es, idosos) .
Se an alisar m os a ev olu ção est at íst ica d a act ividade pr ofi ssional fem inina, na últ im a década, conclui- se, por um lado, a t endência crescent e para o em prego fem inino, a t em po int eiro, e, por out ro lado, a r edução do em pr ego em idades m ais velhas.
Os dados nacionais per m it em ver ifi car que, em 2001, cont inuam os a ser o sext o país da União Europeia, com a m aior t axa de act ividade fem inina, no grupo et ário dos 15 aos 64 anos ( 68,7, valor acim a da m édia da EU- 15, 64,1) e, t am bém , o quint o país com a m aior percent agem de m ulheres em pregadas, ent r e os 55- 64 anos ( 50,1, valor m uit o acim a da m édia da EU- 15, 38,8) ( Eur ost at , 2002) .
Cont udo, as est at íst icas nacionais indiciam que o peso do t rabalho a t em po int eir o se r eduz à m edida que a idade avança, sendo que a m aior concent ração de m ulheres a t rabalhar a t em po par-cial se sit uava na faixa et ár ia dos 40 aos 59 anos ( I NE, 2004) , faixa et ár ia m ais suscept ível t am bém , de abandonar o m er cado de t rabalho. Est a saída pr ecoce do m er cado de t rabalho pr ende- se com um conj unt o de razões: desem pr ego, pr oblem as de saúde e razões de or dem fam iliar ( Per ist a et al, 1997) . Em relação a est e últ im o fact or, o I NE ( 1999) veio t am bém confi r m ar a for t e r epr esent ação das m ulher es com m ais de 55 anos, na pr est ação de cuidados a out r os fam iliar es.
Mas se a est rat égia do em pr ego é pr olongar a idade da r efor m a ( pela sust ent abilidade do pr ó-pr io Sist em a da Segurança Social) , por m uit o m ais anos3, e com bat er a saída pr ecoce do m er cado de
t rabalho, est a est rat égia pode originar dois possíveis pr oblem as.
Por um lado, irem os t rabalhar at é m ais t arde, possivelm ent e at é aos 70 anos, par t indo do pr essupost o que est am os saudáveis, e do pont o de vist a da saúde se concr et ize a t ese de Fr ies para a com pr essão da m or bilidade, ou sej a, que o sur gim ent o da incapacidade se inicie em idades m ais avançadas ( > 80 anos) . O problem a coloca- se em relação aos t rabalhadores m ais velhos, j á em sit uação de doença crónica e com índices de incapacidade
consideráveis, cert am ent e que irão debat er- se com obst áculos im por t ant es em t er m os de pr odut iv idade e da pr ópr ia qualidade do t rabalho, m esm o devidam ent e for m ados e qualifi cados.
Por out ro lado, para além da doença, as res-ponsabilidades fam iliares são um dos principais fact ores do abandono do m ercado de t rabalho. A disponibilidade de prestar cuidados a pessoas em sit uação de incapacidade corre o risco de ser m ais rest rit a, sobret udo em países onde a t axa de act ividade fem inina é m ais elevada, com o é o caso de Port ugal, em que a t ensão ent re cuidados e t rabalho se pode acent uar ( Jacobzone e Robine, 2000) .
As alt erações que se est ão a pr ocessar, na socied ad e p or t u g u esa, em t er m os d as n ov as confi gurações fam iliar es ( r edução do t am anho da fam ília; o aum ent o das fam ílias unipes soais, das uniões de fact o e do r ecasam ent o) e a m aior t axa de act ividade fem inina, podem t er consequências na capacidade das gerações m ais novas em cuidar em dos seus fam iliar es. Est a per spect iva é defendida por alguns aut or es ( Jong- Gier v eld et . al., 1995; González, 2001) que sust ent am que a evolução da fam ília e do em prego podem conduzir a um a redução da capacidade de part icipação fam iliar nos cuidados, sem pr e que a dependência ocor ra na vida fam iliar. No ent ant o, est a quest ão não é consensual, para out r os aut or es ( Sundst r om , 1994) , em bora possa exist ir um a redução no “ reservat ório das pot enciais aj udas”, os seus valor es não per m it em , de for m a plausível, fazer pr evisões t em porais sobr e a dispo-nibilidade das solidariedades fam iliares. No ent ant o, um a coisa é cer t a, a pr obabilidade de cuidar de um fam iliar ( cônj uge, ascendent e) irá colocar- se cada vez m ais nas pr óxim as gerações, com o poder á im plicar t am bém um a profunda m udança de valores, prát icas e de r efer ências nor m at ivas.
Apesar da divergência de perspect ivas em t orno dest a quest ão, est es aut ores são, cont udo, consen-suais r elat ivam ent e a algum as t endências:
A dim inuição da m or t alidade pr ovoca um adiam ent o na idade em que possa ocor r er a viuvez e com o aum ent o da longevidade a t endência será para um a convivência conj ugal
m ais longa;
Os cuidados ir ão ser pr est ados som ent e por um fi lho, cont rar iam ent e à descendência act ual com post a por t r ês fi lhos ( Sundst r om , 1994) , pela r edução do núm er o de fi lhos. A consequência m ais direct a será, cert am ent e, a polarização das responsabilidades fam iliares, num único elem ent o;
Com a fecundidade e a m or t alidade baixas, a t endência é para se cr iar um a sit uação
em que a dim ensão m édia dos agr egados
dom ést icos se r eduza e aum ent e a idade m édia dos seus elem ent os. A consequência
im ediat a dest as novas confi gurações fam ilia-res será um a m aior int ervenção das gerações adult as, agora m ais r eduzidas, com post as por cônj uges e fi lhos, cada vez m ais velhos e, por vezes, j á incapacit ados para pr est ar apoio;
O aum ent o das pessoas que vivem só, sem descendência, pessoas idosas solt eiras ou divor ciadas, com um a r ede fam iliar r est r it a, e que ir ão const it uir- se, cer t am ent e, com o pot enciais candidat os aos est abelecim ent os colect ivos ou aos ser viços na com unidade. Se passám os de um m odelo de fam ília, ext enso e rural, onde a m ulher era quem cuidava das crianças, dos doent es e dos idosos da fam ília, hoj e est am os perant e um m odelo de fam ília nuclear ur bano, em que a m ulher concilia a sua act ividade pr ofi ssional com a vida fam iliar. Est e fact o leva- nos para um conj unt o de int er r ogações: Com o é que os
cuida-dor es, inser idos no m er cado de t r abalho, conciliam t r abalho e fam ília quando sur ge um a sit uação de incapacidade severa no seio fam iliar? Que est rat égias ut ilizam para t ornar com pat ível t em pos laborais com t em pos de fam ília? Qual o signifi cado, par a est es, do valor do t r abalho? Foram est as, ent r e out ras,
algum as das quest ões a que o est udo “ Her óis do
quot idiano: dinâm icas fam iliar es na dependência”,
pr et endeu r esponder4.
A conciliação ent r e t r abalho e cuidados fam iliar es na dependência: signifi cados, pr át icas e est r at égias de acção
– r esult ados de um est udo em pír ico
A quest ão da conciliação do t rabalho e da vida fam iliar, na qual se incluem os cuidados na dependên-cia, t em sido abordada t eoricam ent e a part ir de um a perspect iva predom inant em ent e fem inina, em que o enfoque t em t ido pouco em cont a a quest ão do género e o hom em surge perspect ivado, m uit as vezes, de form a secundária ou ausent e. Est a polarização fem i-nina, poderá ser explicada pela sobrerepresent ação das m ulheres, ao nível dos cuidados, com o vieram com provar vários est udos desenvolvidos em Port ugal sobre as solidariedades fam iliares ( Quaresm a, 1996; Fernandes, 1997; Gil, 1998; Wall et al. 2002; Torres et al., 2004) e na Europa.
Segundo a Eur ost at ( 2003) “ 6% dos Eur opeus pr est am apoio a adult os defi cient es e idosos e é o grupo dos 50- 59 anos ( 11% ) que prest a m ais apoio, e as m ulher es ( 8% ) duas vezes m ais do que os hom ens ( 4% ) ” ( Eur ost at , 2003: 99- 100) .
Apesar dest as est at íst icas, pouco se sabe sobre a sit uação r eal dos t rabalhador es que t êm pessoas
dependent es a cargo ao longo da Europa. Anderson ( 1998) r efer e o r elat ór io de Schneeklot h e Pot t hoff ( 1993) ao dem onst rar que “ 72% dos cuidadores de pessoas dependent es ( de t odas as idades) não est ão inser idas no m er cado de t rabalho, 5% t rabalham esporadicam ent e, 7% a t em po par cial e 10% a t em po int egral”. Est e est udo r efer e ainda que des-t es pr esdes-t ador es ( dos 18 e os 64 anos) , dois des-t er ços est avam a t rabalhar quando iniciaram a prest ação de cuidados, o que signifi ca que pelo m enos um quart o deixou de t rabalhar e um a per cent agem idênt ica r eduziu o núm er o de horas de t rabalho. O aut or refere ainda que a prest ação de cuidados na fam ília é razão sufi cient em ent e fort e para se desist ir de um t rabalho r em unerado ( Ander son, 1998: 188) .
Por con sid er ar m os q u e se con h ece m u it o pouco sobr e a for m a com o as fam ílias hoj e con-ciliam t rabalho e cuidados fam iliar es, sem pr e que a dependência ocor ra no seio fam iliar, r ealizám os um est udo em pír ico com post o por 52 ent r evist as ( sem i- est r ut uradas) a fam ílias cuidadoras de pes-soas adult as em sit uação de incapacidade severa, na Ár ea Met r opolit ana de Lisboa5.
Os dados dest e est udo em pír ico per m it iram revelar diferenças de género, relat ivam ent e à form a com o se conciliam r esponsabilidades fam iliar es e pr ofi ssionais no apoio à dependência6.
Ent r e a população m asculina conclui- se que o est at ut o profi ssional dit a a m aior ou m enor fl exibili-dade com que se concilia a vida profi ssional e a vida fam iliar; além do fact or fi nanceiro ser det erm inant e no recurso a apoios profi ssionais rem unerados. Sem -pr e que não exist em condições fi nanceiras, quase sem pr e há um fam iliar volunt ár io ( ir m ã, cunhada, fi lha) que subst it ui as ausências. Na prát ica, a popu-lação m asculina r ecebia apoio quer fam iliar, quer pr ofi ssional e t odos os ent r evist ados concebiam o t rabalho com o um a “ fuga” à sit uação.
Ent r e a população fem inina o t rabalho signi-fi cava, para a m aior ia, a font e de r endim ent o, por vezes, at é m esm o a única, e a font e em ocional. O t rabalho é encarado com o um t em po de r upt ura e de dist anciam ent o físico face à sit uação. Para out ras ent r evist adas, cuidar a t em po int eir o ser ia um cenár io t raçado im possível pelo r isco de dese-quilíbr io físico e psicológico da pr ópr ia cuidadora. Para as gerações m ais novas ( fi lhas) o t rabalho é o único m odo de vida, um invest im ent o; para os côn-j uges fem ininos, um sacr ifício ou, at é m esm o, um a
obr igação; pois não exist em alt er nat ivas possíveis
senão a saída pr ecoce do m er cado de t rabalho ou a reform a ant ecipada. Para out ras ainda, o t rabalho “ er a t udo” para deixar de o ser, dado que foi algo que se abandonou por que era necessár io cuidar a t em po int eir o do fam iliar.
Para as fi lhas, as únicas razões possíveis para o t er m inus dos cuidados no dom icílio são o agra-vam ent o do est ado de saúde do fam iliar, o sur
gi-m ent o de ugi-m a doença grave ou, ainda, a falt a de r ecur sos fi nanceir os para pagar a um pr ofi ssional ou a um ser viço.
A m aioria das fi lhas pret ende cont inuar a cuidar at é ao m áxim o de t em po possível, r efer indo que não pode abandonar o t rabalho, por vezes, a única font e de sobr evivência, m esm o que para isso sej a necessár io r ecor r er a um lar de idosos, solução que se apr esent a com o o últ im o desej o.
Em am bos os discur sos, de hom ens e m ulhe-res, em erge a difi culdade que é conciliar t em pos de t rabalho com t em pos de fam ília, m et afor icam ent e associada a um a perm anent e corrida ent re a casa e o local de t rabalho e do local de t rabalho para casa. A conciliação é encarada com o um a “ lut a”, sem pr e que as condições económ icas lim it am o recurso a um apoio part icular ou se est á dependent e de um fam iliar disponível, quase sem pre reform ado ou desem pr egado, com quem se possa cont ar com a pr esença física durant e o dia. Quando não exis-t em condições fi nanceiras para pagar a alguém ou um ser viço ( cent r o de dia ou um ser viço de apoio dom iciliár io) ou, at é m esm o, por que o fam iliar se encont ra num a sit uação de grande fragilidade física faz com que o fam iliar fi que só durant e o dia.
A coabit ação, com o est rat égia de conciliação, só se coloca quando o fam iliar é viúvo( a) por que não exist em condições para se viver só ou ainda por que a par t ilha da m esm a r esidência era ant er ior ao sur gim ent o da doença. Se por um lado, a coabi-t ação fl exibiliza coabi-t em pos e espaços de cuidados, por out ro lado, avolum a t arefas, quase sem pre iniciadas pela m anhã e pr olongadas ao longo da noit e, após um dia de t rabalho.
Um dia nor m al de t rabalho é, quase sem pr e, ant ecedido por um ver dadeir o t r abalho de
cuida-dos: noit es m al dor m idas; cuidados a pr est ar logo
pela m anhã ou a espera de alguém que subst it ua. Ant es de se sair para o t rabalho, é necessário deixar pr eparado o cônj uge ou pai/ m ãe, o que signifi ca quase sem pre levant ar às 5h, 6h da m anhã para dar banho, m udar a fralda, m edicar e dar de com er ao fam iliar, podendo ser feit o só, ou ainda par t ilhado ent r e um a fi lha e um cônj uge, sobr et udo fem inino. Quando se est á só, o t em po de saída fi ca condicio-nado pela chegada de um t er ceir o elem ent o, quase sem pr e de um a em pr egada par t icular ou de um a aj udant e fam iliar, or iunda de um ser viço de apoio dom iciliár io. Sem pr e que não exist em condições fi nanceiras, ent ão o fam iliar fi ca só.
Chegadas aos em pr egos, é a pr eocupação, é a vigilância per m anent e at ravés do t elefone. A hora de alm oço é, quase sem pr e, t ransfor m ada num t em po de cuidados e um a opor t unidade para r egr essar a casa, a fi m de aj udar a dar de com er ao fam iliar ou sim plesm ent e, super visionar quem est á na linha da frent e dos cuidados ( fam iliar ou não fam iliar ) . Esse t em po de descanso pode ser ainda,
t ransform ado em t em po de com pensação em horas de t rabalho a fi m de possibilit ar não só a ent rada m ais t ar de ou, em oposição, a saída do t rabalho m ais cedo. O r egr esso ao t rabalho é acom panhado pela perm anent e preocupação sobre o que é neces-sár io assegurar : com pras, m edicam ent os, fraldas, pr odut os, cont act os, pagam ent os, enfi m , planear os pr óxim os dias.
Finda a hora de t rabalho, é o r egr esso a casa que im plica, após a aquisição do que se est ipulou com o necessár io, a execução de act iv idades de cuidados: pr eparar o j ant ar, dar banho, m udar a fralda, m obilizar o fam iliar, dar de com er ; sem falar, quando exist e, o apoio aos fi lhos, geralm ent e adolescent es. Est a “ r oda – viva” r epr oduz- se, dia após dia, ano após ano, int ensifi cando se ao fi m -- de-- sem ana, quando o volum e das t ar efas é m aior, dada a inexist ência de apoios for m ais, r ealidade generalizada ent re os serviços de apoio dom iciliário, ou, at é m esm o, por que se dispõe de m ais t em po.
Quando não exist e coabit ação com o fam iliar, m as supervisão à dist ância, o t rabalho norm alm ent e, funciona com o um t em po de rupt ura pela separação física que envolve; m as, em oposição, const it ui um a cont inuação em ocional face ao problem a. O que une, ao m esm o t em po, est es cuidador es, é o fact o das preocupações com os cuidados aos fam iliares, serem im port adas para o t em po de t rabalho, efect uando- se sucessivos cont act os t elefónicos, 3, 4, 5 vezes, de for m a a super visionar o t r abalho de cuidados, ou, sim plesm ent e, para planear ou engendrar m odos de or ganização. Pelo t elefone, t am bém se cont r olam t em pos de m edicação, alim ent ação, sonos, dispo-sições em ocionais do fam iliar.
Term inado o t rabalho, est e subgrupo de cuida-doras, ut iliza t am bém a hora do alm oço para prest ar cuidados, t em po que é ut ilizado para dar de com er ou execut ar algum act o de higiene pessoal ( por ex. m udar a fralda) .
Quando exist e um t er ceir o elem ent o, um côn-j uge pr esent e, o t em po após o hor ár io de t rabalho, ser ve para as fi lhas efect uar em pequenas visit as ao longo da sem ana, ant es do r egr esso a casa, para onde se t ranspor t am com pras, m edicam en-t os, pr oduen-t os de lim peza. Chegadas ao dom icílio do fam iliar confer e- se o que foi feit o ( pelo fam iliar ou pelos pr ofi ssionais) , efect uam - se act iv idades pessoais, ( banho, vest ir, m udar a fralda) , por vezes sós, est im a- se o que faz falt a, em t er m os pessoais, ( m edicam ent os, fraldas, pr odut os) ou dom ést icos; ou sim plesm ent e, um a ocasião para os afect os.
Term inada a visit a, no regresso a casa espera- as um a vida fam iliar e t odas as act ividades acum ulat ivas dom ést icas, e não dom ést icas, pr olongando- se por longas horas da noit e.
Com o se pode deduzir, o t em po de descanso e de lazer, é t ransform ado, quase sem pre, num t em po de cuidados, cuj as m últ iplas t ar efas a planear, ou
a execut ar t êm , inevit avelm ent e, efeit os subt is no
t r abalho ( Mer ill, 1997) , por quem est á envolvido,
dir ect am ent e ou indir ect am ent e, na gest ão dos cuidados ao fam iliar. A per da de pr odut iv idade, de m ot ivação, assiduidade, as penalizações em t er m os de pr om oção pr ofi ssional, as fl ut uações do r en dim en t o, em f u n ção da em er gên cia dos pr oblem as quot idianos com a doença, const it uem efeit os obj ect iváveis, e par t ilhados pelo univer so dos ent r evist ados. O est at ut o social e económ ico é um elem ent o difer enciador dos im pact os que pos-sam sur gir dest a conciliação, podendo ser subt is
ou subst anciais.
Mai s d o q u e u m d i scu r so d e ab an d o n ar t em pos de cuidados ou t em pos de t rabalho, est e desenr ola- se em t or no da difi culdade de conciliar am bos, per spect ivados com o pr ior idades sit uadas ao m esm o nível, geridas em função das vicissit udes do m om ent o.
Um dos pr oblem as ident ifi cados pelos cuida-dor es pr ende- se com a quest ão da j ust ifi cação das falt as. A com pensação em hor as, para além do hor ár io de t rabalho est abelecido, o fi m - de- sem ana ou o uso da hora do alm oço, num a pr im eira fase, ser vem para colm at ar ausências. Est es são alguns dos m ecanism os ut ilizados para ger ir ausências; fundam ent alm ent e, para acom panhar a consult as m édicas ou saídas em sit uações de em er gência, pelo agravam ent o do est ado de saúde do fam iliar. Sem pre que im plique algum as horas, os cuidadores, geralm ent e, com pensam essas horas por iniciat iva
pr ópr ia. Num a segunda fase, quando as falt as ao
t rabalho se prolongam e se repet em sucessivam ent e, por vezes sem analm ent e, ent ão recorre- se às férias, em dias ou na sua t ot alidade, com o a única via pos-sível, para pr est ar um apoio m ais pr olongado.
No present e est udo, verifi ca- se que a assist ência
à fam ília é o últ im o dos r ecur sos a ut ilizar, sobr
e-t udo no r egim e geral da Segurança Social, quando as falt as são j ust ifi cadas, m as não r em uneradas, signifi cando um a quebra salar ial im por t ant e.
As nít idas desvant agens que exist em ent r e o r egim e geral da Segurança Social e o r egim e de t rabalho especial na Adm inist ração Pública em er-gem visivelm ent e, dos discur sos dos ent r evist ados e fazem do dir eit o social – a assist ência à fam ília – um ver dadeir o “ pau de dois bicos”7.
A afect ação do vencim ent o é a j ust ifi cação m ais invocada para a não ut ilização da assist ência à fam ília, à sem elhança das falt as, com repercussões nat urais em t er m os de vencim ent o, subsídio de alm oço ou em t erm os de prém ios anuais. Em bora a m aior ia dos cuidador es apr esent e um a j ust ifi cação das falt as: por vezes, as saídas em m om ent os crít i-cos, sem que sej a necessário cham ar um m édico ou ir a um a urgência num hospit al, t orna a j ust ifi cação da ausência um pr oblem a, quase sem pr e gerador de desconfi ança ou confl it o com as chefi as, ainda
m ais, quando est as ausências se r epet em int er m i-navelm ent e, no t em po.
O acom panhar, o t rat ar de assunt os que digam respeit o ao fam iliar, é um verdadeiro problem a para quem t enha lim it ações em t erm os de fl exibilidade de t rabalho, dir ect am ent e r elacionada com o est at ut o pr ofi ssional usufr uído. As falt as são t rat adas com o um assunt o est rit am ent e pessoal e incom pat ível com os int er esses das or ganizações, sem pr e que est as sit uações ext ravasem o lim it e da razoabilidade; ou sej a, a sua curt a duração. Mas a curt a duração não é com pat ível com a doença crónica que, por defi nição, é incur ável, pr ogr essiva e pr olongada.
Os efeit os subt is na esfera do t rabalho, podem t ransform ar- se em efeit os m ais subst anciais, quando a doença cr ónica se pr olonga por t em po indet er-m inado; eer-m que a saída pr ecoce do er-m er cado de t rabalho, o desem pr ego, a r efor m a ant ecipada, as baixas, são as únicas form as que o cuidador encon-t ra, quando a gravidade da siencon-t uação se inencon-t ensifi ca, para fazer face à doença.
A sit uação de inact ividade, consequência do desem prego, e a ausência de alt ernat ivas possíveis, nest e caso, a indisponibilidade de out ros fam iliares, concor r em em conj unt o, para acelerar a decisão para a assum pção dos cuidados, a t em po int eir o, e a pr essão social desse est at ut o levam , por vezes, a que o fam iliar se sint a “ obrigado”, “ em purrado” defi -nit ivam ent e, para a aceit ação desse novo papel.
A saíd a p r ecoce d o m er cad o d e t r ab alh o coloca- se sem pr e em sit uações de grande ext r e-m idade. O anúncio da e-m or t e do fae-m iliar, sobr et udo se for um doent e oncológico; os confl it os laborais, devido às r epet idas ausências e o apr oxim ar dos anos de r efor m a, concor r em para que est a opção sej a t om ada, associada, t am bém , a pr oblem as de ordem física ou m ent al, após anos int erm ináveis de cuidados. A doença oncológica, ent r e as pat ologias em análise, surge com o a m ais devast adora, um a vez que o cur t o t em po de vida dos doent es pr opicia em quem cuida um sent im ent o de que é necessário, em prim eiro lugar, prest ar um a assist ência perm anent e, em det r im ent o dos int er esses individuais, m esm o que, para isso, r epr esent e abdicar de t udo, de um a profi ssão, de um rendim ent o e viver das poupanças acum uladas ao longo de um a vida.
Colect ivam ent e est a opção – a saída pr ecoce do m ercado de t rabalho – é ent endida quase sem pre com o um “ assunt o” da esfera individual, fam iliar, onde nem o Est ado, nem as em pr esas se devem im iscuir. No ent ant o, a Est rat égia Eur opeia para o Em pr ego ao pr om over o envelhecim ent o act ivo, at ravés do com bat e às saídas precoces do m ercado de t rabalho, não t em sido acom panhada na pr át ica por um a polít ica de fam ília que r esponda às neces-sidades r eais da dependência.
Se a cr iação de m ais equipam ent os sociais ( infância e idosos) surge com o a palavra- chave para
esse com bat e, ent ão não irá cert am ent e cont em plar t odos aqueles que são adver sos à inst it ucionaliza-ção e que não vêm out ra saída senão abandonar o m er cado de t rabalho. Est e cust o é acar r et ado, unicam ent e, pela própria pessoa que faz est a opção; pois socialm ent e, não se pr em eiam t odos aqueles que t om am est a decisão, ainda encarada com o est ri-t am enri-t e pessoal e não com o um a quesri-t ão social. Conclusão que vai ao encont r o de um inquér it o às m edidas de apoio aos t rabalhador es com pessoas idosas a car go pr om ovido pela CI TE ( 1995)8.
Num universo de 1000 em presas, o núm ero de em presas sensíveis à quest ão da im plem ent ação de m edidas de apoio a t rabalhadores ( as) com pessoas idosos a car go, é m uit o r eduzido; pois a m aior ia ( 84,3% ) não possui m edidas específi cas dir igidas a est e t ipo de assist ência9. Est e m esm o est udo conclui
que a m aior ia dos dir igent es considera ir r elevant e est as m edidas dado que os efeit os negat ivos pr o-vocados pelas falt as não são signifi cat ivos10 e cerca
de 20% r efer e, at é m esm o, que não é da r espon-sabilidade das em presas a adopção dest as m edidas ( CI TE, 1995: 22) , cabendo ao Est ado e à Segurança Social desenvolver est e t ipo de m edidas.
Se não com pet e às em pr esas, se o Est ado se dem it e, quem assum e o cust o social dest a opção?
A ausência de um quadr o r egulam ent ador que pr o-t ej a o-t odos aqueles que fazem a opção deliberada de associar t rabalho com cuidados fam iliar es, gera a subj ect iv idade daqueles que v iv em o pr oblem a e daqueles que os ger em pr ofi ssionalm ent e que se d eb at em com esse p r ob lem a, r econ h ecid o sem pr e com o est r it am ent e pessoal e per t encent e à esfera fam iliar. Os r esult ados deix am no “ ar ” um a int er r ogação: Quem pr ot ege a longo pr azo
o desgast e físico, psicológico, pelos pr oblem as de saúde em er gent es nos cuidador es, ou as saídas pr ecoces do m er cado de t r abalho, as baix as ou o desem pr ego?
Conciliação ent r e vidas fam iliar es ( de cuidados na dependência) e vida
pr ofi ssional: que polít icas de apoio à fam ília a pr om over ?
Hoj e r eclam a- se para um a m aior int er venção das fam ílias no apoio aos m ais velhos, sem que esse discur so sej a acom panhado, efect ivam ent e, por m edidas pr át icas que fom ent em a conciliação ent r e vida fam iliar e t rabalho, quer em t er m os de
apoios fi nanceiros, ( benefícios fi scais) , fl exibilidade no t r abalho ( hor ár ios de t rabalho, j ust ifi cação de
falt as) ou em licenças de assist ência à fam ília, m ais alar gadas e com pat íveis com a t em poralidade da doenças cr ónica. Por out r o lado, não exist e um a polít ica que pr ot ej a t odos aqueles que saem do m er cado de t rabalho, por livr e iniciat iva, para cui-dar em a t em po int eir o.
Rem et er a dependência para as r esponsabili-dades fam iliar es, com o t em sido t radição na esfera pública, im plica preparar, form ar, apoiar, acom panhar e supervisionar t ecnicam ent e, os cuidadores que se confr ont am com um cam inho ár duo; m uit as vezes, ausent e de apoios pr ofi ssionais e de ser viços com qualidade.
São necessár ias polít icas sociais de apoio à fam ília, sust ent adas com um a polít ica int egrada de um a r ede de cuidados cont inuados, que possam , efect ivam ent e, apoiar quem opt a por cuidar no dom icílio. E, ao m esm o t em po, pr evenir sit uações de desgast e físico e psicológico, ou sit uações m ais graves, com o o abandono dos idosos nos hospit ais, face às adver sidades que est a função exige, ou a violência fam iliar aos m ais velhos, fenóm enos com t endência a aum ent ar ou a t ornarem - se, pelo m enos, com m aior visibilidade social11.
“A ret órica m oral”, assent e na noção de escolha, veiculada por par t e do Est ado é ilegít im a dado que, por defi nição, “ qualquer escolha im plica alt ernat ivas” e a ausência de polít icas e program as direccionados para as necessidades dos m ais velhos, por part e do Est ado, r efl ect e a assum pção da r esponsabilidade fam iliar na gest ão da dependência ( Mont gom er y, 1999: 388) .
Apesar das r ecom endações de Viena ( AAVV, 1998) irem no sent ido da necessidade de desenvolver um a polít ica de fam ília no apoio à dependência, só alguns países da Europa possuem um a polít ica global e int egrada que cont em ple um conj unt o de m edidas que favor eçam a conciliação do binóm io fam ília e t rabalho. Ent r e as pr incipais m edidas dest acam - se a fl exibilidade dos hor ár ios de t rabalho, a r edução de horário ( Espanha, Áust ria, Finlândia) , licenças de longa duração, não rem uneradas ( 1 ano em Espanha, 2 anos em I t ália) , ou r em uneradas, m as lim it adas no t em po ( 60 dias na Suécia) . Na Alem anha, se a pessoa pr est ar apoio por um per íodo de 1 ano é concedida um a licença de quat r o sem anas para as fam ílias poder em descansar, at ravés do acesso a residências t em porárias. Ou ainda, o caso da I rlanda que possui, at é m esm o, o r egim e “ r espit e car e
schem e” ( 1993) ao facult ar aos fam iliares que
pres-t am apoio em pr éspres-t im os fi nanceir os para descanso t em por ár io, fér ias ou fi ns- de- sem ana ( Conselho da Eur opa, 1995; CI TE, 2001; MI SSOC, 2004) .
A lei sobre “ os cuidados dest inados às pessoas idosas”, na Suécia, em 1990, faz do supor t e aos cuidador es, um dos pr incipais obj ect ivos da sua polít ica da velhice. Est a polít ica, além de pr ever “ a assist ên cia econ óm ica, per m it e u m a licen ça para cuidar dos fam iliar es ( paga pelo sist em a de doença) , em sit uações de ur gência ou no fi nal de vida” ( Delper ee, 1998: 286- 287) ; e o acesso a um a r ede, t ot alm ent e grat uit a, de ser viços int egrados e diver sifi cados de apoio social, saúde e r eabilit ação ( Suécia, Dinam ar ca e Finlândia) .
Out ros países com o a Alem anha, o Reino Unido e os países Nórdicos at ribuem aos cuidadores o direit o a um a pensão afi m de pr ot eger t odos aqueles que saem do m ercado de t rabalho para prest ar cuidados a t em po int eir o e conser var os seus dir eit os em m at ér ia de r efor m a ou a at r ibuição de um subsídio afi m de os com pensar da per da de r endim ent os ( OCDE, 2005) .
Enquant o que alguns países t êm pr ivilegiado um a est rat égia cent rada sobret udo nos cuidadores, out ros países incidem a sua est rat égia na renovação de um a m elhor coor denação das r esponsabilidades ent re os act ores da saúde, cuidados de longa duração e na descent ralização das pr est ações e dos pr ogra-m as ( Reino Unido, Espanha, Finlândia, Dinaogra-m arca) . Out ros países ainda ( I nglat erra, Alem anha, França e Est ados Unidos) t êm assist ido, nas últ im as décadas, à im plem ent ação de difer ent es m edidas t ais com o: a adapt ação das habit ações, a im plem ent ação de ser viços de apoio dom iciliár io m ais com plexifi cados e diversifi cados, e a criação de pequenas est rut uras de acolhim ent o ( 8 a 20 pessoas) com caráct er m ais especializado para pessoas que sofram de dem ên-cias senis12. Na globalidade, não t em exist ido um
m odelo único de fi nanciam ent o; e alguns países t êm opt ado, at é m esm o, por privilegiar um m odelo m ist o, com post o por soluções pr ivadas, com plem ent ar es às públicas.
Per ant e est e cenár io que polít icas sociais a pr om over face à r ealidade por t uguesa?
O diagnóst ico r eal t ecido pelos ent r evist ados no est udo “ Her óis do quot idiano: dinâm icas fam i-liar es na dependência” sobr e os ser viços de apoio social não só per m it iu obt er um r et rat o social sobr e os m esm os, com o lançar um conj unt o de m edidas sociais a im plem ent ar no fut ur o, decor r ent es da in sat isf ação f ace aos ser v iços qu e ex ist em n a com unidade em geral, pela inexist ência, escassez e pr ecar iedade dos apoios for m ais. Reabilit ar, cr iar, m elh or ar, descen t r alizar, fi scalizar são v er bos, sucessivam ent e ut ilizados pelos ent revist ados, para t raduzir a necessidade de se r eest r ut urar o act ual sist em a de apoio à dependência. Ent re as principais m edidas dest acam - se as seguint es:
Rever o est at ut o de cuidador no código de t rabalho e na prot ecção ent re t rabalho e res-ponsabilidades fam iliares, em t erm os de fl exi-bilidade nos horários de t rabalho, j ust ifi cação de falt as, licença de assist ência à fam ília m ais alargada e com pat ível com a doença crónica. É fundam ent al o reconhecim ent o da fi gura do cuidador, com o alguém que pr est a cuidados fam iliar es; e que, ele pr ópr io, necessit a de ser pr ot egido na doença e na r efor m a, pelo t rabalho de cuidados desem penhado, não só pelo int er esse individual, m as t am bém público. A pr ot ecção social dos cuidador es
prende- se com a form a com o cada país defi ne t rabalho infor m al, com o um a “ pr est ação de ser viços” : inscr it a num dever m oral de soli-dariedade fam iliar ou num a responsabilidade social, que necessit a de ser com pensada e pr ot egida, com um a r em uneração base, ou cont abilizada para o dir eit o a um a r efor m a, aliás, m edida j á im plem ent ada em alguns p aíses eu r op eu s ( Alem an h a Din am ar ca, Nor uega e Luxem bur go) .
Pr om over benefícios fi scais às fam ílias que opt am por cuidar no dom icílio. Act ual m ent e, ex ist em , at é m esm o, m edidas fi scais de apoio às fam ílias que colocam os fam iliar es em lares usufruindo, para isso, de benefícios fi scais, em t erm os de I RS, cont rariam ent e às fam ílias que opt am por cuidar no dom icilio, não exist indo qualquer r econhecim ent o por part e do Est ado no apoio que é prest ado por est as m esm as fam ílias13.
Ad e q u a r o f u n ci o n a m e n t o d o s se r v i -ços ( ser vi-ços de saúde, apoio social) , com hor ár ios m ais alar gados, com pat íveis com quem t rabalha, const it ui out ra das m edidas m en cion adas. A pen alização n o fi n al do m ês pr ende- se com a quest ão das falt as ao t rabalho, com r efl exos, m uit as vezes, na esfera do t rabalho, por que im plica est ar em perm anent e alert a, para event uais saídas de em er gência ou ausências para acom panhar o fam iliar a consult as m édicas.
Out ra das pr eocupações m encionadas pelas fam ílias diz r espeit o aos cust os fi nanceir os com a doença e às crescent es despesas com consult as m édicas, reabilit ação ( fi siot erapia) , m edicam ent os, fraldas, produt os derm at oló-gicos, am bulâncias, aj udas t écnicas, apoios colat erais que são essenciais para as fam ílias poder em fazer face às inúm eras despesas m ensais.
A falt a de pr eparação pedagógica das alt as h ospit alar es por algu n s pr ofi ssion ais de saú de é ou t r a pr eocu pação r ef er ida por quem , de r epent e, se vê, “ a braços” com um a pessoa, em sit uação de incapacidade. A saída do hospit al signifi ca o confr ont o com a dependência do fam iliar, fam ílias que nunca t rat aram de um doent e, nem sabem com o m udar um a fralda. São m om ent os de grande afl ição para quem t rabalha e t em que decidir sobr e o dest ino do fam iliar, e é gerador de um ver dadeir o dilem a ent r e: encont rar um lar condigno, quando exist e vaga, face a um m er cado que nem sem pr e é garant ia de qualidade de ser viços e que acaba por ser bast ant e dispendioso do pont o de vist a fi nanceiro; ou recorrer a um serviço de apoio dom iciliário, ainda que socialm ent e
út il, se r eduz a act ividades de apoio social ( a r efeição, a higiene pessoal) , num cur t o espaço de t em po ( 10, 15 m inut os) , t em pos m uit o cur t os para pessoas que necessit am de um a assist ência per m anent e.
Pr om over a for m ação e acom panham ent o social/ inform at ivo e psicológico dos cuidado-res, fom ent ados e apoiados por um a rede de cuidados cont inuados e paliat ivos, ao longo do t er r it ór io nacional, que r espondam às necessidades efect ivas das fam ílias que se confr ont am com sit uações de incapacidade ou de fi nal de vida. A act ual Rede Nacional de Cuidados Cont inuados I nt egrados é um a esperança, pois da form a com o est á pensada e o esfor ço que t em sido desenvolvido, ir á cer t am ent e r esponder em m uit o às neces-sidades das fam ílias.
Pr om over m ais for m ação, super visão t éc-nica dos r ecur sos hum anos que t rabalham com pessoas em sit uação de incapacidade, devendo ser a for m ação ( inicial e cont ínua) um r equisit o obr igat ór io no exer cício das funções de cuidados for m ais.
Em conclusão, a evolução hist ór ica das polít i-cas sociais da velhice em Por t ugal t em sido par ca na em er gência de m edidas inovadoras dir igidas no sent ido de um envelhecim ent o act ivo, na prom oção da part icipação, opt im ização de est ilos de vida m ais act ivos que cont r ibuam para a qualidade de vida das pessoas que envelhecem : ao nível do habit at , do acesso à infor m ação e às novas t ecnologias; da
educação ao longo da vida, no acesso a act ividades de lazer , despor t ivas, cult ur ais, volunt ar iado e de
cidadania; quer ao nível das acessibilidades; da
fi scalidade; da saúde ou, at é m esm o, ao nível das
pr ópr ias r espost as sociais, na cr iação de um a r ede diversifi cada, com o os apart am ent os, as residências m edicalizadas, os cent r os de alívio t em por ár io, os cent ros especializados para a dem ência, num a linha r eabilit adora ( t erapia ocupacional, m usicot erapia, ent r e out ras) .
Por um lado, é necessár io r epensar em novas polít icas sociais int egradas, assent es em m odelos de equipam ent os e serviços qualifi cados, bem com o cr iar m edidas concr et as de apoio à fam ília, no sen-t ido de pr om over o exer cício das r esponsabilidades fam iliar es, além de se est ar a pr evenir, est á- se a com bat er pot enciais problem as sociais que poderão em er gir nas pr óxim as décadas. Por out r o lado, não podem ser descuradas polít icas que pr om ovam a saúde, a par t icipação, a opt im ização de est ilos de vida m ais act ivos e que cont r ibuam para qualidade de vida das pessoas que envelhecem , pois indi-r ect am ent e est am os a pindi-r eveniindi-r o suindi-r gim ent o de sit uações de incapacidade.
Not as
1 Fe r n a n d e s ( 2 0 0 7 ) r e f e r e q u e e st a d e sv a n t a g e m
m asculina se deve à elevada m or t alidade em idades pr ecoces dev ido a acident es r odov iár ios ou laborais. Cit an d o San t an a ( 2 0 0 5 ) a m or t alid ad e em id ad es pr ecoces r elaciona- se com com por t am ent os de r isco com o são, os acident es de viação, a pr om iscuidade nas pr át icas sexuais, o consum o de dr ogas, t abaco e álcool ( p.427) .
2 A incapacidade sur ge associada à idade, podendo t er
or igem num a doença cr ónica ou ser r efl exo de um a per da das funções fi siológicas, at r ibuídas ao pr ocesso global da senescência ( Mant on, 1997 cit ado por Mar in e Casasnovas, 2001: 25) .
3 Em 2003 a idade m édia de saída do m ercado de t rabalho
sit uava- se nos 62,1 anos. Cf. MTSS, 2005, Plano Nacional de Em pr ego, p. 32.
4 Gil, Ana Paula Mar t ins ( 2007) , Her óis do quot idiano: dinâm icas fam iliar es na dependência, Disser t ação de
Dout oram ent o em Sociologia, Orient ador: Ana Alexandre Fer nandes, Faculdade de Ciências Sociais e Hum anas da Univer sidade Nova de Lisboa.
5 Os cr it ér ios ut ilizados na selecção das fam ílias foram :
hom ens e m ulher es, que cuidem de fam iliar es em sit ua-ção de incapacidade severa; unidos por um a r elaua-ção de par ent esco ( cônj uges, fi lhos, ir m ãos, sobr inhos, net os, noras, out ros fam iliares) ; apoiados por serviços form ais, ( apoio social e/ ou saúde) ou não; em coabit ação com o fam iliar ou não; a r esidir na r egião de Lisboa e Vale do Tej o e em sit uação de reform a, desem prego ou inseridos no m er cado de t rabalho. Com o doenças cr ónicas foram consideradas a doença Oncológica, Alzheim er, Parkinson, AVC. É de r efer ir que um dos cr it ér ios ut ilizados foi o fam iliar se encont rar num a sit uação de t ot al dependência face a um a t er ceira pessoa para a execução de t odas as act ividades da vida diár ia ( pessoais e inst r um ent ais) .
6 Foram ent r evist ados no t ot al 15 hom ens e 37 m ulher es.
Dos 27 cuidadores de dupla carreira, 11 encont ravam - se em sit uação de baixa, desem pr ego, exer ciam funções sazonais ou int er r om peram t em porar iam ent e o t rabalho para pr est ar cuidados. As pr ofi ssões dos ent r evist ados var iavam , desde as pr ofi ssões int elect uais e cient ífi cas, seguidas das adm inist rat ivas ou ligadas aos ser viços. De form a quase equit at iva, surgiam os operários/ art ífi ces e os t rabalhador es não qualifi cados. As sit uações de baixa por incapacidade perant e o t rabalho, at ingiam na sua t ot alidade, o pessoal não qualifi cado ( ligados aos serviços de lim peza) e a sit uações de desem pr ego ou de baixa, abrangiam em m aior núm er o o pessoal adm inist rat ivo, ser viços e oper ár ios/ ar t ifi cies.
7 A Lei nº 35/ 2004, de 29 de Julho que apr ovou o novo
código do t rabalho pr evê falt as para assist ência a m em -br os do agr egado fam iliar ( ar t . 203) – “ o t rabalhador t em dir eit o a falt ar ao t rabalho at é 15 dias por ano, para pr est ar assist ência inadiável e im pr escindível, em caso de doença ou acident e, ao cônj uge, par ent e ou afi m na linha r ect a ascendent e, ou no 2º grau da linha colat e-ral, fi lho, adopt ado ou ent eado com m ais de 10 anos”. Est as falt as são j ust ifi cadas, m as não r em uneradas. Com o r efer e o ar t . 204º “ as falt as pr evist as no núm er o
ant er ior , não det er m inam a per da de quaisquer dir eit os e são consider adas, salvo quant o à r et r ibuição, com o prest ação efect iva de serviço”. O novo código do t rabalho
veio unifor m izar a lei e est ender os m esm os dir eit os ao r egim e de t rabalho especial na Adm inist ração Pública, at ravés do ar t .110º que r egula as falt as para assist ência a m em br os do agr egado fam iliar. Cont udo, a Dir ecção-- Geral da Adm inist ração Pública, com a orient ação t écnica nº 1/ DGAP/ 2006, de 24 de Fever eir o, veio considerar o ar t º 110º om isso, r elat ivam ent e aos efeit os r em unerat ó-r ios, pelo que no ó-r egim e de t ó-rabalho especial na Adm i-nist ração Pública, a r egulam ent ação das falt as r ege- se pelo Decr et o- lei nº 100/ 99, 31 de Mar ço. Segundo est e, as falt as para acom panham ent o de fam iliar a exam es, t rat am ent os e consult as m édicas, podem ser j ust ifi ca-das, desde que com pr ovadas por ent idade hospit alar ou m édica, e indicada a necessidade do acom panham ent o. Est e dispost o é ext ensivo ao cônj uge ou equiparado, ascendent es, descendent es, adopt andos, adopt ados e ent eados, m enor es ou defi cient es, em r egim e am bula-t ór io. As horas dispendidas, são conver bula-t idas abula-t ravés da som a em dias com plet os de falt as e pr oduzem os efeit os das falt as para assist ência a fam iliar es”, não havendo per da int egral de r et r ibuição ( Ar t .53º do Decr et o- lei n.º 100/ 99, de 31 de Mar ço) .
8 O inquér it o dir igido aos em pr esár ios e dir ect or es de
pessoal de 1000 em pr esas, a nível nacional, em t odos os sect or es de act ividade, com excepção da agr icult ura, silvicult ura, caça e pescas.
9 Das 4,8% das em pr esas que r efer iu a ex ist ência de
m edidas foram especifi cadas, a aplicação de hor ár ios fl exíveis e a exist ência de um apoio t écnico de ser viço social. ( CI TE, 1995: 19) .
10 Muit o em bora os represent ant es das em presas considerem
que as falt as por assist ência a idosos não pr ovoquem efeit os negat ivos, o que é cer t o, r elat ivam ent e à ques-t ão quem falques-t ava m ais ao ques-t rabalho, 60% dos inquir idos r espondeu ser em as m ulher es, 15% os hom ens e 25% por am bos ( CI TE, 1995: 19) .
11 Daí que sej a fundam ent al a cr iação de um a est r ut ura de
defesa dos direit os sociais dos m ais velhos, à sem elhança do que exist e para a infância, est rut ura vocacionada para a pr evenção e com bat e à violência fam iliar e inst it ucio-nal.
12 Est as est r ut uras assent am num novo m odelo de gest ão
em que o espaço e t oda a or ganização funcional dos ser viços são est r ut urados em função das caract er íst icas e necessidades das pessoas com dem ência. Cont am - se algum as exper iências posit ivas com o o gr upo Saum on ( Áust r ia) , Cant ou ( França) , Dom us ( I nglat er ra) , Gr oup
Living ( Suécia) .
13 A Lei nº 67- A/ 2007, de 31 de Dezem br o – I sér ie nº 251
prevê em relação às despesas com ascendent es dois t ipos de deduções à colect a: despesas de saúde – “ aquisição de out ros bens e serviços direct am ent e relacionados com despesas de saúde do suj eit o passivo, do seu agr egado fam iliar, dos seus ascendent es e colat erais at é ao 3º grau, desde que devidam ent e j ust ifi cados at ravés de r eceit a m édica, com o lim it e de 62 ou de 2,5% das im port âncias r efer idas nas alíneas a) , b) e c) , se super ior ( ar t . 82º ) ;
despesas com encargos com lares “ são dedut íveis à colect a
25% dos encar gos com lar es e inst it uições de apoio à t er ceira idade r elat ivos aos suj eit os passivos, bem com o dos encar gos com lar es e r esidências aut ónom as para pessoas com defi ciência, seus dependent es, ascendent es e colat erais at é ao 3º grau que não possuem rendim ent os super ior es à r et r ibuição m ínim a m ensal, com o lim it e
de 85% do valor da r et r ibuição m ínim a m ensal” ( ar t igo 84º ) .
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